terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Mirian Goldemberg

folha de são paulo
Quem vai cuidar de você na velhice?
Além de cuidar da saúde, existe um importante investimento: cultivar as verdadeiras amizades
Uma das perguntas mais frequentes feitas às mulheres que não querem ter filhos é: "E quem vai cuidar de você na velhice?"
Uma jornalista de 43 anos disse: "Já sofri muito com as cobranças femininas. Acham que se eu não tiver filhos serei infeliz. Quando digo que não quero ter filhos e sou feliz assim, elas dizem: Então por que você não adota?' Quando respondo que não quero adotar, elas insistem: E como vai ser sua velhice sem ninguém para cuidar de você?'
Muitas mulheres mais velhas acreditam que a família é uma prisão que impede que exerçam a própria vontade. Elas dizem que os filhos não respeitam as vontades dos pais e querem controlar suas vidas afetivas e sexuais, como se os velhos não fossem pessoas responsáveis, lúcidas e autônomas.
Elas afirmam que, apesar da ilusão de que os filhos são a garantia de uma velhice menos solitária, em grande parte dos casos essa expectativa não se confirma. Muitas alertam para os perigos de depositar nos filhos a esperança de uma velhice feliz. Elas acham melhor investir nas amizades para garantir companhia, amor e cuidado na velhice.
Os vínculos gerados pelo afeto, e não pela obrigação ou interesse, podem criar relações de reciprocidade e de cumplicidade entre as mulheres, que se divertem, se acompanham e se cuidam, especialmente na velhice.
Uma escritora de 75 anos disse: "Aprendi a afastar todas as pessoas que chamo de vampiras: aquelas que só sugam, reclamam, demandam, fazem mal, botam para baixo. Só quero na minha vida quem me cuida e me alimenta de coisas boas, quem me faz bem e me estimula a ser cada vez melhor. As minhas amigas são o meu maior patrimônio e a minha verdadeira família".
Nos últimos dez anos triplicou o número de pessoas de mais de 60 anos que vivem sozinhas, passando de 1,1 milhão para 3,7 milhões. Entre elas, 65% são mulheres, muitas das quais escolheram viver sozinhas para assegurar a autonomia.
As mulheres que tenho pesquisado aprenderam que, além de cuidar da saúde e garantir uma aposentadoria digna, existe outro importante investimento para experimentar uma velhice mais feliz: cultivar, desde cedo, as verdadeiras amizades.

