domingo, 15 de dezembro de 2013

Mauricio Stycer

folha de são paulo
As melhores novelas do ano
Ignoradas pela associação de críticos, 'Pecado Mortal' e 'Sangue Bom' mereciam dividir o prêmio de 2013
A APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) divulgou nesta semana os seus prêmios referentes a 2013. O corpo de jurados de televisão, entre os quais há jornalistas da maior competência, mas nenhum crítico, curiosamente, distribuiu os troféus de praxe, com exceção de um, dedicado à melhor novela.
Não é a primeira vez que o júri age desta forma, mandando o recado que nenhuma produção mereceu o prêmio. Até entendo a rejeição a "Amor à Vida", o principal produto da Globo em 2013, que será lembrada como uma homenagem às novelas mexicanas. Mas me surpreende que as qualidades de duas outras tramas tenham sido ignoradas.
"Pecado Mortal", em exibição na Record, e "Sangue Bom", que a própria Globo mostrou, são produções com atrativos suficientes para serem saudadas, no cenário atual, como novelas de qualidade.
A primeira, ambientada no Rio em 1977, descreve o momento em que os chefões do jogo do bicho começam a ser substituídos, no comando do crime e das favelas, pelos traficantes de drogas.
A novela é escrita por Carlos Lombardi, que trabalhou na Globo por três décadas e, após passar alguns anos sem conseguir emplacar um projeto, aceitou o convite da Record.
Famoso por suas comédias, o autor aventurou-se pelo terreno da trama policial, com ramificações políticas e sociais. Os personagens de "Pecado Mortal" vivem um mundo em que basicamente se luta por poder, dinheiro e sexo. É uma novela adulta, com diálogos inspirados, boa direção, alguns ótimos atores e muita ação.
Coincidência ou não, desde que "Pecado Mortal" começou a ser exibida, às 22h30, "Amor à Vida", na Globo, passou a terminar mais tarde. Há dias em que a trama de Walcyr Carrasco é esticada até as 22h45.
A tática de guerrilha, tudo indica, não é novidade. Silvio de Abreu já contou que, em 1990, esticava os capítulos de "Rainha da Sucata" para combater "Pantanal", de Benedito Ruy Barbosa, na Manchete.
Para decepção da Record, "Pecado Mortal" está próxima de completar três meses no ar sem conseguir uma boa audiência. A novela tem registrado de cinco a seis pontos no Ibope (cada ponto equivale 62 mil domicílios na Grande São Paulo), o que configura um claro insucesso.
Já "Sangue Bom", exibida pela Globo entre 29 de abril e 1º de novembro, no horário das 19h30, foi uma comédia inteligente e provocadora, que discutiu entre outros assuntos como se constrói artificialmente a fama nos dias de hoje.
Sempre rindo, a novela de Maria Adelaide Amaral e Vicent Villari traçou um retrato irônico do mundo das aparências em que vivem os atores de televisão e, por meio de uma personagem, mostrou a perversidade e a hipocrisia de jornalistas que acompanham o universo das celebridades.
Ninguém está dizendo que "Pecado Mortal" ou "Sangue Bom" inovaram no gênero. Cada uma à sua maneira, porém, ambas merecem ser saudadas pelos críticos. Entre outros méritos, a trama de Lombardi, ainda em andamento, ajuda a explicitar a fragilidade da novela que a Globo tem usado para combatê-la. E, da mesma forma que a história de Maria Adelaide e Villari, mostra que o espectador pode ser tratado com inteligência. Não é pouca coisa.

