sábado, 25 de janeiro de 2014

#depoimento Na oposição à ditadura militar vivíamos unidos -e melhor? - Clovis Rossi

Depoimento: Na oposição à ditadura militar vivíamos unidos -e melhor?

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Olho para a foto dos palanques mais prováveis de 2014, comparo-os com o das Diretas-Já, 30 anos atrás, e fico tentado a recordar uma frase irônica que os espanhóis inventaram nos primeiros anos de sua democracia recém-reconquistada, nos anos 70.
Diziam: "CONTRA a ditadura vivíamos melhor".
Decodificando: os grupos que haviam sido contra a ditadura de Francisco Franco não sentiam saudades da ditadura, mesmo ante as inevitáveis dificuldades de viver em democracia, mas lamentavam ter perdido a unidade que haviam exibido durante o longo inverno autoritário.
Volto aos palanques de agora e de antes. Em 2014, Dilma Rousseff ocupa um palanque, ao passo que seu padrinho Lula compartilhava o palco em 1984 com:
1 - Tancredo Neves, cujo neto, Aécio, é agora e por enquanto o principal rival de Dilma. Aliás, o partido de Tancredo, o PMDB, rachou-se em muitos pedaços, quando, em 1984, seu líder inconteste chamava-se Ulysses Guimarães, o incansável "Sr. Diretas".
2 - Fernando Henrique Cardoso, o único, com Lula, ainda vivo, das grandes figuras daquela época.
3 - Miguel Arraes, cujo neto, Eduardo Campos, para mim o Dudu de incursões pelo agreste, é agora adversário de Dilma e Lula, mais uma subdivisão do palanque das diretas.
Sem falar em Leonel Brizola, que não deixou herdeiros para 2014, quando, em 1984, incendiava a praça com gestos largos e seu inconfundível "gauchês".
As Diretas-Já não foram um simples movimento de massas, o primeiro de grande porte desde que a memória alcança. Foram um porre cívico, que inundou de alegria praças públicas de todo o país. É paradoxal que, em vez de raiva pelos 21 anos de ditadura, houvesse alegria pela possibilidade de pedir aos gritos o restabelecimento da soberania popular.
Os partidos de oposição, claro, estavam à frente, mas a festa, na verdade, era da praça, da rua. Difícil dizer se havia mais admiração do público pelos líderes que estavam no palanque ou dos líderes pela quantidade de gente que se reunia –e cantava e gritava e agitava bandeiras.
Em um país tradicionalmente apático, foi um choque de multidões. Para mim, que vinha de festas ainda mais numerosas na Argentina pela reconquista da democracia, era um deslumbramento. Afinal, era a chance de votar pela primeira vez para presidente, apesar de já ter então 40 anos, 20 de jornalismo. Sentia-me vítima de uma castração cívica.
Pena que o Congresso deu as costas à rua e não aprovou a emenda. Minha tese, de impossível comprovação, é que o Brasil seria um país melhor se o pleito direto tivesse sido em 1985, em vez de 1989. No mínimo ter-se-ia evitado a cruel ironia de, na primeira votação democrática, o eleito ter sido um "filhote da ditadura", como Brizola chamava, com razão, Fernando Collor. 

Humoristas definem o que significa ser paulistano

folha de são paulo - revista são paulo

Humoristas definem o que significa ser paulistano

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Ser paulistano pode significar utilizar "meu" antes de qualquer outra palavra ou terminar uma frase com "Tá, ligado mano?". Pode ser, ainda, sinônimo de uma espécie de super-herói, às vezes, estressado, atrasado e que precisa vencer os congestionamentos desviando de motoboys alucinados.
Os retratos dos moradores de São Paulo surgiram nas respostas de 15 humoristas, nascidos ou radicados na capital paulista. Entre eles estão Alexandre Porpetone, Danilo Gentili, Rafael Cortez e Tom Cavalcante.
Confira como todos responderam a esta pergunta: O que significa ser paulistano?
Editoria de Arte/Folhapress
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"É ir pro serviço de ônibus e voltar nadando. É passar a metade do dia no trânsito, desviando de motoboys alucinados. É ter um vizinho gritando:'Vai, Curinthia!'. É ter as quatro estações do ano no mesmo dia. É ir pro serviço enquanto tem gente voltando da balada. É viver a noite e o dia intensamente."
Alexandre Porpetone, 36, de São Paulo (SP)
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"Não ter uma estátua de braços abertos como símbolo da cidade, mas ser uma cidade que recebe todos de braços abertos"
Danilo Gentili, 34, de Santo André (SP)
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"É saber receber as pessoas de todas as partes do país muito bem. É ter a conveniência de uma cidade que não dorme, acostumar-se com isso e depoisficar indignado quando viaja e vê que os outros lugares não são assim! É tomar chope, falar alto, comer pizza, e acabar toda frase dizendo: 'Tá ligado mano?'."
Diogo Portugal, 44, de Curitiba (PR)
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"O paulistano é um super-herói em luta eterna contra o tempo, as filas, o trânsito, os alagamentos, o mau humor alheio e o próprio e a privação de sono. O super-herói geralmente mora em gaiolas com vista para outras gaiolas e gosta de viver em grupo. Em dias de folga, opta por se aglomerar em shoppings, parques, praias, feiras e baladas em busca de lazer..."
Grace Gianoukas, 50, de Rio Grande (RS)
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"Tem de falar 'meu...' antes de qualquer outra palavra e pegar um trânsito de boa!!!rs"
Luiz França, 39, de Senhor do Bonfim (BA)
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Ser paulistano é...

