segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Maconha poderá ser tão importante quanto a penicilina - Lester Grinspoon

folha de são paulo
ENTREVISTA DA 2ª - LESTER GRINSPOON
Maconha poderá ser tão importante quanto a penicilina
APROVAÇÕES DO USO MEDICINAL DA ERVA SÃO SÓ O COMEÇO DA LONGA LISTA DE APLICAÇÕES DA DROGA, DIZ PESQUISADOR PIONEIRO DA MACONHA
MONIQUE OLIVEIRADE SÃO PAULOO Estado de Nova York tornou-se, no início deste mês, o 21º nos Estados Unidos a permitir o consumo da maconha para fins medicinais. Também em janeiro, a França aprovou o Sativex, medicamento à base de seu princípio ativo para tratar sintomas da esclerose múltipla.
Antes, o Estado do Colorado, nos EUA, liberou sem restrições o consumo da droga. Sem falar no Uruguai que, no fim de 2013, permitiu que qualquer cidadão maior de 18 anos cultive a maconha para consumo pessoal.
Loucura? Não é o que vozes históricas a favor da liberação da erva pensam. E uma das que mais fizeram coro não só para o uso médico da Cannabis mas para o fim de qualquer lei proibitiva foi o psiquiatra Lester Grinspoon, 86, autor de um dos primeiros artigos a desmistificar os males da maconha, "Marihuana", publicado em dezembro de 1969, na revista "Scientific American". No texto, ele condena a proibição da droga.
Grinspoon também é autor de duas obras fundamentais para qualquer um que se interessa pelo tema.
Professor-assistente emérito do departamento de psiquiatria da Escola Médica de Harvard e membro do conselho administrativo da Organização para Reforma das Leis da Maconha nos Estados Unidos, o médico está longe de abandonar seu empenho para a aprovação da erva.
Ele ainda grita para que descobertas feitas nos 1960 sejam conhecidas --como o fato de, segundo ele, a Cannabis ser o remédio menos tóxico já registrado na literatura médica com potencial terapêutico para uma infinidade de doenças.
Segundo ele, quando cientistas começarem a testar diferentes formulações dos subprodutos da maconha, novas aplicações devem surgir. "Ela será a maravilha do nosso tempo, como foi a penicilina no passado", diz.
Grinspoon falou à Folha por Skype.
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Folha - Nos 21 Estados americanos onde o uso medicinal da maconha é permitido, os pacientes de fato têm acesso à droga?
Lester Grinspoon - Depende. Na Califórnia, onde a erva é aprovada para esse fim desde 1996, ela pode ser prescrita até para dor nas costas. Mas a maioria dos Estados é muito restritiva. Em Nova Jersey, essa deliberação ainda não saiu do papel.
Por que isso acontece?
Pelo pequeno número de enfermidades para as quais ela é indicada e pela ausência de prescrição.
Minha posição é que o uso medicinal da maconha só será colocado em prática com a aprovação irrestrita. Ou seja, se qualquer um acima de 21 anos puder usar.
Nenhum Estado colocaria entre suas indicações, por exemplo, o tratamento da tensão pré-menstrual --como bem fazia a rainha Vitória, na Inglaterra, no século 19-- ou de soluços. Eu descobri sozinho que a maconha alivia náuseas.
Historicamente, a maconha já foi usada para disenteria, alívio da dor de cabeça, da febre, como antidepressivo, anticonvulsivante e para crises de asma e enxaqueca. Essas aplicações se demonstraram eficazes?
Muitas delas. A maconha é o tratamento por excelência da dor de cabeça.
Até para asma? Um dos malefícios já registrados da maconha é justamente sobre o aparelho respiratório.
A asma tem uma dualidade porque, se [a maconha for] fumada, irrita a traqueia e isso obviamente não é interessante para um asmático.
Mas, uma vez no organismo, ela não tem efeito deletério sobre o pulmão --pelo contrário, atua como um relaxante muscular. A traqueia tem esses músculos pequenos que, quando relaxados, ficam mais abertos e facilitam a respiração.
O senhor confirma estudos que relacionaram a maconha com a esquizofrenia?
A esquizofrenia tem um forte componente genético e conta com prevalência de apenas 1% da população mundial. É impossível que seja causada pela maconha.
A droga pode ser usada por pessoas com histórico de doença psiquiátrica?
A erva tem ação antidepressiva e pode ser uma aliada na depressão moderada, além de eficaz no transtorno bipolar na fase de mania. Outra aplicação seria na versão adulta do deficit de atenção.
Mas não posso afirmar que todos responderiam à erva. Tivemos muitos obstáculos para a realização de estudos clínicos. O caminho é longo para romper com esse atraso.
A maconha causa danos à memória?
Conheço pessoas que usam a erva há muitos anos. Eu mesmo uso há 40 anos. Posso dizer que se causasse problemas de memória a essa altura eu já saberia.
De qualquer forma, a literatura médica e a experiência mostram que essa perda de memória é temporária, no auge do "barato".
E eu a classificaria como uma distração. Esse é mito mais famoso sobre o seu uso. Então, a resposta para a sua pergunta é não.
Como começou a usar? E por qual motivo?
