domingo, 22 de dezembro de 2013

Antonio Prata

folha de são paulo

Crônica de Natal

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Minha mulher sugere colocarmos luzinhas coreanas no chapéu de sol, em frente de casa. Eu resmungo qualquer coisa. Ela percebe a má vontade e se incomoda. "Que foi?!", pergunto, com aquela surpresa dissimulada que nós, homens, lançamos quando queremos desacreditar as reações femininas, colocando-as na conta dos instáveis vapores uterinos –não na das nossas irritantes atitudes. Ela saca a estratégia e põe as cartas na mesa: diz que eu torci o nariz quando chegou com o pinheirinho, sábado passado, que foi de muito mau humor que a ajudei a pendurar os enfeites, domingo, e agora fico fazendo corpo mole diante das luzinhas coreanas. Por fim, me acusa: "Você é ridículo: você é contra o Natal!".
Sou? Não queria. Me parece mesmo ridículo ser "contra o Natal", digo que não lembro de cara feia nenhuma ao decorarmos o pinheiro e reafirmo que meu problema é só com as luzinhas. Ela pergunta o que há de errado com elas. Levanto o indicador, pronto para fazer um discurso inflamado, mas fico mudo como a estátua de Duque de Caxias. O que há de errado com as luzinhas? Penso em alegar desperdício de energia. Teria, é verdade, um argumento sólido –ou líquido, se apelasse pro degelo das calotas–, mas estaria mentindo. Não é uma questão ecológica.
"Você não acha bonito as árvores todas iluminadas?" Sigo calado –agora, já com o indicador recolhido ao bolso– e percebo que acho bonitas, sim, essas árvores luminosas. Dão às noites de dezembro um ar vibrante –vamos até a farmácia comprar fralda e parece que estamos indo a uma festa. Daí pra vestir no chapéu de sol a polaina de lampadazinhas já são outros quinhentos.
"Qual o problema?" –ela insiste. "É que nem o Halloween? Vai dizer agora que é 'uma festa importada'?" Não, de jeito nenhum. Halloween, admito: sou contra. Não por nacionalismo, mas por senso de ridículo. Aquelas abóboras e caveiras, entre nós, soam tão naturais como as perucas nos carecas. Já o Natal é uma festa cristã, somos um país majoritariamente cristão e mesmo que a data tenha virado sinônimo de comércio, eu, com meu Nike nos pés e iPhone no bolso, não teria muita moral pra um discurso franciscano.
Não, eu não sou contra o Natal. Tenho um amigo, o Maurício, que é. Contra o Natal, o Carnaval, abraços no oi e no tchau e qualquer outra manifestação –falsa, segundo ele– e afeto ou felicidade. Ele tem seu ponto, mas sou diferente do Maurício. Sou coração mole. Fico feliz, no mês de agosto, quando chega o cartão do meu dentista desejando feliz aniversário. Por que, então, ó pai, fiz cara feia pro pinheirinho, resmunguei pra pendurar enfeite, me recuso a enrolar no chapéu de sol as luzinhas coreanas?
Não sei, mas minha mulher parece ter uma teoria: "Você é um metido! Você se acha superior, é isso! Não quer 'brincar de Natal' só porque tá todo mundo brincando! Fica falando mal da direita, mas age que nem um aristocrata!". Calúnias! Calúnias! Calúnias que tento calar, agora, do alto deste chapéu de sol, com 20 metros de luzinhas coreanas (que, diga-se de passagem, são "made in China") enroladas no ombro. Só torço para não cair daqui. Não quero que soe aristocrático, mas preferia uma morte um pouquinho menos ridícula.
antonio prata
Antonio Prata é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles "Meio Intelectual, Meio de Esquerda" (editora 34). Escreve aos domingos na versão impressa de "Cotidiano".

