terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Explosão no número de obesos ameaça sistemas de saúde de países emergentes1


Rémi Barroux

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Qual a melhor maneira de combater a obesidade?10 fotos

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A obesidade é considerada a doença epidêmica do século 21 para a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, metade dos adultos são obesos, número similar ao encontrado nos países ricos. Por isto, foi criado o Dia Internacional de Combate à Obesidade, celebrado em 11 de outubro, para conscientizar a população dos malefícios causados à saúde pelo excesso de peso. A educação é o primeiro passoKokhanchikov/Shutterstock
É uma doença que vai custar cada vez mais caro à economia mundial. Mais de um em cada três adultos no mundo sofre de obesidade ou de sobrepeso, ou seja, 1,46 bilhão de pessoas. Em menos de trinta anos, entre 1980 e 2008, o número dessas pessoas quase que quadruplicou nos países em desenvolvimento, passando de 250 milhões para 940 milhões. No mesmo período, o número aumentou 1,7 vezes nos países de rendas mais elevadas.
Ao publicar, no dia 3 de janeiro, um relatório dedicado aos problemas da alimentação, o The Overseas Development Institute (ODI), um círculo de reflexão britânico sobre o desenvolvimento e as soluções humanitárias, enfatiza a explosão no número de obesos nos países emergentes. "O que mudou foi que a maioria das pessoas com sobrepeso ou obesas hoje se encontram nos países em desenvolvimento, no lugar dos países desenvolvidos", explicam os autores do relatório, Sharada Keats e Steve Wiggins, dois pesquisadores especializados em agricultura.
Inúmeros fatores explicam essa mudança. A "transição nutricional", ou seja, a mudança de comportamento e da alimentação se deu rapidamente. "Mais densidade calórica e energética, mais gordura e açúcar, o aumento do tamanho das porções, uma alimentação mais acessível e disponível, a perda dos modelos culturais tradicionais são todos fatores que caracterizam essa transição nutricional", analisa o professor Arnaud Basdevant, do serviço de nutrição no Hospital de Pitié-Salpêtrière. As migrações para as cidades, a sedentarização com mobilidade reduzida, os poluentes urbanos agravaram o fenômeno.
As consequências esperadas para a saúde são alarmantes. "Em todo o mundo vamos assistir a um grande aumento no número de pessoas que sofrem de determinados tipos de câncer, de diabetes, de acidentes vasculares cerebrais e de crises cardíacas, criando um pesado fardo sobre os sistemas de saúde pública", alerta Wiggins.
Para Arnaud Basdevant, "a epidemia de diabetes pela qual podemos esperar será praticamente insustentável financeiramente para esses países emergentes". Na escala da China, da Índia, do Brasil, do México... são milhões de pessoas que necessitarão de grandes cuidados. "Não será algo imediato, é preciso que as populações em questão tenham tempo de ganhar peso, passem para o sobrepeso e depois atinjam a obesidade até a obesidade crônica", detalha o professor. "Mas, daqui a quinze ou vinte anos, esses custos serão consideráveis."
Segundo diferentes estudos, a obesidade representaria entre 2% e 5% dos gastos com saúde nos países industrializados. Na Europa, a Comissão Europeia havia calculado esse montante em 7% dos gastos com saúde pública: "Um número que continuará a aumentar diante da tendência crescente da obesidade", afirmou a Comissão no final de 2005. Na França, em um estudo publicado no "La Presse Médicale" em 2007, a soma variava entre 2,6 e 5,1 bilhões de euros (R$ 8,4 a R$16,5 bilhões), mais de 6 bilhões se forem levados em conta os custos das interrupções no trabalho associadas a essa patologia.
Em seu relatório "A obesidade e a economia da prevenção" (2010), Franco Sassi, economista da saúde na Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos, observou que "uma pessoa obesa gera gastos com saúde 25% maiores do que uma pessoa de peso normal". Sassi apontava para o fato de que os mais afetados eram as pessoas mais vulneráveis do ponto de vista social e econômico: "Os indivíduos obesos ganham até 18% a menos que os não-obesos".
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Dezesseis hábitos diários que previnem a obesidade infantil16 fotos

