segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Ruy Castro

folha de são paulo
Dono de sua história
RIO DE JANEIRO - Deu no jornal: Roberto Carlos está para lançar um livro sobre seus 50 anos de carreira. Não ria. Será um livro com palavras? Se for, alguém terá de escrevê-las. E quem será? Ele mesmo, Roberto Carlos, ou um "ghost-writer" de sua confiança? Tanto faz. O texto precisará contar com a participação do próprio Roberto Carlos, já que, como não se cansou de repetir nos últimos meses, só ele é dono de sua história.
Bem, se é assim, espera-se que corrija desde já uma informação errada. E esta se refere aos famosos 50 anos de carreira. Na verdade, Roberto Carlos completou 56 anos de carreira --porque sua estreia como cantor profissional se deu em 1957, aos 16 anos, num programa da TV Tupi, "Teletur", que ia ao ar às segundas-feiras à noite, comandado por Chianca de Garcia. Foi sua primeira aparição pública paga. Cantou "Tutti Frutti", sucesso de Elvis Presley, e nunca mais parou. Donde, se a aritmética não falha, 2013 - 1957 = 56.
Na mesma notícia, lê-se também que Roberto Carlos pediu autorização a Silvio Santos para incluir no livro uma foto em que os dois aparecem juntos. Autorização prontamente concedida por Silvio Santos. E, com isso, Roberto Carlos nos ensina que assim é que é certo: se se vai usar uma foto num livro, deve-se pedir a autorização de quem aparece nela. Mas terá feito isso com todo mundo nas fotos que cobrem os seus 56 --perdão, 50-- anos de carreira?
As notícias sobre Roberto Carlos na nossa imprensa são sempre simpáticas, e esta informa que, até há pouco contrário à publicação de biografias não autorizadas, ele "mudou de posição" e está agora "a favor delas".
Ótimo. Para provar isso, só lhe resta cessar sua proibição do livro "Roberto Carlos em Detalhes", de Paulo Cesar de Araújo, de onde tirei a informação sobre seus 50 --digo, 56-- anos de carreira.

    Raquel Rolnik

    folha de são paulo
    2013: o ano que não terminou
    Praticamente todas as grandes cidades brasileiras estão tomadas por debates sobre a questão urbana
    Um novo ano começa, mas 2013 não terminou... Essa é a sensação. Parece que os ventos soprados pelas manifestações de junho continuarão nos acompanhando em 2014. E talvez por vários anos ainda...
    Apesar da ansiedade que esse tema possa gerar, devemos resistir a traduzir apressadamente a energia das manifestações para um conjunto de demandas pragmáticas concretas.
    Não devemos tomá-las como reivindicações e questões para as quais precisamos produzir respostas claras.
    Parafraseando Slavoj Zizek em sua análise do Occupy e de outros movimentos que eclodiram nos últimos anos na Europa e no Oriente Médio, os protestos realmente criaram um vazio e será necessário algum tempo para preenchê-lo.
    No caso brasileiro, entre a multiplicidade de pautas das manifestações, explodiu a questão urbana. Apesar de nossas cidades terem sido desde sempre caóticas, com baixíssimo grau de qualidade urbanística, nunca antes a questão urbana esteve presente com tamanha força na agenda do país.
    Não se trata de um fenômeno exclusivo de São Paulo nem do Rio de Janeiro. Praticamente todas as grandes cidades brasileiras, e mesmo algumas de médio porte, hoje são tomadas por debates, questionamentos e protestos.
    Refletindo sobre por que a questão urbana entrou na agenda justamente nesse momento, arriscaria apontar alguns caminhos.
    Em primeiro lugar, que o aumento da passagem do transporte público coletivo tenha sido pontapé e principal pauta das manifestações de junho não é coincidência.
    Se durante muito tempo as classes média e alta se deslocaram pelas cidades com rapidez e conforto em seus carros particulares, de uns anos para cá, as classes mais baixas que dependiam exclusivamente do péssimo serviço do transporte público coletivo começaram a comprar carro também.
    O resultado não poderia ter sido outro: a imobilidade completa de nossas cidades. Simplesmente, as ruas não comportam a quantidade de carros e motos que o mercado vem jogando nelas todos os anos.
    Isso atingiu as classes que sempre tiveram o privilégio de ocupar, sozinhas, a maior parte do espaço das ruas e que agora passaram a ter que dividi-lo.
    Porém, atingiu principalmente os que continuaram dependendo do transporte público coletivo e que, além de sofrer com a imobilidade, ainda tiveram que suportar sucessivos aumentos de tarifas sem ver melhorias na eficiência e na qualidade do serviço prestado.
    Poderia apontar outros temas que engrossaram o caldo do questionamento do nosso modelo de cidade: a luta por moradia em um contexto de boom imobiliário no qual há cada vez menos lugar para os mais pobres, os sentidos do espaço público e a reduzida participação dos cidadãos nas decisões sobre o destino das cidades.
    Todas estas questões, enfim, são de natureza estrutural, enraizadas no modo dominante de fazer nossas cidades, e requererão anos de reflexão e imaginação política para serem transformadas.
    Por isso, o ano de 2014 nos desafia a não esperar soluções mágicas e a continuar -nas ruas e fora delas- a formular respostas, mesmo sem ainda saber exatamente para quais questões.

