quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Jairo Marques

folha de são paulo
A sala dos bobos
Acabara ali o inconveniente de fazer um normal ter de interagir, a fórceps, com aquelas crianças diferentes
Tia Dulce, a professora mais boazinha e paciente do colégio, era a escalada para cuidar da sala onde eram alojadas todas as crianças que alguém, por motivos torpes quaisquer, considerava "especiais".
A sala dos bobos ficava bem próxima à da direção, caso algum dos malucões que lá brincavam de escola precisasse de mais disciplina. Mas isso raramente acontecia. No máximo, eles gritavam de desespero, como se dissessem "odiamos isso aqui".
Passar por perto daquele local causava medo nos alunos arrumadinhos. As histórias que se propagavam durante o recreio do que acontecia com aquela gente eram terríveis.
"Eles babam tudinho nas carteiras", "eles têm olhares esquisitos", "eles brincam com insetos", "eles gritam e são sujões", "eles só veem figurinhas e comem o caderno".
Tudo era feito para que os alunos limpinhos não trombassem com os "especiais", pois poderia causar pânico ou um trauma. Era preciso separar, deixar aquele povo em seu devido lugar, de preferência um lugar reservado, que protegesse os normais.
Só consegui escapar da sala dos bobos porque minha mãe trabalhava no colégio e fez um barraco dizendo que eu era bem próximo de ser gente, apenas era prejudicado das partes, e não merecia aquele castigo.
Eu não era down, não era "tchube das ideias", não era autista, não tinha paralisia cerebral, não tinha, aparentemente, retardo intelectual que me fizesse receber a tatuagem de estranho.
Na sala dos bobos só bobices eram aceitas e pouco importava se, para eles, aquilo tinha valor de cidadania, valor de conhecimento. Era apenas uma forma de dar um sossego para os pais.
O sucesso das salas dos bobos foi tão grande que alguém teve a genial ideia de criar a escola dos bobos, um local inteirinho dedicado aos "especiais"! Acabaria ali, "difinitivamente", como diria minha tia Filinha, o inconveniente de fazer um normal ter de interagir, a fórceps, com aqueles meninos e meninas diferentes.
O mais interessante é que idealizadores, apoiadores e depositante de pessoas nesses recintos propagam maravilhas do modelo que, tirando o paetê e a purpurina, poderia ser visto como sádico.
É ali que o "especial" aprende, é ali que o "especial" se sente bem, é ali que existem pessoas capazes de entendê-los e de respeitá-los, é ali que estão protegidos desse mundo cheio de pessoas perversas e sem defeitos.
Governos também curtem as escolas especiais. É uma excelente maneira de empurrar diferenças para debaixo do tapete e uma forma batuta de dar argumentos a diretores de ensino que não sabem o que fazer com um menino com alguma deficiência intelectual.
"Aqui não é lugar para ele, não temos como lidar com isso que ele tem e não há professores capacitados para tratar dele. Ele precisa de um canto especial."
Até quando o "serumano" irá negar que apenas o todo mundo junto faz evoluir conceitos como igualdade, tolerância e humanidade e irá inventar formas de apartar pessoas?
Escola especial pode ser até complementar, ser mecanismo de apoio, nunca um rumo concreto para direcionar o futuro de pessoas. Simplesmente pessoas.

Redes antissociais - Ruy Castro

folha de são paulo
Redes antissociais
RIO DE JANEIRO - A publicação de jornais e revistas on-line abriu um importante canal de comunicação com os leitores. Assim que leem um artigo ou reportagem, eles podem enviar seu comentário sobre o texto ou o assunto de que este trata. Publicado ao pé da matéria, o dito comentário desperta a opinião de outros leitores e, em poucos minutos, está criado um fórum de discussão entre pessoas que nunca se viram, nunca se verão e podem estar a milhares de quilômetros umas das outras.
Ainda bem. Pelo teor de alguns desses comentários, é bom mesmo que não se encontrem. Se um leitor discorda enfaticamente do que leu, pode atrair a resposta raivosa de um terceiro, o repique quase hidrófobo de um quarto e um bombardeio de opiniões homicidas na sequência. Lá pelo décimo comentário, o texto original já terá sido esquecido e as pessoas estarão brigando on-line entre si.
O anonimato desses comentários estimula a que elas se sintam livres para passar da opinião aos insultos e até às ameaças. Na verdade, são um fórum de bravatas, já que seus autores sabem que nunca se verão frente a frente com os alvos de seus maus bofes.
Já com as "redes sociais" é diferente. Elas também podem ser um festival de indiscrições, fofocas, agressões, conspirações e, mais grave, denúncias sem fundamento. E, como acolhem e garantem a impunidade de todo tipo de violência verbal, induzem a que as pessoas levem esse comportamento para as ruas. Será por acaso a crescente incidência, nos últimos anos, de quebra-quebras em manifestações, brigas em estádios, arrastões em praias e, última contribuição das galeras, os "rolezinhos" nos shoppings?
São algumas das atividades que as turbas combinam pelas "redes sociais" --expressão que, desde sempre, preferi escrever entre aspas, por enxergar nelas um componente intrinsecamente antissocial.

