domingo, 8 de dezembro de 2013

Mônica Bergamo

folha de são paulo

Para Gilmar Mendes, já é hora de discutir de maneira franca o sistema carcerário brasileiro

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A prisão de condenados do mensalão deu relevância a um tema que pouco mobiliza o país: as péssimas condições dos presídios brasileiros.
Na semana passada, a coluna conversou com o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), sobre o assunto. Quando ocupou a presidência da corte, ele visitou presídios em todos os Estados do país e chegou a soltar 22 mil pessoas que já tinham cumprido suas penas e mofavam no cárcere.

Ministro Gilmar Mendes

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Sérgio Lima/Folhapress
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Gilmar Mendes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal)
Folha - O ex-deputado José Genoino, recém-operado do coração, bebeu água de torneira na Papuda, presídio que não tem sequer plantão médico. É um lugar destruidor e parece compreensível a preocupação da família dele.
Gilmar Mendes - É claro. É claro. Nós deveríamos discutir essa questão de uma maneira muito aberta e franca para superarmos realmente esse quadro caótico que é o das prisões. Não faz sentido que, num país como o Brasil, nós tenhamos presídios sem as mínimas condições para um tratamento digno das pessoas. Deveríamos chamar a atenção para a responsabilidade de todos os setores.
Quais?
Do governo federal, via Ministério da Justiça, que tem um fundo significativo para a melhoria das condições penitenciárias. Das secretarias estaduais de Justiça. Do Ministério Público, que deveria fiscalizar os presídios. Do Judiciário. É uma cadeia de responsabilidades que não cumpre a sua função.
Quando presidiu o STF (Supremo Tribunal Federal) e o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), em 2008, o senhor organizou mutirões carcerários e visitou presídios em todo o país. O que encontrou?
Um quadro de desmando completo, de abandono, de pessoas amontoadas. O preso está mal, com problema de saúde, ele é colocado fora da grade, mas deitado no chão. No presídio de Pedrinhas, no Maranhão, encontramos um sujeito com o ventre aberto. No Espírito Santo, presos estavam num contêiner. Os de cima faziam necessidades nos que estavam embaixo.
E todos sabem que é assim.
A relação de pouco caso da sociedade com o sistema [carcerário] se traduz na relação do poder público com ele. Se faltam recursos, os primeiros cortes são nessa área. É um quadro de abandono.
E a pressão social é zero.
Não há nenhuma crítica da sociedade. Não há nenhum partido que verbalize isso. Certa vez me perguntaram por que o STF só cuidava de réus ricos. Não. O tribunal cuida de réus ricos e de pobres. Mas a imprensa só se interessa pelos ricos.
Parcela da população acha que criminosos não merecem qualquer consideração.
O preso só perdeu a liberdade, nada mais. A legislação não permite outras sanções. Por outro lado, essas más condições dos presídios representam uma ameaça à segurança pública. A omissão do Estado é suprida por organizações criminosas. Os privilégios são dados não pelo sistema estatal, mas pelo sistema informal que se organiza no presídio.
O banqueiro Edemar Cid Ferreira, ao contar a sua experiência quando foi preso, disse que os detentos só pensam em uma coisa: que a mulher e a filha estão se prostituindo para se sustentar. No desespero, encontram amparo nas organizações criminosas.
Sem dúvida nenhuma. A falta de cuidados do Estado faz com que a atividade supletiva [aos presos] seja dada pelas organizações. Elas passam a prestar um serviço que deveria ser do Estado, das ONGs, dos segmentos da comunidade. Oferecem advogados, assistência à família do preso. E se fortalecem.
O preso, no desamparo...
[interrompendo] Ele aceita qualquer oferta. Por isso é preciso realmente discutir esse tema com seriedade. Não é só um problema de direitos humanos. É uma questão séria de segurança pública.
E ninguém se importa.
Aparentemente há um certo desleixo, uma certa desídia. Nós já nos acostumamos com essa situação. Esse é um quadro que nos envergonha.
O que mais os mutirões carcerários revelaram?
Em cerca de um ano, detectamos algo como 22 mil presos há três, quatro, sete anos, sem inquérito concluído. No Ceará, encontramos uma pessoa presa há 14 anos sem julgamento. Há aqueles que já cumpriram a pena e estão esquecidos nos presídios.
E que explicação o juiz dá?
Sempre se diz que é um problema de falta de infraestrutura. Terceiriza-se a responsabilidade. Mas hoje nós não podemos dizer que os juízes não têm responsabilidade sobre o caos do sistema prisional. No CNJ, verifiquei que nós tínhamos juízes da execução penal que nunca tinham visitado um presídio.