      Gregorio Duvivier

      folha de são paulo
      Esse ano passou rápido
      O gigante acorda trincado: os professores querem salários melhores. Tomam porrada. Alunos tomam mais porrada
      Feliz Ano-Novo! Começo a ensaiar um musical. Tragédia: um incêndio mata 200 pessoas na boate Kiss. O papa nazista renuncia. Eduardo Paes fecha todos os teatros da cidade por causa do incêndio. Suspendem os ensaios da peça. O novo papa é fofo --e não parece nazista. A gente volta a ensaiar a peça --o teatro não mudou nada. Gravo o vídeo "Dez Mandamentos" sob o sol de Cabo Frio e Deus me pune com uma queimadura de segundo grau. Uísque ou água de coco, pra mim tanto faz. Morre Chorão. A peça vai ser uma tragédia. Estreia e dá tudo certo. Obrigado, Senhor, obrigado por me ajudar mesmo eu sendo ateu. O novo presidente da Comissão de Direitos Humanos é um pastor racista e homofóbico. Errou feio, errou feio, errou rude. Clarice lança o melhor disco do século 21. O preço da passagem vai aumentar 20 centavos. Vem pra rua. O gigante acordou. Pronto: a passagem não vai mais aumentar 20 centavos. Mas não é só pelos 20 centavos. Bora pra Rio Branco. Tomo porrada. Caio de cara no asfalto. Merda, roubaram meu celular. O gigante dá uma morgada. Dilma fala na tevê. Parece que ela tá lendo um texto. Diz que vai chamar médicos cubanos e lutar contra o vandalismo. Não adianta muito. O gigante acorda mais bolado e quebra tudo, até a Toulon. Eitcha Lelê. Me apresentam o Candy Crush. Perco o mês inteiro de julho nisso. Matam o Daleste na frente de todo o mundo. Começo a escrever pra Folha. Que dias bons. Prepara que agora é hora da Jornada Mundial da Juventude. O gigante aperta a função soneca. Essa carne é Friboi? O gigante começa a gostar desse ios7. É feriado no país laico em homenagem ao papa fofo --que é contra o aborto e o casamento gay. Pastor diz que vai processar o Porta. Discuto na tevê com Didi Mocó, ele diz que não pode rir de religião, eu acho que pode. Clarice e eu vamos morar juntos. Pai, to cem porcenta. O gigante acorda trincado: os professores querem salários melhores. Feliciano desiste de processar a gente (preguiça? noção? mais o que fazer?). Clarice e eu já estamos morando juntos. Professores tomam porrada. Miley Cyrus rebola no colo de Beetlejuice. Morre Champignon. Os alunos defendem os professores. Tomam mais porrada. O gigante entra em coma induzido. Champanhe agrega status ao rei do camarote. Lanço um livro de poesia (alienação? debilidade? amor?). Morre Mandela. Collor e Sarney vão visitar. Tadinho. Porta dos Fundos reconta a vida de Jesus. Então é Natal. E o que você fez? Esse ano passou rápido. Feliz Ano-Novo.