Os verdadeiros motivos - Luiza Nagib Eluf

folha de são paulo
LUIZA NAGIB ELUF
TENDÊNCIAS/DEBATES
Os verdadeiros motivos
A população protesta contra os desvios de dinheiro, mas muitos dos que reclamam, quando encontram uma chance, fazem o mesmo
Muito se fala que o Brasil tem problemas e precisa mudar. A cada dia, um escândalo diferente salta dos jornais. De fato, nosso sistema prisional é péssimo, medieval, injusto e vergonhoso, não apenas no Maranhão. Podemos dizer o mesmo dos nossos sistemas de saúde, educação, segurança pública, saneamento básico e preservação ambiental, bem como do planejamento urbano.
Quando tudo está errado, torna-se evidente que o problema não é setorizado, mas estrutural. Nossas dificuldades mais enraizadas são corrupção, incapacidade administrativa, irresponsabilidade, ignorância, burocracia e falta de respeito pelos bens públicos.
A população protesta contra os desvios de dinheiro, mas muitos dos que reclamam, quando encontram uma chance de fazer o mesmo, aproveitam-na sem titubear. A cultura do salve-se quem puder está consolidada e é ela que gera o caos. Mas se isso desagrada o povo, por que tudo continua sempre como dantes? Porque as pessoas dizem querer seriedade, mas sempre pensando na seriedade do outro, não na própria. E poucos percebem que essa é uma questão eminentemente política. Ou seja, tudo depende de quem vota em quem e por quê.
As camadas sociais menos informadas votam mediante benefícios pessoais imediatos; os setores com melhores condições de discernir o joio do trigo ou votam de acordo com as próprias conveniências ou nem se interessam em pesquisar a vida pregressa dos postulantes a cargos públicos antes do sufrágio.
Já os(as) eleitos(as), ao selecionar sua equipe de governo, muitas vezes usam critérios políticos que nada têm a ver com a competência funcional ou a lisura administrativa. Assim é que se escolhe, por exemplo, um secretário municipal, estadual ou federal que nada sabe sobre a área técnica que terá de administrar, mas foi indicado por determinado partido ou compadre que se precisa agradar. Se quem foi nomeado para cuidar da saúde da população nada entende de saúde pública ou está no cargo apenas para se locupletar, ocorre uma tragédia.
De tragédia em tragédia, chegamos à situação atual do país. É só somar corrupção com incompetência. E nada vai mudar enquanto a população não acordar para a importância de uma eleição, para a grande responsabilidade do exercício da cidadania e para o papel de cada um nos descalabros constantes.
Vemos que a Ordem dos Advogados do Brasil quer proibir as doações de empresas em campanhas eleitorais. O Supremo Tribunal Federal está votando a matéria, e compreendemos que o propósito é evitar o comprometimento dos agentes públicos, mas nossos problemas não são pontuais e não se resolvem com paliativos. Precisamos modificar os padrões culturais. Temos que aplicar os critérios de honestidade e responsabilidade em todos os momentos de nosso dia a dia para que isso gere uma alteração de mentalidade que atinja a todos.
Quando acontece um escândalo, além de vituperar contra as autoridades responsáveis, nosso povo precisa fazer uma reflexão sobre como alguém sem capacidade ou sem idoneidade foi parar no cargo que ocupa. Assim, ficará mais nítida a responsabilidade de cada um pelos rumos de seu próprio país.

O retorno - Vladimir Safatle

folha de são paulo
O retorno
Neste final de semana, o Brasil voltou a ver manifestantes nas ruas. Era de esperar que, em algum momento, a insatisfação voltasse a explodir, pois, se há algo que caracteriza a política brasileira pós-junho, é a tentativa autista de fingir que nada aconteceu no país.
Um exemplo maior e quase cômico é o destino dado às exigências populares de uma "outra política". Elas pararam na lata de lixo mais próxima. Depois de apresentar com uma mão um projeto de Assembleia Constituinte para a reforma política e retirá-lo com a outra, o governo prometera pressionar o Congresso Nacional para debater as propostas. O resultado foi cosmético, se quisermos ter um mínimo de generosidade. Não há nenhuma reflexão sobre o aprofundamento da participação popular na pauta. Não há nada sobre democracia direta, nem sequer como promessa de campanha de algum candidato. Ou seja, não há coisa alguma.
Já a revolta popular contra a inexistência de um segundo ciclo de políticas contra a desigualdade baseadas na universalização de serviços públicos de qualidade também passou em silêncio.
Ações pontuais não são mudanças estruturais e, se existe algo que os brasileiros conhecem muito bem, é a arte milenar do ajuste aqui e ali ou a recente nova arte de tentar abaixar o fogo da panela de pressão com a cantilena do "quando o pré-sal chegar, tudo será diferente".
Quando o pré-sal chegar, teremos dinheiro para resolver os problemas da educação, mesmo que isso signifique prometer algo em um prazo em que os governos serão outros e em cima de um pretenso rendimento que não sabemos nem sequer de quanto ele realmente será. Não parece que isso possa ser chamado de "solução" para problemas. Por isso, nada mais sábio do que manifestantes que gritam: "Se não houver direitos, não haverá Copa".
A Copa do Mundo virou a melhor expressão da irracionalidade econômica brasileira. Dinheiro gasto em vários estádios de futebol que servirão para nada, promessas de melhoria na mobilidade urbana que ninguém verá, aero-portos de lona que durarão o tempo de as comitivas passarem, índios desalojados para sair da frente dos tratores e, principalmente, desconsideração sobre o que a população realmente entende como prioridades.
Alguém deveria lembrar que talvez os brasileiros não tenham nascido para ser figurantes de campanhas de patrocinadores da Copa.
Mas, ao que parece, nós vamos precisar ainda de muita vitrine de banco quebrada e de muita pedra atirada contra a polícia para que certas insatisfações sejam realmente ouvidas.

