sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Michel Laub

folha de são paulo
Um pouco de silêncio
O pior pecado de um colunista é ser previsível. O segundo é se apaixonar pela própria retórica
Para um cronista de meio século atrás, digamos, o maior temor era a falta de assunto. Hoje é o contrário.
Desde o surgimento da internet, é difícil ler um texto como "A Boa Manhã", de Rubem Braga, que identifica a felicidade com a ausência do que dizer. Em qual dia de 2013, ano em que houve o julgamento do mensalão, os protestos de junho, o intérprete falso no funeral de Mandela e a glória do rei do camarote, foi possível resistir à compulsão de se expressar?
Não que o mundo seja mais movimentado hoje. O que aumentou foram os veículos para que corram versões dos fatos. O modernismo errou ao decretar a morte da narrativa. Idem quem segue falando da morte da ficção. Pois o que mais há agora são narrativas ficcionais: o tipo de relato sobre nós mesmos, mediado pela idealização --tudo falso, portanto-- que fazemos de nossa inteligência, cultura, humor e experiência social.
O pior pecado de um colunista é ser previsível. Caio nele com frequência, como o leitor deve perceber, mas tento fugir do figurino tradicional dos que agem assim: blocos monolíticos de opinião, que alinham qualquer controvérsia --do casamento gay ao modelo de exploração do campo de Libra-- segundo um sistema que parece coerente.
Só parece: muita gente defende a liberação das drogas e é a favor de restrições policialescas para o tabaco. Parte dos que condenam o aborto baseados no princípio de proteção à vida apoiam a pena de morte. Parte dos que advogam a separação entre religião e Estado no Ocidente se enchem de tolerância multiculturalista ao analisar teocracias. O paradoxo não impede, claro, que se aponte o dedo para a desonestidade, agressividade e ignorância dos adversários.
(Para não deixar dúvida: sou a favor do casamento gay e da adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo. A favor da separação entre Estado e religião sempre. A favor do tratamento de drogas e aborto como questões de saúde pública, e não de polícia. Contra a propaganda de cigarro e a pena de morte. Nada tenho a dizer sobre o campo de Libra.)
O segundo pior pecado de um colunista é se apaixonar pela própria retórica. Como a frase melhora quando tiramos dela as adversativas, não é mesmo? Tudo fica mais irônico e viril. O ritmo do parágrafo anterior, que já não é lá muito harmonioso, ficaria pior se eu incluísse a construção "não acho, todavia, que religiosos são obscurantistas por definição".
Ou "no debate do aborto, estou mais do lado pragmático --que tenta evitar mortes de mães em partos sem cuidados e desestruturação familiar por gravidezes não desejadas-- que no de princípios, pois tenho dificuldade em lidar com o conceito político' de vida".
Ou "no das drogas, ao contrário, penso mais na liberdade de cada um usar o que quiser, fazendo mal a si mesmo inclusive, que nas consequências. Tenho dúvidas se o consumo diminuiria com uma flexibilização da lei. E se o crime organizado não mudaria apenas de droga ou de ramo, caso perdesse os atuais lucros com a maconha".
Ocorre que é nas adversativas que pode estar a precisão. O estilo piora, mas é difícil pensar sobre um tema sem ao menos testar --com a empatia que estiver ao alcance-- a viabilidade lógica e moral do argumento contrário.
Algumas coisas são inegociáveis, claro, mas nem toda ponderação é sinônimo de relativismo covarde. Assim como nem toda omissão. Pierre Bayard escreveu um ensaio divertido chamado "Como Falar dos Livros que Não Lemos" (Objetiva).
Gostaria que alguém escrevesse um com a tese oposta: como resistir em falar dos livros que lemos, dos filmes que vimos, do que aparece na TV ou do que comemos no almoço, e do trânsito e da poluição e da péssima qualidade dos serviços na cidade e assim por diante.
Seria um bom final para este longo 2013: um pouco de vazio e tédio em vez do fetiche do registro e do movimento. Uma paisagem à beira da praia sem o filtro de um aplicativo. Nenhuma hashtag comentando o desempenho sexual de ninguém. A experiência fora do alcance do relato, a vida que não precisa ser classificada e explicada nos limites --sempre mais estreitos-- da linguagem.
Um pouco de silêncio, portanto.
Feliz Natal. Feliz Ano-Novo. E boas férias para mim (deve dar para perceber que estou precisando).