Marcelo Gleiser

folha de são paulo
Homenagem ao fracasso
Todo poeta, todo pintor, todo cientista coleciona um número bem maior de fracassos do que sucessos
Numa sociedade em que o sucesso é almejado e festejado acima de tudo, onde estrelas, milionários e campeões são os ídolos de todos, o fracasso é visto como algo embaraçoso e constrangedor, que a gente evita a todo custo e, quando não tem jeito, esconde dos outros. Talvez não devesse ser assim.
Semana passada, li um ensaio sobre o fracasso no "New York Times" de autoria de Costica Bradatan, que ensina religião comparada em uma universidade nos EUA. Inspirado por Bradatan, resolvi apresentar minha própria homenagem ao fracasso.
Fracassamos quando tentamos fazer algo. Só isso já mostra o valor do fracasso, representando nosso esforço. Não fracassar é bem pior, pois representa a inércia ou, pior, o medo de tentar. Na ciência ou nas artes, não fracassar significa não criar. Todo poeta, todo pintor, todo cientista coleciona um número bem maior de fracassos do que de sucessos. São frases que não funcionam, traços que não convencem, hipóteses que falham. O físico Richard Feynman famosamente disse que cientistas passam a maior parte de seu tempo enchendo a lata de lixo com ideias erradas. Pois é. Mas sem os erros não vamos em frente. O sucesso é filho do fracasso.
Tem gente que acha que gênio é aquele cara que nunca fracassa, para quem tudo dá certo, meio que magicamente. Nada disso. Todo gênio passa pelas dores do processo criativo, pelos inevitáveis fracassos e becos sem saída, até chegar a uma solução que funcione. Talvez seja por isso que o autor Irving Stone tenha chamado seu romance sobre a vida de Michelangelo de "A Agonia e o Êxtase". Ambos são partes do processo criativo, a agonia vinda do fracasso, o êxtase do senso de alcançar um objetivo, de ter criado algo que ninguém criou, algo de novo.
O fracasso garante nossa humildade ao confrontarmos os desafios da vida. Se tivéssemos sempre sucesso, como entender os que fracassam? Nisso, o fracasso é essencial para a empatia, tão importante na convivência social.
Gosto sempre de dizer que os melhores professores são os que tiveram que trabalhar mais quando alunos. Esse esforço extra dimensiona a dificuldade que as pessoas podem ter quando tentam aprender algo de novo, fazendo do professor uma pessoa mais empática e, assim, mais eficiente. Sem o fracasso, teríamos apenas os vencedores, impacientes em ensinar os menos habilidosos o que para eles foi tão fácil de entender ou atingir.
Claro, sendo os humanos do jeito que são, a vaidade pessoal muitas vezes obscurece a memória dos fracassos passados; isso é típico daqueles mais arrogantes, que escondem seus fracassos e dificuldades por trás de uma máscara de sucesso. Se o fracasso fosse mais aceito socialmente, existiriam menos pessoas arrogantes no mundo.
Não poderia terminar sem mencionar o fracasso final a que todos nos submetemos, a falha do nosso corpo ao encontrarmos a morte.
Desse fracasso ninguém escapa, mesmo que existam muitos que acreditem numa espécie de permanência incorpórea após a morte. De minha parte, sabendo desse fracasso inevitável, me apego ao seu irmão mais palatável, o que vem das várias tentativas de viver a vida o mais intensamente possível. O fracasso tem gosto de vida.

    José Simão

    folha de são paulo
    Retrospectiva 2013! ESQUECI!
    E o melhor kit de Natal: um CD do Luan Santana mais um litro de álcool, mais uma caixa de fósforos!
    Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Bomba da semana: "Vanusa cantará o hino da Copa com tradução do intérprete sul-africano". Vai ser o VÍRUS DO IPIRANGA! Rarará! E o pensamento do dia: "é melhor um peru na mão do que dois na gôndola do Pão de Açúcar".
    E o melhor kit de Natal: um CD do Luan Santana mais um litro de álcool, mais uma caixa de fósforos! BUM! E um tuiteiro: "Gostaria que na cela dos mensaleiros tivesse um alto-falante tocando dia e noite a música da Simone, Então é Natal'". Isso fere a Convenção de Genebra. Não tem pena de morte no Brasil! Rarará!
    E sabe o que o Papai Noel de shopping pediu pro Papai Noel? Um emprego fixo! Aliás, eu tenho uma fotomontagem com o Sarney de Papai Noel de shopping com as crianças gritando e chorando. Tadinhas das crianças, vão odiar o Natal pra sempre!
    E uma amiga foi transar com um Papai Noel de shopping e voltou revoltada: não encolheu a barriga e nem tirou as botas! E sabe como o Papai Noel dá risada em Brasília? HÔ HÔ HÔubamos muitos!
    E o meu presente de Natal pro Fluminense: o "Vire a Mesa", da Estrela. E o meu presente de Natal pro Zé Dirceu: um par de sandálias Havaianas listradas de preto e branco. Verão na Papuda.
    E o Serra e o Alckmin lançaram um novo panetone: Propinetone! Panetone fabricado com farinha de propina. Distribuído nos metrôs de São Paulo! E finalmente a Polícia Federal descobriu o dono do pó do helipóptero dos Perrella: o Pópó Noel! Rarará!
    E já saiu o corno Papai Noel: aquele que vai embora, mas volta por causa das crianças! E o Papai Noel é gay: vive rodeado de viadinhos, usa as botinhas da Carla Perez, dá presente pros meninos e nos Estados Unidos é chamado de SANTA! Rarará.
    E as retrospectivas? "Retrospectiva 2013! Só engordei!". "Retrospectiva 2013! ESQUECI!". É melhor esquecer mesmo. 2013 foi o ano do P: Protesto, Paulista, Propina, Papuda e Putaria!
    O Brasil é Lúdico! Correu na internet um vírus: "O seu cartão foi cronado". O hacker não fez o Enem! "Cronado em Frorianóporis na estreia do Crô'!". Rarará. E na tela do "Cidade Alerta": "Presos queimam os colhões em motim". Rarará. Corta pra mim! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

