quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Cientistas leem o mais antigo DNA de humano primitivo

folha de são paulo

Ouvir o texto
REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
O DNA de um humano primitivo que morreu na Espanha há quase meio milhão de anos foi recuperado e "lido" por uma equipe internacional de pesquisadores, num feito que promete complicar ainda mais o que se sabe sobre a tortuosa história evolutiva da nossa espécie.
Ocorre que o DNA do hominídeo de Sima de Los Huesos, na Espanha, tem semelhanças surpreendentes com o de humanos primitivos da Sibéria, os denisovanos.
Além da distância de milhares de quilômetros, o espécime espanhol tem 400 mil anos, enquanto os denisovanos viveram há 40 mil anos.
"Quando vimos os dados, ficamos totalmente perplexos com a semelhança", disse à Folha o coordenador do estudo, Matthias Meyer, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionista (Alemanha). A pesquisa está na revista científica "Nature".
PRÉ-NEANDERTAIS?
Sima de Los Huesos é um sítio arqueológico e paleontológico rico, no qual já foram achados os restos de pelo menos 28 humanos primitivos, classificados como Homo heidelbergensis, espécie que teria dado origem tanto à nossa quanto aos neandertais.
Características dos fósseis sugeriam que eles tinham traços "pré-neandertais". Um dos jeitos de testar isso seria o DNA. Material de um urso-das-cavernas achado em Sima já tinha sido extraído, o que animou os cientistas a usar um fêmur humano.
Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress
Depois de abrir furos no osso e extrair 2 gramas de material, foi preciso penar para obter algum DNA, porque a molécula vai se degradando.
Por enquanto, os cientistas obtiveram quase todo o mtDNA (DNA mitocondrial) do hominídeo. Presente nas mitocôndrias, as "centrais de energia" das células, esse DNA é mais abundante que o material que compõe a maior parte do genoma, daí a (relativa) facilidade de obtê-lo de amostras tão antigas.
Veio, então, a surpresa: o mtDNA do humano de Sima tinha pouca semelhança com o de neandertais (e o de Homo sapiens), mas se alinhava ao dos denisovanos.
Uma explicação para esse fato, diz Meyer, é que o mtDNA seja sinal de mestiçagem -assim como a que aconteceu entre neandertais e humanos modernos e entre humanos e denisovanos.
Nesse caso, diz ele, o mtDNA divergente seria herança de uma população humana ainda mais antiga com a qual o Homo heidelbergensis teria se cruzado antes de gerar os hominídeos mais recentes.
"Mas, por enquanto, isso é só especulação", diz Meyer. "Estamos determinados a avançar nisso. A ideia é conseguir mais DNA, desta vez do núcleo das células."
Para Chris Stringer, paleoantropólogo do Museu de História Natural de Londres, "é emocionante ver material genético humano com essa idade sendo sequenciado".
Segundo ele, os dados devem ajudar a entender melhor as relações entre os vários grupos que povoaram o planeta ao longo do último meio milhão de anos -um tema cercado de controvérsias.
"Receio que estejamos chegando perto dos limites do que até a tecnologia mais avançada pode fazer por nós", diz Meyer. "Em certo ponto, simplesmente não vai mais haver DNA. Mas um ou dois anos atrás eu achava que nunca conseguiríamos DNA de amostras de 400 mil anos, então quem sabe o que o futuro trará?"
Madrid Scientific Films, Kennis & Kennis/Associated Press
Concepção aryístoca mostra os hominídeos de Sima de los Huesos
Concepção artística mostra os hominídeos de Sima de los Huesos

Pela excelência da USP

folha de são paulo
WANDERLEY MESSIAS DA COSTA
Será preciso que a reitoria se dedique à superação dos entraves ao avanço da graduação. Temos perdido eficiência nessa atividade
O próximo reitor da USP terá pela frente grandes desafios e o maior deles é o de mantê-la no seu atual ciclo virtuoso, assegurando por todos os meios suas conquistas no ensino, pesquisa e extensão e, sobretudo, sua projeção internacional como instituição de excelência.
Na última década, e especialmente nesta gestão que se encerra, foram feitos vultosos investimentos para sustentar esse ciclo de expansão que abrange expressivo crescimento de vagas em cursos de graduação e de pós-graduação, novas unidades de ensino e pesquisa, criação de núcleos temáticos de pesquisas e a construção de edifícios em todos os campi para salas de aulas, laboratórios, bibliotecas, museus, hospital e centros de convenções e de difusão internacional.
Além disso, foi implantado um sofisticado plano de carreira para os servidores técnicos e administrativos e a carreira docente foi aperfeiçoada --iniciativas que consolidam uma política de gestão de pessoas que valoriza nossos recursos humanos em todos os níveis.
Em síntese, uma trajetória de sucesso que se destaca no conjunto das instituições públicas de ensino superior do país, inclusive porque contribui para superar a falsa dicotomia entre expansão e qualidade.
Outro desafio é o de enfrentar com firmeza o arcaísmo burocrático, iniciando pela desconcentração dos aparatos de controle situados no topo da pirâmide dessa enorme autarquia, ao lado de investimentos em inovação da gestão acadêmica e administrativa. Com isso, reduziremos o poder das amarras que inibem o desempenho e a criatividade dos docentes e das unidades que atuam nas pontas do sistema, isto é, aqueles que no dia a dia fazem avançar a universidade.
Em suma, é preciso reafirmar que recursos financeiros e energia sejam despendidos preferencialmente para o desempenho eficiente da sua missão, isto é, oferecer ensino e pesquisa de alta qualidade para a população que a sustenta com impostos.
Na próxima gestão, será preciso que a reitoria se dedique com vigor à superação dos entraves que nos impedem de avançar no ensino de graduação. É notório que, de modo geral, temos perdido eficiência nessa atividade essencial, inclusive porque as transformações estão se acelerando dentro e fora dos muros do ambiente acadêmico no mundo.
Um bom começo seria o de alocar recursos financeiros equivalentes aos aplicados recentemente nos núcleos de pesquisa e, mediante editais, estimular as unidades e seus docentes engajados nessa atividade a apresentarem projetos de modernização. Eles podem abranger, por exemplo, a aplicação de tecnologias avançadas para o ensino presencial e semipresencial, a criação de ambientes inovadores de aprendizagem e de convívio para os estudantes, o ensino em larga escala de língua estrangeira e programas de aperfeiçoamento de docentes em instituições estrangeiras com iniciativas bem-sucedidas nessa área.
Finalmente, a universidade decidiu que a partir do início do próximo ano promoverá reformas no seu estatuto, que deverão aprimorar sua estrutura de governança em todos os níveis. É imprescindível que esse processo tenha como pressuposto medidas que visem à distensão e a pacificação do ambiente universitário e que se desenvolva com o pleno respeito aos preceitos da democracia. Em especial, que estejamos dispostos a rejeitar e, se necessário, enfrentar com firmeza toda forma de violência e coerção no ambiente universitário e fora dele.
Por isso é que estamos convictos de que a expectativa dos docentes, funcionários e estudantes da USP é que seu dirigente máximo demonstre possuir, além da desejável experiência em gestão acadêmica e administrativa, habilidade política que o credencie para a difícil missão de prevenir, negociar e solucionar conflitos e liderar com sucesso processos de mudanças.

