domingo, 2 de fevereiro de 2014

Livro de ensaios revela embates da literatura russa do século 19 - RUBENS FIGUEIREDO

folha de são paulo
Romance de formação
Como a Rússia viu crescer sua literatura
RESUMO A força da literatura russa provém em grande parte da integração de seus autores ao debate sobre o destino do país. "Antologia do Pensamento Crítico Russo (1802-1901)" exprime em 22 ensaios, de nomes como Tolstói e Bielínski, o embate entre a modernização ao estilo ocidental e o apego às raízes nativas.
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Vem de muito tempo a noção de que a literatura possui um estatuto de exceção entre as atividades humanas. Ocuparia uma dimensão tão específica que poderia bastar-se a si mesma e sobre ela não teriam efeitos relevantes os fatores que atuam no restante da vida social. E mais: supor que tais efeitos sejam relevantes significaria diminuir a literatura, empobrecê-la.
Vista do presente, a literatura russa parece que nasceu para pôr em questão essa tese, hoje quase consolidada como norma. Pois a surpresa inicial com a quantidade de obras memoráveis dessa literatura, obras capazes de resistir às transformações históricas e até de ganhar mais força com elas, nos leva espontaneamente a perguntar de onde provém tudo isso.
O livro "Antologia do Pensamento Crítico Russo (1802-1901)" [vários tradutores, Editora 34, R$ 76, 608 págs.], organizado por Bruno Barretto Gomide, permite entender melhor a questão.
Podemos perceber que a vida intelectual russa se configurou como uma vasta polêmica em torno do destino de um país em formação, cujos horizontes pareciam abertos para muitas direções e possibilidades.
Divulgação
O escritor russo Lev Tolstói
O escritor russo Lev Tolstói
A literatura russa se integra organicamente a essa polêmica. Daí provém grande parte de sua força e de seu alcance, pois por meio de tais debates ela se enraizou na dinâmica da sociedade. Os autores não viviam isolados em bolhas de uma genialidade inexplicável. O livro, recém-lançado, reúne extratos dessa polêmica e assim abre caminho para refletirmos de modo mais racional sobre o fenômeno da literatura russa.
É UMA CRIANÇA
Um ponto de partida pode ser um trecho do ensaio de Vissarion Bielínski, de 1846, presente no volume. Após afirmar que a literatura do país "ainda é uma criança", ele propõe: "Por isso nossa literatura, semelhante a nossa sociedade, apresenta um espetáculo de possíveis contradições, contraposições, extremos e esquisitices. Isso porque ela não se iniciou por si mesma, mas foi, de início, transplantada de um solo alheio para o nosso". Portanto, uma forma social foi transplantada em bloco para a Rússia, de uma só vez. E, dentro dela, veio a literatura.
Essa forma social e seus conteúdos (a literatura é um deles) tendem a ser percebidos como invasores, que tomam o lugar de formações sociais e expressões culturais próprias. Em maior ou menor medida, um sentimento de opressão estará sempre associado a esse processo e à presença de tais formas sociais, mesmo quando descritas como progresso. A modernização, ou seja, a introdução das relações capitalistas, é vivida em geral como um trauma.
Se Bielínski diz que a literatura russa "ainda é uma criança", outro autor, Piotr Tchaadáiev, em 1836, explorara a mesma imagem por outro ângulo: "Assimilamos apenas ideias completamente prontas e por isso aqueles vestígios indeléveis -que se depositam nas mentes por meio de um desenvolvimento consequente do pensamento e criam uma força intelectual- não sulcam nossas consciências. Crescemos, mas não amadurecemos [...] Parecemos aquelas crianças a quem nunca fizeram raciocinar sozinhas, de modo que, quando crescem, não têm nada de próprio". E mais: "Viemos ao mundo como filhos bastardos".
A noção de "povos avançados" e "povos atrasados", repetidas por Tchaadáiev, faz paralelo com as imagens de adulto e criança, em que a história procede à semelhança das etapas da vida do corpo. Assim, do ponto de vista da Rússia, a história tende a parecer uma corrida desigual em que os países tidos como modelos jamais poderão ser alcançados.
Também por isso chama atenção o ensaio de Lev Tolstói de 1859, cujo título basta para nos situar em outra perspectiva: "Quem Deve Aprender a Escrever com Quem: as Crianças Camponesas Conosco ou Nós com as Crianças Camponesas?". Aqui, a criança -e ainda por cima camponesa- ocupa a posição oposta e Tolstói inverte a direção da corrida. "Vemos nosso ideal à frente, quando ele está atrás."
EDUCABILIDADE
