terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Carlos Heitor Cony

folha de são paulo
Do diário de um seminarista
RIO DE JANEIRO - Grave incidente para perturbar a nossa tranquilidade, provocado pelo próprio senhor arcebispo. Veio enfurecido do palácio, para desabafar aos gritos com os nossos superiores, que nada tinham a ver com a história.
Padre João Carlos, que fora nosso professor de latim no seminário menor, e mais tarde feito coadjutor de uma das melhores paróquias da cidade, largou a batina. Não sem antes escrever uma carta desaforada e injusta para seu superior.
Parece que a carta, mais que a apostasia em si, doeu em sua excelência. Daí seus berros. Enfurecido pelos próprios gritos, derivou a exasperação para o resto de todo o clero. Foi então um revolver de roupa suja desagradável para todos, padres e alunos.
Em outro ponto o senhor arcebispo, além de inoportuno, foi grosseiro. Não resta dúvida de que certa parte do clero, trazida pelo falecido cardeal, goza hoje de alguns privilégios. Mas por acaso sua excelência não trouxe uma cambada de vigaristas que desde já usufruem de vida palaciana, sem nada quererem com o trabalho? Aqui mesmo no seminário temos exemplos dessas proteções.
Teve um mérito isso tudo: abriu-me os olhos.
Descubro que jamais me submeterei aos métodos do senhor arcebispo. Jamais o terei como chefe e pastor. Não posso me ordenar padre sob o jugo de semelhante homem. Não lhe faltam qualidades. Um ardor sacerdotal a toda prova, um senso muito elevado de suas responsabilidades e de seus deveres. Notável, quase sobre-humana, sua capacidade de trabalho.
Mas é um homem falho de certa aura humana, de certa humildade pessoal. Nela coabitam dois profissionais: o sacerdote de Deus e o militar fracassado. E é uma lástima quando o homem de Deus é dominado pelo sargento que adora o poder e odeia a humanidade.

    Vladimir Safatle

    folha de são paulo
    O Estado
    Poucos problemas político-filosóficos têm o dom de produzir tantos conflitos quanto aquele a respeito da função do Estado. A divisão entre os que querem pensar uma sociedade sem Estado e os que não veem sentido algum nessa empreitada ultrapassa a dicotomia tradicional entre esquerda e direita. De toda forma, qualquer reflexão possível sobre o Estado na política contemporânea deve partir da internalização das críticas por ele sofridas nos últimos quarenta anos.
    Várias delas insistiam no Estado como aparato disciplinar responsável pela perpetuação de uma vida social normatizada na figura do direito. O cidadão do Estado era, acima de tudo, alguém que deveria se conformar a um aparato normativo legal e uniformizador a fim de ser reconhecido como pessoa capaz de contrair contratos, assumir propriedades, direitos positivos, deveres e funções sociais.
    A crítica, peça maior de uma teoria renovada do poder, era pertinente. No entanto, ela não implicava, necessariamente, o abandono do reconhecimento do Estado como instituição política central, mas, sim, sua metamorfose. Pois seu puro e simples abandono trazia problemas insolúveis.
    Não queremos apenas a possibilidade de se desenvolver como singularidades, queremos ser reconhecidos enquanto singularidades. Mas não quero ser reconhecido apenas na minha comunidade, entre os meus amigos. Quero ser reconhecido em todo e qualquer contexto social do qual participo e porventura participarei.
    Abre-se assim uma dimensão de demanda de universalidade que nos impulsiona em direção a um arranjo institucional de garantias de reconhecimento que nos leva, necessariamente, a um conceito pós-nacional de Estado. Sem tal arranjo, demandas dessa natureza perdem seu direito.
    Por outro lado, a atividade econômica é produtora de desigualdades. A ampliação da posse comum minora tais desigualdades, mas uma defesa abstrata do fim da propriedade apenas faria com que o desejo de individualização presente na propriedade se voltasse contra o espaço comum. Hegel era suficientemente astuto para perceber que a propriedade não era o problema, mas sua generalização a toda a esfera social e sua transformação em direito fundamental acima de todos os outros.
    Mas que instituição tem a força de quebrar os interesses individuais no campo da economia a fim de impedir o desenvolvimento da desigualdade? Claro que poderíamos recorrer à teoria do Estado como agente da classe dominante, mas, mais de uma vez na história, foi a pressão das classes desfavorecidas sobre o Estado que quebrou tais interesses de classe. O que nos obriga a desenvolver, no mínimo, uma figura um pouco mais contraditória do Estado.

