domingo, 15 de dezembro de 2013

Marcelo Gleiser

folha de são paulo

Sobre a origem de tudo

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Volta e meia retorno ao tema da origem de tudo, que inevitavelmente leva a reflexões em que as fronteiras entre ciência e religião meio que se misturam. Sabemos que as primeiras narrativas de criação do mundo vêm de textos religiosos, os mitos de criação. O Gênesis, primeiro livro da bíblia, é um exemplo deles, se bem que é importante lembrar que não é o único.
Talvez seja surpreendente, especialmente para as pessoas de fé, que a ciência moderna tenha algo a dizer sobre o assunto. E não há dúvida que o progresso da cosmologia e da astronomia levaram a um conhecimento sem precedentes da história cósmica, que hoje sabemos teve um começo há aproximadamente 13,8 bilhões de anos. Tal como você e eu, o Universo também tem uma data de nascimento.
A questão complica se persistimos com essa analogia: você e eu tivemos pais que nos geraram. Existe uma continuidade nessa história, que podemos traçar até a primeira entidade viva. Lá, nos deparamos com um dilema: como surgiu a primeira entidade viva, se nada vivo havia para gerá-la? Presumivelmente, a vida veio da não vida, a partir de reações químicas entre as moléculas que existiam na Terra primordial. E o Universo? Como surgiu se nada existia antes?
A situação aqui é ainda mais complexa, visto que o Universo inclui tudo o que existe. Como que tudo pode vir do nada? A prerrogativa da ciência é criar explicações sem intervenção divina. No caso da origem cósmica, explicações científicas encontram desafios conceituais enormes.
Isso não significa que nos resta apenas a opção religiosa como solução da origem cósmica. Significa que precisamos criar um novo modo de explicação científica para lidar com ela.
Para dar conta da origem do Universo, os modelos que temos hoje combinam os dois pilares da física do século 20, a teoria da relatividade geral de Einstein, que explica a gravidade como produto da curvatura do espaço, e a mecânica quântica, que descreve o comportamento dos átomos. A combinação é inevitável, dado que, nos seus primórdios, o Universo inteiro era pequeno o bastante para ser dominado por efeitos quânticos. Modelos da origem cósmica usam a bizarrice dos efeitos quânticos para explicar o que parece ser inexplicável.
Por exemplo, da mesma forma que um núcleo radioativo decai espontaneamente, o Cosmo por inteiro pode ter surgido duma flutuação aleatória de energia, uma bolha de espaço que emergiu do "nada", que chamamos de vácuo. O interessante é que essa bolha seria uma flutuação de energia zero, devido a uma compensação entre a energia positiva da matéria e a negativa da gravidade. Por isso que muitos físicos, como Stephen Hawking e Lawrence Krauss, falam que o Universo veio do "nada". E declaram que a questão está resolvida. O que é um absurdo. O nada da física é uma entidade bem complexa.
Esse é apenas um modelo, que pressupõe uma série de conceitos e extrapolações para fazer sentido: espaço, tempo, energia, leis naturais. Como tal, está longe de ser uma solução para a questão da origem de tudo. Não me parece que a ciência, tal como é formulada hoje, pode resolver de vez a questão da origem cósmica. Para tal, precisaria descrever suas próprias origens, abranger uma teoria das teorias. O infinito e seu oposto, o nada, são conceitos essenciais; mas é muito fácil nos perdermos nos seus labirintos metafísicos.
marcelo gleiser
Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de "Criação Imperfeita". Escreve aos domingos na versão impressa de "Ciência".

O controvertido colosso do Xingu - Marcelo Leite et al.

folha de são paulo

O controvertido colosso do Xingu


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MARCELO LEITE
DIMMI AMORA
MORRIS KACHANI
LALO DE ALMEIDA
RODRIGO MACHADO
ilustração NUNO RAMOS