Dirceu pede para escrever em blog dentro da cadeia

folha de são paulo
Pela lei, direito à liberdade de expressão é garantido ao preso, diz advogado
Ex-presidente do Supremo Carlos Velloso afirma que 'pode virar baderna se cada preso puder se manifestar'
SEVERINO MOTADE BRASÍLIASob o argumento de que os presos também têm direito à informação e a se expressar, a defesa do ex-ministro José Dirceu enviou à Justiça um pedido de autorização para que, mesmo da cadeia, ele possa atualizar seu blog.
Detido desde o dia 15 devido à condenação a 10 anos e 10 meses no julgamento do mensalão, Dirceu também quer receber em sua cela jornais e revistas, além de ter o direito de dar entrevistas.
No pedido à Vara de Execuções Penais do Distrito Federal, o advogado José Luis Oliveira Lima cita que a Lei de Execução Penal estabelece como direito dos presos "o contato com o mundo exterior por meio de correspondência escrita, da leitura e de outros meios de informação".
Desta forma, o direito à liberdade de expressão e informação está garantido aos presos, argumenta.
No seu entender, só poderia haver restrição visando impedir crimes, para preservar a segurança do presídio ou evitar fugas e motins.
Citando juristas, ele destaca que "mesmo encarcerado, [o preso] mantém o direito de estar informado dos acontecimentos familiares, sociais, políticos e de outra índole, pois sua estadia na prisão não pode significar marginalização da sociedade. Em suma, o sentenciado mantém íntegro o direito à liberdade de informação e expressão".
A prisão de Dirceu e outros condenados no Complexo da Papuda gerou insatisfação de familiares de outros presos devido ao tratamento diferenciado. Eles receberam no início visitas de parlamentares em dias e horários flexíveis.
Na petição, a defesa de Dirceu destaca que durante o julgamento o réu publicou artigos e entrevistas em seu blog sem qualquer incidente.
Dirceu não explica como pretende fazer para abastecer seu blog. Diz, porém, que no caso de obter autorização publicaria uma nota de pesar pela morte do governador de Sergipe Marcelo Déda (PT).
Apesar da prisão, a página de Dirceu na internet segue sendo atualizada com artigos, reportagens e fotos.
O pedido deve ser analisado pelo juiz da Vara de Execuções Penais do DF Bruno Ribeiro. Foi ele que, ao autorizar o tratamento do ex-presidente do PT José Genoino fora da Papuda, o proibiu de conceder entrevistas.
Para o ex-presidente do STF Carlos Velloso, não há embasamento jurídico no pedido de Dirceu, não sendo possível evocar direito à liberdade de expressão no caso.
"As penitenciárias têm regulamento. Esses regulamentos proíbem que o preso se manifeste, pois pode virar baderna se cada preso puder se manifestar com o mundo externo quando quiser", diz.
Não há data para a resposta ao pedido do ex-ministro, que tem prioridade por ter 67 anos --a tramitação preferencial lhe é assegurada pelo Estatuto do Idoso.
Ontem, a Vara de Execuções Penais concedeu a Dirceu prioridade em parte do pedido de trabalho externo.
Disse, porém, que não poderá dar prioridade na análise da idoneidade da proposta de emprego --o entendimento é que a proposta "não é mais frágil e suscetível a perecimento que as demais".
Dirceu cumpre a parte da pena relativa à condenação por corrupção, de 7 anos e 11 meses. A sentença por formação de quadrilha terá recurso analisado pelo STF em 2014.