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A criança deve comer cinco ou seis refeições (café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia) em locais apropriados e horários pré-estabelecidos. Leia mais Getty Images
Nos países emergentes, as pessoas mais expostas aos riscos da obesidade em muitos casos foram afetadas primeiro pela desnutrição. "As crianças cuja mãe sofreu desnutrição ou que elas mesmas a tenham vivido se tornam obesas ou diabéticas com mais facilidade; isso foi constatado na Índia", explica o professor Basdevant. "Quanto mais rápidas são as mudanças de comportamento alimentar, mais rapidamente a obesidade se instala". É uma forma de dupla punição. "Nos países da América do Sul, observa-se a coexistência, em uma mesma região, uma mesma cidade ou até mesmo uma mesma família, de casos de desnutrição e de sobrepeso", ele diz.
A obesidade não é mais um problema de responsabilidade individual. "Em geral, e particularmente nesses países, o combate não se dá no nível do indivíduo, pois se trata de uma doença crônica, associada à evolução dos modos de vida e do meio ambiente", analisa Basdevant. "Cabe aos governos pensar as políticas de saúde e de nutrição, tanto nas escolas como nas empresas, mas também as políticas urbanas e de transporte."
O relatório da ODI insiste na insuficiência de políticas públicas para o combate à obesidade. "Os dirigentes devem ser menos temerosos em suas tentativas de influenciar o tipo de alimentação que vai parar em nossos pratos", afirma Steve Wiggins. Nestes tempos de globalização que uniformiza os costumes alimentares, os dois autores também ressaltam a responsabilidade dos mercados e dos preços agrícolas. Essa constatação foi feita pelo Banco Mundial, que observa que "com a persistência dos altos preços dos alimentos e provavelmente cada vez mais instáveis, as calorias 'ruins' tendem a custar mais barato que as boas."
Tradução: UOL

Fuvest exigiu reflexão no 2º dia, dizem professores

folha de são paulo
Abstenção foi de 8,3%; provas continuam hoje
DE SÃO PAULOO segundo dia de provas da etapa final da Fuvest, ontem, exigiu muita reflexão dos candidatos, segundo professores ouvidos pela Folha.
Foram aplicadas 16 questões dissertativas de matérias do ensino médio, como história, biologia, e matemática.
Para Célio Tasinafo, diretor pedagógico do curso Oficina do Estudante de Campinas (SP), a prova se destacou pela interdisciplinaridade.
"A questão de matemática sobre análise combinatória dos senadores do Brasil, por exemplo, trazia uma pergunta de geografia", explica.
"Não dá para dizer que a prova foi difícil, mas não daria para fazê-la sem reflexão."
"Foi uma interdisciplinaridade real que exigia conhecimento em pelo menos duas áreas", diz Luís Ricardo Arruda, coordenador do Anglo.
Para Vera Lúcia Antunes, coordenadora do curso Objetivo, o exame também "trouxe questões atuais".
O segundo dia de prova teve 8,3% de ausentes. Hoje, os candidatos respondem a 12 questões, de acordo com a carreira escolhida.

    Subindo montanhas - Suzana Herculano-Houzel

    folha de são paulo

    Nós sabíamos que o passeio de Natal em um parque no sul do Chile envolveria cerca de seis horas de caminhadas diárias com 20 kg nas costas, de um acampamento ao próximo –mas não exatamente que seria um total de 44 km percorridos em quatro dias, com várias ribanceiras espetaculares, algumas vezes contra o vento fenomenal de uma geleira.

    A primeira hora de caminhada corria bem. Mas, já com músculos ardendo e tendões se manifestando, como encontrar forças (leia-se motivação) para as horas e muitos quilômetros por vir, para ainda encarar tudo de novo no dia seguinte?

    Ajuda saber que motivação é a antecipação do prazer que recompensará um esforço para conquistar alguma coisa. Essa "alguma coisa" vai de ver os amigos a receber um pagamento no banco –e passa por visitar lugares incríveis na companhia de quem se ama. Ver de perto o Glaciar Grey, os Cornos e as Torres do Paine e curtir todos os acontecimentos e acampamentos no caminho são recompensas que só recebe quem se dispuser a suar, e muito. As fotos deslumbrantes no mapa e nos sites que visitamos serviram como uma grande cenoura na ponta da varinha.

    Informação também é fundamental. Os marcos informativos nas trilhas a cada dois quilômetros só faltam falar: "Vamos lá, você já andou dois quilômetros, faltam apenas mais nove... mais sete... cinco...". Na falta dos postes, e quando minhas forças minguavam, criei meus próprios marcos contando meus passos, um por metro. Ajudou muito: de repente, eu tinha evidência de que os quilômetros passavam de fato. Saber que o esforço não é em vão é um santo empurrão.

    Saber que não dá para sentar e chorar também é uma ajuda e tanto: ou você anda para a frente ou para trás, mas desistir e ficar por ali mesmo não dá, pois não é permitido acampar no caminho. Em nosso caso, nossos cérebros berravam "para a frente!", pois (sabiamente) reservamos um hotel dentro do parque para as duas últimas noites, com cama de verdade, comida de verdade, chuveiro de verdade.