    Globo de Ouro aponta para recuperação de Hollywood - Raul Juste Lores; Mauricio Stycer

    folha de são paulo
    Globo de Ouro aponta para recuperação de Hollywood
    Sem franco favorito, premiação destacou variedade de bons filmes no ano
    Melhor drama, '12 Anos de Escravidão' perdeu em outras seis categorias; 'Trapaça' ficou com três prêmios
    RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTONO pilequinho nada disfarçado de Jacqueline Bisset, 69, no palco do Globo de Ouro nos fez recordar por que essa cerimônia é tão mais leve e divertida que a do Oscar.
    Mas também serviu para comprovar que o cinema de Hollywood recuperou em 2013 parte da relevância perdida nos anos recentes.
    Neste ano, o cinema quase encostou no sucesso de crítica e público obtido nos últimos anos pela TV americana (ainda assim, a vitória da série "Breaking Bad" foi mais aplaudida que a de qualquer um dos filmes premiados).
    A ótima fase de Hollywood promete um Oscar competitivo, depois de diversos filmecos alçados a vencedor nas últimas edições do prêmio ("O Discurso do Rei", em 2011, "O Artista", em 2012).
    A premiação dos Globos foi picotada, sem um franco favorito. "12 Anos de Escravidão" --o melhor do ano, mas pesado para fazer grande bilheteria--, levou o prêmio de melhor drama, mas perdeu em todas as outras seis categorias a que concorria.
    O drama espacial new-age "Gravidade", que arrecadou muito e concorria com quatro indicações, saiu com um único prêmio também, de melhor diretor para o mexicano Alfonso Cuarón.
    "Trapaça", farsa inspirada em caso real dos anos 1970 que uniu agentes do FBI e escroques em Nova Jersey, levou melhor comédia/musical e rendeu prêmios para as atrizes Amy Adams e Jennifer Lawrence. A comédia concorria em sete categorias.
    PEQUENO
    Até um filme pequeno como "Clube de Compras Dallas", sobre a história real de soropositivos que contrabandeavam remédios não autorizados para tratar a Aids nos anos 1980, ganhou os prêmios de melhor ator e coadjuvante (Matthew McConaughey e Jared Leto, dois casos de "volta por cima").
    "O Lobo de Wall Street", "Blue Jasmine" e "Ela" receberam um Globo cada. E vários filmes dessa ótima safra saíram de mãos vazias: "Nebraska", "Inside Llewyn Davis", "Philomena" e outros, como "Fruitvale Station", sequer foram indicados.
    A TV é que precisa dar uma chacoalhada, depois de temporadas menos boas de "Homeland", "Girls", "Downton Abbey", "Modern Family", "True Blood" e "Mad Men", ignoradas na premiação. Faltam mais séries com o impacto pop-cultural de "Seinfeld", "A Sete Palmos", "Sex and the City" e "The West Wing".
    Se "Breaking Bad" levou várias temporadas para conquistar o reconhecimento atual, que venham logo as próximas de "The Americans", "House of Cards", "The Newsroom" e "Game of Thrones".
      ANÁLISE
      Apresentadoras fazem cerimônia virar um stand-up inteligente
      Tina Fey e Amy Poehler aproveitam clima descontraído e não perdoam nem medalhões como Scorsese e DiCaprio
      MAURICIO STYCERCOLUNISTA DA FOLHAApresentando a festa pelo segundo ano, as comediantes Tina Fey e Amy Poehler estão conseguindo mudar a imagem do Globo de Ouro. Esqueça esta bobagem de "termômetro do Oscar" e preste atenção nas piadas.
      A premiação dos jornalistas estrangeiros em Hollywood virou um dos melhores shows de stand up da praça.