    Pequenos negócios mantêm alto o índice de emprego no Brasil

    folha de são paulo
    MÔNICA BERGAMO
    LIÇÃO FASHION
    Quando eram estudantes, a empresária Renata Paternostro, 27, e a arquiteta Marianna Dal Canton, 29, criaram o Concurso Faap Moda, em que alunos recebem dicas e profissionais, apresentam desfiles e são avaliados por estilistas.
    Hoje elas são curadoras do evento, cuja 10ª edição foi realizada ontem, em São Paulo. "A ideia é diminuir a distância entre o mundo acadêmico e o mercado da moda", diz Renata.
    ENTREGA RÁPIDA
    Os pequenos negócios voltaram a funcionar como colchão para a manutenção do alto índice de emprego no Brasil. Abriram 101 mil postos de trabalho em outubro, enquanto as médias e grandes empresas fecharam 7.500 vagas no país.
    SOMA
    Já foram criados, no ano, quase um milhão de empregos no setor, ou "uma Petrobras por mês", segundo Luiz Barreto, presidente do Sebrae Nacional, responsável pelo levantamento.
    É FOGO
    O incêndio no Memorial da América Latina levou o Ministério Público a iniciar investigação sobre a ausência de alvarás de funcionamento em outros auditórios, museus e centros culturais na capital. "Não é que o alvará apaga incêndio, mas previne", diz o promotor Maurício Antônio Ribeiro Lopes. Ele quer verificar se prefeitura e órgãos responsáveis têm feito inspeções nos locais.
    LONGA ESPERA
    Museus como Masp, Pinacoteca e CCBB já admitiram que ainda aguardam o alvará da Prefeitura de SP.
    HORIZONTE
    É tensa a relação de condenados do mensalão presos, e de familiares, com seus advogados. A situação é considerada natural pelos profissionais, dada a sensação de impotência e vulnerabilidade de quem está na cadeia.
    EM CASA
    Marcos Valério, preso na Papuda, não pedirá transferência para Belo Horizonte, em Minas, onde tem domicílio. O publicitário, pivô do mensalão, se sente mais seguro no presídio de Brasília.
    MEMÓRIA
    Em outra ocasião em que esteve preso, em Tremembé, em SP, Valério foi agredido por outros detentos, o que nunca foi confirmado oficialmente por seus advogados.
    RETRATO
    E Paulo Maluf (PP-SP) festeja o aniversário da sogra amanhã. Dona Alexandra Lutfala está fazendo cem anos. "Sou louco por essa minha sogra", diz o ex-prefeito. "Ela me vê e já pergunta se os negócios estão indo bem. Foi filha, mulher, mãe, sogra e avó de industriais." Dona Alexandra tem quatro filhos, 14 netos, 40 bisnetos e quatro tataranetos.
    ENTRE NÓS
    A escolha de dançarinos para a abertura da Copa de 2014 no Brasil está a cargo do Estúdio Anacã Corpo e Movimento --que tem como sócia Ana Diniz, filha do empresário Abilio Diniz. A seleção é para poucos: a audição, que ocorre amanhã, foi divulgada apenas entre alunos, bolsistas e profissionais vinculados à própria escola.
    ENTRE NÓS 2
    "Não temos estrutura para fazer uma audição aberta ao público neste momento", explica a bailarina e coreógrafa Helô Gouveia, do Anacã. São 404 vagas para bailarinos, acrobatas, dançarinos de frevo e capoeiristas.
    MEIO SÉCULO
    Paulinho da Viola vai comemorar os 50 anos de carreira em 2014 com o show "Voltar Quase Sempre É Partir para um Outro Lugar". A turnê começará depois do Carnaval e passará por 12 cidades do Brasil.
    HÁ VAGAS
    O humorista Paulinho Serra está fazendo testes para ser repórter do "CQC", da Band. O convite surgiu nessa segunda, assim que ele rompeu contrato com o SBT, onde era jurado do programa "Famoso Quem?".
    TESTOSTERONA
    Francisco Cuoco vai interpretar o aristocrata Próspero em "A Tempestade", de William Shakespeare. A peça entrará em cartaz no segundo semestre de 2014 em São Paulo. Marcelo Antony também está no elenco, que será composto apenas por homens, já que, "naquela época, mulher não podia subir ao palco", diz o produtor Claudio Fontana.
    LINHA DE DEFESA
    Augusto Arruda Botelho recebeu convidados no jantar de confraternização e arrecadação de fundos do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa) anteontem, no Lions Nightclub. Os advogados Márcio Thomaz Bastos, Alberto Toron, Marcelo Leonardo, Pierpaolo Bottini, Eduardo Muylaert e Luiz Fernando Pacheco foram ao evento. Roberto Podval e sua mulher, Ritiene, e a modelo Ana Claudia Michels, namorada do anfitrião, também estiveram lá.
    CURTO-CIRCUITO
    A exposição "Vínculo", de Luiz Martins, será aberta hoje, às 19h, no MuBE. A idealização é da Wonen.
    Cesar Camargo Mariano e Romero Lubambo se apresentam hoje, às 21h, no Sesc Pompeia. 12 anos.
    O cardiologista indiano Sameer Mehta dá palestra hoje, às 14h, no Hospital Albert Einstein.
    O documentário "Investimento Social Privado - O Presente É o Futuro" estreia às 9h30, no Itaú Cultural.

