sábado, 1 de março de 2014

Alcir Pécora

folha de são paulo
CRÍTICA - ROMANCE
'A Condessa de Picaçurova' é novela engraçada e perversa
Livro se aproxima de delírio cômico-escatológico com base nos clássicos
HÁ NELE TANTO HUMOR E EXUBERÂNCIA QUANTO SECURA E CRUEZA, EVIDENTE NO EMBATE ENTRE AS TRÊS FÊMEAS PRINCIPAIS
ALCIR PÉCORAESPECIAL PARA A FOLHA
Devo a João Silvério Trevisan a primeira indicação de "A Condessa de Picaçurova", vencedor na categoria melhor romance da 17ª edição do Prêmio Nascente da USP.
Antônio Salvador, que consta como nome do autor da obra, é pseudônimo, mas a editora garante que se trata de escritor nascido em Natal, em 1980.
Como apresentação do livro poderia dizer que se trata de uma variante de novela picaresca, na qual a protagonista, com ares de Macunaíma, é substituída por uma macaca de nome Benguela, a qual, de moradora de um orabutã (ou pau-brasil) bichado, num vilarejo perdido do Grão-Pará, torna-se a despótica condessa da nova capital da capitania.
O breve enredo talvez dê a perceber que a história se passa supostamente no período colonial; que seu espaço está no âmbito de toda a vasta região que abrange do Nordeste à Amazônia, mas que os anacronismos com o mundo contemporâneo e globalizado são parte da graça da narração.
Acrescente-se o gosto do narrador pelo léxico colorido e provérbios regionais, bem como pelos "causos", à maneira dos recolhidos por Câmara Cascudo, com destaque para os de João Monteiro, conterrâneo do autor e citado explicitamente por ele.
Mas o livro também lança mão da matriz machadiana, evidente na intromissão de comentários metalinguísticos sobre os capítulos; no desmonte de hábitos de leitura que atinge ironicamente todos que o leem; na suspeita sobre a fidedignidade, a autoria e a autoridade do narrador, de modo que não se pode estar certo do que é dito, de quem o disse e ainda com que (má) intenção o diz.
Um capítulo até transcreve certo "Ensaio sobre a Auto-Domesticação", espécie de resposta ao "Humanitismo", de Quincas Borba, propondo uma inversão simiesca da teoria evolucionista.
E caberia mencionar a presença de Guimarães Rosa nesse cadinho, que fica clara quando a narração é entregue à murmuração popular, à licença do léxico onomatopaico, à enumeração caótica, à amplificação das cenas de combate.
EMBATE ENTRE FÊMEAS
Mas seria falso pensar que "A Condessa de Picaçurova" apenas se encosta nos grandes. É mais justo dizer que, com base neles, sabe fabricar as armas próprias com que debate questões como: que escrita pode dar forma à suspeita de que todas as versões são corruptas ou estúpidas desde o nascimento?
O que se pode contar quando já nenhuma malandragem suaviza o anúncio apocalíptico que parece inscrito na precariedade da vida?
Por isso mesmo, a novela se aproxima de um delírio cômico-escatológico.
Há nele tanto humor e exuberância, linguisticamente manifesta, quanto secura e crueza, evidente no embate entre as três fêmeas principais: a condessa símia, a mendiga Erinéa (cujo nome já significa sua fúria de sobrevivente) e a Morte, com eficácia assassina de secretária-executiva.
Por aí já se vê, o livro é engraçado, inteligente e anarquicamente perverso. A ideia é rir com todo o gosto da língua aplicada à política da terra arrasada.

