segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

'The Square', indicado ao Oscar, enfoca mudanças no Egito

folha de são paulo
ANÁLISE
'The Square', indicado ao Oscar, enfoca mudanças no Egito
DIOGO BERCITODE JERUSALÉM
A revolução egípcia irá concorrer ao Oscar de melhor documentário com "The Square" (a praça), disponível desde sexta no Netflix. O filme narra as insurgências que tomaram o Egito desde o início de 2011, quando o ex-ditador Hosni Mubarak foi jogado para fora do trono.
Mas, em vez de mostrar uma imagem nítida a respeito da praça Tahrir, à qual se refere o título, "The Square" prova que a Primavera Árabe é um processo contínuo sobre o qual ainda não é seguro estabelecer conclusões.
Caso tivesse sido produzido em 2011, talvez o filme provasse que a insurreição egípcia havia culminado em um segundo regime militar. No ano seguinte, poderia estar evidente que, na verdade, as manifestações haviam coroado o islamita Mohammed Mursi para a Presidência.
Hoje, a impressão deixada parece estar resumida nas falas dos personagens, nas últimas sequências, quando afirmam que o povo egípcio não procura um novo líder, mas uma nova consciência.
A Primavera Árabe começou, no Egito, como protestos pela deposição do ex-ditador Mubarak. Após sua queda, em fevereiro de 2011, o Exército desagradou à população, que exigiu eleições.
A Irmandade Muçulmana, que lutara contra o regime durante décadas, conquistou a Presidência do Egito, apenas para um ano depois ser também retirada do poder.
As mudanças na praça Tahrir são rápidas. No início, um dos protagonistas afirma:"Fui às ruas e descobri que as pessoas se sentiam como eu". Mais adiante percebe que os confrontos distinguem os revolucionários.
Assim, a camaradagem entre o jovem Ahmad e o islamita Magdy se torna um ponto tenso na narrativa, a partir do momento em que a sociedade se vê dividida pelo projeto político oferecido pela Irmandade Muçulmana, a quem as leis islâmicas têm de ser incluídas na Constituição.
É nesses conflitos que o documentário deixa evidente a riqueza de seu conteúdo, com a progressão não da liderança egípcia, mas da consciência de seus personagens --que, percebem, fazem parte de placas tectônicas distintas que se movem, se chocam e se sobrepõem.

Gregorio Duvivier

folha de são paulo
Remissão voluntária
O fígado está desviando sangue do rim, que rouba o sangue do pulmão, que recita trechos do seu livro ruim
Caro Senador,
Quem lhe escreve é o seu tumor. Passei um tempo no seu corpo, trabalhando, sem muito sucesso, lembra?
Escrevo essa carta porque saí sem me despedir e acho que fiquei lhe devendo explicações. Não se abandona a casa de um anfitrião assim, sem mais nem menos. Mesmo quando o anfitrião é uma pessoa péssima, como o senhor.
Como o senhor deve ter percebido, o período que passei aí dentro do seu corpo não foi uma época boa. Para ser bem sincero, a convivência com o senhor foi muito difícil. Não sou de falar mal de quem me recebe, mas acontece que o clima aí dentro é horroroso, o cheiro é fétido e seus órgãos são todos pessoas péssimas.
O fígado está desviando sangue do rim, que rouba o sangue do pulmão, que recita trechos do seu livro (aliás, que livro ruim, hein, senhor). O estômago não repassa os alimentos pro intestino, porque eles são inimigos políticos. O intestino nomeia parentes por meio de atos secretos. Resumindo: não há um órgão do senhor que se salve, do ponto de vista do caráter.
Fui à procura de partes que pudessem ser boa companhia. Seu coração existe, mas só bombeia sangue pros órgãos que ele tem afinidade. O cérebro estava ocupado com discursos parnasianos e poemas populistas (talvez fosse o contrário). Procurei, em vão, pelo sentimento de culpa. Nada. A vergonha também não estava na cara, nem em qualquer outro lugar. É verdade que não conferi na região retal, onde me disseram que o senhor guarda a ética.
Eu sei que o Brasil estava torcendo por mim. Mas nessas horas confesso que sou um tumor pouco profissional. Não sei agir sob pressão. Preciso de um bom ambiente para trabalhar. Tenho colegas que não ligam para essas coisas. Mas eu não consigo exercer minha profissão quando o santo não bate. O meu trabalho exige uma certa identificação e empatia. E tem um tipo de gente com que eu prefiro não me misturar.
Pensei em me instalar na sua filha, já que ela estava sempre por perto. Mas, ao que parece, o mal é de família. Sou alérgico a lagostas, especialmente às superfaturadas. Prefiro a lixeira hospitalar.
Além do mais, logo percebi que não havia grande mal a ser feito, quando comparava com a sua obra. O que quer que eu fizesse com o senhor não seria pior do que o que o senhor fez com o Maranhão.

