quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Elio Gaspari

Em 2014, 'vem pra rua você também'
Renan usou um jato da FAB para um implante de cabelos; o Brasil precisa de votos na mão e pés na rua
A repórter Andréia Sadi revelou que o presidente do Senado, doutor Renan Calheiros, preocupado com sua cabeça, requisitou um jato da FAB para voar de Brasília a Recife, onde fez um implante de 10 mil fios de cabelo. Quem nestas festas viajou com seu dinheiro deve perceber que esse tipo de coisa só acabará pela associação dos direitos de voto e de manifestação em torno de políticas públicas. Só com o voto isso não muda. Pelo voto, Renan começou sua carreira política em 1978, elegendo-se deputado estadual pelo MDB de Alagoas.
Renan Calheiros é um grão-mestre da costura política. Foi líder do governo de Fernando Collor de Mello e ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. Desde 2003 é um pilar da coligação petista no Congresso. Pertence a uma categoria imune à vontade popular. Ela pode ir para onde quiser, mas ele continuará no poder, à sua maneira. Como ministro da Justiça do tucanato, tendo seu nome exposto na Pasta Rosa dos amigos do falecido banco Econômico, defendeu o uso do Exército para reprimir saques de famintos durante a seca de 1998. Politico da Zona da Mata alagoana, estava careca de saber que tropa não é remédio para esse tipo de situação. Nessa época, dois de seus irmãos foram acusados de terem mandado chicotear um lavrador acusado de roubar um aparelho de TV numa fazenda. Um desses irmãos elegeu-se deputado federal. Entre 1998 e 2006 teve uma variação patrimonial de 4.260%, amealhando R$ 4 milhões.
Renan teve uma filha fora do matrimônio quando ganhava R$ 12.720. A mãe da criança era ajudada por uma empreiteira amiga que lhe dava uma mesada de R$ 16,5 mil. Por causa desse escândalo por pouco não foi cassado, mas renunciou à presidência do Senado. Reelegeu-se e voltou à cadeira que já foi de Rui Barbosa prometendo uma agenda ética, de "transparência absoluta". Contudo, como diz o senador Edison Lobão Filho, filho e suplente do senador Edison Lobão, ministro de Minas e Energia, "a ética é uma coisa muito subjetiva, muito abstrata". Nesse mundo de abstrações, Renan, vendo a despensa de sua casa concretamente desabastecida, mandou abrir um pregão de R$ 98 mil para a compra de salmão, queijos, filé-mignon, bacalhau e frutas. Apanhado, cancelou a compra.
Renan não é um ponto fora da curva. Ele é a própria curva. Em 2005, como presidente da Casa, deu sete cargos de R$ 10 mil a cada colega. Seu mordomo ganha R$ 18 mil. Em julho, quando ainda havia povo na rua, usou um jatinho da FAB para ir a um casamento em Trancoso. Apanhado, devolveu o dinheiro. Passados cinco meses fez o voo do implante.
Estabeleceu-se uma saudável relação de causa e efeito entre esse tipo de comensal da Viúva e a opinião pública. Eles não se corrigem, mas, uma vez denunciados, recuam. São muitos os maganos que não toleram saguão de aeroporto, despensa vazia e parente desempregado. Nessas práticas, é fácil colocá-los debaixo da luz do sol. Quando se trata de convênios, contratos de empreiteiras e grandes negócios, a conversa é outra.
Em 2014 a turma que paga as contas irá as urnas. Elas poderão ser um bom corretivo, mas a experiência deste ano que está acabando mostra que surgiu outra forma de expressão, mais direta: "Vem pra rua você também".

Mônica Bergamo

folha de são paulo

Com exclusividade, personalidades revelaram à coluna o que pensam sobre a imprensa

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Presidentes, magistrados, réus, atrizes, blogueira e até um empresário de comunicação revelaram o que pensam da imprensa ao falar, com exclusividade, para a coluna.