Eu era um conservador. Em 1967, era comum o uso da droga em festas e eu era o primeiro a dizer: "Não, isso faz mal à saúde". Comecei a questionar as minhas afirmações sobre a droga. Percebi que eu, um médico, assim como todas as outras pessoas, estava acreditando cegamente no que era dito sem o necessário fundamento.
Primeiro eu fui à biblioteca de Harvard e comecei a tentar encontrar qual era a base científica para a proibição da maconha. Fiquei estupefato, tive epifanias ao ler todos os estudos: "Meu Deus, sofri uma lavagem cerebral, assim como todas as outras pessoas nesse país".
Em 1973, comecei a fumar, para não ser criticado, já que era um defensor. Não parei desde então.
O senhor tem controle sobre a dose que usa? Chegou a estabelecer alguma frequência?
Uso à noite, quando é hora de relaxar. Mas para algumas pessoas e alguns casos eu aconselho dar um trago e não dar outro em seguida --esperar dois minutos e sentir o efeito. Para aliviar a dor de cabeça, por exemplo, eu preciso repetir esse procedimento cinco vezes.
No livro "Marihuana: The Forbidden Medicine", há uma seção que estabelece uma relação entre o uso de maconha e o envelhecimento. A erva o ajuda a lidar melhor com o avanço da idade?
Eu tenho gastroparesia [demora para passagem do alimento pelo estômago] por complicações da diabetes, e isso me dá episódios terríveis de náusea. Então, eu carrego um pouco da erva no meu bolso porque, se num restaurante eu tenho uma crise, eu uso [mastigo] e consigo relaxar e continuar a comer.
O efeito antidepressivo da maconha também ajuda, além de sua ação analgésica e anti-inflamatória.
Há diferentes moléculas na Cannabis com diferentes funções? Seria possível isolá-las para que umas fossem mais ou menos potentes que outras e, com isso, sofisticar sua composição química para diminuir efeitos psicoativos ou fabricar diferentes medicamentos?
As moléculas da Cannabis são chamadas de canabinoides. O tetrahidrocanabinol (THC), o mais estudado, é basicamente responsável pelo "barato". Agora, nos últimos anos, estamos estudando o canabidiol (CBD), que não dá barato e, na verdade, atua contra ele, além de ter um poderoso efeito terapêutico.
Já temos medicamentos à base de CBD?
Há uma erva, chamada Charlotte's Web, com grandes quantidades de CBD. Ela é muito útil para o tratamento da síndrome de Dravet, uma forma de epilepsia comum na infância causadora de centenas de convulsões por dia. O cérebro dessas crianças nem se desenvolve. Quando administrado o CBD, o número de convulsões passa de 300 diárias para cerca de três. Isso é incrível e ainda não há nenhum efeito psicoativo, pelas baixas dosagens de THC.
Na semana passada, foi aprovado na França o Sativex, indicado para o alívio de sintomas da esclerose múltipla. Também o dronabinol é um medicamento clássico para o alívio dos efeitos colaterais da quimioterapia. Acredita que esses medicamentos são mais eficazes que a erva?
O Sativex não é um bom medicamento. Sua composição química é de metade THC e metade CBD. Então não tem muita sofisticação do ponto de vista da proporção entre as moléculas. Mas o principal problema é o fato de ser administrado em pequenas gotículas --o que demora para fazer efeito. E se você está com sintomas e espasmos agudos, certamente não quer que demore tanto pra passar.
O dronabinol é puro THC. Não possui os demais canabinoides presentes na maconha igualmente terapêuticos. A erva, assim, ainda é o melhor remédio.
A maconha tem potencial para oferecer benefícios para mais doenças?
Quando a ciência começar a manipular frações moleculares e mexer com o CBD, certamente teremos mais surpresas quanto aos benefícios da Cannabis. Ela será a maravilha do nosso tempo, como foi a penicilina no passado.
Não tem nenhuma restrição quanto ao uso da erva?
Em jovens com o cérebro em formação. Não há estudos que analisem os efeitos da droga em menores de 22 anos. No mais, o uso é livre para quem gosta.
    RAIO-X LESTER GRINSPOON
    IDADE
    86 anos, nascido em Newton, Massachusetts (EUA)
    FORMAÇÃO
    Psiquiatria pela Universidade Harvard; hoje é professor-assistente emérito de psiquiatria na universidade
    LIVROS
    "Marihuana Reconsidered" (2º edição, Quick American Archives, 1994); "Marihuana: The Forbidden Medicine" (edição revista, Yale University Press, 1997)
      Uso terapêutico precisa de mais cautela, diz OMS
      DE SÃO PAULOA OMS (Organização Mundial da Saúde) reconhece que a maconha pode ajudar no tratamento de náusea em pacientes de câncer e Aids, mas diz que outras aplicações da erva ainda precisam ser respaldadas por pesquisas.
      A entidade lista estudos clínicos que têm tido bom resultado no tratamento de glaucoma, anorexia, depressão e convulsões, mas afirma que ainda é preciso elucidar a biologia básica da ação da maconha nessas doenças.
      Com relação a efeitos colaterais, a OMS diz que a droga eleva o risco de dano cognitivo de longo prazo, doenças respiratórias e esquizofrenia.

