domingo, 19 de janeiro de 2014

'Sex and the City' de gays estreia hoje

folha de são paulo
'Sex and the City' de gays estreia hoje
Série 'Looking', na HBO, dá vez aos sentimentos e conflitos íntimos de personagens
RODRIGO SALEMCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE LOS ANGELESA série "Looking" estreia hoje no Brasil com a intenção de deixar no passado a discussão sobre o que é permitido no amor e no sexo para pensar no futuro igualitário.
"Queríamos fazer uma série sobre três gays vivendo suas vidas. Uma hora vamos falar sobre preconceito, mas a ideia era mostrar seus sentimentos, sua relação íntima com a sexualidade", conta o cocriador Andrew Haigh.
"A comunidade gay já é mais aceita, não vivemos mais em guetos. Eu mal saí do armário e minha mãe agora pergunta quando vai ser meu casamento", brinca o outro autor, Michael Lannan.
"Looking" se passa em San Francisco, cidade de forte cultura gay, e segue a trajetória do trio formado por Patrick (Jonathan Groff), um designer de games com problemas para manter namoros; Agustín (Frankie J. Alvarez), um artista plástico que passa a morar com o namorado; e Dom (Murray Bartlett), um garçom que chega aos 40 anos sem muitas realizações.
"Nenhum deles é bem-sucedido na carreira", diz Haigh. "Queríamos personagens que tivessem empregos, porque o trabalho faz parte da personalidade das pessoas. E isso nos distancia das comparações com Girls'."
Nem precisava dessa distância. Apesar das melhores das intenções, "Looking" está mais para "Sex and the City" do que para a série de Lena Dunham.
A primeira cena traz Patrick arriscando receber sexo oral de um estranho no meio do mato. Em seguida, o roteiro parte para uma sucessão de diálogos no estilo "por que não consigo manter um namorado?" que até mesmo Carrie Bradshaw teria receio de proferir em pleno 2014.
'MÉNAGE'
Pelos dois episódios mostrados à reportagem da Folha, as cenas de sexo são menos ousadas que as do cinema independente de hoje. A aposta é nos diálogos fortes.
"Você não viu nada. A metade atrasada dos Estados Unidos vai ficar chocada", afirma o ator Frankie J. Alvarez, o único heterossexual do elenco principal --e parte do único "ménage à trois" da série. "Não me senti desconfortável. Sou um ator. Acho engraçado que me perguntem se sou gay, fiz Hamlet' por anos e ninguém me perguntou se eu era um assassino."
Lannan, que morou em San Francisco e reuniu várias histórias reais para "Looking", afirma que a série"é sobre gays, mas carrega uma temática mais universal". "O Segredo de Brokeback Mountain' é sobre dois homens que odeiam ser gays. A nossa série é o oposto disso", diz.
"Não queremos representar toda a comunidade gay. São três personagens com seus conflitos, e esperamos fazer algo novo. Isso nunca foi feito na TV", diz Bartlett. "O mundo mudou, e não precisar se esconder é maravilhoso", afirma.