    Petista mostra coragem para peitar as máfias de 'Gotham City' - Barbara Gancia

    folha de são paulo
    Coxinha lembra Erundina
    Alô, paulistada chorona! Sem tomar riscos e demonstrar resiliência não anda. Manda a brasa, coxinha!
    Explique-me se puder, você que faz parte dessa gente bron­zeada e saiu às ruas para pro­testar contra "tudo isso que está aí". Alguém consegue conceber a re­forma de uma quitinete, que seja, sem causar incômodo?
    Estou curiosa: como se pretende romper o muro (rodoanel?) da de­sigualdade que insiste em embru­tecer nossa cidade sem passar por alguns percalços?
    Tudo bem, a imagem é pretensio­sa e talvez exija recursos mentais dos quais, por ora, não dispomos. A visão de uma São Paulo inclusiva, em que uma Paraisópolis possa conviver harmoniosamente com um Morumbi ainda não aterrissou em Congonhas ou desembarcou na rodoviária do Tietê.
    Mas por que saímos às ruas então? Não foi por mudanças? Se existis­sem pesquisas de opinião na época da construção dos aquedutos ro­manos, será que a turma acusaria algum desconforto quanto às obras? "Aumentou o tráfego de bi­gas perto de casa, aquilo está um fe­dor de estrume que só vendo".
    Não é preciso ir tão longe. Basta lembrar da revolta ocorrida quan­do Oswaldo Cruz iniciou o mutirão da vacinação.
    Tudo isto para dizer que o paulis­tano é um desorientado que fala uma coisa e faz outra. Saiu às ruas pedindo melhores serviços, mas quer que isso aconteça num piscar de olhos, como se fosse possível dormir em Perdizes e acordar em Bel Air, só porque quis assim.
    O Minhocão é o monumento maior ao modelo "recauchutagem rápida", dá-lhe um tapa e não se fala mais nisso, de uma cidade sem pla­nejamento de longo prazo e sem modelo do que quis ser quando crescesse, que não ousou passar por mudanças algo dolorosas para endireitar e deu nisto.
    Está na hora de amadurecer. An­dei pensando e estudando o nosso prefeito. E cheguei a algumas con­clusões. Para começar, alguém que consegue desagradar Lula, Paulo Skaf, Serra, Kassab e Geraldo Alck­min ao mesmo tempo deveria rece­ber, o quanto antes, a medalha da Ordem do Rio Branco.
    Ué? O sapo barbudo não disse que seria melhor se Haddad tivesse perdido? Pronto. Sinal que deve ser o cara certo para a missão. E, olha só: o sujeito foi adjunto do Sayad (ponto) inventou os CEUs (fre­quento e sei da importância --mais um ponto), inventou também o Prouni a custo zero para o governo (golaço) e está indo lá enfrentar so­zinho o STF. Quem o chama de bur­raldo e ingênuo só pode estar mal informado, né não?
    Lembro do Brasil intei­ro xingando o Parreira de burro na Copa de 1994. Da classificação até a final. Pois é. Fernando Haddad criou uma controladoria que co­meçou detonando --veja só-- a máfia da construção e do mercado imobi­liário. E carro, numa visão de admi­nistrador que trabalha pensando nos próximos 50 anos, é para ficar na garagem e servir só para fim de semana. Então cada um que segure sua onda por enquanto. Sem o sa­crifício voluntário de cada britâni­co, os aliados não teriam vencido a 2ª Guerra, sabia não?
    São Paulo sofre as consequências de décadas de soluções levianas e pilhagem. E ainda tem de arcar com uma população de bebês chorões, comodistas e hipócritas. Pois eu folgo em saber que alguém tem co­ragem de peitar as máfias que do­minam Gotham City, a despeito da chiadeira, das pesquisas de opinião e de estarmos em véspera de elei­ção. Admiro quem toma riscos e de­monstra resiliência. Manda a bra­sa, coxinha!

    quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

    Rede pública terá teste de HIV pela saliva

    folha de são paulo
    Exame será realizado por 40 ONGs capacitadas pelo governo a partir de março de 2014
    JOHANNA NUBLATDE BRASÍLIAO Ministério da Saúde informou ontem que vai incluir na rede pública de saúde um teste de diagnóstico do vírus HIV por meio de fluidos orais (retirados da gengiva e da mucosa da bochecha).
    Trata-se de um novo tipo de teste de diagnóstico rápido --o resultado sai em 30 minutos -- e funciona como uma forma de triagem, precisando de uma confirmação posterior com outros testes de HIV. O novo exame se soma ao que já é oferecido na rede pública e depende de um furo no dedo.
    Outra diferença do teste por fluidos orais é que ele dispensa a presença de um profissional de saúde.
    A partir de março, o novo teste será usado por 40 ONGs capacitadas pelo Ministério da Saúde, com foco nas populações mais vulneráveis ao HIV: gays, profissionais do sexo, usuários de droga, moradores de rua, presos e travestis e transexuais.
    Segundo Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do ministério, a nova tecnologia é um autoexame, semelhante a um teste rápido de gravidez, que vai ser usado pelas ONGs que já desenvolvem um trabalho com o público-alvo. As primeiras testagens serão acompanhadas pelo ministério, diz.
    A previsão da Saúde é que, a partir do segundo semestre, o teste por saliva desenvolvido pela Fiocruz seja ofertado pelas farmácias da rede pública e a quem quiser. Farmácia privadas poderão vender testes semelhantes.
    ATENDIMENTO
    A nova tecnologia levanta dúvidas em parte do movimento social que atua no combate à Aids, particularmente com relação à demora na recepção, no serviço de saúde, das pessoas com teste positivo.
    "Precisa estar muito certo como vai ser o encaminhamento da pessoa com resultado positivo. Tem Estado que demora meses para a primeira consulta", diz José Hélio Costalunga, que representa as pessoas vivendo com HIV/Aids na CAMS (Comissão Nacional de Articulação com Movimentos Sociais).
    Costalunga diz que não há consenso sobre o tema dentro do movimento social. "Não digo que não pode fazer. Mas é um problema de direitos humanos, a pessoa pode não ter consulta marcada para 30, 45, 60 ou 90 dias."
    MAIS UMA OPÇÃO
    O Ministério da Saúde diz que o novo teste é apenas mais uma opção. "A pessoa que quer receber o aconselhamento [mais aprofundado] tem o direito e pode ir ao centro de saúde. Mas quem quer fazer em casa tem o direito", afirma Barbosa.
    De acordo com o ministério, os testes ofertados nas farmácias trarão uma bula com informações sobre o teste e orientações caso o resultado dê positivo. Haverá, inclusive, um número de telefone para onde ligar em caso de dúvidas.
    Em 2009, o ministério emitiu um alerta sobre testes rápidos que eram realizados por ONGs no Brasil, dizendo que não havia protocolos nacionais sobre essa forma de diagnóstico. Barbosa diz que, à época, havia dúvidas sobre a qualidade dos resultados, receio que foi afastado.
    Em portaria publicada nesta quarta, o ministério atualiza os testes de diagnóstico do HIV. Incluiu, além do exame por fluidos orais, um teste mais rápido para a confirmação do primeiro exame positivo para o HIV.