Outro autor, Ivan Kiriêievski, em 1852, arma sua argumentação por uma via diferente: "Havia a opinião geral de que a diferença entre ilustração da Europa e a da Rússia é apenas de grau e não de caráter, e menos ainda do espírito e dos princípios básicos da educabilidade. [...] diziam que antes, entre nós, havia apenas a barbárie, que nossa educação tinha começado apenas a partir do momento em que passamos a imitar a Europa".
O alcance do argumento é maior do que pode parecer, pois ele postula a possibilidade de um caminho alternativo para a sociedade se aprimorar, a partir de formas sociais enraizadas na vida popular.
Vale a pena citar novamente Kiriêievski: "Então será possível na Rússia uma ciência baseada em princípios originais, diferentes daqueles que nos propõe a ilustração europeia. Então será possível na Rússia uma arte que floresça a partir de uma raiz nativa. Então a vida social na Rússia será firmada numa direção diferente daquela que lhe pode transmitir a formação ocidental".
Muito por alto, temos aqui uma ideia do rico e profundo debate entre as tendências eslavófilas e ocidentalistas, que marcou a Rússia no século 19 e, como diz Bruno Gomide, sobreviveu de outras formas no século 20, prolongando-se até hoje. Não admira, pois tal debate exprime com pertinência os dilemas históricos de fundo da Rússia e de países em situação similar.
Cumpre ressaltar que, se Tchaadáiev enfatiza expressões como "educação universal", Kiriêievski prefere ser mais específico e dizer "formação ocidental" e "ilustração europeia". Assim, de um lado, o ocidentalista exprime o sentimento de "atraso" na grande corrida da "civilização universal", e o eslavófilo dá voz ao sentimento de opressão, da coerção de uma forma imposta de fora, em condições sempre desvantajosas para a Rússia. Latente está o questionamento da pretensão de universalidade e de superioridade de formas sociais e culturais, a rigor particulares de uma pequena região do mundo.
De fato, a literatura local seria percebida pelos russos apenas como mais um componente do suposto atraso do país, caso não tivesse se incorporado a tal polêmica. Porém isso se deu menos em função do esforço individual dos autores do que pela pressão das expectativas da sociedade em torno deles.
Dobroliúbov, em seu clássico ensaio "O Que É o Oblomovismo?", de 1859, escrito quando tinha 23 anos, ao passo que argumenta em defesa de "Oblómov" (Cosac Naify, 2012), de Ivan Gontcharóv, discute a relação entre a literatura e a sociedade na Rússia: "De forma alguma concordamos que o poeta que despende seu talento em descrições de imagens de folhinhas e riachinhos possa ter o mesmo significado daquele que, com igual força de talento, é capaz de reproduzir, por exemplo, fenômenos da vida social".
A mesma expectativa pode, no entanto, se manifestar em termos mais sutis. Como no texto de Pável Ánnenkov, de 1856: "A plenitude e a vitalidade de conteúdo não podem ser obtidas de outra forma senão por meio da combinação do talento criativo com uma compreensão ampla e multilateral do tema escolhido [...] cada artista deve estar, em sua esfera, em plena posse dos materiais relacionados ao seu tema". E assim a obra "se torna uma expressão de sua época, o seu melhor testemunho e um importante documento histórico".
EQUIPE
"Antologia do Pensamento Crítico Russo" é fruto do trabalho de uma equipe de excelentes pesquisadores e tradutores de russo, de centros universitários de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, como Denise Sales, Sonia Branco, Renata Esteves e outros, com a organização de um grande especialista no assunto, Bruno Gomide. O trabalho de todos eles é um alerta para quem ainda não se convenceu da seriedade e da relevância da universidade brasileira. Por isso me atrevo a concluir este texto com uma pequena polêmica, bem a calhar, à luz do livro aqui apresentado.
Acho difícil subestimar o fato de que o governo dos EUA patrocinou pesadamente durante décadas os estudos de russo em suas universidades, em função de seu combate contra a União Soviética, uma potência em forte ascensão pelo menos até a década de 1970. Essas pesquisas trazem as marcas desse interesse histórico determinado.
Não vejo como supor uma validade científica, universal, para suas teses, seus postulados e a maneira como os dados são arranjados e interpretados nesses trabalhos. Seria muito proveitoso para a universidade brasileira elaborar uma interpretação da experiência histórica da literatura russa desde a perspectiva do Brasil e da América Latina.
Um panorama bem diferente deve surgir. Mudanças de fundo e de contorno que nos ajudarão a entender e questionar nossas opções nessa muito suspeita corrida de crianças contra adultos.
RUBENS FIGUEIREDO, 57, é professor, escritor e tradutor. Transpôs do russo, entre outros, "Guerra e Paz" (Cosac Naify), de Lev Tolstói, e escreveu o romance "Passageiro do Fim do Dia" (Companhia das Letras