Ferreira Gullar

folha de são paulo
O que me disse a flor
A flor tem a delicadeza encantadora de uma obra de arte. Mas que não foi feita por nenhum artista
Durante um passeio pela avenida Atlântica, sentei-me sob uma das árvores que há ali, próximo aos edifícios, quando, ao meu lado, no banco, caiu uma flor amarela, igual a muitas que estavam ali no chão.
Peguei-a e tive uma surpresa ao olhar para dentro dela, côncava como um cálice. É que o fundo do cálice era de cor lilás intenso e, do centro dele, erguia-se um pistilo que parece um requinte decorativo posto ali para me encantar. Mas, encantar a mim que, por acaso, peguei essa flor? A flor, suas cores, seu pistilo têm a delicadeza encantadora de uma obra de arte. Mas uma obra de arte que não foi feita por nenhum artista, por ninguém.
Observo ainda que o pistilo é constituído de pequenos anéis feitos de uma matéria semelhante a pluma e lindamente completado por quatro fios também lilases. Que capricho, que harmonia em tudo aquilo! A natureza cria beleza para si mesma? A beleza é natural a tudo o que ela cria?
Certamente, você dirá que ela cria também bichos horríveis e repugnantes. É verdade, mas isso torna ainda mais incompreensível o esplendor das coisas belas que ela cria. E, no caso dessa flor, do pistilo dessa flor, fascinou-me o esmero, o capricho, a delicadeza das pequeninas rodelas de pluma amarela, que pareciam ter sido feitas com o deliberado propósito de fascinar. Mas a quem? Mas por quem?
O que eu desejo transmitir a vocês, nesta crônica, é o espanto de que fui tomado, naquela tarde, ao descobrir essa flor. E havia dezenas delas pelo chão, algumas já murchas, outras esmagadas pelos pés dos transeuntes, num desperdício de belezas. Será mesmo um desperdício? Não, ela é assim mesmo em tudo ou quase tudo.
Quando o homem ejacula lança centenas de milhões de espermatozoides, embora apenas um deles tenha a possibilidade de atingir o óvulo e fecundá-lo. Creio que ela pretende, com esse excesso, tornar inevitável a fecundação e o surgimento de outro ser vivo.
Mas meu espanto não para aí. Outro dia, via na televisão um documentário filmado em águas profundas do oceano, aonde a luz do sol não chega. Era um mundo outro, habitado por seres que não sei se devo chamá-los de peixes. Sei que eram estranhíssimos; nadavam, é certo, mas suas nadadeiras eram algo nunca visto, de uma matéria transparente, flexível, que mudava de cor a cada instante.
Tinham cabeça, boca? Não sei. E quase todos traziam consigo antenas em cuja ponta uma pequena lâmpada acendia e apagava. São próprios àquela outra dimensão do planeta, onde se criam outros seres, outras vidas, outra beleza.
Eram peixes? Eram flores? Eram ficção? É que, como no caso da flor amarela que me caiu no colo, eram criações poéticas da natureza. Pois é, ando ultimamente grilado com esses exageros da natureza que não sei explicar. Na verdade, a realidade do mundo excede qualquer lógica. Ou a lógica dele é outra?
Mas não é: já pensou nas descobertas feitas pelos físicos que levaram a descobrir essa maravilha que é o átomo? Fico pensando: descobriram quais partículas constituem o núcleo do átomo e, a partir daí, conseguiram desintegrá-lo. E temos a energia atômica! Não é estranho que seja tudo tão complexo e, ao mesmo tempo, tão bem organizado e que a inteligência humana seja capaz de entender isso?
Gente, quando faço essa pergunta, lembro-me de que o universo é constituído de bilhões e bilhões de galáxias, constituídas, por sua vez, de quatrilhões de sóis. O sistema solar a que pertencemos é quase nada nesse universo infinito. E nosso planeta, que importância tem? Um grãozinho de poeira. E nós, seres humanos, menos que um grãozinho de poeira nessa imensidão. Não obstante, conseguimos pensá-la.
Nelson Mandela é o exemplo incontestável de que não é a raça nem a cor da pele que define as qualidades do ser humano.
Quero deixar consignado a perda, que significou, para a arte brasileira, a morte --faz algumas semanas-- do pernambucano Gilvan Samico, um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros. Inspirado na gravura popular nordestina, Samico, preservando-lhe a poesia original, soube dar-lhe a qualidade de grande arte. Perdemos, com sua morte, um artista e um ser humano exemplares.