        Fabio Zanini

        folha de são paulo
        Vício estatal
        SÃO PAULO - A estratégia de governos para lidar com o vício de seus cidadãos sempre se dividiu em duas: largar mão ou sentar a mão. Deixar drogados ou alcoólatras entregues ao problema, ou usar de força policial para tentar resolver a situação na marra.
        Haveria uma terceira via? Em São Paulo, na semana passada, a prefeitura começou a pagar R$ 15 diários a usuários de crack para que varram ruas. Em Amsterdã, na Holanda, a administração faz algo parecido com dependentes de álcool. Só que lá é mais direta: paga em latas de cerveja para que recolham lixo de locais públicos.
        "Vim pela cerveja. Se não houvesse cerveja, por que eu viria?", disse, com crua franqueza, um dos participantes do programa holandês à rede britânica BBC.
        Pode parecer chocante usar dinheiro público para incentivar o vício, mas a lógica da iniciativa é assumida: comprar (a palavra é essa) a atenção de pessoas que só se relacionavam com o Estado para fugir da polícia. Atraí-los usando suas próprias armas para, num segundo momento, dar a eles algum sentido de responsabilidade e tentar gradativamente reduzir, com acompanhamento especializado, a dependência.
        Desde que o programa holandês foi implantado, há 12 meses, a policia percebeu uma queda no índice de roubos na região onde os alcoólatras-catadores atuam.
        Em São Paulo, ainda é impossível ter um diagnóstico da ousada iniciativa. No primeiro dia, os novos garis terminaram o expediente como fazem milhões de trabalhadores mundo afora, acendendo um cigarrinho para relaxar. A diferença é que era de crack. Não que se esperasse algo diferente, num dos vícios mais escravizantes de que se tem notícia.
        Mas os sinais desanimadores não deveriam deter a prefeitura. Se não esmorecer, o prefeito Fernando Haddad tem a chance de criar uma rara marca positiva numa gestão desesperada por mostrar algo de bom.