O mini Jorge Amado sorriu para mim - J.R. DURAN

folha de são paulo
"O Bóris não quer morrer, Zélia."
A voz era do Jorge Amado, e o comentário em voz alta tinha sido dirigido para Zélia Gattai. Cada um estava em uma sala dentro da casa, escrevendo, enquanto eu esperava do lado de fora, sentado na varanda, a hora certa para fotografar o escritor.
Estávamos em 1994. A casa era a da rua Alagoinhas, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, casa que ele tinha construído com a venda para o cinema dos direitos de "Gabriela, Cravo e Canela".
J.R. Duran/Acervo Pessoal
Jorge Amado autografa exemplar de "Navegação de Cabotagem" para J.R. Duran
Jorge Amado autografa exemplar de "Navegação de Cabotagem" para J.R. Duran
Na época eu morava em Nova York e fui contratado pela Standard Ogilvy, uma agência no Brasil, com a missão de fotografar Jorge Amado para uma campanha publicitária do cartão de crédito American Express.
A tarefa não era simples; normalmente as fotos publicitárias para o cartão eram feitas por Annie Leibovitz, uma das feras -e um dos meus ídolos- da fotografia mundial. Por reentrâncias e saliências da vida (questão de agenda, se falou), ela não poderia fazer esse trabalho. Eu teria de entrar no seu lugar e, claro, mimetizar seu estilo.
Era uma tarefa bastante inglória, tanto quanto seria a de um reserva do Barcelona ter que entrar no lugar do Lionel Messi e fazer dois gols nos últimos 15 minutos de um jogo de futebol.
No dia do trabalho, chegamos antes da hora combinada e nos pediram, gentilmente, para esperar um pouco. Foi aí, tomando um cafezinho, que ouvi a frase.
"O Bóris não quer morrer, Zélia." "Que safado", respondeu ela.
Demorei alguns minutos para entender que Jorge Amado comentava alguma coisa que estava escrevendo, e que eu tinha o privilégio de presenciar esse fenômeno criativo em que os personagens começam a ter vida própria e vão traçando eles mesmos seu destino. Os escritores costumam dizer que, nesse momento, a magia do ato de escrever atinge seu ápice.
Só anos mais tarde me dei conta de que naquele instante ele deveria estar lidando com o protagonista de um livro que nunca seria concluído: "Bóris, o Vermelho".
Na hora certa, Jorge Amado se submeteu a todas as solicitações. Foi simpático, gentil e educado, mesmo com os constantes pedidos que eu fazia ao tentar achar a imagem que, imaginava, passaria à história da fotografia publicitária dos cartões de crédito.
Aproveito sempre, quando tenho a oportunidade de fotografar alguma celebridade, para fazer alguns registros para um livro que, desconfio, nunca será publicado.
Dessa vez, além de Jorge sozinho e ao lado de Zélia, pedi autorização para fazer algumas fotos retratando o escritor em seu lugar de trabalho. Com paciência, ele aceitou. Uma forte luz iluminava as folhas de texto colocadas sobre uma mesa, que me surpreendeu pelo seu tamanho reduzido.
Em certo momento, o que me pareceu o sinal para que o deixasse em paz, ele me deu um exemplar de "Navegação de Cabotagem" autografado com um generoso "Para J.R. Duran, mestre da fotografia, um obra de Jorge Amado. 1994".
O tempo passou e voltei à Bahia para um outro trabalho. Fiz uma série de fotos de moda para uma revista italiana. A editora, uma moça divertida e culta, quis conhecer o Pelourinho e, como não, entramos no casarão da Fundação Casa de Jorge Amado.
Uma prateleira, encostada em uma parede, alinhava bonecos de todos os tamanhos reproduzindo a imagem do escritor. Para minha surpresa, uma das fotos que tínhamos feito para o American Express -a de Jorge Amado sentado numa rede laranja, vestindo shorts azuis, com uma camisa florida, chapéu de palha e chinelos brancos com listras azuis, segurando um bastão de madeira- tinha se convertido em um boneco de barro, daqueles feitos pelo Mestre Vitalino. O escritor, com não mais do que dez centímetros de altura, estava lá sorrindo para mim.
Sem querer querendo, tinha entrado na vida de Jorge Amado.
J.R. DURAN, 61, é fotógrafo, editor da "Rev.Nacional" e autor do romance "Cidade sem Sombras" (Benvirá, 2013

Pacientes fazem "poupança da beleza" de células para uso estético no futuro - Giuliana Miranda

folha de são paulo

Pacientes fazem "poupança da beleza" de células para uso estético no futuro

Um serviço que congela e armazena células jovens e saudáveis para serem usadas em tratamentos estéticos no futuro –apresentado pela empresa responsável como uma "poupança da beleza"– já está disponível nos consultórios de São Paulo. Especialistas na área, no entanto, ainda se dividem quanto à validade e à utilidade desse tipo de procedimento.

