terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Carlos Heitor Cony

folha de são paulo
DNA da espionagem
RIO DE JANEIRO - Bem antes de 1964, os serviços de informação e de inteligência do Departamento de Estado norte-americano já dispunham de tecnologia suficiente para rastrear o encontro num quarto de hospital de dois personagens secundários (ou nem isso) no episódio da deposição de João Goulart. Em 1972, por ocasião do caso Watergate, já dispunham de recursos mais sofisticados para grampear conversas até mesmo no Salão Oval da Casa Branca. Podiam gravar, por interesse próprio ou para abastecer aliados de informações estratégicas.
Enquanto durou a Guerra Fria, em nome da segurança do mundo livre e da sua própria segurança, os Estados Unidos possuíam recursos técnicos capazes de espionar qualquer cidadão em qualquer parte do mundo, criando assim condições para o seu desaparecimento.
Até o final dos anos 70, início dos 80, o clima não apenas na América Latina, mas na Ásia e na África era condicionado prioritariamente pelo conceito de segurança do "mundo livre", cujo baluarte operacional político e militar era o próprio Departamento de Estado norte-americano.
Foram espionadas crises abertas durante o período, como a de 1962, quando os mísseis soviéticos instalados em Cuba ameaçavam os Estados Unidos, ou crises prolongadas em outros episódios, como as diversas ofensivas no Sudeste Asiático, a caça e a morte de Che Guevara na Bolívia, as revoltas estudantis em diversas capitais do Ocidente, a invasão da Tchecoslováquia, com os tanques do Pacto de Varsóvia rolando suas esteiras nas ruas de Praga, em conflitos localizados como a Guerra do Yom Kippur de 1973, com a consequente crise no abastecimento de petróleo, a deposição e o assassinato de Salvador Allende no Chile e o início da ditadura de Pinochet.
Dona Dilma Rousseff tem razões para reclamar da espionagem antes que seja tarde demais.

    Helio Schwartsman

    folha de são paulo
    O beijo gay
    SÃO PAULO - Saiu, enfim, o tal do beijo gay na novela da Globo. Não creio que haja muito motivo para comemorar. A TV, como a cavalaria, é sempre a última a chegar. Se a cena foi veiculada no horário nobre, é porque a maioria da sociedade já não considera tal ato obsceno ou escandaloso. Pelo menos não muito.
    Vejo com ceticismo, assim, os vaticínios dos que afirmam que o beijo televisado contribuirá para reduzir a homofobia no país. Tal efeito, se de fato passa de uma fantasia, apenas soma um grãozinho a um movimento mais amplo de aceitação que já está em curso há muito tempo e não tem data para acabar.
    Nesse quesito, aliás, nós brasileiros não nos saímos tão mal. Embora carreguemos a cruz de ter sido o último país ocidental a abolir a escravidão, estamos entre os primeiros a revogar as leis que puniam o homossexualismo. Por aqui, a sodomia deixou de ser um ilícito em 1830, quando o Código Criminal do Império substituiu as Ordenações Filipinas, que determinavam que os homossexuais fossem queimados vivos e "feitos per fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memoria, e todos os seus bens sejam confiscados para a Corôa de nossos Reinos".
    A título de comparação, nas avançadas Suécia e Inglaterra, a prática só deixou de ser crime em 1944 e em 1967, respectivamente. Nos EUA, as leis contra a sodomia só foram plenamente revogadas em 2003 --e por decisão da Suprema Corte, não dos corpos legislativos estaduais.
    Voltando ao beijo, houve, é claro, quem não gostasse. Como em qualquer distribuição normal, existe uma franja de gente mais conservadora que ainda chia diante desse tipo de imagem, mas esse é um grupo cuja importância política e demográfica é decrescente. De todo modo, eles têm à sua disposição o indefectível controle remoto. Se não gostam do que veem, são perfeitamente livres para mudar de canal ou até desligar a TV.
    helio@uol.com.br

