domingo, 2 de março de 2014

Elio Gaspari

folha de são paulo
ELIO GASPARI
O coronel Avólio e seu serviço ao Exército
Militar contou à Comissão da Verdade o que viu no dia em que mataram o deputado Rubens Paiva
Armando Avólio Filho era um jovem tenente no dia 20 de janeiro de 1971, quando Rubens Paiva chegou preso ao DOI do Rio de Janeiro. Durante 43 anos seu nome foi tangencialmente associado a esse crime. Em 1996, pediu um conselho de justificação para livrar-se da suspeita. Seu pedido foi negado pelo ministro Zenildo de Lucena. Em diversas ocasiões mostrou seu interesse em esclarecer os fatos, mas os chefes da ocasião sempre ordenaram-lhe que ficasse calado, para proteger a instituição. Felizmente, protegendo a instituição, Avólio decidiu contar à Comissão Nacional da Verdade o que viu. Só o que viu.
Desse depoimento, revelado pelo repórter Chico Otávio, resulta que ele viu um tenente (Fernando Hughes de Carvalho) numa sala, com um homem destruído. Mais tarde associou-o a Rubens Paiva. Até aí o caldo é ralo, pois no DOI se apanhava e lá morreu de pancada o ex-deputado. No máximo, a responsabilidade deslizaria para um tenentinho que, além do mais, está morto. A principal revelação de Avólio, hoje um coronel reformado, está no fato de que, naquele dia, contou o estado do preso ao major José Antonio Nogueira Belham, comandante do DOI. Belham sabe o que acontecia no destacamento, mas nunca se meteu com os bicheiros e contrabandistas que bicavam no DOI do Rio. Seguiu sua carreira e chegou a general de divisão. No governo de Lula, já na reserva, ocupava a vice-presidência da Fundação Habitacional do Exército. Encrencou-se com as viúvas dos militares mortos no terremoto do Haiti e foi demitido.
Belham informa que no dia 20 de janeiro de 1971 estava de férias. (Nesse caso, a responsabilidade deslizaria para o vice-comandante, que está morto.) Estava de férias, mas estava lá. Esse fato, mencionado por Avólio, foi formalmente corroborado por um coronel (capitão à época), que morreu em janeiro.
Quem tirou o cadáver de Rubens Paiva de lá? Quem coordenou o teatrinho? (Num caso anterior, fracassado, foi o Centro de Informações do Exército, subordinado diretamente ao gabinete do ministro Orlando Geisel e comandado por seu chefe de gabinete.) Depois da revelação da presença de Belham na cena do DOI, a comissão viu a ponta de dois fios que levam a meada para cima. Afinal, tanto trabalho para responsabilizar um tenente morto seria um novo teatrinho, institucional. Nele, cultiva-se uma narrativa segundo a qual a tortura e os assassinatos eram coisa de agentes desautorizados (de preferência, mortos). Patranha. Eram uma política de Estado, dos presidentes, ministros e generais comandantes das grandes unidades. Para ilustrar: o tenente Hughes ganhou a Medalha do Pacificador no ano da morte de Rubens Paiva. Cada torturador foi um torturador, mas o conjunto dos torturadores foi um plantel formado, disciplinado e premiado por seus superiores, transformando jovens oficiais em assassinos.
Chegaram ao conhecimento de membros da comissão dois fatos. No primeiro, quando começou a operação de retirada do cadáver, durante a madrugada, as luzes foram apagadas. No segundo, contado por um militar, dois oficiais do CIE barraram-no na porta do DOI. Um deles está vivo.