Isso porque, embora existam pesquisas com resultados bem-sucedidos, uma boa parte das possíveis aplicações das células preservadas ainda está longe de sair dos laboratórios. E, as que já são aprovadas e têm aplicações efetivas no exterior, ainda não tiveram seus resultados validados para serem realizadas regularmente no Brasil.
"Ainda são necessários estudos para que esses tratamentos sejam desenvolvidos e usados rotineiramente, mas os resultados das pesquisas feitas no exterior são excelentes. Estamos trabalhando para desenvolver isso no Brasil também", rebate Andresa Forte, cientista da TechLife, empresa que presta o serviço e é um braço da CordCell, que armazena células-tronco do cordão umbilical.
Embalado pelo sucesso da técnica lá fora, a grande aposta da companhia são os fibroblastos, as células produtoras de colágeno –um dos principais "ingredientes" da firmeza da pele.
Editoria de Arte/Folhapress
Nos EUA, a FDA (agência que regula remédios e alimentos) aprovou o uso de uma técnica que usa os fibroblastos para corrigir rugas e depressões na pele.
Para isso, é retirado um pequeno pedaço de pele do paciente, preferencialmente de uma área pouco exposta ao Sol, para minimizar as chances de mutações. Depois, essas células são cultivadas em laboratório e reinjetadas, corrigindo as imperfeições.
Embora as atuais aplicações de colágeno, ou até de botox, já consigam bons resultados, as empresas apostam na maior durabilidade do método e na menor ocorrência de alergias ao usar as próprias células da pessoa.
A TechLife está montando um protocolo para tentar validar uma técnica semelhante à aprovada nos EUA para uso no Brasil. Além dos fibroblastos, a empresa também armazena outros tipos de material, com ênfase sobretudo nos que podem ser derivados em células-tronco: gordura e polpa do dente de leite.
Convidado pela TechLife para elaborar protocolos que validem as aplicações dos fibroblastos e outras células no Brasil. o geneticista Alysson Muotri, professor da Universidade da Califórnia em San Diego, diz que o armazenamento das próprias células em um banco privado é como um "seguro saúde" e vai além das questões estéticas.
"Pode ser que você nunca use. Mas, se precisar, pode estar ali o diferencial para salvar a sua vida. Os bancos públicos são bons, mas, para quem tem condições, guardar as próprias células é mais vantajoso", diz. "Mas sou uma pessoa cética. Estou trabalhando com muito rigor na questão da validação."
Ele reconhece que no Brasil ainda há desconfiança na parceria de cientistas com empresas privadas, mas diz que essa é uma oportunidade que traz benefícios para ambos os lados.
APOSTA
Para a geneticista da USP Lygia da Veiga Pereira, esse tipo de serviço ainda é uma "aposta sem garantias".
"Célula-tronco é uma expressão que vende. Há muitas pesquisas promissoras na área, mas isso não significa que elas vão necessariamente resultar em uma terapia com uso prático. Já vimos muita coisa que em laboratório parecia linda, mas, quando começou a ser usada na vida real, não deu em nada."
Segundo a cientista, o fato de uma técnica ter tido sucesso em um laboratório não significa que, necessariamente, outras semelhantes terão os mesmos resultados.
"Quando se trata de células, há muitas variáveis em jogo. Qualquer mudança no método, por menor que seja, pode representar uma alteração no resultado final", diz.
CAUTELA
Embora não tenha se pronunciado especificamente sobre o caso, o CFM (Conselho Federal de Medicina) já emitiu uma nota técnica recomendando que os médicos tenham "cautela na divulgação do uso de células-tronco em procedimentos estéticos".
A Sociedade Brasileira de Dermatologia indicou como porta-voz a médica Marisa Gonzaga, professora da Faculdade de Medicina do ABC, que é ligada à TechLife.
"Hoje ainda não há uma definição quanto a isso [as aplicações práticas], mas tudo indica que os resultados são excelentes", disse a médica, que participa da elaboração do estudo de validação dos fibroblastos no Brasil. 
'Seguro' de células tem benefícios, diz geneticista
DE SÃO PAULO
Convidado pela TechLife para elaborar protocolos que validem as aplicações dos fibroblastos e outras células no Brasil. o geneticista Alysson Muotri, professor da Universidade da Califórnia em San Diego, diz que o armazenamento das próprias células em um banco privado é como um "seguro saúde" e vai além das questões estéticas.
"Pode ser que você nunca use. Mas, se precisar, pode estar ali o diferencial para salvar a sua vida. Os bancos públicos são bons, mas, para quem tem condições, guardar as próprias células é mais vantajoso", diz. "Mas sou uma pessoa cética. Estou trabalhando com muito rigor na questão da validação."
Ele reconhece que no Brasil ainda há desconfiança na parceria de cientistas com empresas privadas, mas diz que essa é uma oportunidade que traz benefícios para ambos os lados.