      Suzana Singer - Folha Ombudsman

      folha de são paulo
      Manchetes que se dissolvem
      Sem apuração sólida, títulos que tentam prever o futuro são contestados pelas fontes da informação
      Jornais não foram feitos para prever o futuro, nem em final de ano. Duas manchetes recentes da Folha que tentaram adivinhar o que vai acontecer estão sendo, com razão, duramente contestadas.
      A primeira delas, do domingo passado, dizia que "Eleição faz Alckmin dobrar gasto mensal com propaganda". A outra, de terça-feira, era "Delator de esquema de espionagem vai pedir asilo ao Brasil".
      À primeira vista, os dois títulos parecem até óbvios. Ninguém duvida que o governo estadual --assim como o federal-- vá concentrar os gastos com publicidade no primeiro semestre, até porque a legislação proíbe anunciar nos meses que antecedem a eleição.
      No caso do ex-espião Edward Snowden, é fácil deduzir que ele gostaria de viver aqui, já que ele escreveu uma carta ao povo brasileiro e há um abaixo-assinado pedindo ao governo para dar-lhe asilo.
      Uma análise detalhada das duas reportagens mostra, no entanto, que conclusões lógicas não são suficientes para sustentar uma manchete que não se desmanche no ar.
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      No caso de Alckmin, a Folha cravou que ele vai dobrar o gasto mensal com propaganda em 2014, quando tentará reeleger-se. O dispêndio com publicidade saltaria de R$ 16,1 milhões por mês (2013) para R$ 31,5 milhões (2014). Para chegar a esse resultado, o jornal:
      1) dividiu o que foi gasto até 12 de dezembro deste ano por 12 meses;
      2) dividiu o que foi orçado em 2014 por seis meses, levando em consideração que é proibido anunciar de julho a outubro.
      As duas contas estão equivocadas. No cálculo do montante de 2013, não entraram as despesas a serem pagas até o fim deste mês --entre as quais uma campanha do governo que está sendo veiculada no intervalo do "Jornal Nacional".
      No segundo passo, o jornal assumiu que Alckmin vai torrar tudo no primeiro semestre de 2014, sem deixar verba para os meses pós-eleição, o que o governo nega que pretenda fazer.
      "Sabemos, por apuração nossa, que o governo estadual planeja concentrar no primeiro semestre o investimento em propaganda. Uma das fontes disse que o plano é gastar o máximo possível até abril", afirma a editoria de "Poder".
      Essa apuração em "off' não está na reportagem e é difícil de ser provada, porque se refere a algo que o governo pretenderia fazer.
      A reportagem sobre Edward Snowden partia da "Carta Aberta ao Povo do Brasil", obtida com exclusividade pela Folha, em que ele diz que gostaria de ajudar as investigações brasileiras sobre a espionagem dos EUA, mas não consegue porque não tem um lugar permanente para viver.
      Na carta, Snowden não faz um pedido de asilo --segundo a reportagem, para não criar um constrangimento com o governo russo, que lhe dá abrigo até 2014.
      O jornalista Glenn Greenwald, que deu o furo sobre as ações da Agência de Segurança Nacional dos EUA, tuitou: "A grande imprensa é incapaz de ler uma carta curta antes de fazer uma manchete falsa a respeito? Não é tão difícil...".
      A editoria de "Mundo" diz que baseou a manchete em uma apuração em "off", não na carta, mas isso não estava claro no texto.
      O jornal poderia ter evitado esse desgaste se destacasse no título o fato de Snowden ter oferecido ajuda para apurar crimes de espionagem cometidos contra o Brasil. Era um ponto importantíssimo, polêmico e... estava na carta.
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      Os casos acima se somam a outras manchetes questionadas ao longo do ano --a de maior repercussão foi "Prefeito sabia de tudo, diz fiscal preso, em gravação" (8/11).
      Fica a impressão de que, para fazer barulho, a Folha está subindo o tom das manchetes. Não vale a pena. Nenhum jornal de qualidade deve trocar exatidão por repercussão.