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Marlene Bergamo/Folhapress
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Dilma Rousseff, Presidente da República, em entrevista exclusiva, em 28 de julho"O que eu e Lula jamais aceitaremos é que se mexa na liberdade de expressão. Vou te dizer o seguinte: não sou a favor da regulação do conteúdo. Sou a favor da regulação do negócio"

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LINHAS TORTAS
"Os canais públicos, em uma revolução como a que estamos vivendo na Venezuela, têm que formar o povo, educar o povo, prepará-lo para essa revolução. Têm que sair defendendo a verdade frente a uma ditadura midiática que promoveu um golpe de Estado"
NICOLÁS MADURO, presidente da República Bolivariana da Venezuela, ainda candidato, na primeira entrevista exclusiva a um meio de comunicação estrangeiro depois da morte de Hugo Chávez, em 7 de abril

"O que eu e Lula jamais aceitaremos é que se mexa na liberdade de expressão. Vou te dizer o seguinte: não sou a favor da regulação do conteúdo. Sou a favor da regulação do negócio"
DILMA ROUSSEFF, Presidente da República, em entrevista exclusiva, em 28 de julho

"Certa vez me perguntaram por que o STF só cuidava de réus ricos. Não. O tribunal cuida de réus ricos e de pobres. Mas a imprensa só se interessa pelos ricos"
GILMAR MENDES, ministro do STF, ao falar à coluna sobre o sistema carcerário, em 8 de dezembro

"Estão plantando o ovo da serpente. E a primeira vítima será a própria imprensa, os jornalistas. Foi assim em 1937 [ditadura do Estado Novo], em 1964 [ditadura militar]. Os que apoiaram [os golpes] foram os primeiros a sofrer depois"
JOSÉ DIRCEU, quando recebeu a notícia de que seria preso, em 15 de novembro

"Eu honestamente, em 45 anos de atuação na área jurídica, nunca presenciei um comportamento tão ostensivo dos meios de comunicação sociais buscando, na verdade, pressionar e virtualmente subjugar a consciência de um juiz"
CELSO DE MELLO, ministro e decano do STF, na única entrevista exclusiva que deu sobre o caso do mensalão, em 26 de setembro

"Eu fiz jornalismo e me lembro dessa aula: vá à fonte, não pegue de uma outra fonte. Isso se perdeu. Todo mundo acredita no tal jornalista, só que ele inventa. E aí?"
FERNANDA LIMA, apresentadora29 de novembro

"A Globo é a principal emissora do Brasil. Ganha muito dinheiro. As outras vivem"
SILVIO SANTOS, apresentador e dono do SBT, em entrevista exclusiva, em 23 de junho

"Vamos tratar de tudo: cotidiano, tecnologia, economia. Eu e a equipe queremos lançá-lo até o fim do ano. Vamos ver se os santos da tecnologia e da informação nos permitem"
YOANI SÁNCHEZ, blogueira cubana, ao falar à coluna sobre o programa Mais Médicos e seus planos de fazer um jornal em Havana, em 3 de novembro

Francisco Daudt

folha de são paulo
A formação do Eu
Ao nascer, temos uma impressão embrionária de que não estamos sós; e um 'euzinho' passa a funcionar
O alemão é uma das línguas mais precisas que há, tanto que os políticos alemães têm um grande trabalho para tornar seus discursos vagos (mas conseguem).
Freud descreveu três softwares principais para o nosso funcionamento mental: "das ich"; "das es"; "das überich", alemão do dia a dia compreensível por qualquer um de lá. Em português, o equivalente seria o "Eu"; o "Algo em mim" e "O que está acima de mim".
Mas o primeiro tradutor de Freud para o inglês, Ernest Jones, era médico, e os doutores gostam de falar difícil: impressiona os pacientes e ninguém mais além deles entende. Foi assim que os termos em alemão corrente viraram latim (!): Ego, id e superego.
A partir daí as pessoas pensam que ego é vaidade, e que superego deve ser um parente do super-homem (ou uma super vaidade). E id ninguém sabe mesmo o que é.
O Eu é um programa mental que nos dá a ilusão de existirmos como uma entidade única e essencial. O que sabe o Homo sapiens? Que ele existe! Descartes chegou a uma única certeza: "Penso, logo existo". É um programa tão poderoso que inúmeras pessoas creem que ele é imortal ("meu corpo morrerá, mas eu continuarei existindo pela eternidade").
Deixando de lado a metafísica, que, como bem disse Fernando Pessoa, "é o resultado de se estar mal-disposto", o que me interessa é como o programa Eu se forma. No útero ele não tinha condições de rodar: nada nos perturbou desde o início que nos desse a perceber que algo havia para além de nossa existência, donde, nossa existência não era percebida por falta de contraste.
Mas, ao nascer, a perturbação começa, e com ela uma embrionária impressão de que não estamos sós. E se formos tratados como uma existência em separado, com necessidades, capacidades e características próprias, um "Euzinho" começa a funcionar. Ele vai se construir, construir sua identidade, por identificação. Ela começa pela imitação.
Você fala português hoje do seu jeito porque imitou a fala dos adultos ao seu redor (a melhor maneira de se aprender uma língua, não sei quem foi o idiota que resolveu nos ensinar línguas através da gramática). A imitação leva à incorporação do aprendido, a partir de um ponto você se torna autor, pois o imitado vai se misturando às suas características pessoais.
Mas o processo de identificação pode se dar por gosto, ou por imposição.
Por gosto, é quando se encaixa bem às nossas características únicas, ao desejo que vem de "algo em nós" (id, "das es") não consciente.
Por imposição, quando fomos submissos, fizemos o que nos mandaram, e nos "tornamos" o que nos disseram para ser. Ou, curiosíssimo, quando nos rebelamos e nos tornamos o exato oposto do que nos disseram para ser. Quer dizer que a rebeldia é um jeito de ser comandado, pelas avessas. Assim, filhos de caretas "obedecem" a seus pais e viram hippies. E vice-versa.
Há culturas que estimulam a formação do Eu indivíduo, características próprias, ideias próprias, buscam a democracia. Outras, não suportam a existência de "Eus", querem massa, submissos não pensantes, são as tiranias.