DNA do Rolê

folha de são paulo

'Rolezinhos' surgiram com jovens da periferia e seus fãs

"Tô ligado que 'os polícia' tão em peso e já sabem quem eu sou" diz Lucas Lima, 17.
De bermuda jeans, camiseta regata branca do UFC, tênis Oakley preto, corrente no pescoço e uma réplica do relógio Invicta no pulso, ele era um dos 3.000 jovens no shopping Metrô Itaquera, no "rolezinho" do último sábado.
Mais do que isso, o adolescente organizou o evento daquele dia, que acabou em confusão, confronto com a Polícia Militar e registros de furtos e roubos.
Desconfiado da ação da polícia, resolveu se precaver. "Vou para casa trocar de roupa e ficar mais apresentável", disse o estudante do terceiro ano do ensino médio em um colégio público da zona leste que faz bicos como ajudante de pedreiro.
"Rolezinhos" são encontros marcados por redes sociais que atraem centenas de jovens a shoppings. Eles entram pacificamente nos locais, mas, depois, costumam promover correria assustando lojistas e frequentadores.
Os adolescentes se reúnem em grupos de cerca de 20. Passam correndo por corredores entoando batidas do funk. Os que vêm atrás se integram aos demais, numa formação conhecida como "bonde".

Bonde do rolê

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Robson Ventura - 14.dez.13/Folhapress
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Seguranças abordam jovens na praça de alimentação do Shopping Internacional de Guarulhos (SP)
Nem sempre foi assim. "Rolês" acontecem desde 2012, mas antes eram chamados de "encontro de fãs" e serviam para que "ídolos" conhecessem os seus seguidores.
Que ídolos? Aqui, leia-se garotos e garotas que não são atores, cantores ou qualquer coisa parecida.
São jovens da periferia donos de perfis "famosinhos" que chegam a ter até 80 mil seguidores no Facebook, como o caso do adolescente Vinicius Andrade, 17.
Com uma quantidade dessas de "fãs", ávidos por contato, conhecer um por vez seria impossível. Assim nasceram os "protorolezinhos" que cresceram com o tempo.
O melhor lugar para isso, claro, shoppings afastados das áreas centrais da cidade -os mesmos que eles sempre frequentaram.
"Tem que ser em um lugar onde dê pra zoar e tirar foto com o ídolo", afirma Jhenifer, 17, que foi a sete "encontros de fãs" e passou a frequentar os "rolezinhos" em 7 de dezembro, data do primeiro rolê de que se tem notícia.
De lá para cá, outros cinco já ocorreram, quase todos com registro de correria.
Estagiária de uma empresa no centro de São Paulo, à Jhenifer só falta uma "carteirinha" para completar o perfil da fã perfeita.
Dos R$ 700 que recebe por mês, gasta cerca de R$ 100 em presentes para seus ídolos. Isso, fora o tempo despendido em cartas e recados para eles. Por quê?
"Eles colocam vídeos no Facebook e nos dão atenção. Quero retribuir e que eles saibam que eu existo", diz.
Entre o "panteão" de ídolos da periferia, está Juan Carlos Silvestre, 16, ou "Don Juan" -como é conhecido na internet desde 2012. O jovem é o preferido de Jhenifer e tem mais de 50 mil seguidores.
A devoção das garotas é proporcional ao tom sedutor do conquistador do Campo Belo, zona sul, que costuma terminar suas conversas com um "valeu gata, beijinho".
No dia do primeiro "rolezinho", em 7 de dezembro, em Itaquera, centenas de garotas queriam encontrá-lo.
De lá, Juan saiu com roupas de marca, ursinhos de pelúcia, cartas, perfumes e uma camiseta oficial do Corinthians, seu time do coração.
A vida de celebridade da internet, porém, não parece fazer a cabeça do menino. "Neste ano, vou investir mais na carreira de MC", diz Juan, com a certeza de sucesso que só os ídolos podem ter.
O mesmo caminho querem trilhar David Maciel, 13, e Rodrigo Micael, 16. Os dois também têm lá suas fãs no Facebook: quase 20 mil cada um deles. Pouco se comparado a "Don Juan", mas o suficiente para "lotar um pouquinho um shopping", diz David.
Boné para trás, Nike Shox no pé, camisa de marca e corrente dourada pendurada no pescoço, David costuma ser levado pelos pais até o shopping da zona leste.
Quando soube que o filho tinha fãs, Tatiane Maciel, 30, mãe do garoto, quase caiu para trás. "É impossível ir com ele a uma loja, as meninas nos param a cada minuto para tirar foto", diz ela, que afirma se preocupar com um possível "ego inflado" do menino.
Editoria de Arte/Folhapress
BONDE DO ROLÊ
Nem só de ídolos, claro, são feitos os "rolezinhos" -que ganharam vida própria, transformando-se em baladas.
Lucas não está entre os famosos, mas nem por isso se diverte menos. Em dois rolês anteriores, ele garante ter beijado "16 ou 17 meninas", perde-se no cálculo.
E a questão política? "Não perco meu tempo em manifestações, os políticos vão continuar roubando", diz.
Durante duas semanas, a Folha acompanhou a rotina dele e de seus amigos, que convocam os eventos, com o objetivo principal de se dar bem com as garotas.
Lucas não sabia, mas estava "na mira das autoridades" desde o fim do ano passado, quando postou no Facebook a convocação para o "Rolezinho Shopping Itaquera Part 3", como o nome deixa claro, o terceiro no mesmo local.
Antes mesmo dos garotos entrarem, oficiais de Justiça já aguardavam na porta para cumprir liminar que proibia a realização do evento, sob pena de multa de R$ 10 mil por dia a quem fosse pego fazendo arruaça.
Lucas gasta todo o dinheiro que ganha em roupas de marca, parceladas no cartão.
O centro da sua diversão está no mesmo lugar de onde foi retirado no último sábado. "Vim me divertir, não fiz nada errado, não roubei, não matei e venho aqui há cinco anos", reclama.
Ele faz parte de um grupo de meninos e meninas que passam os dias conectados no celular e na internet, combinando os próximos eventos. Querem impressionar e disputam quem vai chamar mais a atenção "das cocotinhas" e dos "gatinhos".
"A gente só quer ver os amigos, conhecer gente, comer no Mc [Donald's] e acaba apanhando", diz Letícia Gomes, 15, estudante do segundo ano do ensino médio da rede pública.
O saldo do "rolezinho" de Itaquera, no último sábado, para Lucas: nenhum beijo na boca e um citação de um oficial de Justiça.
"Onde é que eu vou arrumar esse dinheiro?", diz. 

