quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eu.2 - Francisco Daudt

folha de são paulo
Eu.2
Tal unidade não existe. São meus desejos acionados a cada momento que tirarão um rosto desse poliedro
"Carlos, eu não sou três, nem trinta e três, sou trezentos e trinta e três", escrevia Mário de Andrade para seu amigo, o poeta Carlos Drummond de Andrade ("A lição do amigo", 1982).
Ele se dava conta de como é difícil (e inútil) responder à pergunta "Quem sou eu?". Tal unidade não existe. São meus desejos acionados a cada momento que tirarão um rosto desse poliedro multifacetadíssimo, que é como roda o programa Eu em nossa mente.
Quem sou eu que te escreve, leitor? Acionado por desejos que contêm vaidade, vontade de cuidar, de ser claro e me fazer entender, de raiva dos psicogentes que falam enrolado e que se escondem atrás de um silêncio que lhes dê uma aura de importância (que não têm).
Pela vontade que a psicanálise cumpra um papel social, já que, como terapia, ela é irremediavelmente elitista (ok, um pouco atrás da neurocirurgia).
Enfim, essa é a cara que aqui se dá a tapa, que põe o bacalhau na porta da venda para o freguês ver se ele presta ou não, é este um Eu aqui presente.
"Eu" (Ego; Le moi; das ich) está em permanente risco de construção ou de consumição.
Ele se encontra entre poderosas forças internas e externas. As internas o pressionam com o desejo de agregar e de desagregar (Eros e o impulso de morte), esses desejos ardem por satisfação, de formas que "Eu" não considera possível, já que outro programa, o superego (o acima de mim; Le surmoi; das überich), vem com todo o seu poder de crítica, de culpa, de exigências de pureza e perfeição, como um censor cruel a dizer, "como você ousou pensar nesse desejo?".
Sim, para um superego poderoso existe pecado de pensamento, e seu poder vem de suas ferramentas punitivas (ameaças físicas, de "sifudências", de ridículo, e a pior delas, de culpa) a dizer, "olha só o que vai te acontecer se..."
As forças externas acabam por ser internas também, já que não temos outro jeito de lê-las senão por nossos sentidos, que as jogam para dentro e as modificam: ora para pior (baratas monstruosas), ora para menos (negação: um elefante na sala varrido para debaixo do tapete).
Tendo que atender esses guichês todos, nosso "Eu" vira um reles diplomata atarantado, ou, nas palavras de Fernando Pessoa: "Começo a conhecer-me. Não existo. / Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram".
Já temos então um caminho para que o Eu exista, e não seja só um chinês dos pratos, eternamente apavorado e correndo de um lado para o outro para não deixar que nenhum deles caia.
É preciso que ele conheça seus inimigos, como dizia Sun Tzu, ou, como na síntese de Spinoza, que ele saiba mais sobre os cordéis que o manipulam.
Essa é a função da psicanálise e do conhecimento da natureza humana, de como a genética influencia nosso comportamento.
É o que meu Eu vem tentando fazer, primeiro em meu próprio benefício, depois em cada espaço que me abrem, seja aqui, seja no consultório, seja na TV.
A ética com que mais simpatizo é a utilitarista, de John Stuart Mill: a infelicidade dos outros atrapalha a minha felicidade, donde, quero que todos possam ser felizes.