    Vislumbrar o hotel no horizonte após cinco horas de ribanceira foi a motivação de que precisávamos para completar os últimos quilômetros. Mas as Torres, o último passeio programado, ficaram para a próxima vez. Não houve dopamina suficiente que convencesse nossos cérebros a deixar o conforto do lobby quentinho, pisco sour em mãos, para encarar mais quatro horas de ribanceira...
    suzana herculano-houzel
    Suzana Herculano-Houzel, carioca, é neurocientista treinada nos Estados Unidos, França e Alemanha, e professora da UFRJ. Escreve às terças, a cada 15 dias, na versão impressa de "Equilíbrio".

    Claudia Collucci

    folha de são paulo

    Vidas sugadas pelos ralos


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    No primeiro dia do ano, Kauã brincava com a avó na piscina de um condomínio em Caldas Novas (GO), quando teve o braço sugado pelo ralo. Ficou dez minutos submerso até que conseguiram retirá-lo, inconsciente, da piscina. Morreu no sábado (4 de janeiro). Tinha sete anos.
    No mesmo dia, a 550 km dali, era enterrada a menina Mariana, 7, em Belo Horizonte (MG), pelo mesmo motivo: teve os cabelos sugados pelo ralo da piscina enquanto brincava em um tobogã de um clube da cidade. Foram 20 minutos de tentativas até conseguirem retirá-la da água já inconsciente.
    Duas mortes quase simultâneas que se somam a tantas outras que poderiam ter sido evitadas se as piscinas brasileiras tivessem um dispositivo de segurança que evita a sucção dos ralos. Quantas outras serão necessárias ocorrer para que esses dispositivos se tornem obrigatórios?
    Vários países, como Estados Unidos e Colômbia, já aprovaram leis sobre esse tema. Na Colômbia, a Lei de Segurança de Piscinas torna esses dispositivos obrigatórios em todas as piscinas, inclusive as residenciais.
    Mas não basta só a lei. Tem que ter fiscalização e punição para os responsáveis desses locais que estiverem fora dos padrões de segurança. Pais, sócios de clubes e condôminos precisam também estar atentos e cobrar os administradores desses locais não só para a proteção dos ralos como também para a presença de salva-vidas e outras medidas de segurança. A família de Kauã, por exemplo, diz que não havia salva-vidas no condomínio onde o menino se afogou.
    Segundo a Sobrasa (Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático), o afogamento é a segunda causa de morte entre crianças até nove anos. As piscinas são responsáveis hoje por metade desses afogamentos, mas não se sabe quantas delas estão associadas à falta de segurança dos ralos .
    Também não há levantamento do número de crianças sequeladas. São muitas por aí vivendo em estado vegetativo pela falta de oxigenação no cérebro durante o afogamento.
    O verão está aí, as piscinas estão lotadas. Que as mortes de Kauã, de Mariana e de tantas outras crianças não tenham sido em vão. Que elas sirvam de alerta para prevenir outras.
    cláudia collucci
    Cláudia Collucci é repórter especial da Folha, especializada na área da saúde. Mestre em história da ciência pela PUC-SP e pós graduanda em gestão de saúde pela FGV-SP, foi bolsista da University of Michigan (2010) e da Georgetown University (2011), onde pesquisou sobre conflitos de interesse e o impacto das novas tecnologias em saúde. É autora dos livros "Quero ser mãe" e "Por que a gravidez não vem?" e coautora de "Experimentos e Experimentações". Escreve às terças, no site.

    Helio Schwartsman

    folha de são paulo
    Comércio e solidariedade
    SÃO PAULO - Sempre instigante, Rubens Ricupero fez em sua coluna publicada ontem na Folha algumas observações valiosas sobre a noção de progresso da história. Concordo com quase tudo, mas acho que ele foi um pouco apressado ao diminuir o papel do comércio como uma força capaz de promover a cooperação entre os povos.
    Steven Pinker sugere que o comércio foi e ainda é um poderoso agente da paz. Embora possa gerar desentendimentos ocasionais, a possibilidade de fazer negócios com estrangeiros altera a lógica por trás das relações entre grupos não aparentados.
    Durante a maior parte de nossa história evolutiva, sempre valeu a pena massacrar a tribo vizinha, desde que o fizéssemos em relativa segurança. A existência de outros clãs não apenas não nos acrescentava nada como ainda representava um risco, já que eles poderiam considerar que constituíamos uma ameaça para eles e tentar nos destruir. Na dúvida, atacávamos primeiro. É o que ainda fazem os chimpanzés selvagens.
    O comércio muda a matemática que nos punha nessa armadilha. A possibilidade de trocar bens faz com que o outro adquira valor para mim. Já não vale a pena matá-lo à primeira oportunidade. O jogo de soma zero dá lugar a um de soma positiva.
    É evidente, como sugere Ricupero, que o comércio não nos fará amar uns aos outros, mas nem sei se isso seria desejável. Se fôssemos todos poços de altruísmo que atribuíssem ao próximo o mesmo valor que damos a nós mesmos, estaríamos em maus lençóis. Em termos de logística social, faz todo sentido que a mãe se preocupe mais com seu filho do que com filhos de desconhecidos e canalize de forma nepotista e pouco solidária mais recursos para seu rebento. A isso nós chamamos de amor.
    A humanidade tem melhorado ao longo dos século e penso até que podemos falar em progresso moral, mas creio que existem limites biológicos para até onde podemos chegar.