    Luiz Felipe Pondé

    folha de são paulo
    Dois pesos e duas medidas
    Por qual razão seria incorreto fazer piadas sobre negros e gays, mas não sobre o cristianismo?
    Não sou religioso, só frequento templos vazios. Tampouco considero o ateísmo prova de maior inteligência ou coragem intelectual. Dias atrás, nesta coluna, ataquei as dimensões picaretas das religiões.
    Por que digo isso? Porque hoje em dia, em épocas de exigências de pureza ideológica (no mundo da cultura vivemos um fascismo descarado dos bonzinhos, baseado em difamação de quem não frequenta as ideias que eles frequentam), se faz necessário apresentar algumas "credenciais" quando se vai tratar de um assunto delicado que pode ofender a sensibilidade totalitária dos bonzinhos. Quando ofendidos, os bonzinhos passam à gritaria, principalmente nessa masmorra escura que são as redes sociais.
    Apesar de não ser religioso, conheço o suficiente de algumas religiões para saber que muitas delas carregam um saber de valor inestimável, fato este que escapa a muitos dos críticos banais das religiões. Você identifica um ignorante quando ele diz que a Bíblia é um livro opressor.
    Dito isso, vamos ao que interessa. Há alguns anos, um cartunista dinamarquês passou por poucas e boas quando fez piadas com Maomé. Lembro-me de muitos dos bonzinhos defenderem o direito dos muçulmanos de se ofenderem com a piada e jogarem a atitude do cartunista no saco indiferenciado do preconceito ocidental contra o Islã.
    Fico feliz que no Brasil ainda se possa fazer humor com as religiões e que quem faz piada com Jesus (que acho um cabra-macho, mas não acho que seja Deus) possa fazê-lo, ganhar dinheiro com isso e não ser ameaçado de morte. Ou, quem sabe, perder o emprego. Pedir a cabeça de alguém é um pedido comum dos bonzinhos quando leem algo com que não concordam.
    Acho que o humor deve ser livre porque ele é uma das dimensões por meio das quais o espírito humano sobrevive, se alimenta e reflete sobre sua condição. Não partilho da ideia de que o humor seja uma forma menor de cultura. Por isso, discordo da tentativa de qualquer grupo, religioso ou não, de querer barrar ou processar quem quer que seja por ter feito piada do que for.
    Mas me pergunto uma coisa: por que alguns acham politicamente incorreto fazer piadas com negros, índios, gays e nordestinos (e julgam justificados processos legais contra quem faz tal tipo de piada), mas julgam correto fazer piada com os ícones do cristianismo?
    Claro, quem pratica esse tipo de critério, com dois pesos e duas medidas, é gente boazinha e com opiniões corretas. Defendem a própria liberdade, mas negam imediatamente a liberdade de quem os aborrece. O nome disso é incoerência. A democracia só vale para quem nos irrita, mas os bonzinhos não pensam assim.
    Não me surpreende a incoerência dos bonzinhos, porque o que faz alguém ser bonzinho hoje é a falta de caráter. Ser do "partido dos bonzinhos" hoje dá dinheiro, ganha editais, cargos no governo, fotos em colunas sociais, convites e prêmios culturais. Identificar um bonzinho hoje em dia como resistente ao poder é uma piada e tanto! Eles estão no poder até no RH das empresas e na magistratura.
    Os cristãos têm todo o direito de ficar bravos com as piadas com Jesus (que aliás, costumam ser ótimas). Mas, acho "engraçado" (já que estamos falando de humor) alguém não perceber que vivemos num mundo em que tirar sarro de cristão pode, mas de outros grupos não. Por quê?
    Fácil: porque ninguém precisa ter "cojones" para tirar sarro de cristão. No mundo da cultura, falar mal de religião (menos da indígena, afro e budista) é bater em bêbado na ladeira.
    Proposta: que tal tirar sarro das pautas dos bonzinhos? Tipo fazer piada com as "jornadas de junho". Ou da moçadinha que quer salvar o Ártico. Ou de gente que vive falando mal da polícia, mas treme de medo e chama a polícia logo que sente sua propriedade privada em risco. Ou do movimento estudantil. Ou de intelectual que glamoriza os "rolezinhos". Ou das feministas. Ou de ateus militantes. Ou do exército da salvação PSOL e PSTU. Ou de quem diz que bandidos são vítimas sociais.
    É isso aí: que tal fazer piadas com os preconceitos dos bonzinhos? Missão impossível?