          Ruy Castro

          folha de são paulo
          Sentença de morte
          RIO DE JANEIRO - O Rio vai perder uma instituição de 78 anos: a Livraria São José. Seus proprietários não têm como atender ao reajuste do aluguel do predinho na rua Primeiro de Março, de R$ 8.000 para R$ 20 mil. Um valor dessa monta só pode ser honrado por bancos, farmácias ou lojas de colchões. Não por um sebo de livros --nem mesmo um com a história, desde 1935, da Livraria São José.
          Foi o sebo mais importante do Rio no século 20. Suas lojas originais, nos números 38, 40 e 42 da própria rua São José, no Castelo, formaram mais leitores e escritores do que qualquer outra. Eu próprio me considero um deles. Em meados dos anos 60, matei incontáveis aulas na Faculdade Nacional de Filosofia para passar as manhãs entre suas bancadas, lambendo com os olhos os livros que ninguém conseguiria ler no espaço de uma vida.
          O homem por trás da São José chamava-se Carlos Ribeiro. Foi dele a ideia de formar balconistas e familiarizá-los com autores, estilos e escolas --vender livro não era vender biscoito. Foi também quem lançou no Brasil as então tardes de autógrafos, com madrinha e belisquetes. Mas não era preciso ir a uma delas para ver Drummond, Lispector ou Bandeira entre seus clientes --eles iam lá quase todos os dias.
          Nos anos 80, com a pressão imobiliária, a São José foi para a rua do Carmo. Cansado, Carlos Ribeiro repassou-a a seus funcionários mais antigos. Que, por sua vez, tiveram de levá-la, já reduzida a livros jurídicos, para a Primeiro de Março. Era o começo do fim.
          Deu a louca nos preços do Rio, e isso é uma sentença de morte para qualquer comércio mais delicado. A São José é só o primeiro de outros sebos que, para desgraça da cidade, também ameaçam fechar. As ruas que, por décadas, beneficiaram-se do seu charme agora os enxotam, como se eles não tivessem mais o direito de existir.