Marcelo Gleiser

folha de são paulo
Buracos negros em crise?
Stephen Hawking quer salvar a relatividade e a física quântica decretando o fim dos buracos negros
Buracos negros são objetos extremamente estranhos. Imagine uma região do espaço de onde nada pode escapar, nem a luz. Essa é a ideia por trás dos buracos negros, uma consequência da teoria da relatividade geral de Einstein, que diz que a força da gravidade pode ser interpretada como sendo devida à curvatura do espaço em torno de uma massa: quanto maior a massa, mais curvo o espaço e mais intenso o puxão gravitacional.
Einstein nunca foi fã dos buracos negros. E com boa razão. Normalmente, buracos negros são restos de estrelas que gastaram o seu combustível e sucumbem à atração gravitacional de sua própria massa: feito um balão que implode, vão ficando cada vez menores e mais densas, encurvando o espaço cada vez mais à sua volta, até que, no centro de tudo, a gravidade fica infinitamente forte: essa é a singularidade, o ponto onde a teoria de Einstein deixa de funcionar. Einstein e outros achavam que algo deveria ocorrer antes de se chegar na singularidade.
Buracos negros são cercados pelo "horizonte de eventos", que delimita seu poder atrativo: algo que passa de lá não escapa mais. Por outro lado, se alguém cai num buraco negro, não percebe nada ao passar pelo horizonte de eventos, fora a força cada vez maior em direção ao centro. Isso é consequência do chamado princípio de equivalência, de Einstein. Existe, portanto, uma assimetria no buraco negro: caindo, não percebemos o horizonte de eventos, mas, se tentarmos sair de dentro dele, não conseguimos.
Ao menos, essa é a teoria aceita hoje. As coisas complicam quando incluímos a física quântica na descrição dos buracos negros. Stephen Hawking mostrou que a física quântica implica que buracos negros evaporam aos poucos, expelindo parte da matéria de seu interior. Imediatamente, surgem duas questões: se a matéria que cai dentro é organizada (por exemplo, um livro, um sapo), mas escapa apenas como radiação, o que acontece com toda a informação? É perdida? Se for, isso viola a física quântica. E se o buraco negro evaporar totalmente? Ficamos com a singularidade exposta, um ponto absurdo, sem sentido?
A crise põe os dois pilares da física moderna --a física quântica e a relatividade-- em pé de guerra. Em 2012, John Polchinski, da Universidade da Califórnia, sugeriu uma solução que piorou as coisas: talvez o horizonte de eventos seja uma espécie de muralha de fogo, devido a todas as partículas que evaporam do buraco negro e perdem contato com suas irmãs no interior. Se a muralha existir, violaria o princípio de equivalência, pois quem passasse por ela saberia onde está o horizonte de eventos. Nesse caso, Einstein estaria errado. A alternativa seria aceitar que informação é perdida quando cai no buraco negro, violando as leis da física quântica.
Para complicar, na semana passada Hawking sugeriu uma solução ainda mais dramática: talvez o horizonte de eventos não exista e seja só um "horizonte aparente". Hawking quer salvar a relatividade e a física quântica abolindo os buracos negros! Por ora, sabemos apenas que a controvérsia seguirá por um bom tempo. Afinal, em jogo estão as duas teorias mais preciosas da física. Será que uma terá que ceder?