      Na comparação com o Oscar ou o Emmy, além de demorar menos, o Globo de Ouro sempre foi famoso por ser a festa de premiação durante a qual bebidas alcoólicas são servidas. Ou seja, sempre foi uma cerimônia mais descontraída. Mas com as duas comediantes na apresentação se tornou também palco de humor inteligente.
      Nas primeiras três frases da festa de 2014, as duas já tinham gargalhado do nome do prêmio, do público que assiste em casa pela TV e de atores candidatos ao prêmio.
      Não faltaram ironias com os principais filmes. "Se eu quisesse ver [o ator] Jonah Hill se masturbar numa festa na piscina, eu iria a uma festa na piscina de Jonah Hill", disse Amy Poehler, realçando o exagero de uma das muitas cenas de sexo no filme "O Lobo de Wall Street".
      Tina Fey explicando "Gravidade", protagonizado por Sandra Bullock e George Clooney, resumiu: "É a história de como George Clooney prefere flutuar no espaço e morrer a passar mais tempo com uma mulher da sua idade."
      Ou falando de Matthew McConaughey: "Para seu papel em Clube de Compras Dallas', ele perdeu 20 quilos --ou o que as mulheres chamam de estar em um filme".
      É curioso notar como os próprios atores se sentem mais à vontade no Globo de Ouro --talvez, justamente, por ser menos importante.
      Quem viu pelo TNT, no Brasil, se divertiu com a falta de censura sonora aos palavrões (alguns deles cortados pela NBC na transmissão para os Estados Unidos), ditos por Jacqueline Bisset, Elisabeth Moss e, em especial, Aaron Paul, que repetiu um dos bordões picantes de seu personagem em "Breaking Bad".
      Na melhor tradição do "Saturday Night Live", em que ambas trabalharam por muitos anos, com enorme sucesso, o stand-up do Globo de Ouro não poupou nenhum medalhão, incluindo Woody Allen, Martin Scorsese, Meryl Streep e Leonardo DiCaprio.
      Tina e Amy conseguiram fazer da cerimônia um bom programa mesmo para quem não está nem aí para a premiação. Não é pouca coisa.
        LÍNGUA AFIADA
        "É a história de como George Clooney prefere flutuar no espaço e morrer a passar mais tempo com uma mulher de sua idade"
        TINA FEY
        humorista, falando de "Gravidade" na abertura da premiação
        "Eu quero agradecer às pessoas que me deram felicidade, e elas foram muitas. E às pessoas que me trataram como merda, eu digo como a minha mãe: vão para o inferno e não voltem"
        JACQUELINE BISSET
        atriz, melhor atriz coadjuvante por "Dancing on the Edge"
        "Obrigada por me encherem de vodca do mesmo jeito que Judy Garland era abastecida com barbitúricos"
        CATE BLANCHETT
        atriz vencedora por "Blue Jasmine", agradecendo aos colegas de mesa
          FORA DO ROTEIRO
          SEM GRAÇA
          O canal E! Entertainment pediu desculpas ao ator Michael J. Fox por ter exibido como um dos "dados divertidos" que a doença de Parkinson do ator foi diagnosticada em 1991.
          SEM PALAVRAS
          Pega de surpresa com o prêmio de melhor atriz coadjuvante em série por "Dancing on the Edge", a britânica Jacqueline Bisset ficou nervosa e demorou a engatar o discurso.
          SEM BEIJO
          O rapper P. Diddy tentou cumprimentar com um beijo o cantor Bono, do U2, mas o irlandês virou o rosto. A cena se tornou meme nas redes sociais.
          SEM PERDÃO
          Enquanto Woody Allen era homenageado, o filho Ronan Farrow o criticava no Twitter. "Eles mencionaram a parte em que uma mulher confirmou publicamente ter sido molestada por ele aos 7 anos antes ou depois de Annie Hall'?", escreveu, em referência à irmã Dylan. A ex-mulher Mia Farrow também tuitou: "Hora de pegar um sorvete e mudar para Girls'".

