domingo, 5 de janeiro de 2014

Janio de Freitas

folha de são paulo
A campanha da moda
Todo o falatório em torno de PIB de 1% ou de 2% nada significa diante da queda do desemprego a apenas 4,6%
Quem não discute gosto anda na moda, que é um modo de não ter gosto (próprio, ao menos). Até por solidariedade aos raros que não se entregam à moda eleitoreira de dizer que 2013 foi um horror brasileiro e 2014 será ainda pior, proponho uns poucos dados para variar.
Com franqueza, mais do que a solidariedade, que tem motivo recente, é uma velha convicção o que vê importância em tais dados. Um exemplo ligeiro: todo o falatório em torno de PIB de 1% ou de 2% nada significa diante da queda do desemprego a apenas 4,6%. Menor que o da admirada Alemanha. Em referência ao mesmo novembro (últimos dados disponíveis a respeito), vimos as manchetes consagradoras "EUA têm o menor desemprego em 5 anos: cai de 7,3% para 7%". O índice brasileiro, o menor já registrado aqui, excelência no mundo, não mereceu manchetes, ficou só em uns títulos e textos mixurucas.
Mas o índice não pode ser positivo: "O índice caiu porque mais pessoas deixaram de procurar emprego". Se mais desempregados conseguiam emprego, como provava o índice antes rondando entre 5,6% e 5,2%, restariam, forçosamente, menos ou mais desempregados procurando emprego? PIB horrível, falta de ajuste fiscal, baixa taxa de investimentos, poucas privatizações, coitado do país. E, no entanto, além do emprego, aumento da média salarial, a ponto de criar este retrato do empresariado de São Paulo: a média salarial no Rio ultrapassou a dos paulistas.
A propósito: com as alterações do Bolsa Família pelo Brasil sem Miséria, retiraram-se 22 milhões de pessoas da faixa dita de pobreza extrema. Com o Minha Casa, Minha Vida, já passam de 1 milhão as moradias entregues, e mais umas 400 mil avançam para a conclusão neste ano. A cinco pessoas por família, são 7 milhões de beneficiados com um teto decente, água e saneamento.
Sobre dados assim e 2014, escreve o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale: "Infelizmente, veremos mais promessas de ampliação do Bolsa Família e do salário mínimo, que, no frigir dos ovos, é o que tende a reeleger a presidente". Da qual, aliás, acha que em 2014 "deverá se apequenar ainda mais". Da mesma linhagem de economistas --a que domina nos meios de comunicação--, Alexandre Schwartsman dá à política que produziu aqueles resultados o qualificativo de "aposta fracassada", porque só deu em "piora fiscal, descaso com a inflação e intervenção indiscriminada, predominando a ideologia onde deveria governar o pragmatismo".
"Infelizmente" e "aposta fracassada" para quem? Para os 22 milhões que saíram da pobreza extrema, os 7 milhões que receberam ou receberão um teto em futuro próximo, os milhões que obtiveram emprego, os milhões ainda mais numerosos que tiveram melhoria salarial?
E, claro, ideologia existe só no que se volta para os problemas e possíveis soluções sociais. Quem se põe de costas para o que não interesse à elite financeira e ao poder econômico, não o faz por ideologia, não. Por esporte, talvez.
Foi a esse esporte, quando praticado orquestradamente nos meios de comunicação, que Dilma Rousseff se referiu como uma "guerra psicológica", e gerou equívocos críticos. Não se trata de "expressão antidemocrática", nem própria dos tempos da ditadura. É a denominação, técnica ou científica, como queiram, de métodos de hostilidade não militares, diferentes das campanhas por não serem declarados em sua motivação e seus fins, e buscando enfraquecer o adversário por variados tipos de desgaste.
Não é o caso da pregação tão óbvia no seu propósito de prejudicar eleitoralmente Dilma Rousseff. E prática tão evidente que, já no início de artigo na Folha, o empresário Pedro Luiz Passos definiu-a como "o negativismo que permeia as análises sobre a economia brasileira, em contraste com a percepção de bem-estar especialmente da base da pirâmide de renda". Ou seja, há um negativismo, intenção de concentrar-se no negativo, real ou manipulado, e a desconsideração do que deu à "base da pirâmide" social alguma percepção de bem-estar.
O elemento essencial na existência de uma nação é o povo. Não é o território, não é o Estado, ambos inexistentes em várias formas de nação ao longo da história e ainda no presente (os curdos, diversos povos nômades, povos indígenas). O PIB e os ajustes feitos ou reivindicados nunca fizeram nada pelos brasileiros que são chamados de povo. A cliente do PIB, dos gastos governamentais baixos e dos juros bem altos são os que compõem a mínima minoria dos que só precisam, para manter o país, do povo.