Mas é a obrigação deles.
Talvez isso seja a concretização dessa pré-compreensão negativa que a própria sociedade tem em relação aos presídios. Isso talvez contamine a ideologia e a percepção do próprio juiz.
Ou seja, "dane-se".
Pois é. E, por outro lado, as corregedorias não exigem [dos juízes], o Ministério Público não cumpre a sua função, que é a de fiscalizar as condições dos presídios. Por isso o CNJ editou várias resoluções determinando que se fizessem verificações sucessivas das prisões provisórias. No patamar tecnológico que nós atingimos, temos condições de saber tudo o que acontece no sistema prisional. O próprio CNJ teria condições de monitorar isso.
E os advogados?
A OAB não tem nenhum interesse sobre isso. Aliás, os setores de direitos humanos em geral. Eles quase sempre focalizam o quê? É o preso político, é o caso [do italiano Cesare] Battisti. Mas eles não se interessam pelos presos comuns. Esse desprezo da sociedade para com a comunidade de presidiários contamina todos os segmentos.
E os defensores públicos?
Não há defensores suficientes para a demanda.
Fortalecer as defensorias não poderia ser uma solução?
Elas são órgãos estaduais. E hoje existe toda uma disputa corporativa. Os defensores querem equiparação [salarial com juízes e promotores]. Os governadores [que arcam com os custos] veem esse quadro com desconfiança. Isso [a obrigação de se criar defensorias] está na Constituição de 1988 de forma muito clara. Passados 25 anos, nós ainda não temos um modelo estruturado. Há Estados grandes que têm 20 defensores. Nós temos hoje 70 mil presos em delegacias, o que é ilegal. E não temos advogados para viabilizar esse debate.
O país estaria precisando de um "Mais Advogados"?
Talvez você não precise contratar advogados. Há um campo interessante para um experimentalismo institucional. Poderíamos pensar num serviço civil obrigatório para todo jovem egresso das faculdades de direito das universidades públicas. Eles ficariam um ano fazendo estágio no sistema prisional. Conheceriam a realidade do Brasil! E prestariam um serviço relevante ao país. Veja, nós temos hoje um número enorme de bacharéis em direito. Se tivéssemos um advogado em cada presídio ou delegacia, é óbvio que teríamos um outro quadro em termos de direitos humanos. Certamente, nas delegacias, neste momento em que conversamos, estão ocorrendo torturas.
E por que a ideia não vinga?
Porque nós temos um quadro corporativo no país. A OAB defende os advogados privados. A Defensoria Pública entende que não deve atuar com voluntários. Eu até já brinquei: não se preocupem, há pobres para todos.
Há também a questão dos ex-detentos.
No Brasil se diz que nós temos um dos maiores índices de reincidência do mundo, de 70%. E por quê? Porque ninguém cuida. O único programa institucionalizado, e ainda assim hoje tocado sem muito entusiasmo, é o Começar de Novo, do CNJ. É preciso intensificar. Porque aqui está o controle da criminalidade. Se a pessoa consegue se ressocializar, obviamente você quebra o ciclo de envolvimento dela com o crime. De novo: não é só uma questão de direitos humanos. O problema é que segurança pública, hoje, virou apenas aparato policial.
Lugar de bandido é na cadeia.
A mensagem, em geral, é a do endurecimento. Nada contra. Mas isso dá uma ilusão de ótica para a sociedade. Não é a resposta adequada a todas as mazelas. O sistema de segurança pública é mais complexo. Não basta colocar o sujeito no presídio. Ele pode ser solto no momento seguinte, porque o juiz não deliberou e houve excesso de prazo, por exemplo. E aí, na comunidade, a repercussão negativa é enorme. A justiça criminal envolve o Ministério Público, a Defensoria Pública, o sistema prisional, a polícia. É por isso que eu digo: nós temos que olhar as árvores e a floresta. O sistema é de uma disfuncionalidade completa. É preciso um freio de arrumação, uma "concertación", um grande mutirão institucional nessa área. Nós temos aqui também o retrato do Brasil: é o caos, graças à má gestão.
O Estado é o caos na hora em que vai fazer Justiça.
Com certeza. A grande prioridade hoje em matéria de continuidade da reforma do Judiciário deveria ser a justiça criminal, como um tema de direitos humanos e de segurança pública. Quantos inquéritos ficam sem conclusão no país? Em Alagoas, encontramos 4.000 homicídios sem sequer inquérito aberto.
A Justiça é injusta.
De todo lado nós temos injustiça aqui.
mônica bergamo
Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

