terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Carlos Heitor Cony

folha de são paulo
O que é a verdade?
RIO DE JANEIRO - Recebi, semanas atrás, não sei se uma intimação ou um convite, para comparecer à Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, de São Paulo.
Não pretendo aceitar o convite e só me darei por intimado se sofrer uma punição de força. Num caso e no outro, tenho opinião formada: Vladimir foi miseravelmente assassinado numa prisão do Estado e Fleury assassinou e mandou assassinar uma centena (ou mais) de opositores da ditadura. Nenhuma comissão da verdade, tenha o nome que tiver, me convencerá do contrário.
E há outros casos igualmente tenebrosos, como o do deputado Rubens Paiva, pai do meu amigo Marcelo Rubens Paiva (grande escritor) e o do ex-bancário Aluísio Palhano, que conheci exilado em Havana. Pressionado pelo próprio governo de Cuba, ele tentou vir ao Brasil para liderar uma guerrilha. Veio num navio cargueiro e, próximo ao litoral de Santa Catarina, tomou uma lancha, tentando chegar a terra. Foi fuzilado e jogado no mar. Há também outras versões sobre seu sumiço nas dependências do DOI-Codi.
Descobrir a verdade não é impossível, mas sempre recordo aquela passagem do Evangelho em que Cristo diz a Pilatos que o reino Dele era o da verdade. O procurador romano, a autoridade máxima na Judeia, que condenaria o réu a morrer no Calvário, pergunta sem tom de deboche: "O que é a verdade?". Não espera resposta e vai tomar as providências para a crucificação.
Provavelmente, Cristo não conhecia a definição de verdade de Aristóteles, mais tarde adotada por Tomás de Aquino: "Adaequatio rei ad intellectum". Pilatos era romano. Por formação, seguia os céticos romanos, ficaria na mesma.
Não sou romano, mas cético. Não entenderia nem Aristóteles nem Cristo, mas não precisaria de um ou de outro para saber o que houve de crime e imoralidade no Brasil.

