domingo, 12 de janeiro de 2014

O milagre do saco plástico - Denise Fraga

folha de são paulo
Lembro até de seu nome: Nadir. Foi minha professora de geografia. Já me esqueci de todas as capitais, mares e rios que ela possa ter tentado me ensinar com seu falatório cansado, mas foi apenas uma de suas aulas que fez com que ela nunca mais me saísse da cabeça.
Entrou na sala nervosa, colocou suas coisas em cima da mesa, ameaçou começar o de sempre, mas resolveu sentar. Não sentou na cadeira da escrivaninha, hábito de muitos de meus velhos professores que, com o avançar da idade, já davam suas aulas sentados. Ao contrário, dona Nadir até rejuvenesceu, pois sentou sobre o tampo da mesa. Ficou em silêncio, encarando a turma. "Hoje a minha aula vai ser diferente." Não precisava nem dizer, já estava irreconhecível.
A senhora gordinha e carrancuda era agora uma mulher jovem e franca, sentada de perna aberta sobre a escrivaninha. O que a transformou foi um acontecimento banal. Teve que frear bruscamente seu carro quando um saco plástico grudou no seu para-brisa. Por incrível que pareça, naquela época, jogar um saco pela janela não era algo tão absurdo e a aula inusitada não foi um sermão politicamente correto sobre o assunto.
Ilustração Zé Vicente
O fato é que dona Nadir tinha levado um susto e entrara em contato com o cristal, com a vida na corda bamba e o mero saco plástico ao vento fez com que ganhássemos de nossa medíocre professora de geografia uma incrível aula de filosofia. dona Nadir refletiu sobre o instante, sobre o quanto tudo pode se transformar muito rapidamente. Falou do quanto podemos promover revoluções quando agimos em horas fundamentais.
Suas palavras evoluíam nos recrutando como poderosos agentes sobre essa matéria etérea que é a vida. Nunca mais esqueci. Na verdade, me lembro de duas de suas aulas: a do milagre do saco plástico e da sua aula seguinte, quando ela voltou ao seu estado letárgico de professora quase aposentada.
Seus mares e rios voltaram a fluir em branco, enquanto eu esperava ansiosa por aquela outra Nadir. Aquela que, de perna aberta, sabia muito mais do que acidentes geográficos. Mas a lucidez não nos livra dos dramas.
denise fraga
Denise Fraga é atriz e autora de "Travessuras de Mãe" (ed. Globo) e "Retrato Falado" (ed. Globo). Escreve a cada duas semanas na versão impressa do caderno sãopaulo

José Simão

folha de são paulo
Bafo! Sensação garrafa térmica!
E diz que a Dilma vai lançar o Bolsa Calor: todo brasileiro terá direito a uma piscininha de plástico!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Hoje a sensação térmica é de garrafa térmica! E com o Carnaval, Páscoa, Copa e eleições, 2014 só vai entrar em 2015! Bafos da semana: a morte do Nelson Ned e o presídio de Maranhão!
E com a morte do Nelson Ned, o único anão celebridade agora no Brasil é o PIB do Mantega! Ops, com a morte do Nelson Ned, o único anão celebridade agora no Brasil é o ACM Neto! ACMeio metro! Rarará! E a manchete do Piauí Herald: "Dilma decretou meio minuto de silêncio em homenagem ao Nelson Ned".
E atenção! Eu sei como acalmar os presídios no Maranhão! É só o Sarney ir lá e ameaçar ler um livro dele. Aí já é crueldade! Na Constituição de 88 tá escrito que é proibida a tortura no Brasil!
E tá todo mundo falando mal da Roseana porque ela licitou 80 kg de lagosta. Mas a Roseana é fofa: os 80 kg de lagosta eram pra botar nas quentinhas do presídio. Arroz cru, feijão azedo e por cima uma lagosta! Quentinha Roseana Gourmet!
E o nome do presídio: Pedrinhas. Esse Pedrinhas deve ser parente do Sarney. Presídio Pedrinhas Sarney!
Tudo no Maranhão leva o nome do Sarney. "Maranhão tem 26 maternidades com o nome Sarney." Também, pra nascer aquela parentada toda!
E sabe qual o apelido da família Sarney? Morimbundos de Fogo! E sabe como o Sarney chama o Maranhão? MYranhão! E a sigla do Maranhão, MA: Me Ajudem! Rarará!
E o calor? O bafo dos infernos? Sensação térmica: quero ficar pelado. Quero ir pra praia já! Test-drive pro inferno! Hoje dormi no freezer ligado no modo nevar. Tem gente filando ar-condicionado de banco! Vou levar uma cadeira de praia pra agência do Banco do Brasil!
E diz que a Dilma vai lançar o Bolsa Calor: todo brasileiro terá direito a uma piscininha de plástico!
E esse site de Campinas: "Frente frita derruba temperatura". O estagiário errou acertando. Tá tendo uma frente frita no Brasil. Chegou a frente frita! Rarará! E uma amiga dá tanto nesse verão que o apelido dela é Imigrantes: ninguém vai pro litoral sem passar por ela! Rarará! E com esse calor, a Miriam Leitão vai virar torresmo! Rarará!
E olha essa placa num portão: "Querida admiradora secreta: amei o vinho e as flores no portão, só não entendi a galinha e a farofa". Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

