domingo, 5 de janeiro de 2014

Mauricio Stycer

folha de são paulo
O que esperar de 2014
Parece óbvio que não é possível apostar todas as fichas na 'grade' imutável, baseada em 'hábito'
"O segredo da televisão está em como criar o hábito". A frase de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, embalou por muito tempo a ideia de que uma grade bem estruturada, sem sobressaltos, é fundamental para conquistar o espectador.
A afirmação, e uma de suas variações ("TV é hábito"), também é usada, ainda hoje, para justificar as decisões mais conservadoras ou para criticar qualquer tentativa de inovação na TV aberta.
Penso, por exemplo, na reação que "Além do Horizonte" vem provocando. Lançada em novembro de 2013, a novela apresenta várias características que a colocam em conflito com este mantra do "hábito".
Para começar, é uma intrincada história de mistério num horário, o das 19h30, que se consagrou como espaço de comédias leves. Não bastasse, os seus dois autores, Marcos Bernstein e Carlos Gregório, nunca assinaram uma novela antes.
Para espanto geral, os três protagonistas (Juliana Paiva, Thiago Rodrigues, Vinícius Tardio) são nomes pouco ou nada conhecidos. Também não há nenhum "medalhão" em cena --os atores mais famosos são Alexandre Borges, Flávia Alessandra, Marcelo Novaes, Antonio Calloni e Carolina Ferraz.
Não era preciso ser Mãe Dináh para prever que "Além do Horizonte" teria problemas com o Ibope. A audiência vem se mantendo abaixo da média do horário desde a estreia.
Colunistas que seguem os bastidores do mundo da TV têm alimentado os leitores com informações negativas. "Fracasso" e "naufrágio" são duas das palavras mais usadas para se referir à novela.
Especula-se que a novela será encurtada. Lamenta-se que a baixa audiência está puxando para baixo o resultado do "Jornal Nacional". Também fala-se em uma intervenção da Globo, destinada a alterar os rumos do folhetim e, até, na entrada em cena de algum autor mais experiente para ajudar os novatos.
Duas coisas são reais em meio a tantas especulações: a baixa audiência e o tom negativo do noticiário. Tenho a impressão de que ambos são consequência da mesma dificuldade, a de lidar com a aposta em algo novo --e, na minha opinião, de boa qualidade.
Numa das primeiras entrevistas que deu, depois de assumir a direção-geral da Rede Globo, em 1º de janeiro de 2013, o jornalista Carlos Henrique Schroder disse à coluna de Mônica Bergamo, na Folha, que não guiaria a sua gestão por metas de audiência. "Temos que tirar da frente a obrigação de entregar pontuação. Temos que entregar o produto. A audiência virá como consequência", disse então.
Parece óbvio, a todos que acompanham o mercado de televisão, que não é mais possível apostar todas as fichas na tal "grade" imutável, baseada em "hábito". É preciso hoje levar em conta a expansão da base de assinantes da TV paga, a oferta cada vez maior de canais, as possibilidades de gravação e a multiplicidade de meios de se ver produtos audiovisuais (YouTube, Netflix, smartphones etc).
O investimento da Globo em uma novela "esquisita" como "Além do Horizonte" é apenas um exemplo de menor importância. Mas espero, em 2014, que a reação negativa não influencie outras decisões ousadas e necessárias, seja da própria emissora, seja das suas concorrentes.

