quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Contardo Calligaris

folha de são paulo
Sou de esquerda ou de direita?
Tenho repulsa por qualquer tipo de tutela. Por isso, sou libertário. Isso é de direita ou de esquerda?
Li a pesquisa do Datafolha publicada na Folha de domingo passado, e tentei entender se sou de esquerda ou de direita. Não consegui concluir. As frases propostas à apreciação dos entrevistados me deixam hesitante; sempre preciso completá-las (com adversativas e reservas) para poder concordar ou discordar.
Por exemplo, o "governo deve ser o maior responsável por investir para a economia crescer". É uma ideia que deveria seduzir meu lado esquerdo. Mas"¦ não sei se houve uma época da minha vida em que eu não desconfiasse da intervenção do Estado na vida da gente. No Brasil de hoje, então, nem se fala: qualquer aumento da presença do governo agita visões pavorosas de corrupções crônicas e de burocracias acomodadas e ineficientes.
Em geral, a geração à qual pertenço, a dos baby boomers, não gosta de Estados e governos. Alguns de nós (uma pequena minoria) cresceram e militaram num isolamento cultural que os deixou à margem da revolução libertária dos anos 60 --isso, sobretudo em países que, na época, eram dominados por ditaduras, como o Brasil. Mas, para a grande maioria dos baby boomers, sonhar com justiça e dignidade para todos nunca significou confiar em Estados, governos, entidades coletivas, partidos e opiniões dominantes.
Conheci de perto (apesar do cheiro) alguns moradores de rua de Paris e Nova York que não se deixam levar para um abrigo nem nas piores noites do inverno, porque não aceitam ter que ouvir um sermão ou uma missa em troca de calor, sopa e colchão. Eles são meus heróis. Nossa tendência é outra: aceitamos facilmente a tutela moral de Estados e governos, como se fosse normal retribuir assim os benefícios da social-democracia.
Regra: o Estado que parece pagar a conta (embora ele pague com nossos impostos) sempre se sente autorizado a expandir sua tutela moral sobre nós. E eu tenho repulsa por qualquer tipo de tutela. Nisso e por isso, sou libertário. Como isso funciona com direita e esquerda?
Houve uma época em que, nos EUA, a direita era libertária (como se espera da direita, ela não gostava que o governo se metesse na vida da gente). Por exemplo, a direita libertária podia detestar gays e lésbicas, mas não por isso reconheceria ao Estado o direito de dizer o que se pode e o que não se pode na vida sexual e afetiva das pessoas.
Isso acabou: a direita de hoje adora tutelar os cidadãos (todos vulneráveis e meio incapazes, não é?) e tenta promover leis que regrem o comportamento de todos segundo seus "princípios".
Será que a esquerda, então, herdou o antigo espírito libertário da direita? Nem um pouco. Quando a direita começou a querer transformar suas crenças em legislação, a esquerda fez a mesma coisa, com um agravante: ela se tornou hipócrita (ela sempre declara querer o bem de todos, até dos que ela persegue).
Um exemplo. Hoje o Brasil recebe François Hollande, presidente da França. O governo (de esquerda) de Hollande é responsável por uma recente proposta de lei pela qual 1) é preciso abolir a prostituição e 2) o jeito é penalizar os clientes das prostitutas, com multas e prisão (leis parecidas já foram tentadas na Suécia e na Noruega, com resultados pífios e sinistros para as prostitutas).
Sugiro que nossa presidente ofereça a seu colega francês o livro de Adriana Piscitelli, "Trânsitos "" Brasileiras nos Mercados Transnacionais do Sexo" (Uerj).
Além de ser um bom exemplo da qualidade de nossas pesquisas, o livro lembraria a Hollande que somos menos hipócritas que seu governo: sabemos que o verdadeiro problema que o governo francês quer resolver não é a prostituição (e ainda menos a prostituição forçada), mas a imigração de mulheres, que tentam ser livres trabalhadoras do sexo e que, em geral, não são vítimas nem de traficantes, nem de cafetões, nem de seus clientes.
Cher M. Hollande, bem-vindo ao Brasil. A França pode tomar decisões erradas, como todo mundo, mas, pela cultura e pelas ideias que ela representa sobretudo nos últimos dois séculos, ela não pode, não deve se permitir ser ridícula. Merci.
Agora, uma palavra, em aparte, a Dilma Rousseff: Presidente, pode ser que a gente já tenha decidido comprar os Rafales, mas os franceses não sabem disso. Será que poderíamos negociar? Vamos comprar seus caças, mas vocês deixem suas prostitutas em paz? Seria generoso, e alguns brasileiros e brasileiras na França agradeceriam.