    Mônica Bergamo

    folha de são paulo

    Rachel Sheherazade, do SBT, diz que se decepcionou após votar em Lula 


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    O Uruguai virou "sócio de traficantes" ao regulamentar o comércio da maconha. A defesa do Conselho Federal de Medicina à legalização do aborto é "abominável", e possivelmente está criando "um novo nicho de mercado" para a classe médica.
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    São algumas das ideias da jornalista Rachel Sheherazade, 40, que há quase três anos é paga para falar o que pensa no "SBT Brasil", jornal das 19h45, do qual é apresentadora.
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    Quem fala o quer quer, lê o que não quer na internet. "Meus votos para 2014: que a Rachel Sherazedo seja estuprada", postou o filósofo Paulo Ghiraldelli, em 26 de dezembro. Ela rebateu no Twitter e vai processar o detrator por incitação a crime. Ele creditou o ataque a um hacker.
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    1.001 noites de Sheherazade

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    Adriano Vizoni/Folhapress
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    A jornalista Rachel Sheherazade, 40, posa sobre a bancada do "SBT Brasil", jornal que apresenta há quase 3 anos
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    Por conflitos como este ("que estavam consumindo meu tempo"), a apresentadora já havia decidido se afastar da internet. "Foi ela que me trouxe aqui, mas comentários e ofensas estavam me deprimindo", conta ao repórter Chico Felitti.
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    Foi o YouTube que lhe garantiu fama. Em 2011, ela fez um vídeo criticando o Carnaval, pois a festa cercearia o direito de ir e vir do cidadão e sugaria recursos públicos. O comentário, feito na TV Tambaú, de João Pessoa, sua terra natal, caiu na rede e foi visto por mais de meio milhão de pessoas em uma semana.
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    Três dias depois, em pleno reinado de Momo, recebeu uma ligação de Leon Abravanel, sobrinho de Silvio Santos e diretor de produção do SBT. "Achei que fosse trote." O contato era um convite para vir a SP conhecer a rede.
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    "Vim desconfiando que seria um convite. Nunca quis sair da minha cidade, não preciso sair da minha região para me realizar." Mas topou.
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    Até então fazia dupla jornada. Passou em um concurso para ser escrivã em um tribunal para ajudar a fechar as contas, porque o jornalismo na Paraíba "não bastava". Está licenciada e termina nos próximos dias o período máximo de afastamento. "Vou pedir desligamento."
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    Passaram-se mais de mil dias até a certeza de que poderia abdicar da estabilidade do funcionalismo público. Ela não fala em dinheiro, mas o salário de apresentadora, em torno de R$ 150 mil, permitiu que seu marido, Rodrigo, deixasse o emprego na Paraíba para acompanhá-la.
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    "Foi uma prova de fogo. O homem nordestino pode ser muito machista. Olhamos o que é melhor para a família." Moram com os filhos Clara, 5, e Gabriel, 3, numa casa em Alphaville, complexo de condomínios de luxo a 23 km de São Paulo. Mas o clã faz pouco esse percurso.
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    "Eu tenho muito medo. Sou meio neurótica com violência urbana, mais ainda depois de começar a fazer bancada, noticiar tudo o que há de ruim." Quando os quatro vêm a São Paulo, "muito esporadicamente", optam por ir a teatros de shopping.
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    Se não, é de casa para a labuta, como no dia em que encontrou a reportagem. Ela chega ao SBT às 14h, dirigindo seu sedã preto, com pulôver da mesma cor, bordado com pedrarias. Ainda não decidiu o tema do comentário.
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    Está entre Edward Snowden, ex-agente que vazou informações confidenciais da agência de inteligência americana e sinalizara que queria asilo do Brasil, e a rebelião na Papuda, penitenciária onde estão presos condenados do mensalão. Acabou ficando com política brasileira, "mais interessante".
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    Escreve o texto no camarim, "como quem conta uma história". Seu nome, inclusive, veio de uma contadora de casos: a avó paterna leu os contos das mil e uma noites e se apaixonou pela protagonista, Sherazade. O segundo nome, adotado como sobrenome no lugar do original, Barbosa, ganhou nova sílaba sem razão conhecida.
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    Ela dá as razões para ter mudado de orientação política. "Eu era de esquerda. Pintei a cara para o Collor sair. Votei no Lula até ele ser eleito. Me decepcionei com o PT." Hoje, vota "em pessoas, não em partidos". Não declara em quem vai votar neste ano.
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    "Com a minha maturidade, passei a ter posicionamentos mais de direita do que de esquerda." Cita o direito à vida e à propriedade como exemplos. Em um aspecto pelo menos ficou mais liberal: o estético. Foi instruída pela emissora a usar bobes para dar volume às mechas escorridas. Detestava. "Hoje, não tenho vergonha de ir à praça de alimentação de bobe."
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    Confessa não ser vaidosa. "É um suplício", diz ao se dirigir ao camarim para ser maquiada. No caminho, elogia Reinaldo Azevedo, colunista da Folha e da revista "Veja". "Ele é um fofo! Me defendeu na história do Lula."
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    A tal história: o ex-presidente teria se referido a ela como "uma jornalista do SBT, de 20 e poucos anos" que faz críticas "sem embasamento". Azevedo fez um texto em defesa da colega em seu blog.
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    Rachel, por sua vez, defende o pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. "Ele sofre perseguição religiosa", diz ela, sobre o parlamentar criticado por posições controversas como a "cura gay".
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    É evangélica desde os 23 anos, quando foi batizada na igreja Batista. "A fé é 100% importante. Não teria resistido às dificuldades que encontrei aqui se não fosse pela fé."
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    Entre os percalços, ser nordestina ("ainda há preconceito forte") e trabalhar em "uma redação que te olhavam de banda por ter chegado pelas mãos do dono".
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    Não que fosse queridinha do patrão. Diz só encontrá-lo no salão de cabeleireiro Jassa, que tem convênio com a emissora. "Silvio é muito gente."
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    O chefe um dia perguntou por que ela não improvisa seus famosos comentários. "A gente faz ao vivo, cada segundo conta", respondeu. Precisa treinar para encaixar a fala em 45 segundos.
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    Chegando ao camarim, ela comenta que não quer fazer jornalismo para sempre. Mas desconversa. "Por enquanto estou feliz." Pelo menos até 2015, quando vence seu contrato, vai viver de discursar, como a xará da literatura. A personagem original, diz a lenda, prendia a atenção do rei narrando aventuras por mil e uma noites. "Ela, no fim, é igual à gente, tem que segurar a audiência."
    mônica bergamo
    Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