José Simão

folha de são paulo
Ueba! Messi, garçom de bordel!
E sabe como a PM agora chama a 'bala de borracha'? Munição elastômera! Tucanaram a truculência!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Bola de Ouro! Bola de Ouro para o terno do Messi! Vermelho! Ele tava parecendo garçom de puteiro. "Ô de vermelho, me traga mais uma garrafa e fritas".
Outros acham que ele tava parecendo cantor de festa de casamento! Mágico do Circo Vostok! Nada se compara ao modelo do ano passado: smoking preto de bolinha branca. Galinha da Angola!
O Messi tem duas estilistas: a filha do Dunga e a estilista do Faustão! Rarará! E tem uma foto do Messi sozinho num canto com o celular. Sabe o que ele tava fazendo no celular? Procurando o número do advogado do Fluminense! Rarará!
E o Cristiano Ronaldo leva a Bola de Ouro. Pela segunda vez! O Cristiano Ronaldo parece o Ken de "Toy Story"! E merece a Bola de Ouro: joga 90 minutos sem tirar um único fio de cabelo do lugar! Sai de campo como entra, todo arrumadinho, o calção não tem uma mancha. Como se diz no Nordeste: boneco de apartamento! Rarará! E como disse uma amiga: "Além de lindo, tem duas bolas de ouro!". E atenção! Manchete do site Futebol da Depressão: "Fluminense entra com recurso e Fred ganha a Bola de Ouro". Pronto! Nem Messi, nem Cristiano Ronaldo! Fred ganha Bola de Ouro!
E a Fernanda Lima botou os airbags pra dentro! A gente nem pôde ver os peitos padrão Fifa da Fernanda Lima! E diz que o Maradona ficou muito emocionado com a homenagem ao Pelé! Rarará!
E o "rolezinho"? Pode entrar no shopping de bermuda Bob Marley? E um amigo: "Não, só da Cyclone, de surfista!". Rarará! Porta de shopping antes tinha pipoqueiro, agora tem 84 seguranças e 120 PMs. E hoje eu vou ser barrado no shopping: tô neguinho de um mês de sol na Bahia, vou de bermuda Bob Marley e boné de aba quadrada e ainda vou levar uns dez primos que chegaram do interior. Tudo cafuçu! Rarará!
E sabe como a PM agora chama a "bala de borracha"? Munição elastômera! Tucanaram a truculência! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
Maranhão! "Senadores fazem inspeção em Pedrinhas". E alguém se lembrou de trancar a porta por fora? Rarará! E o vice-presidente do Sindicato dos Servidores do Sistema Penitenciário do Maranhão: Cezar BOMBEIRO! Rarará! E eu já disse que Maranhão virou Lagostão. Roseana Sarney é governadora do Lagostão! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Marcelo Coelho

folha de são paulo
Verões antigos
Os incômodos das férias no litoral são até menores hoje em dia: havia fila do pão, fila do elevador, fila da balsa
Gostar de escola nunca foi minha especialidade: a chatice das matérias, a violência dos colegas, as lições a entregar, que até hoje são assunto de meus pesadelos, nada disso deixou saudades.
Das férias não trago lembrança muito melhor. Só passei a gostar de praia bem mais tarde na vida. Quando criança, incomodava-me a umidade imediata e pegajosa que, mal chegando a Santos, e mais ainda quando entrávamos no apartamentinho do Guarujá, assediava tudo --pele, roupas, maçanetas, o aparelho de TV.
Televisão? Mentira. Não tínhamos TV, e, se tivéssemos, faria pouca diferença; a imagem era péssima e melhorava pouco para quem tinha o famoso aparelho de UHF, precursor a lenha das antigas antenas Plasmatic.
No capítulo das comunicações, o telefone era outra inexistência. Havia um na portaria do prédio, para casos de necessidade; no geral, pegava-se a fila das cabines na agência do centrinho, onde as ligações pela telefonista poderiam, com sorte, completar-se em menos de meia hora.