Painel das Letras - Raquel Cozer

folha de são paulo
PAINEL DAS LETRAS
Atrasos nas bolsas
Editores estrangeiros que publicaram em seus países obras de brasileiros com o apoio da Biblioteca Nacional vêm sendo surpreendidos com atrasos cada vez mais frequentes no pagamento das bolsas de apoio à tradução, cujos valores variam de R$ 4.700 a R$ 18,7 mil. O programa é uma das principais vitrines do governo federal no trabalho de exportação de literatura nacional e costuma atrair, em especial, casas independentes.
Editoras como a francesa Anacaona e a inglesa And Other Stories esperam pagamentos há mais de meio ano, após publicarem obras como, respectivamente, "Menino de Engenho", de José Lins do Rego, e "Todos os Cachorros São Azuis", de Rodrigo de Souza Leão.
-
// ATRASOS NAS BOLSAS 2
Em fevereiro, a biblioteca informou a editores, sem estipular prazos, que, "devido a razões administrativas, não será possível realizar os pagamentos neste momento".
"No começo não tinha tanto atraso, mas é verdade que recentemente virou... costume. Espero a bolsa para vários livros", diz a editora Paula Anacaona, que, no entanto, agradece ao governo brasileiro pela ajuda "sem a qual seria difícil continuar publicando títulos brasileiros".
A biblioteca confirma os atrasos, sem quantificá-los, e os credita à "passagem de ano, diferenças de câmbio, demora de entrega de documentos das editoras e problemas administrativos de liberação de restos a pagar".
Em 2013, foram investidos R$ 2,3 milhões nas bolsas. Por ora, a previsão para este ano é de R$ 1,8 milhão.
-
AMIZADE Parte das mais de 500 cartas trocadas dos anos 60 aos 90 entre Hilda Hilst (1930-2004) e o poeta José Luis Mora Fuentes (1951-2009), várias ilustradas, será editada pela Biblioteca Azul neste ano

-
50 anos esta noite Ausência digna de nota entre os lançamentos e as reedições por ocasião dos 50 anos do golpe de 64: "Trinta Anos Esta Noite" (1994), de Paulo Francis (1930-1997), está esgotado nas livrarias virtuais. A obra foi reeditada em 2004 pelo selo Francis, da Verbena. Há cópias disponíveis, segundo a editora. Encontrá-las são outros quinhentos.
50 anos esta noite 2 O editor diz estar negociando com os herdeiros de Francis, mas não há previsão de o livro --nem outros do jornalista, como "Cabeça de Papel" e "Cabeça de Negro"-- voltar ao mercado tão cedo.
Desaparecido Sai pela Rocco, em julho, o primeiro romance de Guiomar de Grammont desde que deixou a coordenação da área de ficção nacional da Record. Resultado da pesquisa de dados pouco ou nada conhecidos sobre a guerrilha do Araguaia, "O Rio Não Fala" trata da busca de uma jornalista pelo irmão desaparecido.
Velhos Para atrair "escritores renomados", a Novo Século tirou o "Novos" do início do nome de seu selo de nacionais, que agora se chama Talentos da Literatura Brasileira.
Velhos 2 E a editora aposta em quiosques para promover seus autores, como Laura Conrado e Samanta Holtz. Os primeiros começam a operar neste mês em shoppings de São Paulo.
Memória 1 Sai em maio pela Tordesilhas o primeiro romance de Eduardo Alves da Costa em 40 anos --a única incursão do poeta e artista nessa seara foi com "Chongas" (1974). Em "Tango, com Violino", o autor, mais conhecido pelo poema "No Caminho, com Maiakóvski", trata da velhice pelo olhar de um professor aposentado.
Memória 2 Com livros pela Alfaguara e L&PM, o colombiano Juan Gabriel Vásquez publicará seu próximo romance pela Bertrand Brasil. Em "Las Reputaciones", que sai no próximo semestre, um temido caricaturista político se vê obrigado a reavaliar a vida ao completar 65 anos.
Haicai escolar 362 mil alunos paulistas receberão neste semestre exemplares de "Boa Companhia Haicai", organizado por Rodolfo Witzig Guttilla. Adotado pelo programa estadual Apoio ao Saber, o livro de 2009 se tornou uma das maiores tiragens da Companhia das Letras em 2013.