Elio Gaspari

jornal o globo
Kennedy e a deposição de Jango
O osso duro de roer não está no que os EUA fizeram em 1964, mas no que fizeram entre 1968 e 1976
No dia 7 de outubro de 1963, 46 dias antes de ser assassinado, John Kennedy presidiu uma longa reunião na Casa Branca e nela, em poucos segundos, fez a pergunta essencial a Lincoln Gordon, seu embaixador no Brasil: "Você vê a situação indo para onde deveria, acha aconselhável que façamos uma intervenção militar?". Gordon mostrou-lhe que esse era um cenário já discutido, porém improvável.
Um ano antes o presidente americano pusera no seu baralho a carta de um golpe militar para depor João Goulart. A associação de Kennedy ao golpe está amparada nos fatos, mas ao longo do tempo pareceu mais fácil jogar a responsabilidade em Lyndon Johnson, seu detestado sucessor. Desse truque participou até mesmo Jacqueline, sua adorável viúva.
Tudo ficaria mais fácil se Jango tivesse sido derrubado pelos americanos, mas ele foi deposto pelos brasileiros, numa sublevação militar estimulada e apoiada por civis. A Casa Branca, contudo, sagrou a insurreição reconhecendo o novo governo enquanto Jango ainda estava no Brasil, cuidando de suas fazendas, a caminho do Uruguai.
Passados cinquenta anos, numa época em que o aparelho de segurança americano grampeia comunicações pelo mundo afora e mata gente com seus drones, vale recordar outro momento da ditadura brasileira. Em 1971, o presidente Emílio Médici visitou Washington e foi festejado pelo presidente Richard Nixon com a frase "para onde for o Brasil, também irá o resto do continente latino-americano". Discutiram a derrubada do presidente chileno Salvador Allende (ela ocorreria dois anos depois) e o general brasileiro ofereceu-se para ajudar no que fosse possível para derrubar Fidel Castro.
Em agosto de 1970, a embaixada americana em Brasília mentia para o Departamento de Estado informando que a tortura estava sendo substituída por métodos "mais humanitários" de interrogatório. Citava dois casos de mulheres presas em São Paulo. Pura patranha. Ambas haviam sido torturadas no DOI, onde o consulado americano mantivera um pesquisador-visitante. Ademais, endossara uma versão falsa da morte de um preso. (O cônsul no Rio, Clarence Boonstra, desmentia essa informação.) Num depoimento ao Senado americano, o chefe do programa de segurança pública do programa de ajuda ao Brasil disse que não sabia o que era o Codi e não lembrava o que fosse uma "Operação Bandeirante". A fraternidade da diplomacia americana com o DOI rompeu-se com a chegada a São Paulo de um novo cônsul, Frederic Chapin, personagem injustamente esquecido na história do período.
A cumplicidade do governo americano com o regime brasileiro terminou em 1977, quando assumiu o presidente Jimmy Carter. (Um ano depois da demissão do general Ednardo D'Avila Mello pelo presidente Ernesto Geisel por causa da morte de um preso no DOI de São Paulo.) Empunhando a bandeira dos direitos humanos, Carter afastou-se das ditaduras latino-americanas. Com essa reviravolta, os Estados Unidos fizeram melhor que os franceses, que mandaram ao Brasil como adido militar o general que se intitularia "maestro" da tortura na Argélia, ou que os ingleses, que forneceram a tecnologia de celas especiais para o DOI do Rio. Nelas, som e silêncio, calor e frio, alternavam-se para desestruturar os presos.

Antonio Delfim Netto

folha de são paulo
Caiu a ficha
A grande vantagem do calendário é que ele, psicologicamente, define um período ao qual damos significação. Temos a sensação de que 31 de dezembro encerra um período. Em 1º de janeiro inicia-se outro, novinho, como se houvesse uma descontinuidade física no tempo vivido.
Tudo se passa como se os fogos do Ano-Novo tivessem consumido consigo as alegrias e decepções, os erros e acertos de 2013. As contas são fechadas de forma inexorável e definitiva. É inútil ficar triste. É inútil blasfemar. É inútil arrepender-se. É inútil recorrer a contrafactuais que eram então oportunidades mas foram perdidas. O tempo terminou: 2013 foi o que nossas escolhas (do governo e do setor privado) fizeram dele! O que está feito está feito. Não pode ser não feito! Talvez possa ser refeito!
O problema é que a realidade física do mundo de janeiro é a mesma de dezembro à qual insistimos dar nomes diferentes na busca de novas esperanças que não se concretizarão se não houver convergência mais rápida do entendimento da realidade (e das limitações que ela impõe) por parte do governo e do setor privado. Três anos de desconfianças, suspeitas e incompreensões do setor privado e de um longo aprendizado do governo no tempo contínuo de 1.095 dias produziram um resultado pobre: 1) taxa de crescimento do PIB de 6%; 2) taxa de inflação de 19% e 3) deficit em conta corrente de US$ 187 bilhões.
Pobre, mas em relação a que? Àquilo que era razoável esperar, descontado o efeito da menor expansão mundial: 1) crescimento de 3% ao ano (ou 9% no período) contra os 6% (2/3 do esperado); 2) uma taxa de inflação declinante, a partir dos 5,9% de 2010, de 0,5% ao ano, para entregar a "meta de 4,5%" em 2013. Algo como 16% contra os 19% verificados (20% acima do esperado) e 3) um deficit em c/c de 2,7% do PIB, contra 1,8% do triênio anterior, o que o aumentou de US$ 127 bi para US$ 187 bi (47% acima do que ocorreu no triênio anterior cujo PIB cresceu 13% contra os 6% atuais!).
Não adianta sofisticar os diagnósticos e as receitas que eles sugerem. Com a enorme desconfiança recíproca entre o governo e o setor privado empresarial, existente até há pouco, não havia política econômica que funcionasse. Felizmente "caiu a ficha": a Casa Civil e os ministérios da Fazenda e dos Transportes, que "escutavam, mas não ouviam", passaram a "ouvir". E o setor privado, por sua vez, entendeu que "modicidade tarifária" não era "socialismo". Os primeiros resultados são visíveis: os sucessos dos leilões de infraestrutura mostram que o diálogo está restabelecendo a confiança. Com ela virão os investimentos!
Talvez essa seja mesmo uma descontinuidade temporal que fará um 2014 melhor do que a média do triênio 2011-13.