Janio de Freitas

folha de são paulo
Entre os poderosos
A consagração a Mandela em sua morte ressalta, por contraste, a falta de estadistas no mundo atual
A consagração a Mandela em sua morte ressaltou mais do que o valor já reconhecido em vida a esse ser extraordinário. Silenciosa, em meio ao tanto que foi dito e entre todos os que representaram poderes e povos a homenageá-lo, esteve em tudo a evidência, por contraste, da falta de estadistas no mundo atual. Isto foi o Mandela pranteado: estadista.
Quem, entre tantos detentores dos poderes, causaria hoje no mundo, não só um possível choque com a notícia súbita de sua morte, mas uma comoção sincera, a atmosfera de empobrecimento difuso, a percepção inconsciente de que uma ausência distante no planeta nos prova o quanto, no mais fundo de nós, somos e nos sentimos próximos --quem?
OUTROS MORTOS
Um mérito está assegurado, antes de qualquer discussão, ao relatório da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo que afirma a morte de Juscelino Kubitschek por assassinato: provoca a retomada, em ambiente afinal favorável, desse caso repleto de imprecisões e suspeitas desde o primeiro momento. Com o reexame da morte de João Goulart, já em curso, talvez os dois gerem força capaz de fazer com que a morte de Carlos Lacerda seja estudada nos seus muitos mistérios.
O noticiário módico, em comparação com a quase centena de provas e indícios relatados, não dá ideia da firmeza do material e das conclusões da comissão. Não há dúvida, porém, de que inova em uns e renova outros questionamentos importantes. Mais uma comprovação de que a perícia e as alegadas investigações em 1996, quando dos 20 anos da morte de Juscelino, ficaram muito aquém do necessário para respostas confiáveis, em um ou em outro sentido.
A família de Carlos Lacerda, contrariamente às de Juscelino e Jango, jamais aderiu a propostas de esclarecimento da estranha e rápida doença fatal que o acometeu, com apenas 63 anos, em maio de 1977. Mas o assunto, hoje, já deixou de ser político e, tanto quanto familiar ou ainda mais, é da história. Tudo indica que essencial para a história da ditadura e seus crimes.
DE PRESENTE
O Ministério Público de São Paulo ficou muito mal no caso, que atinge o PSDB, de altas compras para o metrô e trens paulistas. E sua defesa o deixa pior.
Como relatou o repórter Mario Cesar Carvalho (Folha, 8/12, "Testemunha nas sombras"), a promotora Beatriz Lopes de Oliveira rebate as acusações de incompetência do MP com o argumento de que o denunciante do cartel Siemens/Alstom "dizia ter provas, mas nunca apresentou nada", lá por 2010. "Sem provas", diz a promotora, "nenhum juiz concederia uma autorização de busca ou escuta telefônica".
Tais autorizações são exatamente para coletar provas. Para concedê-las, os juízes exigem razões convincentes. E não constou, jamais, que a competência e a eficiência de promotores dependessem de ganhar provas.
A denúncia já era um grande presente, que o Ministério Público não utilizou, seja lá pelo que for.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Ciência e bioética - Ruy M. Altenfelder