Atitudes como a de Avólio nesse caso servem às Forças Armadas, tirando-lhe das costas a cruz das mentiras desmoralizantes que carregam desde o século passado. Ele tirou de sua biografia uma acusação que carregou em silêncio ao longo de décadas. Negaram-lhe a oportunidade funcional, mas o coronel falou na jurisdição competente. Pode parecer que seja pedir muito, mas se os atuais comandantes militares fizessem um elogio público a todos os oficiais que estão colaborando com as investigações, todo mundo ganharia. Podem até fazer um elogio genérico, abrangendo aqueles que mentem, não faz mal. Basta sinalizar que condutas como a de Avólio servem ao Exército.
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SELFIE
Aconteceu em Belo Horizonte há quinze dias.
A senhora caminhava nas proximidades da Assembleia Legislativa e aproximou-se um homem magro, de camiseta, com uma faca:
--Vai passando a bolsa. Estou com fome.
--Passo, mas primeiro deixe eu tirar os documentos.
--Pode tirar, esse negócio de burocracia é uma bosta... Pera aí... A senhora não é a ministra?
--Sou.
--Foi mal. Pode ficar. Gosto muito da senhora, desde o tempo do governador Itamar.
--Você quer dinheiro para comer?
--Não, vá em paz. Agora, o que eu queria era tirar uma fotografia com a senhora.
--Isso não. Meu cabelo está muito desarrumado.
O cidadão guardou o celular e a ministra Cármen Lúcia seguiu em frente.
ALZHEIMER
O Ministério Público Federal colheu dezenas de depoimentos de civis e militares que estavam na incubadora e na cena do atentado do Riocentro, em 1981.
Quase todos os militares lembraram de pouca coisa. Um dos que mostraram ter melhor memória foi o coronel Edson Lovato, que começou seu depoimento esclarecendo que sofre do mal de Alzheimer e toma 13 comprimidos por dia.
VENDO O FUTURO
Pelo andar da carruagem, alguns deputados que formaram o "blocão" e querem azucrinar o governo instalando mais uma CPI da Petrobras daqui a dez anos estarão se defendendo no Supremo Tribunal Federal. Sustentarão que é improcedente a acusação segundo a qual formaram uma quadrilha. Pelo visto, terão bons argumentos, vindos de sábios da jurisprudência.
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UM GOLPE DO ATRASO NOS PONTOS DE ÔNIBUS
Está em curso um novo golpe de marquetagem de prefeitos e cartéis de companhias de transportes públicos. É a colocação de painéis eletrônicos em pontos de ônibus, informando as previsões de horários de passagem dos coletivos por ali. Trata-se de uma bugiganga redundante, visto que hoje no Brasil há 271 milhões de telefones celulares e, com eles, pode-se obter essa informação, antes mesmo de se chegar ao ponto.
Houve época, quando não existiam os necessários aplicativos, em que esses painéis eram úteis (quando funcionavam). Se alguém quiser colocá-los nos pontos, pode fazê-lo, desde que os prefeitos não joguem dinheiro da Viúva nisso, nem os cartéis dos ônibus apresentem seus custos (e sua manutenção) nas planilhas com que vão buscar aumentos de tarifas. O que o passageiro quer deles é regularidade no serviço e conforto na viagem, e isso não dão.
Quando esses painéis são apresentados como um exemplo de políticas públicas modernas de prefeitos ou dos serviços dos cartéis, estão apenas confirmando o velho versinho do poeta Cacaso:
Ficou moderno o Brasil,
ficou moderno o milagre
Água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