      Contardo Calligaris

      folha de são paulo
      Liberdade de ir e vir
      Os caminhos da liberdade passam por nós como cavalos encilhados: poucas vezes ao longo de uma vida
      A onda de comoção por Genoino preso e doente foi dissipada pela notícia de que, possivelmente, José Dirceu passará o dia fora da prisão, administrando um hotel brasiliense: ele terá almoço, lanche, piscina, quarto, encontros com quem ele quiser e R$ 20 mil por mês.
      Alguém brinca: por R$ 20 mil por mês, se, durante o dia, posso me encontrar com quem eu quiser e comer "à la carte", eu passo as noites em cana sem problema. Entendo a indignação: com livre acesso a visitas e telefones, Dirceu poderia continuar as mesmas atividades políticas pelas quais ele foi condenado.
      De qualquer forma, o episódio me levou a pensar, mais geralmente, no que é, para mim, a privação de liberdade.
      Para refletir nessa questão (e em outras), sugiro o filme "Trem Noturno para Lisboa", de Bille August. Chatice: no filme, todos, suíço-alemães e portugueses, falam inglês, como se fosse o idioma do Espírito Santo. Aguente: a história vale a pena.
      O filósofo Peter Bieri (bernense, como o protagonista da história) publicou, em 2001, "Das Handwerk der Freiheit" (Hanser), um bonito ensaio sobre "o ofício da liberdade" (existe uma tradução francesa, "La Liberté, un Métier"). Uma das ideias é que a liberdade é um trabalho incessante para inventar os futuros que queremos e para ter a coragem de fazê-los acontecer.
      Bieri também escreve romances, com o pseudônimo de Pascal Mercier. Entre eles, em 2004, ele escreveu "Trem Noturno para Lisboa" (Record), que foi um (merecido) sucesso mundo afora e deu lugar ao filme que está agora em cartaz.
      A história de "Trem Noturno para Lisboa" é, de alguma forma, ligada ao ensaio sobre liberdade publicado por Bieri três anos antes.
      Gregorius, um solitário e insone professor que acha sua própria vida insossa, é fascinado pelas lutas e os amores de Amadeu de Prado e de seus amigos, no Portugal da época salazarista.
      Mas Gregorius conhece a história de Amadeu só porque ele, Gregorius, deu prova de uma liberdade talvez maior que a de Amadeu e companhia, quando ele pegou um trem para Lisboa sem mala e sem pré-aviso, só para correr atrás do passado evocado num livro no qual ele esbarrou por acaso.
      Ou seja, a coragem de Amadeu e de seus amigos é uma grande qualidade, mas o verdadeiro campeão da liberdade é Gregorius subindo no trem para Lisboa.
      Gregorius estava de pijama não só em casa, mas, por assim dizer, na vida. De repente, na tentativa de salvar uma moça suicida, ele larga seu guarda-chuva --todos os seus guarda-chuvas, inclusive o amparo de sua Suíça natal.
      Ele se parece com o protagonista hipotético de um conto de Kafka na coletânea "Contemplação" (Companhia das Letras), "O Passeio Repentino". Nele, Kafka pede que imaginemos um momento em que nos entregamos à rotina e ao seu conforto: é noite, está frio e chove lá fora, acabamos de tirar a roupa molhada e já percorremos o ritual que nos levará ao aconchego quente e final de nossa cama. Se, de repente, levantarmos, tirarmos o roupão, vestirmos casacos e galochas para sair e encarar a obscuridade e o vento da rua deserta, então, ele diz, poderemos "ascender à nossa verdadeira estatura".
      Desta vez, Kafka não conta a história de quem, a vida toda, sentado diante do castelo, esperou para entrar, sem se dar conta de que a porta talvez estivesse aberta e lhe fosse reservada desde sempre. Desta vez, ele conta a história de nossa dificuldade para sair: a história da prisão de nossa inércia, a prisão de quem não se atreve a encarar o gelo lá fora.
      Para quem vive confortavelmente numa prisão que ele mesmo construiu, é como se o conforto e o aconchego pudessem esconder os muros e as grades de sua casa, que é, sem ele saber, uma prisão --eventualmente, dourada.
      Se estamos com medo de encarar as consequências de nossa liberdade e, por isso, vivemos em prisões douradas que não enxergamos e que nós mesmos construímos, certamente não temos como entender de quê estão sendo privados os presos, sobretudo quando eles têm direito a piscina e pizza.
      Pois bem, eles estão sendo privados da liberdade de subir um dia num trem noturno para Lisboa --atrás de nada, atrás de um livro encontrado no casaco de uma menina que queria se matar.
      Alguém dirá que tanto faz: de qualquer forma, acasos como o encontro de Gregorius com o livro de Amadeu são raros, se não únicos. Concordo, mas cuidado, os caminhos da liberdade são infinitos, mas passam por nós como cavalos encilhados: poucas vezes ao longo de uma vida.

        quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

        De certo, só o incerto

        Por Alexandre Rodrigues | Para o Valor, de São Paulo

        AP / APTufão Yolanda dizimou cidades inteiras nas Filipinas: "Existência de incerteza não significa falta de conhecimento", diz David Stainforth, pesquisador da London School of Economics
        "Há incógnitas conhecidas, isto é, há coisas que agora sabemos que não sabemos", disse o ex-secretário americano de Defesa Donald Rumsfeld, em 2002, tentando explicar o contexto imprevisível da guerra ao terror. "Mas também existem desconhecimentos desconhecidos - há coisas que não sabemos que não sabemos."
        Onze anos depois, esse jogo de palavras, execrado na época, é um ícone pop, citado no filme "Guerra ao Terror" e parte de letras de músicas, como em "Riddles, de Joan Jett. E, principalmente, uma verdade: a incerteza é parte da vida. Investir no mercado financeiro, fazer projeções de inflação, jogar na loteria ou decidir levar ou não um guarda-chuva ao sair de casa são eventos que envolvem grande dose de incerteza. Mas, se até uma década atrás, a imprevisibilidade era considerada apenas um elemento do jogo, a tecnologia e os mercados mundiais aumentaram seus efeitos sobre as sociedades. A incerteza tornou-se fonte de angústia política e econômica.
        "As incertezas aumentaram muito nos últimos anos", diz o professor de psicologia social da Universidade de São Paulo (USP) Sigmar Malvezzi. A tecnologia e as bolsas tornaram as economias mais instáveis. Governos perderam controle sobre mercados. "Outro ponto importante é o enfraquecimento da capacidade das instituições sociais - família, escola, igrejas - de reproduzir os valores e a cultura. Esse enfraquecimento está deixando as pessoas sem sentido na vida. Sem esse controle, os indivíduos são volúveis em suas decisões. Têm seu individualismo intensificado e isso aumenta as incertezas."
        Estudos de psicologia cognitiva e neurociência, principalmente os mais ligados à neuroeconomia - que une neurociência e economia -, mapearam nos últimos anos como o cérebro humano reage aos momentos de incerteza. As decisões são tomadas no córtex pré-frontal médio, região localizada na altura da testa que orienta as decisões, pesando os resultados bons e ruins de escolhas passadas. Em testes com ratos - os cientistas dizem que possivelmente humanos se comportam da mesma maneira -, uma equipe do Instituto Médico Howard Hughes, nos Estados Unidos, conseguiu visualizar como surge a dúvida. No início, são apenas algumas células nervosas, mas, à medida que aumenta a confusão, mais e mais novas células ficam agitadas e criam um turbilhão mental, forçando uma mudança de perspectiva.
        "Quando o ambiente muda, você quer reavaliar o mundo", diz Alla Karpova, neurocientista encarregada do estudo. Essa atividade parece indicar como agem, por exemplo, os donos de carteiras de ações em tempos de crise. Em outro estudo, do Programa de Neurobiologia da Escola de Medicina da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, cães foram submetidos a testes em que obtinham ração numa máquina parecida com uma de venda de refrigerantes. Conforme a portinhola do aparelho que escolhiam, podiam receber mais ou menos comida. Ou nenhuma.
        O teste apontou para uma verdade conhecida dos mercados financeiros: em tempos incertos, somos conservadores. Quando aumentaram os nichos vazios, os animais passaram a escolher aqueles onde já sabiam que havia comida, mesmo que em menor quantidade. O resultado, segundo Michael Platt, neurobiólogo responsável pelo estudo, explica esse mecanismo de proteção.
        Geralmente, as pessoas são avessas à incerteza quando tomam decisões sobre ganhos financeiros, revela a pesquisa. "Ao mesmo tempo, são mais abertas à incerteza quando se defrontam com perdas em potencial." Em outro exemplo, se uma pessoa for a um "game show" na TV em que o apresentador dá a chance de escolha entre receber R$ 100 mil naquele momento ou tentar a sorte e ganhar R$ 500 mil ou perder tudo, a maior parte dos candidatos escolherá a primeira opção. É o que os economistas costumam chamar de aversão ao risco.
        Teste aponta para uma verdade conhecida dos mercados financeiros: em tempos incertos, somos conservadores
        A descoberta explica por que, em momentos de grande incerteza, medidas de emergência tomadas por governos geralmente não funcionam. Trata-se do que o economista americano Nicholas Bloom, da Universidade de Stanford, chama de "choque de incerteza". Depois da crise que se seguiu à quebra do banco Lehman Brothers, Bloom foi um dos interessados em analisar como as economias se comportam em tempos incertos. Após analisar 14 crises, começando pela dos mísseis em Cuba, em 1962, até a quebra do Lehman Brothers, em 2008, notou que, em um primeiro momento, a incerteza sempre prevaleceu, anulando as ações dos governos.
        O processo é conhecido. Em momentos de incerteza, os mercados reagem mal, derrubando as bolsas. As empresas congelam investimentos, e a taxa de desemprego aumenta. Os governos reagem, injetando dinheiro no mercado e cortando a taxa de juros. Mas, em todos os casos, a preocupação maior é sempre com o risco, anulando as medidas adotadas para contê-la. Somente há uma resposta quando a incerteza diminui e a economia se normaliza.
        "Para os políticos, isso é importante: sugere que uma resposta monetária ou fiscal a um choque de incerteza provavelmente não terá quase nenhum impacto imediato", diz Bloom. Se medidas certas tomadas em um clima de incerteza podem demorar para ter efeito, uma subida errada na taxa de juros para conter a fuga de capitais, por exemplo, pode atrasar a recuperação mais tarde. "Políticas voltadas para o que está por trás da incerteza são mais prováveis de funcionar."
        Sob incerteza, dizem outros estudos, as pessoas também se tornam mais propensas a antecipar gastos e fazer menos poupança. Os efeitos vão além da economia. "A incerteza pode afetar a política", diz Ingrid Haas, pesquisadora de psicologia política da Universidade de Nebraska. Em uma série de experimentos, ela testou voluntários em vários cenários criados para provocar incerteza. Os pesquisadores então faziam uma série de perguntas para determinar os níveis de abertura a novas ideias. Resultado: em tempos incertos, as pessoas se tornam mais intolerantes.
        A rejeição aumentava quanto mais os participantes da pesquisa se sentiam inseguros. No mundo real, isso seria uma explicação para ondas de xenofobia e perseguição a minorias em momentos de temor nas sociedades sobre o futuro. Em um caso extremo, munição para o totalitarismo, como na Alemanha nazista. No mercado financeiro, mais uma explicação para o "efeito manada" em momentos de crise.
        Mas a incerteza, descobriram os pesquisadores, também pode ter o efeito contrário no caso de opiniões radicais. Em situações nas quais a intolerância é resultado de alguma certeza, criar dúvidas nas mentes das pessoas levou a posições menos radicais. "Dúvidas podem gerar mentes mais abertas a opiniões opostas e menos dispostas a minimizar o que pensam os outros", diz Ingrid.

