quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Marcelo Leite

folha de são paulo
DNA indica que espécie humana quase se dividiu em duas
Neandertais acasalaram com Homo sapiens e legaram de 20% a 30% de seus genes, mas descendentes machos parecem ter sido inférteis
MARCELO LEITEDE SÃO PAULOJá se sabia que neandertais e humanos conviveram por milhares de anos na Europa e na Ásia e aí se acasalaram. O que não se sabia, como sugere uma dupla de novos estudos genéticos, é que esses dois ramos da humanidade estavam naquela altura a ponto de se separar em duas espécies distintas.
Cada humano vivo carrega em seu genoma individual no máximo 3% de genes neandertais. Ao comparar o DNA ancestral com centenas de genomas modernos, porém, dois novos estudos encontraram que algo entre 20% e 30% de sequências genéticas neandertais sobreviveram.
Os estudos detectaram uma quase ausência de DNA neandertal no cromossomo X, em especial de genes ativos nos testículos.
Tais genes teriam sido eliminados do genoma humano atual porque provavelmente tornavam estéreis os descendentes machos do cruzamento. É o tipo de incompatibilidade que acaba por separar uma espécie em duas.
A cisão entre espécies ocorre quando duas populações perdem a capacidade de gerar descendência fértil ao se reproduzir. Não chegou a ser esse o caso dos dois ramos de hominídeos, o Homo neanderthalensis e o Homo sapiens, pois o primeiro grupo se extinguiu há cerca de 30 mil anos, antes de completar-se a separação.
Os dois grupos humanos tiveram origem na África, respectivamente há 250 mil anos e 200 mil anos, em números aproximados. Os neandertais já estavam na Eurásia quando os H. sapiens chegaram, uns 100 mil anos atrás, e foram por estes desalojados.
QUESTÃO DE PELE
Nas regiões mais ricas em sequências neandertais, chamou a atenção uma concentração de DNA relacionado com a produção de queratina. Essa proteína ajuda a impermeabilizar pele e pelos, e os autores supõem que a sobrevivência do DNA neandertal tenha a ver com características que ajudavam a enfrentar climas mais frios.
O geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, que achou os estudos "espetaculares", alerta contra qualquer especulação racial baseada neles. Ele não vê aí mais que uma boa hipótese: "Mesmo que os genes tenham a ver com pelagem e clima frio, o que isso tem a ver com raça?"
Os estudos rivais saem hoje nos periódicos científicos "Nature" e "Science". Ambos tomaram a sequência do genoma neandertal estabelecida em 2010 pelo grupo de Svante Pääbo, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig (Alemanha), e a compararam com as de centenas de humanos atuais, participantes do Projeto Mil Genomas.
Pääbo é também o coautor de um dos estudos, o da "Nature", liderado por David Reich, do Instituto Broad (Harvard e MIT). O da "Science" tem como autor principal Joshua Akey, da Universidade de Washington (EUA).

    Rogerio Gentile

    folha de são paulo
    Vale a pena ver a Copa no Brasil?
    SÃO PAULO - Os episódios do final de semana em São Paulo reforçaram a desconfiança de que o país não está preparado para garantir a segurança dos turistas na Copa do Mundo, a despeito do esforço de autoridades e da Fifa para demonstrar o contrário. Vale a pena assistir a uma competição num lugar em que policiais dão tiros de bala de borracha no saguão de um hotel?
    O governo brasileiro prepara um esquema gigantesco de segurança, com custos estimados em mais de R$ 40 milhões. O plano envolverá a Força Nacional, a Polícia Federal, as polícias estaduais, a Defesa Civil, os Bombeiros, as Guardas Municipais e, provavelmente, até o Exército, o que deve ser suficiente para proteger delegações, autoridades estrangeiras e, talvez, o entorno dos estádios.
    Mas uma Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo, levando milhares de pessoas a pontos turísticos, estações de metrô, shoppings, restaurantes etc. Ou seja, a inúmeros lugares nas 34 cidades envolvidas de alguma forma no evento que poderão servir de palco para ações violentas e criminosas dos tais "black blocs" e para reações destemperadas de policiais.
    Exatamente como ocorreu na cidade de São Paulo no sábado, por ocasião das comemorações dos seus 460 anos. Cerca de 1.500 pessoas protestaram pacificamente, durante duas horas, contra a competição, até que um grupo encapuzado resolveu atacar bancos, lojas e carros.
    Na sua reação, a polícia paulista não teve dúvidas. Simplesmente invadiu o lobby de um hotel na rua Augusta, onde se refugiaram cerca de cem manifestantes, "black blocs" ou não, com a mesma virulência de quem enfrenta uma rebelião num presídio.
    E os turistas? Bom, levando em conta as declarações das autoridades de São Paulo, que defenderam enfaticamente a ação da polícia no confronto, os turistas eram apenas um detalhe. O importante era "evitar uma tragédia".