    Janio de Freitas

    folha de são paulo
    Uma frase imensa
    A sem-cerimônia com que Barbosa excede seus poderes só se compara à facilidade com que distribui insultos
    "Foi feito para isso sim!"
    Palavras simples, para uma frase simples. E, no entanto, talvez a mais importante frase dita no Supremo Tribunal Federal nos 29 anos desde a queda da ditadura.
    Um ministro considerara importante demonstrar que determinadas penas, aplicadas pelo STF, foram agravadas desproporcionalmente, em até mais 75% do que as aplicadas a crimes de maior gravidade. Valeu-se de percentuais para dar ideia quantitativa dos agravamentos desproporcionais. Diante da reação temperamental de um colega, o ministro suscitou a hipótese de que o abandono da técnica judicial, para agravar mais as penas, visasse um destes dois objetivos: evitar o reconhecimento de que o crime estava prescrito ou impedir que os réus gozassem do direito ao regime semiaberto de prisão, em vez do regime fechado a que foram condenados.
    Hipótese de gritante insensatez. Imaginar a mais alta corte do país a fraudar os princípios básicos de aplicação de justiça, com a concordância da maioria de seus integrantes, é admitir a ruína do sistema de Justiça do país. A função do Supremo na democracia é sustentar esse sistema, viga mestra do Estado de Direito.
    O ministro mal concluiu a hipótese, porém, quando alguém bradou no Supremo Tribunal Federal: "Foi feito para isso sim!". Alguém, não. O próprio presidente do Supremo Tribunal Federal e presidente do Conselho Nacional de Justiça. Ninguém no país, tanto pelos cargos como pela intimidade com o caso discutido, em melhor situação para dar autenticidade ao revelado por sua incontinência agressiva.
    Não faz diferença se a manipulação do agravamento de pena se deu em tal ou qual processo, contra tais ou quais réus. O sentido do que "foi feito" não mudaria conforme o processo ou os réus. O que "foi feito" não o foi, com toda a certeza, por motivos materiais. Nem por motivos religiosos. Nem por motivos jurídicos, como evidenciado pela inexistência de justificação, teórica ou prática, pelos autores da manipulação, depois de desnudada pelo presidente do Supremo.
    Restam, pois, motivos políticos. E nem isso importa para o sentido essencial do que "foi feito", que é renegar um valor básico do direito brasileiro --a combinação de prioridade aos direitos do réu e segurança do julgamento-- e o de fazê-lo com a violação dos requisitos de equilíbrio e coerência delimitados em leis.
    Quaisquer que fossem os seus motivos, o que "foi feito" só foi possível pela presença de um fator recente no Supremo Tribunal Federal: a truculência. "O Estado de S. Paulo" reagiu com forte editorial na sexta-feira, mas a tolerância com a truculência tem sido a regra geral, inclusive na maioria do próprio Supremo. A sem-cerimônia com que o presidente excede os seus poderes e interfere, com brutalidade, nas falas de ministros, só se compara à facilidade com que lhes distribui insultos. E, como sempre, a truculência faz adeptos: a adesão do decano da corte, outrora muito zeloso de tal condição, foi agora exibida outra vez com um discurso, a título de voto, tão raivoso e descontrolado que pareceu, até no vocabulário, imitação de Carlos Lacerda nos seus piores momentos.
    Nomes? Não fazem hoje e não farão diferença, quando acharmos que teria sido melhor não nos curvarmos tanto à truculência.
    QUADRILHA
    O resultado, na quinta-feira, da decisão do Supremo quanto à formação de quadrilha, não foi o noticiado 6 a 5 favorável a oito dos condenados no mensalão. Foi de 7 a 4. O ministro Marco Aurélio Mello adotou a tese de que era questão prescrita e reformou seu voto, que se somou aos dados, pela inocência dos acusados, de Luís Roberto Barroso, Cármen Lúcia, Rosa Weber, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Teori Zavascki. Derrotados com a formação de quadrilha foram Celso de Mello, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Joaquim Barbosa.