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João Brito
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Alexandre Porpetone, 36, mora em São Paulo desde que nasceu e "paga o IPTU desde então"
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"É ter um país inteiro dentro de um país inteiro... Poder comprar de um alfinete a um navio... Ouvir música de um realejo ou de uma orquestra internacional... Comer um pastel de feira ou jantar num restaurante cinco estrelas... Do malabarista no farol a um musical da Broadway..."
Marcelo Mansfield, 41 (tá bom!!), de São Paulo (SP)
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"Simpatia, cultura, agilidade. Essas são as principais características de um paulistano! Adotei essa cidade para viver, trouxe meus filhos... Hoje,moro com minha mulher Renata, nosso filho Luca (único paulistano) e meus dois filhos do primeiro casamento, Cauê e Mariah. Todos adoram morar aqui!"
Marcelo Marrom, 41, de Niterói (RJ)
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"Quando estamos cansados de estresse, trânsito, fila e resolvemos passar o feriado no Guarujá, que é a mesma coisa, mas com chuva."
Mauricio Meirelles, 30, do Rio de Janeiro (RJ)
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"Significa achar demais comer de madrugada, mesmo que a comida seja cara. E achar que duas horas de trânsito pra voltar do trabalho foi um tempo bom."
Murilo Couto, 25, de Belém (PA)
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"Ser paulistano significa exercitar diariamente a paciência e o autocontrole no trânsito, tentando convencer a si mesmo de que o custo vale o benefício..."
Paulo Bonfá, 41, de São Paulo (SP)
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"Ser paulistano é não ter medo de trabalho rsrs. Aqui tudo funciona!Gosto muito da plateia paulistana, uma das melhores que tem."
Paulinho Serra, 37, do Rio de Janeiro (RJ)
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"Significa conviver com uma cidade pacífica e plenamente acessível no mês de janeiro para, ao longo de todos os meses seguintes, vê-la transformada num caos de trânsito, superlotação e loucura! É como se São Paulo fossecriança no começo do ano e depois já pulasse para a adolescência rebelde..."
Rafael Cortez, 37, de São Paulo (SP)
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"Considero ter realizado uma espécie de casamento com São Paulo. No início, um namoro espetacular, conhecendo lugares, amigos e umagradável congestionamento noturno: 'E aí gatinha, tá indo pra onde?'. Depois, veio a rotina: contas, portas fechadas, a renite, e um trânsito com novos diálogos: 'Tá com pressa? Passa por cima filho da p...!'."
Robson Nunes, 31, de São Bernardo do Campo (SP)
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"Brinco que se você for ao Rio e falar mal da cidade o carioca vai falar: 'Aê, mermão... Tá louco parceiro? O Rio é sinistro!'. Se você for a Bahia e falar que Salvador tem muitos problemas, o baiano vai defender: 'A Bahia é linda! Vamos comer um acarajé e você vai mudar de ideia'. Se você chegar em um paulista e disser: 'Que trânsito de merda tem nesta cidade'. Ele vai responder: 'É verdade, parceiro. Tá fod* morar aqui, não aguento mais'."
Rudy Landucci, 29, de São Paulo (SP)
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"Paulistano é aquele cara que acorda cedinho, atrasado, escova os dentes, toma banho rápido, confere as notícias passando pelo Instagram, Twitter, Facebook, envia mensagens pondo seus posts nos três ao mesmo tempo. Sai com pressa, corre para o carro sem verificar a placa de rodízio, levando cinco multas até chegar ao seu destino."
Tom Cavalcante, 51, de Fortaleza (SP) 