folha de são paulo
RUY MARTINS ALTENFELDER SILVA,
Ciência e bioética
É necessário reunir diferentes disciplinas para criar um balizamento ético sobre os problemas criados pelo avanço da ciência
Invasões a centros de pesquisas reacenderam a discussão sobre o uso de animais em experimentos voltados à área da saúde.
A ação dos protetores das cobaias chegou às faculdades de medicina. Na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, uma aula sobre traqueostomia (procedimento que livrou da morte por sufocação milhões de pessoas) foi interrompida por um protesto em defesa dos porcos usados pelo professor para a demonstração da técnica --aliás, permitida.
A questão não chegará tão cedo a consenso. Mas talvez a mais ampla disseminação de informações corretas por parte dos pesquisadores e uma melhor avaliação das consequências das invasões por parte dos manifestantes permitam estabelecer limites civilizados.
A conciliação evitaria a perda de anos de custosos estudos e o atraso na descoberta de esperados medicamentos que curem doenças letais ou aliviem o sofrimento dos pacientes, humanos e animais. Fundamental seria o conhecimento e o respeito à legislação brasileira, uma das melhores do mundo na área.
Boa parte da excelência desses parâmetros deve-se a uma das muitas contribuições do professor William Saad Hossne, coordenador do programa de bioética do Centro Universitário São Camilo. Mestre em bioética, Saad mergulhou num campo transdisciplinar que envolve a biologia, as ciências da saúde, a filosofia e o direito.
A bioética estuda a dimensão ética dos modos de tratar a vida humana e animal em pesquisas científicas. Em outras palavras, busca aliar uma perspectiva humanista aos avanços tecnológicos, entre os quais despontam temas delicados --e ainda não consensuais-- como clonagem, fertilização in vitro, transgênicos e células-tronco.
Ciclicamente, a questão volta ao debate, pois, como ensina Saad, cada salto da ciência cria problemas éticos que não podem ser resolvidos por apenas uma área. É necessário chamar outras disciplinas para criar um balizamento ético. Sem esse cuidado, a sociedade pode se autodestruir. Recorrendo à generosa partilha de ideias, que o professor promoveu ao longo dos seus bem vividos (e ainda muito ativos) 86 anos, o século 20 foi palco de cinco revoluções: a atômica, a molecular, a das comunicações, a do espaço sideral e a da nanotecnologia.
Agora, já estão aí os sinais de novo salto, resultante da integração dos cinco anteriores no que se pode chamar de tecnociência. A ética da sexta revolução herdará algumas características da bioética, cuja prática implica a livre escolha de valores. Coação, coerção, sedução, exploração ou qualquer mecanismo de inibição à liberdade são fraudes incompatíveis com o exercício ético.
A prática da bioética permite a resolução de conflitos inerentes aos avanços da ciência com o respeito a valores que pautam as grandes conquistas da humanidade: humildade, grandeza, prudência e solidariedade. Saad não prescinde da filosofia. Pergunta: o que faremos com tanto poder concedido pela ciência? A resposta, ele encontrou em Eric Hobsbawm, segundo quem o mundo não melhora sozinho, mas com posturas humanistas e inteligentes, como as adotadas por Saad Hossne ao longo de sua trajetória.