    Paula Cesarino Costa

    folha de são paulo
    Fim de caso por e-mail
    RIO DE JANEIRO - É desrespeitoso terminar uma relação por e-mail. Ainda mais uma que chegou a ser definida como perfeita --mesmo que já estivesse desgastada e com crises cada vez mais frequentes.
    Foi assim o fim da aliança entre PT e PMDB no Rio, que Lula rotulou como "um modelo para o país". Foram anos de juras de amor recíproco em discursos dele e do governador Cabral, que renderam centenas de cargos para petistas na administração estadual e bilhões em parcerias federais para o governo do PMDB.
    Lula e Cabral se entendiam no olho a olho. A relação começou a esfriar com a posse da nova presidente e seu apreço mais às tecnicidades. O governador manteve as aparências com Dilma, que chegou a chamar de "extraordinária" a parceria com Cabral. Mas o casamento mantinha-se só por convenção social e política.
    Como noiva traída, o peemedebista não engoliu a manutenção da candidatura do senador Lindbergh Farias à sua sucessão. Esperava que o PT apoiasse seu vice, Luiz Fernando Pezão, que deve ser o candidato do PMDB. Com o desgaste de Cabral e o mau desempenho de Pezão nas pesquisas, Lula perdeu os argumentos para demover a candidatura petista.
    Por e-mail, o presidente do PT no Rio, Washington Quaquá, informou Cabral de que o partido anteciparia a saída do governo. Em seu "reply", o governador comunicou que iria exonerar os petistas e terminou a relação com um agradecimento "pelos sete anos e um mês de convívio fraterno".
    Cabral foi atrás de novas e velhas relações. Tenta seduzir o PSDB (e flerta com o amigo de juventude Aécio Neves) e convidou PSD e Solidariedade para o governo. São opositores de Dilma, que, em 2010, teve vitória apertada no Rio no primeiro turno e não vê vantagem em manter a proximidade que pode tirar-lhe votos.
    Ficarão Dilma e Cabral melhores separados? A política, como o amor, tem razões que a razão desconhece.