      Eduardo Coutinho deixa filme sobre adolescentes

      folha de são paulo
      DEPOIMENTO
      Encantavam o mau humor persistente, a magreza de santo, o cigarro e a ironia fina
      Era sedutor, apesar de tímido, e por vezes cruel
      FERNANDA TORRESCOLUNISTA DA FOLHAConheci Eduardo Coutinho em 2003, no laboratório de roteiros que o Festival de Sundance promoveu no Brasil em parceria com o Sesc São Paulo. O "Redentor" (2004) não teve a sorte de contar com ele como analista, mas o sistema de imersão tratou de nos aproximar. Convivíamos nas horas vagas, nos longos jantares onde todos disputavam a sua atenção.
      Eduardo Coutinho já era o autor de "Cabra Marcado para Morrer" (1985) e "Edifício Master" (2002), mas o que encantava eram o mau humor persistente, a magreza de santo, o cigarro inseparável e a ironia fina.
      Uma noite, a conversa evoluiu para Tchékhov. Contei que havia feito uma adaptação de "A Gaivota" que jamais funcionou a contento, depois de levantada a cortina. Nossa melhor apresentação, confessei, foi um ensaio geral, antes de botarmos os pés no teatro. "Tchékhov não foi feito para estrear", disse ele cheio de razão.
      "Jogo de Cena" explorava a fronteira entre o falso e o verdadeiro, ficção e realidade. Nele, atrizes e mulheres reais se alternam narrando umas as histórias das outras.
      Duvidei da minha capacidade de chegar a um resultado aceitável desde o dia em que recebi o material. Era uma batalha perdida, chegar a uma interpretação convincente de um depoimento que se mostrava tão fresco na boca de quem o viveu.
      O fato de ser uma atriz conhecida depunha contra. Era falso porque partia de mim, que vivo de fingir.
      Mesmo descrente, me empenhei na tarefa. No dia marcado, me dirigi até o teatro onde Coutinho filmava.
      Esperei concentrada no camarim, ele disse que me chamaria com a câmera já valendo. Subi as escadas imbuída da personagem.
      Equilibrada no delicado fio, me sentei na cadeira em frente à câmera em estado de representação.
      Coutinho soltou uma exclamação em tom alto: "Nossa, você falou igual a ela". Eu tentei continuar, mas ele insistiu em me chamar pelo meu nome. Fui tomada por um pânico e tive vergonha de estar ali.
      Coutinho não percebeu e continuou a me perguntar onde ele deveria se posicionar, falou da sua falta de jeito, pediu que eu dissesse a hora de começar, mas a hora já havia passado. Esfriei por completo. Não teve volta.
      Tentei atacar a fala, mas um diabo insistente sussurrava ao meu ouvido: "Está escrito na sua cara que é mentira!". Parei. Foi melhor parar, admitir que eu não acreditava no que estava dizendo.
      Como velho comunista que era, acho que Coutinho, embora carinhoso, tinha muitas reservas com relação a pessoas como eu. Ele usava palavras como "estrela" e "celebridade" para me definir. Era muito sedutor, apesar de tímido, e muitas vezes cruel nos comentários.
      Ele me mostrou o material com muita ansiedade, tinha receio de que eu não liberasse, que ficasse ofendida, ou tivesse problemas de me mostrar frágil. Reagiu aliviado e surpreso quando viu que eu não criaria problemas.
      Fiel ao que ouvi dele no laboratório do Sundance, aceitei tornar pública a amarelada histórica. Coutinho eternizou o torturante ensaio. Na maior parte do tempo, é naquele estado em que vivem os atores, na infinita busca.
      Eu sempre achei que a trava dele com o mundo, a inadequação confessa, a dedicação ao fumo, o olhar severo, embora humorado, fosse herança da esquerda. Como também achei que o cigarro o mataria.
      Nem uma coisa nem outra. A delirante realidade, como nos seus melhores filmes, superou a ficção.
        Coutinho deixa filme sobre adolescentes
        Cineasta, assassinado anteontem, filmou estudantes da rede pública do Rio; documentário estava em pós-produção
        Mostra na Cinemateca homenageará o diretor; também sairá versão restaurada de 'Cabra Marcado para Morrer'
        GUILHERME GENESTRETIJULIANA GRAGNANIDE SÃO PAULOO cineasta Eduardo Coutinho, morto anteontem, aos 80, deixou um último trabalho inacabado: o documentário "Palavra", sobre o universo dos adolescentes, que estava em pós-produção. O diretor, assassinado pelo filho a facadas, segundo a polícia, seria enterrado ontem.
        No projeto filmado entre novembro e dezembro, Coutinho entrevistou cerca de 30 alunos do ensino médio da rede pública carioca.