    'True Detective' cria tensão e inova gênero - Luciana Coelho

    folha de são paulo
    CRÍTICA SERIAL
    LUCIANA COELHO coelho.3@uol.com.br
    'True Detective' cria tensão e inova gênero
    A melancolia de Louisiana dá força aos componentes da trama: machismo, desesperança e fanatismo
    DIFÍCIL DISPUTAR atenção com o Oscar, mas o episódio de "True Detective" desta noite vale o empenho do espectador. Ele abre, avisa seu criador, o terceiro ato de uma série policial que começou lenta e cuja tensão desembesta para um fim grandiloquente e, torçamos, bem talhado como os seis episódios já exibidos.
    Um de seus trunfos coincide com o Oscar: é Matthew McConaughey, cotado para o prêmio pela atuação em "Clube de Compras Dallas". Na série da HBO, o ex-galã dá corpo ao etéreo detetive Rust Cohle de forma ainda mais espantosa.
    Cohle forma com Martin Hart (Woody Harrelson) uma dessas duplas antagônicas que povoam o gênero. São tirados da vala comum pelas interpretações enérgicas dos dois atores texanos e pelo script intrincado de Nic Pizzolatto, 38, um romancista e ex-professor da Louisiana que virou o novo nome da hora no showbiz.
    Pizzolatto, após breve incursão por "The Killing", escreve sozinho o roteiro que confiou a um só diretor (Cary Fukunaga), fórmula rara na TV. Talvez por isso, aqui os personagens importem mais que a trama, uma caçada a um assassino de mulheres cheio de fetiches e mensagens transcendentais.
    Essa busca amarra as duas linhas da narrativa (1995-2002 e 2012), mas o que cria a tensão são as camadas dos protagonistas que são despeladas aos poucos: Martin, o machista pai de família com uma visão rasteira do mundo, e Rust, um niilista cujos tropeços passados são apresentados de forma clara, enquanto seus monólogos filosóficos enevoam o cenário para o espectador.
    (Há, claro, chance de tudo desembocar junto, mantida no ar pelo errático comportamento de Cohle e as sutilezas na interpretação de McConaughey.)
    O terceiro elemento é a pantanosa Louisiana.
    Embora o sul profundo dos EUA abrigue outras séries, em "True Detective" a melancolia e a desolação do segundo Estado mais pobre do país dão força aos componentes da trama: machismo, desesperança, fanatismo, impulso autodestrutivo. Quem já rodou pela região sabe que é assim, e Pizzolatto, egresso de uma classe média baixa local pouco lembrada pela TV, domina o território.
    Há só fiapos de coadjuvantes (sim, as mulheres em cena mal passam de bundas, mas isso, assim como o apelo a clichês do gênero, é como Hart, cujo ponto de vista predomina na tela, vê a vida). A força vem dos dois homens e da relação entre eles.
    Pizzolatto, que assinará a segunda temporada com história e elenco novos, afirma que os últimos dois episódios não reservam truques. Ao site Daily Beast, ele se diz surpreso com as conjecturas da plateia.
    O teaser para esta noite indica um flerte com o sobrenatural --a Louisiana evoca esse aspecto, e o roteirista foi alimentado a "Além da Imaginação" quando criança. Não importa. É o que vai dentro de Hart e Cohle que promete assombrar espectadores e roteiristas de seriados por anos.

    Mauricio Stycer

    folha de são paulo
    MAURICIO STYCER
    Visões do castelo
    A série dinamarquesa 'Borgen' mostra bastidores do poder de forma mais viva do que 'House of Cards'
    O lançamento da segunda temporada de "House of Cards" oferece uma boa oportunidade para observar como três produções diferentes enfrentam o desafio de retratar, por meio da ficção, o mundo do poder.
    O fato de Barack Obama ser um fã declarado da série oferecida pelo Netflix faz pensar o quanto o ingênuo presidente democrata de "House of Cards" está distante da realidade.
    É verdade que, na primeira temporada, o programa se concentrou mais no exercício de poder do então deputado democrata Frank Underwood (Kevin Spacey) dentro do Congresso e junto à imprensa.
    Sentindo-se traído pelo presidente, que não o nomeou secretário de Estado, conforme estava acordado, Underwood faz tudo aquilo que nós, aqui fora, imaginamos ser da alçada de um político sem escrúpulos: ajuda a queimar o nome do indicado para o cargo com que sonhava, manipula votações, mente, troca cargos por votos, destrói carreiras, faz lobby suspeito e até comete um assassinato.
    Na segunda temporada, com Underwood já no exercício de seu novo cargo, o de vice-presidente dos Estados Unidos, "House of Cards" abandona de vez o esforço de parecer crível, mas continua irresistível como série dramática temperada com suspense.
    O mérito todo é de Beau Willimon, autor do texto, que trabalhou com vários políticos, inclusive Hillary Clinton, no final dos anos 1990, e do investimento, estimado em US$ 100 milhões (cerca de R$ 235 milhões), do Netflix na produção das duas primeiras temporadas.
    Com toda a pompa e grandiosidade que as situações exigem, Willimon vende ao espectador a ilusão de estar dentro da Casa Branca presenciando os bastidores (repletos de golpes baixos) de episódios históricos.
    Só recentemente conheci "Borgen", que faz um excelente contraponto a "House of Cards". A série dinamarquesa, lançada em 2010, já tem três temporadas. No Brasil, chamada "O Governo", é exibida na TV paga pelo canal +Globosat.
    Primeira mulher na Dinamarca a assumir o cargo de primeira-ministra, Birgitte Nyborg (Sidse Babett Knudsen) comanda uma coalizão de centro-esquerda. Na vida pessoal, administra o lar (sem ajuda de empregados) e um casamento com dois filhos.
    A cada episódio, aberto com uma citação ("O que parece idealismo é amor ao poder disfarçado", de Bertrand Russell, por exemplo), Nyborg enfrenta um problema político e algum drama familiar. Como Underwood, ela tem um assessor pessoal, que manipula a imprensa, mas frequentemente suas "plantações" a prejudicam mais que a beneficiam.
    "Borgen" é de uma simplicidade assustadora. Os políticos, da extrema direita à esquerda, defendem seus pontos de vista com franqueza explícita. A luta política é crua, objetiva e sem pompa, tanto nas sessões do Parlamento quanto nos gabinetes.
    Diferentemente de Frank Underwood, Birgitte Nyborg parece de carne e osso, seja ao pedir desculpas por ter armado contra um ministro do Partido Verde, seja ao ver a filha adolescente ter uma crise de pânico.
    Não sobrou espaço para falar de uma terceira opção. "Scandal", em exibição no canal pago Sony, mostra os bastidores da Casa Branca ocupada por um presidente republicano. A série é ruim demais, mas estou viciado. Prometo voltar ao assunto.