            José Simão

            folha de são paulo
            Ueba! Cauã em Amores Pelados!
            E o Tufão é corno de novo?! O Murilo Benício devia mudar de nome pra MUGIDO Benício! Rarará!
            Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E o rolezinho? Como diz o tuiteiro webtoc: "Quando for ao shopping JK nunca diga que vai comprar um rolexzinho". Aliás, em shopping algum. Seria pânico geral! Causa mais pânico que uma invasão de baratas carnívoras dilaceradoras de vísceras! Rarará!
            E eu tô adorando a minissérie "Amores Roubados"! Ops, Amores Pelados! A história de um comelão! O Cauã Reymond é o sucessor do Zé Mayer! E o site noveludo traz o resumo de "Amores Roubados". É a foto do Cauã gritando: "EU VÔ TI CUMÊ!". Pronto, esse é o resumo da minissérie: "EU VÔ TI COMÊ!" E a mulherada: "PÓ COMÊ!".
            Primeiro capítulo: "Eu vô ti come, pó comê!". Segundo capítulo: "Eu vô ti comê, pó comê!". Terceiro capítulo: "Eu vô ti comê", e a Cassia Kis: "Mas eu sou a sua mãe!". Rarará!
            E sabe por que a minissérie tem intervalo? Pro pinto do Cauã esfriar! E o Tufão é corno de novo?! O Murilo Benício devia mudar de nome pra MUGIDO Benício! MÚUUUUgido Benício! Rarará! Estão todos INTERTREPANDO muito bem. E a fotografia é linda. E Patrícia Pillar e Dira Paes, sensacionais!
            E atenção! Maranhão Urgente! Manchete do Piauí Herald: "Roseana Sarney manda beijinho no ombro para os recalcados". E a foto dela vestida de Valesca Popozuda? O tigre do clipe tem um bigodão! Rarará! E continuo fascinado pela quentinha da Roseana: lagosta, champanhe, uísque e caviar. Maranhão vira Lagostão! Rarará!
            E a charge do Samuca: "E aí, filhona, apurando os crimes?". "Primeiro me passa o caviar." Rarará! E o Sarney: "Tudo culpa do meu antecessor". "Quem?" "Dom Pedro 2º." Ops, Pedro Álvares Cabral. O antecessor do Sarney foi Pedro Álvares Cabral, quando gritou: "Sarney à vista". Outros acham que o antecessor do Sarney foi Tupã!
            E na França, em 1890, teve uma epidemia chamada Epidemia do Bigode. E aí nasceu a família Sarney. Família Sarney: os moribundos de fogo! Rarará! Donos do MYranhão!
            É mole? É mole, mas sobe!
            O Brasil é Lúdico! Olha esse cartaz no poste: "Sumo com a pessoa amada durante o Carnaval. Devolvo na quarta-feira de cinzas. Ligue já!". E um amigo ficou numa pousada no Nordeste com a seguinte placa: "Quem quiser café na cama que vá dormir na cozinha". Rarará.
            Nóis sofre, mas nóis goza!
            Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