    Carlos Heitor Cony

    folha de são paulo
    O que é a verdade?
    RIO DE JANEIRO - Recebi, semanas atrás, não sei se uma intimação ou um convite, para comparecer à Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, de São Paulo.
    Não pretendo aceitar o convite e só me darei por intimado se sofrer uma punição de força. Num caso e no outro, tenho opinião formada: Vladimir foi miseravelmente assassinado numa prisão do Estado e Fleury assassinou e mandou assassinar uma centena (ou mais) de opositores da ditadura. Nenhuma comissão da verdade, tenha o nome que tiver, me convencerá do contrário.
    E há outros casos igualmente tenebrosos, como o do deputado Rubens Paiva, pai do meu amigo Marcelo Rubens Paiva (grande escritor) e o do ex-bancário Aluísio Palhano, que conheci exilado em Havana. Pressionado pelo próprio governo de Cuba, ele tentou vir ao Brasil para liderar uma guerrilha. Veio num navio cargueiro e, próximo ao litoral de Santa Catarina, tomou uma lancha, tentando chegar a terra. Foi fuzilado e jogado no mar. Há também outras versões sobre seu sumiço nas dependências do DOI-Codi.
    Descobrir a verdade não é impossível, mas sempre recordo aquela passagem do Evangelho em que Cristo diz a Pilatos que o reino Dele era o da verdade. O procurador romano, a autoridade máxima na Judeia, que condenaria o réu a morrer no Calvário, pergunta sem tom de deboche: "O que é a verdade?". Não espera resposta e vai tomar as providências para a crucificação.
    Provavelmente, Cristo não conhecia a definição de verdade de Aristóteles, mais tarde adotada por Tomás de Aquino: "Adaequatio rei ad intellectum". Pilatos era romano. Por formação, seguia os céticos romanos, ficaria na mesma.
    Não sou romano, mas cético. Não entenderia nem Aristóteles nem Cristo, mas não precisaria de um ou de outro para saber o que houve de crime e imoralidade no Brasil.