RESUMO Este é o primeiro capítulo de "A Batalha de Belo Monte", que inaugura a série digital Tudo Sobre, no site daFolha (leia em folha.com/belomonte). Além desta descrição da obra, outras quatro partes, disponíveis on-line, abordam os impactos na Volta Grande do Xingu, o caos em Altamira, a situação dos índios e as décadas de polêmica em torno da hidrelétrica.
*
A explosão às 6h da manhã arranca uma camada de 9 m de espessura do bloco de migmatito numa área de 750 m² que já foi a morada de árvores centenárias na zona rural de Altamira e Vitória do Xingu (PA). Assentada a poeira, resta uma montanha de fragmentos dessa rocha dura, aparentada com o granito. À meia-noite, nem um pedregulho estará mais ali.
Duas escavadeiras se posicionam lado a lado, a 50 m uma da outra. Cinco levantamentos de cada uma e, em menos de três minutos, enche-se uma carreta com 32 toneladas de pedras. Sai um caminhão, encosta outro. Em 20 minutos, partem 18 caçambas cheias. Não há um segundo de descanso.
O ritmo frenético de homens e máquinas marca a construção de um canal de 20 km de comprimento, para dar passagem aos 14 milhões de litros de água por segundo desviados do rio Xingu -vazão quase 140 vezes maior que a do canal de transposição do São Francisco- que vão movimentar as turbinas da terceira maior hidrelétrica do mundo, e também uma das mais controversas: Belo Monte, da empresa Norte Energia S.A.
Quando estiver funcionando a toda força, a usina poderá produzir até 11.233 megawatts (MW) de eletricidade. Uma capacidade instalada suficiente para iluminar as casas de pelo menos 18 milhões de pessoas e ficar atrás só da hidrelétrica chinesa Três Gargantas (22.720 MW) e da paraguaio-brasileira Itaipu (14 mil MW).
Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia, o Brasil precisa acrescentar 6.350 MW anuais de geração elétrica, até 2022, ao seu parque atual de 121 mil MW (70% produzidos por hidrelétricas). Se pudesse produzir a toda carga o ano inteiro, Belo Monte garantiria quase um quinto da eletricidade adicional de que o país vai precisar -mas isso só tem chance de ocorrer em quatro meses do ano.
A maior parte da capacidade de geração (11 mil MW) da nova usina ficará instalada na casa de força principal, junto da antiga vila de Belo Monte do Pontal, cuja obra já avançou 47%.
A barragem propriamente dita, contudo, ficará 60 km rio acima, do outro lado da Volta Grande do Xingu, no sítio Pimental, pouco depois do ponto em que o canal captará água para encher os
130 km² do reservatório intermediário. Junto ao vertedouro da barragem de Pimental, seis turbinas poderão produzir até 233 MW na casa de força auxiliar.
O pico de 11.233 MW só poderá ser alcançado entre fevereiro e maio, quando o Xingu atinge suas vazões máximas. Nos outros meses, as turbinas serão progressivamente desligadas.
Entre altos e baixos, espera-se que Belo Monte garanta uma média de 4.571 MW, ou apenas 41% de sua capacidade instalada.
"Para começar a gerar, isso tudo tem de estar concluído", diz a engenheira civil Roberta Martinelli Pimentel Pereira, 35, apontando para o canal onde poderiam acomodar-se facilmente 60 caminhões lado a lado.
Belo Monte precisa começar a produzir energia em fevereiro de 2015, com o funcionamento da primeira turbina da casa de força auxiliar, mas isso vai atrasar uns três meses. Depois, de março de 2016 até janeiro de 2019, entram em linha as 18 turbinas da casa de força principal. Nesse caso, nada pode atrasar.
Adriano Vizoni/Folhapress
Reprodução de obra do artista plástico Nuno Ramos
Reprodução de obra do artista plástico Nuno Ramos
Na realidade, a Norte Energia trabalha com a hipótese de antecipar a montagem das turbinas principais, a partir da quarta ou quinta máquina, de modo a que todas estejam em operação antes do prazo contratual -o que trará ganhos consideráveis para o empreendedor.
No presente, o maior desafio de Roberta Pereira é domar as águas dos igarapés que cortam o curso do grande canal e completar, ainda em dezembro, a ensecadeira -espécie de barragem provisória, para manter a construção isolada do rio Xingu. A engenheira miúda comanda 7.000 empregados e tem 12 anos "no trecho", como se refere às grandes obras de infraestrutura por que passou. A ensecadeira já tem fundações prontas, e a maior parte do aterro já alcançou a cota de segurança contra cheias, 95 m.
Belo Monte fervilha 24 horas por dia, dois anos e meio após o início oficial de sua construção, em junho de 2011.
Com um custo estimado em R$ 30 bilhões, o prazo para começar a produzir energia é apertado: só 44 meses. Em Itaipu foram 120 meses; a previsão para a hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira (RO), era de 52 meses, mas a usina começou a gerar energia nove meses antes disso.
CLÍMAX
As obras de Belo Monte atingiram o clímax em outubro, com 25 mil trabalhadores (87% deles homens). Três quartos dos mais de 5.600 municípios brasileiros têm população menor que esse exército de operários.
De cidades bem menores que os canteiros da usina vieram João, José, Antônio, Pedro e Joaquim (que pedem para não ter seus verdadeiros nomes revelados).
Sentados domingo à tarde na calçada da av. João Rodrigues, em Altamira, os cinco bebem vodca com soda. Chegaram há pouco mais de um mês e já pensam em ir embora. Belo Monte foi para eles uma decepção. "Nosso salário, em vista de outros Estados, tá aqui", diz João, com o dedo indicador perto do chão.
João não é barrageiro de primeira campanha. Em 2011, trabalhou na usina de Santo Antônio, no rio Madeira. Diz que lá sua renda mensal ficava entre R$ 1.700 e R$ 1.800. Em Belo Monte, o primeiro salário não passou de R$ 1.200.
O teto de dez horas extras semanais negociado entre o Consórcio Construtor de Belo Monte (CCBM) e o Sintrapav (Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Pesada do Pará) impede os operários confinados nos canteiros de trabalhar mais que 54 horas por semana -e, portanto, de aumentar o pagamento.
Mais de dois terços dos trabalhadores vêm de fora de Altamira. O isolamento da família é agravado pelo fato de nos canteiros só haver sinal da operadora Oi, que tem entre seus
controladores a Andrade Gutierrez, líder das empreiteiras do CCBM (que conta ainda com Odebrecht e Camargo Corrêa).
Quem tem celular de outras redes pena para falar com a mulher e os filhos. Os mais persistentes descobriram vestígios de sinal no morro da caixa d'água perto do alojamento de Pimental, onde podem ser vistos usando aparelhos amarrados em estacas fincadas no chão.
Segundo pesquisa Datafolha com 246 trabalhadores da obra entrevistados em Altamira, a maioria é de casados (51%), dos quais só 40% têm mulher ou marido vivendo na cidade. Dois entre três trabalham em Belo Monte há menos de um ano e pelo menos a metade não pretende ficar, só veio em busca do emprego (38% já trabalharam em outras barragens).
Os alojamentos têm dormitórios para no máximo quatro pessoas, com ar-condicionado, banheiro interno e água quente. Dezenas de quartos compõem os "condomínios", em cada um dos quais só se entra com o crachá magnético correspondente. No pátio interno entre os condomínios, os quartos são isolados por alambrados.