        "Coutinho sentava para conversar com os garotos e dizia: Quero ser como um marciano que faz perguntas absurdas, como se não soubesse nada do mundo'", diz Jordana Berg, montadora de seus últimos longas e à frente da edição de "Palavra".
        A tática do cineasta, afirma Jordana, era fazer "perguntas que pareceriam infantis" como "para que serve o dinheiro?" e "por que você estuda?". Ele deixava, como era comum em seus trabalhos, que os personagens falassem à vontade.
        Para ser lançado, o filme ainda depende do aval do também documentarista e João Moreira Salles, sócio da VideoFilmes, produtora do documentário. Procurado pelaFolha, o produtor não quis comentar o assunto.
        Coutinho deixou com Jordana a listagem de tudo o que foi gravado, com algumas anotações sobre o que deveria ser descartado e o que gostaria que fosse aproveitado.
        Em uma das marcações na decupagem, o cineasta pedia para excluírem o trecho em que ele dizia a um dos entrevistados que o filme "provavelmente não daria certo".
        "Liguei para ele na sexta-feira e disse: Mas como jogar isso fora?' Propus que começássemos o filme com isso. Ele concordou", diz Jordana.
        HOMENAGEM
        Coutinho se preparava, ainda, para rodar um média-metragem para o projeto "Memória do Esporte Olímpico", em parceria com o canal ESPN. A obra trataria de Luisão, massagista que acompanhou a delegação brasileira nos últimos cinco Jogos Olímpicos.
        Agora, Coutinho ganhará uma mostra organizada pela Cinemateca, prevista para março, com debates e curadoria do crítico Ismail Xavier.
        A Cinemateca restaurou o documentário que deu fama a Coutinho: "Cabra Marcado para Morrer" (1985). O DVD deve ser lançado em março pelo Instituto Moreira Salles.
        Na última quinta, o diretor esteve com Moreira Salles, José Carlos Avellar, Carlos Alberto Mattos e Eduardo Escorel, em um estúdio no Rio. Juntos, assistiram a "Cabra". Coutinho fez comentários sobre as cenas do filme que devem entrar nos extras do DVD.
        Mattos conta que, no ano passado, Coutinho revisitou os personagens de "Cabra", para um especial que também deve entrar no lançamento. "Ele estava profundamente tocado por isso", diz.
          opinião
          Cineasta viveu como operário e morreu como deus grego
          O que parece 'só' humildade é uma postura essencialista
          CARLOS NADERESPECIAL PARA A FOLHAA mais longa conversa que eu tive com Eduardo Coutinho foi naquele gênero que ele cultuava e era cultuado, uma entrevista. Ali, os sinais estavam trocados. Eu fazia o papel de entrevistador, e ele, o de entrevistado.
          Foi uma metaconversa, uma metaentrevista, que falou justamente sobre aquilo que estava acontecendo: o próprio encontro verbal de duas pessoas, mediado por uma câmera, para virar filme.
          Num determinado momento do papo-cabeça, o desgrenhado destruidor de papos-cabeças, disse que mesmo acostumado a ser chamado de "mestre" por seus pares, sabia que à boca pequena era alvo de uma crítica pouco generosa de boa parte dos colegas: como é possível reverenciar alguém que faz filmes em que tudo o que acontece é uma pessoa falando, e "só"?
          O ovo de Colombo que Coutinho botou na história do cinema mundial foi justamente o de mostrar que o simples encontro de dois corpos que falam é uma das coisas mais complexas que podem acontecer sob a luz do sol, da lua ou dos refletores.
          E que a gema desses encontros pode resultar não "só" num filme, mas numa cinematografia inteira, numa potente mitologia contemporânea, numa reveladora teoria audiovisual sobre o próprio cinema.
          Nesta época em que as mídias sociais regulam os toques das relações humanas enxugando caracteres e inflamando egos solitários, fazer filmes "só" com pessoas contando pequenas histórias em longas durações é um ato revolucionário.
          A essencialização radical que Coutinho fez na sua arte, o cinema, é análoga à que João Gilberto fez no samba com a Bossa Nova ou ao que Malevich fez na pintura figurativa com o suprematismo. Não é pouco, este pouco.
          Mesmo assim, o mestre não gostava que seu "quase nada que é quase tudo" fosse chamado de "arte". E muito menos que ele próprio fosse chamado "artista". "Sou um operário do cinema", disse ele, "eu só entrevisto pessoas, é o meu trabalho".
          Aqui, o que parece "só" humildade é também uma postura essencialista, recuperadora de potências originais. Nela, o homem que viveu como operário e morreu como deus grego nos lembra que a palavra "trabalho" na Grécia antiga era "poeisis", a mesma que deu origem à palavra "poesia".