      José Simão

      folha de são paulo
      PAC! Progama de Ajuda a Cuba!
      O Fidel acorda gritando: 'Médicos! Yo quiero mis médicos'. 'Non tiene, foram todos pro Brasil'. Rarará
      Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Predestinado do século! Candidato a presidente da Fifa: Jerôme CHAMPANHE! Tá eleito. Nada combina mais com a Fifa que champanhe!
      E a Dilma? A Grande Chefa Toura Sentada! Diz que PAC agora quer dizer Programa de Aceleração de Cuba! Programa de Ajuda a Cuba! E a foto da Dilma com o Fidel? Bob Esponja com El Coma Andante!
      E o Fidel: "Lula, raspaste a barba?". "Non, comandante, yo soy Dilma, no Brasil tem eleciones". "Que? Vacaciones?". "Non, comandante, eleciones. ELECIONES!". "Non compreendo!". Rarará.
      E adorei a charge do Sinfronio, com o Fidel gritando pra Dilma: "Se você levar meu médico, eu te mando pro paredón!".
      Diz que o Fidel acorda gritando: "Médicos! Yo quiero mis médicos". "Non tiene, foram todos pro Brasil". Rarará. A Dilma deixou o Fidel sem médico! Menos médico!
      E diz que a saúde do Fidel tá impecável. Não consegue mais nem pecar! Rarará!
      E a escala da Dilma em Lisboa! Tucanos querem abrir a CPI do Bacalhau! Diz que a Dilma dormiu em hotel de luxo e jantou em restaurante de luxo! CPI do Bacalhau! Sugiro que na próxima viagem a Dilma durma num camping e coma no quilo!
      E sabe como é restaurante a quilo em Portugal? Eles pesam o cliente na entrada e na saída! Rarará! O Fernando Henrique, quando viajava, só comia no rodízio! Rarará!
      E um amigo acabou de chegar de Lisboa, onde foi a um restaurante chamado "Tromba Rija"! Bacalhau com viagra! O Mantega devia ter levado o PIB no "Tromba Rija!" E tem um outro restaurante chamado "Atira-te no Rio". Antes ou depois da comida? Rarará!
      E o slogan de uma rádio em Lisboa? "Rádio Vox, a preferida dos ouvintes da rádio Vox". Rarará.
      É mole? É mole, mas sobe!
      Piada Pronta! E essa piada pronta sobre o jantar em Lisboa: "O jantar não saiu caro, só servi robalo", diz o chef Joachim Koerper. A comitiva tinha que pedir robalo? Justo robalo? Tinha!
      E o PSDB pode, e deve, fazer qualquer denúncia contra a Dilma, menos sobre viagem. Olha essa manchete da Folha de 2002: "FHC gasta U$ 70 mil em viagem a NY". Levou até o papagaio! Rarará!
      Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã!
      Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

      Janio de Freitas

      folha de são paulo
      Um pouco de vida
      A agitação atual serve apenas para mostrar que a sociedade vive. Mas, pode-se acrescentar, não muito
      A desordem da ordem pública provoca uma situação curiosa. Nada, nos muitos acontecimentos simultâneos, tem gravidade que indique descontrole das inconvivências de sempre, mas a projeção dos incidentes dissemina a impressão inquietante de que o país avança com rapidez para um estado caótico e de insegurança generalizada.
      Os 58 incendiados ou depredados até ontem, só neste janeiro da Grande São Paulo, são um número expressivo, de fato. Mas nada sugere algum desdobramento, do qual essa violência suburbana seja parte planejada e preparatória. Nem, tampouco, sugere que não esteja inscrito na regra brasileira das ondas: os incidentes podem até surpreender no surgimento, mas também surpreenderão no murchar repentino, quando ascendiam com aparência indomável. Ocupações de terras, as diversas modalidades de arrastões entre os praieiros e os rodoviários, sucessão de greves tentadas ou efetivadas, as ondas vêm e vão por aí afora. Mesmo o "black bloc" do ano passado.
      Em menor número, que no Rio não nos atreveríamos a comparar-nos com a pujança de São Paulo, os ataques a ônibus fizeram a sua fase de perturbação carioca, e de repente reduziram-se a esporádicas reações à ação policial, quase sempre só por obediência aos bandidos. No momento, por sinal, eles estão criando uma onda, esta contra as unidades de PM instaladas em várias favelas: voltam a infiltrar-se e criam conflitos para restabelecer-se. Sem êxito, ainda bem.
      No Rio Grande do Sul, em Minas, Goiás, Santa Catarina, em vários Estados, maiores e menores desordens urbanas sucedem-se com a mesma cara: ataques a ônibus, interrupção de estradas e baderna urbana. E até os rolezinhos promovidos a grande ameaça por duas semanas de previsões na imprensa. Mas, além de tudo isso muito localizado, sempre, o seu grau verdadeiro de reflexos institucionais ou apenas políticos tem sido, por toda parte, nenhum. Nem sequer efeitos administrativos, dependentes só de alguns jamegões, têm sido necessários: bastaram-se nas passagens de ônibus de São Paulo e Rio, como obra do susto de sete meses atrás.
      Por ora, a agitação serve apenas, como Caetano Veloso disse à Folha, para mostrar que a sociedade vive. Mas, pode-se acrescentar, não muito.
      JÁ CONHECIDO
      O pretendido candidato de Eduardo Campos e Marina Silva ao governo do Tocantins, como Ranier Bragon informou na Folha, não é um neófito na política. Como procurador da República, Mário Lúcio Avelar teve papel ativo na denúncia política e policial do que ficou chamado de "escândalo dos aloprados". É um caso até hoje embrulhado em muitas obscuridades e muitos transformismos, nascido em Mato Grosso, mas com incidência nas eleições de 2006 ao governo paulista, quando fez de José Serra a alegada vítima de um complô petista. Mário Lúcio Avelar servia na regional da Procuradoria da República em Mato Grosso.
      Marina Silva só pôde sugeri-lo para candidato do PSB porque o PSDB, com muito mais razão para fazê-lo, não o fez.