As opções de lazer são ver TV, ir à academia, jogar sinuca, dominó ou pebolim. Há espaço para cultos religiosos e aulas de informática. Um cinema com 200 lugares está para ser inaugurado.
De acordo com o Datafolha, 57% dos trabalhadores da usina moram nos alojamentos dos canteiros. A maioria aprova conforto (89% de ótimo e bom) e limpeza (84%) do local, assim como sua organização (71%) e as opções de lazer (70%). Só a qualidade da alimentação divide opiniões: 45% de ótimo/bom contra 45% de regular.
PRAZO
Greves de trabalhadores (como a que parou toda a obra no final de novembro, por melhor remuneração), protestos de índios, paralisações determinadas pela Justiça e problemas com licenças ambientais podem forçar a Norte Energia a atrasar o início da geração.
Pelo contrato assinado com a União, a multa por descumprimento do prazo pode chegar a 2% do faturamento anual.
A Norte Energia ainda teria de comprar de outras empresas a energia que não entregar, ao custo diário de até R$ 1 milhão por turbina não acionada, dependendo do preço da energia na época. Esse prejuízo acabaria assumido pelos contribuintes, pois, apesar de planejado como empreendimento privado, Belo Monte no fundo é estatal -não é à toa que a Força Nacional de
Segurança participa da vigilância na obra.
Em 2010, quando a Norte Energia venceu o leilão para construir Belo Monte, o grupo era pouco mais que um aglomerado de empresas médias de construção civil e energia (Bertin, Queiroz Galvão, J. Malucelli, Cetenco, Galvão Engenharia, Mendes Júnior e Serveng) com estatais lideradas pela Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco).
Desde então, sua composição evoluiu para uma associação entre as estatais e fundos de pensão, que contratou para tocar a obra civil boa parte das empreiteiras perdedoras do leilão, agora reunidas no CCBM.
Antonio Kelson Elias Filho, 55, é o diretor de obras da Norte Energia. Com seu sotaque mineiro, modos diretos e voz poderosa, Kelson é o próprio comandante-em-chefe da megaconstrução. Distribui ordens o tempo todo, pessoalmente e por telefone.
Ao recordar sua reação após a vitória no leilão sobre um consórcio dado como favorito, Kelson deixa claro qual era o estado de espírito da tropa improvisada ao assumir o domínio sobre Belo Monte: "O Piauí ganhou a guerra com os Estados Unidos. Agora tem de ocupar".
Tudo em Belo Monte é colossal. O canal de 20 km sob o comando da engenheira Roberta Pereira tem no mínimo 200 m de largura no fundo e pode ultrapassar 300 m na borda superior dos taludes. A água alcançará uma profundidade de 22 m, o equivalente a um prédio de sete andares.
A barragem em Pimental terá 8 km. O coração da usina, em Belo Monte, vai abrigar 18 turbinas de 5 m de altura e 8,5 m de diâmetro em nichos escavados na rocha viva, com altura equivalente a 45 andares.
O gerador movimentado pela turbina tem 22 m de diâmetro e precisa ser levado aos pedaços até a região, pela impossibilidade de transportá-lo numa peça só.
Sete dessas unidades geradoras começaram a ser montadas neste mês na fábrica da Alstom em Taubaté (SP), a mais de 2.300 km de Altamira.
A finalização da roda da turbina exige soldar três tipos de peças: o cubo (roda menor), fundido na Coreia do Sul; a cinta (roda maior), produzida na China; e as pás fabricadas em Piracicaba pela empresa brasileira Dedini.
Ao contrário do gerador, a roda segue inteira -320 toneladas de aço inoxidável- para o Pará. Cada viagem deve tomar de três a quatro meses, de carreta até Santos, depois de navio até Belém e, por fim, de balsa até o porto construído em Belo Monte.
Só o contrato da Alstom, firma de origem francesa envolta em escândalos que lidera o consórcio para fabricar 14 das 18 unidades geradoras, vale R$ 1,3 bilhão.
Ela entregará a primeira turbina para geração no início de 2016, na casa de força principal do sítio Belo Monte. Os outros quatro conjuntos de turbina e gerador estão sendo fabricados em Suape (PE) pela Impsa, multinacional argentina contratada separadamente pela Norte Energia.
LOGÍSTICA A logística da construção não tem sido fácil. A rodovia Transamazônica, aberta na década de 1970, ainda tem trechos não asfaltados nos 906 km que separam Altamira da capital do Estado, Belém, os quais se tornam intransitáveis no período de chuvas, de dezembro a junho.
A construção de 270 km de acessos da Transamazônica até os canteiros permitiu aumentar o ritmo das obras. Em 2011, quando ela começou, um caminhão levava quatro ou cinco horas para ir da rodovia ao sítio Pimental. Agora, leva 40 minutos.
Em julho de 2011, protestos fecharam a Transamazônica. Para alimentar os empregados, foi necessário fretar dois aviões, ao custo total de R$ 80 mil, que foram buscar em Belém toneladas de arroz e outros víveres. Quando a carga chegou, havia comida só para três dias de alimentação.
A rubrica transporte representa em torno de 8% do custo total do projeto Belo Monte. "Se tivéssemos a Transamazônica asfaltada, teríamos uma economia de R$ 200 milhões, dos R$ 800 milhões já gastos com transporte", calcula Marcos Sordi, diretor administrativo do CCBM.
Na avaliação do consórcio, ao final deste ano cerca de metade de toda a obra civil de Belo Monte estará realizada. Na barragem do rio Xingu, a parte que precisa ficar pronta em 2014 para acionar as turbinas na casa de força auxiliar de Pimental, as obras devem chegar a 47%. Os engenheiros afirmam que tudo está dentro do cronograma.
PEDRA
O migmatito é um dos grandes segredos de Belo Monte. A abundância e a dureza da rocha permitiram aos engenheiros, após dez meses de testes, alterar o projeto original: em lugar de revestir o leito do canal com concreto, optaram por cobri-lo com pedra britada -pedregulhos de até 20 cm. Isso vai economizar 1 milhão
de m³ de concreto e R$ 200 milhões no custo da obra, além de encurtar de 27 para 16 meses o tempo de construção do canal.
As pedras, porém, formam uma superfície mais rugosa que o concreto, o que faz com que a água avance do rio para o reservatório com velocidade menor, pelo atrito. E a velocidade da água é fundamental na geração da energia, para garantir que o volume adequado seja abocanhado pelas turbinas.
O princípio do funcionamento de uma hidrelétrica é que um grande volume de água desça o mais rapidamente possível do ponto mais alto para o mais baixo, a fim de girar turbinas que vão acionar os geradores.
A energia é produzida pelo movimento circular de um rotor com enrolamento de cobre no interior de outro circuito imóvel do mesmo metal (o estator) -exatamente o inverso do processo de um motor elétrico, que consome eletricidade para produzir movimento, enquanto o gerador converte a energia mecânica em elétrica.
Para compensar a perda de velocidade da água no canal revestido com pedras, foi necessário "alargar o cano", ou seja, aumentar sua seção (em 35%). São mais árvores para retirar, migmatito para explodir, escavadeiras para levantar e caminhões para transportar.