    Áreas indígenas dependerão de consulta a nove ministros

    folha de são paulo
    Áreas indígenas dependerão de consulta a nove ministros

    Projeto do Ministério da Justiça muda processo para demarcação de terras
    Funai mantém controle, mas terá que garantir participação de outros órgãos, como queriam os aliados dos ruralistas
    MARINA DIASDE SÃO PAULOAs mudanças que o governo quer fazer nas regras para demarcação de terras indígenas no país submetem a criação de novas áreas à avaliação de nove ministérios, reduzindo o controle que a Funai (Fundação Nacional do Índio) tem sobre o processo.
    O assunto está em debate no governo desde o ano passado e agora parece estar perto de uma definição. Uma portaria com alterações no decreto que regulamenta a questão desde 1996 foi submetida pelo Ministério da Justiça a consultas e pode ser publicada nos próximos meses.
    Se for mantida como está, a portaria obrigará a Funai a ouvir outros órgãos sempre que quiser demarcar ou ampliar terras para uso exclusivo de comunidades indígenas. Se não houver acordo entre eles, caberá ao Ministério da Justiça o papel de mediador.
    No início de dezembro, o documento foi enviado para consulta de entidades indigenistas, órgãos do governo e associações de produtores rurais. O Ministério da Justiça promete oficinas para discutir as mudanças com índios, parlamentares e fazendeiros.
    "O resultado da portaria veio do debate com vários órgãos que serão novamente ouvidos", disse à Folha o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. "Poderemos incorporar sugestões e, em seguida, publicaremos a portaria."
    Existe mais de uma centena de áreas indígenas em estudo na Funai atualmente. Elas se transformaram no ano passado num foco de atrito político entre o governo, os defensores dos índios e o agronegócio, que vê na expansão das terras indígenas uma ameaça aos seus interesses.
    O ministro afirma que os objetivos das mudanças são "reduzir a judicialização e agilizar a demarcação de terras indígenas", mas a portaria foi recebida com críticas em dois campos do debate.
    PARALISIA
    Para o ex-presidente da Funai Márcio Santilli, coordenador do ISA (Instituto Socioambiental) em Brasília, o texto "burocratiza e politiza" a formação dos grupos de trabalho encarregados de examinar as propostas de criação de áreas indígenas, o que deve "paralisar a identificação e delimitação das terras".
    De acordo com a portaria, os integrantes desses grupos serão nomeados pela Funai e serão coordenados por antropólogos. Mas a presença de representantes de outros ministérios introduzirá no processo pessoas "que não têm como foco central identificar terras indígenas", diz Santilli.
    A portaria determina que sejam chamados os ministérios da Agricultura, das Cidades, do Desenvolvimento Agrário, do Meio Ambiente, de Minas e Energia, do Planejamento e dos Transportes, além da Secretaria-Geral da Presidência da República e da Secretaria de Direitos Humanos, que têm status de ministério, e de um procurador federal nomeado pela AGU (Advocacia Geral da União).
    Integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária, que defende os interesses do agronegócio no Congresso Nacional, também têm ressalvas às mudanças propostas.
    Para eles, a participação de outros ministérios no processo de demarcação de terras indígenas --uma demanda antiga dos ruralistas-- seria muito limitada, por se restringir apenas ao fornecimento de dados e ao acompanhamento de trabalhos de campo, mantendo a responsabilidade das decisões com a Funai.
    Além disso, a portaria autoriza a Funai a vetar representantes indicados pelos ministérios e permite que ela convoque um novo grupo de estudos nos casos em que nem a mediação do Ministério da Justiça for suficiente para alcançar o consenso.