Claudia Collucci

folha de são paulo

Os senões da vacina contra o HPV

Os senões da vacina contra o HPV
A partir de março, a vacina contra o HPV entra oficialmente no calendário nacional de imunizações e passa a ser ofertada às meninas de 11 a 13 anos. Até o momento, parece ser uma unanimidade os benefícios da vacina que destina-se a prevenir o vírus HPV, ligado à quase totalidade do câncer do colo de útero.
Não é bem assim. Embora não haja grandes estudos demonstrando a falta de segurança da vacina, existem relatos pelo mundo de doenças graves atribuídas a ela como a síndrome de Guillain-Barré, falência ovariana, uveítes, além de convulsões e desmaios. Isso levou o governo do Japão a não mais recomendar a vacina.
No último congresso de prevenção quartenária, em novembro último, o médico de família e comunidade Rodrigo Lima fez uma apresentação sobre os senões da vacina contra o HPV. Desde então, o assunto tem repercutido nas redes sociais e em grupos de discussão sobre saúde da família.
Lima não é nenhum daqueles radicais dos movimentos anti-vacinas. Fui atrás de cada um dos argumentos que ele utilizou na apresentação e todos me pareceram bem embasados. A seguir, trechos de um texto que Rodrigo Lima escreveu esclarecendo dúvidas que surgiram sobre o assunto:
"Quando a gente pensa na possibilidade de tomar uma vacina para evitar uma doença, eu considero que devemos fazer algumas perguntas:
1) Já temos alguma estratégia efetiva na prevenção da doença? O que a vacina traz de novo?
2) A vacina realmente funciona?
3) Ela é segura?
4) Vale a pena substituir a estratégia anterior pela vacina?
Então, vou tentar organizar uma resposta para as questões.
1 - Já temos alguma estratégia efetiva na prevenção do câncer de colo uterino?
Temos sim. E quase todo mundo conhece: é o famoso papanicolau, ou citopatológico cérvico-uterino (popularmente conhecido como "preventivo de câncer de colo").
É muito raro uma mulher apresentar câncer se realizar o papanicolau na periodicidade recomendada (anualmente, e após dois exames normais com intervalo de um ano, o exame passa a ser recomendado a cada três anos). Sabem por que? Porque o câncer de colo de útero é uma doença de evolução muito lenta (normalmente em torno de dez anos), e o papanicolau permite que detectemos formas precursoras do câncer (ou seja, alterações na células que AINDA não são cânceres).
O papanicolau está recomendado para as mulheres de 25 a 64 anos, e deve ser realizado inclusive em mulheres que recebem a vacina, pois ela não protege contra todos os tipos de HPV.
Então, se temos um exame confiável, barato e disponível para todas as mulheres do país, o que nos faria mudar de estratégia, partindo para usar uma vacina que NÃO EXCLUI a necessidade de realizar o mesmo exame ao longo da vida? O que esta vacina traz de novo?
2 - A vacina realmente funciona?
Depende. Para que? Vamos lá. O HPV é um vírus transmitido através do contato sexual. Por isso, alguns pesquisadores tiveram uma ideia: se conseguíssemos evitar a infecção pelo HPV não teríamos mais câncer de colo uterino. Faz sentido, certo? Mas essa hipótese tem alguns probleminhas.
O primeiro problema desta hipótese está em como evitar a infecção. A transmissão do HPV é sexual, e basta o contato íntimo mesmo sem penetração para que a passagem do vírus aconteça. Então a melhor maneira de evitar a transmissão seria a abstinência sexual (tem até um estudo clássico neste tema que descobriu que freiras não têm câncer de colo uterino).
Como a abstinência não costuma ser uma prática muito popular então a gente tem que pensar em outra coisa.
Considerando que o vírus vai acabar circulando mesmo por aí, a solução mais óbvia seria vacinar as pessoas contra ele. O problema é que o HPV possui mais de 100 subtipos, e as vacinas ainda não conseguem cobrir todos eles, embora cubram os principais. Isso significa que mesmo que a vacina proteja alguém contra os subtipos que ela cobre, ela ainda permite que outros subtipos provoquem o câncer. Ou seja, ela não dá 100% de certeza de que as mulheres não terão câncer de colo uterino. A propaganda não explica isso, né? Mas é por este motivo que a bula da vacina avisa que a vacinação não exclui a necessidade de que a mulher continue realizando o papanicolau.
E tem mais: nem toda infecção pelo HPV provoca câncer. Na verdade, a minoria delas faz isso. Então mais importante do que se preocupar com a infecção, parece mais importante acompanharmos se a infecção evolui para lesões perigosas ou não, né? Ou seja: dá-lhe papanicolau nessa disputa, ganhando de lavada da vacina.
Outra coisa: a eficácia da vacina foi verificada apenas em meninas sem vida sexual. E o HPV é tão frequente na população que podemos dizer que se alguém já iniciou sua vida sexual, a chance de ter sido contaminado pelo vírus é de quase 100%. Ou seja, se a pessoa não é mais virgem, tomar a vacina não vai fazer nenhum efeito, porque a resposta que ela provoca no organismo não elimina os vírus que já estejam lá, apenas evitaria o contágio. No entanto, muitos médicos têm recomendado a vacina nestas pessoas, o que é contrário até às recomendações do próprio fabricante.
Nem vou discutir os efeitos da vacina na mortalidade, porque nem deu tempo ainda de estudarem isso direito. Como eu falei, o câncer de colo uterino é de evolução muito lenta, e acaba só sendo perigoso para mulheres que não fazem o papanicolau na periodicidade recomendada.
Mas aí algumas pessoas argumentam: "Poxa, ok, mas se ela evitar a infecção já faz algum benefício, né? Afinal de contas, mal não vai fazer."
Será? Vamos adiante.
3 - Ela é segura?
Há alguma controvérsia. Apontando a segurança da vacina nós temos os estudos feitos pelos fabricantes e as recomendações do CDC (órgão do governo dos EUA). No entanto temos alguns casos de doenças mais graves, ao ponto de existirem processos correndo na França movidos por vítimas da vacina, e casos semelhantes levaram o governo do Japão a não mais recomendar a vacina. Doenças como síndrome de Guillain-Barré, falência ovariana, uveítes, além de sintomas como convulsões e desmaios têm sido associados à vacina, mas esta relação ainda não foi demonstrada em grandes estudos.
Então vamos supor que isso aconteça em uma menina a cada 30 mil que sejam vacinadas (a proporção é baseada nas notificações de efeitos adversos do CDC, chamada de VAERS, e está disponível na internet). Será que compensa o risco, mesmo que seja baixo, de ter uma doença grave, se a vacinação não é melhor do que a estratégia que temos hoje para controlar o câncer de colo uterino (o papanicolau)?
4 - Vale a pena substituir a estratégia anterior pela vacina?
Prá mim não compensa. Só de imaginar uma filha minha com paralisias causadas por uma vacina dessas eu descarto a ideia rapidinho. Pretendo promover uma educação sexual boa para minhas filhas, para que saibam que precisam se proteger usando preservativo (até porque outros problemas como gravidez indesejada, HIV, hepatite B, entre outros, estão batendo na porta o tempo todo). E acima de tudo, demonstrar sempre a importância de fazer o papanicolau na periodicidade recomendada. Se conseguir, duvido que elas sofram deste mal. E sem essa vacina cara e suspeita. Minhas pacientes e suas famílias receberão a mesma recomendação."
É isso. A intenção de publicar o texto do Rodrigo não é alarmar a população e nem iniciar um movimento contra a vacina que em breve estará na rede pública. É claro que antes de tomar a decisão de incorporar a imunização ao calendário, o governo federal se municiou de informações confiáveis sobre a segurança da vacina. Mas, como tudo na vida, não existe unanimidade. E eu acho importante que os pais tenham informações plurais sobre o assunto.