      Janio de Freitas

      folha de são paulo
      Para ficar quites
      Ficamos quites com as desfeitas da França de Hollande e de seu antecessor ao Brasil
      O melhor da compra dos caças suecos não está nas condições do negócio nem nas conveniências do avião, já muito conhecidas. Está no momento em que foi comunicada. Foi só o presidente francês François Hollande dar as costas, encerrada a vinda a Brasília com ofertas e um chefão da fábrica do caça Rafale, e Dilma Rousseff noticiou a vitória dos suecos. Ficamos quites com as desfeitas da França de Hollande e de seu antecessor Sarkozy ao Brasil.
      Não foi a única retribuição dada ao medíocre Hollande. Mas a outra, por acaso concomitante com aquela, aplica-se também a todos os que aqui ridicularizaram a iniciativa de Dilma e do então ministro Antonio Patriota, das Relações Exteriores, de apresentar à ONU uma proposta de resolução motivada pela espionagem dos Estados Unidos: estender às comunicações digitais, em todo o mundo, os direitos de proteção já reconhecidos a governos, cidadãos, empresas e entidades.
      O "socialista" Hollande não permitiu a adesão da França à proposta. Só a conservadora Angela Merkel, entre os governantes citados na espionagem denunciada, teve a dignidade de juntar-se a Dilma. A resolução foi aprovada por consenso da Assembleia Geral, na quarta-feira, sem sequer precisar de votação. A França de Hollande teve de se curvar. Aqui, para conhecimento (ligeiro) desse êxito, só esmiuçando o noticiário.
      Apesar de nem lembrado, foi uma grande vitória também do denunciador Edward Snowden, extensiva ao jornalista Glenn Greenwald, que o ajudou na revelação de injustificáveis espionagens americanas. A nova consequência das denúncias dá-se, aliás, em momento de certa confusão a propósito de asilo de Snowden no Brasil. Minha leitura da sua carta aos brasileiros não vê ali uma proposta de asilo no Brasil em troca de revelações. Seu impedimento de atender a pedidos de senadores brasileiros, "até que um país conceda asilo permanente", aplica-se a qualquer país. E, a meu ver, reflete muito menos um possível pedido do que uma realidade conhecida: mesmo na Rússia, seu asilo provisório está sob a condição de que não revele documentos da espionagem americana.
      Daí que não tenha havido recusa do governo brasileiro a asilo de Snowden. Nem decisão negativa de Dilma Rousseff a respeito, só a ela cabendo decidir. A campanha para concessão do asilo está crescendo, mas o fator decisivo, não só no Brasil, será outro. Como ninguém sabe o que Snowden tem ainda a revelar, prevalece o temor de que grandes novidades provoquem reações extremadas dos Estados Unidos. Não é de pedido e concessão que Snowden depende, mas de encontrar, com seus coadjuvantes, solução para os medos que provoca.
      A propósito, a eliminação do caça americano, na compra brasileira, está identificada por muitos como represália à espionagem de e-mails de Dilma. Do ponto de vista moral não faz muita diferença, mas outra razão fixou-se desde longe: os americanos não são confiáveis. Por mais que a Boeing ofereça garantias de transferência de tecnologia, acima dela estará sempre o governo americano, para impor limitações e proibições quando queira, por motivos políticos e não necessariamente reais. Com a democracia sueca não há risco.
      SEM ESQUECER
      João Goulart recebeu de volta, simbolicamente, o seu mandato de presidente, por proposta dos senadores Randolfe Rodrigues e Pedro Simon. Em 2 de abril de 1964 o Congresso declarou vaga a Presidência, por abandono alegado pelo senador paulista Auro de Moura Andrade. Mas era mentira, Jango não saíra do país. Houve, portanto, dois golpes de Estado em 64: o militar e o parlamentar. Este, ainda mais desprezado pela historiografia do que o outro, e isentados os seus articuladores de toda consequência, ainda que apenas como nódoa biográfica. Lá está Moura Andrade, por exemplo, em retrato presidencial no Senado.
      Jango ressurge por efeito da passagem do Brasil de "país sem memória" a "país que não esquece". Melhor: que não deixam esquecer. Não é o caso só dos desaparecimentos e torturas. Estão aí, outra vez, as mortes de Jango e de Juscelino. O que torna mais plausíveis as suspeitas de suas causas é sempre o mesmo: a ideia de investigá-las, para chegar-se a uma palavra final em qualquer sentido, levanta a inquietação de pessoas que se ligaram à ditadura, e procuram depreciar qualquer esforço de esclarecimento. Por certo, têm os seus motivos. E outros têm memória.

