quarta-feira, 5 de março de 2014

Ruy Castro

folha de são paulo
Sem pipoca em "Marienbad"
RIO DE JANEIRO - Alain Resnais, que morreu sábado em Paris, aos 91 anos, dizia-se um "cineasta do imaginário". A definição é importante quando se considera o filme pelo qual, nos anos 60, ele se tornou o centro das discussões sobre cinema: "O Ano Passado em Marienbad" (1961). Nunca um filme dividira tanto as opiniões: ou se o achava uma radical reinvenção da linguagem, ou se ia embora aos 15 minutos de projeção, dando bananas para a tela.
Àqueles para quem "Marienbad" não significava nada, Resnais aconselhava a que cada um o interpretasse a seu próprio modo, e este seria o correto. E acrescentava que, se dependesse dele, o filme seria exibido em sessões contínuas, sem créditos, com o espectador entrando e saindo da sala quando quisesse. E por que não, se nunca se sabe o que é presente ou passado, realidade ou imaginação? O imaginário está cheio de significados, mas não no sentido da lógica do relógio.
No filme, ao som de um hipnótico órgão, a câmera circula pelos labirintos de um castelo barroco transformado em hotel, seguindo um homem (chamado "X") que tenta convencer uma mulher ("A") de que eles viveram um romance em Marienbad no ano anterior. Tudo isto diante de "M", o marido dela, que apenas observa. Nada "acontece". Os homens são quase imóveis, as vozes em off falam um texto em círculos, as árvores em torno deles não projetam sombras.
Suponha agora que o romance tenha acontecido, mas, por causa dele, "M" tenha matado "A". Atormentado de culpa, "X" volta ao castelo um ano depois e conta incessantemente a história para si mesmo, tentando alterá-la. Ou imagina estar fazendo isto. Talvez não haja ninguém ali --nem ele. A realidade é o filme.
Bem, esta é só uma das muitas interpretações. O fato é que ninguém se atrevia a comer pipoca ao assistir a "O Ano Passado em Marienbad".

Putin diz que tem direito de usar a força na Ucrânia - Leandro Colon

folha de são paulo
Intervenção será 'último recurso', diz Putin
Presidente russo nega ter enviado tropas para a região da Crimeia, na Ucrânia, mas diz que a 'possibilidade existe'
Obama afirma que Putin 'não engana' ninguém e que os fatos indicam violação de leis internacionais
LEANDRO COLONENVIADO ESPECIAL À CRIMEIA (UCRÂNIA)
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou ontem não ver razão para intervir militarmente na Ucrânia no momento, mas deixou essa possibilidade aberta ao dizer que usará "todos os meios à disposição" para garantir a "proteção" de cidadãos russos que vivem na península ucraniana da Crimeia.
"No que se refere ao envio de tropas, isso não é necessário no momento, mas a possibilidade existe", afirmou Putin, ressaltando que isso seria um "último recurso" contra o novo governo ucraniano, a quem acusa de depor ilegalmente o ex-presidente Viktor Yanukovich, aliado próximo de Moscou.
Putin ainda disse não ter a intenção de anexar a Crimeia e que, caso se decida por uma intervenção militar, seria uma "missão humanitária".
Ele acrescentou que os soldados não identificados que circulam pela região desde a semana passada não são tropas russas, mas possíveis "forças de autodefesa" pró-Rússia. E acusou o Ocidente de apoiar um golpe de Estado.
"Às vezes tenho a impressão de que, em algum lugar na América, uma equipe está conduzindo experimentos, como em ratos, sem entender as consequências de seus atos", afirmou.
As declarações, as primeiras de Putin desde o início da escalada militar na região, tiveram reação rápida dos EUA.
Em visita a Kiev, o secretário de Estado americano, John Kerry, disse que o russo está "trabalhando duro para criar pretextos para ampliar sua invasão na Ucrânia" -afinal, diz, a população da Crimeia, de origem majoritariamente russa, não corre risco sob o novo governo ucraniano.
O presidente Barack Obama afirmou que "Putin pode falar o que quiser", mas que os fatos indicam violação de leis internacionais.
O americano ainda disse que "Putin não está enganando ninguém" e que a conduta russa "não se baseia numa preocupação com cidadãos russos ou falantes de russos", mas se trata de uma tentativa de "exercer influência à força num país vizinho".
Ontem, após a fala de Putin, a Folha encontrou soldados pró-Rússia nas ruas de Simferopol, na Crimeia.
Dois caminhões, com ao menos seis homens encapuzados, controlavam uma rua movimentada. Apesar disso, a situação estava tranquila.
Já em Belbek, perto de Sebastopol, o cenário era mais tenso. Soldados russos que haviam tomado o controle de uma base aérea afastaram com tiros para o alto cerca de 300 homens das forças ucranianas que marchavam até o local em protesto.
Um canal de televisão exibiu as imagens, as primeiras de disparos desde o início da crise. Após os tiros, líderes dos dois lados conversaram, e o episódio terminou sem feridos. "Para satisfazer os políticos, estamos agora um povo contra o outro. Isso não é certo", disse o ucraniano.
Em meio à tensão, a Rússia também fez um teste de míssil balístico de longo alcance. Os EUA, porém, disseram que o teste havia sido comunicado antes e não tinha relação com a tensão na região.
Putin ainda ordenou que soldados que participavam de exercícios militares perto da fronteira com a Ucrânia retornassem para suas bases.
Ele também ironizou as possíveis sanções contra a Rússia. Países do G7 ameaçam não participar dos preparativos da reunião do G8 em Sochi. "A Rússia está se preparando para receber seus colegas, mas, se não quiserem vir, que não venham", disse.