Tiro na democracia - Janio de Freitas

folha de são paulo

Tiro na democracia

Arma de fogo no policiamento de manifestação pública é uma truculência que denuncia a admissão, pelos dirigentes civis e pelos comandos policiais, de violências fatais idênticas às de ditaduras. Balas de borracha já têm agressividade mais do que suficiente para intimidar e conter possíveis investidas de arruaceiros contra policiais.
Os governadores e seus prepostos para a "segurança" pública não podem instaurar ambientes de guerra civil, com suas armas inadmissíveis e ferocidade injustificável permitidas, senão estimuladas, como se fossem normais na democracia. Essa prática é uma transgressão ao Estado de Direito e como tal pode ser tratada, por meio de impeachment.
É ainda bem antes da Copa que se decide a maneira como sua chegada será recebida nas ruas. Em junho passado, a violência da PM paulista, contra grupos que degradaram a grande passeata, incentivou protestos que desandaram em arruaça e violência por vários Estados. Caso os responsáveis pela contenção dos despropósitos de qualquer lado não se limitem a métodos suportáveis, a tendência mais provável é de que o crescendo nacional da reação seja maior do que o anterior. Até o pretexto, motivo de quase unanimidade, facilitaria.
Pretexto, sim. Quando estimados os gastos com a Copa, os estádios a serem construídos, a prevista marotagem dos aumentos de custos acertados entre empreiteiras e governos, raríssimos foram críticos dessa irresponsabilidade, de dimensão ainda incalculável. Os interesses políticos e os financeiros se associaram ao Brasil levianamente festivo. Ao se aproximar o que foi tão celebrado, com a ansiedade popular do antimaracanazo, tudo de repente virou motivo de "rebelião"? Não dá para crer. Ao menos, porém, há uma originalidade aí: rebelião popular com data marcada, e anúncio a seus antagonistas com larga antecedência.
Seja qual for a verdade sobre a situação resultante nos tiros da PM contra Fabrício Proteus, a primeira responsabilidade é clara: a autorização de armas de fogo à PM em situação que não as requer, e na qual são a maior ameaça. Sua desnecessidade em tal situação está atestada na prática: a mais eficiente contenção da arruaça violenta, no Rio, foi obtida na última grande "manifestação" –com a PM desprovida de arma fogo.
A democracia não exclui confrontos entre opositores e centuriões do que os governos vejam como ordem pública. Mas exige condições e limitações que nenhum poder está autorizado a transpor. Tida como o regime das liberdades, a democracia, na realidade, não é menos condicionante e limitadora do que os outros regimes. Mas, o lugar-comum enfim se justifica, no bom sentido. Que não inclui o uso indiscriminado de arma de fogo nem em nome da ordem pretendidamente democrática. 
janio de freitas
Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve aos domingos, terças e quintas-feiras.