Se a emenda passasse, Ulysses provavelmente teria sido eleito - Marcelo Coelho

folha de são paulo
ANÁLISE
Se a emenda passasse, Ulysses provavelmente teria sido eleito
Adesismo que marcou a transição para a democracia teria começado antes
As alternativas dramáticas do passado parecem, com o passar do tempo, convergir para o mesmo lugar

MARCELO COELHOCOLUNISTA DA FOLHAO candidato natural à Presidência, caso a emenda das Diretas-Já tivesse sido aprovada, era Ulysses Guimarães, do PMDB. A opção por Tancredo Neves, mais moderada e conciliatória, estava reservada no caso de fracasso. O exercício de imaginar o que aconteceria com Ulysses na Presidência pode ser arriscado, mas não difícil.
O primeiro impulso seria o de imaginar uma ruptura mais clara com o regime militar; seria inimaginável uma Vice-Presidência ocupada pelo ex-arenista José Sarney, ou um ministério tão heterogêneo quanto o que se produziu depois, abrigando velhos defensores da ditadura militar como Antonio Carlos Magalhães, Marco Maciel e Aureliano Chaves.
Mas este é só o primeiro impulso. Para aprovar a emenda das diretas, seria necessário ter feito uma composição mais ampla no Congresso. Mais raposas ligadas ao antigo regime teriam de dobrar-se à vontade popular.
Parlamentares como Siqueira Campos (então GO), Edison Lobão (MA), Sebastião Curió (PA), José Carlos Martinez (PR), Reinhold Stephanes (PR) ou Nelson Marchezan (RS) precisariam desvencilhar-se mais cedo de seus compromissos com o autoritarismo.
Siqueira Campos hoje é governador tucano de Tocantins, Edison Lobão é ministro de Dilma, José Carlos Martinez foi presidente do PTB quando se deu o acordo do mensalão com Lula, Reinhold Stephanes foi ministro de Collor, FHC e Lula, e Nelson Marchezan terminou sua carreira nos braços do PSDB. Ou seja, o adesismo geral que marcou a transição para a democracia nas mãos de Tancredo e Sarney teria provavelmente apenas começado antes, com Ulysses.
O espírito político, mas aqui entramos no impalpável, teria sido diferente. A vitória do movimento das diretas representaria um estímulo maior à participação popular, produzindo a sensação de que as elites políticas são um pouco mais dependentes dos desejos da praça pública.
Ao mesmo tempo, é possível pensar que a Constituição de 1988 teria sido menos "cidadã" e ambiciosa na formulação dos direitos sociais. Sua elaboração, sob a influência de Ulysses Guimarães, foi de certo modo uma válvula de escape para as frustrações da esquerda e, sem dúvida, uma arma permanentemente apontada contra a Presidência de Sarney.
Ir mais além na especulação já seria delirante. Qual teria sido o comportamento da inflação num governo eleito diretamente? Teria havido um Plano Cruzado? Provavelmente sim; tanto Sarney quanto Ulysses não teriam como propor algo mais ortodoxo em política econômica. O fracasso em controlar a inflação teria levado fatalmente ao surgimento de Collor?
As alternativas dramáticas do passado parecem, com o passar do tempo, convergir para o mesmo lugar; os políticos brasileiros em geral sabem disso, e se adiantam ao processo.

    Políticos que votaram contra emenda não se arrependem

    folha de são paulo Diretas Já ,30
    Deputados do PDS afirmam que consolidaram a redemocratização do país
    'Hoje não votaria, não há o que justifique', diz Felix Mendonça, o único que lamenta ter votado contra emenda
    AGUIRRE TALENTODE BRASÍLIA
    Ex-deputados que em 1984 votaram contra a emenda Dante de Oliveira defendem hoje o voto direto, mas não se arrependem da posição adotada naquela época.
    Eles avaliam que as eleições indiretas foram necessárias para a "abertura gradual" da ditadura militar.
    Dos cinco ex-deputados entrevistados pela Folha entre os 65 que foram contra a emenda das diretas, só um afirmou ter se arrependido. Todos eram filiados ao PDS, o partido herdeiro da Arena, de apoio ao regime militar.
    A maioria dos que participaram da votação de 1984 se afastou da política. Muitos morreram. O único com destaque hoje é o governador de Tocantins, Siqueira Campos (PSDB), 85, na época deputado por Goiás. Procurado, ele não respondeu à reportagem.
    O maranhense Magno Bacelar, 75, diz que não se lembra por que votou contra, mas que não há justificativa: "Hoje não votaria, não há o que justifique. Hoje defendo que só há uma maneira de legitimar o poder, o voto direto".
    O ex-deputado baiano Félix Mendonça, 85, cujo filho Félix Mendonça Jr. (PDT-BA) lhe sucede na política como deputado federal, afirma que o voto contra a emenda ocorreu por uma estratégia para eleger Tancredo Neves.
    "Havia um medo do presidente Tancredo de que isso [a eleição direta] pudesse tumultuar o processo, então era melhor nós votarmos a indireta e eleger Tancredo."
    O ex-deputado Osvaldo Coelho, 82, de Pernambuco, critica o atual sistema eleitoral. Sobre a emenda Dante, ele explica: "Quando a gente votou contra as diretas, a gente não era contra a abertura, só tinha que ser gradual".
    Vivaldo Frota, 85, do Amazonas, seguiu o partido: "Eu, como cidadão, acho que as diretas eram uma boa, mas as votações no Congresso de todas essas mudanças seguiam a ordem das lideranças".
    O ex-deputado paraense Jorge Arbage, 89, também afirma agora ser favorável ao voto direto. "Devido às circunstâncias daquela época, achávamos que não era hora ainda [das eleições diretas]". 