        Luiz Felipe Pondé

        folha de são paulo
        O ciclo sagrado da vida
        Naquela noite especial, se colocariam em círculo ao redor do fogo para ouvir os sons do pai de todos
        Um monte de corpos que se mexiam e dançavam. Outros, mortos. O cheiro já adocicado da carne subia aos céus. Crianças brincavam se cobrindo de sangue enquanto velhas tentavam controlá-las. Mulheres, atarefadas, cuidavam de uma delas que, de pernas abertas, tentava pôr para fora um bebê.
        Entre as pernas, líquidos escorriam e o cheiro de mulher tomava conta do bando. Alguns homens sentiam um prazer especial com isso, e queriam se aproximar dela para lamber suas pernas. O sangue de mulher tinha um gosto poderoso.
        Em meio aos gritos da infeliz, outros homens se aproximavam carregando mais corpos. Estes eram vistos pelas mulheres como homens mais desejáveis, e não aqueles que tentavam a todo custo devorar a infeliz no meio das outras. Alguns olhavam para a infeliz e riam de sua agonia. Outros, menos ruidosos, faziam sinais para que os mais barulhentos se calassem e ouvissem o choro da mulher em silêncio. Havia algo de reverência neste silêncio.
        Por alguns instantes, paravam diante da cena, e tudo parecia suspenso no tempo. Derrubavam os corpos no chão e quase choravam junto com ela.
        Na rotina do dia a dia, aquela era uma noite especial. A vida era uma somatória de dias e noites que se repetiam. Mas aquela noite era especial. Logo, se colocariam em círculo ao redor do fogo para ouvir os sons do pai de todos. Este som desceria dos céus e encheria o espaço a volta de todos, chegando mesmo a entrar em suas cabeças. Sabiam que era a noite em que o pai de todos viria à Terra para jogar sobre ela a sua força. E eles comeriam corpos e dançariam.
        Os corpos seriam despedaçados segundo a regra do pedaço mais fácil de arrancar ao mais difícil. Crianças e mulheres despedaçavam os mais fáceis, os homens, os mais difíceis. Passo a passo, aprendiam a ser inteligentes. Tal técnica, acreditavam, vinha do mesmo lugar de onde desciam o fogo e chuva. De onde descia o pai invisível do mundo.
        Duas mulheres jogavam sobre o rosto da infeliz um líquido de cor ocre. Espalhavam sobre os olhos e os lábios, enquanto um som escapava de suas bocas, já quase sem dentes. As mulheres mais jovens não podiam se aproximar da infeliz. Depois de espalhar o líquido de cor ocre, lambiam os olhos e os lábios daquela que, de pernas abertas, próxima ao lugar onde seria aceso o fogo mais tarde, esperava pela noite mais importante da vida deles.
        Quando o mundo começava a ficar escuro, e a cabeça da criança começava a surgir entre as pernas, fezes e urina, os gritos da infeliz subia aos céus. No alto da pedra, ali colocada pelo pai invisível, o homem maior se punha de pé. Os outros jogavam os corpos sobre os irmãos e irmãs de sangue, e os pedaços eram arrancados ao som cada vez mais alto de todos que repetiam monotonamente o mesmo grito. Em meio a eles, o grito frágil da infeliz, a mãe mais jovem entre todas se perdia.
        O mesmo líquido ocre, misturado com sangue, escorria pelos lábios, enquanto o homem maior se contorcia sobre si mesmo, agora de joelhos. Por suas pernas, escorria sua bênção. Embaixo, e ao redor da infeliz, todos repetiam os gestos do homem maior, que carregava em si o espírito invisível do pai de todos.
        Muitos corriam querendo lamber a bênção que escorria pela pedra. Depois de alguns instantes, ele repetia a dança, os gestos, se punha de joelhos, e a bênção escorria de novo pela pedra.
        Quando o bebê, já fora do corpo da mãe mais jovem de todas, ligado a ela apenas por um cordão de carne, era carregado por uma das mulheres, o corpo da infeliz mãe mais jovem de todas era carregado pelo restante das velhas. Ambos eram arremessados para dentro do grande fogo, enquanto o restante dos irmãos e irmãs de sangue giravam sobre si mesmos.
        De repente, do giro, passaram à perseguição das mulheres a sua volta (as irmãs de sangue). Estas, num misto de desejo e horror, tentavam escapar dos irmãos de sangue. Jogadas contra o chão e as pedras que enchiam o lugar, eram lançadas a condição de possíveis mães jovens dos próximos dias. Gritavam e gemiam, à medida em que eram abençoadas por seu irmãos.