    Carlos Heitor Cony

    folha de são paulo
    Romance sem palavras
    RIO DE JANEIRO - Zapeando pelo guia de filmes, dei com o resumo de um filme bem ordinário, "Havana", que tem passado com frequência na TV a cabo. Com Robert Redford, a produção tentava reproduzir o clima e o dilema final de "Casablanca", com os últimos dias da ditadura de Batista e a chegada dos revolucionários liderados por Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos numa contrafação de "Casablanca".
    Já disse que revejo o filme por um motivo tolo: ouvir o bolero "Me Voy al Pueblo", que tanto custei a identificar, só o conseguindo em Paris, quando o ouvi numa calçada do Quartier, justo na esquina das ruas de L'Harpe e Saint Severin.
    Em Paris, comprei diversos CDs com músicas antigas e lá estava o bolero que eu caçava havia mais de dois anos. Mas, ao ler o resumo da história, vi que havia ali o final que inconscientemente eu procurara para um romance meu.
    A situação do meu romance, embora com clima, elementos e mensagens totalmente diferentes, repete até certo ponto o final desses dois filmes, "Casablanca" e "Havana", um triângulo amoroso, quando um dos envolvidos faz a opção da renúncia.
    Eu havia terminado o romance com um final feliz. Ficou bonito, mas falso. Quando me lembrei do final dos filmes, achei que ali estivesse o que eu queria. Ao contrário dos filmes, no meu romance o importante é um quarto ângulo, inesperado porque sua história não é contada. Mas há a mesma renúncia do personagem principal, um ex-padre que, desconfiando de que a mulher amasse outro, decide se abrigar num mosteiro beneditino.
    Mudei tudo, porém. Também o amante, convencido de que poderá ser feliz, tem uma surpresa. A mulher ama outro homem, antes mesmo do amante e do marido.
    O final combina em tudo com os meus finais. O livro ficou realmente meu.