    'BBB', o 'guerreiro imortal' - Mauricio Stycer

    folha de são paulo
    'BBB', o 'guerreiro imortal'
    O espectador, não apenas no Brasil, parece gostar do papel de juiz do caráter do seu 'semelhante' confinado
    Como o guerreiro escocês do filme "Highlander", o "Big Brother Brasil" parece imortal. Ao estrear a sua 14ª edição, o reality show da Globo mais uma vez mostra poderes extraordinários junto ao mercado publicitário e ao público. Contra muitos prognósticos, se tornou uma presença obrigatória na grade da emissora. O que explica a sua permanência?
    Antes de prosseguir, deixe-me esclarecer o mito de que "só os brasileiros gostam desta porcaria". Diferentemente do que dizem os detratores, o programa criado pelo holandês John de Mol também segue carreira de "highlander" em outras praças respeitáveis.
    Na Espanha, a recordista, o "Gran Hermano", exibido pela Telecinco, já teve 19 edições (14 normais e cinco especiais, com ex-ganhadores e outras atrações). Nos EUA, já foram ao ar 15 versões pela CBS --este ano será a 16ª. Hospedado, na Inglaterra, até a décima edição no Channel 4, a franquia se transferiu para o Channel 5, que neste ano se prepara para exibir o "Big Brother 15".
    É bem possível que, em matéria de audiência, a edição brasileira seja a campeã. Mas o programa mostra ter público fiel em muitos países e, pior, segue causando barulho por onde passa.
    Em 2013, no "Big Brother" (EUA), comentários racistas de um dos participantes motivaram discussões enormes nas redes sociais, debates na imprensa e até petições para a expulsão do sujeito do programa, levando o presidente da CBS a se manifestar sobre o assunto.
    "Acho, pessoalmente, alguns dos comportamentos absolutamente chocantes. O que você vê no programa, infelizmente, é um reflexo de como certas pessoas se sentem nos EUA", disse Leslie Moonves.
    É esta pretensão, justamente, a de mostrar um "retrato" da realidade, um dos principais atrativos. Nenhum outro reality consegue estabelecer a relação que o "Big Brother" cria com o espectador, transformando-o num juiz da alma e do caráter do seu "semelhante" confinado.
    Sem qualquer preocupação "sociológica" com a variedade, a seleção dos tipos que integram a edição brasileira foca basicamente em jovens brancos, entre 20 e 30 anos, com disposição infinita para alcançar a fama em troca da exposição da intimidade.
    A repetição deste padrão costuma ser compensada pelo recurso a novos expedientes, destinados a surpreender os candidatos e o público, em matéria de castigos, humilhações e constrangimentos.
    Como nenhuma outra atração, o formato "Big Brother" tem conseguido expandir seu alcance graças a outras tecnologias. Desde o início, fãs mais apaixonados aceitam pagar para ter a possibilidade de acompanhar o programa 24 horas por dia. Muitos também não se opõem a gastar dinheiro para votar. As redes sociais intensificam o diálogo entre espectadores, a criação de fã-clubes e a explosão de polêmicas.
    Numa ação promocional inédita, a Globo, neste ano, estabeleceu uma conexão entre a sua principal novela, "Amor à Vida", e o "BBB". Uma personagem, Valdirene, vivida por Tatá Werneck, passou semanas tentando ser selecionada para o reality, até entrar, na noite de quarta-feira (15) e ser eliminada no dia seguinte. As cenas de sua participação foram exibidas nos dois programas. "Highlander" e criativo.

    Ferreira Gullar

    folha de são paulo
    Gélidas lembranças
    Quem está com a razão, os que dizem que o planeta está esquentando ou os que dizem que está esfriando?
    Eu, que nasci numa cidade tropical, que ali me criei a uma temperatura média de 27 a 30 graus Celsius --isso nos períodos mais amenos--, não é que um dia me encontrei na cidade de Moscou enfrentando uma temperatura de dez graus abaixo de zero? Avalia só como me sentia ali eu que, no inverno carioca, se o frio chegasse a 16 graus, pensava que ia virar picolé. É nisso que dá se meter em política.
    Confesso que quase pensei isso, quando me vi metido em ceroulas de lã, calças, suéter, cachecol, paletó e capote, que pesavam muitos quilos. Isso sem falar na "chapka" --aquela touca de lã que desabotoa e protege o rosto quando o vento frio se torna insuportável. E os lábios? Se você os deixar expostos, racham.
    Lembrei disso na semana passada, quando vi na televisão as cidades norte-americanas soterradas sob a neve. A televisão mostrou cidadãos apreensivos, temendo que a temperatura baixasse ainda mais. Já estava, em alguns lugares, por volta de 50 graus abaixo de zero. É temperatura da Sibéria, pensei comigo.
    Enquanto isso, no Brasil, estávamos sobrevivendo a uma sensação térmica de 50 graus acima de zero. É impossível não perguntar o que ocorre com o nosso planeta. No final das contas, quem está com a razão, os que dizem que o planeta está esquentando ou os que dizem que ele está esfriando? Quero achar que está esfriando, mas, tendo que tomar um banho a cada meia hora, fica difícil acreditar nisso. A verdade é que nesse assunto particular nem os cientistas se entendem.
    Querendo ou não, a memória insistia em me levar para Moscou, onde, naquele ano de 1970, o inverno chegava. Minha preocupação diminuiu quando o chefe de nosso coletivo informou que íamos receber roupas especiais para enfrentar o frio do inverno russo.
    Mas minha tranquilidade durou pouco. Antes de dormir, imaginava o futuro que me esperava naquela cidade que nada tinha a ver com minha origem tropical.
    Quando o inverno chegou para valer, encontrou-me metido nas ceroulas de lã, na camiseta de lã, nas calças de lã, no suéter, no paletó, no capote grosso e pesado, tão pesado que, se tivesse que andar mais de uma quadra, morreria de cansaço. De qualquer modo, antes cansado do que morto.
    A sorte é que passava o dia todo na escola do partido, escutando a lição dos professores ou conversando com os companheiros na lanchonete. A última coisa que eu queria era sair à rua, a não ser quando as aulas terminavam e era já noite, porque, no inverno, ali, anoitece às três da tarde.
    No percurso da escola à "abchejite" (uma espécie de pensão de estudantes), se estivesse ventando então, era barra pesada. Meu nariz esfriava tanto que tinha a impressão de que, se desse um peteleco nele, quebrava, caía no chão. Claro que um comunista está no mundo para o que der e vier, razão pela qual evitava formular a pergunta que de vez em quando assomava à mente: que diabo vim eu fazer nesta cidade gelada? Só parei de perguntar quando conheci uma russa de olhos azul-violeta, linda como um sonho, e que só nasce em cidades geladas como Moscou.
    Pois bem, e não é que inventaram de nos levar a um passeio em Leningrado, ainda mais frio que Moscou?
    Ali topamos com uma temperatura de 30 graus abaixo de zero, o que nos foi anunciado quando o trem se aproximava da cidade, ao amanhecer. À noite, iríamos ao teatro Bolshoi para assistir ao balé famoso no mundo inteiro.
    Ao sairmos do hotel, fomos advertidos de que não devíamos fumar na rua. Estranhei, mas a tradutora explicou: "Com 39 graus abaixo de zero, se você puxa o ar frio pela boca, ganha uma pneumonia". Apaguei o cigarro.
    Mas ao chegarmos ao teatro, não havia onde estacionar, tivemos que sair do carro e correr uns 50 metros até a entrada, o suficiente para nos congelarmos. Quando entrei no hall, meu paletó parecia uma placa de gelo; se batesse nele, partiria em pedaços, escrevo eu, agora, no Rio de Janeiro, suando em bicas.