Natal renovado

folha de são paulo
Natal renovado
Em menos de um ano de pontificado, ações midiáticas de Francisco vão retirando da igreja o lastro inquisitorial legado por seu antecessor
É mais fácil falar em mudanças do que realizá-las. O mais nítido exemplo desse truísmo terá sido, nos últimos anos, o caso do presidente americano Barack Obama.
Conseguiu, por certo, implementar alguma coisa de suas propostas de campanha. Mas não há dúvida da distância que se verificou entre a ideia de um governante livre dos vícios e das pressões do establishment de Washington e a realidade de um chefe do Executivo exposto a todo tipo de reveses e pressões.
Aos que esperavam de Obama reformas radicais pode-se lembrar que não se muda o rumo de um transatlântico com a mesma agilidade com que se desloca uma lancha ou um jet ski; o tamanho e a complexidade do Estado americano são fatores capazes de inibir a manobra feérica, o salto voluntarista, a "audácia da esperança" mencionada na campanha eleitoral.
Há uma personalidade, entretanto, que pode servir, em certa medida, como contraexemplo. Em menos de um ano, o papa Francisco parece empreender, com leveza, uma guinada na lenta e vetusta barca de são Pedro.
Verdade que, diferentemente de qualquer governo democrático, no Vaticano a vontade de um só homem tem poder definitivo.
Seria ignorar a resistência das instituições, contudo, minimizar o quanto de determinação e desassombro terão sido necessários a Jorge Bergoglio para desconsiderar os presumíveis apelos à prudência e à compostura que uma chusma de conselheiros lhe sussurrou entre os labirintos de mármore e a escuridão das sacristias.
Tudo, pode-se dizer, é marketing, nisso que talvez merecesse, mais que qualquer ação de Obama, o rótulo de "audácia da esperança"; da fé e da caridade também.
Atitudes tomadas com um olho na repercussão midiática marcaram o atual pontificado. Pagando ele mesmo a conta do hotel, ou realizando visitas noturnas, supostamente incógnito, às imediações desvalidas do Vaticano, Francisco administra com energia sua imagem à frente de uma Igreja Católica presa a preconceitos incompatíveis com o mundo moderno.
Fez muito, no entanto, para retirar dessa armadura doutrinária o aspecto punitivo e obsessional (nas questões relativas ao sexo) que limitou o alcance e a pertinência das manifestações de seu antecessor, Joseph Ratzinger.
Pouco resta à igreja, atualmente, além do poder simbólico --ou da estratégia de relações públicas, em terminologia corporativa.
Se a mensagem do papa for, na medida do possível, a da tolerância e da caridade exercidas no cotidiano, e não somente numa data específica como a de hoje, o senso publicitário do papa Francisco traz em si a alegria e a abertura de coração que correspondem, mesmo entre os que não seguem a fé cristã, ao espírito do Natal.