      Índios não trazem votos, como bancada ruralista e PMDB - Marcelo Leite

      folha de são paulo
      ANÁLISE
      Índios não trazem votos, como bancada ruralista e PMDB
      MARCELO LEITEDE SÃO PAULOFoi preciso que índios mantivessem por sete anos a cobrança ilegal de pedágio nos confins da Transamazônica e que habitantes de Humaitá e Apuí (AM) pusessem fogo na Funai para que o país se desse conta da existência de um povo e de uma terra indígena chamados Tenharim.
      Até então, essa ignorância específica se confundia com o desconhecimento geral sobre a realidade de 241 povos indígenas do Brasil. Considerá-los sempre em sua generalidade --a "questão indígena"--, como preferem a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e o aliado Palácio do Planalto, é o caminho certo para não resolvê-la.
      Desse ponto de vista abstrato, sempre parecerá desmesurado que as 690 áreas reconhecidas aos índios ocupem 13% do território nacional. Um olhar mais detido, contudo, revelará que 98,5% desse 1,1 milhão de quilômetros quadrados se encontram na Amazônia.
      A floresta é aquela parte do país na qual sobreviveu ou se refugiou a população sobrevivente de indígenas. Só nas últimas décadas foi alcançada pela frente de expansão agropecuária, que já esbarra em limites para a incorporação contínua de terras baratas ou griláveis.
      O mero 1,5% de terras indígenas fora da Amazônia é um bom indicador da dificuldade de reconhecê-las no Brasil perto da costa, onde os índios foram primeiramente exterminados ou assimilados. E é aí que se concentra boa parte da centena de terras ainda por homologar.
      Essa também é a fonte primária das dificuldades judiciais e eleitorais que o Ministério da Justiça busca reenquadrar com a portaria que deve dificultar o reconhecimento. A situação é particularmente conflituosa em Mato Grosso do Sul, mas também há litígios no Sul e no Nordeste do país.
      Esses processos remanescentes estão com 20 anos de atraso. Pela Constituição Federal, deveriam ter sido encerrados em 1993.
      Nessas duas décadas, o agronegócio cresceu. De 1997 a 2013, o saldo de sua balança comercial saltou de US$ 15 bilhões a quase US$ 80 bilhões. Sem ele, o comércio exterior do país seria deficitário.
      A iniciativa política está nas mãos dos ruralistas, favorecidos ainda pela representação distorcida de Estados produtores de bens primários na Câmara dos Deputados e pelo peso adquirido, no governo do PT, pelo maior partido dos rincões, o PMDB.
      Nessa configuração, não será surpresa se as promessas rondonianas da Constituição de 1988 forem abandonadas de vez e se novas manifestações de ódio aos índios pipocarem pelo país.