Alberto Pereira Junior

folha de são paulo
Carnaval de confusões
Stephen Frears com Stephen Fry, Albert Hofmann com Abbie Hoffman; quem não se confunde às vezes?
Espera, espera: esse é aquele que escreveu o livro tal, ou foi aquele outro autor? E esta aqui, é aquela que tinha cabelo curtinho na novela, ou a que ficou pelada naquele filme? E este filme não é daquele roteirista... não, não, é do outro. Como se chama mesmo esta banda? Qual, a do disco de capa vermelha? Nada disso, o de capa vermelha é daquele outro grupo...
São muitas as razões que nos levam a confundir uma pessoa com outra: nomes parecidos, feições semelhantes, nacionalidade, mesma profissão. Estes são os motivos óbvios.
Porque também pode não ser nada disso, nada mais que uma bizarra conexão entre neurônios que nos faz guardar, em um mesmo compartimento cerebral, as lembranças de duas coisas que não têm nada a ver uma com a outra.
Já que a realidade vira de cabeça para baixo nesses dias de Carnaval, já que um caos iluminado reina em nossas ruas até a Quarta-Feira de Cinzas, esta coluna aproveita o clima e fala hoje de confusões.
Sem ironias, críticas veladas, indiretas ou maldade. São nomes que, de verdade, sempre que aparecem em uma conversa, ou se leio sobre eles, pedem uma pausa (às vezes breve, às vezes aflitivamente longa): peraí, esse é quem mesmo?
Aqui vai minha lista, carnavalescamente caótica. Eu confundo:
Nora Ephron com Naomi Wolf;
Isaurinha Garcia com Dircinha Batista;
Simone Spoladore com Camila Morgado;
Jessica Lange com Meryl Streep;
Os grupos de música eletrônica The Orb e Orbital;
Os filhos de John, Sean Lennon e Julian Lennon;
Julian Lennon com Julien Temple;
Julien Temple com Stephen Frears;
Stephen Frears com Will Self;
Stephen Frears com Stephen Fry;
"Cotton Club" com "Vidas sem Rumo" (pelo menos os dois filmes são do mesmo diretor, Francis Ford Coppola);
"Vidas sem Rumo" com "Repo Man" (aqui não tem desculpa: um longa não tem nada a ver com outro);
Matt Dillon com Matt Damon;
As atrizes Kate Winslet e Kate Hudson;
Kate Hudson com Katie Holmes;
Kate Winslet com Katie Holmes;
(confesso que só entendi finalmente quem é quem das três acima ao pesquisar na internet para escrever este texto);
James Cameron com Cameron Crowe (não queira matar o colunista, mas não faz muito tempo que descobri ter sido o segundo, e não o primeiro, que dirigiu "Quase Famosos'' --durante muitos anos achei que eram uma pessoa só);
Todos os filmes de apocalipse e epidemias, uns com os outros: "Extermínio" com "Epidemia" com "Contágio" com "Os 12 Macacos" com "O Dia Seguinte" etc. etc.
"A Noite dos Mortos-Vivos" com "O Massacre da Serra Elétrica";
"Sexta-Feira 13" com "A Hora do Pesadelo";
Freddy Krueger com Jason;
Os cineastas coreanos Bong Joon-ho (de "Mother") e Park Chan-wook (de "Oldboy");
Albert Hofmann, químico descobridor do LSD, com Abbie Hoffman, ativista social dos anos 1960;
Os escritores americanos David Foster Wallace e Jonathan Safran Foer;
Os roteiristas Dalton Trumbo e Paddy Chayefsky;
O dramaturgo David Mamet com alguém que não estou lembrando agora;
Gay Talese com Gore Vidal (às vezes Truman Capote também);
Os autores Edward Said e Tariq Ali;
Picassos Falsos com Nenhum de Nós;
Os pintores Camille Pissarro e Francis Picabia (nem contemporâneos são, que vexame...);
Francis Bacon com Lucian Freud;
Joe Dante (de "Piranha") com Sam Raimi (de "Evil Dead");
Os compositores de música contemporânea Luigi Nono e Luciano Berio;
Jards Macalé com Luiz Carlos Paraná;
Os guitarristas Steve Vai e Joe Satriani;
Os produtores de rock Youth ("Urban Hymns", do Verve) e Flood ("Achtung Baby", do U2);
Brian Eno e Daniel Lanois (mas só quando o assunto é qual deles produziu o quê com o U2);
As bandas de rock Bikini Kill e Beat Happening (são da mesma época e começam com "B", peço esse desconto);
Paracetamol com ibuprofeno.
Lembrei dessas rapidamente, mas com certeza há mais. E você, quais são suas confusões?
Se não tiver nada melhor para fazer no Carnaval, escreva contando tudo para o e-mail abaixo.