Joan Baez volta 33 anos após show vetado

folha de são paulo
MÚSICA
Joan Baez volta 33 anos após show vetado
Proibida pela ditadura de tocar no país, cantora e compositora americana agora passa por Rio, SP e Porto Alegre
Artista que ficou famosa pelas canções de protesto diz que gosta de ouvir Mumford & Sons e os Gipsy Kings
FABIAN CHACURCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Mais de 30 anos depois daquele que seria seu primeiro show no Brasil, a norte-americana Joan Baez, uma das mais influentes artistas da música folk, enfim faz apresentações completas no país, neste mês, passando por São Paulo, Porto Alegre e Rio.
Em 1981, durante a ditadura, a cantora e compositora subiu ao palco em São Paulo para avisar que não poderia fazer o show, proibido minutos antes pela Polícia Federal. Acabou cantando duas músicas da janela do teatro, para o público na rua, à capela. O show no Rio também foi vetado.
"No fim, foi feito um documentário ["There But for Fortune: Joan Baez in Latin America", exibido em 1982 na TV americana], que acabou ficando mais interessante do que teriam sido os shows", diz a cantora à Folha. Numa das cenas, ela aparece tomando cerveja em São Paulo com o então líder sindical Lula.
Agora, a artista que se tornou a principal voz das canções de protesto americanas nos anos 1960 promete standards "não necessariamente" do seu repertório, músicas já conhecidas em sua interpretação e algumas de seus álbuns mais recentes. Será acompanhada por dois músicos, que se revezarão em violões, teclados e violinos.
Sem interesse por redes sociais, Baez diz que é sobre o palco que procura estreitar os laços com os admiradores.
"Nos shows, tento quebrar as barreiras entre público e eu, para que fiquemos mais próximos", diz a artista, conhecida por interpretar canções do ex-namorado Bob Dylan --foi ela quem o apresentou ao grande público, em 1962-- e outras próprias, como "Diamond and Rust".
Aos 73, a cantora, sempre envolvida em questões de direitos humanos, continua ativa, com agenda cheia, participando de trabalhos alheios e gravando discos como os elogiados "Dark Chords On a Big Guitar" (2003) e "Day After Tomorrow" (2008).
"Faço meditação, me alimento bem, não uso drogas, sou disciplinada e procuro me cuidar. As cordas vocais são um músculo, e procuro mantê-las sempre muito bem treinadas", diz, sobre a disposição para enfrentar os palcos por mais de meio século.
INFLUÊNCIA
Baez diz ter sentido profundamente a morte do cantor, compositor e ativista político Pete Seeger, em janeiro, aos 94 anos.
"We Shall Overcome', que ele ajudou a popularizar, é uma música conhecida no mundo todo. Admiro muito sua obra, que me influenciou como artista", comenta.
Das novas gerações, afirma ser fã do grupo britânico Mumford & Sons e diz ouvir música "conforme o meu estado de espírito".
"Vario sempre. O único grupo que faço questão de ouvir todos os dias são os Gipsy Kings, que adoro".
Quanto aos planos para o futuro, tem muitas apresentações em vista, mas, há cinco anos sem lançar nenhum disco, diz ainda não pensar em produzir um novo álbum.
"Só gravo algo novo quando vejo que é a hora certa, e com os produtores e compositores certos. Tenho sorte, pois sempre soube escolher bem o meu repertório".