Ruy Castro

folha de são paulo

Péssimo para os negócios

Ouvir o texto
RIO DE JANEIRO - Os japoneses estão acumulando tecnologia para transmitir futebol por holografia. Não sobre uma tela comum, como a do cinema ou da TV, mas no gramado, mesmo. Você comprará o ingresso para um jogo xis, a ser disputado em Tóquio, Londres ou Madri, irá ao estádio da sua cidade e "assistirá" à partida com os jogadores correndo em campo em tamanho real, como se estivessem ali de verdade. O som, também, em volume real.
O que confirma a frase que me foi dita há anos por Hans Henningsen --o famoso "Marinheiro Sueco", como o chamava Nelson Rodrigues-- sobre o futuro do futebol: "Um dia, os jogos serão assistidos somente pela televisão". O então alto executivo da Puma conhecia as entranhas do futebol e suas tendências como business. Por "televisão", Hans queria dizer qualquer tecnologia que permitisse torcer remotamente.
O fuzuê armado ainda hoje pela Fifa envolvendo "arenas" e tudo que elas podem render tenta apenas aproveitar os estertores do futebol físico, com suas torcidas ao vivo. E mesmo estas já estão sendo reduzidas à elite que assiste aos jogos tomando champanha nos camarotes. A Fifa quer tudo, menos brigas nos estádios entre pés de chinelo. Não porque, às vezes, produzem um cadáver, mas porque são péssimas para os negócios. O futebol que ela prepara para o futuro será um megavideogame, gerando vendas idem de tudo que lhe diga respeito.
A julgar pela brutalidade nos estádios do Brasil, é de se pensar se a Fifa não estará certa. Em 2012, 22 pessoas morreram em brigas entre torcidas; em 2013, já são 30. Todos os clubes têm facínoras entre seus torcedores --capazes de arruinar um espetáculo, mesmo que virtual.
O que me leva a perguntar se, melhor do que jogadores em 3D, por que não os craques em carne e osso no campo, assistidos por uma torcida --esta, sim-- holográfica?

José Simão

folha de são paulo
África! O Aerobusão da Alegria!
E diz que o Lula foi cantando o hino do Corinthians e batendo na lataria do avião. Rarará!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! África do Sul Urgente! E o voo da Dilma pro funeral do Mandela? Dilma, Sarney, Collor, FHC e Lula. Se eles tivessem peso na consciência, o avião não decolava. Não sei como esse avião não entrou num buraco negro. "Seria o primeiro milagre do Mandela", disse um amigo meu! Rarará!
E o problema não é eles terem ido, o problema é eles terem voltado!
E vocês viram a foto deles na frente do avião? Todos rindo! Tavam indo para um safári ou para um funeral? Rarará!
Imagina os comentários deles no avião. Sarney: "O funeral é meu? Fui eu que morri?". AINDA não! Rarará! E o FHC: "Eu vim só pelo vinho. Os da África do Sul são ótimos. Vamos logo pros vinhedos". E o Lula: "O Mandela morreu? Juro que eu não sabia!". E o Collor, com aquela respiração Darth Vader: "Sempre gostei do Mandela porque ele tinha aquilo roxo". Rarará!
E diz que o Lula foi cantando o hino do Corinthians e batendo na lataria do avião. E o FHC ficou irritado porque não tinha pantufas Ralph Lauren! Rarará! Isso não é um avião, é uma vuvuzela voadora! Rarará! E um cara postou no Twitter: "Por que eles não mandaram um telegrama e pronto?". Rarará!
E olha essa manchete: "SEM TUMULTOS, milhares vão ao ESTÁDIO para dar adeus a Mandela". Todos cantando e dançando!
Estádio no Brasil virou estádio de sítio, estádio de coma!
E a Dilma muito chique, e estava mesmo, muito digna, mas continua andando como caubói! Sabe caubói que tiraram o cavalo e ele continuou andando?! John Wayne em "Fort Apache"!
Aliás, ela entrando no estádio parecia o Felipão. Rarará!
E o mundo estarrecido porque Obama cumprimentou Raúl Castro! Ué, eles são civilizados. Não é Vasco e Atlético PR! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
E o site Kibeloco lança o CD de nova dupla sertaneja: Vasco e Fluminense. Com os grandes hits: "Cai, Cai, Balão", "Sonho Meu", "Segura na Mão de Deus" e "All the Single Ladies"! E sabe qual a semelhança entre Tim, Net, Vasco e Fluminense? Vivem caindo!
E o Twitteiro diz que o novo patrocinador do Vasco é a cerveja Drahma! É beber e cair. Rarará.
Hoje, só amanhã! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Elio Gaspari