    Ferreira Gullar

    folha de são paulo
    Invenção da alegria
    O que distingue uma coisa da outra é a capacidade de nos deslumbrar que as formas tenham
    Fui ao Paço Imperial, aqui no Rio, para ver a exposição de Wilma Martins. Fazia muito tempo que não via seus trabalhos, mas guardara deles a melhor das impressões. Agora, nesta visita que fiz, aquela impressão se confirmou e, devo admitir, mostrou-se mais rica e fascinante.
    Uma das boas coisas que ganhei nessa visita foi conhecer trabalhos anteriores da artista, suas gravuras em madeira, onde já se revelava particularmente criativa e original. Diante daquelas composições, onde a linha gravada e as relações de treva e luz nos fascinaram, só confirmei tratar-se de uma artista de rara originalidade.
    Mas essa gravadora, que explorava um universo noturno e delirante, tornou-se depois a desenhista diurna, de desenho limpo e lúcido, que parece constituir o ápice de sua aventura estética.
    Essa fase de Wilma está entre as melhores coisas que a arte brasileira produziu nestas últimas décadas. Isso se deve, creio eu, de um lado, ao despojamento da linguagem figurativa e, de outro, à imaginação poética que a faz trazer para o espaço doméstico --povoado de objetos próprios a esse espaço-- seres selvagens como corças, ursos, elefantes e, com eles, a floresta mesma. Ela opera uma subversão poética da realidade banal da casa. E tem mais, ali não aparecem os moradores, os habitantes do espaço doméstico; não, só os objetos.
    O mais surpreendente, porém, nessas obras de Wilma, é o fato de que os objetos da casa são meros contornos, sem consistência real, enquanto os animais que ali surgem inesperadamente são coloridos e tratados conforme a linguagem realista da pintura convencional. Ou seja: o que é real --os objetos da casa-- é representado abstratamente, enquanto o que é sonho --as aparições da selva-- é tratado com realismo.
    E o mais curioso é que, não muito depois, Wilma Martins passa a pintar paisagens, isto é, a natureza que se insinuava em seu universos gráfico de desenhista torna-se o tema exclusivo do quadro.
    No mesmo Paço, numa sala do andar térreo, há outra exposição. Trata-se de uma instalação, com máquinas que produzem vento e um tubo de plástico ora inflado pelo vento que a máquina produz, fazendo desagradável barulho. Não se percebe ali qualquer preocupação com beleza e acabamento; pelo contrário, a impressão é de algo improvisado, feito de qualquer modo. Mas, afinal, que nos diz aquilo? Que o vento infla o plástico? Mas quem não sabe disso?
    Não é por não se valer da linguagem da pintura, do desenho ou da escultura, que não se faz arte, pois arte pode ser também a invenção de linguagens novas ou inovadoras, que nos fascinam e encantam.
    Este é o caso de Yayoi Kusama, artista japonesa que expõe atualmente no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio. Nascida em 1929, ela começou a criar na época da pop art, inspirada nos trabalhos de Andy Warhol. No entanto, ao contrário dos artistas daquela tendência, que tomavam por tema objetos, figuras e fatos banais da vida moderna, Yayoi nos arrasta a um deslumbrante universo de cores, formas e luzes.
    E essa capacidade de deslumbrar está em tudo o que ela faz, até mesmo nas telas que pinta fora do que estamos habituados a ver. Isso, sem falar nas salas em que penetramos como se passássemos a outra dimensão do real. Não por acaso, filas intermináveis de visitantes se formam no CCBB para experimentar esse encantamento. A sala de luzes, com centenas de lâmpadas que mudam de cor a cada momento, parece levar-nos a um passeio pelo espaço cósmico, fervilhante de estrelas.
    Mas a criatividade de Yayoi é inesgotável, já que, no oposto dessa sala noturna, há outra, diurna, constituída de dezenas de volumes brancos com pintas vermelhas, que se multiplicam refletidos nas paredes de espelho. O que significa isso? Não se sabe, mas não importa, não é preciso saber, uma vez que a obra é seu próprio significado. É que tudo tem expressão, seja um tubo de plástico, seja uma sala de luzes ou formas coloridas. O que distingue uma coisa da outra é a capacidade de nos deslumbrar que as formas tenham. Mostrar a banalidade é mostrar o óbvio. A arte é a superação da banalidade.