        Bloomberg / Bloomberg"Há incógnitas conhecidas, isto é, há coisas que agora sabemos que não sabemos", disse o ex-secretário americano de Defesa Donald Rumsfeld, em 2002
        Com dados sobre famílias em situação econômica frágil por causa da recessão entre 2007 e 2009, o sociólogo Dohoon Lee, professor da Universidade de Nova York, constatou que a incerteza também faz com que mães criem os filhos de maneira mais dura. Cada 10% de aumento na taxa de desemprego correspondeu a 1,6% a mais de casos de palmadas, gritos, ameaças e espancamento de crianças. Estudos sobre a Grande Depressão, nos anos 1930, haviam chegado à mesma descoberta, mas ligavam os maus tratos à vida mais difícil criada pela maior crise econômica do século XX.
        Lee descobriu que a mente antecipa os piores momentos. Já na fase inicial da recessão, quando as taxas de desemprego ainda não estavam altas, mas o índice de confiança do consumidor caía, as mães começaram a bater e a gritar mais com os filhos. "A antecipação da adversidade foi mais importante do que a exposição real", asseguram os pesquisadores, que ainda fizeram mais uma constatação: entre mães com um grupo específico de genes que as deixam mais suscetíveis à incerteza, os casos de maus tratos foram ainda maiores.
        Até mesmo os processos químicos que fazem sentir o sabor dos alimentos são afetados. Em um teste para o exército americano, em 2012, batizado significativamente de "Jantando no escuro", 160 voluntários experimentaram, de olhos vendados, porções de biscoitos, carne e enchiladas, uma tortilha de milho recheada. Enquanto nos dois primeiros pratos, que fazem parte da culinária do dia a dia, a aceitação não mudava, os militares recusaram a enchilada, prato mexicano não familiar a eles. Mas quando sabiam do que se tratava, a aceitação subia. Os resultados, segundo os organizadores da pesquisa, professores de universidades americanas como Cornell e Yale e de um centro de pesquisas do Exército em Massachusetts, mostram uma ligação entre os processos psicológicos e o paladar.
        Esses estudos respondem a perguntas que filósofos e escritores fazem há milênios. Já no século IV A.C., o grego Sócrates criava sua frase famosa: "Só sei que nada sei". O francês Voltaire, no século XVIII, considerava a incerteza algo positivo: "Incerteza é uma posição desconfortável, mas certeza é uma [posição]absurda". Aqui no Brasil, Machado de Assis escreveu no romance "Esaú e Jacó": "O imprevisto é uma espécie de Deus avulso que pode ter voto decisivo na assembleia dos acontecimentos". O economista americano John Kennedy Galbraith (1908-2006), em seu clássico "A Era da Incerteza", tem uma visão negativa: em comparação com a certeza das ideias do século XIX, a incerteza atual é resultado da desigualdade, da ineficiência e da instabilidade.
        Nem sempre incerteza é ruim. Para os criadores de videogames, por exemplo, quanto mais incerteza, melhor. Seja em clássicos como "Space invaders" e "Super Mario" ou em sucessos recentes, como "World of Warcraft", a quantidade de incerteza à qual o jogador é submetido desperta medos subconscientes e é a essência do jogo. Mas, no caso dos cientistas climáticos, falar de incerteza tem sido motivo de dor de cabeça.
        Com o tufão Yolanda, que dizimou cidades inteiras nas Filipinas e deixou mais de 10 mil mortos, o tema da previsão climática ganhou destaque especial. Em estudo realizado em parceria com a agência Reuters, pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, analisaram 350 notícias publicadas em seis países - o Brasil não faz parte da lista - e notaram que, em 80% dos casos de noticiário sobre o clima, falava-se da incerteza dos cientistas. A situação fez a Sense about Science, organização inglesa de divulgação científica, lançar uma campanha para esclarecer que incerteza não é o mesmo que ignorância.
        "A existência de incerteza não significa falta de conhecimento ou que uma ação, bem justificada, não pode ser tomada", diz David Stainforth, pesquisador do instituto de pesquisas Grantham para a Mudança Climática e o Meio Ambiente, da London School of Economics. "Se eu jogar uma bola no ar, posso ter enorme incerteza quanto ao local onde ela vai parar, mas posso ficar muito confiante de que vai cair. E se eu não quero que ela caia na minha cabeça, posso ir embora."