    domingo, 19 de janeiro de 2014

    Fafá de Belém na campanha das Diretas-Já

    folha de são paulo
    ARQUIVO ABERTO
    MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
    Duas gargalhadas poderosas
    Rio, 1983
    FAFÁ DE BELÉMEm março de 1983 recebi uma música de Milton Nascimento e Fernando Brant. A canção chamava-se "Menestrel das Alagoas". E eu me perguntei: por que eles me mandaram uma música em homenagem ao Djavan?
    Quando chamei Wagner Tiso para fazer o arranjo, sabia que somente ele poderia colocar a música no tamanho dela, mas nunca imaginei que estaríamos escrevendo uma página rumo à redemocratização do Brasil.
    Em agosto, Teotônio Vilela soube da gravação e quis ouvi-la. Ele chegou, muito abatido, com Miro Teixeira e João Araújo, ao estúdio da Som Livre. Ouviu a gravação e, a cada passo, um cheiro de almíscar se espalhava pelo estúdio. Ele estava chegando de Pouso Alegre (MG), de mais uma visita ao paranormal Thomas Green Morton e de uma nova tentativa para deter um câncer avassalador.
    Ensimesmado, o senador pediu para dizer algumas palavras. E foram essas palavras que conduziram o Brasil rumo à democracia! Em determinado momento, ele deu uma poderosa gargalhada, e eu, outra.
    Então, surpreendentemente, me disse: "Minha filha, nossas gargalhadas, juntas, podem fazer o chão deste país tremer!". E continuou : "Saio desta caminhada pela anistia com muita dor e ainda cheio de sangue, mágoas, tristeza. Penso em cruzar o país pedindo eleições diretas, e já! Para isto, é preciso que nenhum partido se aposse... Terá que ser um movimento suprapartidário, e somente o espírito desarmado conseguirá agregar a todos. Uma caminhada que não pertença à ninguém; que tenha alegria e seja leve. Só assim faremos a transição democrática".
    E assim foi. Vilela morreu aos 66 anos, no dia 27 de novembro de 1983, em Maceió. Naquele mesmo dia, 15 mil pessoas se reuniram na praça Charles Miller, em São Paulo, para a primeira grande manifestação pelas eleições diretas, depois de quase 20 anos de ditadura.
    Eu estava em Curitiba, no teatro Guaíra, quando soube da morte do senador. Peguei um táxi e viajei, a noite toda, até chegar a São Paulo, onde tomei um avião para Maceió. Ao sair do enterro, um sertanejo muito simples me segurou pelo braço e, com lágrimas nos olhos, disse: "Não deixe a gente só! Sem ele, o que vai ser de nós?".
    Voltei para São Paulo, e o pedido do sertanejo permanecia em minha cabeça. Liguei para Teozinho (Teotônio Vilela Filho, hoje governador de Alagoas) e contei-lhe a história. Falei-lhe da ideia de lançarmos o Movimento Suprapartidário pelas Eleições Diretas no dia 1° de janeiro, em Maceió, homenageando o velho Teotônio. Mas ele achou que poderia não dar certo, já que o evento seria durante as festividades de fim de ano.
    Liguei para o político Marcos Freire (1931-87), que veio a São Paulo entusiasmado com a ideia. Combinamos o movimento para o dia 4 de janeiro, no pátio de São Bento, em Olinda, sob as bênçãos de dom Hélder Câmara.
    Havia, porém, um problema: como divulgar o evento? O disco que tinha a canção "Menestrel das Alagoas" era da Som Livre, gravadora que produz e comercializa trilhas sonoras de programas da TV Globo. Dei a ideia de fazermos um show de lançamento para que a Globo pudesse anunciar. E assim foi.
    Quando a voz de Vilela surgiu no meio da canção, bandeiras de todos os partidos de esquerda foram levantadas. Muitas faixas continham a expressão "Diretas Já!". Era a voz de Vilela ecoando pelas ladeiras democráticas e libertárias de Olinda. Emocionante!
    No dia 12 de janeiro de 1984, em Curitiba, ocorreu o lançamento nacional Diretas-Já, mas o comando da campanha, que era do PMDB paulista, não me convidou.
    No 25 de janeiro (há 30 anos), dessa vez na praça da Sé, o mesmo comando cortou meu nome, alegando que eu não fazia parte de nenhum grupo historicamente ligado às lutas democráticas.
    Mas um querido amigo chamado Luiz Inácio Lula da Silva, que fazia algumas reuniões em meu apartamento, quando a sede do PT não era segura o suficiente para certos encontros políticos, bateu o pé e disse : "Fafá, vem conosco!".
    Assim, reunimo-nos em minha casa para irmos, posteriormente, para o centro de São Paulo. E, da sede do Partido dos Trabalhadores, saímos de mãos dadas para nos encontrarmos com outros grupos, que também caminhavam de mãos dadas, comandados por Fernando Henrique Cardoso.
    A nós juntaram-se outros, outros, e muitos outros... E seguimos, sempre de mãos dadas e democraticamente, para a praça da Sé.
    Em minha mão, a caixa com a pomba branca que voaria naquele dia (e em muitos outros) levando a mensagem de esperança e construção de um novo país. Tudo ideia do genial Henfil, amigo pessoal de Vilela, que sugeriu que eu soltasse a pomba da paz enquanto a voz do senador ecoasse no silêncio das multidões.
    Aí, começou a grande caminhada, a campanha das Diretas: a voz de um povo que estava sem garganta para falar.