    Claudia Collucci

    folha de são paulo

    Os senões da vacina contra o HPV

    Os senões da vacina contra o HPV
    A partir de março, a vacina contra o HPV entra oficialmente no calendário nacional de imunizações e passa a ser ofertada às meninas de 11 a 13 anos. Até o momento, parece ser uma unanimidade os benefícios da vacina que destina-se a prevenir o vírus HPV, ligado à quase totalidade do câncer do colo de útero.
    Não é bem assim. Embora não haja grandes estudos demonstrando a falta de segurança da vacina, existem relatos pelo mundo de doenças graves atribuídas a ela como a síndrome de Guillain-Barré, falência ovariana, uveítes, além de convulsões e desmaios. Isso levou o governo do Japão a não mais recomendar a vacina.
    No último congresso de prevenção quartenária, em novembro último, o médico de família e comunidade Rodrigo Lima fez uma apresentação sobre os senões da vacina contra o HPV. Desde então, o assunto tem repercutido nas redes sociais e em grupos de discussão sobre saúde da família.
    Lima não é nenhum daqueles radicais dos movimentos anti-vacinas. Fui atrás de cada um dos argumentos que ele utilizou na apresentação e todos me pareceram bem embasados. A seguir, trechos de um texto que Rodrigo Lima escreveu esclarecendo dúvidas que surgiram sobre o assunto:
    "Quando a gente pensa na possibilidade de tomar uma vacina para evitar uma doença, eu considero que devemos fazer algumas perguntas:
    1) Já temos alguma estratégia efetiva na prevenção da doença? O que a vacina traz de novo?
    2) A vacina realmente funciona?
    3) Ela é segura?
    4) Vale a pena substituir a estratégia anterior pela vacina?
    Então, vou tentar organizar uma resposta para as questões.
    1 - Já temos alguma estratégia efetiva na prevenção do câncer de colo uterino?
    Temos sim. E quase todo mundo conhece: é o famoso papanicolau, ou citopatológico cérvico-uterino (popularmente conhecido como "preventivo de câncer de colo").
    É muito raro uma mulher apresentar câncer se realizar o papanicolau na periodicidade recomendada (anualmente, e após dois exames normais com intervalo de um ano, o exame passa a ser recomendado a cada três anos). Sabem por que? Porque o câncer de colo de útero é uma doença de evolução muito lenta (normalmente em torno de dez anos), e o papanicolau permite que detectemos formas precursoras do câncer (ou seja, alterações na células que AINDA não são cânceres).
    O papanicolau está recomendado para as mulheres de 25 a 64 anos, e deve ser realizado inclusive em mulheres que recebem a vacina, pois ela não protege contra todos os tipos de HPV.
    Então, se temos um exame confiável, barato e disponível para todas as mulheres do país, o que nos faria mudar de estratégia, partindo para usar uma vacina que NÃO EXCLUI a necessidade de realizar o mesmo exame ao longo da vida? O que esta vacina traz de novo?
    2 - A vacina realmente funciona?
    Depende. Para que? Vamos lá. O HPV é um vírus transmitido através do contato sexual. Por isso, alguns pesquisadores tiveram uma ideia: se conseguíssemos evitar a infecção pelo HPV não teríamos mais câncer de colo uterino. Faz sentido, certo? Mas essa hipótese tem alguns probleminhas.
    O primeiro problema desta hipótese está em como evitar a infecção. A transmissão do HPV é sexual, e basta o contato íntimo mesmo sem penetração para que a passagem do vírus aconteça. Então a melhor maneira de evitar a transmissão seria a abstinência sexual (tem até um estudo clássico neste tema que descobriu que freiras não têm câncer de colo uterino).
    Como a abstinência não costuma ser uma prática muito popular então a gente tem que pensar em outra coisa.
    Considerando que o vírus vai acabar circulando mesmo por aí, a solução mais óbvia seria vacinar as pessoas contra ele. O problema é que o HPV possui mais de 100 subtipos, e as vacinas ainda não conseguem cobrir todos eles, embora cubram os principais. Isso significa que mesmo que a vacina proteja alguém contra os subtipos que ela cobre, ela ainda permite que outros subtipos provoquem o câncer. Ou seja, ela não dá 100% de certeza de que as mulheres não terão câncer de colo uterino. A propaganda não explica isso, né? Mas é por este motivo que a bula da vacina avisa que a vacinação não exclui a necessidade de que a mulher continue realizando o papanicolau.
    E tem mais: nem toda infecção pelo HPV provoca câncer. Na verdade, a minoria delas faz isso. Então mais importante do que se preocupar com a infecção, parece mais importante acompanharmos se a infecção evolui para lesões perigosas ou não, né? Ou seja: dá-lhe papanicolau nessa disputa, ganhando de lavada da vacina.
    Outra coisa: a eficácia da vacina foi verificada apenas em meninas sem vida sexual. E o HPV é tão frequente na população que podemos dizer que se alguém já iniciou sua vida sexual, a chance de ter sido contaminado pelo vírus é de quase 100%. Ou seja, se a pessoa não é mais virgem, tomar a vacina não vai fazer nenhum efeito, porque a resposta que ela provoca no organismo não elimina os vírus que já estejam lá, apenas evitaria o contágio. No entanto, muitos médicos têm recomendado a vacina nestas pessoas, o que é contrário até às recomendações do próprio fabricante.
    Nem vou discutir os efeitos da vacina na mortalidade, porque nem deu tempo ainda de estudarem isso direito. Como eu falei, o câncer de colo uterino é de evolução muito lenta, e acaba só sendo perigoso para mulheres que não fazem o papanicolau na periodicidade recomendada.
    Mas aí algumas pessoas argumentam: "Poxa, ok, mas se ela evitar a infecção já faz algum benefício, né? Afinal de contas, mal não vai fazer."
    Será? Vamos adiante.
    3 - Ela é segura?
    Há alguma controvérsia. Apontando a segurança da vacina nós temos os estudos feitos pelos fabricantes e as recomendações do CDC (órgão do governo dos EUA). No entanto temos alguns casos de doenças mais graves, ao ponto de existirem processos correndo na França movidos por vítimas da vacina, e casos semelhantes levaram o governo do Japão a não mais recomendar a vacina. Doenças como síndrome de Guillain-Barré, falência ovariana, uveítes, além de sintomas como convulsões e desmaios têm sido associados à vacina, mas esta relação ainda não foi demonstrada em grandes estudos.
    Então vamos supor que isso aconteça em uma menina a cada 30 mil que sejam vacinadas (a proporção é baseada nas notificações de efeitos adversos do CDC, chamada de VAERS, e está disponível na internet). Será que compensa o risco, mesmo que seja baixo, de ter uma doença grave, se a vacinação não é melhor do que a estratégia que temos hoje para controlar o câncer de colo uterino (o papanicolau)?
    4 - Vale a pena substituir a estratégia anterior pela vacina?
    Prá mim não compensa. Só de imaginar uma filha minha com paralisias causadas por uma vacina dessas eu descarto a ideia rapidinho. Pretendo promover uma educação sexual boa para minhas filhas, para que saibam que precisam se proteger usando preservativo (até porque outros problemas como gravidez indesejada, HIV, hepatite B, entre outros, estão batendo na porta o tempo todo). E acima de tudo, demonstrar sempre a importância de fazer o papanicolau na periodicidade recomendada. Se conseguir, duvido que elas sofram deste mal. E sem essa vacina cara e suspeita. Minhas pacientes e suas famílias receberão a mesma recomendação."
    É isso. A intenção de publicar o texto do Rodrigo não é alarmar a população e nem iniciar um movimento contra a vacina que em breve estará na rede pública. É claro que antes de tomar a decisão de incorporar a imunização ao calendário, o governo federal se municiou de informações confiáveis sobre a segurança da vacina. Mas, como tudo na vida, não existe unanimidade. E eu acho importante que os pais tenham informações plurais sobre o assunto.