Mauricio Stycer

folha de são paulo
Perguntar pode ofender
O programa 'Pânico' cobra algo mais das celebridades que querem aparecer na TV, mas nem sempre se dá bem
A presença de pessoas famosas em programas de auditório ou de entrevistas na TV obedece a uma lógica conhecida, sempre implícita: a da troca de interesses. Seja um ator consagrado ou uma simples aspirante, não importa em qual degrau da fama estão, todos oferecem a própria imagem em troca da expectativa de um ganho futuro com a "presença na mídia".
O motivo varia. Pode ser para divulgar uma peça de teatro, um novo CD ou, simplesmente, para dizer "eu existo". Quem se dispõe a sentar no sofá da Fátima Bernardes, falar com um repórter do "CQC" na rua, dar entrevista para o "TV Fama" ou responder a perguntas de Ticiane Pinheiro no "Programa da Tarde" nunca faz isso de graça.
Neste "mercado", o "Pânico" se destaca por sua visão peculiar. A atração entende que as celebridades devem dar "algo mais" em troca da exposição. Quer aparecer na TV? Tudo bem. Mas precisa passar por algum constrangimento.
Misturando humor e assédio, o "Pânico" acabou se tornando uma referência. "Pagar um mico" no programa confere "valor", uma espécie de "selo de autenticidade", a quem se dispõe. Mas nem sempre as coisas saem como o previsto.
Com muita cara de pau e confiança total na ideia de que "perguntar não ofende", o humorista Eduardo Sterblitch, na pele do personagem "Poderoso", tem realizado entrevistas surreais. A mais recente vítima, porém, conseguiu inverter o jogo e surpreendeu o humorista.
Andressa Urach se apresenta como ex-vice Miss Bumbum. Com essa credencial e a suspeita de que teve um encontro íntimo com o jogador Cristiano Ronaldo, conseguiu uma vaga no reality show "A Fazenda", onde protagonizou uma briga de cuspe com outro candidato.
Muito pragmática em seu projeto de exposição pública, Andressa não teve dificuldade alguma diante das perguntas mais grosseiras do "Poderoso". Não só as tirou de letra, como deixou o entrevistador do "Pânico" sem reação.
Tudo começou quando ele perguntou, em linguagem chula, se a modelo fez sexo anal com Cristiano Ronaldo. Ela confirmou da forma mais objetiva possível, apenas com uma palavra. Surpreso, o entrevistador riu e disse: "Tá..." Notando o incômodo que causou, Andressa reagiu como qualquer criança faria: "Você perguntou..." Sterblitch disse: "Virei seu fã". Ela então acrescentou detalhes íntimos e concluiu: "Essa é exclusiva. Ninguém nunca tinha me perguntado."
Em outro momento, o entrevistador disse: "Todas as coisas que envolvem o seu nome dão a entender que você realmente é garota de programa." Andressa reagiu, cobrando que ele fizesse a afirmação com todas as letras: "Você está dizendo que eu sou p...?" Sterblitch recuou: "Não. Não disse nada." A modelo insistiu: "Não. Você tá dizendo que eu sou p... Então, você está me prejulgando como uma p... Então, a gente vai acabar discutindo". E o humorista desistiu do tema: "Não. Não quero discutir com você."
O xeque-mate em Sterblitch ocorreu quando Andressa deixou claro, tanto para o entrevistador quanto para o público, qual é a regra do jogo que leva pessoas como ela a um programa como o "Pânico": "Eu estou feliz na televisão", disse. "Mas você acha que a televisão está feliz por você?", emendou o "Poderoso". "Acredito que sim, porque eu tenho dado bastante audiência em todos os programas que eu vou", concluiu a modelo.