Não era tão ruim; encontrava-se, ao menos, algo o que fazer durante a tarde, depois de tantas horas na praia lotada. Lotado, às vezes, também ficava o apartamento de dois quartos; bastava um casal convidado que a sala virava quarto de dormir. Salgado, cheio de areia, fungando, eu esperava a vez no único chuveiro da casa.
Faltava água e luz o tempo todo. Não por acaso estendo a lista dessas queixas póstumas. Quero notar apenas que, se as notícias sobre o verão deste ano podem ser alarmantes --viroses, congestionamentos, praias impróprias--, nada piorou tanto assim.'
As pessoas não se lembram que, na década de 1960, havia óleo de navio em toda praia que se prezasse. Junto à torneirinha da área de serviço, ficava sempre um vidro de benzina com um pano de estopa, razoavelmente eficiente para limpar os pés.
Ar condicionado era um luxo a que só se permitiam algumas poucas "butiques" da cidade. Desconheciam-se o filtro solar e o hidratante pós-sol; usava-se "o óleo", algo que tinha a cor do azeite do dendê e servia para fritar a pele, e uma pasta espessa para o nariz.
Comprovada a sua inutilidade, era o momento de passar o medonho Caladryl: produto rosa que cobria de película impermeável a pele invadida de bolhas. Será que as mães de antigamente cuidavam menos das crianças? Desconfio que os produtos melhoraram muito.
Também os inseticidas e repelentes. Tínhamos a famosa "espiral", cujo cheiro não me desagradava. Os mosquitos também gostavam. O defumador verde escuro queimava aos poucos durante a noite, soltando uma fumacinha limpa, levemente selvagem, como que exalada pela mata atlântica, se a mata atlântica fosse tabagista.
Os congestionamentos eram iguais, ou ainda piores do que hoje. Lembro-me do dia 15 de novembro de 1974, dia da grande vitória do MDB contra os militares: doze horas de São Paulo ao Guarujá.
Não havia tantos crimes, é verdade. Minhas últimas experiências no litoral paulista incluem um assalto dentro da farmácia, na véspera de Natal, três invasões da casa quando eu estava fora, gritos de socorro vindos da rua durante um almoço com amigos.
Ninguém se atreveu a ir até a rua para ver o que se passava. Horas depois, viemos a saber que a vítima era a sogra de um dos convidados. Não lhe levaram muita coisa; talvez nada. A água do mar é o diabo quando entope os ouvidos.
Na semana seguinte, outra senhora vasculhava a calçada: tinham-lhe arrancado um brinco de estimação. Perseguidos, os meninos de rua teriam jogado por ali o fruto do assalto.
Eram bem mais tediosos os verões de 50 anos atrás. Havia a fila do pão, a fila para pegar água da bica, a fila do elevador, a fila da balsa que ligava Santos ao Guarujá.
Mas eu gostava da balsa. Chegávamos já no escuro. A água do canal ganhava as luzes do embarcadouro e o arco-íris caprichoso e repelente do óleo despejado. Grandes navios ficavam à espera, levando tatuados no dorso negro nomes e bandeiras estrangeiras. O silêncio do mar continha a vibração constante dos motores, que se transmitia pelos pés.
Meu pai também ficava em silêncio, segurando a barra de ferro que circundava a balsa. Encontrava-o depois na sacada do apartamento, ainda sem dizer nada, diante da nesga de negrume que correspondia ao mar.
O farol de uma ilha piscava de tempos em tempos, comunicando sua própria solidão. A cada três voltas da luz branca, seguia-se um sinal vermelho, mais curto, que eu me entretinha em esperar.
São assim muitas de nossas memórias, intermitentes, constantes, repetidas, marcando com impulsos quietos a escuridão do tempo.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Mirian Goldenberg