    Suzana Singer - Folha Ombudsman

    folha de são paulo
    Enrolados
    Imprensa está cautelosa na cobertura dos 'rolezinhos', mas tece teorias sem ouvir os personagens principais
    Gato escaldado tem medo de água fria. Depois de errar feio no início da cobertura dos protestos de junho, a imprensa está bem mais cautelosa com os "rolezinhos" nos shoppings da periferia.
    Na Folha, a palavra "arrastão" sumiu rapidamente do noticiário, substituída por "encontro de jovens". Em editorial publicado no segundo dia do ano, o jornal afirma que o fenômeno, que foge a "classificações estabelecidas", traça um "retrato nítido do Brasil de nossos dias".
    Anteontem, criticou a polícia e o Judiciário por tentarem impedir os "rolezinhos", que começaram com "caráter festivo e despretensioso".
    É um tom completamente diferente do adotado no editorial "Retomar a Paulista", de junho de 2013, quando os ativistas foram definidos como "jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária".
    Pode-se argumentar que são notícias diferentes --no ano passado, havia vandalismo; agora, sustos e ameaças--, mas eram ambos fenômenos desconhecidos e, desta vez, felizmente, não houve pressa em colocar uma tarja no movimento.
    Tal precaução não se justifica, porém, na reportagem. O jornal foi muito lento. O primeiro encontro aconteceu em 7 de dezembro, mas só 39 dias depois foram publicados depoimentos de jovens da periferia. Antes disso, não havia nem aspas ligeiras de participantes do "rolezinho" --a única tentativa de interpretar o que estava acontecendo foi uma boa reportagem que relacionava essa galera ao "funk ostentação", mas sem ouvir os seus integrantes.
    Isso significa que o primeiro editorial e a opinião de vários colunistas, não só da Folha, foram escritos com base em suposições, em interpretações assentadas basicamente na descrição de como esses jovens se vestem.
    Sem ouvir os protagonistas, foi dito que eles eram "baderneiros", incapazes para o convívio social e, no outro extremo, que protestavam contra o "apartheid" que impera em São Paulo. Alguns deduziram que se tratava apenas de uma brincadeira juvenil, outros enxergaram uma reivindicação de negros e pobres por espaço e visibilidade.
    Na Folha, o silêncio foi rompido na quarta-feira passada, com as entrevistas de alguns dos organizadores dos eventos, que explicaram a origem dos "rolezinhos": encontro de fãs, marcados pelas redes sociais, com a intenção de "zoar".
    A reportagem foi importante porque esclareceu que não havia intenção contestatória nas primeiras reuniões, mas faltou mostrar o que pensam esses garotos. Não deu para entender nem mesmo por que alguns viram ídolos das meninas, já que não parecem ter nenhum talento especial, além da arte do xaveco.
    O outro lado da moeda também foi mal apresentado. Os frequentadores desses shoppings, que aparecem nas reportagens criticando os "rolezinhos", não são os clientes do Iguatemi, do JK ou do Higienópolis, centros de compras sempre citados nas páginas do jornal.
    Os "rolezinhos" aconteceram, até agora, no Campo Limpo, em Itaquera, em Guarulhos e no Tucuruvi, longe da área nobre. Quem se assustou e defendeu a proibição dos encontros não parece ser muito diferente dos que foram lá em bando. "Gosto de rolezinhos', mas não da parte em que ninguém respeita ninguém. Tem que ser sem roubo nem intriga", disse uma garota de 15 anos ao "G1".
    Outro chavão que ganhou força nas análises é culpar a falta de opção de lazer na periferia, mas ninguém perguntou isso aos jovens. Se houvesse museus, teatros, parques, eles abririam mão dos "rolezinhos" nos shoppings? Nos bairros ricos, há tudo isso por perto e, mesmo assim, a garotada não sai das praças de alimentação.
    Com reportagem, é possível desmontar estereótipos, esvaziar teorias frágeis e ajudar o leitor a se posicionar em meio ao tiroteio ideológico. Só que precisa gastar sola de sapato e chegar às franjas da cidade, mesmo quando não há chacina ou desabamento.
    Em um texto muito lúcido, o ex-repórter da Folha Leandro Beguoci, criado em Caieiras, resumiu a questão: "Na área delimitada pelos rios Tietê e Pinheiros, a periferia ainda é um sujeito desconhecido. É uma espécie de Cazaquistão que fala português" (http://www.oene.com.br/rolezinho-e-desumanizacao-dos-pobres). Já passou da hora de a Folha investir para ampliar as fronteiras da sua cidade-sede.