      José Simão

      folha de são paulo
      Ueba! Flu entra pro Guiness!
      Você pede três pizzas e só chegam duas. O que aconteceu? Derrubaram a Portuguesa! Rarará!
      Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Manchete bombástica: "Vanusa cantará o hino da Copa com tradução do intérprete sul-africano". Rarará! Seria hilário! "Ouviram do Ipiranga". E o intérprete doido: "A Elvira tá de tanga". Vai ser O VÍRUS DO IPIRANGA. O Hino Gardenal! Rarará!
      Morreu o Ronald Biggs! Vai ter o avião da Dilma, o Aerolouco? Vai ter comitiva pro funeral? O Sarney e o Collor vão na comitiva? Ou vai precisar de dez Boeings pra levar todo mundo! Rarará!
      E atenção! A Polícia Federal acaba de descobrir o dono do pó do helipóptero dos Perrella: o PóPó Noel! Rarará! O dono do pó é o PóPó Noel! E as últimas do Fluminense, ops, do Tapetense. Você pede três pizzas e só chegam duas. O que aconteceu? Derrubaram a Portuguesa! Rarará!
      E o site FuteboldaDepressao revela: "O Fluminense vai entrar pro Guiness Book. Como o único time a cair três vezes pra cima!". Rarará!
      Essa foi a pior vitória pro Fluminense! E torno a repetir que STJD quer dizer Sou Tricolor, Já Decidi. E CBF quer dizer Como Beneficiar o Fluminense! E tem gente dando essa ideia: a Portuguesa disputar a série B com a camiseta do Fluminense! Rarará!
      E um amigo postou no Twitter: "Precisava uma Comissão da Verdade no futebol brasileiro". Novidades pra 2014: o Serra Vampiro Anêmico desistiu da candidatura! Mas ele ainda pertencia ao mundo dos vivos? Rarará!
      E o que ele vai ser agora? Presidente do Palmeiras? Miss Bumbum 2014? Porteiro de necrotério? Ou sósia do Mister Burns dos Simpsons? O Serra parece a van da Família Addams. Sempre com aquela nuvenzinha preta em cima! Se o Serra ganhasse pra presidente, não ia ter mais sol no Brasil! Rarará!
      E a partir de hoje só vejo shopping pela TV. Já imaginou encarar escada rolante de shopping? Lotada! Precisa de senha pra subir! Senha 4.079! Aquela de collant de bolinhas e TV de plasma na cabeça, pode subir! E diz que os shoppings já têm chequeporto. Pra cheque voador!
      É mole? É mole, mas sobe!
      O Brasil é Lúdico! Olha essa placa num supermercado de Itaquaquecetuba: "Oferta! Carne bovina resfriada! PICACANHA, 21,50 kg". O cara era gago? Queria ver escrever o nome da cidade: Itaquaquecetuba! Rarará!
      Nóis sofre, mas nóis goza!
      Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

      Haddad vai aprovar parque Augusta

      folha de são paulo
      Haddad vai aprovar parque Augusta
      Prefeito sancionará lei aprovada na Câmara que preserva terreno na Consolação com árvores da Mata Atlântica
      Grupo de manifestantes comemora anúncio feito por vereador durante protesto em frente à prefeitura
      REGIANE TEIXEIRARICARDO BUNDUKYDE SÃO PAULOO prefeito Fernando Haddad (PT) decidiu sancionar o projeto de lei aprovado na Câmara que cria o parque Augusta, na região central.
      Com árvores nativas da Mata Atlântica, como jacarandás e ipês, o terreno de 24.752 m² entre as ruas Augusta, Caio Prado e Marquês de Paranaguá, na Consolação, é alvo de disputa entre moradores da região e construtoras.
      Oficialmente, a prefeitura não confirma a decisão. Mas a Folha apurou que Haddad vai sancionar a lei --a outra opção seria vetá-la. Ele tem até a próxima terça, véspera de Natal, para fazer isso.
      Ontem, um grupo de manifestantes, alguns vestindo maiô e roupas de mergulho, reuniu-se em frente à prefeitura, no centro, para reivindicar a criação do parque.
      Sete deles foram recebidos pelo secretário-adjunto de Relações Governamentais, José Pivatto. Eles apresentaram formas para a prefeitura financiar a medida.
      "Há várias possibilidades, como usar o dinheiro que o [ex-prefeito] Paulo Maluf deve para a cidade ou trocar esse imóvel com a construtora compradora por outro que estiver ocioso e seja da municipalidade", afirmou Célia Marcondes, presidente da Sociedade de Amigos e Moradores do Bairro de Cerqueira César.
      Pivatto disse que a solicitação seria encaminhada ao prefeito, mas logo depois da reunião o grupo já comemorava a aprovação do parque.
      Os manifestantes haviam conversado com o vereador Ricardo Young (PPS), que junto de Nabil Bonduki (PT), falaram com o prefeito sobre o tema anteontem. Segundo Young, Haddad "assegurou que vai sancionar" a lei.
      Numa rede social, Bonduki disse: "O prefeito reafirmou que irá sancionar o projeto, por ser favorável mesmo com as restrições orçamentárias, no entanto, afirmou que deverão ser encontradas formas de mobilizar recursos para a sua implementação".
      PROCESSO
      Em 2008, a área foi declarada como de utilidade pública pelo então prefeito Gilberto Kassab (PSD). Em agosto passado, porém, o decreto venceu sem que a prefeitura tivesse concluído o processo de desapropriação. A Secretaria do Verde alegou, à época, que não havia dinheiro.
      Em novembro, foi divulgada a compra do terreno pelas incorporadoras Setin e Cyrela --que pretendem construir ali duas torres, mantendo parte da área nativa. A Folha não conseguiu localizar representantes das empresas.