        Brasil deve desculpas a Anderson Silva

        folha de são paulo
        RICARDO MELO
        Brasil deve desculpas a Anderson Silva
        Embates de vale tudo são um dos eventos mais repulsivos oferecidos sob a chancela de 'esportivo'
        Para defender os espetáculos de pancadaria como esporte legítimo, o pessoal das lutas de vale tudo provavelmente usará a célebre foto de Domício Pinheiro. Era novembro de 1974, interior paulista. Naquele instantâneo memorável, Domício flagra o momento quando, numa disputa de bola, o atacante Mirandinha, então no São Paulo, quebra a perna esquerda ao se chocar com o zagueiro Baldini, do América de Rio Preto.
        A imagem deve estar estampada nos jornais de hoje, pela incrível semelhança plástica com os registros do momento em que, ao tentar atingir o adversário, Anderson Silva espatifa a própria canela em Las Vegas. Vai servir, com certeza, para alimentar a ladainha que todo esporte tem sua dose de violência, ou que imprevistos acontecem em qualquer atividade. A comparação soa tão verdadeira quanto usar fotos de dois corpos estatelados no chão para dizer que ambos são iguais ""não importa se um deles caiu por acidente do décimo-andar e o outro foi arremessado por algum meliante durante um assalto.
        A polêmica, de todo modo, não é propriamente nova, mas ferve a cada drama como o de Anderson Silva. De minha parte, mantenho a convicção de que os embates de vale tudo, mesmo repaginados como MMA, UFC ou o que o valha, são um dos eventos mais repulsivos oferecidos sob a chancela de "esportivo". A começar do objetivo maior, quando não único e exclusivo: destruir fisicamente o adversário na base da porradaria desenfreada, com chutes, pontapés, socos e outros golpes igualmente "refinados".
        Muitos dirão que o boxe também é assim. É mesmo bastante parecido, talvez um pouco mais asséptico. Por isso nunca tive especial interesse pelo que acontece nos ringues, exceto quando seus personagens ficam notórios pelas sequelas da troca de murros ou ganham destaque em seções diferentes dos jornais. Geralmente trata-se de gente humilde e socialmente injustiçada --logo presa fácil de mafiosos sedentos de lucros bilionários derivados da exploração dos "instintos mais primitivos". Que o digam nomes como Cassius Clay, hoje confinado a uma cadeira de rodas de tanto bater e apanhar, e Mike Tyson, cujo prontuário dispensa apresentações.
        Mesmo com toda a corrupção, ganância e tapetaços desacreditando atividades como o futebol, há, por enquanto, uma distinção fundamental. Dentro das quatro linhas, o desempenho não se mede pela aniquilação física do oponente. Nos octógonos de vale tudo, a conversa é outra. Quanto mais um lutador destroçar o outro, mais prestígio, dinheiro e "reconhecimento" ele terá ""até o momento em que se tornar imprestável como um galo estropiado incapaz de abater rivais nos ringues clandestinos. Chamar isso de esporte ultrapassa o cinismo. É empulhação pura e simples.
        Detalhe: no Brasil, os galos são bem mais protegidos. Por ilegais, rinhas podem dar cadeia a quem as promover. Nada que um bom advogado não resolva, mas o constrangimento pelo menos fica. No caso do MMA, a vida é bem mais mansa. Os organizadores apenas correm o risco de enriquecer, virar celebridades e festejar índices de audiência. Tudo embrulhado num discurso de "trabalho social" que salva jovens sem futuro e fadados ao crime.
        Anderson Silva não tem que pedir desculpas ao Brasil, como fez depois da derrota.
        O país é que tem que pedir desculpas a Anderson Silva.