      Mônica Bergamo

      folha de são paulo

      Suzane Von Richthofen tenta obter na Justiça pensão de 2 salários mínimos

      Suzane Von Richthofen tenta obter na Justiça uma pensão de dois salários mínimos do espólio dos pais, que ela ajudou a assassinar em 2002. O pedido será analisado na próxima semana pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).
      TUDO LIMPO
      Richthofen pede dois salários mínimos alegando que precisa do dinheiro para manter as condições de higiene na cela em que cumpre pena, no presídio de Tremembé, em São Paulo.
      PANO DE FUNDO
      A possibilidade de um herdeiro pedir pensão ao espólio ainda é polêmica e não foi pacificada no STJ. Há magistrados que entendem que esse tipo de demanda só pode ser feito contra pessoas que estão vivas. Outra questão é saber se, mesmo excluída da herança, Richthofen poderia obter o benefício.
      MENOS...
      Os atuais dirigentes do São Paulo estudam mudar o estatuto para diminuir o quórum mínimo para a autorização de obras no Morumbi. Hoje são necessários 177 votos, ou 75% do conselho deliberativo do clube. A ideia é diminuir para 50%, ou 120 do total de 240 votos.
      ...É MAIS
      Em razão do quórum alto, até hoje não foi aprovada a cobertura da arena do estádio -a oposição à atual diretoria do São Paulo boicotou a construção. Por causa disso, a empreiteira Andrade Gutierrez anunciou anteontem que se retirava do projeto.
      SINAL VERMELHO
      As bicicletas laranjas do projeto de compartilhamento Bike Sampa estão cada vez mais raras no centro de São Paulo. O Itaú Unibanco, responsável pelo programa operado pela empresa Serttel, desativou dez estações nessa região por causa de atos de vandalismo e furtos nas últimas semanas.
      SINAL VERMELHO 2
      Entre as estações desativadas estão as da praça da Sé, Mercado Municipal, praça da República, Anhangabaú e Liberdade. Todas elas foram instaladas em outubro de 2013. Ainda não foram definidos os novos endereços que serão contemplados.