    Maior universidade brasileira discutirá mudanças em seu vestibular

    folha de são paulo
    USP, 80
    Aos 80, USP vai discutir mudanças no vestibular
    Novo reitor colocará em discussão o modelo atual de ingresso
    Com mais de 150 mil candidatos, Fuvest é o maior vestibular do país; universidade faz aniversário no sábado
    FÁBIO TAKAHASHISABINE RIGHETTIDE SÃO PAULO
    Ao completar 80 anos, a USP vai discutir mudanças na forma de entrada na universidade, a principal do país. O modelo de vestibular pode até perder peso.
    Quem levantará a discussão será o novo reitor da instituição, Marco Antonio Zago, que assume no sábado --data que coincide com o 80º aniversário da escola.
    Em entrevista à Folha, Zago apontou dois problemas no atual modelo de vestibular da Fuvest, iniciado em 1977. O primeiro é que as provas (1ª e 2ª fases) podem ser insuficientes para definir quais são os estudantes que devem ingressar na USP.
    Outro problema é que as escolas de ensino médio se voltam quase exclusivamente ao treinamento de alunos para o vestibular.
    "Quero que sejam analisadas maneiras alternativas ou adicionais, que podem ser combinadas", afirmou Zago.
    Ou seja, podem ser criadas outras formas de ingresso ou o exame pode ganhar etapas.
    Um dos exemplos a serem estudados, disse o novo reitor, é o da Unicamp, que utiliza apenas o Enem para ingresso em um de seus programas de graduação (Profis).
    Zago, porém, afirma que não tem um modelo ideal. Pedirá às unidades que discutam o tema, antes de chegar a um modelo a ser votado.
    "Não é porque a Fuvest funciona bem que ela não precisa ser revista", disse.
    No último vestibular foram 170 mil inscritos, que disputaram 11 mil vagas. Foram aplicadas duas fases de provas, a primeira com testes; a segunda foi dissertativa.
    No ensino superior do Brasil e do exterior há diferentes modelos de seleção.
    O curso de direito da FGV-SP não possui prova com testes e, numa das etapas, os candidatos são avaliados por meio de exame oral, após discussões em grupo. Universidades americanas usam a nota em prova nacional, análise de currículo e entrevistas.
    De sua parte, a USP tem um problema adicional: seu tamanho. Como fazer uma seleção justa e equânime para mais de 150 mil candidatos?
    Apesar do desafio, o presidente do sindicato das escolas particulares, Benjamin Ribeiro da Silva, afirma que a USP acerta em tentar mudar.
    "Os alunos exigem que ofereçamos treino para o vestibular. O empreendedorismo de cada um fica de lado."
    Coordenador da ONG Educafro, frei David Santos destaca que alunos cotistas entram com notas mais baixas no vestibular, mas se formam no mesmo patamar dos demais. "A USP está perdendo hoje esses talentos de escolas públicas, pobres."
    USP, 80
    Gigante, USP é pouco ágil em mudanças
    Com mais de 90 mil alunos, universidade é 40 vezes maior do que a Caltech (EUA), a melhor escola do mundo
    Para especialistas, USP precisa decidir se vai se massificar ampliando o número de alunos ou se investirá em qualidade
    DE SÃO PAULOO gigantismo da USP, que dificulta mudanças no seu vestibular, também emperra saltos da universidade em rankings universitários internacionais. A avaliação é de pesquisadores da área e do responsável por uma das principais listagens.
    Por outro lado, é justamente o gigantismo da USP que faz dela uma universidade única, que alia formação de alunos em massa com pesquisa científica de ponta.
    A USP tem mais de 90 mil alunos, entre graduação e pós --e está em 226º no THE (Times Higher Education), principal ranking de universidades da atualidade.
    Para se ter uma ideia, a líder Caltech (EUA) tem 2.100 estudantes. E a melhor da China, Universidade de Pequim (45º lugar), tem menos da metade dos alunos da USP.
    "As instituições menores podem se beneficiar de uma estrutura mais prática de gestão, mais flexível e veloz", diz Phil Batty, editor do THE.
    "Pequenos barcos são mais rápidos e mais fáceis de manobrar em comparação a grandes petroleiros --mesmo que esses façam um trabalho muito importante."
    O tamanho influencia diretamente o andamento das pesquisas. "Tudo é lento e burocrático", diz a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Genoma Humano da USP --o maior da América Latina. "Para cada viagem de cooperação científica ao exterior, preciso de uma pilha de papeis", completa.
    Ex-reitor da USP e atual pesquisador de ensino superior, Roberto Lobo afirma que o Brasil precisa ter uma universidade "de ponta", o que ajudaria no desenvolvimento tecnológico nacional.