    Xico Sá

    folha de são paulo
    Lampions League e o amor
    Nessa macambúzia e sorumbática retomada do futebol brasileiro, só a Copa do Nordeste emociona
    Amigo torcedor, amigo secador, nessa macambúzia e sorumbática retomada do futebol brasileiro, só a Lampions League, também conhecida como Copa do Nordeste, emociona. Com público infinitamente superior a todos os estaduais, a Lampions é digna de Virgulino Ferreira e o seu banditismo por questão de classe, como firmaram o historiador Eric Hobsbawn e o malungo Chico Science.
    Só a Lampions é futebol ao melhor estilo "onde os fracos não têm vez". Só a Lampions tem no Visca, técnico do Náutico, o cavaleiro da maluquíssima figura. Bateu o Sport, depois de um tabu de uma década, em plena Ilha de Lost. Fez a festa com seu habitual gesto de dublê de louco do hospício da Tamarineira. Folclórico uma ova, gênio na linhagem de Oswald de Andrade: a alegria é a prova dos nove.
    Alguns rubro-negros amigos ficaram "chatiados"(sic) com o comportamento do comandante dos timbus. Bobagem. Chega dessa correçãozinha. Como se a gente do Sport primasse pela elegância permanente em matéria de sarro e comemorações. Por mais Viscas e menos coxinhas no futiba, por mais delírio e menos estrategistas de araque.
    Mais amor, por favor. Aí já me pego comovido como o diabo por um gesto bonito lá em Ribeirão Preto. O Caxassa (sic, ic, ic, ic), amigo entre muitos presentes que herdei do doutor Sócrates, chora até agora --pense num cineasta emotivo! Trato, evidentemente, da declaração de amor do zagueiro Edimar, do Comercial, o Bafo.
    Depois da derrota para o Palmeiras, na quinta, o último romântico caipira não se escondeu nas frias explicações fajutas e técnicas dos boleiros. Foi tudo culpa do amor, disse o rapaz do interior.
    "Sabrina, eu te amo, volta para mim. Que o tempo que você pediu possa acabar, que a gente se dê bem, e daqui para frente, quero te dar alegria e felicidade. Estou aí para conquistá-la de novo", afirmou.
    Que coisa linda, linda, linda. Mesmo zagueiro, ele havia ensaiado, até em sonho, um gol para a mina, musa, mulher. Não deu. Valeu a declaração pública na TV. Volta para o Edimar, minha querida, está cada vez mais raro homem de pronunciamento. Só tem cara frouxo. Ninguém sequer pede mais em namoro. Volta pra zaga, Sabrina, recompõe este sistema defensivo do Bafo.
    Amor e futebol, a tabelinha perfeita. Pena que tantos escondem, mas quantas desilusões definem o que acontece no campo de jogo. Quantas traições mudaram resultados. Imagina um camisa 1 que desconfia que a sua mulher está com outro no exato momento em que defende a meta do seu time? O escritor Flávio Moreira da Costa tem um belo conto sobre o tema: "A Solidão do Goleiro", no livro "22 Contistas em Campo" (Ediouro). Recomendo.
    Imagina um chifre em um jogo da Copa? Novo Maracanazzo na certa. Só o amor e as empreiteiras das arenas superfaturadas constroem. Até a próxima.
    @xicosa