Escolas de samba têm perdido o protagonismo? - Pedro Migão

folha de são paulo
PEDRO MIGÃO
TENDÊNCIAS/DEBATES
Escolas de samba têm perdido o protagonismo?
NÃO
Quando a festa acabar...
Se você estiver no Rio de Janeiro e circular pelas ruas da cidade, perceberá que de cada dez pessoas usando camisetas de Carnaval, nove serão de escolas de samba e uma de algum bloco de rua.
Aliás, se você estiver na cidade, já percebeu que ela está repleta de turistas que viajaram justamente para curtir a festa carioca, atraídos pelo espetáculo que fez a fama do Rio, o espetáculo no sambódromo da Marquês de Sapucaí.
Já os blocos de rua são difusos, pouco articulados entre si --seriam incapazes de estruturar uma festa de tamanha dimensão.
Neste 2014, o renascimento de três grandes agremiações atualiza particularmente o protagonismo das escolas de samba. Portela, Mangueira e Mocidade acabam de trocar suas diretorias. Chegaram dirigentes (na primeira) ou integrantes (nas demais) jovens que, se por um lado, se inspiram na experiência dos mais velhos, por outro, vêm com gás para arejar as escolas e arrastar uma nova massa de apaixonados.
A Unidos da Tijuca é o melhor exemplo dessa renovação. As surpresas preparadas pelo carnavalesco Paulo Barros a cada ano são sempre aguardadas pelos foliões, torcedores e desfilantes. Que, ademais, se diversificaram: à população do morro somaram-se outros contingentes da classe média.
O grupo de acesso carioca também ganhou importância nos últimos dois anos, com a ampliação dos desfiles para dois dias (sexta-feira e sábado) e transmissão da maior rede de televisão carioca para o Rio.
Em São Paulo, a presença da Mancha Verde no grupo de acesso trouxe um atrativo especial. Aliás, o desfile no domingo de Carnaval no sambódromo do Anhembi é uma boa alternativa para se curtir a festa sem grandes gastos. As escolas têm bons sambas e o ingresso é mais barato.
Em Salvador, até mesmo trios elétricos famosos como o da cantora Claudia Leitte tiveram dificuldades para vender seus abadás. Não seria possível, portanto, dizer que as escolas de samba têm perdido espaço para a festa que se faz por lá. O telejornal de maior audiência do país dedicou espaço nesta semana à preparação da Portela. Que bloco ou trio teve a mesma exposição?
Obviamente, em termos de envolvimento direto de público, as escolas possuem uma limitação: são apenas 72 mil lugares por noite na Marquês de Sapucaí e cerca de 30 mil no Anhembi e aproximadamente 90 mil desfilantes nos principais palcos no Carnaval carioca e em torno de 60 mil em São Paulo. Um único bloco carioca, como o Bola Preta, pode reunir quatro vezes esse contingente somado.
Ainda assim, aqueles que não podem participar dos quatro dias de desfiles nos palcos principais têm como opção os ensaios técnicos na Sapucaí ou apresentações das escolas de grupos menores, que chegam a reunir 40 mil pessoas por noite na avenida Intendente Magalhães, subúrbio carioca. O fato é que Carnaval não é quantidade, é qualidade.
O protagonismo das escolas de samba é consolidado. Fora do dia de desfile, há toda uma estrutura e uma agenda orgânicas, que facilitam a formação de novos músicos, cantores e compositores. Nomes como Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Monarco se projetaram a partir de escolas de samba.
Na nova geração, Diogo Nogueira, filho de João Nogueira, um baluarte portelense, ganhou quatro sambas-enredo pela Portela. Arlindo Cruz despontou na Império Serrano. André Diniz na Vila Isabel.
Pergunto ao leitor da Folha: quando o Carnaval acabar, você abrirá o jornal para se informar sobre o quê? Que bloco se apresentou para mais gente, que trio soteropolitano galvanizou a massa ou qual escola de samba foi a campeã?

Escolas de samba têm perdido o protagonismo?