    Mauricio Stycer

    folha de são paulo
    O mandachuva dos seriados
    Mais que criador, Vince Gilligan interfere em todas as fases da produção da série 'Breaking Bad'
    Em um dos extras que acompanham o DVD com a última temporada de "Breaking Bad", Vince Gilligan, o criador da série, é visto no set de filmagem, supervisionando uma cena que ainda será gravada. Ele se detém diante de uma parede repleta de pequenos buracos, representando o efeito de balas de fuzil. Insatisfeito com o que vê, pega uma furadeira e acrescenta alguns buracos.
    A cena pode parecer banal, mas não é. Está ali, como o extra didaticamente mostra, para realçar o lugar do autor dentro de um processo altamente industrial como a realização de uma série de televisão.
    Creditado como produtor-executivo, Gilligan é, na verdade, o "showrunner" (termo sem tradução em português) da série. O mandachuva participa, com poder de decisão, sobre as quatro etapas que levam à realização de cada episódio.
    Primeiro, é ele quem lidera a chamada "sala dos roteiristas". Neste ambiente, seis ou mais colaboradores discutem e esmiúçam cada episódio, sugerindo tramas, apontando incoerências e vislumbrando desdobramentos. Escrito o capítulo por um dos roteiristas, Gilligan tem o poder de dar redação final, alterando o que desejar.
    Na segunda etapa, o "showrunner" atua na pré-produção do episódio. Dá palpites, entre outros, em relação às locações, aos cenários e figurinos que serão utilizados.
    Durante as filmagens, propriamente, supervisiona o trabalho do diretor, do responsável pela fotografia, dos atores, dos que fazem os efeitos especiais etc. Às vezes, assume o comando literalmente: em "Breaking Bad", Gilligan dirigiu cinco episódios, incluindo o derradeiro.
    Por fim, ele também participa da pós-produção. O mais importante, senta-se ao lado do editor na "ilha" e ajuda na seleção das cenas, mas também opina sobre problemas de sonorização que surgem no processo, entre outros aspectos.
    Essa proeminência do autor de televisão em um produto com características industriais é uma experiência específica. Para ficar nos dois seriados que serão exibidos na TV aberta brasileira a partir de terça-feira (14), "Homeland" (Globo) e "Breaking Bad" (Record), estamos falando de programas com cerca de 50 minutos cada, num total de oito a 13 episódios por temporada (ano).
    Por isso, não dá para comparar a qualidade das duas séries com a de qualquer novela feita no país. Experiências nacionais em ficção seriada de fôlego curto também sofrem na comparação, ainda que eventualmente apontem um caminho.
    A recente "Amores Roubados", da Globo, em dez episódios de 40 minutos, sobressai por alguns aspectos, como a qualidade da produção, o texto não didático, a fotografia e o bom elenco. Não tenho informações sobre até onde vai a interferência do diretor-geral, José Luiz Villamarin, e do autor, George Moura, mas há algumas marcas no trabalho (e nomes na equipe) que remetem à série anterior que a dupla fez, "O Canto da Sereia", o que configura um esforço de autoria.
    Embora distante da ousadia narrativa dos dois programas americanos que serão exibidos aqui (o meu elogio a "Homeland" vale só para a primeira temporada e para "Breaking Bad" para toda a série), é obrigatório ressaltar que "Amores Roubados" é um produto muito acima da média do que se vê na TV aberta.