            A lição de Ariel Sharon - João Pereira Coutinho

            folha de são paulo
            A lição de Ariel Sharon
            Nenhum outro premiê israelense fez na Faixa de Gaza exatamente aquilo que os palestinos reclamavam
            Morre Ariel Sharon. Há festejos na Faixa de Gaza. Fato: não esperava que os palestinos chorassem a morte de um homem que fez da segurança de Israel a sua eterna paixão.
            Primeiro, combatendo nas principais guerras que o país travou desde 1948. E, depois, elegendo a Organização para a Libertação da Palestina (e Arafat) como inimigo número um --um ódio pessoal que o levou à invasão do Líbano em 1982 e aos massacres nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Sharon não ordenou essas matanças de palestinos?
            Novo fato. Mas não é preciso ser um gênio militar para perceber que, depois do assassinato de Bashir Gemayel, o líder dos cristãos do Líbano, haveria vingança pesada dos Falangistas sobre os palestinos que eles consideravam responsáveis pelo homicídio. Fechar os olhos a essas atrocidades é também uma forma de cumplicidade lamentável.
            Acontece que os festejos em Gaza soam estranho quando nenhum outro premiê israelense fez no território exatamente aquilo que os palestinos reclamavam: retirada unilateral do exército de Israel.
            Hoje, quando se fala dos "territórios ocupados", a Cisjordânia e os Montes Golã (na Síria) fazem parte do pacote. Mas a Faixa de Gaza, desde 2005, pertence aos palestinos porque Ariel Sharon decidiu terminar com uma ocupação de quase 40 anos, desmantelando milhares de colonos judeus na região.
            Os motivos não foram beneméritos. A ocupação representava um desgaste internacional para Israel. Mas a principal razão era pragmática: Sharon entendeu que o "processo de paz" chegara ao fim.
            Cinco anos antes, em Camp David, Israel estava disposto a concessões históricas impensáveis: o reconhecimento de um Estado palestino independente em Gaza e na Cisjordânia; a divisão de Jerusalém como capital dos dois Estados; e até o retorno de uma parcela de refugiados palestinos a Israel e compensações financeiras para os restantes (que viveriam, logicamente, no futuro Estado palestino).
            Arafat, em gesto dificilmente classificável, exigiu o retorno de todos os refugiados a Israel (4 milhões), uma forma elegante de convidar o estado judaico a suicidar-se demograficamente (Israel tem uma população de 8 milhões, com 6 milhões de judeus e 1,5 milhões de árabes).
            Depois do fracasso de Camp David, seguiu-se Ariel Sharon --uma escolha democrática que representa bem a desilusão da sociedade israelense com as negociações de paz.
            E Sharon limitou-se a seguir a velha recomendação do general Yigal Alon, que depois da Guerra dos Seis Dias de 1967 alertara para os perigos de uma ocupação sem fim em Gaza e na Cisjordânia. Melhor seria controlar os territórios (de fora) sem governar milhões de palestinos hostis (por dentro). Ninguém o escutou. Só Sharon, 40 anos depois.
            Dito e feito: Israel se retira de Gaza em 2005 e, no ano seguinte, o Hamas vence as eleições no território. Na imprensa "mainstream", o Hamas é apresentado como um grupo que luta contra a ocupação israelense. É uma forma de ver as coisas.
            Outra é dizer simplesmente que se trata de um grupo terrorista que nega a existência da "entidade sionista"; que passou a usar Gaza como rampa de lançamento de "rockets" para o interior de Israel a partir de 2005; e que, também a partir desse ano, elegeu a Autoridade Palestina da Cisjordânia como "inimiga" fraternal. Tudo por causa da "traição" de Mahmoud Abbas em dialogar com Israel.
            Hoje, não existe mais uma Palestina. Existem, pelo menos, duas: uma em Gaza, outra na Cisjordânia. Falar de um Estado palestino independente é uma piada de mau gosto quando os próprios palestinos não se entendem entre si.
            Contas feitas, o que fica na morte de Sharon? Sim, um legado militar com páginas notáveis (lembrar a campanha do Sinai em 1967 contra o Egito) e as páginas negras (os massacres de Sabra e Shatila).
            Mas, depois da retirada unilateral de Gaza, Sharon mostrou ao mundo que o conflito israelense-palestino não é territorial; é puramente ideológico. E que é inútil trocar terra por paz quando o interlocutor nem sequer reconhece o nosso direito à existência.
            Os festejos de Gaza expressam isso mesmo: os palestinianos já têm um território autônomo, que poderia ser a base de um futuro Estado palestino. Mas o problema central continua o mesmo: o fato de os judeus também terem o seu Estado ali ao lado