Kelson afirma que foi tudo calculado para o balanço entre receita e despesa ser positivo. "Não brinca. Se chegar à conclusão de que é negativo, melhor não mudar", diz o diretor de obras.
A Norte Energia não tem margem para errar nas contas. Mesmo com 35 anos de estudos sobre o empreendimento, o TCU (Tribunal de Contas da União) apontou, antes da licitação de 2010, que o projeto de Belo Monte implicava "elevado nível de incerteza, incompatível com o porte da obra".
O orçamento do projeto estimado pelo governo foi considerado por empresas interessadas insuficiente para construir a usina, pagar suas despesas e gerar um retorno por volta de 6% ao ano sobre o capital investido.
Quem disputa a concessão de uma hidrelétrica tem como principal fonte de receita a venda de energia para o sistema interligado nacional. No caso de Belo Monte, o governo estimou em 2008 que uma tarifa de R$ 83 por MWh (megawatt-hora) seria suficiente para cobrir todos os custos e dar lucro. Venceria quem oferecesse a menor tarifa.
Quando há disputa, a empresa precisa oferecer um desconto sobre essa tarifa -desde que as simulações indiquem que ela pode ganhar mais com a comercialização de energia, ter um lucro menor ou fazer uma obra a custo mais baixo que o previsto.
Por outro lado, se a obra sair mais cara que o orçado pela vencedora do leilão, ou se a usina não gerar energia na quantidade e no prazo previstos, é ela quem arca com o prejuízo.
"O que vale para o consumidor é o preço final. O que consideramos nas nossas hipóteses é irrelevante", diz Maurício Tolmasquim, presidente da EPE (Empresa de Planejamento Energético), estatal responsável por definir os parâmetros dos editais da licitação.
SUSPEITA
Em abril de 2010, a Norte Energia venceu a concorrência pela concessão de Belo Monte oferecendo um valor 6% menor (R$ 78) que o preço de referência. O custo da obra estimado pela Norte Energia, contudo, era 30% superior ao máximo previsto pelo governo.
Para o mercado, não parecia possível recuperar o investimento com a tarifa oferecida. Uma decisão da
Eletrobras tomada meses depois do leilão reforçou essa suspeita.
A Eletrobras, holding estatal que controla a Chesf, firmou um contrato com a Norte Energia para comprar, por R$ 130 o MWh, a energia excedente que Belo Monte puder vender no mercado.
Esse preço da eletricidade extra, vendida no mercado livre, varia diariamente e, na média dos últimos dez anos, ficou em R$ 79. Portanto, a estatal-mãe deu uma bela ajuda à filha, que a usou para convencer o BNDES a liberar um empréstimo subsidiado de R$ 22,5 bilhões.
"A isso se dá o nome de energia limpa e barata", ironiza Célio Bermann, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP. Para o especialista, Belo Monte está acima da média mundial de US$ 1.000 por MW instalado e vai ocasionar despesas para o contribuinte com os subsídios implícitos no financiamento e na comercialização da energia.
A Norte Energia depende ainda do Ibama para saber, de fato, quanto Belo Monte vai produzir de eletricidade.
Por contrato, ela precisa gerar 4.571 MW em média, ao longo de cada ano (meros 41% de sua capacidade instalada), sendo que 70% dessa energia garantida vai para o sistema integrado.
Como o reservatório que alimentará a casa de força principal é relativamente pequeno, a água que for reservada no período de cheia não bastará para gerar nem 10% da capacidade quando chegar o auge da seca.
Uma das condições do Ibama para dar a licença de operação da usina é que o rio Xingu precisa de uma vazão mínima nas cheias para manter em boa saúde os ecossistemas na Volta Grande, abaixo da barragem de Pimental.
Belo Monte tem, no entanto, um atributo que pesou na decisão de seguir em frente com a sua construção: poderá gerar energia em abundância nos períodos do ano em que as usinas hidrelétricas do Sudeste e do Centro-Oeste, principais regiões produtoras, operam com restrições para não esgotar seus reservatórios.
Em 2012, foi necessário gerar 14,3 mil MW em média, ao mês, acionando usinas térmicas, o que custou ao país R$ 12 bilhões a mais que a geração hidrelétrica.
Para os altamirenses, a eletricidade de Belo Monte ainda é uma ficção. Por ora, a usina só lhes trouxe seguidas interrupções de energia. A rede elétrica de distribuição, com seus fios e transformadores das décadas de 1970 e 1980, não suporta o aumento do consumo.
No verão amazônico, quando as temperaturas quase não baixam dos 35°C, os clientes em busca de sistemas de ar-condicionado não podem ser atendidos na Climatech, porque os aparelhos da loja não funcionam, e o local se transforma numa estufa.
"Estamos fazendo a maior usina do Brasil e não temos energia", lamenta Evaldo André, 33, dono da empresa, que deve a própria prosperidade de seu empreendimento a Belo Monte: em dois anos a firma passou de 5 para 25 funcionários.
MARCELO LEITE, 56, repórter especial da Folha, é autor de livros como "Promessas do Genoma" (ed. Unesp). Coordenou o projeto Tudo Sobre / Belo Monte.
DIMMI AMORA, 39, é repórter da Folha.
MORRIS KACHANI, 44, é repórter especial da Folha.
LALO DE ALMEIDA, 43, é repórter-fotográfico.
RODRIGO MACHADO, 33, é repórter do "TV Folha".
NUNO RAMOS, 53, é artista plástico e escritor, autor de livros como "Ó" e "Junco" (ambos pela Iluminuras). Inaugura a exposição "Anjo e Boneco" no MON de Curitiba nesta terça
(dia 17).
Reportagem consumiu dez meses
MARCELO LEITEA primeira visita à obra de Belo Monte aconteceu debaixo d'água. Chovia como só chove na Amazônia, em março, e foi preciso amassar muito barro para fazer o reconhecimento do terreno nos três canteiros de construção, separados por dezenas de quilômetros.
Ficou evidente que um só repórter, em poucos dias, não daria conta de abarcar todos os aspectos do empreendimento controverso, que enfrenta resistências desde os anos 1980. Planejou-se enviar quatro ou cinco jornalistas à área, em agosto (estação seca), por duas semanas. Uma decisão acertada. Com o Xingu mais baixo, a transparência de suas águas revelou toda a majestade do rio que margeia duas dezenas de terras indígenas em seus cerca de 2.700 km.
Em paralelo, aprofundavam-se as pesquisas para produzir os infográficos sobre a intrincada engenharia da usina.
Na Volta Grande, agora ameaçada pela barragem, o Xingu se espraia por uma enormidade de canais límpidos. Ali vicejam os acaris, família de peixes ornamentais que está na base da sobrevivência de muitos índios e ribeirinhos.
O contraste com Altamira, rio acima, é chocante. A cidade viu sua população aumentar pelo menos 40% em dois anos. "Caos" é a palavra que mais se ouve --no trânsito, na violência, nas obras de saneamento que rasgam as ruas da noite para o dia.
Isso para não falar do despreparo do poder público em mitigar os previsíveis impactos sociais do empreendimento.
O resultado de quase dez meses de trabalho, no qual se envolveram de uma maneira ou de outra 15 jornalistas, aparece hoje na série Tudo Sobre, do site da Folha. Uma extensa reportagem acompanhada de gráficos dinâmicos, vídeos e fotos para mostrar todas as facetas da maior obra em curso no país.