folha de são paulo
LUIZ ANTONIO SIMAS
TENDÊNCIAS/DEBATES
Escolas de samba têm perdido o protagonismo?
SIM
Os astros do Carnaval
O crescimento do Carnaval de rua, facilmente verificado no Rio de Janeiro (em proporções impactantes) e em São Paulo, deixa no ar a impressão de que o protagonismo da festa está mudando de mãos. As centenas de blocos de rua, arrastando multidões impensáveis há pouco tempo, parecem dizer, entre fanfarras, que a bastilha das escolas de samba caiu e um novo regime se vislumbra na corte do rei Momo.
O desfile das escolas de samba nunca primou pela espontaneidade ou pelo caráter de subversão da ordem, dois elementos normalmente associados ao Carnaval. O concurso entre as agremiações é, ao contrário, caracterizado pela ideia de disciplina, adequação aos regulamentos, mediação do poder público e outros fatores que o caracterizam como uma manifestação enquadrada em princípios relativamente previsíveis.
A despeito disso, as escolas de samba se legitimaram brilhantemente como espaços de exercício da alegria, construção de identidades e renovação de laços comunitários das camadas populares urbanas.
Acompanhando o furdunço há muitos anos, tenho a nítida percepção de que boa parte do perfil comunitário das escolas de samba foi para o beleléu. As agremiações patinam na encruzilhada entre o discurso do apego à tradição e os ditames de certa lógica empresarial. Esta última enxerga os desfiles mais como um evento rentável, de acordo com as expectativas do mercado, do que como manifestação cultural não mensurável pela circulação de capitais.
Palco para a exibição de celebridades duvidosas e para egolatria de certos carnavalescos, engolida pela supremacia do aparato visual em detrimento do sambista, as escolas de samba têm hoje dificuldades de renovar as relações de pertencimento com o meio do qual saíram.
Fantasias despropositadas, que mais parecem trambolhos difíceis de carregar, rigor marcial dos passos marcados e enquadramento em ensaios exaustivos geram desfiles repetitivos, que mais se assemelham a paradas militares, tão emocionantes quanto uma corrida de cágados sob efeito de Rivotril. As exceções honrosas confirmam a regra.
O Carnaval de rua, enquanto isso, atraí o folião que, livre das amarras, quer apenas brincar sem o risco de encontrar pela frente um diretor de harmonia mal-humorado que o enquadre aos berros. Tal fenômeno, é claro, também tem lá as suas contradições e percalços. Há que se constatar, todavia, que a efusão carnavalesca anda muito mais próxima das esquinas do que dos sambódromos, com seus lugares mais nobres ocupados por turistas pouco afeitos ao meio do samba.
O Carnaval é uma festa dinâmica, caracterizada pela constante invenção de novas formas de apropriação dos territórios e circulação de saberes. Corsos, grandes sociedades e ranchos já se sentiram soberanos e hoje são apenas pálidas lembranças das folias de outrora, sem qualquer expectativa de experimentar a vitalidade perdida. A roda da folia, afinal, gira e surpreende.
As escolas de samba continuam com o protagonismo nas mídias tradicionais. São elas que rendem manchetes de jornais, vendem seus desfiles para o mundo inteiro e consagram celebridades de ocasião como musas da festa. Certamente aparecerão como representantes de um Brasil dos sonhos, nas cerimônias de abertura da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio.
O protagonismo que as escolas estão começando a perder é outro, e muito mais grave. Com a diluição dos laços de pertencimento entre a agremiação e seus componentes, os grandes e anônimos astros da festa é que estão pulando fora dos sambódromos: nós, os foliões.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Claudia Collucci