    Mostra no MIS emociona fã, mas pode insinuar que ele foi mais relevante como ícone fashion do que como roqueiro

    folha de são paulo
    CRÍTICA EXPOSIÇÃO
    Bowie da moda brilha mais que o da música
    Mostra no MIS emociona fã, mas pode insinuar que ele foi mais relevante como ícone fashion do que como roqueiro
    THALES DE MENEZESEDITOR-ASSISTENTE DA "ILUSTRADA"Para um fã de David Bowie, ou seja, um fã de rock --já que poucos representam tanto para o gênero quanto ele--, entrar no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, e ver cerca de 300 itens da exposição sobre sua vida e obra é de arrepiar.
    Trata-se da maior já feita com um astro pop, e só poderia ser mesmo com Bowie, que guardou desde sempre figurinos de shows e de clipes, manuscritos de letras, anotações nos estúdios, rascunhos e arte-final de capas de discos.
    Tudo isso está espalhado pelo MIS, mas uma apreciação plena da exposição se completa com imagens que precisam ser garimpadas nos inúmeros monitores de vídeo.
    Há aparições de TV raríssimas, cenas de filmes e peças de teatro, depoimentos do próprio Bowie e de colaboradoras sobre seu modo de trabalhar e algumas boas declarações de seus admiradores.
    Uma delas está em um filminho sobre o impacto de Bowie na época do glitter rock, no início dos anos 1970.
    Gary Kemp, músico que tocou no Spandau Ballet, diz: "Cabelo comprido não era mais suficiente para chocar a geração dos meus pais. A persona de Bowie borrava a barreira entre meninos e meninas. Íamos ao show dele e por duas horas também fazíamos isso". Quem é fã entende.
    A declaração acaba tocando em um ponto crítico na mostra. A força da música de Bowie acaba eclipsada pela exuberância das roupas. São espetaculares e são muitas.
    A exposição pode até suscitar a pergunta: Bowie é maior como ícone fashion do que como roqueiro inovador?
    Nem a pau, mas é possível sair do MIS com essa ideia na cabeça. A recomendação é ir para casa e ouvir "Heroes".
    DAVID BOWIE
    QUANDO de ter. a sex., das 12h às 21h; sáb., das 11h às 23h; dom. e feriados, das 11h às 20h; até 20/4. No dia 3/3, das 12h às 19h
    ONDE MIS, av. Europa, 158, Jardim Europa, tel. (11) 2117-4777
    QUANTO R$ 25 no ingressorapido.com.br; na bilheteria, R$ 10; grátis às terças. Classificação livre
    AVALIAÇÃO ótimo