    Senhor do tempo - Stephen Hawking em 120 minutos - JOSÉ EDELSTEIN

    folha de são paulo
    Senhor do tempo
    Stephen Hawking em 120 minutos
    JOSÉ EDELSTEINTRADUÇÃO CLARA ALLAINRESUMO Em visita à Universidade de Cambridge, físico argentino entrevista o cientista mais popular da atualidade. Um retrato da vida e do pensamento de Stephen Hawking, que voltou ao noticiário nesta semana ao negar, em novo artigo, a existência dos buracos negros, contrariando conclusões de 40 anos de suas próprias pesquisas.
    Os corredores dos pagodes modernos que compõem o Centro de Ciências Matemáticas da Universidade de Cambridge convidam ao assombro. No primeiro andar, uma porta se destaca em meio à coreografia confusa criada pela infinidade de salas idênticas. É a única que não tem maçaneta; abre-se com um código numérico, e nela ainda se veem quatro furinhos nos quais, até há pouco, parafusos sustentavam uma discreta placa dourada, com 17 caracteres negros gravados em tipografia clássica, em letras maiúsculas, dizendo "LUCASIAN PROFESSOR".
    A placa percorreu uma breve distância até parar na porta de Michael Green, um dos pais da teoria das cordas. O mesmo rótulo tinha sido fixado, em 1669, à porta de um jovem professor universitário de apenas 26 anos que respondia pelo nome de Isaac Newton. A partir daí, ser titular da cátedra Lucasiana converteu-se em distinção superlativa, legendária, compartilhada por gigantes da história da ciência. Como aquele que me aguarda atrás da porta da sala B1.07, Stephen William Hawking.
    Se um encontro com Hawking é sempre aguardado com ansiedade máxima, a minha ansiedade se viu redobrada pela frustração da primeira tentativa.
    Algumas semanas antes, eu tinha visita marcada à sua casa, mas um problema de última hora causou seu cancelamento. Foi preciso trocar o ambiente sóbrio e acolhedor da residência de Hawking pelo de sua sala de trabalho, luminosa e moderna. Em seu lar, eu o teria encontrado, como anos antes, mais descontraído, diante de estantes de madeira, nas quais livros convivem com desenhos que lhe são enviados por dezenas de crianças do mundo todo e com algumas primeiras edições que ele coleciona, e ouvindo Wagner. "Ninguém conseguiu, nem antes nem depois dele, transmitir tanta emoção com a música."
    DOENÇA Como se sabe, Stephen Hawking sofre de uma doença degenerativa que o imobilizou quase por completo. Não obstante essa deficiência grave, cujos primeiros sintomas apareceram na época de sua tese de doutorado, quando completou 21 anos, ele conseguiu desenvolver uma carreira científica que o elevou ao Parnaso dos maiores físicos teóricos da segunda metade do século 20.
    Para dar a dimensão de sua importância como cientista, serei categórico: boa parte do que sabemos quanto aos aspectos teóricos mais fundamentais acerca da origem do universo e seus mais misteriosos e monstruosos habitantes, os buracos negros, é obra dele.
    Apesar de toda sua carreira ter sido marcada pelas limitações impostas pela doença, foi nos primeiros anos que ela avançou mais rapidamente. O jovem Stephen Hawking tinha grandes aspirações quando chegou a Cambridge e, em muito pouco tempo, viu-se diante da possibilidade real de não viver nem para concluir o doutorado.
    O prognóstico habitual para os pacientes com esclerose lateral amiotrófica é de dois ou três anos de vida. A ponto de jogar a toalha, Hawking se apoiou em três pilares: o amor de sua primeira mulher, Jane Wilde; o incentivo intelectual que foi conhecer o físico matemático Roger Penrose; e, não menos importante, um aspecto de sua personalidade que se fará notar neste encontro: sua rebeldia impetuosa, obstinada e por vezes presunçosa. A rebeldia de alguém que vê a ciência "como uma disciplina não apenas racional mas também romântica e passional".
    Seu caráter indômito o levou a enfrentar a autoridade acadêmica da época, Fred Hoyle, e sua "teoria do estado estacionário" (segundo a qual o universo, em permanente expansão, não se dilui graças à criação contínua de matéria), que era vista como alternativa promissora à então infamada teoria do Big Bang (cujo nome, paradoxalmente, foi cunhado por Hoyle).
    Apesar de sua dificuldade crescente para escrever ou caminhar, Hawking publicou uma série de trabalhos cujo ápice foi um artigo assinado com Penrose, em janeiro de 1970. Nesse texto, eles demonstraram matematicamente que eventos em que o espaço e o tempo nascem e morrem, como o Big Bang e os buracos negros, não apenas são prováveis na teoria da relatividade geral como são simplesmente inevitáveis. Os cientistas só se encontraram cara a cara uma vez durante o processo de redação do que hoje se conhece como o "teorema da singularidade".
    CASCA DE NOZ Pouco antes, Arno Penzias e Robert Wilson tinham descoberto acidentalmente que o universo emitia, a partir de toda e qualquer direção, uma radiação térmica, indicação de que, levando em conta que a expansão produz resfriamento, ele teria de ter sido menor e mais quente no passado. Se regredíssemos no tempo tanto quanto a imaginação nos permitisse, chegaria um momento em que o universo inteiro caberia numa casca de noz e que sua temperatura seria altíssima. O Big Bang, como fruto desse teorema e dessas observações, adquiriu desde então status de teoria científica.
    O trabalho feito com Penrose bastaria para que Hawking conquistasse um lugar na história da física. Mas suas contribuições mais características têm a ver com os buracos negros, criaturas fantásticas cuja história é fascinante.
    Sua descoberta matemática foi feita por Karl Schwarzschild, que completou os cálculos nas trincheiras do front russo na Primeira Guerra, pouco após Einstein publicar a teoria da relatividade geral. Schwarzschild não chegaria a saber que, por um quarto de século, seus resultados seriam recebidos como uma extravagância. Algo tão excêntrico quanto o pênfigo paraneoplásico, doença autoimune que o mataria meses mais tarde.
    Em 1939, Robert Oppenheimer e Hartland Snyder demonstrariam que uma estrela suficientemente pesada poderia implodir devido à atração gravitacional, colapsando até chegar ao estado descrito por Karl Schwarzschild.