        Filho de cacique vê 'precipitação' da Funai

        folha de são paulo
        Filho de cacique vê 'precipitação' da Funai

        Avener Prado/Folhapress
        Hipótese de assassinato de líder indígena foi levantada por servidor do órgão e alimentou conflito étnico na região
        Família de tenharim morto diz, contudo, que não acredita em homicídio porque viu que 'ele caiu da moto'
        FABIANO MAISONNAVEENVIADO ESPECIAL À TERRA INDÍGENA TENHARIM (SUL DO AMAZONAS)Acostumada ao ritmo lento da vida amazônica, a índia Telma Tenharim, 45, no intervalo de um mês, perdeu o marido, foi obrigada a se refugiar no quartel de Humaitá por seis dias para não ser linchada, teve a aldeia atacada por vândalos e agora vê parentes e amigos serem tratados como suspeitos de assassinato.
        "Só queríamos viver o luto familiar em paz", disse, com lágrimas nos olhos, Gilvan, 24, filho de Telma e do cacique Ivan, 55, encontrado desacordado ao lado da sua moto no dia 2 de junho, na rodovia Transamazônica, a 20 km de sua aldeia, Kampinhu'hu, com 65 moradores.
        A região, a 130 km de Humaitá (AM), está no centro das buscas da Polícia Federal por três homens desaparecidos desde 16 de dezembro. A PF anunciou ontem ter encontrado peças queimadas de um veículo Volkswagen. O material será avaliado por peritos para verificar se pertence ao Gol no qual viajavam os três homens desaparecidos.
        Levado a Porto Velho (RO), distante cerca de 330 km, o cacique não resistiu e morreu no dia seguinte. No atestado de óbito, consta que a causa foi traumatismo craniano provocado por acidente.
        "Em nenhum momento a gente falou que o meu pai foi assassinado. A gente não protestou nem chegou a acusar ninguém", disse Gilvan. Ele explicou que, por questões culturais, a família não autorizou a autópsia completa.
        Mas a reação do coordenador regional da Funai (Fundação Nacional do Índio), Ivã Bocchini, foi diferente. Em texto publicado no blog oficial do órgão dias após a morte, ele levantou a hipótese de assassinato.
        Para o filho do cacique, houve uma "precipitação" da Funai. "A gente viu que ele caiu da moto."
        Contatado, Bocchini desligou o telefone após a reportagem se identificar. O texto foi apagado do blog da Funai.
        A afirmação de Bocchini teria passado despercebida, mas o sumiço de três homens da região que viajavam juntos nesse trecho da Transamazônica, no último dia 16, fez os moradores de Humaitá relacionarem os dois casos.
        Logo surgiu a versão de que o funcionário da Eletrobras Aldeney Salvador, o representante comercial Luciano Ferreira e o professor Stef de Souza foram mortos pelos índios por retaliação.
        Ecoando boatos, um jornal local, "A Crítica de Humaitá", afirmou que os três morreram porque um pajé tenharim teria sonhado que um carro preto --a mesma cor do veículo no qual viajavam os três homens também desaparecidos-- atropelou o cacique, provocando sua morte.
        Os cerca de 900 tenharim, no entanto, não têm pajés. A maioria é evangélica --e torcedora do Corinthians e do Flamengo. Moram em casas de madeira com eletricidade. Quase todas as famílias são bilíngues, têm TV e moto, e duas aldeias estão conectadas à internet.
        ATAQUES
        Na véspera do Natal, a falta de notícias sobre os desaparecidos levou parentes e amigos a bloquearem a balsa sobre o rio Madeira que liga Humaitá à Transamazônica, impedindo o regresso de indígenas que estudam na cidade ou que vão até lá para fazer compras. Orientados pela Funai, 115 se refugiaram no quartel do Exército. Telma Tenharim era um deles.
        "Eu só soube [do desaparecimento] quando começaram a se manifestar na cidade", afirmou Telma, uma mulher miúda com poucos traços indígenas --seu pai era o filho do primeiro branco que teria entrado em contato com os tenharim, nos anos 1940.
        No dia seguinte, em pleno Natal, centenas de moradores atacaram as instalações da Funai e da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena).
        A fúria continuou no dia seguinte. Acompanhada pela PM, uma caravana de moradores do vilarejo Santo Antônio do Matupi, a 180 km de Humaitá, saiu pela Transamazônica destruindo cerca de 10 pedágios indígenas que funcionavam de forma rotativa.
        A cobrança, que varia de R$ 15 a R$ 120, gera atrito com os moradores desde a sua implantação, em 2006. Nos tribunais, as decisões têm sido favoráveis aos índios.
        Na aldeia Vilanova, o cacique Domingo Tenharim, 54, disse que os PMs roubaram R$ 540 arrecadados no pedágio e levaram duas espingardas de caça calibre 28. A PM diz que agiu apenas para evitar confrontos.
        Na quinta-feira, quando a Folha esteve na aldeia, os caciques se reuniram com um advogado. Decidiram não dar mais depoimentos aos policiais por causa do tratamento ríspido e retomar a cobrança do pedágio a partir de fevereiro. Eles negam participação no sumiço de Aldeney Salvador, Luciano Ferreira e Stef de Souza.
        Nas cinco aldeias visitadas pela Folha, as lideranças afirmam que comida e medicamentos estão acabando porque não podem ir à cidade, por falta de segurança. A Funai, que teve todos os 11 veículos de Humaitá incendiados por manifestantes, não vem dando nenhum tipo de assistência.
        Anteontem, o Ministério Público Federal recomendou o envio de mantimentos aos índios da região, onde vivem outras três etnias, não envolvidas diretamente no conflito, mas igualmente afetadas.
        "Estamos sendo tratados como bandidos, mas somos seres humanos, temos raciocínio", afirma o cacique Domiceno Tenharim, da aldeia Taboca, principal foco da investigação da polícia.