Barbosa não tem mais o poder de se impor no grito - Marcelo Coelho

folha de são paulo
As tentações de Joaquim Barbosa
Presidente do STF está na situação de quem tinha o doce nas mãos e vê que tudo não passara de um sonho
COMEÇO COM uma banalidade. É natural que uma pessoa pobre sonhe em ficar rica. Mais forte, entretanto, é o sonho de enriquecer de novo quando se perde a fortuna possuída.
É mais fácil se contentar com o pouco que sempre se teve do que com o muito que se tinha, e que já não se tem mais.
Acredito que a regra funcione não só em matéria de dinheiro, mas em questões de poder também. Digo isso pensando no caso do ministro Joaquim Barbosa.
O presidente do STF deixou claro, tempos atrás, que não tinha intenção de concorrer a nenhum cargo eletivo; pelo menos, a disputa pela sucessão de Dilma Rousseff não estava no seu horizonte.
Uma coisa, entretanto, é não ter esse tipo de ambições quando tudo lhe parecia sorrir no caso do mensalão. A vitória sobre as teses da defesa estava garantida; a maioria dos réus, a começar de José Dirceu, tinha sido condenada.
Outra coisa é sentir, como Joaquim Barbosa declarou na semana passada, que todo o seu trabalho estava sendo "posto por terra". Com a presença de Luís Roberto Barroso e Teori Zavascki, não foi apenas na questão da quadrilha que o jogo parece ter virado no STF.
Corretamente ou não, Barbosa pode imaginar que, dada a nova composição dos membros do tribunal, dificilmente os responsáveis pelos próximos escândalos políticos serão punidos com a mesma severidade.
Tendo a acreditar, como dizem alguns inconformados com as decisões da última semana, que no STF de hoje nem mesmo a denúncia do Ministério Público contra os mensaleiros seria aceita.
Derrotado, Joaquim Barbosa está na situação de quem já teve o doce nas mãos e vê, de repente, que tudo não passara de um sonho. Não tem o poder de construir uma nova maioria no STF, e muito menos (embora pareça acreditar nisso) a capacidade de impor no grito suas próprias opiniões.
Ponho-me no lugar de Joaquim Barbosa. Como não acalentar a ideia de, um belo dia, nomear sozinho os futuros membros do STF? Vingar-se de Barroso, Teori e Lewandowski a partir de um lugar com muito maior poder de fogo?
A conjuntura eleitoral parece favorável a esse tipo de pretensão. Todo o clamor das manifestações de junho, contraditório como era, desapareceu sem ter sido atendido.
Eduardo Campos e Aécio Neves podem ser tão oposicionistas quanto desejem, mas não expressam aquele tipo de impaciência, de revolta, presente nas ruas. Mesmo porque, qualquer o partido a que se pertença, sempre há mensalões parecidos no fundo de alguma gaveta.
Isso é um movimento de direita ou de esquerda? Perguntava-se isso a propósito das manifestações. Havia as duas coisas. Também as duas coisas estão presentes, provavelmente, no ímpeto de Barbosa.
Violento contra o PT, ele não é menos antipático com relação aos erros ou hábitos da "mídia burguesa". Quer figurões petistas na cadeia, não porque sejam ou tenham sido de esquerda, mas porque se recusa a aceitar que na cadeia só fiquem os pobres, os pardos, os negros.
Está desvinculado dos partidos. Parece disposto a condenar tucanos e petistas com a mesma fúria dos muitos manifestantes que rejeitavam Feliciano, Dirceu, Alckmin e Haddad num único, amplo e vago movimento.
Falta-lhe tempo na televisão (mas como ele teve tempo ao longo deste julgamento!); falta-lhe um partido de tamanho conveniente (mas é por ter achado um que Marina Silva esvaziou-se de seu potencial expressivo); falta-lhe capacidade de negociação política (mas é disso que tanta gente está cansada).
André Singer apontou, em sua coluna de sábado passado, o potencial de Joaquim Barbosa como candidato capaz de levar a sucessão de Dilma Rousseff ao segundo turno. É fato que as pesquisas, mesmo quando incluem o nome do ministro, garantem boa vantagem para a atual presidente, especialmente nas menores faixas de renda.
Mas é possível repetir-se aquele conhecido fenômeno que abala a política brasileira, a cada duas ou três décadas: primeiro Jânio Quadros, depois Collor de Mello, representaram a impaciência com os partidos e com a corrupção. O destino administrativo, político e pessoal desses personagens não foi, como se sabe, coerente com seu sucesso eleitoral.
Inflexível, autoritário, popular, emocional, Barbosa não é um demagogo nem um charlatão; suas diferenças com os dois antecessores são inegáveis. Não é impossível, entretanto, que a função --ou o drama-- que ambos protagonizaram venha a repetir-se com seu nome.