      São Paulo,460

      folha de são paulo
      SÃO PAULO, 460
      Um ano de 433 dias
      Picasso, João Cabral e outros besouros no quarto centenário paulistano
      DANIEL SALLESRESUMO A capital paulistana, que faz aniversário no próximo sábado, 25, teve sua mais longa festa há 60 anos. A celebração do quarto centenário da cidade, entre dezembro de 1953 e fevereiro de 1955, incluiu a estelar 2ª edição da Bienal, a inauguração do parque Ibirapuera, uma chuva de papel de prata e índios em parada militar.
      Impaciente para dar início às comemorações do quarto centenário de São Paulo, o industrial Ciccillo Matarazzo antecipou a festa em 48 dias. Na noite de 8 de dezembro de 1953, abriu as portas da segunda edição de um evento que criara dois anos antes, a Bienal.
      Ciccillo a incluiu no calendário de comemorações na condição de presidente da Comissão do Quarto Centenário, instituída em junho de 1951 pelo governo estadual e pela prefeitura para orquestrar as celebrações, previstas para todo o ano de 1954. A Bienal ocupou pela primeira vez dois dos edifícios do então inóspito parque Ibirapuera, o maior legado dos festejos, que seria aberto ao público meses mais tarde. Tratavam-se do Palácio das Nações, hoje Museu Afro Brasil, e do Palácio dos Estados, atual Pavilhão das Culturas Brasileiras.
      "O Parque do Ibirapuera, dentro da noite, era um eclipse com apenas duas faixas acesas: o Palácio das Nações e o Palácio dos Estados. O resto permanecia nas trevas, como blocos de folhinha a serem desvendados em datas próprias." O relato, do romancista e crítico de artes plásticas José Geraldo Vieira, foi publicado em 13 de dezembro na "Folha da Manhã".
      Apesar do aspecto ainda vago e inacabado do conjunto, no meio do qual "a grande marquise dormia como um trabalhador na plataforma de uma estação antes do horário", o romancista registra que "para as duas estrias de luz no eclipse escuro do Parque do Ibirapuera rumavam carros e transeuntes, atraídos como besouros e mariposas para aqueles dois focos retangulares de luz".
      Na ocasião, apenas besouros e mariposas que fossem jornalistas, fotógrafos, críticos de arte ou artistas, como os pintores Alfredo Volpi e Tarsila do Amaral, puderam conferir aquela que até hoje é tida por muitos a melhor edição da Bienal --uma cerimônia para as autoridades teria lugar no sábado seguinte, véspera da abertura para o público geral.
      Para os brasileiros, era a primeira oportunidade de contemplar num mesmo endereço obras de tantos representantes da arte moderna --3.374 nomes no total, contra 729 da Bienal de 1951. A lista incluía o americano Alexander Calder, o holandês Piet Mondrian, o suíço Paul Klee e o espanhol Pablo Picasso, que expôs sua monumental "Guernica".
      Houve outros marcos culturais notáveis, no âmbito das comemorações. No concurso literário, a comissão julgadora --que contava com os escritores Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes de Almeida e o crítico literário Antonio Candido-- deu o prêmio de poesia ao pernambucano João Cabral de Melo Neto, pelo seu poema "O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de sua Nascente à Cidade do Recife".
      Na cerimônia de premiação, em 23 de janeiro de 1954, presidida pela mulher de Ciccillo, Yolanda Penteado (tão ativa no cenário artístico quanto ele), foram contemplados ainda o também pernambucano Gastão de Holanda (melhor romance, com "Os Escorpiões"), o paulistano Walter George Durst (melhor roteiro cinematográfico, com "Quase uma Guerra de Troia") e Edgar da Rocha Miranda (em teatro, com a peça "E o Noroeste Soprou").
      Parecia não haver outro assunto. No Rio de Janeiro, promoveu-se na Academia Brasileira de Letras uma sessão em homenagem à efeméride paulistana. Terminou em debate. Os acadêmicos se perguntavam: quem deveria ser considerado o fundador da cidade, o missionário português Manoel da Nóbrega, que havia tido a ideia de criar um colégio naquelas lonjuras em 1554? Ou o jesuíta espanhol José de Anchieta, presente à missão de inauguração do colégio e que continuara a obra do português?
      Convencida pelo poeta paulista Menotti del Picchia, a maioria saiu em defesa do catequista espanhol. Entusiasmado, o ensaísta paraense Osvaldo Orico sugeriu que se comunicasse o placar ao governador de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez.
      ZERO HORA No dia 25 de janeiro de 1954, a festa do aniversário começou à zero hora. Quem não havia se posto em vigília para saudar a data foi acordado pelo badalar conjunto dos sinos da cidade, acompanhado pelo buzinaço dos motoristas e o espocar de rojões.
      Às 8h30, houve uma cerimônia no Pátio do Colégio. Diante do monumento da fundação de São Paulo, Getúlio Vargas depositou uma palma de louros. O presidente assistiu depois à missa inaugural da nova catedral da Sé, ainda com as torres inacabadas.