            José Simão

            folha de são paulo
            GPS do Corinthians: evite Ponte!
            E o Ceni poderia ter se aposentado sem levar um gol do Valdivia. O cara joga de dez em dez anos e faz gol
            Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Sensação térmica: brigadeiro derretido! Sensação térmica: Quero Morrer. Quero Ficar Pelado!
            E uma amiga botou a placa na porta da casa: "Aceita-se Piscina-se!". E eu tenho a foto dum relógio de rua anunciando a temperatura no Rio: FUDEX! Rarará!
            E o Mercadante parece Marido de Aluguel: foi ministro da Ciência, ministro da Educação, agora Casa Civil, conserta torneira vazando, troca lâmpada e limpa caixa d'água! Rarará!
            E essa Piada Pronta: "Brasil presidirá Comissão pela Construção da Paz da ONU". Pela Roseana Sarney. Em Pedrinhas. Direto de Pedrinhas! Eu sei quem vai presidir a Comissão de Paz da ONU: a PM de São Paulo! Rarará!
            Aliás, a PM tá precisando fazer análise. "Uma hora é pra impedir acesso de manifestantes, outra é pra deixar as depredações rolarem", diz PM de São Paulo. Vão ter que fazer terapia: uma hora é pra bater, outra hora é pra não bater e outra hora é pra sumir!
            E a maior alegria do mundo é zoar com o Corinthians! Errar é o Mano e perder tudo é corintiano! Perdeu pra Ponte Preta! Caiu da Ponte. Diz que o melhor lugar pra comer um gambá é embaixo da ponte. E o GPS de corintiano: Evite a Ponte!
            E aquela invasão no CT do Corinthians não foi rolezinho, foi arrastão mesmo!
            E o site Futirinhas: "Corintiano preso em Oruro se envolve em terceira confusão e pede música no Fantástico'".
            E o meu São Paulo? O Ceni poderia ter se aposentado sem essa: levar um gol do Valdivia! Do Valdivia? O cara joga de dez em dez anos e faz um gol no Ceni. E aí o Ceni quis passar uma rasteira no Valdivia. E errou. Errou na rasteira. Rarará.
            E outro do Alan Kardec: gol espírita! Gol do além! Rarará! E já tão dizendo que o São Paulo perdeu porque o Niko e o Félix estão em lua de mel. Essa foi péssima! Pior que levar gol do Valdivia! Rarará!
            É mole? É mole, mas sobe!
            Os Predestinados! Um amigo meu queria castrar o gato e achou essa aqui: "Especialista em castração de cães e gatos: dra. PAO KAY". Do Pet Shop Amigo! Muy Amigo! Rarará! E essa: "Laboratório Itapoá de Análises Clínicas: dr. Reinaldo BEXIGA!" Rarará!
            Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã!
            Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

              Globo liberou beijo gay um mês antes do final da novela - Keila Jimenez

              TELEVISÃO - OUTRO CANAL folha de são paulo
              Globo liberou beijo gay um mês antes do final da novela
              Não foi uma decisão de última hora. O autor Walcyr Carrasco havia recebido há um mês o "OK" da Globo para escrever e gravar o tão esperado beijo gay entre os personagens Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano) em "Amor à Vida". Mas a cena só iria ao ar se a informação não vazasse.
              Folha apurou que, ao sentir a aceitação do casal homossexual junto ao público em geral, a direção da Globo autorizou o autor a incluir a cena no último capítulo do folhetim. Mas o combinado foi que deveria ser mantido o sigilo em torno do beijo até o final, para evitar reações prévias de religiosos e do público mais conservador.
              Foi aí que o autor e os atores envolvidos trataram de diminuir a importância da cena em entrevistas, a fim de diluir as expectativas e de deixar a oposição na dúvida. Nas reuniões na emissora ficou claro que se o movimento contrário ao beijo gay fosse grande, a Globo poderia não exibir a cena.
              Procurada, a emissora diz que o beijo de Niko e Félix sempre foi uma possibilidade, e que a premissa é que fosse pertinente à história. A Globo afirma que a cena foi bem recebida pelo público.
              No Globo.com, site do canal, o vídeo do beijo e o de seus bastidores de gravação estão entre os mais assistidos pelos internautas.
              REVANCHE
              A dupla Rita Elmôr e Alice Assef atormenta Eriberto Leão em nova temporada de 'As Canalhas' (GNT), da Migdal Filmes, que estreia em abril
              Ídolo Mesmo afastada da TV, Lucélia Santos continua idolatrada na China. A atriz foi uma das convidadas de honra nas comemorações organizadas pelo governo local para a chegada do Ano Novo chinês, dias atrás.
              Ídolo 2 No final de 2013, a TV estatal chinesa fez uma pesquisa perguntando aos telespectadores que atriz eles gostariam de homenagear. Lucélia apareceu entre as mais votadas, ao lado das atrizes da série "Sex and The City".
              Rumo Tudo caminha para que "Amor & Sexo", de Fernanda Lima, ganhe sua terceira temporada na Globo no segundo semestre.
              Rumo 2 Além da volta da atração, a ordem na emissora é aproveitar melhor a apresentadora na programação.
              Guerra Ficou para o dia 11 de março a estreia de Rafinha Bastos no comando do "Agora É Tarde", na Band. Ele começa a gravar o programa nesta semana.
              Guerra 2 Se assim for, Danilo Gentili estreará na frente. O "The Noite" deve entrar no ar no SBT no dia 10 de março.
              Pacote Além de Gentili, o SBT anunciará no dia 18 outras novidades da programação, que estreiam no próximo mês.
              Pacote 2 Entre elas está o programa de Otávio Mesquita e a versão nacional de "Your Face Sounds Familiar" (seu rosto parece familiar), reality show da Endemol que será comandado por Patrícia Abravanel. Na atração, celebridades realizam performances de artistas consagrados.