      Mauricio Stycer

      folha de são paulo
      O segredo das apresentadoras
      Sabrina Sato é a mais nova integrante do clube de que Fernanda Lima foi a revelação em 2013
      A notícia da semana nos bastidores da televisão foi a saída de Sabrina Sato do "Pânico", na Band, em direção à Record. Mais do que uma troca de emissora, o que se anuncia é a entrada da moça em um novo mundo, o das apresentadoras.
      Ao deixar a equipe do humorístico, onde era uma entre dez, e ganhar um programa para chamar de seu, Sabrina ingressa em um clube que já foi mais exclusivo, mas ainda representa o nirvana para quem trabalha no meio.
      Centro das atenções, o apresentador, até mesmo na RedeTV!, ganha bons salários, participação em ações de merchandising, convites para estrelar publicidade e, quase automaticamente, convites para o Castelo de "Caras" e outras oportunidades midiáticas.
      Diferentemente de outras ocupações no mundo da TV, que exigem conhecimentos e habilidades específicos, para ser apresentador não é necessário saber nada que está nos livros ou nas escolas. O conjunto de atributos cobrado destas figuras é altamente subjetivo, e é aí que mora o perigo.
      O que faz de alguém um bom apresentador? Normalmente, estes profissionais são avaliados, e prosperam ou fracassam, em função de qualidades como carisma, simpatia, poder de comunicação, raciocínio rápido, beleza, voz...
      Outra questão, também difícil de responder: como sabemos se alguém tem o talento necessário para a função? Não dá para descobrir sem ver o candidato ao cargo em ação.
      Neste quesito, Sabrina leva uma vantagem sobre outras jovens apresentadoras que caíram de paraquedas no meio de um auditório, como Ana Hickmann, por exemplo, que um ano depois de estrear na TV já comandava um programa.
      Depois de dez anos no "Pânico", Sabrina pode dizer que já acumulou boa quilometragem em matéria de televisão. Conquistou um lugar no programa, inicialmente, por conta da beleza, mas cresceu ao mostrar total desenvoltura diante dos mais variados constrangimentos.
      Ao contrário de outros integrantes da trupe, não fazia imitações nem interpretava textos. Inventou uma personagem --a "mestiça burra"-- mas, ainda assim, sempre conseguiu transmitir uma ideia de autenticidade.
      A trajetória de Fernanda Lima, talvez a revelação do ano como apresentadora, ensina alguma coisa neste terreno pantanoso, eu sei, que define o talento deste tipo de profissional. Começou como modelo, como quase todas as candidatas a um posto na TV nos dias de hoje, mereceu uma chance na MTV, estudou jornalismo, foi atriz em novelas da Globo, apresentadora de quadros em programas da emissora, até ser escalada, em 2009, para comandar o "Amor & Sexo".
      Fernanda, nitidamente, evoluiu ao longo dos anos em que está à frente deste programa. Diante de uma mesa de convidados, normalmente formada por figuras mais experientes do que ela, a apresentadora demorou a mostrar que é a dona da situação, a pessoa que dá ritmo e graça à atração. Hoje, Fernanda canta, dança, faz piadas, domina absolutamente o seu auditório.
      Tentei, enfim, mostrar por que vejo com bons olhos a chegada de Sabrina Sato a este mundo. Não houve espaço, porém, para discutir outro tema correlato. Qual é a hora de o apresentador parar, se aposentar? O tema é ainda mais espinhoso dado o tamanho da fila. Fica para uma próxima.