    Ferreira Gullar

    folha de são paulo
    A bolsa e a vida
    A coisa se complica ainda mais quando se tornam necessários exames de laboratório, raio-X etc
    Os planos de saúde tornaram-se um grave problema para milhões de brasileiros, que os pagam mensalmente. Como o SUS não dá conta do atendimento à vasta maioria dos brasileiros mais pobres, quem pode, ainda que apertando as despesas, contrata um plano de saúde, confiando em que, quando necessitar, será atendido. A verdade, porém, é que, a cada dia que passa, isso se torna mais difícil.
    Uma das explicações para essa dificuldade --além do número crescente dos que fogem do SUS-- seria que as empresas dos planos de saúde, embora cobrem caro aos assinantes, pagam mal aos médicos. Em face disso, eles dão preferência aos pacientes que não têm plano de saúde e dos quais, em geral, cobram caro.
    A coisa se complica ainda mais quando se tornam necessários exames de laboratório, chapas de raio-X etc. O número de pacientes que solicitam esses exames é cada dia maior, já que hoje todo diagnóstico necessita desses exames.
    A verdade é que há que ter muita paciência para conseguir realizar esses exames, para entregar a solicitação e, mais ainda, para receber o resultado. Se se tratar de um caso grave, que exige urgência, o desastre torna-se quase inevitável. Os mais prejudicados são os idosos, que pagam muito mais caro que os demais, têm necessidade de recorrer aos planos com mais frequência e nem sempre são atendidos em tempo.
    Um exemplo disso é o caso que vou contar agora, cujo personagem é idoso. Vamos chamá-lo de Pedro. Já com seus 80 anos, mas saudável, e por isso quase nunca se valendo do plano de saúde, Pedro se deu conta de que seus pés tinham ficado dormentes. No começo, não deu importância ao fato, mas quando alguém lhe disse que aquilo poderia ser consequência de má circulação do sangue nos pés, decidiu procurar um angiologista, especialista no assunto.
    Com dificuldade, conseguiu marcar a consulta, foi examinado e o resultado é que não havia qualquer problema de circulação em seus pés. "Isso é nervo, deve ser problema da coluna vertebral. Procure um ortopedista", disse-lhe o médico.
    Foi de novo uma dificuldade para marcar a consulta, mas conseguiu agendá-la. "Isso é medula", afirmou o ortopedista e solicitou um raio-X panorâmico de sua coluna vertebral. Aí começou o drama.
    Pedro telefonou para várias clínicas a fim de marcar a radiografia solicitada pelo ortopedista. Falar com as clínicas é um desespero: você liga, atende uma gravação que lhe apresenta uma série de opções.
    Você escolhe a que lhe interessa, digita o número e fica esperando, enquanto começa a tocar uma música e uma voz lhe diz que é uma honra atendê-lo, e que isso se fará dentro em pouco. Você fica ali ouvindo a música e a promessa de ser atendido, mas nada acontece.
    Pedro já estava a ponto de desistir quando finalmente o atenderam. Ele disse o que desejava e recebeu a seguinte informação: não se marca hora, a pessoa é atendida por ordem de chegada; quem chega primeiro é atendido primeiro. Perguntou então quando começava o atendimento e a telefonista lhe disse que era a partir das oito da manhã. Mal conseguiu dormir, preocupado em chegar cedo à clínica.
    Acordou, tomou um gole de café e se tocou para lá. Chegou 20 para as oito e já tinha três pessoas em sua frente. Menos mal. Sucede que às 8h ainda não havia chegado o pessoal do raio-X e às 8h20 ninguém ainda havia sido atendido.
    Quarenta minutos depois, a atendente, que examinara a guia médica, lhe disse que ali não se fazia raio-X panorâmico. Pedro voltou para casa desapontado. Sem outra alternativa, passou a ligar para diversas clínicas disposto a encontrar uma que o atendesse. Nenhuma delas fazia raio-X panorâmico.
    Sem saber o que fazer, ligou para o ortopedista, que o aconselhou a perguntar para o plano de saúde qual clínica fazia o tal raio-X panorâmico. Recebeu da atendente o telefone de cinco clínicas.
    Ligou para a primeira, que disse que não fazia esse tipo de raio-X; a segunda respondeu a mesma coisa, e assim também a terceira e a quarta. Apenas a quinta clínica admitiu que fazia, mas só poderia atendê-lo dali a um mês e meio. E Pedro paga R$ 1.700 por mês por seu plano de saúde.