Drogas pesadas no Brasil: inépcia e ideologia

folah de são paulo
JOSÉ SERRA
Drogas pesadas no Brasil: inépcia e ideologia
É preciso evidenciar a natureza terrível da dependência química e estigmatizar o consumo de crack, não o consumidor
O debate sobre o consumo de cocaína no Brasil pode e deve ser uma pauta em 2014. O que se deve rejeitar é a inércia e a multiplicação da pirotecnia na área. O que tem de ser feito não é mistério: combater o tráfico, promover campanhas educacionais e tratar os dependentes químicos. Nada disso vem sendo executado a contento.
Para os céticos sobre a gravidade do problema, conviria mencionar um estudo da União Europeia noticiado pela Folha, segundo o qual o Brasil é considerado hoje o epicentro do narcotráfico mundial.
Passou a ser "um refúgio para chefões do tráfico da América Latina, ponte principal para distribuição da droga produzida no continente para a Europa, provedor de produtos químicos para a produção de algumas delas e também agora um importante mercado consumidor. O país virou a base das novas rotas do tráfico mundial, que passa pela África para seguir à Europa e à Ásia".
Estima-se que 2,5 milhões consomem a droga --o segundo mercado do mundo. Essas são as vítimas diretas. As indiretas são 7,5 milhões, incluindo familiares. Mencione-se a população, que paga o preço da violência urbana no cotidiano.
O crack, derivado da cocaína, ampliou a difusão da droga no mundo. Mas há uma particularidade no caso brasileiro: uma pedra de crack custa uma pechincha: R$ 2. Dezenas de vezes menos do que nos Estados Unidos ou na Inglaterra. Isso porque desenvolveu-se no Brasil nos últimos 12 anos uma eficiente rede de pequenos traficantes.
Além do mais, somos vizinhos de três grandes produtores da matéria-prima: Colômbia, Peru e Bolívia. São 8.000 quilômetros de fronteiras, as mais escancaradas do mundo. Mas a Polícia Federal não tem efetivo nem equipamentos para fazer seu trabalho. Nem o governo dá prioridade ao assunto. A Bolívia é de longe o principal fornecedor. Por que não usar a ajuda econômica que o Brasil dá a esse país para induzi-lo a encolher a produção e o contrabando? Sobra propaganda, como a do avião-morcego sem tripulantes, que sumiu sem ter aparecido, para filmar o tráfico nas fronteiras...
Em parte, a inépcia explica a inação. Mas a falta de vontade tem um papel relevante. Basta lembrar que a Secretaria Nacional Antidrogas nega que haja uma epidemia de crack no Brasil e que o PT resiste à internação de dependentes químicos para desintoxicação, recusando dinheiro do SUS para essa atividade. Além disso, a política externa é leniente com os aliados do governo boliviano e das Farc colombianas, hoje grandes agentes do narcotráfico.
A luta contra a droga exige, além da assistência às vítimas, cortar a oferta e a demanda. A omissão nesse último caso tem sido surpreendente. Faltam campanhas educacionais intensas e abrangentes, a exemplo do que foi feito com o cigarro, que, diga-se, é menos letal.
A experiência das medidas e campanhas antitabagistas no Brasil, iniciadas no governo FHC e consagradas internacionalmente, derrubaram à metade a proporção de fumantes do país, mas não serviu de inspiração aos governos petistas.
É preciso evidenciar, especialmente aos jovens e suas famílias, a natureza terrível da dependência química. Mais claramente: é preciso estigmatizar não o consumidor, mas o consumo do crack. De forma inteligente, intensa, prolongada, convicta e não envergonhada.