      A programação seguiu com parada militar no vale do Anhangabaú. Sob o viaduto do Chá, índios de torso nu e calça e sapatos brancos perfilavam-se diante de um palanque, de dentro do qual o indigenista Orlando Villas Bôas assistiu ao desfile abraçado a um curumim e ladeado por indígenas do Brasil Central, conforme registrou o fotógrafo German Lorca. Um dos que mais retrataram os eventos da data, Lorca, 91, relembra: "Fazia um calor danado e mesmo assim a população não arredava o pé".
      O mesmo vale ainda veria, no dia 9 de julho, data da Revolução Constitucionalista de 1932, São Paulo ser banhada por uma chuva de prata. Ela caiu no final da tarde, espessa e luminosa: 9 milhões de pequenos triângulos de papel prateado, despejados por aviões da Força Aérea Brasileira e iluminados por holofotes do Exército. Mais uma produção da Comissão do Quarto Centenário, a essa altura já não comandada por Ciccillo, que se demitira do cargo em março, após se desentender com o prefeito Jânio Quadros. Havia sido substituído pelo Príncipe dos Poetas Brasileiros, Guilherme de Almeida.
      Coube a ele liderar, na manhã fria do dia 21 de agosto, a inauguração mais esperada do ano, a do parque Ibirapuera, que começara a sair da prancheta do arquiteto Oscar Niemeyer em 1951. Seus pavilhões abrigavam a Exposição do Quarto Centenário, uma exaltação da "pujante indústria paulista", em meio a exemplos culturais de outros Estados e países.
      "Para isto São Paulo viveu seus bem vividos 400 anos", perorou Almeida às 11h, diante de autoridades. "Aqui se concentra, e ao mundo todo se mostra, todo um mundo de crenças, de ideais, de esperanças, de vontades, de esforços, de lutas, de obstáculos, de complacência, de incertezas, de sacrifícios, de dores, de reações, de alegrias e de vitórias. Amigos, entrai e testemunhai."
      No estande da Holanda, fez grande sucesso um canteiro de flores, protegido por uma legião de escoteiros. No Palácio das Indústrias (atual pavilhão da Bienal), o que mais causou frisson perdura até hoje: a primeira escada rolante da cidade. "Uma fila imensa de pessoas que fazem questão de experimentar o novo aparelho estende-se por ali", anotou um jornalista da "Folha da Manhã".
      Do meio-dia à meia-noite, os visitantes puderam circular dentro do parque em trenzinhos disponibilizados pela prefeitura. Rotas extras de ônibus foram traçadas. Temendo um congestionamento recorde ao redor do Ibirapuera, a diretoria do Serviço de Trânsito, a CET da época, alterou o sentido de algumas vias, fechou acessos e avisou: "O trânsito nas ruas que circundam o parque será feito em circulez'". Em outras palavras, se um motorista estacionasse para tirar uma foto, correria sérios riscos de ouvir de um guarda: "Cavalheiro, faça o favor de circular!".
      AMANHàInaugurado o parque, a missão da Comissão do Quarto Centenário foi dada por cumprida. Àquela altura talvez já não houvesse quem ignorasse a efeméride. O comércio vendia toda sorte de produtos com a estampa do quarto centenário. Muitos eram apresentados como revolucionários, como se pertencessem ao amanhã. O chuveiro da marca Sintéx lançado para os festejos, por exemplo, era apresentado como "de duração praticamente infinita".
      Circulavam slogans como "São Paulo não pode parar" e "São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo". "Acreditava-se que a cidade estava de posse de passaporte garantido para o futuro", diz o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, autor de livro sobre os primeiros 370 anos da cidade ("A Capital da Solidão", Objetiva, 2003).
      Parte desse futuro, porém, chegou com atraso. O Theatro Municipal --cuja reabertura estava prevista inicialmente para o feriado de 9 de Julho, após uma reforma iniciada mais de um ano antes--, só voltou a abrigar espetáculos em outubro de 1955. As obras ficaram paralisadas por quatro meses, depois que Jânio Quadros cortou boa parte das verbas necessárias. O palco mecânico, grande novidade do projeto, escapou da tesoura por pouco --julgando-o dispensável, o prefeito só aceitou custeá-lo depois de Guilherme de Almeida argumentar que se tratava de item crucial para a realização de montagens líricas.
      Escalado para reabrir a casa, o Balé do Quarto Centenário pôs-se em condição de atuar no prazo estipulado. Sob a direção artística do coreógrafo Aurel Milloss, um húngaro radicado na Itália, com passagens pelo Scala de Milão e pela Ópera de Roma, o grupo deu início à profissionalização da dança no Brasil. No final do ano seguinte, Jânio decidiu desfazer o balé. Não via sentido em custear um grupo formado para uma celebração que já havia acabado.
      E quando tinha acabado? A julgar pelo calendário do Campeonato Paulista do Quarto Centenário só em 1955. A partida decisiva se deu no dia 6 de fevereiro, no estádio do Pacaembu. Com três pontos de vantagem e jogando pelo empate, o Corinthians enfrentou o Palmeiras sob o olhar de 55 mil torcedores. O jogo terminou em 1 a 1, gols do alvinegro Luizinho e do alviverde Nei. Protocolar, a última rodada ocorreu no sábado seguinte, dia 13, pondo fim a um ano que havia durado 433 dias.