    Suzana Singer - Folha Ombudsman

    folha de são paulo
    Perder esse trem
    Folha fica para trás na cobertura do cartel do metrô e enfrenta acusações de que protege o PSDB
    "Coisa feia, hein, FSP? Sempre a reboque do concorrente 'OESP'. Todo dia o 'Estadão' descobre algo e publica. A FSP apenas reporta. Das duas, uma: ou tem péssimos repórteres investigativos, ou não quer mexer com o P$DB. A segunda hipótese me parece mais certa."
    O comentário, postado no site da Folha na quinta-feira, resume uma cobrança que vem sendo feita quase diariamente ao jornal sobre a cobertura do cartel de trens e metrô em São Paulo.
    O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que integra o coro dos descontentes, disse de forma educada praticamente a mesma coisa que o internauta: "Você compara o tratamento que a imprensa tem dado ao caso de São Paulo e ao caso do pessoal do PT, veja a diferença. Tirando 'O Estado de S. Paulo', não se pergunta pelo crime, recrimina-se o acusador".
    De fato, a Folha não está indo bem nessa cobertura. O jornal tem o mérito de ter dado o chute inicial da grande mídia, ao revelar, em julho, a existência de um acordo de leniência da Siemens no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). A multinacional, em troca de imunidade nas investigações, delatou às autoridades antitruste brasileiras um conluio em licitações de São Paulo, que envolvia partilha de encomendas e elevação dos preços.
    O jornal teve outro bom momento ao mostrar que investigações, já existentes em 2011, não prosperaram, apesar do pedido de colaboração das autoridades suíças, porque o gabinete de um procurador do Ministério Público Federal "arquivou o caso na pasta errada".
    Foram dois "furos" (informações exclusivas) importantes, mas agora o jornal parece estar perdendo esse trem. Foi o "Estado" que revelou, em outubro, mensagens de 2004 em que o então presidente da Alstom no Brasil recomendava o uso de lobistas para obter contratos no governo de São Paulo.
    Mais recentemente, o concorrente divulgou documento que teria sido escrito pelo primeiro delator do caso, um ex-executivo da Siemens, que citava o envolvimento de políticos tucanos. Na semana passada, publicou primeiro um depoimento de outro funcionário da empresa sobre uma conta secreta usada para o pagamento de propina e para fazer remessas a doleiros.
    Engana-se, porém, quem atribui o mau desempenho recente da Folha a preferências partidárias. As investigações sobre o cartel do metrô, conduzidas pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pelo Cade, ainda estão em curso e o que já foi apurado deveria ser mantido em sigilo. Só que, a conta-gotas, documentos têm sido vazados, quase sempre para o "Estado".
    Trata-se de uma falha da reportagem, que precisa ser sanada rapidamente, mas não há nada que indique corpo mole com o objetivo de proteger "a" ou "b". É bom lembrar que a Folha publicou, há três meses, uma manchete (infundada) que dizia "Serra sugeriu que Siemens fizesse acordo, diz e-mail".
    Em novembro, o jornal expôs a fragilidade das iniciativas tomadas pelo governador Geraldo Alckmin para investigar o caso. Em editorial, afirmou-se que, "nas investigações sobre a CPTM, um escândalo engata-se a outro, e a omissão das autoridades paulistas tem garantido a impunidade geral".
    Aos que me acusarão, ao final de leitura deste texto, de aliviar a barra do jornal, adianto que nenhuma Redação gosta de ver escancaradas suas deficiências em coberturas importantes. E essa, que envolve um desvio de dinheiro bem maior que o do mensalão petista, é uma delas.

      Amor aos livros [Antonio Fagundes] - Monica Bergamo

      folha de são paulo

      Mais da metade das brasileiras está descontente com o próprio corpo

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      Mais da metade das brasileiras está descontente com o próprio corpo. Para as 54% das mulheres que declaram insatisfação diante do espelho, os problemas maiores são estar acima do peso (55%) e celulite (36%). Boa parte delas quer mudar barriga (58%), os seios (33%) e os glúteos (17%).
      BOLSA DE MULHER
      Os dados são de pesquisa da Sophia Mind, empresa especializada em mercado feminino. O estudo também revela que 80% têm o batom como item indispensável na bolsa, além de escova de dente (70%), creme para as mãos (57%), filtro solar (43%), lápis de olho (40%), escova de cabelo (39%) e rímel (36%). Foram entrevistadas 2.565 mulheres das classes B e C.
      BIBLIOTECA
      Em quase um mês na prisão, José Dirceu já leu oito livros, segundo amigos que o visitam na Papuda.
      *
      Entre outros, a biografia de Getúlio Vargas, do escritor Lira Neto, e obras do mineiro Pedro Nava.
      GOLPE DO INGRESSO
      E-mail falso da Fifa tenta pegar torcedores que aguardam a confirmação da compra de ingressos para a Copa de 2014. "Você foi o ganhador de um par de ingressos para Copa do Mundo Fifa Brasil 2014! Imprima o seu e-ticket e dirija-se até o Centro de Ingressos para recebê-lo", diz a mensagem.
      GOLPE DO INGRESSO 2
      O comunicado é um "malware" (software malicioso). Ao entrar nos links sugeridos, o internauta permite que senhas, por exemplo, sejam capturadas do seu computador. Em nota, a Fifa diz se tratar de fraude. "Encorajamos encaminhar o e-mail às autoridades e prestar queixa para instauração de inquérito policial."
      AMOR AOS LIVROS
      Estevam Avellar/Divulgação/TV Globo
      Leitor voraz, Antonio Fagundes está sempre com um livro à mão nos intervalos de gravação de "Amor à Vida". Lê, em média, de duas a três obras por semana.
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      A pedido da coluna, ele recomenda três livros lidos no período: "Gargalhada no Escuro", de Vladimir Nabokov, "Subliminar", de Leonard Mlodinow, e "Vertigem Digital", de Andrew Keen.
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      Ao fim da novela, deve chegar à cifra impressionante de 70 livros. Diz que, quando foi gravar no Peru, bateu um recorde: devorou 15 títulos em dez dias.
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      Na foto, o intérprete do protagonista César aproveita uma brecha nas gravações para ler "Clique - Como Nascem as Grandes Ideias", de Frans Johansson.
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      Testemunha nas sombras - Mario Cesar Carvalho