Madiba - Emanoel Araújo

folha de são paulo
EMANOEL ARAUJO
Madiba
Mas será que o exemplo de Mandela ecoou no coração de líderes políticos africanos? O certo é que a África continua corroída pela corrupção
A África é uma questão sentimental, sobretudo para nós, brasileiros, e por que não incluir aí os herdeiros das casas grandes. Todos temos uma dor e uma melancolia ancestrais.
Estou no Benin, um pequeno país da África ocidental, reunindo artistas contemporâneos para nova exposição no Museu Afro Brasil. E aqui, em Porto Novo, Abomey e Ouidah, não se pode ser indiferente às nossas raízes e à herança dos que foram e dos que voltaram à sua própria terra como brasileiros e construíram suas casas, palacetes, igrejas e mesquitas à maneira brasileira do século 19. Guardaram seus nomes e sobrenomes; assim são os Souzas, os Oliveiras, os Rego, os Silveiras, os D'Almeidas.
Em Ouidah, foram construídos um forte português e a casa dos governadores do século 18, onde viveu o famoso Francisco Félix de Souza, o Chachá, irmão de Rei Guezo por um pacto de sangue, talvez o maior traficante de escravos do seu tempo, que ganhou fortuna e teve mais de 80 mulheres e centenas de filhos que ostentaram o seu sobrenome.
Nas ruas de Porto Novo se pode ver, no segundo domingo de todo janeiro, os Agudás nas festas do Bonfim; depois, o Carnaval com a "burrinha" (o bumba meu boi), após a missa festiva da Irmandade.
No Benin, acordamos com a notícia vinda da África do Sul, que ecoava por toda África de coração partido. Partiu para a ancestralidade Madiba, o Presidente, Senhor Mandela. A cada minuto, declarações dos líderes políticos de todo o mundo manifestavam seus pesares.
Sua voz e sua trajetória política como líder de um povo oprimido ecoaram no coração do seu povo pela esperança de liberdade, na luta contra o perverso apartheid que assolou impiedosamente sua pátria. Ele era verdadeiramente a voz com que a nação contou contra todas as atrocidades da política da exclusão. Quem pode esquecer Soweto? No século 20, quem assistiu àquelas atrocidades e esqueceu? Quem?
Tive a honra de estar presente no almoço que o presidente Fernando Henrique Cardoso e dona Ruth ofereceram a Mandela em sua visita ao Brasil. Permanece na memória o doce e gentil homem que nem de longe transparecia seus amargos anos de prisão e resistência.
Um homem extraordinário, o grande líder africano nas lutas pela libertação do seu povo. Mas será que o grande exemplo de Mandela ecoou mesmo no coração de muitos líderes políticos africanos?
O certo é que a África continua corroída pela corrupção, que se perpetua desde os antigos reis que tornaram possível a escravatura vendendo seus próprios filhos. A escravidão se tornou uma realidade universal. Seria mesmo uma utopia desse líder altivo clamar por uma África livre das ditaduras, dos que se perpetuam no poder e da corrupção?
O mundo, a partir de agora, ficará mais pobre e ele será uma lembrança imorredoura do povo negro. Dos que não escaparam das mãos sangrentas dos negreiros; dos que suportaram o apartheid; dos norte-americanos que foram linchados e pendurados nas árvores como "Strange Fruit"; dos que estão nas periferias das grandes cidades brasileiras, nas favelas, nos alagados, nos mocambos.
Dos africanos pobres e muito pobres, cheios de filhos da poligamia, abandonados à própria sorte; da violência contra as mulheres; das mulheres que buscam o sustento da família nas beiradas das vias, ruas e estradas poluídas pelos milhares de motos movidas a gasolina adulterada; da homofobia dos africanos. E o futuro?
A lição da utopia de Madiba se refletirá nos homens que detém o poder de mudança na África? Mandela foi um exemplo de homem no clamor de suas falas de grande defensor das minorias, que aqui nesta terra são só maioria. Quem sabe esse povo será reconhecido como cidadãos que integram essa utopia, no desejo de se verem irmanados pela paz, liberdade, prosperidade e pelo avanço da humanidade africana.

Suzana Singer [Folha Ombudsman]