terça-feira, 4 de março de 2014

Rosely Sayão

folha de são paulo
Shoppings e famílias
Crianças se encantam com vitrines, querem comprar coisas e, quando os pais dizem não, fazem birras
Conheço muitas mães que, num feriado como o de hoje ou num domingo qualquer, adoram levar os filhos ao shopping. Eu não sei se são elas que gostam do passeio ou se elas acham que os filhos gostam mesmo desse tipo programa. De qualquer maneira, encontrar mães ou casais no shopping acompanhados de crianças de qualquer idade é rotina nos dias atuais.
E o que pode acontecer com crianças no shopping? Tudo! Elas se encantam com as vitrines que as chamam, querem comprar muitas coisas e, quando os pais não compram, fazem birras, por exemplo.
Ah! As birras das crianças no shopping chamam a atenção de todos. Aliás, é por isso mesmo que elas fazem. Alguns pais ficam constrangidos, outros reagem como podem e conseguem naquela hora, outros conseguem domar a birra do filho com doçura e firmeza e outros, ainda, perdem a paciência rapidamente.
Os que testemunham as birras também reagem de diferentes maneiras. Há os olhares reprovadores, há quem tente ajudar --esses são raros-- e há também quem teça comentários críticos a uma altura que permita que os pais da criança consigam ouvir, é claro.
Perder-se dos pais também é algo comum de acontecer no shopping, principalmente se a criança tem menos de seis anos. É que ela fica tão seduzida por tantas coisas para ver, com tantos estímulos luminosos e visuais, que se encaminha a eles na certeza de que seus pais a seguirão. De repente, ela se dá conta de que está sozinha, e lá vem o berreiro de puro medo.
Nesses casos, não sei quem se perde de quem. Nessa idade, por que os pais deixam o filho solto nos corredores do shopping? Por que o perdem de vista? Até parece que não conhecemos mais as crianças, não é verdade?
Não nos lembramos de que elas não têm responsabilidade --e nem podem ter ainda--, de que não sabem se cuidar sozinhas e tampouco de que não conseguem resistir às inúmeras tentações que o shopping lhes apresenta.
Também nos esquecemos de que não adianta assustar a criança para que ela aprenda a estar sempre perto dos pais nesses locais amplos e movimentados. Eu já vi pais deixarem o filho pequeno achar que estava perdido no shopping só para tentar dar a ele uma lição. Qual mesmo?
Apesar de tantos percalços, dá para entender os motivos que levam os pais a gostarem desse passeio com o filho. Primeiramente, porque as cidades oferecem poucos lugares públicos para que crianças e suas famílias possam desfrutar. Eles existem, claro, e procurando bem dá para encontrá-los. Até pela internet, com direito à informação de programas pagos ou gratuitos.
Mas há outro motivo muito importante também que motiva os pais a fazerem esse programa com os filhos: o fato de vivermos em sociedades que priorizam o consumo acima de quase tudo.
A boa notícia é de que dá para resistir a isso. Cresce o número de mães e de pais que não consideram o shopping um lugar adequado para crianças. E eles não deixam de ter boas razões para isso. Afinal, há programas bem melhores para as crianças. Brincar sem nenhum apelo ao consumo, por exemplo, com tranquilidade, e em locais bem mais apropriados. Pode ser em casa.
Por que temos de, necessariamente, fazer programas com as crianças? Só porque consumimos a ideia de que elas precisam --precisam!-- disso. E, caro leitor, vou contar um segredo a você: elas não precisam.