folha de são paulo
Reino Unido vota fertilização com três 'pais'
Consulta pública discutirá técnica que usa material genético de doadora em caso de doença transmitida pela mãe
Criança teria apenas 0,1% do DNA da doadora; nesta semana, EUA também iniciaram discussão sobre o tema
CLÁUDIA COLLUCCIDE SÃO PAULOO Reino Unido deverá regulamentar até o fim do ano uma nova técnica de reprodução assistida que poderá permitir que uma criança seja gerada com DNA de um homem e duas mulheres. O intuito é evitar doenças genéticas transmitidas pela mãe.
Nos EUA, a FDA (agência que regula fármacos e alimentos) iniciou nesta semana discussão semelhante, mas ainda não há definição se haverá liberação. No Reino Unido, uma comissão avalia questões científicas e éticas da técnica desde 2011.
Ontem, o governo britânico divulgou a primeira proposta de regulamentação, que ficará em consulta pública até maio. Depois, precisa ser votada pelo Parlamento.
A Secretaria da Saúde britânica informou que apoia o uso da técnica e que a consulta pública não colocará em debate se ela poderá ser usada, mas sim como será implantada. A ideia é que até o fim do ano, esteja liberada para testes em humanos.
Há duas técnicas sendo discutidas no Reino Unido. A primeira consiste em retirar o núcleo de um óvulo de uma mãe portadora de mutações no DNA mitocondrial (aquele de origem apenas materna) e transferi-lo para o óvulo sem núcleo de uma doadora com mitocôndrias "sadias".
A outra, ainda mais polêmica, utilizaria dois embriões já formados. Em ambas as técnicas, o embrião ficaria com material genético de três pessoas: o DNA do núcleo do espermatozoide do pai, o DNA do núcleo do óvulo da mãe e o DNA das mitocôndrias do óvulo da doadora.
O DNA mitocondrial corresponde a 0,1% do DNA total --37 entre 20 mil a 30 mil genes.
A proposta do Reino Unido é que a técnica seja testada apenas em mulheres altamente suscetíveis de transmitir aos filhos doenças mitocondriais, que ocorrem quando as organelas (que fornecem energia para as células) não funcionam direito.
As doenças afetam um a cada grupo de 6.500 bebês e podem causar incapacidade muscular, insuficiência cardíaca e até a morte.
O governo do Reino Unido propõe que a doadora mitocondrial não tenha direitos sobre a criança a ser gerada.
A manipulação genética de seres humanos tem gerado debates em todo o mundo. O temor é que ela leve à produção de bebês com características selecionadas em laboratório ("designers babies").
Segundo o médico Artur Dzik, da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, a técnica já vem sendo discutida em congressos desde 1996 e ainda não deslanchou. "É muito controvertida."
Para o ginecologista Carlos Petta, professor da Unicamp, não há como saber a repercussão futura dessa mistura de genes. "Uma coisa é acompanhar animais por algum tempo em laboratório. Outra é colocar pessoas em risco."

    Marina Silva

    folha de são paulo
    Informação e consciência
    Fiquei contente, no ano passado, quando soube que uma brasileira residente no Canadá desenvolveu um aparelho para identificar substâncias alergênicas e agrotóxicas nos alimentos que consumimos. É bom saber que tais informações, hoje obtidas por especialistas em laboratórios sofisticados, podem estar à disposição de todos por meio de um instrumento de fácil manejo.
    Não tenho uma visão salvacionista da tecnologia, mas acho que pode ser um instrumento para democratizar a informação e ajudar nas decisões da sociedade. Em nosso país temos o exemplo estarrecedor da desinformação sobre agrotóxicos. Há estimativas de que cada brasileiro consome, em média, 5,3 litros de substâncias que podem contaminar o leite materno, causar distúrbios hormonais, câncer de mama e de próstata, entre outros males.
    É evidente que há controle econômico das informações. Afinal, a venda de agrotóxicos alcançou, em 2010, US$ 7,3 bilhões. O Brasil é campeão, consome 20% do agrotóxico produzido no mundo. É o paraíso dos grandes laboratórios, que aqui vendem vários produtos proibidos na Europa e EUA.
    A liberação e fiscalização está a cargo do Ministério da Agricultura, Anvisa e Ibama, mas sofre restrições políticas e pressões econômicas. As decisões são tomadas longe da sociedade. Por exemplo, Anvisa e Ibama perderam em 2013 a competência legal de declarar emergência fitossanitária com um decreto presidencial (regulamentando uma lei oriunda de Media Provisória). Três dias depois da publicação do decreto, foi declarada uma emergência e dada autorização para importar toneladas de veneno produzido por um grande laboratório.
    A bancada ruralista, em acordo com o governo, quer criar um órgão nos moldes da CTNBio para analisar a liberação de novos agrotóxicos.
    As batalhas são nos bastidores. De um lado está a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), que congrega os fabricantes). Do outro, estão Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Fundação Oswaldo Cruz e Instituto Nacional do Câncer, que fazem pesquisas com alertas preocupantes sobre os efeitos dos agrotóxicos no organismo humano.
    A contradição é evidente. A sociedade cria mecanismos de transparência e controle democrático, ampliados pela tecnologia muitas vezes desenvolvida de forma colaborativa. Os governos tomam posição oposta, defendendo acentuadamente os interesses da oferta.
    Consciência, compromisso com a qualidade de vida e o ambiente saudável, inovações tecnológicas que dão poder aos cidadãos, essas são as condições para que todos possam influir nas decisões públicas, para dar a palavra à demanda por mais respeito à vida.
    Se não defendemos nossa saúde, quem o fará?