folha de são paulo
"Diga X"
Cortes nos orçamentos e vetos à presença da imprensa levam jornais a publicar fotos oficiais
A fotografia que reuniu Dilma e seus antecessores no embarque para a África do Sul, estampada na capa de quase todos os jornais brasileiros na terça-feira, provocou polêmica.
Fernando Rodrigues saudou a iniciativa da presidente: "A foto de todos juntos torna o país um pouco mais civilizado e urbano". Rogério Gentile criticou o gesto, porque, ao incluir Fernando Collor, Dilma estaria "homenageando uma vergonha nacional". José Simão ironizou: "Dilma, Sarney, Collor, FHC e Lula. Se eles tivessem peso na consciência, o avião não decolava".
A reunião de todos os (vivos) que já ocuparam o posto mais alto no Palácio do Planalto era uma cena única. Pena que tenha sido registrada só pelo fotógrafo oficial da Presidência. A imprensa não teve acesso ao local, porque, segundo a ministra da Comunicação Social, Helena Chagas, não estava prevista foto naquele momento. A imagem teria sido feita para atender a um pedido de oficiais que estavam na Base Aérea do Galeão. A imprensa poderia fotografar o grupo na chegada a Johannesburgo.
Só que os grandes jornais não enviaram fotógrafos para a África do Sul. "Não vimos necessidade. Sabíamos que haveria uma ampla cobertura fotográfica à nossa disposição", diz a Secretaria de Redação.
De fato, as melhores agências estavam na cerimônia pela memória de Nelson Mandela, mas um olhar brasileiro poderia resultar em imagens originais, do mesmo modo que um enviado especial de texto faz diferença em coberturas importantes. A presença de Dilma, que discursou, e dos outros políticos brasileiros justificaria ainda mais a ida à África.
Embora muitos leitores não prestem atenção ao crédito, que aparece em letras miúdas no alto de cada imagem, faz diferença se uma imagem foi aprovada pelo fotografado ou se foi feita sem censura. Em foto oficial, estão todos penteados e bem-dispostos, como os cinco empertigados no aeroporto.
Não há flagrante, como o registrado por Roberto Schmidt, da France Presse, na homenagem a Mandela. A foto, que mostra Obama, David Cameron e a premiê dinamarquesa fazendo pose para si mesmos ("selfie"), gerou críticas (o trio estaria fazendo farra numa cerimônia fúnebre) e um monte de especulações sobre o ciúme da primeira-dama americana.
Foi tanta repercussão que o fotógrafo divulgou uma explicação sobre a cena. Não teria havido desrespeito na "selfie" porque o clima no estádio era de festa, com cantoria e dança. Michelle não estaria incomodada, já que, minutos antes, brincava com os outros, inclusive com a amiga loira. "Os líderes mundiais estavam simplesmente agindo como seres humanos, como você ou eu", disse o fotógrafo.
Políticos adoram parecer "gente comum", mas em situações controladas. Obama vem restringindo o acesso de repórteres fotográficos, o que provocou um protesto formal de vários jornais, inclusive do "New York Times". Grupos de mídia como Gannett ("USA Today"), McClatchy ("Miami Herald") e a agência Associated Press decidiram não publicar mais fotos oficiais, salvo em situações muito especiais.
No Brasil, o veto presidencial em algumas situações e os cortes nos orçamentos das Redações têm deixado à disposição dos leitores cada vez mais fotos oficiais, que, como bem definiu a ombudsman do "NYT", Margaret Sullivan, nada mais são do que "releases visuais".
SÓ O NEGATIVO
A manchete de segunda-feira decretava: "Ineficiência marca gestão do SUS, diz Banco Mundial". A reportagem trazia apenas as críticas contidas no estudo, que fez um balanço de 20 anos do sistema único no país.
Toda a parte elogiosa, em que se ressalta, entre outros pontos, um acesso mais equânime à assistência médica, foi ignorada pelo jornal. Ficou a impressão de que o Banco Mundial condenava o SUS. Foi mais um ataque de pessimismo crônico daFolha.