    Dor e delícia de ser carioca - Alvaro Costa e Silva

    folha de são paulo

    DIÁRIO DO RIO
    O MAPA DA CULTURA
    Dor e delícia de ser carioca
    Turistas entre o jiló frito e o trânsito infernal
    ALVARO COSTA E SILVA
    Está aberta a temporada de caça aos turistas. Uma recente pesquisa --com todo o jeito de otimista demais-- estima que, entre dezembro e março, mais de 3 milhões de pessoas visitem o Rio, sobretudo para o Réveillon e o Carnaval dos blocos de rua e do desfile das escolas de samba na avenida Marquês de Sapucaí.
    Já estamos acostumados à faceta babélica da cidade, que chega com o verão e deverá assumir proporções de invasão bárbara na Copa, no ano que vem, e nas Olimpíadas, em 2016.
    O senso comum identifica o turista como aquele sujeito cheio de grana, chapéu, máquina fotográfica pendurada no pescoço, camisa florida, tênis e meias puxadas até as canelas, mapas e guias na mão, a pele avermelhada de sol. Um perdido nos trópicos. Se ainda o vemos dessa maneira, como eles nos veem?
    Carioca de família gaúcha, o jornalista Pedro Só tuitou outro dia: "O carioca é mau motorista, ciclista irresponsável e pedestre desatento. O bicho não sabe nem andar na rua com guarda-chuva". Ao que podemos acrescentar: mesmo sob a tempestade, veste bermudas e chinelos.
    Um livro que acaba de sair --"Viajantes Estrangeiros no Rio de Janeiro Joanino" [José Olympio, R$ 27, 166 págs.], organizado pelo historiador Jean Marcel Carvalho França-- nos remete ao passado para entender o presente.
    O comerciante inglês Henry Sidney descreve a cidade, em 1809, como suja. A rigor, é um retrato de hoje, apesar da propaganda oficial e da lei da prefeitura que multa quem bate cinzas de cigarro no chão.
    O cirurgião irlandês James Prior, num passeio pela rua Direita (atual Primeiro de Março) em 1812, nota o estado de abandono das residências. De novo, o presente se parece ao passado: ao se propor uma nova cidade tipo Dubai na zona portuária, não se realiza uma contrapartida capaz de preservar o casario do centro histórico, que sofre com desabamentos e incêndios suspeitos.
    Ah, sim, todos os viajantes, sem exceção --sejam os do século 19 ou 21-- ficam de queixo caído com nossas belezas naturais. Para bem ou para mal, o Rio de Janeiro continua sendo. Aos 450 anos.
    BAILES E LOUVAÇÕES
    A data será em 2015. Mas já existe um comitê, o Rio-450 --cuja página oficial é www.rio450anos.com.br--, para coordenar o calendário oficial das comemorações. Você pode mandar sugestões. O objetivo é que os festejos sejam tão marcantes quanto os do quarto centenário, em 1965.
    Naquela ocasião, dois sambas-enredo com louvações à cidade tornaram-se clássicos: pelo Império Serrano, "Cinco Bailes da História do Rio", de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e o misterioso Bacalhau; pela Portela, "Histórias e Tradições do Rio Quatrocentão", de Candeia e Waldir 59. Surgindo daqui a dois anos alguma coisa parecida, este diário dar-se-ia por satisfeito.
    O MOCOTÓ DAS YABÁS
    Um programa que os turistas vão adorar e que não é armadilha: a cada segundo domingo do mês, a partir das 13h, as tias de Oswaldo Cruz, não por acaso cozinheiras de mão cheia, se reúnem em 16 barracas na praça Paulo da Portela para preparar e vender jiló frito, tripa lombeira, caldo de mocotó, galinha com quiabo, rabada com batata e angu (esta é preparada por dona Neném, a mais velha das tias, com 87 anos).
    Tudo baratinho: os pratos custam R$ 10, em média. É a Feira das Yabás (termo que define os orixás femininos).
    No comando da roda de batuque, o portelense Marquinhos de Oswaldo Cruz, também responsável pela recriação do Trem do Samba.
    DEVAGAR, DEVAGARINHO
    "O Rio civiliza-se." Assim o jornalista Figueiredo Pimentel, da "Gazeta de Notícias", definiu, em 1904, a onda de transformações pelas quais passava a cidade, o "bota-abaixo" do prefeito Pereira Passos, que abriu, por exemplo, a avenida Central (hoje Rio Branco).
    Igualmente num momento de intervenções urbanas --representado não só pela demolição da Perimetral como também pela remoção de famílias de suas casas--, hoje nos orgulhamos de ter o terceiro pior trânsito do mundo, atrás de Moscou e Istambul.
    São Paulo, quem diria, aparece na sétima posição, segundo um estudo da empresa holandesa de tecnologia de transporte TomTom.
    Um novo slogan já está pronto: "O Rio paralisa-se".

    Tatuagem 3D ajuda a reconstruir mamas de mulheres que tiveram câncer

    folha de são paulo

    Tatuagem 3D ajuda a reconstruir mamas de mulheres que tiveram câncer


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    CLÁUDIA COLLUCCI
    DE SÃO PAULO

    Mulheres cujas mamas foram reconstruídas após o câncer têm agora uma nova aliada no resgate da autoestima: a tatuagem tridimensional da aréola e do mamilo que, de tão real, chega a enganar os mais desavisados.
    A técnica consiste em fazer um retrato da aréola, com uma mistura de cores para que o desenho fique de acordo com o tom da pele.
    Um jogo de luz e sombra cria a ilusão da existência dos mamilos e dos tubérculos de Montgomery (pequenos carocinhos ao redor da aréola).