      folha de são paulo
      Testemunha nas sombras
      Ex-diretor da multinacional Siemens que acusa tucanos de receber propina deixou de lado o PT e agora é aliado da empresa que antes ele dizia violar a ética
      MARIO CESAR CARVALHODE SÃO PAULO
      Ele só queria se aposentar na Alemanha. Pelo menos era o que dizia. Depois que a empresa rejeitou o pedido e começou a levantar suspeitas sobre sua conduta ética, o que tinha tudo para ser um pacato aposentado virou um homem-bomba, autor dos papéis que provocaram a batalha em curso entre PT e PSDB.
      A trajetória errática é a do engenheiro Everton Rheinheimer, 61, o ex-diretor da Siemens no Brasil. Ele acusa a multinacional alemã e empresas como a francesa Alstom e a canadense Bombardier de conluio em licitações e de subornar políticos e servidores para obter contratos do Metrô e da CPTM entre 1998 e 2008, ao menos.
      Rheinheimer (pronuncia-se "rainraimer") é um acusador persistente. Seu caso contra o Metrô e a CPTM começou em junho de 2008, quando enviou uma carta ao ombudsman da Siemens na Alemanha para dizer que a empresa "vem subornando políticos (na sua maioria) do PSDB".
      Em nova denúncia neste ano, ele deu nome aos bois: cita o tucano Edson Aparecido, chefe da Casa Civil do governador Geraldo Alckimin, e o deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP) como políticos que teriam recebido propina --o que ambos negam.
      Começa aí uma série de dúvidas que persistem até hoje. Por que ele escreveu essas acusações? Como sabia do suborno? Será que tem provas do que diz? O que ele quer?
      Rheinheimer nasceu em São Leopoldo (RS), no primeiro dia de 1952, mas chegou à Siemens brasileira em 2001 como expatriado, vindo da matriz na Alemanha, para gerenciar o setor de transporte.
      Em 2007, voltou para a Alemanha para um cargo que não queria assumir, o que levou-o a deixar a multinacional. Tinha 21 anos de Siemens e já havia trabalhado para a companhia na Alemanha, na China e nas Filipinas.
      São essas as pouquíssimas informações seguras que existem sobre o executivo, que prefere transitar em meio à névoa --ele nunca deu uma entrevista e a única imagem conhecida dele é uma foto 3 x 4, feita há mais de 20 anos.
      PAGADOR
      Não se sabe por que a Siemens recusou o pedido de aposentadoria na Alemanha, mas colegas e adversários de Rheinheimer dão algumas pistas. Ele teria entregue dinheiro de propina ao consultor Arthur Teixeira, apontado pela Polícia Federal como intermediador do suborno para os políticos, e a empresa não queria mais funcionários desse tipo em sua folha.
      Como a Siemens atravessou um escândalo mundial em 2007 envolvendo propina, os que sabiam demais passaram a ser indesejáveis.
      Outra versão é que o ex-diretor teria desviado para si recursos destinados a pagamento de suborno, o que parece ser uma tentativa de inimigos de desmoralizá-lo.
      O que o próprio executivo escreveu, num documento revelado há 15 dias, é que mandou a carta em 2008 ao ombudsman "para me defender de rumores sobre meu envolvimento neste escândalo".
      Não se sabe bem o que ele quer dizer com "envolvimento" (pode ser tanto o pagamento de propina como o desvio). Mas é certo que adotou a estratégia do acusado que vira acusador para tentar escapar das acusações.
      PARCERIA
      Rheinheimer teve um parceiro nas acusações: o deputado estadual licenciado Simão Pedro (PT), atualmente secretário de Serviços da Prefeitura de São Paulo.
      Em 2010, o então deputado e o ex-diretor foram ao Ministério Público pedir que as suspeitas sobre o Metrô e a CPTM fossem investigadas. Em documento não assinado de abril deste ano, Rheinheimer critica o desempenho dos promotores.
      "Apesar de toda a informação detalhada e das provas fornecidas por mim (...), a investigação do MP-SP não prosperou".
      Promotores que cuidam das investigações na esfera estadual tentaram convencê-lo a depor como testemunha oculta, cuja identidade só seria conhecida pelo juiz, mas ele recusou a oferta.
      A promotora Beatriz Lopes de Oliveira, que negociou com o executivo em 2010, rebate as acusações de incompetência do Ministério Público: "Ele não aceitou depor, dizia que tinha provas, mas nunca apresentou nada. Sem provas, nenhum juiz concederia uma autorização de busca ou escuta telefônica".
      No mês passado, Rheinheimer teve informações de que os acordos no Ministério Público não são muito sérios. Horas após fazer um depoimento sigiloso, viu parte do que dissera ser divulgado pela Rede Globo de Televisão.
      Foi por isso que escolheu a Polícia Federal como depositária das informações mais bombásticas que ele diz ter.
      Foi à PF que o ex-diretor citou pela primeira vez em caráter oficial nomes de políticos que teriam recebido propina do esquema.
      O documento é mantido em sigilo. Mas foi daí, a partir de documentos apócrifos, que surgiram os nomes do tucano Edson Aparecido, chefe da Casa Civil de Alckmin (PSDB), e o do deputado Arnaldo Jardim. Ambos refutam com veemência as suspeitas.
      O acordo da Siemens com a Cade (Conselho Administrativa de Defesa Econômica), no qual a multinacional acusa a si própria e a um grupo de empresas de agirem como cartel, trouxe outras mudanças súbitas na vida dele.
      Pela primeira vez em cinco anos, Rheiheimer tem advogados pagos pela Siemens, que acompanham seus depoimentos no Ministério Público e na Polícia Federal.
      Recentemente, a Siemens pagou o ex-diretor para viajar à Alemanha, com a missão de achar documentos que sustentem suas acusações.
      O resultado dessa mudança é que o ex-diretor virou parceiro --mas também refém-- da empresa a quem acusava de violar a ética nos negócios.