Editorial da Folha

folha de são paulo
Onda incendiária
Atos de vandalismo não podem ser tolerados, mas são inaceitáveis despreparo e excessos da polícia ao lidar com manifestações populares
A depredação de patrimônio público ou privado, a título de protesto contra os mais variados problemas, tem se transformado numa perigosa e inaceitável rotina no cotidiano nacional.
Se o direito de manifestação e de reunião é assegurado pela Constituição, nem por isso pode ser exercido de maneira irrestrita. Os atos devem ser pacíficos e, como é óbvio e desnecessário dizer, seus participantes não são autorizados a praticar crimes de nenhuma natureza.
Alguns manifestantes, todavia, parecem se esquecer das regras básicas de civilidade. Neste sábado, em São Paulo, um Fusca foi incendiado e terminou destruído. Ainda que o episódio tenha sido acidental, como se afirma, por pouco não resultou em tragédia, já que cinco pessoas estavam no automóvel.
A piromania, porém, não é nova. Propaga-se, na periferia paulistana, uma onda de incêndios de ônibus municipais. Até sexta-feira, 21 veículos haviam sido queimados neste mês. O número equivale ao total de casos registrados no primeiro semestre de 2013.
Os ataques se dão em meio a protestos relativos a temas diversos, de enchentes ao desaparecimento de crianças. Os principais prejudicados, além das empresas de ônibus, são os usuários de transporte público, pois perdas e substituições elevam o custo do sistema.
Estima-se que o prejuízo já alcance R$ 8,5 milhões neste ano. Apesar da recorrência do fenômeno, pouco se caminhou no sentido de identificar os responsáveis e submetê-los aos ritos legais.
A Secretaria da Segurança Pública organizou, no final de 2013, reuniões com representantes do setor de transportes, mas ainda não se sabe quais serão as providências. É evidente que tais agressões não cessarão sem que as autoridades tomem as medidas necessárias para reprimi-las.
As polícias, por seu turno, têm notórias dificuldades para lidar com os protestos que se disseminam pelo país. Como esta Folha vem reiterando desde o ano passado, a corporação oscila entre o abuso da força e a omissão diante dos vândalos, dois extremos incompatíveis com sua missão.
Neste sábado, em São Paulo, um policial baleou um manifestante, que está internado num hospital. Mesmo que em alegada legítima defesa, a reação parece desproporcional. O caso está por ser esclarecido, mas o uso de arma de fogo, de todo modo, não é recomendável na patrulha de atos públicos.
Nenhuma hipótese, contudo, isenta a polícia, enquanto instituição, de merecidas críticas em relação ao despreparo que tem demonstrado nessas ocasiões, bem como à truculência com que age.
É urgente mudar esse padrão. A polícia tem de coibir atos de vandalismo incompatíveis com o convívio democrático, mas não pode reproduzir excessos que busca repelir. Os episódios de sábado são um perigoso sinal de alerta.