    Tatuagem nos seios

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    Aréolas e mamilos são desenhados e pintados; tatuador usou sombras para criar visão 3D
    "É emocionante poder ajudar essas mulheres a recuperar a feminilidade e a vaidade. No final, quando se olham no espelho, algumas choram. Eu já chorei junto", conta o tatuador e pintor Sérgio Maciel, o Led's, que faz, em média, duas tatuagens de aréolas e mamilos por semana.
    A Folha acompanhou na última quarta a tatuagem da psicóloga Catarina Braga Silva, 59, que retirou as mamas em 1994. Depois de sofrer problemas com os implantes, ela passou por uma reconstrução dos seios em 2001.
    Em 2009, o câncer voltou e Catarina precisou retirar uma parte da mama. Agora, decidiu finalizar o processo com a tatuagem da aréola.
    Primeiro, Led's mediu a proporção dos seios e desenhou o contorno da aréola. Depois, preencheu o desenho com uma mistura de pigmentos que resultou num tom rosado. A aréola da outra mama também foi retocada.
    "Cada pessoa tem um tom de aréola, que pode puxar para o rosado, para o café com leite ou o marrom mais claro. A arte está em acertar o tom adequado, misturando cores", explica Led's, 30 anos de experiência no ramo.
    Após duas horas, a aréola está pronta. Catarina se vê no espelho e sorri com os olhos marejados. "Ficou lindo."
    A mesma cena se repete em outros estúdios de São Paulo, que têm visto aumentar a clientela de mulheres que buscam nesse tipo de tatuagem uma solução para corrigir a mutilação do câncer.
    "No início, você só se preocupa em ficar curada, nem liga se está sem o bico do seio ou sem aréola. Mas tê-los de volta significa encerrar um ciclo de sofrimento", diz a professora Márcia, 48, que fez a tatuagem 3D há um mês.
    A fisioterapeuta Tarsila Sakamoto, que se especializou em tatuar aréolas, conta que muitas mulheres com as mamas reconstruídas só voltam a mostrar os seios para os maridos ou namorados após a tatuagem. "Algumas passam anos só tendo relação sexual de sutiã ou camiseta."
    Segundo o tatuador Paulo Sérgio Affonso, o Paulão Tattoo, a tatuagem reparadora evoluiu muito nos últimos anos, com uma grande variedade de pigmentos e agulhas. Mas, para ele, o que conta é a experiência do tatuador.
    "Quando você aplica a tinta é uma cor, quando cicatriza é outra. A gente consegue visualizar como vai ficar daqui a um ano." O efeito 3D funciona como uma ilustração. "É como ver uma pintura que parece uma foto."
    ÚLTIMA ETAPA
    Muitas mulheres chegam aos estúdios encaminhadas pelos próprios cirurgiões. O preço da tatuagem depende da complexidade do trabalho.
    Pode variar entre R$ 200 e R$ 1.000. A durabilidade chega a dez anos ou mais.
    Refazer a aréola e o mamilo é a última etapa na longa trajetória das mulheres que enfrentam o câncer de mama. "É a cereja do bolo", define o cirurgião plástico Gustavo Duarte, da equipe do Hospital Sírio-Libanês.
    Após a reconstrução das mamas, normalmente feita a partir de músculos e gordura do abdome, os novos peitos ficam sem aréola e mamilo.
    "Espera-se em média um ano até o fim do tratamento contra o câncer, que pode envolver químio, radioterapia e eventual cirurgia plástica para corrigir a simetria das mamas enxertadas", diz Duarte.
    Ao fim desse processo, a mulher pode optar por reconstruir o mamilo (com a própria pele do peito) e colori-lo juntamente com a aréola ou só tatuá-lo em 3D. "Há mulheres que preferem não reconstruir o mamilo. As mais jovens acham que ele marca as roupas, as mais idosas querem evitar mais cirurgia."

    Minha história Alicia Castillha: Contra a maconha estatal - Lucas Ferraz

    folha de são paulo
    MINHA HISTÓRIA ALICIA CASTILLA
    Contra a maconha estatal
    Presa por plantar droga no Uruguai, ativista diz que lei do país para legalizar substância, aprovada pelo Senado, é "fascismo progressista" e fere liberdades civis ao exigir cadastro dos usuários
    LUCAS FERRAZDE SÃO PAULOAs pessoas pensam que sou símbolo da causa e acham que eu deveria apoiar a lei, mas como posso apoiar algo que vai contra tudo o que penso? Não vou me registrar para fumar maconha.
    Fumo maconha há uns 50 anos. Nos 30 anos que vivi no Brasil, subi muito ao morro para comprar. Fui presa em janeiro de 2011, pouco depois de me mudar para o Uruguai, por ter 29 plantas no quintal da minha casa. Fui denunciada e acabei passando 95 dias detida pela acusação de produzir matéria-prima para fabricar substância ilícita.
    Mas continuarei na ilegalidade, como antes, correndo os mesmos riscos, plantando a minha maconha em casa. Não quero ficar atrelada à maconha: sou uma militante das liberdades individuais.
    Estou muito chateada com a aprovação dessa lei. A questão diz respeito aos limites do Estado na vida privada do indivíduo. Quem é o Estado para dizer a qualidade e a quantidade da maconha que devo fumar? Não é o seu papel. Ele deveria atender as funções ainda abandonadas, como educação, saúde e justiça.
    'IDEIAS DELIRANTES'
    A lei é no mínimo fascista. Lembra o nazismo, que registrava os judeus. Não é algo muito diferente registrar quem fuma maconha. Imagine se tivéssemos que registrar também o usuário de álcool ou quem é dependente de remédios? É uma espécie de fascismo progressista.
    O argumento de que a regulação da maconha vai combater o narcotráfico também é mentiroso. A maconha que fumamos não é lucrativa para o narcotráfico, que lucra mesmo com o crack e a cocaína. São essas drogas que tornam o tráfico poderoso.
    Após a minha prisão, o país discutiu dois projetos: um da oposição, que liberava o usuário para plantar a quantidade que quisesse, e outro apresentado pela Frente Ampla, coalizão do governo, que limitava a oito plantas por casa. Essas propostas eram mais razoáveis, e o Estado não teria papel tão intrusivo.
    Mas esses projetos foram atropelados, e de repente sai o presidente anunciando esse projeto. A lei não tem o objetivo de despenalizar o uso da maconha.
    O governo fez muita coisa sem sentido, que mostra arrogância e como eles não entendem nada sobre o tema.
    Eles apresentaram ideias delirantes, como a proposta de controlar a maconha produzida pelo Estado colocando um chip nos baseados para evitar que eles saíssem do Uruguai.
    Pela lei, será permitido plantar 480 gramas por ano, 40 gramas por mês. Mas, quando colhida, a planta perde umidade e o peso praticamente se reduz à metade. Como esse controle será feito? Antes ou depois da colheita? É algo absurdo e impossível de levar adiante.
    A lei parece irreversível, mas há um grupo da oposição que afirma que vai contestar a legislação na Suprema Corte. Minha esperança é que ela seja considerada inconstitucional.
    A regulamentação da maconha não foi proposta para atender às demandas dos usuários. A lei atende a interesses poderosos que não consigo identificar quais são. Estão tentando transformar a maconha em uma commodity. Muitos maconheiros são contrários a esse modelo.