      Eliane Cantanhêde

      folha de são paulo
      Intervenção já!
      BRASÍLIA - Não bastasse ser o último, ou estar na rabeira, do IDH, do ensino de matemática, do ensino de português, do saneamento básico e por aí afora, o Maranhão dos Sarney choca o país, quiçá o mundo, com atos de pura barbárie.
      Só os cineastas mais violentos, talvez nem eles, poderiam produzir cenas em que dissecam a perna de um preso (ou seja, sob a custódia do Estado brasileiro). Tiram a pele, depois músculos, veias, artérias, até o osso.
      Também só cineastas doentios, talvez nem eles, armariam o cenário, destacariam atores e filmariam pessoas (também sob a responsabilidade do Estado) sendo decapitadas.
      Onde nós estamos?
      Foram estupros e 60 mortes em 2013, e 2014 já começou com mais duas. A crise extrapolou as grades e foi parar nas ruas, onde vândalos atacaram ônibus e atearam fogo numa menininha na... "Vila Sarney". Ela morreu ontem. A mãe está mal.
      Meu pai nasceu em Pedreiras, o foco macabro é a penitenciária de Pedrinhas e essa nova crise não deixa pedra sobre pedra na biografia do patriarca José Sarney no seu Estado de origem. O vandalismo dos presos não é isolado. Apenas reflete a situação carcerária que, por sua vez, reflete a calamidade pública geral.
      Folheiam-se os jornais e encontram-se ali, entre os recordes do pior nisso, pior naquilo, outras muitas histórias horripilantes. Cito uma, porque o espaço é curto: os carros, carteiras, cadeiras e os materiais escolares que foram enviados pelo governo federal para a Prefeitura de São Luís, novíssimos, apodreceram debaixo de sol, chuva e descaso, sem jamais terem sido usados.
      Tudo se encaixa. Ontem mesmo, a empregada lá de casa comentou: "A moça da vizinha não sabe ler nem escrever. Pensei que não existia mais isso". De onde ela é? "Do Maranhão".
      A realidade supera a ficção mais macabra e soa patético o governo Roseana se irritar e responder à Procuradoria Geral que são "inverdades".
      Intervenção já!

        Carlos Heitor Cony

        folha de são paulo
        O barco verde
        RIO DE JANEIRO - Acabo de ler os originais do novo romance de Heloisa Seixas, que deverá ser lançado nos primeiros meses deste ano. Evidente que escreverei sobre ele, como escrevi quando ela estreou em livro com "Pente de Vênus". Acontece que o novo romance me causou um impacto que não sentia há muito. O fato de ser bem escrito e usar uma técnica surpreendente (não me lembro de ter lido um livro de ficção com a mesma construção revolucionária) seria bastante para colocá-lo na estante mais nobre da nossa literatura.
        Teria de destacar muitas passagens de uma história que começa como um diário pessoal e logo se transforma numa biografia emocionante, independente de ser ou não ser autorizada, clima e problemas do nosso tempo, um drama real que Shakespeare colocaria entre "os mil acidentes da carne".
        Há uma pequena passagem que é conhecida por muitos mas para mim foi um soco não na alma (que eu não tenho) mas nas vísceras obscenas de ateu assumido e, pelo menos nesse departamento, ple- namente realizado.
        O livro tem título inspirado num dos clássicos filmes de Bergman: "O Sétimo Selo", o homem devastado que encontra a Morte numa praia deserta e joga com ela uma partida de xadrez. Se perder, será levado por ela para a sombra final. O personagem de Heloisa nem tem a possibilidade de ganhar a partida, mas joga assim mesmo, enfrentando os xeques-mate do fantasma que sempre nos vence.
        Em dado momento, o personagem está numa clínica de recuperação e ouve um pastor perguntar se alguém na plateia não crê em Deus. Ele levanta a mão: não crê nem gosta de Deus. O pastor propõe uma situação limite: você está se afogando num oceano profundo e distante. Aparece um barco verde, mas você não gosta do verde e recusa a salvação.