          Alô - Obras Sonoras

          folha de são paulo

          Artistas passam a usar o telefone como suporte para obras sonoras

          "Num dos meus sonhos, eu era um monstro horrível, inventado por um cara do mal. Era meu corpo, mas não era eu", diz a voz de um homem. Do outro lado da linha, uma mulher interpreta.
          "Pode ser o seu corpo querendo dizer alguma coisa que lá no fundo está atormentando você."
          É uma conversa telefônica entre dois desconhecidos, conectados às 3h da manhã por um discador automático.
          Uma vez por semana, o sistema inventado pelo artista norte-americano Maxwell Hawkins liga ao mesmo tempo para 3.700 pessoas que se cadastraram nos Estados Unidos e no Canadá para serem despertados no meio da noite e discutir seus sonhos e devaneios pelo telefone.
          "Tem algo na voz que é muito atraente para mim. E o telefone parece dar acesso ao subconsciente das pessoas. Você tem conversas mais cruas", diz Hawkins. "Sem ver o rosto, dá para sentir a respiração, o ritmo da fala. É como se aquele desconhecido sussurrasse seus segredos mais íntimos no seu ouvido."
          Em tempos de mensagens de texto telegráficas e redes sociais ultravelozes, Hawkins, um rapaz de 23 anos, parece estar descobrindo as proezas do aparelho telefônico, inventado no século 19.
          Mas o artista deu um salto no tempo ao criar um sistema capaz de identificar o assunto das mais de 300 horas de conversas gravadas. Ele pretende montar programas de rádio com os relatos sobre temas específicos -um banco de dados sonoro e onírico.
          "Falar de sonhos dá uma sensação de proximidade e de distância ao mesmo tempo", diz Hawkins. "Quando você está na cama à noite, acordado, preocupado com seus problemas, acha que está sozinho. Mas pode haver milhares de outras pessoas nessa mesma situação."
          Também há uma série de artistas contemporâneos que vêm transformando o tom retrô da voz ao telefone em obras sonoras.
          Na última Bienal do Mercosul, encerrada em novembro em Porto Alegre, o artista argentino Nicolás Bacal distribuía papeizinhos com um número telefônico -seu trabalho, um longo poema, só poderia ser ouvido.
          Em jantares e até na mesa do bar, havia gente que não desgrudava do aparelho por mais de 50 minutos, ouvindo versos gravados pela mulher que, desde os anos 1970, é a voz da hora certa no Brasil.
          Bacal encontrou a locutora original do serviço que informa o horário do país e pediu que ela gravasse, no mesmo tom e cadência em que anunciava as horas, uma longa divagação sobre a sensação da passagem do tempo.
          "Essa voz sempre esteve associada ao telefone", diz Bacal. "Meu trabalho tem a ver com encontrar um valor agregado na voz, que se transforma num fio condutor poético. Dirigindo a gravação, eu regulava a expressividade dela para que ficasse igual à das horas, com carga humana mínima, que surge só às vezes."
          Em tom robótico, ela fala do "cheiro das pedras em abril", das "luzes dos barcos ancorados à beira do mundo", de "um pássaro voando por cabos de fibra ótica", do "tique-taque da voz, correndo paralelo ao café dos bares, ao açúcar dos canaviais, à fúria das máquinas de costura", de "mulheres intranquilas".
          Uma dessas mulheres pode muito bem ter sido María Teresa, personagem real que virou celebridade na Argentina quando sua voz, gravada numa fita de secretária eletrônica comprada num mercado de pulgas de Buenos Aires, virou trilha sonora e enredo de um curta-metragem.
          No filme, uma atriz é dublada pela voz de María Teresa numa série de telefonemas obsessivos ao marido, indo de um estado de calma fingida ao descontrole total.
          "Estou falando sempre com um aparelho. Quando falo com você, estou sozinha", ela apela. "Você foi só ausência, ausência, ausência em toda a minha vida e nunca diz nenhuma palavra de amor."
          Essa última frase acabou dando nome a "Ni Una Sola Palabra de Amor", o curta de Javier Rodríguez, que foi visto mais de 1 milhão de vezes no YouTube e detonou uma busca frenética pelos donos das vozes daquela fita.
          "Minha ideia era conservar a gravação verdadeira, então fizemos como se faz um desenho animado, que já tem a voz e depois a imagem é criada em cima", diz Rodríguez. "A atriz só teve de aprender o ritmo da fala, a respiração."
          MÚSICA DE ESPERA
          Esses elementos, quase uma assinatura da voz, também intrigaram tanto o curador Adriano Casanova que ele decidiu montar uma exposição com obras sonoras tocadas no lugar da música de espera nos telefones da galeria Baró, em São Paulo.
          "Quando eu ligava para a galeria, ficava irritado com a música de espera", conta Casanova. "Então, tive a ideia de fazer uma mostra que funcionasse só pelo telefone."
          Em junho do ano passado, quem ligava para a Baró se deparava com obras de artistas como Dora Longo Bahia, que gravou um estrangeiro lendo uma versão em português de "Ulisses", e Lourival Cuquinha, que interceptou chamadas de orelhões que instalou em Belém e Recife.
          Todos os que usavam seus aparelhos podiam ligar de graça para qualquer lugar do mundo, mas tinham de concordar em ter a conversa gravada para virar obra de arte.
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          POEMA DAS HORAS
          Na última Bienal do Mercosul, encerrada em novembro, em Porto Alegre, o argentino Nicolás Bacal apresentou sua obra, um longo poema, em português, sobre a sensação da passagem do tempo, por um número de telefone para o qual os visitantes da mostra podiam ligar de graça. "Vetor da Saudade" era lido pela mesma locutora que dá voz à hora oficial no Brasil desde os anos 1970 -hoje só disponível no site do Observatório Nacional (www.on.br). Bacal pediu que ela lesse seus versos no ritmo e cadência robótica com que gravou todas as horas e minutos do dia segundo o horário de Brasília.
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          SECRETÁRIA ELETRÔNICA
          Mensagens deixadas na secretária eletrônica por uma mulher desesperada a um marido que não atende acabaram virando enredo e trilha sonora de um curta-metragem do cineasta argentino Javier Rodríguez. Ele usou a fita comprada num mercado de pulgas em Buenos Aires para sonorizar o curta "Ni Una Sola Palabra de Amor", visto mais de 1 milhão de vezes no YouTube. Nele, uma atriz encarna María Teresa, que liga enlouquecida para Enrique, seu marido. Com o sucesso do curta, acabaram sendo descobertos os donos das vozes originais, que viraram celebridades na Argentina.
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          ONDA ONÍRICAS
          Maxwell Hawkins, um jovem artista norte-americano, inventou uma máquina inspirada na ideia de gravar sonhos. Uma vez por semana, um discador automático conecta dois desconhecidos pelo telefone para que contem sobre o sonho que estavam tendo na hora em que foram acordados. No total, 3.700 pessoas nos EUA e no Canadá já se cadastraram para fazer parte do experimento. As mais de 300 horas de gravação acumuladas vão virar um programa de rádio sobre sonhos de temas específicos, que Hawkins pretende lançar no primeiro semestre deste ano.
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          MASSA SONORA
          Numa parceria com uma empresa de telefonia, Lourival Cuquinha instalou nas ruas de Belém e do Recife orelhões que faziam ligações de graça para qualquer lugar do mundo. Mas impôs a condição de que gravaria todas as conversas para usar numa obra de arte. Ele conta que transformou as conversas numa "massa sonora", já que aplicava efeitos aos diálogos. "É um comentário sobre como o mundo da rede oferece vantagens, mas nada é gratuito", diz Cuquinha, que vai repetir o projeto este ano em Ribeirão Preto (SP). "É de graça, mas [na rede] podem fazer o que quiserem com a informação." 