folha de são paulo
Um banho de Brasil para a Fifa
Com caviar, batedores e descortesias, o doutor Joseph Blatter constrói uma encrenca para a Copa
Joseph Blatter, presidente da Fifa, pensa que é um chefe de Estado e leva uma vida de magnata. Viaja no avião da entidade, é recebido por presidentes de agenda porosa, atravessa algumas cidades precedido por batedores e durante os jogos de futebol fica em camarotes de VIPs onde garçons servem champanhe e caviar. (Na abertura da Copa da Confederações, felizmente, a doutora Dilma reclamou do mimo.)
A Fifa não é um Estado, e se fosse, com sua crônica de propinas, estaria entre as cleptocracias da segunda divisão. Para os brasileiros, há a lembrança do ocaso de João Havelange, que dirigiu a instituição de 1974 a 1998, quando tornou-se seu presidente honorário. Renunciou em abril, na esteira de um escândalo. A Fifa é uma organização de cartolas e a Copa do Mundo tornou-se um empreendimento que move bilhões de dólares. Durante as manifestações de junho a imprensa internacional lembrou o fato de que a competição será realizada num país onde multidões protestavam contra o preço das tarifas de transportes públicos enquanto a entidade anunciava que entre os patrocinadores do evento estará a champagne Taittinger (US$ 100 a garrafa).
A Fifa mudou o horário de sete jogos da Copa, atendendo a pedidos dos patrocinadores e das emissoras, interessadas em transmitir os jogos ao vivo. Jogo jogado, pois essa possibilidade estava prevista. As pessoas que compraram ingressos para os velhos horários e por algum motivo quiserem desistir perderão pelo menos 10% do valor pago. Ou seja, o sujeito marcou uma consulta no dentista, pagou adiantado, o doutor mudou o horário, e ele perderá 10% do preço da visita se quiser cancelá-la. Pouco custaria à Fifa livrar a clientela dessa tunga, até porque serão poucas as desistências.
Quando a burocracia dos cartolas baixa no Brasil com tamanha desconsideração, cria antipatias desnecessárias. Blatter vende ingressos para uma população que o vê passando na rua com batedores (no Rio já chegaram a fechar as transversais da avenida Atlântica para que ele tivesse pista livre). Os ingressos para os jogos terão preços salgados, as companhias aéreas e os hotéis estão de olho no bolso da galera. Além disso, o evento colocará nas ruas milhares de policiais com o treinamento e os modos que mostraram em junho.
Esses problemas são parte da vida nacional, não é preciso agravá-los. Blatter deveria vir ao Brasil por três dias, para viver como uma pessoa comum. Descobriria que o amigo que o hospeda no Rio ou em São Paulo paga mais IPTU do que ele na Suíça. Descobriria também que enquanto paga o equivalente a R$ 100 por ano para andar quantas vezes quiser em todas as autoestradas do seu país, aqui pagará R$ 40 por um só percurso do Rio a São Paulo, com direito a engarrafamento. Quando um brasileiro desce no aeroporto, rala na alfândega. Ele, não. Sendo suíço, verá que Pindorama é o único país do mundo onde a fila dos nativos para o exame de passaportes é maior que a dos estrangeiros.
Quando um pedaço do Itaquerão desabou, Blatter pediu a "Deus e Alá" que garantam a entrega das arenas a tempo. Se os brasileiros se aborrecerem durante a Copa, o doutor não deverá invocar seus nomes em vão.