    Ferreira Gullar

    folha de são paulo
    Dos males, o menor
    Na minha terra natal, quando menino, maconha se chamava diamba e não gozava do menor prestígio
    Há coisas que tenho dificuldade de entender. Uma delas é a importância que adquiriu a maconha no mundo contemporâneo. Políticos de importância internacional, intelectuais de destaque e até presidente da República preocupam-se com ela, com seu consumo, com sua influência sobre a sociedade e sobre a juventude, principalmente.
    Quem diria, digo a mim mesmo, já que, na minha terra natal --São Luís do Maranhão--, quando menino, maconha se chamava diamba e não gozava do menor prestígio: marginais e alguns rapazes do subúrbio fumavam diamba. Só soube disso porque, lá por meus 13 anos, jogava bilhar num botequim da praia do Caju e de lá fui levado a dar uns tragos num cigarro de maconha. Quase vomitei, tinha gosto de mato velho.
    Depois, nunca mais ouvir falar dela. No Rio, onde cheguei em 1951, não ouvia falar de drogas e nem sabia de alguém que fumasse maconha. Isso mudou, mais de uma década depois, quando os Beatles e os Rolling Stones tornaram o consumo de drogas expressão de rebeldia.
    A guitarra elétrica veio completar a onda de delírio que arrastou boa parte dos jovens daqueles anos, inclusive no Brasil. Juntas, essa dupla, guitarra e droga, transformaram os shows musicais em manifestações que contrapunham a barbárie à civilização burguesa bem comportada. Uma bravata que levou muitos desses rebeldes sem causa à morte precoce.
    Apesar disso, passada essa fase heroica, as drogas mantiveram pelo menos parte do terreno conquistado. Nesse quadro, a maconha foi ganhando posição privilegiada, porque possibilitava o barato sem levar o usuário à destruição psíquica, como o fazem a cocaína, a heroína e o crack. Dos males, o menor.
    É isso aí. Ignorar o efeito altamente destrutivo das drogas é impossível, mas, por outro lado, opor-se a elas é careta e velho, uma vez que, entre outras virtudes, as drogas se tornaram um sinal de juventude.
    Não foram os jovens que as introduziram na sociedade contemporânea? E não foram os velhos babacas que as condenaram? Opor-se às drogas, hoje, pega mal; tolerá-las pega bem.
    Isso da boca para fora. Ou seja, a teoria na prática é diferente. Por isso mesmo, a maconha é a solução: fumando-a o cara mostra-se avançado, sem se destruir rápida e inevitavelmente. Não falo dos que são psiquicamente dependentes e que, quase sempre, terminam aderindo às drogas pesadas.
    Faz sentido, mas não explica tudo. Por exemplo, governantes de Estados norte-americanos a legalizaram sob o pretexto de que ela é inofensiva ou até mesmo medicinal. Ótimo calmante.
    Sucede que existem muitos calmantes que se vendem nas farmácias e não são alucinógenos como a maconha. Devemos concluir que é exatamente por ser alucinógena que ela é legalizada? Tenho uma possível explicação para isso: muitas das pessoas que hoje têm poder de decisão na sociedade são os jovens daquela época, hoje com seus 50 a 60 anos de idade. As drogas fazem parte de sua história, ainda que já não as consumam. Tampouco as condenam para que não se pense que se tornaram iguais aos velhos babacas daquela época. Legalizar cocaína pega mal, mas a maconha dá pé.
    Esse talvez não seja o caso de José Mujica, presidente do Uruguai, que não apenas propôs a legalização da marijuana como pretende ter o controle total da produção, venda e consumo dessa droga em seu país. Vai criar uma espécie de "Maconhabras".
    No caso de Mujica, as intenções são as melhores possíveis, pois acredita que, assumindo o controle total da droga, anulará a ação dos traficantes. Seu projeto prevê que cada consumidor terá direito a fumar 40 cigarros de marijuana por mês, desde que se inscreva oficialmente como maconheiro.
    Como chegou ele a esse número, não sei, mas pode ocorrer que o maconheiro não se contente com essa quantidade de baganas. Nada impede que uma legião de falsos consumidores se inscreva para ter direito a esses 40 cigarros, que se tornarão milhares (e no total milhões), obrigando assim o governo a aumentar incessantemente a produção de marijuana.