    Fígado no pirex - Ruy Castro

    folha de são paulo
    Fígado no pirex
    RIO DE JANEIRO - Em criança, habituei-me a ver nas revistas compradas por minha mãe anúncios de gelatinas, suflês e arroz de forno acondicionados em pirex. Não me lembro se a estrela desses anúncios eram os quitutes ou o próprio pirex, então novidade por aqui. Mas uma foto outro dia nos jornais não deixou margem a dúvidas. Era a de um pirex contendo um fígado humano --um fígado criado por uma impressora 3D.
    A foto, apesar do realismo, era uma simulação do que ainda está para vir: a reprodução de um órgão humano a partir do zero --uma "bioimpressão". A notícia é a de que um laboratório americano em breve conseguirá imprimir células reais de um fígado, com os competentes sangue, nutrientes e outras gosmas, camada por camada, até formar um órgão capaz de exercer todas as funções de um fígado real. Que, num primeiro instante, não servirá para transplantes, mas é questão de tempo.
    É fabuloso, pena que não tenham pensado nisso antes. A literatura, por exemplo, agradeceria. Apenas entre os escritores americanos dos últimos 100 anos, Eugene O'Neill, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Dorothy Parker, Robert Benchley, William Faulkner, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, John Steinbeck, Tennessee Williams e Truman Capote, em algum momento, teriam se beneficiado de um fígado novo. Entre os atores, John Barrymore, W.C. Fields, Errol Flynn, Spencer Tracy, Joan Crawford, William Holden, Montgomery Clift, Ava Gardner e Marilyn Monroe.
    No Brasil, Lima Barreto, Pixinguinha, Ary Barroso, Noel Rosa, Grande Otelo, Vinicius de Moraes, Lucio Cardoso, Dalva de Oliveira, Isaurinha Garcia, Jânio Quadros, Paulo Mendes Campos, Nelson Cavaquinho, Garrincha, Maysa, Baden Powell e metade dos jornalistas da minha geração, inclusive eu, poderiam ter recorrido a esse apêndice.
    Qualquer um seria perfeito como piloto de provas do fígado 3D.

      Banquete totêmico - Igor Gielow

      folha de são paulo
      Banquete totêmico
      BRASÍLIA - As estarrecedoras imagens da barbárie no presídio de Pedrinhas constituem rotina.
      Para ficar na memória pessoal: desde meus tempos de repórter de polícia, no fatídico 1992 que tornou Carandiru sinônimo de massacre, até hoje, pouco mudou. Busque no Google: há dezenas de notícias sobre estupros, esquartejamentos e decapitações intramuros Brasil afora.
      O que o vídeo revelado por esta Folha traz é uma espiada rara para nós, o mundo exterior. Observamos com horror aqueles que esquecemos se comportando como a mítica horda primitiva de Freud em "Totem e Tabu", matando não só os companheiros, mas acima de tudo o "Pai" dominador representado pelo Estado.
      O texto clássico completou 100 anos recentemente, e o termo "banquete totêmico" é tristemente adequado para o que se vê. Na brilhante análise freudiana, as regras da sociedade (e, por extensão, do indivíduo) surgem do remorso decorrente do assassinato e antropofagia do "Pai" pelos filhos renegados. A consciência moral advém, pois, da culpa.
      Nas prisões sem "padrão mensalão", símbolos do exílio imposto pelo Estado, não parece haver espaço para essa esperança de ordem. A brutalização, que espelha de forma aguda o mal-estar de uma sociedade na qual a desconfiança do outro é a regra, soa insolúvel. Não há intervenção federal pontual que resolva.
      -
      Sábado passado, confundi-me aqui ao comentar as parcerias entre empresas de defesa que competem entre si e citar que o radar do sueco Saab Gripen deverá ser francês como o Dassault Rafale derrotado por ele na disputa da FAB. Deveria: o modelo francês escolhido inicialmente foi substituído por um da italiana Selex.
      Isso não altera o argumento em si. O Gripen segue tendo componentes franceses, e a Saab é parceira da Dassault em um projeto de avião não-tripulado, por exemplo.