          Sem poder ir à cidade por medo de agressões, índios tenharim sofrem com a falta de comida

          folha de são paulo

          Filho de cacique vê 'precipitação' da Funai
          Hipótese de assassinato de líder indígena foi levantada por servidor do órgão e alimentou conflito étnico na região
          Família de tenharim morto diz, contudo, que não acredita em homicídio porque viu que 'ele caiu da moto'


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          FABIANO MAISONNAVE
          ENVIADO ESPECIAL À TERRA INDÍGENA TENHARIM (SUL DO AMAZONAS)

          Acostumada ao ritmo lento da vida amazônica, a índia Telma Tenharim, 45, no intervalo de um mês, perdeu o marido, foi obrigada a se refugiar no quartel de Humaitá por seis dias para não ser linchada, teve a aldeia atacada por vândalos e agora vê parentes e amigos serem tratados como suspeitos de assassinato.
          "Só queríamos viver o luto familiar em paz", disse, com lágrimas nos olhos, Gilvan, 24, filho de Telma e do cacique Ivan, 55, encontrado desacordado ao lado da sua moto no dia 2 de junho, na rodovia Transamazônica, a 20 km de sua aldeia, Kampinhu'hu, com 65 moradores.
          A região, a 130 km de Humaitá (AM), está no centro das buscas da Polícia Federal por três homens desaparecidos desde 16 de dezembro. A PF anunciou ontem ter encontrado peças queimadas de um veículo Volkswagen. O material será avaliado por peritos para verificar se pertence ao Gol no qual viajavam os três homens desaparecidos.
          Levado a Porto Velho (RO), distante cerca de 330 km, o cacique não resistiu e morreu no dia seguinte. No atestado de óbito, consta que a causa foi traumatismo craniano provocado por acidente.
          "Em nenhum momento a gente falou que o meu pai foi assassinado. A gente não protestou nem chegou a acusar ninguém", disse Gilvan. Ele explicou que, por questões culturais, a família não autorizou a autópsia completa.

          Conflitos em Humaitá

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          Avener Prado/Folhapress
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          Macaco Chicão, mascote da tribo, brinca com garoto na aldeia Leia mais
          Mas a reação do coordenador regional da Funai (Fundação Nacional do Índio), Ivã Bocchini, foi diferente. Em texto publicado no blog oficial do órgão dias após a morte, ele levantou a hipótese de assassinato.
          Para o filho do cacique, houve uma "precipitação" da Funai. "A gente viu que ele caiu da moto."
          Contatado, Bocchini desligou o telefone após a reportagem se identificar. O texto foi apagado do blog da Funai.
          A afirmação de Bocchini teria passado despercebida, mas o sumiço de três homens da região que viajavam juntos nesse trecho da Transamazônica, no último dia 16, fez os moradores de Humaitá relacionarem os dois casos.
          Logo surgiu a versão de que o funcionário da Eletrobras Aldeney Salvador, o representante comercial Luciano Ferreira e o professor Stef de Souza foram mortos pelos índios por retaliação.
          Ecoando boatos, um jornal local, "A Crítica de Humaitá", afirmou que os três morreram porque um pajé tenharim teria sonhado que um carro preto atropelou o cacique, provocando sua morte –a mesma cor do veículo no qual viajavam os três homens também desaparecidos.
          Os cerca de 900 tenharim, no entanto, não têm pajés. A maioria é evangélica –e torcedora do Corinthians e do Flamengo. Moram em casas de madeira com eletricidade. Quase todas as famílias são bilíngues, têm TV e moto, e duas aldeias estão conectadas à internet.
          ATAQUES
          Na véspera do Natal, a falta de notícias sobre os desaparecidos levou parentes e amigos a bloquearem a balsa sobre o rio Madeira que liga Humaitá à Transamazônica, impedindo o regresso de indígenas que estudam na cidade ou que vão até lá para fazer compras. Orientados pela Funai, 115 se refugiaram no quartel do Exército. Telma Tenharim era um deles.
          "Eu só soube [do desaparecimento] quando começaram a se manifestar na cidade", afirmou Telma, uma mulher miúda com poucos traços indígenas –seu pai era o filho do primeiro branco que teria entrado em contato com os tenharim, nos anos 1940.
          No dia seguinte, em pleno Natal, centenas de moradores atacaram as instalações da Funai e da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena).
          A fúria continuou no dia seguinte. Acompanhada pela PM, uma caravana de moradores do vilarejo Santo Antônio do Matupi, a 180 km de Humaitá, saiu pela Transamazônica destruindo cerca de 10 pedágios indígenas que funcionavam de forma rotativa.
          A cobrança, que varia de R$ 15 a R$ 120, gera atrito com os moradores desde a sua implantação, em 2006. Nos tribunais, as decisões têm sido favoráveis aos índios.
          Na aldeia Vilanova, o cacique Domingo Tenharim, 54, disse que os PMs roubaram R$ 540 arrecadados no pedágio e levaram duas espingardas de caça calibre 28. A PM diz que agiu apenas para evitar confrontos.
          Na quinta-feira, quando a Folha esteve na aldeia, os caciques se reuniram com um advogado. Decidiram não dar mais depoimentos aos policiais por causa do tratamento ríspido e retomar a cobrança do pedágio a partir de fevereiro. Eles negam participação no sumiço de Aldeney Salvador, Luciano Ferreira e Stef de Souza.
          Nas cinco aldeias visitadas pela Folha, as lideranças afirmam que comida e medicamentos estão acabando porque não podem ir à cidade, por falta de segurança. A Funai, que teve todos os 11 veículos de Humaitá queimados, não vem dando nenhum tipo de assistência.
          Anteontem, o Ministério Público Federal recomendou o envio de mantimentos aos índios da região, onde vivem outras três etnias, não envolvidas diretamente no conflito, mas igualmente afetadas.
          "Estamos sendo tratados como bandidos, mas somos seres humanos, temos raciocínio", afirma o cacique Domiceno Tenharim, da aldeia Taboca, principal foco da investigação da polícia.