    sábado, 4 de janeiro de 2014

    André Singer

    folha de são paulo
    Armadilha lulista
    Uma leitura atenta das respostas que o economista Luiz Gonzaga Belluzzo forneceu a Eleonora de Lucena na entrevista publicada no último domingo pela Folha, permite perceber, sobretudo na versão integral (disponível na internet), de maneira cristalina o impasse brasileiro contemporâneo. Se feitas as devidas pontes entre o quadro econômico ali analisado e a situação política, tem-se um retrato agudo do momento atual.
    O professor da Unicamp mostra que o governo Dilma foi atingido em cheio pela segunda etapa da crise capitalista. Enquanto Lula viu-se beneficiado pelas "benesses do ciclo de commodities", a presidente pegou uma longa fase de depressão da economia mundial.
    Para sustentar o dinamismo do Brasil em um contexto de desaceleração global seria necessário ter uma indústria forte. Mas, para tanto, o país precisava ter desvalorizado bastante o real, como já vinha alertando há alguns anos o ex-ministro Bresser-Pereira.
    A presidente teve a coragem de enveredar na direção necessária, realizando significativa redução da taxa de juros contra o desejo do mercado financeiro. Ao diminuir o ganho rentista, reduz-se a atratividade do Brasil como plataforma de valorização do capital especulativo internacional e, dessa forma, ajuda-se a controlar o sobrepreço da moeda.
    Ato contínuo, a equipe econômica e o Banco Central, orientados por Dilma, provocaram uma mididesvalorização do real, além de reforçar as medidas voltadas para restringir a liberdade de entrada e saída dos especuladores. Em outras palavras, mesmo que, como aponta Bresser-Pereira, não tenham sido na proporção devida, foram dados passos ousados para romper as amarras que impediam o Brasil de retomar o crescimento.
    De repente, no final de 2012, começa a haver uma reversão. O BC anuncia que voltará a aumentar os juros. O que houve? O governo sentiu que não tinha força para prosseguir no caminho iniciado. Ao contrário de investir, os empresários se afastaram de Dilma, por considerá-la intervencionista. O eleitorado lulista, por sua vez, "é o pessoal mais desinformado sobre as razões dos problemas, que foi submetido a um processo de obscurecimento durante séculos", diz Belluzzo.
    Resultado: em lugar de 2013 ser o ano da retomada que Dilma deve ter planejado, foi caracterizado pela reversão sistemática do que fora plantado no período precedente. A armadilha está em que, como o lulismo não é mobilizador, não pode politizar as questões de fundo, autoimpedindo-se de construir uma base social suficiente para sustentar a ruptura necessária. De onde, então, virá a energia capaz de quebrar as 11 varas da camisa que, segundo Belluzzo, paralisa a nação?

    Helio Schwartsman

    folha de são paulo
    Vitaminas na berlinda
    SÃO PAULO - Com uma veemência difícil de encontrar em periódicos científicos, o editorial da última edição de "Annals of Internal Medicine" não só pede que as pessoas parem de utilizar suplementos de vitaminas como sugere que não se dediquem muito mais recursos a novas pesquisas nessa área. Para os editores da publicação, exceto para subgrupos específicos, o caso das vitaminas já está encerrado.
    O editorial, intitulado "Enough is enough" (já basta), acompanha a publicação de três estudos que mostram que o uso de suplementos é, na melhor hipótese, um desperdício de dinheiro. O primeiro trabalho, envolvendo 400 mil participantes, indica que multivitamínicos não previnem doenças cardiovasculares, câncer nem reduzem a mortalidade geral. O segundo acompanhou por 12 anos quase 6.000 idosos e concluiu que suplementos não melhoram a performance cognitiva. O terceiro revelou que vitaminas não previnem eventos cardiovasculares em pacientes que já haviam sofrido infarto.
    Os editores de "Annals" lembram que existem trabalhos mostrando que alguns micronutrientes, notadamente betacaroteno e vitamina E, na verdade aumentam a mortalidade.
    Para eles, já passa da hora de os médicos transformarem essa ampla coleção de evidências em ações, aconselhando as pessoas a parar de tomar suplementos, a menos, é claro, que sofram de alguma deficiência nutricional que exija reposição.
    Não obstante, o consumo de vitaminas vem crescendo em todo o mundo. Na verdade, esse se tornou um filão especialmente atrativo para laboratórios e para algumas pseudoespecialidades como a medicina ortomolecular e a antienvelhecimento. No mundo de hoje, não dá mais para fazer medicina com base em filosofias. É preciso curvar-se às evidências e, no caso das vitaminas, elas já deram o seu veredicto.
    Agradeço a Esper Kallás, que me chamou a atenção para os trabalhos.