folha de são paulo
Você tem borogodó?
Ele disse: 'Mulher ansiosa demais, desesperada para agarrar um homem, não tem borogodó'
Entrevistei uma jornalista de 45 anos para o meu livro "Por que Homens e Mulheres Traem?".
Ela disse ser alvo da inveja de suas amigas por ser uma "mulher livre, não ter filhos e poder transar com quem quer e quando quer".
Suas amigas casadas reclamam que o casamento é uma rotina, que gostariam de ter tido outras experiências, que a vida sexual é ruim, que não existe mais romance e que os filhos atrapalham.
Elas se sentem aposentadas compulsoriamente de uma vida amorosa e sexual satisfatória.
As amigas solteiras sofrem com a falta de segurança e de continuidade das relações amorosas. Reclamam que falta homem no mercado.
A jornalista disse: "Para as minhas amigas, sou quase um mito, já que acham que estou sempre namorando, transo todos os dias e nunca reclamo dos meus homens. Na verdade, fico com homens com quem elas jamais pensariam em ficar. Não ligo se eles nunca ouviram falar de Simone de Beauvoir ou se ganham muito menos do que eu. O que me interessa é que eles sejam carinhosos, me respeitem e me tratem como alguém especial".
Ela contou o caso de uma amiga bem mais jovem e bonita: "Uma madrugada ela ligou para reclamar que eu tinha ficado com um cara que ela estava paquerando. O cara, na minha cama, tentou explicar por que tinha ficado comigo".
Ele disse: "Você tem borogodó, ela não tem. Mulher que quer se fazer de menininha não tem borogodó. Mulher ansiosa e carente demais, desesperada para agarrar um homem, não tem borogodó. Mulher preocupada com rugas, estrias e celulites não tem borogodó. Borogodó tem a ver com segurança, com se sentir bem na própria pele. Algumas mulheres são lindas, mas não têm borogodó. Outras, mais velhas e nem tão bonitas, são charmosas, interessantes, maduras e atraentes".
Ele concluiu: "Até pensei em ficar com sua amiga, mas ela estava se esforçando tanto para me agradar que logo desisti. Quando você chegou ela sumiu do mapa. Fiquei encantado com seu sorriso, sua espontaneidade, sua segurança. Você tem borogodó, ela não. O próprio fato de ligar de madrugada prova a minha teoria. Mulher chata não tem borogodó".
E você? Tem ou não tem borogodó?