          Mauricio Stycer

          folha de são paulo
          O que esperar de 2014
          Parece óbvio que não é possível apostar todas as fichas na 'grade' imutável, baseada em 'hábito'
          "O segredo da televisão está em como criar o hábito". A frase de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, embalou por muito tempo a ideia de que uma grade bem estruturada, sem sobressaltos, é fundamental para conquistar o espectador.
          A afirmação, e uma de suas variações ("TV é hábito"), também é usada, ainda hoje, para justificar as decisões mais conservadoras ou para criticar qualquer tentativa de inovação na TV aberta.
          Penso, por exemplo, na reação que "Além do Horizonte" vem provocando. Lançada em novembro de 2013, a novela apresenta várias características que a colocam em conflito com este mantra do "hábito".
          Para começar, é uma intrincada história de mistério num horário, o das 19h30, que se consagrou como espaço de comédias leves. Não bastasse, os seus dois autores, Marcos Bernstein e Carlos Gregório, nunca assinaram uma novela antes.
          Para espanto geral, os três protagonistas (Juliana Paiva, Thiago Rodrigues, Vinícius Tardio) são nomes pouco ou nada conhecidos. Também não há nenhum "medalhão" em cena --os atores mais famosos são Alexandre Borges, Flávia Alessandra, Marcelo Novaes, Antonio Calloni e Carolina Ferraz.
          Não era preciso ser Mãe Dináh para prever que "Além do Horizonte" teria problemas com o Ibope. A audiência vem se mantendo abaixo da média do horário desde a estreia.
          Colunistas que seguem os bastidores do mundo da TV têm alimentado os leitores com informações negativas. "Fracasso" e "naufrágio" são duas das palavras mais usadas para se referir à novela.
          Especula-se que a novela será encurtada. Lamenta-se que a baixa audiência está puxando para baixo o resultado do "Jornal Nacional". Também fala-se em uma intervenção da Globo, destinada a alterar os rumos do folhetim e, até, na entrada em cena de algum autor mais experiente para ajudar os novatos.
          Duas coisas são reais em meio a tantas especulações: a baixa audiência e o tom negativo do noticiário. Tenho a impressão de que ambos são consequência da mesma dificuldade, a de lidar com a aposta em algo novo --e, na minha opinião, de boa qualidade.
          Numa das primeiras entrevistas que deu, depois de assumir a direção-geral da Rede Globo, em 1º de janeiro de 2013, o jornalista Carlos Henrique Schroder disse à coluna de Mônica Bergamo, na Folha, que não guiaria a sua gestão por metas de audiência. "Temos que tirar da frente a obrigação de entregar pontuação. Temos que entregar o produto. A audiência virá como consequência", disse então.
          Parece óbvio, a todos que acompanham o mercado de televisão, que não é mais possível apostar todas as fichas na tal "grade" imutável, baseada em "hábito". É preciso hoje levar em conta a expansão da base de assinantes da TV paga, a oferta cada vez maior de canais, as possibilidades de gravação e a multiplicidade de meios de se ver produtos audiovisuais (YouTube, Netflix, smartphones etc).
          O investimento da Globo em uma novela "esquisita" como "Além do Horizonte" é apenas um exemplo de menor importância. Mas espero, em 2014, que a reação negativa não influencie outras decisões ousadas e necessárias, seja da própria emissora, seja das suas concorrentes.