    Tiro na democracia - Janio de Freitas

    folha de são paulo

    Tiro na democracia

    Arma de fogo no policiamento de manifestação pública é uma truculência que denuncia a admissão, pelos dirigentes civis e pelos comandos policiais, de violências fatais idênticas às de ditaduras. Balas de borracha já têm agressividade mais do que suficiente para intimidar e conter possíveis investidas de arruaceiros contra policiais.
    Os governadores e seus prepostos para a "segurança" pública não podem instaurar ambientes de guerra civil, com suas armas inadmissíveis e ferocidade injustificável permitidas, senão estimuladas, como se fossem normais na democracia. Essa prática é uma transgressão ao Estado de Direito e como tal pode ser tratada, por meio de impeachment.
    É ainda bem antes da Copa que se decide a maneira como sua chegada será recebida nas ruas. Em junho passado, a violência da PM paulista, contra grupos que degradaram a grande passeata, incentivou protestos que desandaram em arruaça e violência por vários Estados. Caso os responsáveis pela contenção dos despropósitos de qualquer lado não se limitem a métodos suportáveis, a tendência mais provável é de que o crescendo nacional da reação seja maior do que o anterior. Até o pretexto, motivo de quase unanimidade, facilitaria.
    Pretexto, sim. Quando estimados os gastos com a Copa, os estádios a serem construídos, a prevista marotagem dos aumentos de custos acertados entre empreiteiras e governos, raríssimos foram críticos dessa irresponsabilidade, de dimensão ainda incalculável. Os interesses políticos e os financeiros se associaram ao Brasil levianamente festivo. Ao se aproximar o que foi tão celebrado, com a ansiedade popular do antimaracanazo, tudo de repente virou motivo de "rebelião"? Não dá para crer. Ao menos, porém, há uma originalidade aí: rebelião popular com data marcada, e anúncio a seus antagonistas com larga antecedência.
    Seja qual for a verdade sobre a situação resultante nos tiros da PM contra Fabrício Proteus, a primeira responsabilidade é clara: a autorização de armas de fogo à PM em situação que não as requer, e na qual são a maior ameaça. Sua desnecessidade em tal situação está atestada na prática: a mais eficiente contenção da arruaça violenta, no Rio, foi obtida na última grande "manifestação" –com a PM desprovida de arma fogo.
    A democracia não exclui confrontos entre opositores e centuriões do que os governos vejam como ordem pública. Mas exige condições e limitações que nenhum poder está autorizado a transpor. Tida como o regime das liberdades, a democracia, na realidade, não é menos condicionante e limitadora do que os outros regimes. Mas, o lugar-comum enfim se justifica, no bom sentido. Que não inclui o uso indiscriminado de arma de fogo nem em nome da ordem pretendidamente democrática. 
    janio de freitas
    Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve aos domingos, terças e quintas-feiras.