        Bloomberg / BloombergAo analisar 14 crises, incluindo a do Lehman Brothers, pesquisador verificou que a incerteza, num primeiro momento, sempre prevaleceu, anulando ações dos governos
        Apesar dos alertas, continua-se a cobrar dos cientistas algo que a ciência não pode prometer: certeza. "Incertezas são inerentes ao processo científico e ao conhecimento em geral", diz o físico Paulo Artaxo, da USP. "Basta ver as incertezas nas projeções de inflação, de taxa de cambio, de cura de câncer etc. Essa confusão cria um ruído desnecessário, que não chega a ameaçar, mas sem duvida é um ponto muito negativo."
        No último relatório do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas da ONU, a palavra "incerteza" aparece 42 vezes. Mesmo assim, o documento recebeu criticas por despertar mais dúvidas no público e nos políticos. "A questão é que, nas mudanças climáticas, as implicações socioeconômicas são enormes", diz Artaxo. "Decisões de mitigação e adaptação são questões complicadas e com amplas implicações políticas."
        Em outro aspecto, um dado curioso é que a incerteza não é percebida da mesma maneira em todos os lugares. Ao analisar, nos anos 1960 e 70, os dados de 100 mil moradores de 40 países diferentes para saber como reagem à incerteza, o psicólogo social holandês Geert Hofstede notou que a cultura local influencia essa visão.
        O Brasil, segundo o estudo, é o país com maior aversão à incerteza na América Latina, onde a rejeição também é alta. Portugal, Grécia e Bélgica são outros lugares com grande rejeição ao incerto. Já Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Jamaica e Cingapura veem a incerteza de maneira mais positiva.
        "No Brasil, como nas sociedades com alta rejeição à incerteza, burocracia, leis e regras são muito importantes para fazer o mundo um lugar seguro para viver", diz o estudo de Hofstede. "A necessidade das pessoas de obedecerem a essas leis, no entanto, é fraca. Mas se as regras não podem ser mantidas, novas são feitas."
        A sociedade, aqui, é moldada - concluiu o estudo - para evitar a incerteza. Brasileiros são mais coletivistas e costumam se juntar a grupos. Quanto menos voltada para o indivíduo for uma sociedade, mais mecanismos existirão contra momentos de incerteza.
        Enfim, caso uma pessoa se sinta abalada pela incerteza, como lidar com ela? Um estudo da Universidade de Toronto, no Canadá, divulgado em junho, descobriu que ler romances diminui o bloqueio cognitivo, uma tendência a delimitar demais um problema. Cem voluntários, estudantes universitários, mostraram-se mais abertos a informações contraditórias depois de ler contos de autores como os americanos Wallace Stegner, Jean Stafford e Paul Bowles. As opiniões, no entanto, tornavam-se menos abertas com a leitura de ensaios. Se estiver se sentindo em dúvida, ler "Os Sonhos da Morte de Pessoas Queridas", de Sigmund Freud, será mau negócio.

        Leia mais em:
        http://www.valor.com.br/cultura/3337980/de-certo-so-o-incerto#ixzz2mWtridE8

        Putin é um órfão traumatizado e com tendências gays, diz escritor


        Putin é um órfão traumatizado e com tendências gays, diz escritor

        Matthias Schepp

        • Mikhail Klimentyev/RIA-Novosti/AFP
          4.out.2013 - Presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de encontro do seu partido em Moscou
          4.out.2013 - Presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de encontro do seu partido em Moscou
        Em um novo livro, um cientista político descreve Vladimir Putin como um órfão traumatizado, com supostas tendências homossexuais e uma enorme fortuna. O Kremlin negou as alegações, chamando-as de insinuações infundadas.

        Para seus partidários, o presidente russo Vladimir Putin é o salvador da pátria. Para seus adversários, ele não passa de um tirano implacável. Nos telegramas diplomáticos vazados pelo WikiLeaks, ele é comparado ao super-herói Batman; a revista empresarial norte-americana "Forbes" acaba de selecioná-lo como uma das pessoas mais influentes do planeta. No entanto, há uma coisa que praticamente ninguém reivindicou antes: que o governante do maior país do mundo (em território), com 143 milhões de habitantes, armas nucleares e grandes quantidades de recursos naturais, é na realidade um fraco patético.

        Mas o cientista político de Moscou Stanislav Belkovsky, 42, alegou exatamente isso em seu novo livro, cujo subtítulo promete nada menos que "toda a verdade sobre Putin". As editoras russas evitaram publicar a obra escandalosa. Belkovsky vem se chamando a atenção há anos, fazendo repetidamente suas reivindicações descaradas e picantes sobre Putin. Muitos até acreditam que o repórter conta com a proteção de altos membros da comunidade de inteligência russa.

        Belkovsky, colunista de um tabloide de Moscou, acredita que a chave para a compreensão de Putin está em sua infância infeliz.

        "O pequeno Vladimir, que cresceu praticamente sem pai e sem o amor e o carinho dos pais, foi uma criança triste e retraída", escreve o cientista político. De acordo com esta versão dos acontecimentos, Putin é filho de um alcoólatra, nascido dois anos antes da data oficial de seu nascimento. Sua mãe mudou-se para a Geórgia com Vladimir, mas, pouco tempo depois, a criança foi enviada para Leningrado, onde foi criada por aqueles que se tornaram os pais oficiais do futuro presidente.

        Belkovsky não fornece provas, como cópias do registro de nascimento. Em vez disso, ele fala sombriamente sobre a misteriosa morte de um jornalista investigativo famoso que vinha tentando desvendar o mistério em torno do nascimento de Putin, antes de ser morto em um acidente de avião privado. De acordo com Belkovsky, Putin passou toda a sua vida adulta em busca de uma família substituta. Em Boris Yeltsin, ele viu um pai substituto e no oligarca proprietário de clube de futebol Roman Abramovich, que é órfão, viu um irmão substituto.