      Ferreira Gullar

      folha de são paulo
      Resistência à ditadura
      Exposição não retrata os que optaram pela luta pacífica e foram igualmente presos, torturados e mortos
      Fui ao CCBB aqui no Rio para ver a exposição "Resistir É Preciso...", organizada pelo Ministério da Cultura e Instituto Vladimir Herzog, uma das diversas manifestações que assinalam os 50 anos do golpe militar que, em 1964, depôs o presidente João Goulart. Tais manifestações parecem demonstrar o repúdio da sociedade brasileira àquele regime e a todo e qualquer regime que pretenda cercear a liberdade dos cidadãos.
      A exposição é bem montada com fotos, desenhos, pintura e pensamentos que expressaram a resistência à ditadura militar. Mas se sente falta de referência a personalidades e atividades que desempenharam importante papel na luta de resistência ao regime autoritário.
      Lembrei-me, por exemplo do show "Opinião", escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal e interpretado por Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale.
      Esse show foi a primeira manifestação de resistência ao regime militar, pois estreou no dia 11 de dezembro de 1964, isto é, oito meses após o golpe. O público se sentiu expressado naquele espetáculo, sem nenhuma dúvida, tanto assim que o teatro lotava com um mês de antecedência. Por que não há qualquer menção a ele na exposição?
      Após esse show, o mesmo grupo teatral montou "Liberdade, Liberdade" escrito por Millôr Fernandes e Flávio Rangel, que também o dirigiu. De novo, casa cheia. Os militares, sentindo-se criticados, tentaram tirar a peça de cartaz, provocando um conflito, com homens armados (como se viu depois) a vaiar o espetáculo e acusá-lo de comunista. Era, sem dúvida, uma denúncia do autoritarismo do regime. No entanto, não há qualquer referência a ele na exposição do CCBB.
      Como também não há referência à peça "Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come", outro sucesso de bilheteria que criticava a ditadura. A ideia de escrevê-la foi do Vianninha, temeroso da censura que acabara de proibir o "O Berço do Herói", de Dias Gomes, dirigido por Abujamra. Para burlar os censores, devíamos escrever uma obra-prima, do ponto teatral e literário. Foi o que se tentou fazer.
      A peça passou na censura e ganhou todos os prêmios do teatro brasileiro naquele ano de 1966. Há alguma referência a ela na mostra do CCBB? Não, nenhuma. Como também não há referência a "Arena Canta Zumbi", de Gianfrancesco Guarnieri, nem aos demais espetáculos montados por outros grupos de São Paulo, do Rio e de outras capitais brasileiras.
      Os organizadores dessa exposição parecem ignorar o papel desempenhado pelo teatro brasileiro na luta contra a ditadura. E a Passeata dos Cem Mil? Há dela apenas uma foto ali. Nenhuma alusão ao fato de que foi realizada graças à atuação da classe teatral, com o apoio logístico do Partido Comunista Brasileiro.
      Mas não é só isso. Ênio Silveira, desde 1965, editou uma revista chamada "Civilização Brasileira" (que depois se chamou "Encontros com a Civilização Brasileira"), que publicava ensaios, artigos, poemas, entrevistas, reportagens, denunciando os abusos do governo militar e analisando os fatores que o determinaram. Essa revista foi editada durante 15 anos, resultando na prisão de seu editor. Não há menção a ela na exposição "Resistir É Preciso...".
      Sem dúvida alguma, ao se falar do regime autoritário, não se pode esquecer aqueles militantes que escolheram a luta armada como o caminho correto para combatê-lo. Nem todos concordavam com isso, e pode-se dizer que essa era opinião da maioria das pessoas engajadas na luta, e com razão, pois era um equívoco. Não obstante, quem se dispôs a essa aventura demonstrou coragem e desprendimento.
      A exposição faz referência a eles e particularmente aos que foram mortos pela repressão. Está certo. O que não está certo é não fazer qualquer referência àqueles que, optando pela luta pacífica, foram igualmente presos, torturados e mortos. Basta dizer que, de 1972 a 1974, um terço do Comitê Central do PCB foi assassinado, mas a exposição, se não me engano, não alude a eles.
      Lula, porém, aparece ali como um exemplo de resistente. Está certo, mas por que não aparecem outros líderes como Fernando Henrique, José Serra, Miguel Arraes e tantos outros? Deve ter havido alguma razão para isso, mas não sei qual seria.