          'The Square', indicado ao Oscar, enfoca mudanças no Egito

          folha de são paulo
          ANÁLISE
          'The Square', indicado ao Oscar, enfoca mudanças no Egito
          DIOGO BERCITODE JERUSALÉM
          A revolução egípcia irá concorrer ao Oscar de melhor documentário com "The Square" (a praça), disponível desde sexta no Netflix. O filme narra as insurgências que tomaram o Egito desde o início de 2011, quando o ex-ditador Hosni Mubarak foi jogado para fora do trono.
          Mas, em vez de mostrar uma imagem nítida a respeito da praça Tahrir, à qual se refere o título, "The Square" prova que a Primavera Árabe é um processo contínuo sobre o qual ainda não é seguro estabelecer conclusões.
          Caso tivesse sido produzido em 2011, talvez o filme provasse que a insurreição egípcia havia culminado em um segundo regime militar. No ano seguinte, poderia estar evidente que, na verdade, as manifestações haviam coroado o islamita Mohammed Mursi para a Presidência.
          Hoje, a impressão deixada parece estar resumida nas falas dos personagens, nas últimas sequências, quando afirmam que o povo egípcio não procura um novo líder, mas uma nova consciência.
          A Primavera Árabe começou, no Egito, como protestos pela deposição do ex-ditador Mubarak. Após sua queda, em fevereiro de 2011, o Exército desagradou à população, que exigiu eleições.
          A Irmandade Muçulmana, que lutara contra o regime durante décadas, conquistou a Presidência do Egito, apenas para um ano depois ser também retirada do poder.
          As mudanças na praça Tahrir são rápidas. No início, um dos protagonistas afirma:"Fui às ruas e descobri que as pessoas se sentiam como eu". Mais adiante percebe que os confrontos distinguem os revolucionários.
          Assim, a camaradagem entre o jovem Ahmad e o islamita Magdy se torna um ponto tenso na narrativa, a partir do momento em que a sociedade se vê dividida pelo projeto político oferecido pela Irmandade Muçulmana, a quem as leis islâmicas têm de ser incluídas na Constituição.
          É nesses conflitos que o documentário deixa evidente a riqueza de seu conteúdo, com a progressão não da liderança egípcia, mas da consciência de seus personagens --que, percebem, fazem parte de placas tectônicas distintas que se movem, se chocam e se sobrepõem.