    "A USP é a que está mais próxima disso. Mas ela precisa definir sua missão. Quer ter massa, 100 mil, 200 mil alunos, ou quer densidade?".
    O orçamento da universidade é compatível com a média das 50 melhores escolas do mundo. "O problema é que ela tem estudantes demais."
    Também ex-reitor da USP e ex-ministro da Educação, José Goldemberg afirma que a USP "já é grande, não precisa mais massificação".
    Na opinião dele, a instituição deveria se focar em tentar aumentar sua inserção internacional, trazendo mais professores e estudantes do exterior --e mandando mais gente também.
    USP, 80
    Novo reitor assume universidade com orçamento no limite
    USP usou cerca de 100% do que recebeu do governo com salários e entrou na reserva para demais gastos
    Marco Antonio Zago diz que terá de 'replanejar os gastos'; prioridade do mandato é melhorar o ensino de graduação
    FÁBIO TAKAHASHISABINE RIGHETTIDE SÃO PAULOMarco Antonio Zago é visto como um apaziguador --e talvez tenha sido essa característica que levou o médico do campus de Ribeirão Preto a chegar à reitoria com 25% mais votos do que a soma dos seus dois concorrentes.
    Zago tem a missão de reduzir os conflitos na universidade e de melhorar o diálogo.
    Também tem o desafio de gerir as finanças. Em 2013, o orçamento de R$ 4,3 bilhões foi gasto com salários. O resto veio de reservas que, conforme a Folha apurou, são de R$ 3 bilhões. Leia entrevista.
    -
    Folha - O que o senhor espera implementar na USP?
    Marco Antonio Zago - Eu gostaria que o ensino de graduação sofresse um progresso. Também desejo uma descentralização administrativa e de atividades acadêmicas, com decisões ocorrendo mais localmente nas unidades. Gostaria de deixar uma universidade mais unida, mais coesa, na qual o diálogo seja uma atividade rotineira. Há uma expectativa de menos conflitos. A grande massa dos alunos não está sequer participando do debate.
    O que pode ser feito de diferente para ter esse diálogo?
    É preciso atrair a massa da universidade. O que pensa a massa dos docentes? E dos estudantes? Temos de reestabelecer esse diálogo. Um grupo de alunos se sente inconformado porque suas teses não foram absorvidas [por exemplo, a proposta de eleição direta à reitoria]. Eles estavam respaldados por uma ampla maioria de estudantes? Não. A maioria dos estudantes não estava sequer interessada no debate.
    Como está a situação orçamentária da USP?
    Temos um orçamento bastante apertado. O comprometimento com a folha de pagamentos é próximo de 100% do repasse orçamentária do governo. E portanto temos de fazer uso das nossas reservas para cobrir as despesas correntes, de consumo, contratos. Não é uma situação pontual porque em entidade pública não se mexe muito na folha de pagamento. Vamos ter de replanejar.
    A USP vai bem em avaliações como o RUF (Ranking Universitário Folha) porque tem bons cursos ou porque já pega os melhores alunos?
    A USP pega os melhores alunos e, portanto, sai com uma vantagem. Mas nós precisamos ter certeza de que usamos bem essa vantagem. Precisamos entregar na sociedade pessoas com uma formação melhor ainda. A USP tem uma responsabilidade: recebe recursos vultuosos e precisa dar um retorno.
    E como está a graduação da USP nacionalmente?
    Faltam informações. Uma medida é o Enade [Exame Nacional de Desempenho do Estudante], do MEC. O Enade tem defeitos, mas é uma medida objetiva e nacional que a USP decidiu não participar [a universidade aderiu ano passado de forma experimental: os alunos fazem a prova se quiserem, e as notas não são divulgadas]. Tenho certeza de que temos de discutir isso.
    O que pode melhorar especificamente na graduação?
    Gostaria de ter um ensino muito mais moderno, mais voltado à necessidades da sociedade, e currículos mais flexíveis. A USP tem uma rigidez muito grande em seus currículos. Os alunos entram na USP para fazer "engenharia elétrica"-- não entram para fazer "engenharia". O jovem é muito precocemente obrigado a escolher a sua carreira. Isso contribuiu para a evasão. [em torno de 25%].
    Como o senhor vê a USP comparativamente com universidades estrangeiras? A USP caiu no ranking THE em 2013.
    Os rankings captam aspectos da universidade. O ranking produzido na China, por exemplo [ranking ARWU], leva em conta o número de professores com prêmio Nobel na universidade. Se a USP contratasse um prêmio Nobel, iria lá para cima no ranking. Isso melhoraria a universidade? Não.