              João Pereira Coutinho

              folha de são paulo
              Profissionais e amadores
              Como o corpo não é bicho confiável, haverá sempre qualquer dissonância na orquestra para os perturbar
              Uma amiga minha, mãe solteira, fez-me um pedido dramático: se ela não sobreviver a um linfoma, estarei disposto a cuidar do filho de oito anos? Caí do céu: pela doença e pela responsabilidade do pedido.
              Mas primeiro concentrei-me na doença: que dizem os médicos? Que tratamentos existem? Que perspectivas de cura?
              Ela respondeu-me que ainda não sabia. Mas os sintomas --gânglios linfáticos inchados, fadiga extrema, febre persistente etc.-- apontavam para o pior. Ela própria, furando noites e noites de insônias, lera a respeito na internet e até conversara com vários doentes nos fóruns respectivos. Gente com os mesmos sintomas, a mesma doença, os mesmos terrores futuros.
              Voltei a cair do céu. E, antes de aconselhar ajuda psiquiátrica, perguntei com medo: e que tal esquecer a internet e consultar um médico verdadeiro? Um daqueles personagens que fazem exames e avaliam resultados com base na "ciência" e na "experiência"?
              E foi assim que o linfoma se transformou num caso tratável de mononucleose infecciosa. E foi assim que a promessa de quimioterapia, ou radioterapia, ou ambas, se transformou em simples repouso. E foi assim que eu conheci os "cibercondríacos", uma nova forma de hipocondria que a internet promoveu e disseminou.
              Quando li pela primeira vez a respeito, confesso que não comprei o diagnóstico: os "cibercondríacos" são hipocondríacos que usam a internet para pesquisarem todas as doenças que existem no cardápio?
              Estranho. Sei do que falo. Sou um hipocondríaco profissional há 37 anos. E qualquer hipocondríaco profissional sabe que só existe uma coisa pior do que as doenças; é a informação sobre elas.
              Porque um hipocondríaco profissional é um camaleão natural: se ele ler literatura médica com regularidade, ele pode ter câncer à segunda-feira, esclerose à terça, insuficiência renal à quarta e princípios de Alzheimer à quinta. Ou talvez à sexta, já não sei bem.
              É a ignorância que protege o hipocondríaco profissional, não o conhecimento. Qualquer hipocondríaco profissional, quando compra um novo remédio, sabe que a primeira coisa a jogar fora é a bula do medicamento. Cometer a imprudência de a ler é começar a sentir todos os efeitos adversos --da simples coceira às crises psicóticas-- o que por vezes agrava a doença real que se procura tratar.
              Os "cibercondríacos" não passam de amadores que só dão mau nome ao fascinante mundo da hipocondria. Mas o pior é que o futuro será deles.
              A revista "The Economist" dedicou uma matéria extensa aos futuros "gadgets" que prometem revolucionar a medicina. Falo de brinquedos para usar no pulso, no peito, até nos olhos e que servem para medir a pressão sanguínea, o batimento cardíaco, os níveis de glicose nas lágrimas. De preferência, várias vezes ao dia, como quem toma um cafezinho ou fuma cigarro na pausa do trabalho.
              Depois, os dados são enviados para o celular e o celular encaminha os ditos cujos para o médico especialista.
              Os Estados Unidos estão na vanguarda do investimento e a "Economist", aplaudindo os avanços, pergunta se eles não irão soterrar os profissionais de saúde com quantidades avassaladoras de informação. Não apenas de doentes comprovados, mas de hipocondríacos amadores.
              A revista não precisa sequer perguntar. Com o declínio das religiões tradicionais no Ocidente e o fim de qualquer possibilidade de transcendência, tudo que resta aos homens modernos é a tirania da imanência: os seus corpos, as suas patéticas carcaças --e o medo permanente de que a Deusa Saúde, a única que resistiu no Panteão, os possa atraiçoar a qualquer momento.
              Por isso imagino esses hipocondríacos amadores, com brinquedos no pulso, no peito ou nos olhos, em vigilância permanente, medindo o comportamento do corpo com paranoica obsessão.
              Qualquer sinal de alarme será uma nova preocupação, um novo temor, um novo terror. E como o corpo não é bicho confiável, haverá sempre qualquer dissonância na orquestra para os perturbar, entristecer, angustiar.
              Nós, os hipocondríacos profissionais, renunciamos a esses brinquedos como um ex-alcoólatra recusa a mais inocente das cervejas.
              Mas o futuro é dos amadores: gente tão preocupada em ser saudável que passará pela vida na perpétua condição de doentes.