          Gregorio Duvivier

          folha de são paulo
          Remissão voluntária
          O fígado está desviando sangue do rim, que rouba o sangue do pulmão, que recita trechos do seu livro ruim
          Caro Senador,
          Quem lhe escreve é o seu tumor. Passei um tempo no seu corpo, trabalhando, sem muito sucesso, lembra?
          Escrevo essa carta porque saí sem me despedir e acho que fiquei lhe devendo explicações. Não se abandona a casa de um anfitrião assim, sem mais nem menos. Mesmo quando o anfitrião é uma pessoa péssima, como o senhor.
          Como o senhor deve ter percebido, o período que passei aí dentro do seu corpo não foi uma época boa. Para ser bem sincero, a convivência com o senhor foi muito difícil. Não sou de falar mal de quem me recebe, mas acontece que o clima aí dentro é horroroso, o cheiro é fétido e seus órgãos são todos pessoas péssimas.
          O fígado está desviando sangue do rim, que rouba o sangue do pulmão, que recita trechos do seu livro (aliás, que livro ruim, hein, senhor). O estômago não repassa os alimentos pro intestino, porque eles são inimigos políticos. O intestino nomeia parentes por meio de atos secretos. Resumindo: não há um órgão do senhor que se salve, do ponto de vista do caráter.
          Fui à procura de partes que pudessem ser boa companhia. Seu coração existe, mas só bombeia sangue pros órgãos que ele tem afinidade. O cérebro estava ocupado com discursos parnasianos e poemas populistas (talvez fosse o contrário). Procurei, em vão, pelo sentimento de culpa. Nada. A vergonha também não estava na cara, nem em qualquer outro lugar. É verdade que não conferi na região retal, onde me disseram que o senhor guarda a ética.
          Eu sei que o Brasil estava torcendo por mim. Mas nessas horas confesso que sou um tumor pouco profissional. Não sei agir sob pressão. Preciso de um bom ambiente para trabalhar. Tenho colegas que não ligam para essas coisas. Mas eu não consigo exercer minha profissão quando o santo não bate. O meu trabalho exige uma certa identificação e empatia. E tem um tipo de gente com que eu prefiro não me misturar.
          Pensei em me instalar na sua filha, já que ela estava sempre por perto. Mas, ao que parece, o mal é de família. Sou alérgico a lagostas, especialmente às superfaturadas. Prefiro a lixeira hospitalar.
          Além do mais, logo percebi que não havia grande mal a ser feito, quando comparava com a sua obra. O que quer que eu fizesse com o senhor não seria pior do que o que o senhor fez com o Maranhão.