          domingo, 29 de dezembro de 2013

          Marcelo Leite

          folha de são paulo
          Água e energia
          Belo Monte ainda está longe de dar um exemplo de civilização à altura da engenharia que a ergueu
          Nos últimos meses este colunista esteve mergulhado nas águas turbulentas da hidrelétrica de Belo Monte (PA), uma travessia para esgotar a energia de qualquer um. O resultado, "A Batalha de Belo Monte", pode ser conferido emfolha.com/belomonte, em português, folha.com/belomonte-en, em inglês.
          Não é dessas águas passadas nem da energia drenada que saiu o título da coluna, todavia. Ele surgiu de uma pausa para refletir sobre o que significa, afinal, erguer um colosso desses para barrar o majestoso rio Xingu e tomar de empréstimo um pouco da força que o move.
          O país precisa de eletricidade, ponto. Muita eletricidade. Provavelmente não tanta quanto projetam os burocratas do Ministério de Minas e Energia, que só têm olhos para obras faraônicas e seus dividendos. Conservação de energia, usinas eólicas, solares? Esquece.
          Se a alternativa for entre hidrelétricas e termelétricas (combustível fóssil ou nuclear), é melhor ficar com as primeiras. Poluem menos. Mas o potencial remanescente está concentrado na Amazônia, onde há muita água, mas o terreno tende a ser plano, o que implica inundar grandes áreas para gerar energia.
          Durante a produção de "A Batalha de Belo Monte", e também depois, a equipe de reportagem ouviu várias vezes a pergunta: contra ou a favor? Não é uma resposta fácil.
          As soluções de engenharia para Belo Monte são em muitos aspectos admiráveis. Gerar 4.571 megawatts (MW) médios alagando "apenas" 500 km2 (um terço do município de São Paulo), ainda que meros 41% da potência instalada de 11.233 MW, é melhor que inundar quase o quíntuplo disso (2.350 km2) para instalar ridículos 250 MW, como na criminosa usina de Balbina (AM).
          Muita coisa mudou, no país e no projeto de Belo Monte, desde os anos 1980. Reconhecer isso não permite, contudo, deixar de apontar a repetição de barbaridades na mitigação --mal planejada, tardia, "para inglês ver"-- dos impactos sobre o ambiente ímpar da Volta Grande do Xingu e sobre as populações ribeirinha, indígena e citadina.
          Belo Monte ainda ficou longe de dar um exemplo de civilização e responsabilidade social à altura da engenharia que a ergueu. Se você for atropelado por um trator, pouco importará que ele seja guiado por GPS e que na cabine com ar condicionado o volante seja manipulado por um presidente da República petista e popular.
          Há outra maneira de enxergar a pequenez de Belo Monte, porém, para a qual chamou a atenção Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
          Nos poucos meses em que Belo Monte funcionar a plena carga, se operar 24 horas por dia, passará por suas 18 turbinas principais 1,2 bilhão de metros cúbicos de água. No mesmo dia, a floresta amazônica evaporará ""pela simples transpiração de suas plantas"" um volume quase 20 vezes maior.
          A comparação em termos da energia envolvida é mais humilhante. A água enviada pela mata para os céus emprega pelo menos 60 mil vezes mais energia que a colhida pelos rotores da usina, que precisaria de 165 anos a toda força para empatar com que move a máquina de chuva amazônica num único dia.