    Helio Schwartsman

    folha de são paulo
    A vida que queremos viver
    SÃO PAULO - Muita gente discordou da coluna em que, comentando a obrigatoriedade de airbags e do cinto de segurança, afirmei que não cabe ao Estado impedir que cidadãos façam mal a si mesmos. Para parte dos que me escreveram, o poder público tem, sim, legitimidade para inibir condutas que imponham custos adicionais à sociedade. Um sujeito que, sem o cinto, sofra lesões mais graves num acidente vai onerar mais o sistema de saúde.
    O raciocínio é tentador, mas não o compro. O problema com esse argumento é que ele é poderoso demais. Praticamente todas as nossas escolhas têm impactos sobre os que nos cercam. Se como demais, fico obeso e tenho mais probabilidade de desenvolver doenças que onerarão os copartícipes de meu plano de saúde e o Estado, que, na eventualidade de morte precoce, terá de arcar com mais anos de pensão para a viúva.
    E as coisas podem ficar sutis. Estatísticas mostram que mulheres nulíparas apresentam risco aumentado para câncer de mama. Se aceitamos a tese do custo extra, por que parar no cinto? Por que não obrigar todos a manter um peso saudável e exigir que todas as mulheres engravidem?
    Não creio que seja possível nem desejável chegar a tais minúcias de controle sobre a vida das pessoas. Cada um de nós precisa ficar doente de vez em quando e morrer de alguma coisa. Analisando as coisas "a posteriori", sempre poderemos correlacionar moléstias e óbitos a alguma escolha ou hábito do cadáver.
    Penso que é mais lógico tratar o SUS e o INSS como um seguro clássico, no qual o cliente tem direito a indenização independentemente de ter culpa pelo sinistro. Até dá para introduzir certas cláusulas especiais, como um imposto diferenciado para produtos nocivos (cigarro, álcool etc.), mas sem proibições absolutas. É uma regra meio socialista, mas acho que é assim que deve ser, ou abrimos flanco para que o Estado defina a vida que devemos viver.

    Ruy Castro

    folha de são paulo
    Muso do Carnaval
    RIO DE JANEIRO - Edward Snowden, o ex-técnico da CIA que denunciou a espionagem praticada pela NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) contra governos, empresas e cidadãos em toda parte, está flertando com o Brasil na esperança de que este lhe ofereça asilo permanente. Comparado com a Rússia, que o acolheu provisoriamente, mas não lhe dá muito espaço, o Brasil seria um chuá.
    Não que, aqui chegando, Snowden possa rasgar o verbo, com revelações ainda mais quentes sobre os e-mails e telefonemas da presidente Dilma que a NSA interceptou --inclusive aquele em que Dilma passou a um ministro militar sua receita exclusiva de "tarator", a sopa de pepino com iogurte, que ela herdou de seus parentes búlgaros. No Brasil, Snowden teria de seguir as normas internacionais do asilo, que proíbem constranger o país asilante.
    Mas o Rio é um grande corruptor de maiores e, se Snowden desembarcar no Galeão nas próximas semanas, logo deixará de ser uma ameaça. Será eleito muso do Carnaval, receberá a chave da cidade das mãos do Rei Momo e sua foto de braços abertos com o Cristo ao fundo correrá o mundo. Dois milhões de foliões o aclamarão na saída do Bola Preta e ele desfilará no Sambódromo por quantas escolas quiser, jogando beijos para as arquibas.
    A praia de Snowden será o Posto 12, no Leblon, no horário dos profissionais: de segunda a sexta, antes das oito da manhã ou depois das seis da tarde. O Botafogo tentará seduzi-lo, mas ele já terá sido conquistado pelo Flamengo. Uma maria-chuteira se dirá sua noiva. E, que nem com Ronald Biggs, todos os estrangeiros de visita ao Rio insistirão em ser fotografados com ele.
    Até o dia em que, como aconteceu com Brigitte Bardot em 1964, Snowden chegará a um bar na rua Dias Ferreira e alguém comentará: "Ih, lá vem aquele espião chato outra vez!".