      Novos romances distópicos trazem grandes corporações como vilãs

      Novos romances distópicos trazem grandes corporações como vilãs


      Ouvir o texto


      GUILHERME GENESTRETI
      DE SÃO PAULO
      Governos tirânicos, daqueles que controlam o pensamento dos cidadãos ou mandam todos os livros à fogueira, já não assombram mais os escritores como antigamente.
      No passado, foi esse o grande medo de autores como George Orwell (1903-1950) e Ray Bradbury (1920-2012). Mas na nova onda de romances distópicos, que imaginam o futuro da humanidade, o pesadelo vem sob a forma de grandes corporações.

      Pode ser um gigante da tecnologia ao estilo Google/Facebook, que prega o fim do anonimato, como em "The Circle", de Dave Eggers, 43, lançado em outubro nos EUA.
      Editoria de Arte/Folhapress
      Ou pode ser um conglomerado da engenharia genética que não só cura mas também cria doenças para garantir os lucros — caso da trilogia "MaddAddam", da canadense Margaret Atwood, 74.
      O último volume da série saiu em setembro nos EUA; no Brasil já foram publicados os outros dois, "Oryx e Crake" (Rocco, R$ 46) e. "O Ano do Dilúvio" (Rocco, R$ 59).
      O livro de Eggers (ed. Knopf, cerca de R$ 34, na Amazon), que deve ser lançado no Brasil ainda neste ano pela Companhia das Letras, narra a história de uma jovem que vai trabalhar na poderosa companhia O Círculo, que concentra rede social e serviços de busca na internet.
      "Privacidade é roubo" é um dos slogans da empresa, que monitora a vida de todos os usuários de sua rede com pequenas câmeras e deixa dados pessoais expostos.
      "O medo de perder a privacidade é antigo, já há um grão dele em '1984', de Orwell", diz o escritor Bráulio Tavares, pesquisador de literatura de ficção científica. "Mas ele não poderia imaginar o grau a que chegamos hoje com as redes sociais."
      EMPRESA MODERNINHA
      Eggers se recusou a comentar o livro, mas concedeu uma breve entrevista ao site de sua editora norte-americana.
      "Muitas vezes eu pensava em algo que uma empresa como O Círculo poderia criar [...] e, então, acaba lendo a respeito dessa mesma invenção, ou até algo mais extremo, no dia seguinte", afirmou.
      Na ocasião, ele negou fazer referência ao Google ou ao Facebook, apesar de o livro se passar numa corporação moderninha, cheia de jovens, no Vale do Silício.
      Comparações com "1984" também não faltaram. A revista "New Yorker" apontou que o SeeChange, programa criado pelo Círculo para vigiar o mundo com minicâmeras, se assemelhava às teletelas monitoradas pela Polícia do Pensamento no livro de Orwell.
      Editoria de Arte/Folhapress
      Os slogans da empresa imaginada por Eggers: "Privacidade é roubo", "segredos são mentiras" e "compartilhar é cuidar" também ecoam o tríptico "guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força", de "1984".
      No universo criado por Atwood (ed. Nan A. Talese, cerca de R$ 42,50, na Amazon), a corporação chamada HelthWyzer tomou o lugar do próprio Estado após a disseminação de uma praga: ela mantém o próprio Exército e esmaga seus opositores.
      Autor de livros de ficção científica, Roberto Causo crê que o papel de vilão das empresas tenha a ver com certo descrédito no livre mercado.
      "A ausência do Estado na regulação da economia deu poder às empresas e levou a crises financeiras e acidentes ecológicos", afirma.
      "Nisso surge nos escritores o medo de que as corporações subvertam a democracia e a economia domine a política."
      Colaborou RAQUEL COZER
      Segmento juvenil vive 'boom' de fórmula
      DE SÃO PAULO
      Se, no segmento adulto, as distopias rendem debates, no mercado juvenil dão em best-sellers. O exemplo mais famoso é a bem-sucedida trilogia "Jogos Vorazes", da americana Suzanne Collins, editada no Brasil pela Rocco.