        Percursos da memória na cidade do poeta - JORGE CALDEIRA

        folha de são paulo
        SÃO PAULO, 460
        Um rolê com Paulo Bomfim
        Percursos da memória na cidade do poeta
        JORGE CALDEIRA
        Paulo Bomfim não apenas vive fisicamente em São Paulo há 87 anos. A cidade para ele tem história, de modo que muitos lugares não lhe aparecem como paisagens prosaicas do tempo que vive, mas como testemunhos ancestrais. O parque da Luz é o lugar da ermida que Domingos Luís, o Carvoeiro, construiu no século 16; a praça do Patriarca, o ponto de refúgio do Mirinhão, um ancestral seu do século 18; a rua Espírita, no Cambuci, o quilombo espiritual do negro Batuíra, no século 19.
        Outros pontos da cidade ganham colorido porque evocam memórias pessoais, testemunham encontros que os tornaram especiais. A praça Marechal Deodoro atravessada pelo Minhocão tem outros ares quando descrita como ponto de encontro com o cantor Nelson Gonçalves, seu irmão Quincas e o palhaço Piolim. A praça da República aparece com garapa, sorvete, normalistas e o guarda Antônio, protetor dos boêmios. Até o velório de Mário de Andrade muda, quando nele se mistura o desnudamento da tradutora Leonor Aguiar.
        A cidade é também o centro de sua escrita, tema constante de seus 26 livros de poesia (e mais meia dúzia de antologias, no Brasil e na Espanha) ou prosa -seu livro mais recente, "Insólita Metrópole", lançado em 2013, é uma antologia de crônicas sobre São Paulo, organizada por Ana Luiza Martins (Ateliê Editorial). Assim, outros aspectos da cidade são descritos por suas características metafísicas.
        Com tudo isso, a São Paulo de Paulo Bomfim é tecida por casos que, contados na sequência de sua prosa viva, dão uma dimensão bem diferente daquela da metrópole que quase se esquece da alma encantadora de suas ruas. A seguir, o registro de um desses passeios, na voz do escritor.
        A FUNDAÇÃO MÍSTICA
        "O corpo de São Paulo foi formado pela carne e o sangue de João Ramalho e Tibiriçá. A cabeça veio de Manoel da Nóbrega. Mas a alma de São Paulo veio de José de Anchieta. Já o governo veio de Santo André, a vila dos parentes de João Ramalho."
        R. JAGUARIBE
        WALDEMAR ZUMBANO
        "Um dia estava no Instituto Jaguaribe, no ringue de boxe. Vejo chegar um homem muito míope, ele tira os óculos com cuidado. Era pequeno, tinha cara de poeta, nenhuma musculatura. Sobe no ringue e me convida para fazer luvas. Tentei, tentei, e nada de acertar um soco nele. Cansei, parei e perguntei: 'Quem é você?'. E ele: 'Waldemar Zumbano'. Ficamos amigos o resto da vida. Ele era comunista, como aliás eram quase todos os pugilistas da cidade."
        CEMITÉRIO DA CONSOLAÇÃO
        MARQUESA DE SANTOS
        "Toda vez que vou ao cemitério da Consolação visitar o túmulo de meus ancestrais, deixo uma rosa no túmulo da marquesa de Santos, que fica ao lado. Uma vez, quando estava depositando a flor, havia uma preta velha ajoelhada, rezando. Ela virou-se para mim e perguntou: 'O senhor também é devoto da marquesa?'. Eu digo: 'Sou'. E ela: 'Comigo fez milagre. Pedi à marquesa para interceder junto ao professor Bardi. Consegui fazer uma exposição no Masp e estou aqui pagando a promessa'."
        R. LOPES CHAVES
        MÁRIO DE ANDRADE
        "As tias dele tocavam piano para as crianças dançarem nos saraus da casa de meu avô. Ele ia sempre, cantava e tocava. Numa festa de Ano-Novo estava todo mundo meio desanimado. Ele puxou cordão pela sala de casa, as tias na frente e eu criança no fim da fila. Ficou todo mundo alegre. E não esqueço do velório dele, na casa da rua Lopes Chaves. A Leonor Aguiar era uma figura extraordinária, uma mulher inteligentíssima, fora da época, traduzia, falava e declamava russo. Ela entrou com uma roupa. Quando chegou no caixão, resolveu trocar. Tirou o vestido, ficou de combinação na frente do morto e de todo mundo, colocou o outro sem a menor cerimônia."
        PÇA. MARECHAL DEODORO
        PIOLIM E QUINCAS
        "Havia ali o bilhar do Quincas, irmão do Nelson Gonçalves. Joguei com ele muitas vezes, porque o lugar era um ponto de encontro de boêmios. Mas também ia até a Marechal Deodoro para conversar com o Piolim, palhaço que foi muito meu amigo a vida inteira e que então montava seu circo em plena praça."
        R. EPITÁCIO PESSOA
        CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
        "Na esquina com a Rego Freitas ficava a casa de meu avô, onde passei a infância. Minha tia Cecília era cantora, todos os poetas e compositores da época iam aos saraus que aconteciam sempre: Olavo Bilac, Vicente de Carvalho, Coelho Neto, Paulo Setúbal. Uma de minhas lembranças mais antigas, quando tinha algo como cinco anos, foi a de ver o Catulo da Paixão Cearense de joelhos, tocando violão e cantando."
        PÇA. DA REPÚBLICA
        GUARDA ANTÔNIO