    Viciados em sexo - Mariana Versolato e Guilherme Genestreti

    folha de são paulo

    Culpa, autodepreciação e exposição a riscos marcam os relatos dos compulsivos por sexo


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    MARIANA VERSOLATO
    EDITORA-ASSISTENTE DE "CIÊNCIA+SAÚDE"
    GUILHERME GENESTRETI
    DE SÃO PAULO

    "Um ser humano terrível" é como Joe, a protagonista de "Ninfomaníaca - Volume 1", filme do diretor Lars Von Trier que estreou no último fim de semana, se apresenta a um homem que a encontra ferida e sangrando em um beco. Diz ter magoado pessoas e agido de modo trivial e insensível para obter satisfação.
    O relato de Joe, marcado pela autodepreciação, parece corresponder à realidade de quem tem compulsão sexual (leia depoimentos abaixo)

    "O sexo, que era para ser prazeroso, vira obsessão e traz uma série de prejuízos", diz Marco de Tubino Scanavino, médico do Instituto de Psiquiatria do HC da USP.
    "As pessoas procuram tratamento dizendo que estão erradas, arrependidas e julgando-se negativamente."
    Atitudes de risco também são comuns entre os que têm o transtorno. O filme conta pouco sobre o motivo da agressão a Joe, mas ela diz ser a culpada pela situação –e daí entende-se que a compulsão a levou àquele estado.
    Christian Geisnaes/Divulgação
    A atriz Charlotte Gainsbourg, em cena do filme "Ninfomaníaca"
    A atriz Charlotte Gainsbourg, em cena do filme "Ninfomaníaca"
    "O compulsivo age dessa forma mesmo correndo o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis. Há quem se exponha a garotos e garotas de programa que roubam e agridem e a parceiros anônimos que podem trazer problemas", diz Scanavino.
    Apesar de a Organização Mundial da Saúde usar os termos ninfomania (para mulheres) e satiríase (homens) para descrever um apetite sexual excessivo, especialistas dizem que não há distinção entre os sexos na hora de definir o transtorno.
    Os homens, aliás, correspondem a 80% das pessoas com o problema. Segundo estudos, a prevalência é maior entre homens gays e bissexuais, principalmente pela facilidade de acesso a locais como saunas, onde há maior disponibilidade de parceiros.
    Discutiu-se até a inclusão do transtorno da hipersexualidade na última edição do Manual de Estatísticas de Diagnósticos da Associação Americana de Psiquiatria, obra considerada como a "bíblia" da psiquiatria, mas a questão ficou de fora por falta de consenso sobre o tema.
    Pesquisadores mais ligados à dependência química veem o problema como vício sexual. Há quem trate a questão como transtorno obsessivo-compulsivo ou impulso sexual excessivo.
    O que há de comum são os relatos clínicos. O diagnóstico envolve a qualidade –e não a quantidade– dos encontros e a sensação de perda de controle. O sexo ocupa mais espaço do que a pessoa deseja e traz prejuízos à vida pessoal e profissional. Ela tenta reduzir a frequência das relações, sem sucesso.
    "É algo tão incontrolável como outros tipos de compulsão, como não parar de lavar as mãos. A diferença é o cunho moral, que torna o problema menos aceito na sociedade", diz Carmita Abdo, coordenadora do ProSex (Programa de Estudos em Sexualidade) da USP.
    O tratamento inclui psicoterapia individual ou em grupo, remédios para doenças mentais associadas e a tentativa de realocar o sexo na vida da pessoa, já que, diferentemente de outros vícios, o objetivo não é a abstinência.