        Feliz Natal 2013 - Contardo Calligaris

        folha de são paulo
        Feliz Natal 2013
        Caro Papai Noel, como presente, queria que você interferisse (de leve, claro) na realidade do dia a dia
        Quando eu era criança, os adultos ao meu redor se esforçavam para que acreditasse no Papai Noel, no Natal e no bebê Jesus.
        Um dia, os mesmos adultos começaram a me explicar que, para eu crescer, era melhor que eu não acreditasse mais no Papai Noel, no Natal e no bebê Jesus.
        Mesmo assim, às vezes, embora duvidando que ele entregue meus presentes no dia 25, fico a fim de fazer meus pedidos ao Papai Noel.
        Um amigo leitor, Sergio Beni Luftglas, em dezembro, faz parte das "duas dúzias de papais noéis judeus na praça". Ele me contou que o entusiasmo produzido por sua chegada é cada vez mais breve: "Acho estranho uma pessoa ser tão esperada e depois de pouco tempo já não ser tão especial". Explicação: "É que tem muito Papai Noel na praça... Um em cada esquina... Acho que deviam falar para as crianças: o Papai Noel só tem um... estes que vocês estão vendo são os irmãos dele".
        Seguindo a recomendação de Sergio, não entregarei minha carta para o Papai Noel do shopping. Vou publicá-la aqui mesmo.
        Caro Papai Noel, não quero brinquedos, nem roupa, nem eletrônicos, nem livros --essas coisas, prefiro comprar eu mesmo. Como presente, queria que você interferisse (de leve, claro) na realidade do meu dia a dia.
        1) Gostaria que, ao menos por um tempo (que você escolhe --entre uma semana e um ano, ok?), ninguém possa mais lamentar o fato de que estaríamos todos apaixonados por nós mesmos.
        Desculpe, Papai Noel, mas não aguento mais ler e ouvir críticos culturais improvisados (ou não) castigando nosso "narcisismo". Você dirá: mas não é verdade que somos narcisistas? Claro que é verdade, mas acontece que você é um homem culto, até porque faz séculos que passa o ano lendo ao lado da lareira, lá no polo Norte, enquanto seus gnomos fabricam os brinquedos.
        Você, desde os anos 60, estudou Kernberg, Kohut e Christopher Lasch, e sabe que "narcisista" pouco tem a ver com a história de Narciso apaixonado por sua imagem: somos narcisistas no sentido clínico, ou seja, somos tragicamente inseguros e carentes, eternamente dependentes da apreciação dos outros.
        Vivemos contando os "curtiu" nos nossos posts no Instagram. Longe de pensar só em nós, agimos em função das reações que gostaríamos de provocar nos outros; seduzimos, provocamos, mas raramente seguimos uma necessidade que seja realmente nossa.
        Não adianta: aqui o pessoal fala que somos narcisistas porque morremos de amor por nós mesmos.
        2) Gostaria que, por alguma mágica, todos tivéssemos sempre que fazer a diferença entre o que achamos e o que realmente sabemos. Você já constatou que, sobretudo em psicologia, a gente pode se expressar em linguagem natural --consequência: o pessoal fala qualquer opinião ou preconceito como se fosse ciência, na cara dura.
        Exemplo. Há os que afirmam "a mulher não tem fantasias de prostituição, e os que pensam que ela tem são os últimos (dos) machistas". Você, que se mantém informado e assina as melhores revistas há tempos, sabe (desde os anos 30) que a fantasia de prostituição é mais que trivial --aliás, não só nas jovens mulheres, mas também nos homens. Papai Noel, acredite, discutir com conversa-fiada dá um cansaço tremendo.
        3) Gostaria que, a partir deste Natal, os jovens de 13 anos soubessem quem é Thomas Mann, mesmo se, para isso, eles tivessem que ignorar quem é Lady Gaga.
        4) Gostaria que nenhum professor, de primário, secundário ou terciário, ganhasse presente de Natal, se ele ou ela disser mais uma vez para seus alunos que dar um Google num tema significa "fazer pesquisa".
        5) Gostaria que as pessoas pensassem mais em promover sua liberdade e menos em limitar a liberdade dos outros. Tipo: "Eu sou contra o casamento gay", tudo bem, não seja gay e, se for, não case. Qual é o problema?
        6) Gostaria que os adultos parassem de tentar ser (ou parecer) adolescentes e, com isso, deixassem aos adolescentes a chance de se tornarem adultos. Por que os adolescentes cresceriam, se eles são objetos de inveja dos adultos?
        A carta continua; tem 78 itens (a generosidade do Papai Noel é conhecida), alguns dos quais retomarei em outras colunas. Mas eis como termina:
        76) Gostaria que existisse um serviço da Tim para cancelar linhas de dados (e, existindo, que respondesse).
        77) Gostaria que o Brasil parasse de ser o país mais caro dos que eu conheço.
        78) Enfim, gostaria que todos, neste Natal, recebessem de você ao menos um presente que não sabiam que eles desejavam.