        Helio Schwartsman

        folha de são paulo
        Por que educação é importante?
        SÃO PAULO - Para um indivíduo prosperar, basta que ele consiga um trabalho. Mas, para a sociedade progredir, é preciso que as pessoas façam seu trabalho, ou seja, que efetivamente criem bens e serviços.
        Essa diferença já era conhecida dos economistas clássicos. Frédéric Bastiat (1801-50), em seus impagáveis "Sofismas Econômicos", imagina uma petição ao rei para que todos os súditos sejam proibidos de usar a mão direita. A razão do pedido é explicada na forma de silogismo: quanto mais uma pessoa trabalha, mais rica ela fica; quanto mais dificuldades precisa superar, mais trabalha; logo, quanto mais dificuldades uma pessoa tem de superar, mais rica ela se torna.
        Quando a coisa é colocada assim de forma escancarada, percebemos o ridículo da situação. O problema é que raciocínios muito parecidos com esse, quando vendidos sob a palavra de ordem da preservação de empregos, ganham sólido apoio popular. Esse é, na opinão de Bryan Caplan, uma espécie de viés econômico que compromete a noção de democracia.
        Fazendo coro a Bastiat e outros economistas ortodoxos, Caplan sustenta que, enquanto a população vê o desemprego como "destruição de postos de trabalho", especialistas nele veem a "essência do crescimento econômico, a produção de mais com menos". Um exemplo esclarecedor é o da evolução da mão de obra agrícola nos EUA: "Em 1800, era preciso utilizar quase 95 de 100 americanos para alimentar o país. Em 1900, 40%. Hoje, 3%... Os trabalhadores que deixaram de ser necessários nas fazendas foram usados na produção de casas, móveis, roupas, cinema...".
        E onde entra a educação nessa história? Uma força de trabalho intelectualmente preparada não apenas produz com maior eficiência como ainda pode ser mais facilmente readaptada para outras funções, quando seus trabalhos se tornam obsoletos. Cada vez mais, a educação se torna matéria-prima do crescimento.

          Barbárie maranhense - Editorial Folha SP

          folha de são paulo
          Barbárie maranhense
          Selvageria em unidades prisionais do Estado e fraca resposta do governo fazem com que ganhe adeptos tese de intervenção federal
          A esta altura, mesmo a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), mostra-se convencida de que unidades prisionais de seu Estado se transformaram em antros de barbárie, onde detentos para lá enviados pelo Poder Judiciário agem como verdadeiros monstros em plena luz do dia.
          Há dois dias, a mandatária ainda parecia disposta a negar, ou pelo menos minimizar, as violações que têm ocorrido no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís --com 1.700 vagas e 2.500 presos.
          Por meio de nota, acusou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de escrever um relatório contendo "inverdades" sobre o sistema carcerário maranhense. O objetivo seria "agravar ainda mais a situação" nas cadeias, a fim de "descredibilizar medidas" adotadas.
          Agora a governadora já não pode insistir na negação. Vídeo divulgado ontem por estaFolha não deixa lugar para dúvidas --e evidencia, com força rara, o grau de desumanidade a que ali se chegou.
          A mera descrição das imagens basta para embrulhar o estômago. Assistir ao filme na íntegra, gravado pelos detentos com a câmera de um celular, é tarefa para poucos. Durante dois minutos e 32 segundos, três homens decapitados são exibidos de perto; em volta, presos amotinados parecem se divertir com o "documentário".
          Desde o ano passado, disputas entre facções criminosas resultaram na morte de 62 presos e, segundo consta, inúmeros estupros de mulheres que visitavam os presídios. Sem conhecer limites, o horror ganhou a região metropolitana de São Luís em ataques incendiários a ônibus. Em um deles, uma menina de seis anos teve 95% do corpo queimado e não resistiu.
          Governado pelo clã Sarney há quase meio século (com um breve interregno de dois anos), o Maranhão tem se destacado sobretudo pelos indicadores negativos.
          Sua renda per capita média, de R$ 360, é a pior do Brasil; 96% de seus domicílios não têm acesso adequado à rede de saneamento básico; mais de um quinto de sua população com 15 anos ou mais não sabe ler ou escrever.
          Não por acaso ganha adeptos a ideia de que o Estado deveria sofrer intervenção federal, prevista na Constituição, entre outras hipóteses, a fim de garantir a observância dos direitos humanos --dependendo, neste caso, de manifestação do Supremo Tribunal Federal.
          A medida é extrema, sem dúvida, e seus efeitos, duvidosos. Como recurso para proteger a democracia, deve ser usada apenas quando o governo local não estiver procurando interromper as violações, ou quando for absolutamente incompetente para tanto.
          Trata-se de análise subjetiva, mas que o governo de Roseana Sarney, ao tentar negar o óbvio ou criticar quem revela a selvageria, torna cada vez mais objetiva.