      Eliane Cantanhêde entrevista a nova embaixadora dos EUA, Liliana Ayalde

      folha de são paulo
      Se Dilma decidir, Obama está aberto a visita aos EUA
      Em entrevista exclusiva, nova embaixadora no Brasil diz que relação entre os dois países tem 'problemas', mas segue forte
      ELIANE CANTANHÊDECOLUNISTA DA FOLHAHá três meses no Brasil, a embaixadora dos EUA, Liliana Ayalde, 57, disse que a visita oficial da presidente Dilma Rousseff a Washington está em aberto e a data depende dela, mas fez uma advertência: que seja o mais distante possível das eleições brasileiras de outubro, para o país "não se imiscuir em assuntos políticos domésticos."
      Em sua primeira entrevista exclusiva, falando em português, Ayalde foi cautelosa ao comentar a espionagem dos EUA, mas criticou o Itamaraty por ter destacado o segundo time para o almoço de despedida de seu antecessor, Thomas Shannon: "Pelo que li, acho que há maneiras melhores de comunicar as coisas positivas e negativas".
      Folha - O seu empenho depende do respaldo de Washington e das respostas do seu governo ao pedido brasileiro de desculpas no caso da espionagem. Isso não evoluiu?
      Liliana Ayalde - As conversas continuam, e há o compromisso do presidente [Barack] Obama de revisão profunda de tudo isso, mas não é fácil, porque participam muitas agências e vai ser direcionada não só para o Brasil, mas também para a própria audiência americana.
      Esse processo já dura uns dois meses, e o presidente ordenou que quer tudo concluído antes do final deste ano.
      Por que o governo pediu desculpas muito mais enfáticas à Alemanha que ao Brasil?
      Não tenho uma justificativa. Mas houve também uma conversa longa com a presidente Dilma, por 40 minutos. Só que foi uma coisa privada.
      Como Washington recebeu o discurso da presidente Dilma na ONU? Ela foi bem dura, não?
      Foi, sim... com preocupação, sem dúvida. Era um foro de temas globais e esse tema gerou declarações muito duras, mas vamos superar isso. É um processo e temos o compromisso de falar seriamente sobre isso assim que o presidente Obama decidir o rumo.
      A viagem da presidente só foi adiada ou está cancelada?
      Não, não está cancelada. Foi adiada e, se a presidente se reprogramar, sei que o presidente Obama está aberto. Mas, se não se decide, se fica esperando...
      A quem cabe a iniciativa?
      À presidente Dilma. O convite não fechou, está pendente. Mas também é preciso ver a questão de conveniência.
      A visita ao presidente da maior potência justamente em 2014, quando Dilma é candidata à reeleição, não pode interferir nas eleições aqui?
      Não há nenhuma data, mas, claro, se ficar muito perto [da eleição de outubro], nós vamos recomendar que essa data não é conveniente para os EUA, para o país não se imiscuir em assuntos políticos domésticos. Qualquer coisa que façamos na embaixada, como EUA, pode repercutir no processo eleitoral. Temos de avaliar com muita cautela. Até participação minha num evento --não vou a nenhum que possa ser interpretado como tomar posição.
      Como outros embaixadores [como o da Venezuela] já fizeram aqui, em reuniões do PT?
      Sim, por exemplo.
      É fora da regra diplomática?
      Sim, sim. Até por isso me reuni com o ex-presidente Lula agora e não depois; depois ele vai estar muito ativo.
      A questão da espionagem teve muito impacto em várias áreas: energia, defesa, comunicação, tecnologia da informação e o acordo de Previdência. Está tudo parado?
      Não, mas diálogos de alto nível foram afetados. Seria difícil trazer uma autoridade logo após o cancelamento da visita da presidente. Não havia clima. Mas os grupos de trabalho técnicos continuam.
      E os caças?
      Evidentemente, queremos vender, e eu disse para o ministro [Celso] Amorim [Defesa] que não há dúvida de que consideramos a proposta da Boeing a melhor de todas. Mas é importante trabalhar a relação e há muito mais o que conversar na área de defesa.
      Havia a expectativa real de que, se Dilma fosse aos EUA em outubro, ela anunciaria lá a opção pela Boeing?
      Sim, havia.
      O Global Entry [facilitação de entrada de empresários] voltou para a gaveta?
      Isso já tinha avançado bastante e não está parado, mas diminuiu o ritmo de trabalho.
      Então a sociedade paga o preço do estremecimento?
      Apesar de ter problemas, a relação é incrivelmente forte. O comércio e os investimentos crescem --e não só os americanos no Brasil, mas os brasileiros nos EUA também.
      Os vistos seguem crescendo?
      É inacreditável. Miami passou Buenos Aires como destino número um de brasileiros. Já temos mais de 1 milhão de vistos emitidos, 18% a mais do que no ano passado. São turistas, empresários, estudantes. Aliás, temos cerca de 20 mil estudantes do Ciências sem Fronteiras, e já há mais 9.000 sendo processados.
      Então, como fica o fim do visto obrigatório?
      É possível, mas não de um dia para o outro. É preciso um sistema de intercâmbio sobre os passageiros, o que leva tempo para atender aos nossos estatutos de segurança.
      O Brasil enterrou a Alca, investiu na Rodada Doha, não concluída, e descartou acordos bilaterais com os EUA. O país está perdendo o bonde?
      Desde que cheguei, escuto muito do setor privado, mais e mais, sobre a necessidade de um acordo bilateral que poderia beneficiar muito o país. A discussão é saudável.
      Invertendo o jogo, não preocupa os EUA estarem perdendo espaço para a França e até para a Rússia na área de defesa justamente no Brasil?
      Estamos convencidos de que temos a melhor tecnologia em certos nichos. Cada país tem sua soberania para decidir o que quer, mas o que é melhor é melhor.
      Os EUA estão preocupados com Venezuela e Argentina?
      A América Latina é muito dinâmica: em alguns momentos uns países vão muito bem, outros não. Observamos a situação na Venezuela, preocupados com os temas que você listou e com outros. Mas México, Colômbia e Peru vão muito bem, por exemplo.
      A sra. só citou os maiores aliados dos EUA. Só eles vão bem?
      Mas eles também têm outros aliados. Não havia muita expectativa de que [Ollanta] Humala [presidente do Peru] seria um amigo dos EUA, mas ele acabou sendo muito pragmático. A ideologia não deve impregnar as decisões. Você pode ser um país de esquerda, se relacionar com todos e ter uma economia aberta.
      O Departamento de Estado detecta um viés antiamericano no Brasil?
      Sempre vai ter, até dentro dos EUA tem. Mas o embaixador Shannon elevou a parceria a patamares nunca vistos historicamente, e isso foi um reconhecimento da importância das relações bilaterais.
      Como viu a deselegância do Itamaraty na despedida de Thomas Shannon?
      Sou colega e admiradora do embaixador, que está numa posição de muita confiança do secretário de Estado. Foi um reconhecimento do seu trabalho no Brasil, apesar do momento difícil.
      Faz parte da boa norma diplomática tratar um embaixador assim?
      Pelo que li, acho que há maneiras melhores de comunicar as coisas positivas e negativas.
        RAIO-X LILIANA AYALDE
        Local de nascimento
        Baltimore (EUA)
        Formação
        Relações internacionais, com mestrado em saúde pública
        Carreira
        Embaixadora no Paraguai (2008-2011); secretária-assistente adjunta para América Central, Caribe e Cuba na área de Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado (2012-2013)