    Elio Gaspari

    Jornal O Globo
    Natasha e Eremildo numa prova do Enade
    No blablabês do MEC, os estudantes precisam entender que um concorrente é uma 'empresa potencial entrante'
    Madame Natasha fez as provas de administração e ciências econômicas do Enade e concluiu que o Ministério da Educação estimula a criação de um dialeto no qual os professores ensinam (e cobram) conhecimentos num idioma que não falam em casa. A senhora entende que há expressões técnicas que devem ser ensinadas e aprendidas, mas "empresa potencial entrante" é a popular "concorrente", "estatisticamente não significante" é apenas "insignificante", uma "asserção" é uma "afirmação" e "fator explicativo" é "uma das explicações".
    Se um diretor de uma companhia disser que talvez seja obrigado a enfrentar uma empresa potencial entrante mas está tranquilo porque ela virá com uma produção estatisticamente não significante e que essa asserção é um fator explicativo da sua esperança de ganhar o bônus no fim do ano, será mandado ao manicômio.
    Natasha acredita que, estimulando-se os alunos a aprender um dialeto incompreensível, consegue-se apenas fazer com que professores que não se fazem entender propaguem, com a ajuda do MEC, um blá-blá-blá de empulhação.
    Por coincidência, Eremildo, o Idiota, fez a mesma prova. Como vive num quarto alugado nos fundos de uma pensão, sonha em se credenciar para um cargo na diretoria da Petros. Numa pergunta relacionada com economia brasileira dos anos 30, ele achou a expressão "indústria capitalista". O cretino acha que em Pindorama só havia essa, pois a socialista estava sob os cuidados de Stálin.
    A dupla até hoje tenta decifrar o seguinte enunciado, relacionado com as novas formas de organização das empresas. Segundo o texto, elas são vistas também "como aperfeiçoamento da abordagem contingencial da administração. Os estudos realizados carecem, entretanto, de aprofundamento para que se possa considerar as chamadas organizações pós-modernas ou como expressão da ruptura qualitativa com a modernidade ou como versão especificamente histórica das organizações modernas".
    Umas das alternativas de resposta era a seguinte: "De acordo com a compreensão sistêmica e comportamental da administração, as novas formas organizacionais revelam a ruptura com a racionalidade instrumental, caracterizando o paradigma pós-modernista".
    Ganha uma viagem de ida a Pyongyang quem souber o que isso quer dizer. Indo-se ao gabarito, vê-se que essa alternativa estava errada. Era uma pegadinha, em blá-blá-blês.
    Um professor com títulos e desempenho empresarial suficientes para dar inveja aos educatecas do MEC testou-se respondendo às oito questões de formação geral. Valendo-se de seus conhecimentos e de sua opiniões, errou quatro. Numa nova tentativa, colocou-se no modo "politicamente correto" e deu as respostas que intuiu serem as desejadas. Acertou seis. Num enunciado em que se descreve a influência dos jogos domésticos sobre as crianças, reduzindo seu interesse por questões ambientais, pedia-se aos estudantes que escolhessem um título para o texto. Uma das alternativas dizia: "Preferências atuais de lazer de jovens e crianças: preocupação dos ambientalistas". Errado. O título certo seria: "Engajamento de crianças e jovens na preservação do legado natural: uma necessidade imediata". Isso é título de manifesto.
    POESIA
    Os doutores Sérgio Cabral e Eduardo Paes apresentam-se como construtores de um novo Rio de Janeiro. Diante da cena do portão do novo Maracanã alagado, coisa que jamais ocorreu, vale relembrar o poema de Cacaso num período de euforia cívica:
    Ficou moderno o Brasil,
    Ficou moderno o Milagre:
    A água já não vira vinho,
    Vira direto vinagre.
    PERNAS
    De um empresário de nove dígitos:
    "Se o problema da economia brasileira fosse o fato de estar com duas pernas mancas, talvez um ortopedista ajudasse. Como o problema está no cérebro, o caso é para psiquiatra."
    PT CALMO
    Uma parte do comissariado espera que a solidariedade coletiva oferecida ao mensaleiros presos seja a última. Nos últimos anos o partido ameaçou botar seus militantes nas ruas e Lula prometeu percorrer o país discutindo o caso. Nenhuma das duas coisas aconteceu.
    ROSA WEBER
    Se as decisões da ministra Rosa Weber no caso do cartel das fornecedores de equipamentos e de seus vínculos com os governos do PSDB paulista contrariarem o tucanato, virá a grita de que foi a doutora Dilma quem a nomeou.
    Tudo bem, mas quem nomeou Joaquim Barbosa foi Lula.
    OUTRA PONTA
    Há um ponto cego nas investigações das propinas cobradas por fiscais da Prefeitura de São Paulo. Quando empresários decidem enfrentar os achacadores e resolvem ir à Justiça, descobrem que nesse caso terão que lidar com uma nova quadrilha.
    Isso acontece em vários Estados.
    EDUARDO CAMPOS E O ATENTADO DE GUARARAPES
    O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, tinha um ano de vida quando aconteceu o primeiro atentado terrorista de vulto da década. No dia 25 de julho de 1966 explodiu uma bomba no saguão do Aeroporto de Guararapes, onde centenas de pessoas esperavam pelo marechal Arthur da Costa e Silva, que sucederia seu colega Castello Branco na Presidência da República. A explosão matou um almirante, um jornalista e feriu 14 pessoas, inclusive uma criança.
    Durante a cerimônia em que Ricardo Zarattini foi justamente inocentado de qualquer responsabilidade pelo episódio, Campos relembrou uma velha desconfiança: o atentado teria sido "um episódio utilizado para dividir a resistência ao golpe".
    Sem o esclarecimento de que o atentado foi obra de militantes de esquerda, sobra a suspeita de que os militares tiveram algo a ver com a coisa. Lenda desonesta. Naqueles dias explodiram no Recife três bombas. Todas colocadas por um grupo ligado à Ação Popular, a AP. Quem montou e colocou o explosivo no aeroporto foi Raimundo Gonçalves Figueiredo, o "Raimundinho". Vindo para o Rio, e militando na VAR-Palmares, detonou mais duas bombas e foi assassinado em 1971.
    Eduardo Campos já tinha 25 anos quando Jacob Gorender esclareceu que Zarattini nada tinha a ver com o atentado. Gorender sabia a identidade do autor. O governador tinha trinta anos quando o "Jornal do Commercio" do Recife publicou uma reportagem definitiva sobre o assunto. Nela havia uma entrevista do ex-padre Alipio de Freitas, que teria sido o mentor do grupo, ao repórter Gilvandro Filho. Nas palavras de Alipio: "Morreu gente, nós lamentamos. Mas aquilo era uma guerra, tinha que haver vítimas".