      A autora é a que mais vendeu livros na história do Kindle, o aparelho da Amazon, que não detalha números.

      Publicada em 2008, a série originou no cinema uma franquia cujo primeiro filme fez US$ 408 milhões nos EUA.

      O êxito inspirou sucessores na literatura com levada semelhante: histórias futuristas sobre adolescentes que enfrentam os dilemas de um destino já traçado.

      É o caso da série "Divergente", de Veronica Roth (Rocco, R$ 39,50 cada volume), "Delírio", de Lauren Oliver (Intrínseca, R$ 29,90 cada volume), e "Destino", de Ally Condie (Suma de Letras, R$ 31,90 o primeiro volume),

      No Brasil, a fórmula resultou na série "Anômalos", da brasiliense Bárbara Morais, 24. O primeiro volume, "A Ilha dos Anômalos" (Gutenberg, R$ 34,90), acompanha uma jovem que é segregada por ter poderes especiais.

      Inspirada na série "Jogos Vorazes", Morais diz que distopias "fazem todo o sentido para quem é adolescente".

      "É uma fase de desencanto com o mundo, com os adultos. Os jovens se sentem deslocados, oprimidos", diz.

      "Há uma pressão grande sobre o adolescente desde cedo; por competitividade, por bom desempenho", diz o escritor Roberto Causo. "Não é à toa que nesses livros os heróis são sempre recrutados cedo demais a cumprir alguma missão."

      (GG)

      Álvaro Pereira Júnior

      folha de são paulo
      2014 já era
      Em um futuro próximo, uma única organização totalitária controla o acesso à internet
      Que inferno é o futuro. Mas Mae Holland não se dá conta disso, pelo contrário. "Meu Deus, é o paraíso", diz, ao conhecer o campus de seu novo emprego, um gigante da internet chamado O Círculo. Prédios de vidro e aço, pés-direitos infinitos, quadras de vários esportes, refeitórios com chefs internacionais, e slogans por toda a parte. "Sonhe". "Participe". "Respire".
      Mae está a ponto de mergulhar em um pesadelo totalitário, mas não se pode culpá-la por não perceber. Ela vem de um trabalho terrível, na companhia de gás e luz da cidadezinha onde vivia com os pais. Conseguiu entrar no Círculo por intermédio de um amiga de faculdade, a glamourosa Annie, alta dirigente da Gangue dos 40, os executivos mais influentes da organização.
      Gangue dos 40 é uma clara alusão à Camarilha dos Quatro ("Gang of Four"), o grupo antirreformista comandado pela viúva de Mao Tse-tung na China dos anos 70. Não será a primeira nem a última referência a regimes autoritários em "The Circle", novo romance do americano Dave Eggers, lançado no fim de 2013 nos EUA. Mae é sua protagonista.
      O livro se passa em um futuro próximo. Em que Santiago Calatrava ainda faz projetos (no caso, uma fonte no tal campus), mas em que Google e Facebook foram tornados obsoletos pelo Círculo.
      Isso porque o Círculo, comandado por executivos conhecidos como Os Três Sábios, criou um sistema universal de uso da web, unificando todas as contas de e-mail, perfis de redes sociais, transações bancárias e de comércio. Controle absoluto.
      Dave Eggers, 43, vive na região de San Francisco. Lá montou um pequeno império "indie", que inclui a editora McSweeney's e a revista literária "Believer". Como apontaram alguns resenhistas estrangeiros, faz parte da última geração de autores a firmar reputação nos meios de papel, antes de a internet crescer tanto. Não surpreende que venha de alguém como ele --com esse histórico pessoal, e vizinho do vale do Silício-- uma visão tão ácida das contradições da rede.
      Mae começa no atendimento a anunciantes. Sua fama de eficiente (e também de amiga de Annie) logo se espalha. Até que um dia é chamada para uma conversa. Seus superiores querem muito mais.
      Mae, por que você não participa de nossas redes sociais internas? Não gosta de caiaques? Por que não faz parte das nossas comunidades de interessados no esporte? E na nossa rede de mensagens curtas, por que não escreve? O que você fez no fim de semana? Nenhuma foto, nenhum vídeo? Mae, você tem de participar, compartilhar, dividir, comentar!
      Nasce então uma nova Mae Holland, 100% dedicada ao Círculo. Mal dorme. Muda-se para o campus. Não tem tempo de ir para casa.
      Muito comparado a "1984", "The Circle" tem uma diferença fundamental: o sistema opressor imaginado por George Orwell vem do Partido, de um governo totalitário; já o Circulo é uma organização supostamente interessada em fazer o bem.
      Por que não instalar em todos os pontos do planeta câmeras invisíveis de altíssima definição? Se todo mundo souber que está sendo vigiado o tempo todo, não haverá mais crimes! E por que não implantar chips em todos os recém-nascidos, para que se saiba a localização de todas as crianças do planeta, inibindo a ação de pedófilos?
      Mae se entusiasma, ganha destaque, acaba se aproximando dos Sábios. Passa a portar uma das pequenas câmeras. Transmite 100% de sua vida, em tempo real. Supera a amiga Annie em prestígio.
      Duas vozes tentam dissuadir Mae. Uma é Mercer Medeiros, um ex-namorado que nunca saiu da cidadezinha onde cresceram. Não quer saber de vida on-line e chama de "seita" o Circulo e seus adeptos (quase 100% da humanidade). A outra vem do misterioso Kalden, que aparece às vezes no campus, diz que trabalha no Circulo, transa com Mae, e tenta convence-la a interromper esse "pesadelo totalitário".
      Nessas duas "vozes da razão" me parece estar a principal deficiência do romance. Falam de maneira condescendente, como se lessem um manifesto, parecem bonecos de ventríloquo do autor. Também há várias situações implausíveis e personagens caricatos.
      Mas, a meu ver, "The Circle" se sustenta pelo forte viés antiautoritário, e por uma visão crítica, mas não passadista, do papel da internet. O final é perturbador. Que saia logo no Brasil.