    USP, 80
    Empreendedorismo ainda é raridade entre os estudantes
    Maioria das aulas da USP é expositiva; carga horária pesada limita tempo do aluno para ter ideias e criar
    Aluno que cria o próprio negócio, como Romero Rodrigues, do Buscapé, ainda é exceção na universidade
    DE SÃO PAULONa USP, melhor universidade do país, a maioria dos estudantes não tem perfil empreendedor, desses que criam o próprio negócio. O problema, dizem os especialistas, é que sobram aulas expositivas e faltam atividades voltadas a desenvolver ideias próprias.
    "Temos de deixar os alunos mais livres para criarem soluções", diz José Roberto Cardoso, diretor da Escola Politécnica da USP.
    Lá, na Poli, os alunos têm uma média de 28 horas de aula por semana. A maioria é expositiva, com o professor falando e o aluno ouvindo.
    "Contando o tempo de estudo, eu fico de oito a dez horas por dia na Poli", diz Raphael Chinchilla, 22, aluno de engenharia elétrica na USP e diretor do Centro Acadêmico da Engenharia Elétrica.
    Ele defende um currículo mais flexível, de modo que os alunos possam se aprofundar nas disciplinas que queiram e que sejam úteis na carreira que o estudante vai desenhar.
    Chinchilla também acredita que o currículo deveria ser mais multidisciplinar. "Cursos como sociologia são raros para os engenheiros", diz.
    "No exterior, é comum estudantes de exatas fazerem cursos de humanas", diz o jovem, que embarca no segundo semestre para um intercâmbio na França --organizado pela própria Poli.
    Uma das exceções empreendedoras mais comentadas pelos corredores da USP é o engenheiro Romero Rodrigues, 36. Formado pela USP, ele é um dos criadores do Buscapé, site especializado em pesquisa de preços.
    A ideia surgiu ainda durante a graduação, em um trabalho que ele fazia com colegas na própria USP. Hoje, a empresa tem atuação na América Latina e o grupo tem mais de 1.500 funcionários.
    A sede, na avenida Paulista, tem redes de descanso, mesa de pebolim e boneco de boxe. Tudo para criar um ambiente bem inovador.
    'TUDO É DIFÍCIL'
    Apesar de não ter aprendido a empreender na Poli, diz Rodrigues, a passagem pela USP foi "fundamental" para o desenvolvimento da sua carreira como empresário.
    "Na USP tudo é difícil. Ninguém te pega no colo e te ensina o caminho das pedras."
    "Ninguém te lembra de fazer a matrícula ou que você tem prova. Você tem de ralar mesmo. E isso faz parte de ser empreendedor'."
    Mesmo com o excesso de disciplinas, ele conseguiu tempo para fazer remo na própria USP. Também cursou algumas disciplinas extras ligadas à gestão e marketing na vizinha FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da USP.
    Com tudo isso, formou-se engenheiro em sete anos --o tempo regular são cinco anos.
    "Não tive apoio dos professores para desenvolver especificamente o Buscapé. Mas eles me ajudavam ao compreender que eu estava trabalhando em um projeto legal e, por isso, chegava atrasado em algumas aulas."
    A carreira de Rodrigues fez com que ele tenha se transformado em um ídolo na Poli. Vira e mexe ele é convidado para dar palestras.
    Desde que se formou, algumas coisas já mudaram por lá. "A disciplina de empreendedorismo foi criada há cerca de dois anos", destaca Cardoso, diretor da Poli.
    As coisas, claro, ainda não mudaram o suficiente. "Empreendedorismo é optativo. Com a grade pesada, muitos alunos acabam não fazendo."
    O que continua igual é o excesso de aulas. Há resistência dos professores para reduzir a quantidade de cursos.
    Quanto a isso, ainda não há previsão de mudança.