      Elio Gaspari

      O GLOBO
      A maldita imprensa burguesa (ou esquerdista)
      Criança sonha com circo, presidentes sonham com jornais e emissoras que compreendam e defendam seus governos
      Há sólidos indícios de que o comissariado petista arma iniciativas para criar uma base de apoio no setor de comunicações. Em 12 anos de poder, o projeto mais lógico rolou no BNDES em 2002. Como havia grandes empresas em dificuldades financeiras, concebeu-se algo como um ProPress. O comissário José Dirceu chegou a anunciar que "esse era um assunto de Estado". Deu em nada porque, depois de examinar os contratos, alguns dos interessados recusaram a oferta. É elementar que um tomador de empréstimo só recusa as condições se pretende cumpri-las (leia-se pagar). Quem não quer pagar assina qualquer coisa.
      O governo já criou uma rede de televisão, distribuiu os habituais feudos de radiodifusão e alguns comissários meteram-se em jornais. Como faltou combinar com os russos, ficaram sem audiência e com poucos leitores.
      Seja qual for o governo, sempre haverá no palácio gente convicta de que os meios de comunicação lhes são hostis e sempre haverá um amigo disposto a resolver o problema criando um jornal, uma nova rede de rádios ou de televisão. Basta que receba alguma ajuda.
      Em quase um século, todas essas iniciativas terminaram em ruínas, escândalos e, em pelo menos um caso, assassinato. Exceção, só a da "Última Hora", criada por Samuel Wainer em 1951 para defender Getúlio Vargas. Samuel, que foi um grande jornalista, conseguiu centenas de milhares de leitores. Paradigma do fracasso foi a compra do "Correio da Manhã", em 1969, por empreiteiros amigos. Fechou anos depois.
      Quando operações desse tipo passarem pela doutora Dilma ela não deve se esquecer do nome do jornalista Alexandre Baumgarten. Suas vidas já cruzaram. Ele tinha mais amigos entre os generais da ditadura do que ela no PT. Em 1974 a revista "O Cruzeiro" estava falida, e Baumgarten armou um projeto para salvá-la com dinheiro oficial e a ajuda do Serviço Nacional de Informações para pressionar as agências de publicidade. O assunto chegou ao general Golbery do Couto e Silva, que chefiava o gabinete civil, com a advertência de que "já deu bolo". Ele escreveu: "Tinha que dar. Ora, o BNDE emprestar aos Diários Associados!!!"
      Oito anos depois Baumgarten foi assassinado com um tiro na cabeça durante um passeio de barco. Há a forte suspeita de que a execução tenha sido organizada por um oficial que anos antes patrocinava as andanças de Baumgarten. Em dezembro de 1969 esse mesmo oficial caçava a turma da VAR-Palmares e sabia que a "Wanda" era Dilma Rousseff. Ela foi presa semanas depois.
      Os paladinos dos planos que darão nova vida ao governo na imprensa podem até parecer bons amigos. O problema é o que há em volta deles.
      O PRESO DIRCEU
      O comissário José Dirceu pediu para trabalhar num hotel, furando a fila dos demais detentos que estão trancados e ainda não conseguiram serviço fora da Papuda. O juiz de execuções criminais negou a solicitação, e ele desistiu do emprego.
      Em seguida, Dirceu pediu permissão para usar computador e alimentar seu blog. Nesse caso, poderia ser criada a seguinte situação: de manhã, o preso vai para o hotel e ao final da tarde volta à prisão, onde passa algumas horas conectado na rede. Teria R$ 20 mil de salário, cama na Papuda, comida e roupa lavada no hotel.