Helio Schwartsman

folha de são paulo
O preço da civilização
SÃO PAULO - Polícia é fundamental. O primeiro passo para um grupamento humano um pouco mais complexo deixar para trás a barbárie é reservar ao poder público o monopólio do uso legítimo da violência, ou seja, constituir uma polícia.
Para chegar à condição de sociedade civilizada, entretanto, isso ainda não basta. É preciso também ser capaz de controlar essa polícia, já que, excluído o cenário mais catastrófico da guerra de todos contra todos, são as forças do Estado que se tornam um dos principais focos de violência contra os cidadãos.
Em São Paulo, realizamos precariamente o primeiro objetivo, mas só engatinhamos no segundo.
É verdade que, na comparação com o resto do Brasil, a polícia paulista figura entre as melhores. Ela é, de longe, a que mais prende. São Paulo, com 20% dos habitantes do país, responde por 35% da população carcerária. O Estado também tem uma das menores taxas de homicídio do Brasil (13,5 por cem mil habitantes, contra 27,1 no país, segundo a pesquisa Mapa da Violência 2013).
Se a comparação se dá com nações desenvolvidas, aí os números paulistas se tornam obscenos. E pioram ainda mais quando passamos a analisar a tendência de crimes menos graves do que o homicídio ou nos debruçamos sobre outros indicadores de eficácia policial, como investigações bem-sucedidas, baixa letalidade em confrontos etc.
No quesito controle da força, a situação é ainda mais devastadora. Apesar de décadas de retórica de direitos humanos, a tortura ainda é uma das principais "ferramentas de investigação" em nossas delegacias.
Os protestos e "rolezinhos" mostraram que a polícia também não está preparada para lidar com multidões e nem mesmo para identificar os tais dos "black blocs" e instruir decentemente um processo contra eles.
Não é fácil criar e manter uma polícia eficiente e não violenta, mas fazê-lo é o preço da civilização.

José Simão

folha de são paulo
Fidel surta! Dilma em Cuba!
E diz que a Dilma vai inaugurar um porto em Cuba. Pros balseros fugirem pra Miami! Rarará!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Socorro! Confirmado! Jennifer Lopez, Pitbull e Claudia Leitte cantarão a música-tema da Copa, "We Are One". Então #naovaitercopa. Esse é o único motivo que eu encontro para não ter Copa: Claudia Leitte! Rarará.
Vai ter Copa. Aliás, não vai ter Copa. Os black brócolis vão quebrar tudo antes: Fusca, porta de teatro, ponto de ônibus, esses símbolos do capitalismo! Rarará!
E socuerro! Dilma e Cristina Kirchner em Cuba! Juntas! Dessa vez o Fidel empacota! Rarará! Elas vão estressar o Fidel, El Coma Andante! E eu sei o que a Dilma foi fazer em Cuba! Curso de gambiarra! Cubano é bom de gambiarra. Pega uma batedeira anos 1930 e transforma num Chevrolet anos 1960!
Cuba é boa em saúde, educação e funilaria. Cuba é a prova de que os carros americanos são os melhores do mundo! Rarará!
E acho que a Dilma Grande Toura Chefa Sentada errou no modelito. Ela devia ter descido com shortinho de estampa de Che Guevara. Fazendo o tipo "Soy Loco Por Ti America". E diz que ela vai inaugurar um porto em Cuba. Pros balseros fugirem pra Miami! Rarará. Miami é o Morumbi de Cuba!
E diz que ela desceu cantando "O Brasil já lançou foguete/ Quero ver Cuba lançar/ Lança Cuba lança/ Quero ver Cuba lançar". Rarará. Ô esculhambação!
E ela continua andando como caubói, como John Wayne em "Sangue dos Heróis!" Tiraram o cavalo e ela não percebeu, continuou andando! Rarará!
E o Corinthians? Perdeu de um a zero pro São Bernardo! Tão perdendo até de cachorro. Diz que corintiano não quer ver nunca mais aquele filme "Beethoven"! E o site FuteboldaDepressao: "Corintiano invade casa pra tentar roubar uma bicicleta e é surpreendido por um São Bernardo feroz". Sendo que eu nunca vi um São Bernardo feroz! Rarará! E essa é do tuiteiro Nelson Evencio: "Corintianos fazem a versão da música-tema da Copa, We Are One'. Nóis é um, mano'". Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
Os Predestinados! Olha esse cartaz num poste: "Montamos móveis. Falar com Parafuso". Rarará! E tem um professor de psiquiatria na Universidade Stanford chamado: William DEMENT! E uma amiga contratou um pintor chamado José Suvinil! Rarará. Nóis sofre, mas nós goza! Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