        Ruy Castro

        folha de são paulo
        Mãos alheias
        RIO DE JANEIRO - Há meses, um megagrupo francês, Vivendi, depois de abocanhar a gigante americana Universal --esta, já resultado de 50 anos de fusões na área das gravadoras de música popular--, comprou a outra gigante, a inglesa EMI, também a soma de 50 anos de fusões na mesma área. Significa que, agora, o legado de Bing Crosby, Carlos Gardel, Edith Piaf, Frank Sinatra, Amália Rodrigues, os Beatles, os Rolling Stones e outros do mesmo calibre --até há pouco sob diferentes bandeiras-- tem um só dono.
        Nas economias marca barbante, como a brasileira, essas fusões levam a uma fria e implacável desnacionalização. Neste momento, por exemplo, 90% da música popular gravada no Brasil no século 20 pertencem a três grupos estrangeiros: a dita Vivendi, a japonesa Sony e a americana Warner.
        A novidade não está no fato de a história da música brasileira não pertencer a brasileiros --porque só às vezes isso não aconteceu. Mas no de que, desde os anos 30, ela nunca esteve concentrada em tão poucas mãos, e alheias. Naquela década, por exemplo, era dominada pela inglesa Odeon (aliás, EMI) e pelas americanas Victor e Columbia.
        Essas potências nunca perderam o domínio, mas, a partir de 1945, tiveram de ceder parte do território a pequenas e bravas gravadoras brasileiras que começaram a surgir, como a Continental, Sinter, Copacabana, Todamérica, Star, Musidisc, Mocambo, RGE, Chantecler, e, nos anos 60, os bravíssimos selos Festa, Elenco, Forma, Cid, Equipe, Som Maior, Farroupilha, Imagem. Com o tempo, no entanto, todos esses nanicos foram sendo absorvidos pelos grandes e estes, por outros novos no mercado e ainda maiores.
        Os quais se comeram uns aos outros e, hoje, de novo em três, controlam o nosso passado musical -- o que, como dizia George Orwell, é essencial para controlar também o presente e o futuro.