Marcelo Coelho

folha de são paulo
Benjamin Britten
Cem anos depois do nascimento do compositor inglês, a ambiguidade de sua obra se aprofunda
Com dez anos de idade, ele já tinha composto uma carrada de quartetos de cordas. Aos 14 anos, a lista de suas obras já alcançava 534 títulos.
A produção desses primeiros anos pouco se conhece hoje em dia, claro, mas a "Sinfonia Simples" de Benjamin Britten (1913-1976), terminada em 1934, aproveita com muita graça e verve algo dos materiais infantis do compositor.
Uso uma expressão algo estranha, "materiais infantis", mas é de propósito. Quarto filho de um dentista, Britten nasceu numa cidadezinha pesqueira na costa leste da Inglaterra, e desde cedo foi objeto de um verdadeiro culto familiar.
O passado de menino prodígio iria sem dúvida ter reflexos difíceis na vida dele. Ofendia-se com facilidade; sem saber muito como, conhecidos de longa data de repente passavam a entrar na sua "lista negra", tornando-se vítimas daquilo que um crítico classificou como "Britten's characteristic froideur". A típica frieza de Britten.
Além disso, os biógrafos se dedicaram a investigar as suspeitas de pedofilia em torno do maior compositor inglês do século 20. Nada de concreto, que eu saiba, ficou comprovado.
Durante toda a vida, ele manteve um respeitável casamento com o tenor Peter Pears; a homossexualidade, que na época impunha discrição, não impediu Pears de virar "sir" e Britten de receber uma distinção ainda mais elevada, tornando-se "lord Britten de Aldeburgh".
Só não há dúvidas quanto à especial atenção que Britten dedicava a coros de meninos. Mais do que isso, a infância --e, especificamente, as ameaças sexuais a meninos bonitos-- está presente em muito de sua produção.
Os entusiastas da ópera tiveram, em 2013, uma efeméride dupla: tanto Richard Wagner (1813-1883) quanto Giuseppe Verdi (1813-1901) têm celebrados os 200 anos de nascimento.
O centenário de Britten também merece ser marcado pelos apreciadores do canto lírico; mais do que ninguém, foi ele quem manteve a ópera como um gênero vivo em meados do século 20.
Sem ser dodecafônica nem vanguardista, a música dele pode ser bem áspera, ou melhor, aflitiva.
Algumas pessoas têm arrepio com isopor, canetinhas hidrográficas ou giz arranhando na lousa. Excelente orquestrador, Britten pode fazer coisas parecidas com cordas agudíssimas, sopros gélidos e xilofones batendo os dentes.
O frio, o vento, os impulsos do mar intratável da costa inglesa faziam parte da memória infantil de Britten e soam em muitas de suas composições. É preciso acostumar-se a elas: depois da "Sinfonia Simples", um bom caminho é o "Guia dos Jovens para a Orquestra".
Mostrando de forma brilhante e acessível os diferentes timbres dos instrumentos, é uma das raras obras genuinamente alegres de Britten. Ele pode ser exultante, animado, eufórico --mas a felicidade não é exatamente o seu forte.
Na sua cantata "Saint Nicolas", a história fala de crianças ameaçadas de virar picadinho; elas vencem no final, mas a marcha comemorativa que termina a peça não deixa de parecer ambígua, ácida e crispada.
A ambiguidade está na raiz, entretanto, de suas obras mais significativas. Depois do "Guia", vale a pena aventurar-se nos gélidos e engenhosos interlúdios que Britten compôs para "Peter Grimes", ópera de 1948 que consagrou o compositor.
Música à parte, "Peter Grimes" vale como excelente espetáculo teatral também. Conta a história de um pescador, solitário e violento, que contrata aprendizes para ajudá-lo no barco.
O primeiro garoto morre; acidente, decidem as autoridades da aldeia. Outro menino o substitui. Volta do barco cheio de equimoses; numa tempestade, morrerá também.
Conforme a encenação, o pescador pode ser apresentado como um sádico ou apenas como vítima de circunstâncias especialmente infelizes. "Morte em Veneza", "A Volta do Parafuso" e "Billy Budd", outras óperas de Britten, mostram igualmente o jogo entre inocência e culpa, entre sedutor e seduzido, adolescente e homem adulto.
Alguns críticos, como Richard Taruskin, viram na situação de isolamento do homossexual a chave para "Peter Grimes", escrita numa época em que "sodomia" ainda era crime na Inglaterra. Com o passar do tempo, é a pedofilia que surge como o segredo inconfessável dessa ópera.
Melhor pensar, entretanto, que o verdadeiro drama de Britten não reside em particularidades sexuais desse tipo. O adulto impiedoso e a criança sedutora convivem na mesma pessoa.
Cada ser humano sabe, na verdade, de que modo tratou e trata a criança que tem dentro de si. As dissonâncias e suavidades da obra de Britten constituem um fundo musical possível, e inquietante, para a história que todos carregamos dentro de nós.