    Editorial da Folha

    folha de são paulo
    Onda incendiária
    Atos de vandalismo não podem ser tolerados, mas são inaceitáveis despreparo e excessos da polícia ao lidar com manifestações populares
    A depredação de patrimônio público ou privado, a título de protesto contra os mais variados problemas, tem se transformado numa perigosa e inaceitável rotina no cotidiano nacional.
    Se o direito de manifestação e de reunião é assegurado pela Constituição, nem por isso pode ser exercido de maneira irrestrita. Os atos devem ser pacíficos e, como é óbvio e desnecessário dizer, seus participantes não são autorizados a praticar crimes de nenhuma natureza.
    Alguns manifestantes, todavia, parecem se esquecer das regras básicas de civilidade. Neste sábado, em São Paulo, um Fusca foi incendiado e terminou destruído. Ainda que o episódio tenha sido acidental, como se afirma, por pouco não resultou em tragédia, já que cinco pessoas estavam no automóvel.
    A piromania, porém, não é nova. Propaga-se, na periferia paulistana, uma onda de incêndios de ônibus municipais. Até sexta-feira, 21 veículos haviam sido queimados neste mês. O número equivale ao total de casos registrados no primeiro semestre de 2013.
    Os ataques se dão em meio a protestos relativos a temas diversos, de enchentes ao desaparecimento de crianças. Os principais prejudicados, além das empresas de ônibus, são os usuários de transporte público, pois perdas e substituições elevam o custo do sistema.
    Estima-se que o prejuízo já alcance R$ 8,5 milhões neste ano. Apesar da recorrência do fenômeno, pouco se caminhou no sentido de identificar os responsáveis e submetê-los aos ritos legais.
    A Secretaria da Segurança Pública organizou, no final de 2013, reuniões com representantes do setor de transportes, mas ainda não se sabe quais serão as providências. É evidente que tais agressões não cessarão sem que as autoridades tomem as medidas necessárias para reprimi-las.
    As polícias, por seu turno, têm notórias dificuldades para lidar com os protestos que se disseminam pelo país. Como esta Folha vem reiterando desde o ano passado, a corporação oscila entre o abuso da força e a omissão diante dos vândalos, dois extremos incompatíveis com sua missão.
    Neste sábado, em São Paulo, um policial baleou um manifestante, que está internado num hospital. Mesmo que em alegada legítima defesa, a reação parece desproporcional. O caso está por ser esclarecido, mas o uso de arma de fogo, de todo modo, não é recomendável na patrulha de atos públicos.
    Nenhuma hipótese, contudo, isenta a polícia, enquanto instituição, de merecidas críticas em relação ao despreparo que tem demonstrado nessas ocasiões, bem como à truculência com que age.
    É urgente mudar esse padrão. A polícia tem de coibir atos de vandalismo incompatíveis com o convívio democrático, mas não pode reproduzir excessos que busca repelir. Os episódios de sábado são um perigoso sinal de alerta.