        Antonio Prata

        folha de são paulo
        No seio da família
        Então quer dizer que tem um monte de homem por aí aparando os pelos e eu sem saber de nada?
        Eu não queria jogar mais lenha na fogueira: muitas páginas, saliva e terabytes têm sido gastos com o clima de Fla-Flu que assola o país, mas é impossível me calar quando a cisão e a intolerância chegam ao seio da minha família --e "seio", como se verá, não está aqui no sentido figurado.
        Por conta do aniversário do meu pai, no último fim de semana, fiz em casa um churrasco: a grelha crepitava, as cervejas tiniam, meus tios e tias riam das histórias de infância; nenhuma agressividade pairava sobre o almoço, como nenhuma nuvem manchava o azul do céu --até que eu tirei a camisa.
        "Podia dar uma aparada, hein?", sugeriu meu tio Augusto. Na hora, não entendi. Olhei pra churrasqueira, pensando que "dar uma aparada" fosse gíria para cortar uns pedaços de carne, mas Augusto tirou também a camisa e mostrou o peito, orgulhoso: "Máquina dois, ó só que beleza". Do outro lado do quintal, meu tio Gilberto manifestou sua tonitruante indignação: "Tá maluco, Gugu?! Raspando o peito?!". "Aparando!", corrigiu Augusto, tentando apontar a nuance entre "raspar" e "aparar", mas o Fla-Flu já estava instaurado, e todas as nuances, perdidas: à direita (Flu), os pró-aparo; à esquerda (Fla), os defensores do peito orgânico.
        Confesso que fiquei confuso --menos com a questão estética do que com meu atraso em perceber a mudança dos tempos. Então quer dizer que tem um monte de homem por aí aparando os pelos e eu sem saber de nada? Seria eu um ser anacrônico, cultivando no peito um tufo de atraso? Faria há anos minha mulher passar vergonha na praia, na frente das amigas, sofrendo em silêncio por conta de meu desleixo piloso? Seriam os pelos a nova pochete?
        Meu pai, por sua vez, não se perdia em tais indagações. Fechou logo com o Gilberto, lembrando que na juventude dos dois, em Lins, homem não usava nem xampu e que ele já se achava avançado demais por passar "creme rinse". Minha irmã, pró-aparo, o acusou de, com aquela posição obtusa, negar todas as conquistas dos anos 60. Comparou-o aos que riram da sunga do Gabeira, na volta do exílio. Minha tia Beth, grande feminista, disse que não havia nada de "anos 60" em homem raspando o peito --"Aparando!", repetia tio Augusto, em vão--, ao contrário, era um modismo careta, igual ao das mulheres sem pelos púbicos, sintoma da nossa época pudica e desnaturada: em breve, ninguém mais faria sexo.
        O debate, agora, já tinha desmoronado como uma Torre de Babel e se transformado em meia dúzia de discussões paralelas --ou transversais? "Como, de direita?! Índio não tem pelo! Negro também não!", "É verão, gente! É fresquinho!", "Mentira! Eu nunca fiz o pé!", "Preconceituosos são vocês!", "O Edgar pinta a barba, sim!", "Qual o problema da mulher botar silicone?", "Só a Claudia Ohana nos salva!"
        Na semana seguinte, a discussão seguiu pela internet, os prós e os contras a poda desfiando seus argumentos, como se dos pelos dependesse o futuro da civilização. Eu, que ainda não cheguei a uma conclusão sobre essa questão cabeluda, disse que permaneceria neutro: rasparia só metade do peito. A piada acalmou os ânimos de todos. Ou quase, pois o Augusto me escreveu na sequência, furibundo: "Pelo amor de Deus, quantas vezes eu vou ter que dizer? Não é raspar, é aparar, cazzo!".