    Em breve, o Uruguai se tornará o maior produtor mundial de maconha, para a felicidade e enriquecimento dos traficantes. Espero, sinceramente, estar enganado.

    Janio de Freitas

    folha de são paulo
    Na beira do abismo
    Estamos em ano eleitoral, e a Constituição não permite a rima de eleição com intervenção
    São 13 páginas. Foram postadas no último dia 8, na rede interna do Ministério Público Federal. Como formalidade, trata-se apenas do relatório da visita a um presídio. Como retrato de uma situação, equipara-se ao que seria descrito sobre uma prisão da SS ou da Gestapo nazistas. Mas descreve o visto no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, em seguida à rebelião e assassinato, ali, de dez presos no dia 9 de outubro de 2013.
    O documento também pode ser definido como fundamento de uma das muitas advertências e consequentes compromissos --no caso, possivelmente o mais sério-- entre autoridades federais e a governadora Roseana Sarney, para urgentes medidas contra o estado criminoso das cadeias maranhenses.
    A visita ao complexo prisional de Pedrinhas foi do então integrante do Conselho Nacional do Ministério Público e presidente da Comissão do Sistema Prisional, Mário Luiz Bonsaglia, em comitiva composta por membros auxiliares do CNMP e um representante do Conselho Nacional de Justiça, além de membros do Ministério Público Federal no Maranhão e promotores e juízes estaduais. Comitiva de inequívoca representatividade para o assunto.
    A constatação imediata foi de que as condições do presídio, de tão graves, ultrapassavam o problema de direitos humanos, para tornar-se questão de segurança pública, com as projeções externas do horror e do poder criminoso comandados pelos chefes dos bandos. Por isso à visita ao presídio seguiu-se um encontro com Roseana Sarney, descrito por Bonsaglia na introdução que, agora, repassou o relatório aos seus colegas da Procuradoria da República:
    "Na ocasião, levamos essas preocupações e questões à governadora do Maranhão, Roseana Sarney, numa reunião em seu palácio em que ela anunciou que, a partir de recursos obtidos junto ao BNDES, seriam feitos investimentos substanciosos na área, com a construção em seis meses de 11 novos presídios, etc. Ela anunciou também estar disposta a assinar um termo de compromisso envolvendo Conselho Nacional do Ministério Público, Conselho Nacional de Justiça, e Judiciário e Ministério Público locais, tendo por objeto a melhoria das condições prisionais. Essas promessas, todavia, não se materializaram."
    O mesmo episódio de rebelião e assassinatos levou a OAB do Maranhão e a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos a formalizarem denúncia à Organização dos Estados Americanos. A OEA, em tais casos, dirige-se ao governo federal, cabendo à ministra Maria do Rosário cobrar iniciativas do governo maranhense. A reação da governadora não foi dirigida ao presídio, mas à ministra, sob a forma de confronto áspero.
    Se a essas combinações de cobrança recebida e indiferença governamental juntar-se o que disse o juiz Douglas Martins --"Foram quatro anos de inspeções e vários relatórios do Conselho Nacional de Justiça", em vão-- torna-se inevitável concluir que o problema não é administrativo nem político: é institucional. São instituições legitimamente constituídas para agir pelo Estado de Direito, em âmbito nacional, as desconsideradas pelo governo maranhense. Com já consumado comprometimento de responsabilidades do próprio país em nível internacional.
    Por ora, o ministro José Eduardo Cardozo dobra as resistências de Roseana Sarney e consegue uma espécie de intervenção branca, para o tema estrito dos presídios e da segurança pública. Mas, ao se ver na beira do abismo, seria típica de Roseana Sarney uma súbita reação de inflexibilidade contra a posição subalterna, que, além de dissolver sua influência nas próximas eleições, significa o muito provável fim de sua carreira política. E, com ele, o do clã Sarney.
    Ao governo federal só restaria um recurso para vencer a resistência de Roseana: buscar o impeachment, para dar resposta às cobranças de foruns internacionais. Contra o PMDB dos Sarney a luta não seria no Maranhão, mas no Congresso. Original, ao menos.