      Popularidade pode destruir a fotografia, dizem especialistas

      folha de são paulo
      'Selfie' de Obama no funeral de Mandela leva fotógrafos e psicólogos a debater efeitos colaterais das facilidades da foto via iPhone
      STUART JEFFRIESDO "GUARDIAN"
      "A fotografia nunca foi tão popular, mas está sendo destruída", diz Antonio Olmos.
      O fotógrafo mexicano radicado em Londres refletiu sobre sua arte há duas semanas, quando a imagem da primeira-ministra dinamarquesa Helle Thorning-Schmidt tirando foto dela mesma ("selfie") com Barack Obama e David Cameron no funeral de Nelson Mandela foi reproduzida no mundo inteiro.
      A imagem parecia exemplificar o narcisismo das fotos tiradas com smartphones.
      Com um porém: a foto do trio foi capturada por Roberto Schmidt, fotógrafo da agência France Presse, usando uma câmera profissional.
      A cena também inspirou um debate no qual os psicólogos argumentaram que existe um "efeito redutivo da fotografia".
      "Se as pessoas dependem da tecnologia para suas recordações, dedicando menor atenção ao evento, pode haver um impacto negativo sobre a qualidade da lembrança", afirmou a psicóloga Linda Henkel, da Universidade Fairfield (Connecticut).
      "Gente tirando fotos de comida no restaurante, em vez de comê-la", diz o premiado Olmos, 50. "Tirando foto da Mona Lisa' em lugar de olhar o quadro. O iPhone afasta as pessoas da experiência."
      Mas existe um motivo mais forte para que Olmos diga que a fotografia está morrendo. "O iPhone tem uma lente péssima. Você tira uma foto linda e, quando a amplia para impressão, fica horrível."
      Mas quem precisa de impressão num mundo sem papel? "Para mim, a versão em papel é a expressão última da fotografia", diz. "Quando dou cursos, faço os alunos imprimirem suas imagens --em muitos casos, pela primeira vez. A ideia é forçá-los a criar fotos, e não só tirá-las."
      PROFUNDIDADE
      Eammon McCabe, fotógrafo do "Guardian", concorda. "Mesmo com o risco de parecer um daqueles chatos que defendem disco de vinil, creio que a foto impressa tenha uma profundidade que não se consegue com a digital."
      Ele recentemente olhou a cópia em papel de uma foto que tirou da escritora Doris Lessing, vencedora do Nobel, que morreu no mês passado.
      "Era uma imagem em preto e branco que registrei com uma Hasselblad, um tripé e muita janela. Isso me fez recordar os dias em que a fotografia não causava preguiça."
      Por que a fotografia digital é preguiçosa? "Você chuta para todo lado. Bate muitas fotos, imaginando que uma funcionará, e não se concentra em capturar a imagem."
      Já Nick Knight, fotógrafo de moda britânico, fez dois trabalhos com o iPhone --um livro de 60 imagens sobre Isabella Blow, editora de moda morta em 2007, e uma campanha para a marca Diesel.
      Para Knight, a revolução democratizante propiciada pelas câmeras de celular é tão radical quanto a ocorrida nos anos 1960, quando o britânico David Bailey, ícone da fotografia, largou o tripé e começou a trabalhar com uma câmera de mão.
      "Isso deu liberdade a ele e mudou o que a fotografia era, artisticamente. O mesmo vale para mim e o iPhone."
      Mas e quanto à lente do aparelho? "É absurdo que as pessoas pensem que todas as fotos têm de ter alta resolução. O que importa, em termos artísticos, é se a imagem funciona. A maquinaria com a qual se cria arte é irrelevante", afirma o fotógrafo.
      Nem tanto. O iPhone mudou a fotografia de Knight, e ele sabe disso. "Posso curvar uma imagem, reduzir o valor do branco. Não sei como funciona, mas me deslumbra."
      Ele vem pesquisando imagens de bandas punk. "Não há muitas imagens, e são quase todas de palco. Compare com o que temos agora: num show de Kanye West, há um mar de câmeras, e isso cria um banco de dados."
      A CAMINHO DE CASA
      Tirar fotos incessantemente não nos faz esquecer, como dizem os psicólogos?
      "Bobagem", diz. "Como aquela lenda de que se sentar perto da TV vai contaminá-lo por raios-X. Qual é o problema de tirar uma foto de um quadro de Matisse para olhar no ônibus, a caminho de casa? É ótimo que as pessoas queiram fazê-lo."
      Mas é difícil fotógrafos profissionais não se sentirem ameaçados. "Há menos empregos", diz Magda Rakita, 37, fotógrafa em Londres. "Mas os avanços permitem que fotógrafos distribuam seu trabalho e contem histórias de formas inovadoras."
      E quanto a pagar contas? Para ela, "criar um público é essencial num modelo financeiro que depende cada vez mais do crowdfunding".
      "Sobreviverei na profissão porque sou competente", diz Olmos. "Não basta ter um computador e um programa de texto para ser escritor. E não basta ter Instagram para ser um grande fotógrafo".