      Antonio Prata

      folha de são paulo
      Rolezinho: breve rolê histórico
      Cabral chegando à Bahia com aquele bando de marmanjo, atrapalhando o lazer dos índios; é ou não é 'rolezinho'?
      Esta foi uma semana temática: o aumento dos juros, Cauã Reymond e os bigodes ensanguentados de Sir Ney foram todos pisoteados pelos Mizunos dos funks da periferia. A curiosidade é geral: "rolezinho" é do bem? "Rolezinho" é do mal? "Rolezinho" é baderna? "Rolezinho" é cultural? O "Rolezinho" de um termina onde começa o Rolexinho do outro? Ou versa-vice?
      Para respondermos a essas perguntas, é preciso compreender, antes de mais nada, que não se trata de um fenômeno recente. Muito pelo contrário. O que foi, afinal de contas, o fuzuê de Jesus contra os vendilhões? O nazareno chegou ao templo de Jerusalém montando um jumentinho (praticamente um Chevette, pra época), trazendo na cola uma ruidosa multidão da periferia (Jericó, Betel e outras quebradas), "expulsou a todos que ali vendiam e compravam; também derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas" (Mateus, 21:12-17). Se os centuriões dispusessem de cruzes de borracha e coroas de espinho de efeito moral, Roma talvez durasse mais uns três ou quatro séculos.
      Esqueçamos Átila, os Godos, Visigodos e Germânicos --nosso espaço é curto-- e saltemos 1500 anos: Cabral chegando à Bahia com aquele bando de marmanjo, atrapalhando o lazer dos índios que só queriam passear com a família; é ou não é "rolezinho"? "Rolezaum", na verdade, dada a distância percorrida. Dizem que, depois dos primeiros atos de vandalismo (paus-brasil eram derrubados como se fossem orelhões), os pataxós tentaram entrar com uma liminar, mas a Justiça da época era avançadíssima e já estava do lado dos poderosos, de modo que não apenas negou o pedido como o inverteu; os índios é que foram acusados de "rolezinho" nas terras de El Rey.
      Ainda que, sob certa perspectiva, a história do mundo se confunda com a história do "rolezinho", foi no século 20 que ele aflorou em todo seu esplendor. (É sabido que Eric Hobsbawn, na sua obra mais famosa, ficou em dúvida entre os títulos "Era dos Extremos" e "Era dos Rolês".) O rol dos grandes promotores de "rolezinhos" inclui de Mahatma Gandhi aos Beatles, de Rosa Parks (a moça afrodiferenciada que, em 1955, sentou no assento de ônibus reservado a brancos, no Alabama) ao Roger, do Ultraje a Rigor ("Nós vamos invadir sua praia"), dos hippies à Gaviões da Fiel, que em 1976 promoveu a "Invasão Corintiana" ao Rio de Janeiro.
      Diante da reaparição do fenômeno, tem muita gente preocupada: o "rolezinho", em sua forma atual, veio para ficar? Caso a resposta seja positiva: áreas VIP dariam conta de recolocar cada um em seu lugar ou será necessária a construção de novos shoppings dentro dos shoppings? Eu diria ao leitor mais aflito que não se preocupe, pois a prefeitura apareceu com uma ótima solução: que os encontros sejam feitos não mais dentro dos estabelecimentos, mas nos estacionamentos. É a ideia mais brilhante diante de um "rolezinho" desde que Maria Antonieta sugeriu aos que não tinham pão que comessem brioches. Como se sabe, sem pão, brioches ou opções de lazer na periferia de Paris, a galera foi toda zoar na Bastilha.