            Curso forma integrantes do Femen na Espanha

            folha de são paulo
            LUISA BELCHIOR
            COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM MADRI
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            Corrida, flexões de braço, postura corporal, expressão facial (sempre com cara de brava), táticas de fuga e até noções de costura.
            Não basta fazer topless para ser integrante do Femen, o grupo de ativistas conhecidas mundo afora por protestar sem camisa, com flores na cabeça e dizeres no corpo.
            Entrar para o movimento exige disciplina e esforço físico, como a Folha constatou ao participar do curso preparatório da filial espanhola da organização, em Madri.
            Durante um mês, a reportagem teve aulas práticas e teóricas, que incluíram a maneira correta de gritar, correr, resistir à polícia e mostrar os seios sem cair na armadilha da "sensualização" –pecado mortal para elas.
            Divulgação
            Protesto do Femen na Espanha; cartazes dizem "mulheres livres", "luta nua", "exército do Femen" e "exército nu"
            Protesto do Femen na Espanha; cartazes dizem "mulheres livres", "luta nua", "exército do Femen" e "exército nu"
            Além da repórter (que se identificou como tal), havia outras cinco alunas no programa, que é gratuito. O curso segue à risca o manual internacional do Femen, grupo fundado na Ucrânia há cinco anos para protestar contra a opressão às mulheres no país.
            Aos poucos, os protestos nada convencionais começaram a angariar a atenção do mundo, e o grupo abriu representações na Europa e na América. Seu quartel-general foi transferido para Paris, onde acontecem treinamentos anuais das ativistas de todo o mundo.
            Além de França, Ucrânia e Espanha, o Femen está presente na Alemanha, na Holanda, na Suécia, no Canadá, na Turquia e no México e se prepara para entrar no Reino Unido.
            No Brasil, o movimento ensaiou uma abertura no ano passado, mas a então líder no país foi desligada do grupo por "conflitos ideológicos".
            Os protestos, sempre comunicados ao quartel-general, seguem as três principais premissas do grupo: exterminar todos os regimes ditatoriais, acabar totalmente com a prostituição no mundo e separar o Estado de qualquer religião.