        "Passei minha infância brincando lá, minha adolescência tomando sorvete na Japonesa ou garapa no Nosso Engenho, enquanto esperava a saída das alunas da Caetano de Campos. E havia um português muito bom, o Antônio, que era guarda do jardim. De noite ele cobria os mendigos com jornal, protegia os boêmios que ficavam dormindo nos bancos para curar a bebedeira."
        PARQUE DA LUZ (HISTÓRICO)
        DOMINGOS CARVOEIRO
        "Era a ermida de Domingos Luís, o Carvoeiro, uma figura mítica da história de São Paulo. Séculos depois o frei Galvão construiu o convento lindo que está ali até hoje."
        PÇA. DO PATRIARCA
        MIRINHÃO
        "Era o território de um antepassado meu, o Mirinhão, que largou o bandeirismo no século 17 para se tornar um ermitão, tomando conta de uma pequena capela que havia ali. Cuidou da capelinha de Santo Antônio e fez um testamento onde exigiu ser enterrado no altar-mor -e nem era ainda a igreja atual, com o teto do frei Jesuíno de Monte Carmelo."
        AV. SÃO LUÍS
        MANUEL BANDEIRA
        "Minha mulher Emy e eu ficamos sócios de uma galeria de arte que ficava no prédio Zarvos, onde antes era a casa do barão de Souza Queiroz, na av. São Luís, bem em frente à biblioteca. Um dia, no lançamento de um livro do Manuel Bandeira, fizemos cartazes com os poemas. Chega o Lima Barreto, o cineasta que fez 'O Cangaceiro'. Ele entra, olha os cartazes e vai direto para a mesa de autógrafos falando: 'Bandeira, naquele poema tem um erro de português'. Ele largou o copo de uísque, nem precisou arregaçar os punhos, porque costumava cortá-los quando ficavam puídos. Levantou e gritou: 'Erro de português é você, seu fotógrafo lambe-lambe. Ponha-se daqui para fora'. E expulsou o desafeto."
        RUA ESPÍRITA
        BATUÍRA
        "No século 19, nessa ruazinha do Cambuci morava o Batuíra, que ali fazia uma mistura de cultos espíritas e africanos. Além disso ele mantinha um pequeno teatro na região da atual rua Senador Queiroz. Com o dinheiro das récitas ele ajudava a libertar escravos."
        PARQUE DA LUZ (PRÁTICO)
        LUIS HUMBERTO GELFI
        "Ele era de Bergamo, foi parar no Cairo, teve algum problema com uma mulher, teve de fugir. Veio sem dinheiro no navio, dando aula de dança para os passageiros. Desembarcou em São Paulo sem um centavo, na estação da Luz. Atravessou para o jardim, olhou dali a torre da estação. Voltou, foi procurar o diretor, ofereceu-se para limpar o relógio. Foi o primeiro dinheiro que ganhou na cidade. Como sabia guiar, acabou ensinando os filhos de dona Veridiana Prado a dirigir automóveis -e acabou casando com uma amiga francesa dela, a Luíza. Ambos viriam a ser meus sogros."
        AV. IPIRANGA
        ARACY DE ALMEIDA
        "Eu era recém-casado. Um dia toca a campainha do apartamento. Era a Aracy de Almeida, dizendo: 'Paulo, eu estou com muita angústia, não queria ficar no hotel. Posso ficar em sua casa dois ou três dias?'. Peço para a Emy [Emma Gelfi Bomfim] tirar as crianças do quarto, ela se instalou. Foi ficando. Voltava das boates de madrugada, fazia interurbanos intermináveis para a boate Vogue, no Rio de Janeiro, conversava com o Vinicius de Moraes, o Antonio Maria, até o amanhecer. Eu estava começando na vida e tinha de pagar contas de telefone astronômicas. Quase três meses depois, trouxe uma arara que ganhou de presente da boate Jangada. Quando tentei falar alguma coisa, ela cortou: 'Eu respondo pela arara'. Levou o bicho para o quarto, ele comeu meus móveis, não aguentei e expulsei a ave. E ela: 'Em solidariedade à arara, também me retiro'. Mas ela foi a mulher que melhor conhecia a Bíblia que vi em toda a minha vida -e também a que sabia mais palavrões."
        QUATRO CANTOS
        CASTRO ALVES
        "O Castro Alves morou um tempo no Hotel Itália, que foi mais tarde o Hotel de França de meu avô. Ficava no único cruzamento da cidade, conhecido como Quatro Cantos, esquina da Direita com São Bento. E eu conheci uma velhinha, que era menina nos tempos em que o poeta morava lá, que me contou que ele, quando ia para a faculdade, dava um dinheirinho para ela e dizia: 'Você fica na janela que é para ver se não aparece algum admirador da Eugênia Câmara'."
        R. TABATINGUERA
        D. PEDRO 1º
        "D. Pedro 1º chegou na tarde de 7 de Setembro de 1822, entrou na cidade pela rua Tabatinguera. Os sinos da igreja da Boa Morte anunciaram a chegada. A meu modo de ver, ele se hospedou no casarão do brigadeiro Jordão, que mais tarde foi o hotel de meu avô, Guilherme Lebeis. De lá foi para o teatro da Ópera, que ficava no pátio do Colégio. Ali ele sentou-se no piano e tocou o hino da Independência - com um olho em Domitila, a futura marquesa de Santos, nos braços de quem se tornaria um adulto."
        CACIQUE CAIUBI
        "A única rua de São Paulo que nunca mudou de nome. Nela ficava a taba do cacique Caiubi, irmão de Tibiriçá e Piquerobi, que morreu como uma espécie de santo, usando vestes religiosas, depois de uma conversão linda."