        Ferreira Gullar

        folha de são paulo
        Confusão no domingo
        Cada qual tem seus hábitos e manias; se quer que o namoro dure, o melhor é viver cada um no seu canto
        Eles são namorados, mas moram em casas separadas. Ele no Leme, ela em Botafogo. É que, como já não são jovens, cada qual tem seus hábitos e manias, como querer de repente ficar só, gostar de programas de televisão diferentes, enfim, se quer que o namoro dure, o melhor é viver cada um no seu canto.
        Disso resulta que, em vez de marido e mulher, continuam namorados. Telefonam-se todos os dias, mas nem sempre se encontram. Quando se encontram é para passear, jantar ou ir ao cinema, em geral aos domingos e feriados.
        Ele lê para ela ao telefone o nome dos filmes que estão passando, a que hora e em qual cinema, e se encontram lá. Depois vão tomar um lanche, ou vai um para a casa do outro que ninguém é de ferro. Tudo certinho, como convém aos casais que não gostam de dramas nem de arranca-rabos.
        E assim foi que marcaram para ir ao cinema naquela tarde de domingo. A escolha do filme foi feita, como de hábito, e já que o cinema era mais perto da casa dela que da dele, encarregou-se ela de comprar os ingressos.
        Ele almoçou na hora de sempre e ligou a televisão para a última corrida do ano da Fórmula 1, particularmente interessante porque era a despedida de Felipe Massa da equipe da Ferrari. Depois lembrou-se que não ia dar tempo de ver o fim da corrida, pois prometera chegar ao cinema uns 20 minutos antes de começar o filme.
        Fez os cálculos e concluiu que, se saísse de casa às 15h15, chegaria a tempo. Por isso, às 15h, começou a trocar de roupa, e na hora prevista estava já na rua tomando um táxi que o levaria ao cinema.
        Chegou um pouco antes do que previra, pois o trânsito estava fluente, mais do que de costume. Ela ainda não havia chegado, conforme deduziu depois de atravessar a sala de espera e entrar na livraria que há ali. Estranhou, mas ficou vendo os livros para fazer hora. Abriu um deles, leu alguma coisa e, depois de um tempo, foi sentar-se na única cadeira que ainda estava livre, na entrada da lanchonete. Havia gente demais, formara-se uma fila enorme para ver não sabia qual filme. Mas ela não chegava!
        Consultou o relógio, já estava na hora de entrar na sala de projeção, ela nada. Isso nunca havia acontecido, ela sempre chegava antes. Foi então que se lembrou de que, ao sair do apartamento, ao entrar no elevador, ouviu um telefone tocar, poderia ser o seu? Entrou no elevador e seguiu adiante. Seria ela? Teria acontecido alguma coisa e ela tentara avisar? E pior é que ele não usa celular, só o telefone fixo de casa. Não é nada disso, pensou, ela deve estar chegando.
        Mas a aflição não cedia. Viu um rapaz com um celular e pediu a ele para fazer uma ligação. Ligou para a casa dela e ninguém atendeu. Ela tem celular, mas ele não sabia o número. Aflito, foi até a porta de entrada para esperá-la. Ficou ali uns dez minutos e nada. Decidiu tomar um táxi, ir até em casa e de lá telefonar para o celular dela. Foi, ligou, ela atendeu. "Estou aqui no cinema, acabei de chegar". E ele: "Mas já passam das 16 horas, o filme já começou. Você chegou depois de ter começado? Não acredito!".
        E ela: "Já vou para aí", disse e desligou. Ele ficou perplexo, mas logo tomou uma decisão: desceu, pegou um táxi e voltou para o cinema. Encontrou-a na lanchonete: "Você está maluco. Por que veio tão cedo para o cinema? O filme só começa às cinco, são quatro e meia".
        "É, você tem razão. Estou ficando matusquela. Meti na cabeça que o filme começava às quatro. Como você não chegou, fui para casa e de lá te liguei". E ela: "Você estava em casa?! Pensei que estivesse na porta do cinema me esperando! Que confusão!".
        Riram e decidiram entrar na sala de cinema. Sentaram-se rindo da encrenca em que se haviam metido, até que as luzes se apagaram e na tela surgiram os anúncios. Depois a projeção de um trailer que não terminava nunca e, de repente, a luz acendeu de novo, cessou a projeção. Passaram-se os minutos e nada. Até que surgiu um funcionário do cinema e anunciou que o projetor dera um defeito, a sessão estava cancelada.
        Sem dúvida alguma, aquele não era um dia de sorte do casal.