    Uma notícia está chegando lá do Maranhão - Zeca Baleiro

    folha de são paulo

    Opinião: Uma notícia está chegando lá do Maranhão


    ZECA BALEIRO

    ESPECIAL PARA A FOLHA
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    Leio com assombro as notícias que chegam do Maranhão. Imagens e relatos dolorosos e repugnantes despejados em tempo real em sites, jornais e telejornais, escancarando a nossa vergonha e impotência diante de barbaridades que já extrapolam nossas fronteiras e repercutem mundo afora.
    Como todos, estou pasmo. Mas nem tanto. Nasci no Maranhão e sei que a barbárie (a todos agora revelada de um modo talvez sem precedentes) já impera há anos na prática de seus governantes vitalícios, que agem como os velhos donos das capitanias hereditárias do passado.
    Se o crime organizado neste momento dá as cartas e oprime o povo com ameaças e ações dignas dos mais perigosos terroristas, é porque há uma natural permissão -a impunidade crônica dos oligarcas senhores feudais, que comandam (?) o Estado com mãos de ferro há 47 anos (a minha idade exatamente) e que, ao longo desse tempo, vem cometendo atrocidades sem castigo, com igual maldade, típica dos grandes tiranos e ditadores.
    Esses donos do poder maranhense (e nunca dantes a palavra "dono" foi empregada com tanta adequação como aqui e agora) são exemplo e espelho para que criminosos ajam sem nenhum medo da punição.
    Pois a miséria extrema que assola o Estado há décadas, o analfabetismo estimulado pela sanha dos coiotes ávidos de votos, a cultura antiga de currais eleitorais, a corrupção mais descarada do mundo e o atentado ao patrimônio histórico de sua bela e triste capital são crimes tão hediondos quanto os cometidos no complexo penitenciário de Pedrinhas.
    A diferença crucial é que, enquanto os bandidos que agora aterrorizam (e matam) a população aos olhos assustados da nação estão em presídios infectos e superlotados, os criminosos de colarinho branco (e terninho bege) habitam palácios.
    No meio do caos, soa tão patética quanto simbólica a notícia veiculada dias atrás neste jornal sobre abertura de licitação para o abastecimento das residências oficiais da governadora.
    A lista de compras é de um rigor e de uma opulência espantosos. Parece coisa da monarquia francesa nos dias que antecederam sua queda.
    No presídio de Pedrinhas, cabeças são cortadas. Resta saber se, para além dos muros da prisão, alguém um dia irá para a guilhotina.
    ZECA BALEIRO é cantor e compositor maranhense