      sábado, 18 de janeiro de 2014

      Raul Juste Lores

      folha de são paulo
      Obama diz que EUA deixarão de espionar líderes de países 'amigos'
      Ele, porém, não cita nações aliadas e abre exceção para 'forte razão de segurança nacional'
      Presidente anuncia reforma na vigilância americana; NSA terá de sempre pedir à Justiça para coletar dados
      RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTON
      O presidente americano Barack Obama anunciou ontem que não haverá mais espionagem de chefes de Estado e de governo "de nossos amigos próximos e aliados", a menos que haja "forte razão de segurança nacional".
      "Se eu quero saber o que nossos amigos e aliados pensam, vou pegar o telefone e ligar para eles, em vez de recorrer à espionagem", disse, no discurso de 45 minutos sobre a prometida reforma da NSA (Agência de Segurança Nacional).
      Obama disse que instruiu sua equipe de inteligência para aprofundar a cooperação com aliados para "reconstruir a confiança". Mas o presidente não citou que países são considerados amigos.
      Ele afirmou que continuará a coletar inteligência ao redor do mundo, "do mesmo jeito que outros países fazem". "Não vamos pedir desculpas porque nossos serviços são mais eficientes." Reconheceu, porém, que erros são "inevitáveis" no trabalho de seus agentes.
      A presidente Dilma Rousseff e a chanceler alemã, Angela Merkel, reclamaram da espionagem em sua comunicação pessoal, após os vazamentos feitos pelo ex-técnico da NSA Edward Snowden. Dilma adiou visita de Estado a Washington, mas só Merkel recebeu a promessa de não ser mais espionada.
      Obama também determinou ao Departamento de Estado designar um coordenador para diplomacia internacional, que servirá como ouvidor e negociador das reclamações e questões de governos estrangeiros.
      Diversos anúncios, entretanto, não foram acompanhados de detalhes.
      Obama não falou se a NSA continuará a tentar quebrar códigos ou softwares, como revelado pelas denúncias.
      Em 28 de março, Obama receberá projeto das agências de inteligência e do Departamento de Justiça com novas diretrizes para a coleta e o armazenamento de dados das ligações telefônicas. Mas algumas mudanças entram em vigor imediatamente.
      A NSA deixa de poder investigar qualquer número de telefone relacionado a outro telefone sob investigação --e a qualquer outro número conectado a este segundo telefone. Agora, só poderá investigar duas conexões de um número. Exemplo: uma pessoa ligou para um suspeito monitorado, e outra pessoa telefonou para o interlocutor do suspeito. A NSA terá permissão para vigiar esta terceira pessoa, mas não uma quarta que vier a falar com ela.
      A agência perde a autonomia no acesso a esse banco de dados. As pesquisas dependerão de ações judiciais. O cargo de defensor público de privacidade será criado no tribunal secreto que autoriza as investigações --segundo críticos, o órgão tem autorizado tudo sem supervisão.
      Segundo Obama, o governo permitirá às empresas de tecnologia divulgar mais informações do que antes sobre as solicitações que recebem para fornecer dados aos serviços de inteligência. Esta era uma reivindicação de gigantes como Google, Facebook e Microsoft, depois de os vazamentos apontarem que essas companhias passavam informações ao governo sem controle rígido.
      Em mensagem dirigida à comunidade internacional, ele falou que "não coletamos inteligência para dar uma vantagem competitiva a empresas ou setores comerciais americanos" e que queria dar "um passo inédito ao estender certas proteções a cidadãos estrangeiros no respeito à privacidade".
      SNOWDEN
      Obama disse não querer se estender sobre as "ações ou motivações" de Snowden. Mas criticou indiretamente o ex-técnico e os jornalistas que trabalham com ele --"a maneira sensacionalista que os vazamentos foram divulgados causaram dano ao país".
      "A defesa da nação depende em parte da fidelidade daqueles a quem confiamos segredos. Se qualquer um que faz objeções ao governo pode vazar dados confidenciais, nunca conseguiremos manter o povo seguro", disse.

      REPERCUSSÃO
      Alemanha reage com cautela
      Por meio de porta-voz, governo alemão diz que analisará detidamente o anúncio de Obama e que discutirá sobre a colaboração futura dos serviços de espionagem de ambos os países em conversações bilaterais confidenciais. O governo brasileiro não se pronunciou
        ANÁLISE
        Decisão sobre o que vigiar segue nas mãos da Casa Branca
        JOAQUIM FALCÃOESPECIAL PARA A FOLHAA Carta dos EUA proíbe que o governo faça "buscas e apreensões irrazoáveis" nas casas e haveres dos americanos. O dever de garantir a segurança nacional tem este limite. Coletar todos os telefonemas, de todos, todo o tempo é irrazoável? Este é o problema central. As medidas propostas serão suficientes para respeitar a Constituição?
        A questão toda é quem decide o que é razoável. Até ontem era o Poder Executivo, e continuará. Obama propôs mudar processos decisórios. O governo será mais razoável. Não há motivo para não crer que tentará ser. Mas as mudanças não atingem o núcleo do problema: a institucionalização do segredo.
        Por exemplo, há um Tribunal de Inteligência e Vigilância Externa. Quem acha que o governo foi irrazoável ou é processado pelo governo responde nesta corte. Mas é uma corte de julgamentos secretos. Ninguém sabe os critérios. Só o governo. Obama prometeu revelar de tempos em tempos as decisões, e criar um painel de advogados independentes para auxiliar a corte. Avanço e cortesia. Mas sem ampla transparência.
        O governo continuará a coletar, guardar dados e usá-los, às vezes pedindo permissão ao Judiciário, quando preciso. Continuará a espionar governos, com exceção de líderes dos países amigos. Pressão de Dilma e de Merkel com certeza. Mas quem decide quem é amigo é ele.
        Continuará a registrar, guardar dados dos próprios congressistas americanos, e provavelmente da Suprema Corte também. Pouco muda na estrutura decisória. Afinal, não é o Congresso ou o Judiciário o responsável real último pela segurança nacional americana. Prova disso é que as medidas propostas pela maior autoridade do mundo não foram exigidas por nenhum desses poderes, mas por Snowden e pela opinião pública americana e global.