            Ferreira Gullar

            folha de são paulo
            Invenção da alegria
            O que distingue uma coisa da outra é a capacidade de nos deslumbrar que as formas tenham
            Fui ao Paço Imperial, aqui no Rio, para ver a exposição de Wilma Martins. Fazia muito tempo que não via seus trabalhos, mas guardara deles a melhor das impressões. Agora, nesta visita que fiz, aquela impressão se confirmou e, devo admitir, mostrou-se mais rica e fascinante.
            Uma das boas coisas que ganhei nessa visita foi conhecer trabalhos anteriores da artista, suas gravuras em madeira, onde já se revelava particularmente criativa e original. Diante daquelas composições, onde a linha gravada e as relações de treva e luz nos fascinaram, só confirmei tratar-se de uma artista de rara originalidade.
            Mas essa gravadora, que explorava um universo noturno e delirante, tornou-se depois a desenhista diurna, de desenho limpo e lúcido, que parece constituir o ápice de sua aventura estética.
            Essa fase de Wilma está entre as melhores coisas que a arte brasileira produziu nestas últimas décadas. Isso se deve, creio eu, de um lado, ao despojamento da linguagem figurativa e, de outro, à imaginação poética que a faz trazer para o espaço doméstico --povoado de objetos próprios a esse espaço-- seres selvagens como corças, ursos, elefantes e, com eles, a floresta mesma. Ela opera uma subversão poética da realidade banal da casa. E tem mais, ali não aparecem os moradores, os habitantes do espaço doméstico; não, só os objetos.
            O mais surpreendente, porém, nessas obras de Wilma, é o fato de que os objetos da casa são meros contornos, sem consistência real, enquanto os animais que ali surgem inesperadamente são coloridos e tratados conforme a linguagem realista da pintura convencional. Ou seja: o que é real --os objetos da casa-- é representado abstratamente, enquanto o que é sonho --as aparições da selva-- é tratado com realismo.
            E o mais curioso é que, não muito depois, Wilma Martins passa a pintar paisagens, isto é, a natureza que se insinuava em seu universos gráfico de desenhista torna-se o tema exclusivo do quadro.
            No mesmo Paço, numa sala do andar térreo, há outra exposição. Trata-se de uma instalação, com máquinas que produzem vento e um tubo de plástico ora inflado pelo vento que a máquina produz, fazendo desagradável barulho. Não se percebe ali qualquer preocupação com beleza e acabamento; pelo contrário, a impressão é de algo improvisado, feito de qualquer modo. Mas, afinal, que nos diz aquilo? Que o vento infla o plástico? Mas quem não sabe disso?
            Não é por não se valer da linguagem da pintura, do desenho ou da escultura, que não se faz arte, pois arte pode ser também a invenção de linguagens novas ou inovadoras, que nos fascinam e encantam.
            Este é o caso de Yayoi Kusama, artista japonesa que expõe atualmente no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio. Nascida em 1929, ela começou a criar na época da pop art, inspirada nos trabalhos de Andy Warhol. No entanto, ao contrário dos artistas daquela tendência, que tomavam por tema objetos, figuras e fatos banais da vida moderna, Yayoi nos arrasta a um deslumbrante universo de cores, formas e luzes.
            E essa capacidade de deslumbrar está em tudo o que ela faz, até mesmo nas telas que pinta fora do que estamos habituados a ver. Isso, sem falar nas salas em que penetramos como se passássemos a outra dimensão do real. Não por acaso, filas intermináveis de visitantes se formam no CCBB para experimentar esse encantamento. A sala de luzes, com centenas de lâmpadas que mudam de cor a cada momento, parece levar-nos a um passeio pelo espaço cósmico, fervilhante de estrelas.
            Mas a criatividade de Yayoi é inesgotável, já que, no oposto dessa sala noturna, há outra, diurna, constituída de dezenas de volumes brancos com pintas vermelhas, que se multiplicam refletidos nas paredes de espelho. O que significa isso? Não se sabe, mas não importa, não é preciso saber, uma vez que a obra é seu próprio significado. É que tudo tem expressão, seja um tubo de plástico, seja uma sala de luzes ou formas coloridas. O que distingue uma coisa da outra é a capacidade de nos deslumbrar que as formas tenham. Mostrar a banalidade é mostrar o óbvio. A arte é a superação da banalidade.