              Janio de Freitas

              folha de são paulo
              Nada além do mesmo
              Até a Copa, a maior atração nacional continuará sendo o STF, não por seus ministros, mas pelas causas em pauta
              Embora o ano eleitoral e a movimentação das desincompatibilizações nos próximos 60 dias, até a Copa a maior atração nacional continuará sendo o elenco de ministros do Supremo. O interesse posto no tribunal das causas constitucionais parece comprovar o avanço do Estado de Direito, com uma progressiva penetração do espírito da democracia nos brasileiros. Parece.
              As causas a entrarem em pauta, e não os ministros e seu desempenho poucas vezes atraente, são o motivo do interesse posto no tribunal. O financiamento de campanhas eleitorais, para a possível proibição das doações de empresas, é uma das causas. Proposta pela OAB, tem forte oposição dos políticos e partidos. A finalidade da proposta é reduzir a influência de interesses econômicos no processo eleitoral e primeiro passo da corrupção política em governos e, em especial, no Congresso.
              Ainda ser necessário o julgamento de tal proposta só denota um nível de imoralidade eleitoral, política e partidária característico de imenso atraso da democracia. Não pode ser visto como fruto de um avanço feito. É quase nada, considerado o que permanece.
              Com 390 mil processos à sua espera pelo país afora, outro julgamento decidirá se os bancos devem repor as perdas que seus clientes tiveram, sem que os próprios bancos as sofressem, por força de cinco sucessivos planos econômicos. São extorsões, menos ou mais explícitas, que começaram há 27 anos, com o Plano Cruzado. Um país onde poupadores, além de extorquidos, ainda esperam três décadas sem saber se terão sua poupança restituída, ou não, só julgará tal causa porque esgotadas as possibilidades de manter o calote, não por impulso proveniente de Estado de Direito mais consolidado.
              Estão em caso semelhante as dívidas oficiais em favor de cidadãos, reconhecidas pela Justiça com o nome de precatórios. Esse julgamento aponta, não para um regime em progresso democrático, mas para um Estado voraz, impiedoso e sem critérios para tomar dos cidadãos, e desonestamente relapso quando se trata de devolver-lhes o tomado indevidamente ou indenizá-los.
              Mas há um pedaço do chamado mensalão mineiro a ser julgado também. Passados quase 16 anos de sua ocorrência. Já com réus dispensados por idade, depois de passar 15 anos à disposição da Justiça. E o próprio processo com possibilidade de prescrever todo ele em setembro. Ou seja, em vez da Justiça no Estado de Direito, avança a prescrição sem julgamento.
              Entre outros processos atraentes, está a permanência ou retirada de autorização obrigatória para biografias, dada pelo biografado ou por parentes. A atual obrigatoriedade revela, de uma só vez, os níveis rasteiros da liberdade de expressão na democracia brasileira e do sistema legal mantido pelo Congresso e pela Justiça.
              Por coerência com os casos expostos ali atrás, mesmo que não seja para escrever sobre o general que recebeu dinheiro para participar de um golpe, mas sobre um cantor de músicas lacrimejantes, a obrigatoriedade de autorização deveria ser mantida. Nesse caso, porém, o pudor parece que vai predominar contra a indigência de cultura e democracia. Sem significar nada além disso.