        Antonio Prata

        folha de são paulo
        Abundância
        Eis uma verdade incômoda, amigos: é impossível ser feliz sem apoiar as costas numa poltrona confortável
        Senta-se muito mal por este mundo afora: em bancos de concreto, em tamboretes frios, de metal, em tábuas duras e sem encosto. Não entendo. Tenho cá para mim que uma poltrona ou uma cadeira confortáveis são como um prato bem preparado, um bom vinho, um dia de sol: um breve alívio em nossa incessante caminhada sob a inclemente gravidade. E, no entanto...
        Conheço um homem muito rico que tem uma ilha. É dessas histórias: começou servindo cafezinho na empresa, bancou os próprios estudos, foi subindo, subindo, subindo, chegou à presidência, comprou uma ilha. Semana passada, me levou para conhecê-la.
        À casa, no alto do morro, ele não dá muita bola: "Essa parte é da minha mulher", diz, seguindo apressado em direção ao quiosque, uns 50 metros atrás. Ali, à beira-mar, construiu um pantagruélico complexo gastronômico: churrasqueira, forno a lenha, geladeira industrial, máquina de chope com quatro torneiras, câmara fria e um forno de pizza grande o suficiente para assar dois carneiros inteiros --o que ele faz, algumas vezes por ano. O quiosque é sua Disneylândia, sua Shangri-La, o prêmio autoconcedido por tantos anos de abnegação. É onde pretende passar boa parte de seu tempo livre. Pois bem, no meio do quiosque há uma mesa de jacarandá e dois bancos compridos --sem encosto.
        Veja: o cara gasta milhões de reais na ilha, mais alguns milhares no quiosque. Manda trazer cordeiros da Patagônia, faz pessoalmente a marinada com 50 litros de vinho branco, 80 cabeças de alho, 200 ramos de alecrim. Importa chope de uma microcervejaria dinamarquesa, regula a temperatura em 4,6°C --e depois disso tudo, depois de 30 anos de esforço e 18 horas de lenta cocção, castiga o corpo cansado no tronco? Entrega o peso de seus ombros aos pobres músculos do abdome? Convenhamos: é impossível ser feliz sem apoiar as costas.
        O leitor pode achar que é um problema do meu amigo. Culpa, talvez, por tudo o que conquistou? Nada. Ano passado, enquanto cobria a Olimpíada para este jornal, visitei a Torre de Londres. Contemplei cetros de ouro maciço, coroas cravejadas de diamantes, tronos de reis e rainhas. Vocês já viram um trono? Ora, os líderes supremos do Império Britânico podiam apoiar seu poder no alto dos céus, mas os majestáticos glúteos apoiavam é em duríssimos assentos de madeira, com encosto reto, a 90 graus --isso, séculos após o glorioso advento da almofada. (Não é à toa que tenham deixado Índia, África e Ásia naquele estado.)
        Sei pouco sobre a vida: nunca li Proust, minha matemática parou na regra de três e dos afluentes do Amazonas só me ocorrem o Negro e o Solimões, mas encontrei a minha poltrona. Nela aboletado, com os pés esticados num pufe, uma almofada escorando a cabeça e um copo de água com gás na mesinha ao lado, posso ler "A Comédia Humana" num fôlego, ver "Breaking Bad" de ponta a ponta, assistir a minha filha crescer.
        Dizem por aí que a nossa missão na terra é escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Bobagem. O que importa é encontrar uma poltrona. Tá bom: um amor e uma poltrona. O resto, se tiver que vir, virá.