      Se essa situação pudesse ficar de pé o Brasil teria duas populações, a dos presos exercendo seus direitos e a dos condenados a ficar soltos.
      CONTA DE BARÃO
      A Viúva gasta R$ 40 mil por ano com cada preso e R$ 15 mil com cada estudante universitário. Essa conta não vale para o ex-deputado Valdemar Costa Neto. Ele receberá também R$ 201,6 mil anuais como parlamentar aposentado. Seu patrimônio declarado está em R$ 1,7 milhão. Fora da declaração, provavelmente ele é o mensaleiro mais endinheirado.
      Costa Neto foi condenado a sete anos e dez meses de prisão e a pagar uma multa de R$ 1 milhão. Na ponta do lápis, preso, ele receberá da Viúva cerca de R$ 1,5 milhão.
      EREMILDO, O IDIOTA
      Eremildo é um idiota e acredita que só havia quadrilha de fiscais na Prefeitura de São Paulo. Em todas as outras não há caso de corrupção. As empresas imobiliárias estão aí para garantir que nunca pagaram propinas.
      FARRA FISCAL
      O ministro Guido Mantega deve contratar um ator para representar o papel de defensor da responsabilidade fiscal. Sua capacidade de desempenho esgotou-se. Não se pode dizer que perdeu a credibilidade. O que perdeu foi a graça.
      Um exemplo:
      O governo do Ceará batalhou um empréstimo de até US$ 100 milhões do Bird, com garantia da União, e em 2012 o Senado autorizou-o. A Secretaria do Tesouro Nacional considerou que as contas do Ceará estavam capengas, com um deficit na sua capacidade de pagar o que deve.
      Se isso fosse pouco, o Estado tem 40% de sua dívida atrelada ao dólar. Num piripaco cambial, dana-se.
      O governador Cid Gomes foi a Mantega e obteve dele uma autorização especial para que a União garantisse o empréstimo.
      Quando chegar a hora de pagar ao Bird, o Ceará terá outro governador, e a Fazenda, outro ministro.
      FALANDO DEMAIS
      O advogado Valmar Souza Paes é um veterano profissional bem sucedido no Rio de Janeiro e deu ao filho, o prefeito Eduardo Paes, uma educação da melhor qualidade. A sorte pode ter lhe faltado quando comprou o registro de empresa criada em nome de um pobre panamenho, que fora associado a outra, para um acionista do Hotel Saint Peter, atual patrono do comissário José Dirceu.
      Mesmo assim, ele gosta de desafiá-la. Durante as manifestações de junho, um passageiro do elevador do edifício onde funciona seu escritório jura tê-lo ouvido dizer que situações como aquelas não aconteciam quando os militares estavam no poder.
      Quando os militares estavam no poder o prefeito do Rio era nomeado.
      DOUTORA DILMA E A VERDADE
      A doutora Dilma disse numa entrevista à edição em português do jornal "El País" que "esta semana resolveram reavaliar o PIB [Produto Interno Bruto]. E o PIB do ano passado, que era 0,9%, passou para 1,5%". Não disse quem "resolveram". Há um mês, diante da notícia de que o governo pretendia inaugurar 8.685 creches, rebateu a informação e perguntou: "Quem foi que aumentou para oito mil?" Ela, no seu programa radiofônico.
      Quando o IBGE informou que a revisão elevara o PIB de 2012 para 1%, a lambança deslizou para o ministro Guido Mantega e, dele, para sua Secretaria de Política Econômica, chegando a uma simples consultoria privada.
      Quando verificou-se que não existia o título de doutora que lhe era atribuído na biografia oficial da presidência, a responsabilidade rolou para um anônimo burocrata.
      No Palácio do Planalto todo mundo acredita nisso. Só no palácio.