        O crime da lei - Janio de Freitas

        folha de são paulo
        O crime da lei
        Não há candidato, seja a que nível institucional for, sem atividade eleitoral antes de 6 de julho de 2014
        Lançar os pontos básicos de um programa de governo e, na mesma ocasião, negar sua candidatura, que "dependerá de uma decisão mais ampla do partido", em condições normais poderia ser visto como ato de hipocrisia, acesso de primarismo, a mineirice em seu pior sentido. Mas a atitude de Aécio Neves não precisa ser vista senão como caracterização, bastante explícita para não haver negação nem dúvida, da zorra predominante nas relações entre a lei eleitoral, tribunais eleitorais, políticos e partidos.
        Aécio Neves e Eduardo Campos podem atribuir pretextos à vontade para os eventos que os levam a girar pelo país. Os eventos têm todas as características de agenda eleitoral, e nenhuma outra. Aos muitos atos que justificam a presença presidencial, Dilma Rousseff junta outros tantos que só explicam sua presença pelo possível efeito eleitoral.
        Com diferenças imprecisas e insignificantes entre as largadas dessas corridas, vê-las se banalizou desde lá do primeiro semestre. O calendário oficial para o processo das eleições de 2014, no entanto, só permite campanha eleitoral a partir de 6 de julho do próximo ano. O que os eleitores veem e ouvem, os juízes eleitorais e os procuradores da Justiça Eleitoral também ouvem e veem. A diferença é que os primeiros não têm o encargo das providências indicadas em lei, e os últimos têm e não as tomam --com uma ou outra exceção em algum Estado, por provável motivação mais partidária ou pessoal do que legal.
        Não há na zorra, porém, um lado errado. Todos os envolvidos o são. O erro gerador dos demais está na lei. Não há motivo algum para sujeitar à acusação de "propaganda eleitoral antecipada" a atividade explícita de pré-candidaturas antes de qualquer data. Quem pretenda candidatar-se tem mesmo que sair em busca de apoios no partido e de bases no eleitorado, de alianças políticas e de recursos.
        Muito dessa atividade exige atitudes típicas de campanha. Mas quem as adota, por mais que as batize com pretextos, expõe-se ao Ministério Público Eleitoral e à Justiça idem, em processos que, não é incomum, só vão gerar consequências penalizantes depois de anos. Até com cassações de mandatos que, além do tumulto político, desrespeitam a vontade do eleitorado, que deu os votos vencedores sem sequer saber do risco de perda de mandato, por mera "propaganda antecipada" entre tantas semelhantes e não punidas.
        Não há candidato, seja a que nível institucional for, sem atividade eleitoral antes de 6 de julho. O que torna muito fácil a acusação judicial de propaganda antecipada. E, daí, esta outra facilidade, de utilização não propriamente rara: iniciativas de ação judicial originárias de partidarismo ou de idiossincrasia pessoal.
        Prazos e modos para a propaganda de rua, delimitação para uso de TV, rádio e jornais, isso é necessário. Evita o uso abusivo de poder econômico e, de quebra, poupa-nos de mais poluição visual e sonora. Mas pretender que candidatos políticos não façam a política das candidaturas leva a hipocrisia, violação da lei, omissões da Justiça Eleitoral e, eventualmente, manobras discriminatórias. Exceto o último desses efeitos, os demais estão bastante visíveis, não só em pretendidas candidaturas à Presidência.
        EXPLICA-SE
        A expressão Justiça Desportiva também significa justiça por esporte.