Não foi brincadeira [minha história] - Johanna Nublat

folha de são paulo
MINHA HISTÓRIA
Não foi brincadeira
Levado por engano em van escolar roubada em Brasília, menino de 11 anosconta como se escondeu e conseguiu fugir dos bandidos
RESUMO João (nome fictício), 11, estava numa van escolar quando dois criminosos anunciaram o roubo do veículo. O garoto se escondeu no fundo da perua com outra criança, e, por meia hora, os dois circularam com os criminosos por uma cidade-satélite de Brasília até conseguirem escapar da van. O menino, surpreendentemente articulado para uma criança de sua idade, contou ontem os detalhes da fuga espetacular.
(...) Depoimento a
JOHANNA NUBLATDE BRASÍLIAEu saí do colégio [anteontem], era um dia comum, [a van escolar] tinha deixado grande parte dos alunos.
Quando a van parou numa esquina, dois bandidos chegaram e mandaram o motorista descer. Nessa hora, a gente entendeu que tinha alguma coisa diferente.
A única reação que eu e a garota [também de 11 anos, que ficou na van roubada] tivemos foi a de nos abaixar no último banco para que os bandidos não nos vissem. Pensamos que, quando eles dessem bobeira, a gente poderia sair.
Só um estava armado. Eles continuaram dirigindo, rápido, falavam bastante palavrão e brigavam. Um perguntava se tinha alguém atrás e o outro respondia que não.
Ficamos com muito medo, principalmente na hora que um deles deixou a arma cair. Eu estava agachado. Ele pegou e balançou a arma.
Em alta velocidade, entrando na contramão, ele pegou a BR e virou num balão que dava num núcleo rural.
Quando eles abordaram a van, joguei meu celular embaixo do banco, porque pensei que era um assalto --que eles pegariam as coisas e iriam embora. Só que eles pegaram a van, e vi que foi uma besteira ter jogado meu celular lá embaixo.
Quando chegaram numa área escura, eles pararam e desceram. Eu fui atrás do meu celular para poder falar com a minha mãe ou com a polícia. Meu celular estava ligado, com som e a luz [da tela] no máximo.
Quando peguei o celular e estava voltando para o banco de trás, consegui colocar no silencioso e diminuir a luz da tela. Então um dos ladrões voltou e vasculhou uns folhetos.
Quando ele saiu de novo, consegui ligar para minha mãe e falar que a van tinha sido roubada com a gente dentro em Sobradinho dos Melos [a cerca de 20 km da Esplanada]. Eu já sabia mais ou menos me orientar por lá.
Minha mãe falou: "Fica dentro da van e deixa na ligação". Mas, no nervosismo, ela desligou o telefone.
Minha colega estava nervosa e chorava às vezes. Eu falei :"Vamos sair daqui". A gente não sabia onde os ladrões estavam, mas era melhor a gente sair do que ficar lá dentro e eles voltarem.
Fomos subindo em direção à BR. Tinha uma pista de terra e muito mato, sem luz. Carros passavam em alta velocidade. A gente chegou no meio do caminho e ela pediu para voltar e pegar a mochila.
Eu disse: "Não, esquece da mochila, agora a gente tem que se salvar". Minha mãe sempre me falou: "Esquece tudo, vai embora e cuida da sua vida. Bens materiais você pode deixar para trás, só preserve a vida".
Eu estava procurando um modo de escapar dali. A gente pediu ajuda para motoristas, e ninguém parava.
Um cara parou e perguntou o que faziam duas crianças sozinhas, caminhando na escuridão. E ele nos levou para a delegacia.
Minha mãe ligou para o coronel do batalhão do Paranoá, e ele me ligou. Eu já estava fora da van.
Na delegacia, o policial me chamou para vasculhar o local e encontrar a van. Quando a gente chegou, ela não estava mais lá. A gente teve que rodar a área rural inteira. Até que a gente conseguiu achar a van, em um desmanche, do lado de uma escola e de uma igreja.