    DEPOIMENTO
    'Já transei com morador de rua, com mulher feia por perversão'
    DE SÃO PAULO
    O professor A.L. tem 40 anos e frequenta um grupo de ajuda mútua para compulsivos por sexo.
    (GG)
    -
    "Minha mãe me botou para fora de casa aos 13 anos porque eu era rebelde. Passei a morar sozinho num imóvel da família. Muito largado, caí numa busca desenfreada por sexo que, mais tarde descobri, era pela falta de afeto.
    [Fazer sexo] era uma desculpa para buscar amor. Minha primeira vez foi com mulher. Eu era um adolescente inseguro e falhei nas três primeiras vezes. No mesmo ano, transei com um homem.
    Minha parte homossexual era detonada quando me sentia rejeitado pelo sexo oposto, era como se eu buscasse anulação da minha masculinidade.
    Aos 19, começou a compulsão: encontrava um cara e ia para a cama. Podia ser na rua, na casa, no cinema, num prédio que eu via que estava com a porta aberta. Eu entrava, às vezes bêbado, e dizia, direto: Vamos transar?'.
    Depois que acabava, sentia culpa. Eu me desculpava com a pessoa, saía dali e raramente pedia o telefone ou repetia a transa.
    Já transei com morador de rua. Já transei com uma mulher muito mais velha, que eu achava feia, grotesca. Fui pela perversão de transar com alguém [por quem] não sentia nenhuma atração.
    Ficava meses sem ir a um cinema pornô e de repente ia três dias seguidos, ficava quatro horas, fazia sexo mais de uma vez. Já houve briga por causa de sugestão sexual que não foi bem aceita pela outra pessoa. Já levei ameaça.
    A compulsão não se mede pela quantidade de pessoas com quem você faz sexo, mas pelo sofrimento que ela produz. Ela atrapalha a concentração mesmo quando você não está praticando sexo: você fica pensando num telefonema que vai receber, numa mensagem em rede social.
    Namoro uma mulher há dois anos. A tendência agora é ficar mais tranquilo. Tive uma recaída depois de uma briga e contei a ela. Sou fiel por algum tempo, mas não para sempre."

    DEPOIMENTO
    'Quanto mais parceiros eu tenho, mais vazio me sinto'
    DE SÃO PAULO
    O estudante universitário J.S., 34, frequenta reuniões do Dasa (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos) há oito meses.
    (GG)
    -
    "A compulsão sexual se desenvolveu em mim pela falta de autoestima. Aquela crença de que quanto mais mulher eu pegar, mais homem eu sou, quanto mais homem eu pegar, mais eu me sinto querido.
    Comecei minha atividade sexual aos 13 anos, com um menino. Depois foi com mulher, uma prostituta.
    Eu vivia no interior de Pernambuco. Tinha um vereador que morava na casa ao lado. Quando eu tinha 14 anos, ele começou a pedir que eu fosse dormir na casa dele sempre que a mulher dele ia para Recife. Eu, de família carente, entrei no jogo de sedução. Me tornei amante dele por cinco ou seis anos.
    Aos 18 vim para São Paulo. Comecei a usar drogas. Se caio na cocaína, vou parar em quarto com travesti ou assistindo a filme pornográfico a noite inteira.
    Fui morar em Buenos Aires e esse comportamento se intensificou. Lá eu tinha parceiro, mas me prostituía. Circulava à noite por Palermo e via gente transando embaixo das árvores, na frente de quatro, cinco pessoas. Um dia transei com um cara lá e chegaram três para assistir. Me excitei ainda mais.
    Agora estou com um parceiro. Mas não quero ficar só com ele. Juro fidelidade e faço o contrário.
    Ontem mesmo fui à subprefeitura, identifiquei de longe um gay e comecei a me insinuar. Botei a mão dentro da calça para atrair. Trocamos celular. Meu parceiro não sabe de nada.
    Nunca precisei transar com três no mesmo dia. Mas quero mais do que a pessoa com quem estou pode oferecer: quero outros, outras. Tenho muita libido, acho isso doente já.
    Estou cansado desse sofrimento. Quanto mais parceiros, mais vazio eu me sinto. Nesses dias, um amigo meu chegou e disse: Nossa, você é bonito'. Foi o suficiente para irmos ao motel, passarmos a noite toda lá e sairmos como se nada tivesse acontecido. Não quero mais isso."