            Protesto do Femen em Bruxelas

             Ver em tamanho maior »
            Georges Gobet/AFP
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            Integrantes do Femen pedem a libertação da ativista tunisiana Amina Tyler em frente à embaixada da Tunísia em Bruxelas, na Bélgica
            A seguir, quatro lições básicas de como ser uma Femen, segundo o curso.
            LIÇÃO 1: O TREINO
            Ser Femen exige esforço físico e disciplina. As ativistas fazem um treino semanal com cooper, abdominais, flexões, corrida de explosão e simulações de protestos.
            Tudo para manter a forma física –o que, segundo as líderes do movimento, nada tem a ver com a estética.
            A ideia é que as ativistas estejam sempre fortes e preparadas para as vezes em que têm de correr da polícia ou se agarrar em alguma pilastra para não serem retiradas de onde estão protestando.
            Quanto mais força para resistir, por mais tempo a mensagem será ouvida. E, para isso, há que treinar muito.
            Nos exercícios de Madri de que a Folha participou, o grupo corre pelas ruas, saindo da base do Femen, um pequeno escritório sem identificação (para garantir a segurança das componentes).
            O Femen aceita mulheres com qualquer nível de preparação física, mas exige esforço. Na hora da corrida, todas as ativistas tiveram de manter o mesmo ritmo, sob frio de 5ºC. Ao fim da corrida, de cerca de meia hora, em um parque da cidade, todas praticam exercícios de explosão seguidos das simulações de um protesto.
            Aprende-se a gritar os lemas do grupo –como "foda-se sua moral", "meu corpo, minhas regras" e "muçulmanas, vamos nos desnudar"–, que devem ser sempre entoados com expressões de raiva, para, segundo o grupo, expressar o sentimento com que se protesta.
            A mesma expressão, acompanhada de desaforos, é reproduzida a pedestres que, via de regra, fazem gracinhas com as meninas correndo.
            LIÇÃO 2: O TOPLESS
            Uma das principais críticas ao Femen é direcionada à forma com que protestam, praticando topless. Para as ativistas, a explicação é lógica: querem colocar em questão a ideia de que o corpo da mulher só pode ser mostrado com conotação sexual e em ocasiões esperadas.
            "Usar o corpo como arma política é uma estratégia para lutar contra o sistema com algo que ele sempre teve sob controle. E não tem nada a ver com mostrar o corpo para atrair gente. Não mostramos o corpo como um instrumento erótico, mas combativo", diz à Folha a líder do Femen na Espanha, Lara Alcázar.
            Com 21 anos, a estudante espanhola participou do treinamento na sede do Femen em Paris e no início do ano foi nomeada líder do movimento em seu país.
            Desde então, ela se mudou para Madri, de onde comanda todos os atos e treinamentos do grupo espanhol.
            Com os corpos pintados, elas vão de encontro a seus alvos, que podem ser desde manifestantes de causas contrárias às suas a mandatários em atos oficiais.
            O objetivo é causar espanto e chocar, o que acontece –com raras exceções.
            Numa das vezes em que não deu certo, o presidente russo, Vladimir Putin, foi interpelado pelas ativistas em um encontro na Alemanha com a chanceler Angela Merkel, em abril. Ele olhou calma e diretamente os seios de uma delas e fez o sinal de OK.
            Mas as ativistas do Femen não são obrigadas a fazer topless. Podem participar na organização dos atos ou na estrutura interna do grupo, que na Espanha conta com 20 integrantes.
            A reportagem acompanhou atividades paralelas como a confecção de coroas usadas nos protestos, feitas com flores artificiais delicadamente costuradas e coladas em arames e fitas.
            LIÇÃO 3: A POSTURA
            Para deixar bem claro que as ativistas mostram os seios por um ato político, o "código de conduta" do Femen ensina as ativistas a eliminar vícios de postura que possam parecer sensuais.
            Ao protestar, é preciso estar com o corpo ereto, não se apoiar sobre o quadril e evitar deixar a cintura cair para um dos lados.
            As ativistas são instruídas também a protestar com os punhos cerrados em riste ou sobre a cintura.
            A cara deve ser sempre de indignação, para refletir o sentimento do movimento sobre os temas contra os quais protestam. A voz, firme e alta. Sorrir, jamais.
            Nos treinos, as ativistas aprendem a não se intimidar com a pressão de policiais. Para isso, são postas cara a cara com outras componentes do grupo, ou empurradas e puxadas por elas sem deixar de gritar os lemas. Quem parar na metade é punida com flexões (o que aconteceu com a repórter da Folha).
            LIÇÃO 4: A IDEOLOGIA
            Embora os pleitos políticos do Femen sejam muitos, dos direitos da mulher ao fim de ditaduras, o grupo não é muito adepto de criar teorias.
            A tática é levar, com poucas palavras e temas concretos, o movimento feminista para as ruas, em lugar de discuti-lo em debates e congressos.
            Suas ideologias são defendidas com frases curtas e estampadas nos corpos ou em cartazes, como "meu corpo, minha decisão" e "não mais papa". Além das lutas comuns, em cada país o movimento tem temas diferentes. Na Ucrânia e na Rússia, brigam contra a repressão. Na Espanha, a bandeira é a nova e restritiva Lei de Aborto.