João Pereira Coutinho

folha de são paulo
Carnívoros e vegetarianos
Para certas sociedades, valores como 'secularismo' e 'individualismo' soam estranhos e ameaçadores
Tony Blair regressa ao mundo dos vivos: em artigo para o jornal "The Observer", o ex-premiê britânico escreve que as lutas do século 21 não serão mais ideológicas, como aconteceu na centúria anterior. Serão culturais, religiosas. Civilizacionais. Ó Deus, onde é que eu já ouvi isso?
Obviamente, em 1993, quando Samuel Huntington horrorizou as consciências politicamente corretas com "The Clash of Civilizations?", o artigo publicado na "Foreign Affairs".
Reli o texto de Huntington. Com 20 anos de distância, voltei a pasmar com a inteligência (e a presciência) do senhor. Blair e Huntington podem partir do mesmo ponto: há um "choque de civilizações" inegável. Mas chegam a conclusões radicalmente distintas.
No ensaio, Huntington perguntava onde estariam os conflitos futuros quando todo mundo falava triunfalmente do "fim da história". E respondia: esqueça as lutas clássicas entre Estados. E esqueça também as lutas no interior do Ocidente, motivadas por disputas econômicas ou políticas, como sucedeu no século 20. Esse tempo acabou: imaginar a França nas trincheiras contra a Alemanha é cenário irrealista.
Os conflitos acabarão por emergir entre civilizações --ou, melhor dizendo, entre diferentes concepções do mundo que não podem ser resolvidas, ou harmonizadas, por um piquenique multiculturalista ou um seminário acadêmico entre pacifistas "new age".
Como escrevia Huntington, a questão futura não passa por saber qual é o lado certo da batalha; a questão primeira será saber quem somos nós. Porque é a identidade cultural, e não os interesses momentâneos do Estado, que irá definir os conflitos futuros. E, quando as coisas são postas nesses termos, não é possível ser meio muçulmano e meio cristão ao mesmo tempo.
Aliás, as tensões entre o Ocidente e o Islã são analisadas por Huntington sem eufemismos: se Tony Blair, na sua coluna para o "Observer", usa a palavra "Islã" com medo, Huntington é glacial. O conflito entre o Ocidente e o radicalismo islâmico dura 1.300 anos. Será mais violento nos anos próximos. E, pormenor importantíssimo que Blair (e Bush) esqueceu, não se resolve pela imposição de qualquer modelo democrático, por mais nobre que ele seja em teoria.
Para certas sociedades, os valores fundamentais da civilização ocidental --"individualismo", "secularismo", "constitucionalismo" etc.-- soam estranhos e, pior, ameaçadores. Por mais "primaveras árabes" que floresçam (e feneçam) no Oriente Médio.
Perante este "choque de civilizações", que fazer?
Tony Blair, em momento de "mea culpa", reconhece que o caminho não é militar: a democracia não se impõe à força porque os resultados, no Afeganistão e no Iraque, não foram propriamente brilhantes. Mas depois, com a ignorância que o define, Blair regressa a um mundo imaginário de fadas e duendes: o "choque de civilizações" só será evitado pelo entendimento e pela tolerância entre culturas.
Como é evidente, Blair está falando para a minoria "ocidentalizada" que ele encontra no lobby dos hotéis de luxo no Cairo ou em Beirute. Ou então prepara o seu discurso de Miss Universo.
Samuel Huntington, uma vez mais, revela a lucidez e a coragem que Blair não tem: perante o "choque de civilizações", deve haver maior coesão no interior do próprio Ocidente, entre países que partilham os mesmos valores fundamentais.
Isso implica um Ocidente que não esteja disposto a desarmar-se perante potenciais inimigos porque a palavra "inimigo" ainda continua fazendo parte da linguagem política contemporânea.
E, claro, o Ocidente pode sempre apoiar grupos de outras civilizações que se interessam por essas extravagâncias como a "democracia" e os "direitos humanos", sem ceder à tentação de tentar exportá-los pela força. A evolução para a modernidade é um caminho solitário que só essas civilizações podem (ou não) percorrer.
Vinte anos depois do ensaio de Huntington e dez anos depois das aventuras no Afeganistão e no Iraque, continuo preferindo o realismo carnívoro do professor de Harvard ao idealismo vegetariano de Tony Blair.