            Janio de Freitas

            folha de são paulo
            Marina, Eduardo etc.
            A reunião de dirigentes do PSB sem a participação de Marina tem um ingrediente inegável de animosidade
            O choque de objetivos se complica e se acirra entre Marina Silva e Eduardo Campos no PSB. Os grupos de ambos acusam a existência apenas de intrigas da imprensa, mas Eduardo Campos e sua corrente partiram para iniciativas que os recuperem da noticiada perda de força na sua relação com Marina Silva. Tudo sugere, porém, que as iniciativas adotadas não levarão ao resultado pretendido, e, sim, à permanência mais agravada do choque.
            A maneira como Eduardo quis invalidar a recusa de Marina a apoiar a recandidatura de Geraldo Alckmin --doou ao PSDB uma secretaria e um cargo de segundo nível no governo de Pernambuco-- nem arranhou a intenção da Rede de lançar candidato próprio em São Paulo. E, atraindo peessedebistas de Aécio Neves para a sua candidatura, leva o comando nacional do PSDB a reagir com a proibição de acordos estaduais sem a sua concordância prévia. O que pode trazer danos indiretos ao PSB em outros Estados.
            O entendimento com o PSDB de Pernambuco, sem entendimento a respeito com Marina, teve a desculpa de ser ato do governo. Já a planejada reunião, na próxima sexta-feira, de dirigentes do PSB sem a participação de Marina, tem, por si só, um ingrediente inegável de animosidade. E vai muito além disso, com os já antecipados propósitos de acelerar o compromisso de apoio à recandidatura de Alckmin e cravar Marina Silva como candidata a vice de Eduardo Campos.
            Por ora, o pretendido avanço da corrente de Eduardo Campos parece pouco para demover Marina Silva de suas posições e propósitos. Mas suficiente para criar novos embaraços na relação em que Eduardo Campos ainda está por demonstrar algum ganho com sua apressada criação do PSB-Rede.
            CRIMINOSOS
            É esperada para hoje a divulgação do gordo dossiê que denuncia ao Tribunal Penal Internacional os crimes de morte, tortura e brutalidades sexuais cometidos por militares do Reino Unido, sobretudo ingleses e australianos, durante seis anos no Iraque ocupado. Se o tribunal tiver, enfim, a decência de efetivar um processo contra chefes políticos e militares de uma potência ocidental --o que a melhor imprensa europeia acha improvável-- veremos ministros e generais ingleses nos bancos dos réus.
            Em certa medida, seria uma satisfação moral dada também ao Brasil. Quando se fala, aqui, dos crimes da ditadura, os ingleses jamais são citados. Muitos dos métodos torturantes de interrogatório e castigo aqui usados foram criados pela associação de ingleses e israelenses, como as maneiras de desestruturar mentalmente o preso, muitas vezes de modo irreversível. A exemplo das celas com sons altos e iluminação permanentes. Além das torturas físicas. Tudo adotado pelos ingleses para aplicar contra os irlandeses na segunda metade do século passado.
            SEM IRONIA
            Em carta de ontem no Painel do Leitor, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, de Belo Horizonte, queixa-se dos leitores que o criticaram por sua carta anterior, contra a ministra Maria do Rosário, Paulo Sérgio Pinheiro, contra mim "e outros tantos admiráveis defensores dos direitos humanos no Brasil", por criticarmos as monstruosidades em presídio maranhense. Apenas, diz ele agora, "indaguei, com ironia, o que esses paladinos dos direitos humanos' têm a oferecer além de retórica e tinta de impressora".
            Que coisa feia, um desembargador mentiroso. Leitores o criticaram por escrever, isso sim, a bobice de que cada um dos citados levasse "para casa um preso carente de direitos humanos". Sua carta nada "indagou", ou, em resposta, eu lhe ofereceria uma sugestão: tomar conhecimento da Constituição brasileira.

            Tais como são, os 'rolezinhos' atentam contra direitos coletivos - MAURO RODRIGUES PENTEADO

            folha de são paulo
            OPINIÃO
            Tais como são, os 'rolezinhos' atentam contra direitos coletivos
            MAURO RODRIGUES PENTEADOESPECIAL PARA A FOLHAPor mais que nos solidarizemos com nossa juventude humilde que busca espaços para se relacionar e dar vazão ao seu amor e alegria, não é possível apoiá-la nessa onda recente de "rolezinhos" marcados em shoppings centers e outros locais privados com destinação específica.
            É triste a ausência de opção de lazer para nossos jovens de camadas mais pobres. No entanto, os "rolezinhos", tais como vêm sendo marcados, atentam contra os direitos individuais e coletivos assegurados pela Constituição Federal.
            Isso sem falar no direito também constitucionalmente garantido à propriedade e à livre iniciativa (arts. 1º, inc. IV, 5º, "caput" e 170). Daí porque estão corretas as liminares concedidas pelo Judiciário aos shoppings --que estabeleceram multa aos participantes.
            Os shoppings são empreendimentos privados abertos ao público especificamente para compras, lazer, diversão, passeio.
            A maioria deles tem cinemas e praças de alimentação. Nenhum deles tem ainda uma "praça do rolezinho", modalidade de diversão muitas vezes conturbada por jovens infratores, ferindo o legítimo direito de pais, mães e filhos a um lazer sossegado e seguro que vão buscar nesses ambientes privados e protegidos.
            Se o poder público não disponibiliza, como deveria, espaços próprios para o saudável congraçamento e encontro entre jovens, nem por isso os brilhantes moços que os organizam deixam de ter alternativas interessantes.
            E todas elas são protegidas pela Constituição.
            AVISO
            O inc. XVI do art. 5º garante que "todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização", bastando "prévio aviso à autoridade".
            Ora, por que não organizar os encontros no sambódromo ou outros locais públicos? Os convocados pela internet não vão faltar. Meninos e meninas levam o som, comidas e bebidas (sem álcool de preferência). Aí a festa será "legal", no duplo sentido: com muita animação e sem riscos de liminares e multas.
            Juridicamente, basta os organizadores enviarem cópia da convocação à prefeitura e à Secretaria da Segurança.