    Sons graves e fortes da bateria põem o cérebro quase que em transe - Suzana Herculano-Houzel

    folha de são paulo
    Batuque de Carnaval
    Sob o estímulo de sons graves e fortes, o cérebro recebe o sinal de que você está se movendo no ritmo da música
    EU SOU DAQUELAS que se escondem no Carnaval e lamentam a perda da liberdade de ir e vir enquanto foliões bloqueiam as ruas, latinhas de cerveja em punho. Mas tem uma coisa do Carnaval que eu adoro: a bateria das escolas de samba.
    A sensação que se tem da arquibancada bem em frente ao recuo da bateria, que é onde eu estava no domingo, é de que é impossível ficar parado. Em vez de ser considerado apenas ensurdecedor, o som grave e intenso coloca o cérebro quase que em transe. Curiosamente, esse prazer do Carnaval é devido não à audição, mas a seu vizinho de ouvido, tão desprezado: o equilíbrio.
    O que nos mantém em pé é a habilidade de monitorar a posição da cabeça, graças a sensores vestibulares de movimento situados no labirinto, na mesma caixa óssea nos seus ouvidos que contém a cóclea auditiva. Além de vizinhos, os sensores de som e de posição respondem ao mesmo estímulo: a deformação mecânica de pequenos "cabelinhos" nas células receptoras.
    Normalmente, as intensidades de som que movimentam os "cabelinhos" dos receptores auditivos não fazem nem cócegas nos receptores vestibulares, que têm outra faixa de sensibilidade. Por isso, no dia-a-dia, quem cuida de sons é a apenas a cóclea, e portanto a audição.
    Mas tudo muda na frente de uma bateria de escola de samba (ou orquestra, baile funk ou sua rave favorita). Como mostrou Neil Todd, pesquisador da Universidade de Manchester, no Reino Unido, sons graves (abaixo de 200 Hz) e fortes o suficiente (acima de 90 dB, comparáveis a uma furadeira ou caminhão na estrada), como a levada dos surdos e caixas, conseguem estimular ambos os tipos de receptores, auditivos e vestibulares. Resultado: o cérebro recebe o sinal de que você está se movendo no ritmo da música. Daí a começar a se mover de fato no ritmo da música, incorporando a atividade vestibular, é um pulinho. A bateria de fato sacode seu corpo.
    E ainda é prazerosa --ao menos para quem gosta de estimulação vestibular, como balanços e montanhas-russas. Até 90 dB, sons graves mais fortes são apenas cada vez mais irritantes --mas, assim que começam a estimular o sentido vestibular, voltam a ser prazerosos (enquanto os agudos só ficam mais desagradáveis). Por isso não dá para ouvir baticum baixinho. Ou é alto, ou não tem efeito.