            Luiz Felipe Pondé

            folha de são paulo
            Dois pesos e duas medidas
            Por qual razão seria incorreto fazer piadas sobre negros e gays, mas não sobre o cristianismo?
            Não sou religioso, só frequento templos vazios. Tampouco considero o ateísmo prova de maior inteligência ou coragem intelectual. Dias atrás, nesta coluna, ataquei as dimensões picaretas das religiões.
            Por que digo isso? Porque hoje em dia, em épocas de exigências de pureza ideológica (no mundo da cultura vivemos um fascismo descarado dos bonzinhos, baseado em difamação de quem não frequenta as ideias que eles frequentam), se faz necessário apresentar algumas "credenciais" quando se vai tratar de um assunto delicado que pode ofender a sensibilidade totalitária dos bonzinhos. Quando ofendidos, os bonzinhos passam à gritaria, principalmente nessa masmorra escura que são as redes sociais.
            Apesar de não ser religioso, conheço o suficiente de algumas religiões para saber que muitas delas carregam um saber de valor inestimável, fato este que escapa a muitos dos críticos banais das religiões. Você identifica um ignorante quando ele diz que a Bíblia é um livro opressor.
            Dito isso, vamos ao que interessa. Há alguns anos, um cartunista dinamarquês passou por poucas e boas quando fez piadas com Maomé. Lembro-me de muitos dos bonzinhos defenderem o direito dos muçulmanos de se ofenderem com a piada e jogarem a atitude do cartunista no saco indiferenciado do preconceito ocidental contra o Islã.
            Fico feliz que no Brasil ainda se possa fazer humor com as religiões e que quem faz piada com Jesus (que acho um cabra-macho, mas não acho que seja Deus) possa fazê-lo, ganhar dinheiro com isso e não ser ameaçado de morte. Ou, quem sabe, perder o emprego. Pedir a cabeça de alguém é um pedido comum dos bonzinhos quando leem algo com que não concordam.
            Acho que o humor deve ser livre porque ele é uma das dimensões por meio das quais o espírito humano sobrevive, se alimenta e reflete sobre sua condição. Não partilho da ideia de que o humor seja uma forma menor de cultura. Por isso, discordo da tentativa de qualquer grupo, religioso ou não, de querer barrar ou processar quem quer que seja por ter feito piada do que for.
            Mas me pergunto uma coisa: por que alguns acham politicamente incorreto fazer piadas com negros, índios, gays e nordestinos (e julgam justificados processos legais contra quem faz tal tipo de piada), mas julgam correto fazer piada com os ícones do cristianismo?
            Claro, quem pratica esse tipo de critério, com dois pesos e duas medidas, é gente boazinha e com opiniões corretas. Defendem a própria liberdade, mas negam imediatamente a liberdade de quem os aborrece. O nome disso é incoerência. A democracia só vale para quem nos irrita, mas os bonzinhos não pensam assim.
            Não me surpreende a incoerência dos bonzinhos, porque o que faz alguém ser bonzinho hoje é a falta de caráter. Ser do "partido dos bonzinhos" hoje dá dinheiro, ganha editais, cargos no governo, fotos em colunas sociais, convites e prêmios culturais. Identificar um bonzinho hoje em dia como resistente ao poder é uma piada e tanto! Eles estão no poder até no RH das empresas e na magistratura.
            Os cristãos têm todo o direito de ficar bravos com as piadas com Jesus (que aliás, costumam ser ótimas). Mas, acho "engraçado" (já que estamos falando de humor) alguém não perceber que vivemos num mundo em que tirar sarro de cristão pode, mas de outros grupos não. Por quê?
            Fácil: porque ninguém precisa ter "cojones" para tirar sarro de cristão. No mundo da cultura, falar mal de religião (menos da indígena, afro e budista) é bater em bêbado na ladeira.
            Proposta: que tal tirar sarro das pautas dos bonzinhos? Tipo fazer piada com as "jornadas de junho". Ou da moçadinha que quer salvar o Ártico. Ou de gente que vive falando mal da polícia, mas treme de medo e chama a polícia logo que sente sua propriedade privada em risco. Ou do movimento estudantil. Ou de intelectual que glamoriza os "rolezinhos". Ou das feministas. Ou de ateus militantes. Ou do exército da salvação PSOL e PSTU. Ou de quem diz que bandidos são vítimas sociais.
            É isso aí: que tal fazer piadas com os preconceitos dos bonzinhos? Missão impossível?