        Putin foge das pessoas

        Além disso, escreve Belkovsky, Putin é um político profundamente solitário que quase teve que ser forçado à presidência, tem que ser pressionado para tomar decisões e prefere passar seu tempo livre com animais, devido ao medo que tem das pessoas. As muitas fotos machistas que mostram Putin voando em veículos de neve ou posando com tigres supostamente anestesiados por ele não são parte de uma cínica campanha de relações públicas, e sim um olhar profundo para a alma do presidente, argumenta o autor. "É aí que reside o verdadeiro Putin. Ele foge das pessoas e de suas obrigações para a natureza", escreveu Belkovsky. "Aqui temos os melhores amigos de Vladimir: o labrador Conny e o cão pastor búlgaro Buffy, seus únicos companheiros de quarto na residência presidencial".

        Isso é pseudo-psicologia barata. No entanto, as agências de inteligência ocidentais, os diplomatas e os especialistas em Rússia estão interessados em duas partes da teorias de Belkovsky em particular: a suposta fortuna fabulosa de Putin e sua vida sexual. De acordo com Belkovsky, o caso de Putin com a bela ex-ginasta e campeã olímpica Alina Kabaeva nada mais foi do que uma invenção de seus assessores de relações públicas. Eles pintaram uma imagem de Putin como "macho com potência sexual", a fim de esconder que, para Putin, "o sexo e a vida sexual são estranhos", ou mesmo que ele é "gay latente", especula Belkovsky.

        Uma foto tirada em 2007 na qual a reputação de Putin como "ícone gay" foi estabelecida supostamente serve como evidência para esta especulação de homossexualismo, como se fosse uma "sessão de fotos eróticas em que Putin e o príncipe Albert de Mônaco posaram sem camisa com suas varas de pescar nas mãos". O porta-voz de Putin, Dmitry Peskov rejeitou categoricamente esta acusação, assim como a suposta fortuna ou a falsificação da data de nascimento. "Os comentários de Belkovsky não têm base ou, como dizemos na Rússia: são um lixo total", disse Peskov.

        O próprio Belkovsky parece estar ciente de que está patinando em gelo fino com suas especulações sobre as possíveis tendências homossexuais do chefe do Kremlin e escreve: "Para os meus leitores advogados", é preciso notar que "um ícone entre homossexuais não é automaticamente um homossexual".

        Belkovsky também dedica várias páginas à vida privada das duas filhas de Putin, Mariya, 28, e Ekaterina, 27, que o presidente sempre tentou proteger dos olhos do público. Mariya teve um romance com um arquiteto holandês. Quando ele foi forçado a se jogar em uma vala por uma comitiva blindada de um banqueiro de Moscou, levou apenas 15 minutos para que os culpados fossem presos. O comandante da operação que teve a velocidade de um relâmpago mais tarde foi nomeado ministro do Interior de Putin, enquanto o banqueiro foi imediatamente condenado a sete anos de prisão e agora "tem uma boa oportunidade para refletir sobre o silencioso arquiteto holandês", escreveu Belkovsky.

        Mansão de luxo no Mar Negro

        A segunda filha de Putin, Yekaterina, mora com o filho de Nikolai Shamalov, um amigo de longa data de Putin. Shamalov é conhecido nos círculos empresariais russos e alemães como mediador de grandes contratos entre as autoridades russas e ocidentais, ganhando o seu dinheiro com negócios na indústria médica.

        No final de 2010, um dos parceiros de negócios de Shamalov afirmou em uma carta aberta ao então presidente Dmitriy Medvedev que um palácio de centenas de milhões de euros estava sendo construído perto da cidade de Sochi, onde os Jogos Olímpicos de Inverno ocorreriam no ano seguinte, "para o uso privado de Putin". Ele alegou que Shamalov financiou a construção como uma espécie de administrador de Putin.
        O porta-voz de Putin respondeu prontamente, dizendo que o presidente russo não tinha nada a ver com a mansão magnífica no Mar Negro. Belkovsky agora afirma que o palácio se destinava à filha de Putin Ekaterina e seu marido, o filho de Shamalov. Shamalov disse que sua empresa não comenta sobre assuntos particulares.

        Ficção e verdade nunca estão distantes no livro de Belkovsky. Quando ele escreve sobre os rumores na virada do século de que Putin estava gravemente doente, ele afirma que certos guarda-costas embriagados do presidente confirmaram a teoria. Eles supostamente disseram a Belkovsky que o presidente ocasionalmente é substituído por um dublê para "esconder suas doenças crônicas e seus problemas de saúde".

        Belkovsky diminuiu o tom depois de sua entrevista ao jornal alemão "Die Welt", em 2007, em que acusou Putin de beneficiar-se de investimentos corporativos de bilhões de dólares.

        O que o livro de Belkovsky revela não é a verdade sobre o próprio Putin, mas sim sobre o sistema de Putin, onde a informação e a desinformação se fundem. As garantias feitas pelas pessoas no poder não convencem mais uma população desconfiada há muito tempo. É por isso que as teorias da conspiração prosperam, e é por isso que os russos consideram quase tudo possível, não importa o quão louco possa parecer. Belkovsky pode ser considerado um pouco louco ou um manipulador de espírito comercial, cujas "declarações são sempre bem pagas por alguém com antecedência", como disse outro cientista político.
        Tradutor: Deborah Weinberg