        Ruy Castro mede a estatura de Woody Allen

        folha de são paulo
        Ruy Castro 
        RESUMO Prêmio especial dado ao cineasta Woody Allen na cerimônia do Globo de Ouro, há uma semana, gerou protestos de Mia, sua ex-mulher, e de Ronan Farrow, filho do casal, nas redes sociais. Acusado por ambos de pedofilia e incesto, Allen é notório exemplo de que a arte não deve ser avaliada pela vida de quem a produz.
        *
        No domingo último, na entrega do prêmio Globo de Ouro a figurões do cinema, em Los Angeles, havia um prêmio especial para Woody Allen. Como sempre, ele não foi recebê-lo pessoalmente. A tarefa coube a Diane Keaton, sua ex-namorada, amiga e atriz. Quem assistia à cerimônia pela TV e fazia comentários pelas redes "sociais" era a ex-mulher de Woody, a também atriz Mia Farrow. Ao ouvir o nome de Woody Allen, ela escreveu: "Hora de pegar um sorvete e mudar de canal para assistir a 'Girls'".
        Seu filho com Woody, Ronan, 26 anos, foi mais enfático: "Perdi a homenagem a Woody Allen", escreveu. "Eles colocaram a parte em que uma mulher confirmou publicamente que ele a molestou aos sete anos?".
        Reprodução/Twitter/RonanFarrow
        Ronan Farrow acusa Woody Allen de pedofilia pelo Twitter
        Ronan Farrow acusa Woody Allen de pedofilia pelo Twitter
        Os comentários se referem a um escândalo de 1992 envolvendo Woody Allen, Mia Farrow e seus filhos naturais e adotivos -os dois formavam um casal, embora não fossem casados e vivessem em apartamentos separados, em Nova York. Como muitos usuários dessas redes ainda não eram nascidos quando a história aconteceu, é provável que as mensagens tenham caído no vazio. Mas ainda há quem se lembre.
        Em janeiro daquele ano, ao visitar o apartamento de Woody na Quinta Avenida com ele ausente, Mia encontrou fotos de sua filha adotiva, a coreana Soon-Yi, nua e em poses sensuais. O choque foi grande -Woody era um pedófilo, seduzira sua filha, 37 anos mais nova do que ele. Foi esta a versão que, pouco depois, em seu apartamento no outro lado do Central Park, Mia apresentou para seus dez filhos -nove adotivos, um deles a pequena Dylan, de 7 anos, e o que tivera com Woody, Ronan (então chamado Satchel), 4. O caso foi para os tribunais, onde aflorou a chocante acusação de que Woody também abusara sexualmente de Dylan.
        Pode-se imaginar a repercussão desse julgamento. Woody e Mia já tinham feito 13 filmes juntos, entre os quais três dos maiores da carreira do diretor, como "A Rosa Púrpura do Cairo" (1985), "Hannah e Suas Irmãs" (1986) e "A Era do Rádio" (1987). As plateias tendiam a identificá-lo com seu personagem nas telas -o homem tímido e inseguro, mas decente e digno de proteção. Mia, ex-mulher de Frank Sinatra e do compositor e pianista André Previn, também renascera para o mundo: depois de uma estreia explosiva como protagonista em "O Bebê de Rosemary", de 1968, eclipsara-se e só se provara de novo uma atriz sensível e competente nos filmes de Woody. Era um relacionamento perfeito. Por que aquilo estava acontecendo?
        Nos seis meses que durou o julgamento, sobraram versões e contraversões que deixaram todo mundo mal. Mia teria inventado a história de Dylan para se vingar de Woody por ele a ter trocado por Soon-Yi. Woody e Mia estariam juntos apenas formalmente, porque a vida sexual entre ambos acabara desde que ela tivera Satchel em 1987. Mia seria uma neurótica, dada a tentar salvar seus casamentos adotando crianças asiáticas e africanas, física ou mentalmente deficientes -mas como ser uma boa mãe para dez filhos ao mesmo tempo, cada qual falando uma língua? E, quanto a casos com homens maduros, ela própria tinha o que contar: aos 21 anos, em 1966, casara-se com Sinatra, 51. "Algumas gravatas de Frank são mais velhas do que Mia", disse um amigo do cantor.
        O casamento durou apenas dois anos, em parte porque Mia nunca quis aprender a cozinhar macarrão. Em 1969, ela tomou André Previn de sua amiga Dory Previn, que tinha o dobro de sua idade. Com Previn, Mia começou seu programa de adoção em massa de crianças do Terceiro Mundo, o que levou alguém a defini-la como "baby-sitter da Unicef".
        REPUTAÇÃO
        As acusações abalaram também a reputação de Woody. Ao rever seus filmes, as pessoas se deram conta de que, em vários deles, algum de seus personagens faz sexo com a enteada, a cunhada, a mulher do amigo, a sogra e até com uma ovelha (Gene Wilder, em "Tudo o que Você sempre Quis Saber sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar", 1972). E, claro, havia "Manhattan" (1979), que trata de seu romance com a adolescente Tracy, vivida por Mariel Hemingway. A própria Tracy seria baseada em Stacey -atenção para a sonoridade- Nelkin, uma menina de 17 anos que ele teria namorado em 1976 e que faz uma ponta em "Annie Hall" ("Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", 1977).
        Mas, se Allen podia ser um pedófilo e incestuoso -como Mia o acusou no tribunal-, não seria com Soon-Yi, porque ela tinha 18 anos em 1992 e não era sua filha, nem adotiva. Era uma moça feita e ambiciosa, queria ser atriz ou modelo. Woody tinha 56 anos, mas essa diferença era pouco maior que a de Sinatra para Mia em 1966. Quanto à outra história, bem mais grave, Mia nunca conseguiu provar que Woody tivesse molestado Dylan.
        Quando isso estava acontecendo, há 22 anos, eu próprio comecei a achar que era o fim de Woody Allen. Seus filmes tinham prestígio, mas não eram sucessos comerciais. As plateias não o perdoariam e seus financiadores iriam abandoná-lo. Havia um precedente triste: o caso de "Fatty" Arbuckle (1887-1933), um dos grandes da comédia muda, mestre de Buster Keaton e amado pelo público. Uma garota de programa morreu numa orgia promovida por ele num hotel em San Francisco, em 1921. Depois de três julgamentos, "Fatty" saiu inocentado e o tribunal lhe pediu perdão. Mas o público nunca mais quis saber dele.
        O caso de "Fatty" Arbuckle foi uma exceção. Charles Chaplin, Carlitos (1889-1977), ainda mais querido, foi a julgamento em 1944 nos EUA por tráfico de brancas e saiu quase sem arranhões. Entre muitos outros, o poeta François Villon (1431-63) conheceu longamente a prisão por assassinato; o Marquês de Sade (1740-1814), por libertinagem; o também poeta Paul Verlaine (1844-96), por tentar matar seu namorado Rimbaud; o teatrólogo e "wit" Oscar Wilde (1854-1900), por homossexualismo; o contista O. Henry (1862-1910), por latrocínio; e o romancista e teatrólogo Jean Genet (1910-86), por renitente vadiagem. Alguns morreram em função da prisão, outros a superaram em vida mesmo, e todos foram reabilitados pela posteridade. O próprio Sinatra levou a vida sob suspeita de ligações com a máfia, mas qual de seus fãs se importava com isto?
        O britânico P.G. Wodehouse (1881-1975), um dos humoristas mais adoráveis do século 20, colaborou por ingenuidade com os nazistas na ocupação de Paris na Segunda Guerra e foi preso pelos aliados. Mas acabou perdoado -ninguém podia passar sem seu delicioso personagem, o mordomo Jeeves. O poeta americano Ezra Pound (1885-1972), declaradamente torcedor do fascismo, também foi preso e condenado por traição no pós-Guerra, mas fosse você perguntar a Augusto e Haroldo de Campos e a Décio Pignatari -e à maioria dos grandes poetas internacionais- se isto lhes fazia diferença.
        E o racista e antissemita Richard Wagner (1813-83), cuja música embalava Hitler e pode ter sido tocada em campos de concentração na Alemanha? Nunca foi tão admirado quanto hoje. O francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) era igualmente antissemita, o que nunca turvou a apreciação mundial por seu romance "Viagem ao Fim da Noite" (1932). E ninguém desconhece a história do cineasta Elia Kazan (1909-2003), que entregou nomes no macarthismo e carregou para sempre a pecha de dedo-duro -o que não o impediu de continuar trabalhando e fazer grandes filmes, como "Sindicato de Ladrões" (1954), "Vidas Amargas" (1955) e "Terra do Sonho Distante" (1963).
        Esses nomes são sempre citados quando se discute se a estatura da obra de arte deve ser medida pela largura ou fundura do artista. A resposta, pelo visto, é não -ou não necessariamente-, mesmo quando se refere ao pensamento puro. Vide Martin Heidegger (1889-1976), já estabelecido como o filósofo do século quando se descobriu que fora também nazista.
        Woody Allen, embora um caminhão lhe tenha passado por cima, não foi destruído pelo escândalo. Levantou-se, voltou a produzir e já fez 22 filmes desde então. Todos continuam a querê-lo -inclusive o Rio, que lhe acena com milhões para que venha filmar aqui. Na vida real, ele também vai bem: casou-se em 1997 com Soon-Yi e estão juntos até hoje, com duas filhas adotivas.
        Mia Farrow não se conforma. Há meses, deixou escapar numa entrevista que Ronan "poderia ser filho de Sinatra", não de Woody. E, de fato, pelas fotos do garoto, isso parece uma certeza -os mesmos olhos azuis, a boca insolente, o rosto desafiador. Para Mia, que melhor vingança contra Woody do que, tantos anos depois, insinuar que o corneou?
        Mia só se esquece de que, em 1986, quando isso teria acontecido, ela estava com 41 anos. E Sinatra, com 71. Não apenas Soon-Yi via nos coroas o ó do borogodó.
        RUY CASTRO, 65, jornalista e escritor, é colunista da Folha e autor de "Carmen - Uma Biografia" (Companhia das Letras) e de "Letra e Música" (Cosac Naify), entre outros.