      André Singer

      folha de são paulo
      A romaria de Davos
      A ida de Dilma Rousseff ao Fórum Econômico Mundial faz parte de um árduo roteiro, uma espécie de caminho de Compostela, que a mandatária se vê condenada a cumprir para obter a absolvição dos endinheirados. Há um ano o governo busca, sem sucesso, mostrar ao mercado financeiro que desistiu da "aventura" desenvolvimentista e deseja restabelecer o "status quo ante".
      Agora, ao subir pessoalmente a íngreme montanha de Davos, Dilma paga mais um pedaço da longa penitência. Na meia hora que lhe deram para se confessar, ela depositou no altar das finanças as oferendas de praxe. Garantiu que busca o Graal do centro da meta inflacionária, deixou entrever um superavit alto a ser anunciado em breve e chamou a flutuação cambial de, nada menos, que a nossa primeira linha de defesa.
      O problema é que os financistas parecem não entender a linguagem do lulismo. O Banco Central aumenta os juros desde abril de 2013. Na forma de um mimo pré-Davos, estabeleceu uma Selic que nem o mercado esperava.
      Mas os donos do dinheiro não se deixaram abalar com esses repetidos gestos materiais de devoção. Reportagem publicada pelo "Valor Econômico" (21/1) mostrou que para banqueiros e gestores de recursos "o melhor dos mundos seria que a presidente Dilma Rousseff não se elegesse para um segundo mandato". Ressaltando que o clima "já foi pior", o jornal dá conta de que para as duas dezenas de personagens ouvidos pelas jornalistas, "é preciso tempo para saber se houve, de fato, uma mudança de rumo ou se são ações pontuais".
      Desconfiados, os donos do dinheiro querem compromissos explícitos, firmados perante a chama ardente dos holofotes televisivos, para conceder a almejada absolvição. Para usar imagem antiga, porém expressiva, exigem que a presidente beije a cruz. Isso poderia ocorrer por meio de uma ruptura explícita com as antigas crenças, por exemplo, concedendo independência legal ao BC. Ou então, rompendo com velhas relações de solidariedade política ao trocar o heterodoxo Guido Mantega por um liberal à frente do Ministério da Fazenda.
      Dilma tem se recusado a beijar a cruz, tentando, por meio de concessões reais e simbologia homeopática convencer os antigos desafetos de que é confiável sem pagar o preço de abjurar os compromissos de antanho. Mas as promessas de contenção fiscal feitas na romaria de Davos, que se torna o ponto sensível quando os juros sobem, pois o dinheiro precisa sair de algum lugar, serão logo cobradas.
      Já em fevereiro, o mercado vai exigir um superavit primário robusto e um contingenciamento idem para garanti-lo. É só esperar.

      Ruy Castro

      folha de são paulo
      Um passado pela frente
      RIO DE JANEIRO - Antonio Carlos Jobim faria 87 anos hoje. Se ainda estivesse entre nós (morreu em dezembro de 1994), ficaria contente de constatar a força da bossa nova, a música que ele e grande elenco construíram nos anos 50 e 60. E a força da sua própria música --custou, mas, agora, o Brasil toca mais Jobim do que nas últimas décadas de vida do maestro. Ele me dizia que não se conformava em ser mais reconhecido em Nova York do que aqui.
      As coisas mudaram mesmo. Neste fim de semana, no Rio, turistas e nativos têm à sua escolha um tentador cardápio de Jobim e bossa nova. A Casa Julieta de Serpa, no Flamengo, receberá hoje Wanda Sá com um show em homenagem a Tom. Amanhã, a Julieta de Serpa caberá a Leny Andrade, mas o homenageado será Durval Ferreira, autor de "Estamos Aí", "Tristeza de Nós Dois" e "Batida Diferente" --no mesmo palco em que os dois fizeram um show inesquecível em 2007, o último de Durval, a poucos meses de sua morte.
      No Imperator, no Meier, o guitarrista Mario Adnet e uma formação de 13 feras oferecerão uma visão jazzística de Jobim, explorando seus ricos temas instrumentais, menos conhecidos. No Horse's Neck, em Copacabana, a cantora Ithamara Koorax dedicará a noite não apenas a Tom, mas também a Luiz Bonfá, Marcos Valle e a um artista raramente lembrado como compositor --João Gilberto.
      No novo Tom do Leblon, na rua Bartolomeu Mitre, o pianista Osmar Milito desfilará seu inesgotável repertório de Jobim e receberá amigos do aniversariante --entre os quais, quem sabe, Carlos Lyra e Marcos Valle. A poucos metros, no antigo Bar do Tom, também no Leblon, outro pianista, Marcos Ariel, despejará fagulhas ao fundir bossa nova e bebop.
      Contra todas as correntes, e mesmo que para poucos e felizes, Tom Jobim e a bossa nova parecem ter um indestrutível passado pela frente.