      Anúncio da reabertura do Belas Artes

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      Bruno Poletti/Folhapress
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      A atriz Alessandra Negrini foi mestre de cerimônias no anúncio da reabertura do Cine Belas Artes, em evento na Praça das Artes, na terça (28)
      EM CARTAZ
      Os atores Alessandra Negrini e Marcelo Médici foram os mestres de cerimônias do anúncio da reabertura do Cine Belas Artes, na Consolação, após acordo entre o espaço, a Prefeitura de São Paulo e a Caixa. O evento, anteontem, na Praça das Artes, reuniu a atriz Débora Duboc, os diretores Rubens Rewald e Tata Amaral e representantes dos governos municipal e estadual.
      Ó ABRE ALAS
      O Carnaval de rua em São Paulo será regulamentado em decreto da prefeitura nos próximos dias. Um projeto que envolve dez secretarias está no gabinete de Fernando Haddad (PT). "Estamos buscando um equilíbrio entre a repressão e a liberação total [dos blocos]", diz Juca Ferreira, secretário municipal de Cultura, que liderou a discussão sobre a proposta.
      CINQUENTÃO
      O fotógrafo Luiz Tripolli vai comemorar 50 anos de carreira com um documentário sobre sua vida. O média-metragem se chamará "Fragmentos de uma Vida Vadia". Está também prevista uma exposição para a data.
      ÁLBUM DE FAMÍLIA
      Luciano Szafir não autoriza que a mãe, Beth, divulgue vídeos ou fotos de seu filho, David. Durante uma festa em São Paulo, ela teve que dizer não ao jornalista Amaury Jr. "Liguei e o Luciano não deixou. Já postei algumas vezes e levei bronca", diz.
      CAMPO MINADO
      O bairro da Sé, em São Paulo, foi o que teve maior valorização imobiliária no Brasil nos últimos três anos. O metro quadrado na região aumentou 113% entre 2010 e 2013, segundo pesquisa da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) publicada na edição da "Exame" que chega hoje às bancas. O levantamento foi feito em 11 cidades brasileiras.
      CAMPO MINADO 2
      O aumento de preços ocorreu, segundo a revista, por causa da política municipal de incentivos fiscais a incorporadoras. Além disso, a reforma de prédios antigos contribui para a valorização. A segunda região com maior alta na capital paulista é a da Luz/Bom Retiro, que subiu 98% no período.

      Banda Moxine faz show em Pinheiros

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      Bruno Poletti/Folhapress
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      A líder da banda Moxine, Mônica Agena, recebeu convidados como a atriz Mariana Hein em um coquetel antes do primeiro show do grupo em 2014, no Bar Secreto, em Pinheiros, na terça (28)
      AUMENTA O SOM
      Mônica Agena, líder da banda Moxine, recebeu convidados em show do grupo no Bar Secreto, em Pinheiros, anteontem. A atriz Mariana Hein, o produtor Leandro Barbosa, o apresentador Dennys Motta e a estilista Fabia Bercsek foram à festa. O empresário Emmanuel Filho, o produtor Thomas Roth e a administradora Melissa Kurtz também assistiram à apresentação.
      CURTO-CIRCUITO
      Sig Bergamin e Ana Maria Vieira Santos confirmaram participação na Casa Cor deste ano, no Jockey.
      A peça "A Negra Felicidade", da Cia. Alfândega 88, inicia curta temporada hoje, às 19h15, na Caixa Cultural, na Sé. Grátis. 14 anos.
      O Funk Como Le Gusta faz show hoje no Bourbon Street, às 21h. 16 anos.
      A Galeria Pilar, em Santa Cecília, abre hoje exposição de Leandro Tartaglia.
      Clara Valente faz show de lançamento de disco, amanhã, às 20h30, no Sesc Vila Mariana. 12 anos.
      com ELIANE TRINDADEJOELMIR TAVARESANA KREPP e MARCELA PAES 
      mônica bergamo
      Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária com informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

        quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

        Livro conta como crença em divindades afeta comportamento ético

        folha de são paulo

        Livro conta como crença em divindades afeta comportamento ético

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        Uma dica da pesquisa de ponta em psicologia para quem organiza acordos diplomáticos ou reuniões de condomínio: se você quer minimizar a chance de que alguém tente passar a perna nos demais presentes, pinte um grande olho na parede do salão.
        Parece ridículo, mas é um conselho apoiado por fortes evidências experimentais. Quando voluntários que participam de jogos nos quais há a possibilidade de trapacear são expostos a fotografias de olhos, desenhos de olhos ou mesmo representações totalmente esquemáticas de olhos (dois círculos, por exemplo), a chance de que alguém burle as regras cai consideravelmente.
        "Gente vigiada é gente bem comportada", resume Ara Norenzayan, pesquisador da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, e autor do livro "Big Gods" ("Deuses Grandes"). Na obra, ainda sem versão no Brasil, Norenzayan argumenta que essa é a principal razão pela qual a maioria dos seres humanos de hoje acredita em divindades poderosas e preocupadas com o comportamento ético: independentemente de serem reais ou não, tais figuras ajudam a controlar a tentação de passar a perna nos outros em sociedades complexas, nas quais interações entre estranhos são comuns.
        Daí outra máxima cunhada por Norenzayan para explicar sua tese: "Para grupos grandes, deuses grandes". Com "grandes" o psicólogo social quer dizer deuses que sabem tudo (ou quase tudo) e usam esse acesso a informações privilegiadas para punir malfeitores, e sociedades com dezenas de milhares de indivíduos ou mais.
        CAÇADORES-COLETORES
        Isso porque, curiosamente, embora a crença em seres sobrenaturais esteja presente em todas as sociedades humanas, são muito raros os grupos de caçadores-coletores (formados por dezenas ou, no máximo, algumas centenas de indivíduos) que creem em "deuses grandes".
        Outro fato curioso é que, ao analisar dados antropológicos padronizados de centenas de povos mundo afora, os pesquisadores também verificaram que, quanto maior o tamanho (em número de pessoas) de uma sociedade, maior também é a chance de seus membros adorarem "deuses grandes".
        Esse foi um dos fatores que motivou o pesquisador de origem libanesa a propor a ideia de que esse tipo de divindade só "evolui" em sociedades que alcançam determinada massa crítica de tamanho.
        Em grupos pequenos, coisas como a proximidade de parentesco, o contato diário entre todos os membros e a falta de hierarquias rígidas seriam suficientes para manter quase todo mundo mais ou menos na linha. Quando grande parte das interações sociais passam a ser anônimas (como numa cidade de milhares de habitantes), entretanto, só o "monitoramento divino" teria sido suficiente para impedir o colapso dos grandes grupos.
        Além da influência um tanto bizarra dos olhos sobre o comportamento de voluntários em laboratório, também há indícios de que, quando as pessoas são sutilmente influenciadas ao verem palavras com significado religioso numa tela de computador, seu comportamento em jogos que pagam pequenas quantias em dinheiro como recompensa melhora consideravelmente.
        Além de trapacear menos, também tendem a punir trapaceiros com mais rigor e a dividir mais os recursos que recebem com outros jogadores.
        Detalhe importante: tais palavras ("Deus", "espírito", "oração" etc.) aparecem na tela por frações de segundo, de modo que não são conscientemente percebidas pelos participantes.
        LADO NEGRO DA FORÇA
        Tudo isso parece muito bom, mas as pesquisas de Norenzayan e outros cientistas da área deixam muito claro que há um lado negro na maneira como os grupos que adoram "deuses grandes" se comportam.
        A tendência a ser mais cooperativo costuma ser mais forte quando ela gera dividendos de reputação para a pessoa religiosa, indicam experimentos. E o comportamento mais ético em relação a quem pertence ao mesmo grupo religioso tende a ser compensado por uma competição mais feroz com quem está fora desse grupo.
        Também está longe de ser verdade a ideia de que não é possível ser ético sem crer em Deus, claro. Algumas das sociedades mais pacíficas, prósperas e igualitárias do mundo, como as da Escandinávia, hoje têm predominância de ateus.
        Norenzayan argumenta que isso se deve à força e ao bom funcionamento das instituições seculares nesses países.
        De fato, em nações desenvolvidas, o mesmo efeito de bom comportamento trazido pelas mensagens subliminares com palavras religiosas pode ser conseguido, em laboratório, usando termos seculares, como "tribunal", "polícia" e "juiz". Essas sociedades com instituições seculares confiáveis teriam "subido a escada da religião e, depois, chutaram-na para longe", diz o pesquisador. 
        Editoria de Arte/Folhapress