      Janio de Freitas

      folha de são paulo
      O dinheiro do voto
      Não tem fundamento dizer que substituir as doações empresarias por pessoais vai aumentar o caixa dois
      O argumento mais forte contra a provável proibição, pelo Supremo Tribunal Federal, de doações eleitorais por empresas, é pobre de seriedade e paupérrimo de inteligência. Não tem fundamento afirmar que substituir as doações empresariais por pessoais vai aumentar ameaçadoramente o caixa dois nas campanhas, o dinheiro de doações encobertas, dada a óbvia razão de que não se tem nem estimativa da proporção dessa ilegalidade nas eleições passadas.
      O chute, difundido pelo PSDB, expressa a preocupação dos grandes beneficiários de doações empresariais. Mas implica acusar seus doadores publicamente: se as pessoas não precisam fazer doações ilegais, o aumento de caixa dois em campanhas só pode ser feito por doações clandestinas de empresas, em prática criminosa de empresários. Gente mal-agradecida, esses peessedebistas.
      Na preocupação dos partidos identificados com o empresariado percebe-se também o medo de que, permitidas apenas doações pessoais, os partidos mais populares levem vantagem. Os fatos não apoiam tal medo: o PT sempre precisou buscar, e recebeu, doações empresariais para suprir a estrangulante modéstia das doações pessoais, apesar do esforço para incentivá-las. Era o efeito de um condicionante econômico que pode estar mudado, mas não extinto.
      Por isso mesmo, as doações apenas individuais são potencialmente capazes de surpreender quem hoje as teme. Os partidos populares podem esperar maior quantidade de doadores. Mas, para cada real vindo dos seus, os do PSDB, do DEM e dos centuriões do agronegócio estão prontos para doar na proporção de dez reais por aquele real, cem por um, mil por um, sem que a carteira sequer o perceba.
      O ministro Gilmar Mendes, do Supremo, está tão irritado quanto os peessedebistas mais irritados com a perspectiva da mudança de doadores. Chama a ação da OAB, pelo fim das doações de empresas, de estudantada. Com uma pergunta assim, por exemplo: "Essa gente fica fora da política?" É uma sagração da empresa que nem os neoliberais fizeram: a empresa vista como gente. E portadora de cidadania, para ser parte da política. Muito original.
      Não tanto, porém, quando, em crítica aos quatro colegas que já votaram pela mudança, diz que "estamos [lá o Supremo] fazendo um tipo de lei para beneficiar quem estiver no poder". Dá oportunidade para observar-se uma reação fraudulenta cometida por muitos, inclusive pelos presidentes da Câmara e do Senado. O Supremo não está absorvendo função do Congresso, não está fazendo lei. Está, como lhe compete, examinando e vai decidir a compatibilidade, ou sua falta, entre a Constituição e a participação de empresas em eleições como financiadoras de candidatos, além do mais, selecionados a critério empresarial.
      A doação pessoal não assegura o fim do caixa dois, o dinheiro não declarado pelo candidato ou pelo partido à Justiça Eleitoral. Mas dificulta e, portanto, reduz essa violação do processo de composição do Congresso e dos governos. Logo, colabora para maior higiene política. E tende a reduzir o custo, hoje imoral, da eleição a qualquer cargo. Logo, colabora para a democratização eleitoral e para a maior legitimidade da composição dos poderes. Democratização eleitoral e legitimidade hoje degeneradas.
      PS -- Alguma boa alma precisa avisar aos Estados Unidos que o financiamento eleitoral deles ainda não passa de estudantada.
      O FEITO
      A vida pública de Nelson Mandela permite, e não lhe faltou, uma infinidade de ângulos de abordagem, análise e avaliação. Mas, suponho, só um tem sentido.
      Mandela mudou a concepção de vida de uma nação, ideias consolidadas e sentimentos enraizados por várias gerações. O PIB, a segurança, a inflação, essas são as miudezas habituais que só poderiam ficar, como ficaram, com os habituais que delas se ocupam dos modos habituais. O que distingue Mandela é ter feito com uma nação o que é difícil mesmo na vida pessoal e, quando ocorre, em geral leva muito mais tempo.