    Muitos outros físicos contribuiriam com pistas relevantes. Mas a mudança que fez com que esses seres mitológicos, cuja força gravitacional é tão intensa que nem sequer a luz consegue escapar, fossem considerados como entidades possivelmente reais deve muito a John Archibald Wheeler, que em 1967 os chamou buracos negros.
    Nessa época o jovem doutor Stephen Hawking começava a domesticá-los, armado com papel e lápis, ao mesmo tempo em que sua mulher, Jane, se ocupava de Robert, seu recém-nascido primogênito.
    Já confinado a uma cadeira de rodas, Hawking viu nascer sua filha Lucy, cuja chegada auguraria outras alegrias: pouco depois ele descobriu que os buracos negros deviam ter entropia, conceito estatístico associado a sistemas compostos. Mas, diferentemente do que ocorre em todos os sistemas naturais conhecidos, sua entropia parecia residir em sua fronteira, e não no buraco negro em si.
    Toda a informação se encontraria, portanto, na superfície que o rodeia, como uma lata de alimento em conserva que não se pode abrir, mas cujos detalhes podemos acessar pela leitura do rótulo. De acordo com o estabelecido então pelo cientista, os buracos negros seriam como hologramas.
    As contribuições teóricas de Hawking dotaram de substância física esses entes misteriosos que, segundo ele, se emitissem radiação, evaporariam, levando junto o que haviam deglutido. Isso causa um conflito frontal com as leis da física quântica: a informação, como a energia, não pode ser perdida. Se os buracos negros evaporam sem deixar rastro daquilo que engoliram, tanto faz se o livro era uma antologia poética de Vinicius de Moraes ou se era o mesmo livro, mas com páginas em branco.
    Agora, depois de 40 anos de intensos debates, durante os quais Stephen Hawking ajudou a dar entidade aos buracos negros, o físico britânico a nega.
    Ele divulgou sua nova posição, na semana passada, em um artigo na plataforma arXiv, que acolhe trabalhos antes de sua publicação em revistas científicas.
    No texto, Hawking sugere que o chamado horizonte dos eventos, fronteira matemática a partir da qual toda e qualquer coisa desapareceria dentro de um buraco negro, simplesmente não existe. Se não há horizonte de eventos, não há buracos negros! Para ele, em vez de horizonte de eventos, haveria um "horizonte aparente", capaz de capturar a luz por um tempo. O processo pelo qual o buraco negro engoliria matéria seria assim tão caótico que, ainda que a informação não se perdesse, estritamente, reconstrui-la seria tão difícil quanto, digamos, prever que tempo vai fazer em São Paulo no instante preciso em que você estiver lendo estas linhas.
    O novo artigo ainda não foi revisado por outros cientistas nem apresenta fundamentação matemática para suas conclusões audazes e provocadoras. De fato, nenhuma das previsões de Stephen Hawking pôde ser comprovada.
    NOBEL Por isso ele não recebeu o Nobel. Foi, no entanto, agraciado com uma distinção ainda mais prestigiosa, a medalha Copley, prêmio científico mais antigo do mundo, outorgado pela Royal Society de Londres desde 1731.
    Hawking a recebeu em 2006, dois anos antes de Penrose. Enquanto o Nobel de Física, Química ou Fisiologia é habitualmente dividido, a medalha Copley é entregue a uma só pessoa por ano. Darwin, Einstein e Pasteur a receberam. Em 1838, numa rara ocasião em que foi difícil escolher um nome, ela foi compartilhada por Michael Faraday, um dos dez físicos mais importantes da história, e Carl Friedrich Gauss, rei da matemática.
    No início dos anos 80, Hawking se propôs a escrever um livro em que pudesse explicar os conceitos avançados da física fundamental ao grande público. Recusou-se a fazê-lo com editoras acadêmicas, pois lhe interessava que o texto pudesse ser acessível a qualquer leitor. Habituado a usar uma linguagem metafórica e carregada de imagens em suas palestras, sentia-se preparado para lançar uma ponte sobre a enorme distância que separa do cidadão comum as sofisticadas teorias da física moderna, cuja expressão natural depende do idioma das matemáticas.
    O lento processo de redação e correções do livro acabou dificultado por um enorme contratempo. Em meados de 1985, numa visita que fazia ao Cern (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), uma pneumonia deixou Hawking à beira da morte, e foi necessária uma traqueostomia para salvá-lo. Desde então, ele ficou mudo. Apesar disso, em 1988 saiu, finalmente, "Uma Breve História do Tempo", que catapultou a divulgação científica ao status de best-seller. O estímulo que o livro representou para que milhares de jovens se inclinassem à ciência é incalculável.
    CQC No horário novamente agendado, ali estava eu, à porta da sala de trabalho de Hawking; e, quando passei por ela, ali estava o próprio Hawking. O primeiro contato visual teve um ingrediente inesperado: o cientista mais famoso do planeta usava óculos escuros que pareciam saídos do "CQC" --lembrei-me de que era possível, pois, quando em visita a Santiago de Compostela, ele havia participado da versão espanhola do programa.
    Diante do espanto que não tive como esconder, Jonathan Wood, o assistente técnico que monitora com extrema atenção o sistema através do qual Hawking se comunica, assinalou a claridade ofuscante que chegava pelas grandes janelas da sala: "Ele precisa dos óculos de sol para poder utilizar o sistema de comunicação".
    Há quase três décadas, Stephen Hawking se comunica com o mundo externo por meio de um computador integrado à sua cadeira de rodas e de um programa especial com que monta suas frases, emitidas por um sintetizador de voz. Apesar dos avanços tecnológicos Hawking não quer nem ouvir falar em melhorar a qualidade do sintetizador --cuja voz, além de metálica, para o constrangimento de um professor britânico, tem sotaque americano. "Essa é minha voz", diz, com lógica arrasadora.
    Até o início da década passada ele era capaz de mover os dedos de sua mão direita com agilidade suficiente para manipular um mouse. Mas, quando perdeu a mobilidade da mão, teve que recorrer ao reconhecimento de movimentos faciais. Seu assistente anterior, Sam Blackburn, concebeu um detector que sai da parte superior de seus óculos, semelhante a uma pequena lâmpada de leitura, registrando os movimentos de sua bochecha.
    Com essa única maneira de clicar, Hawking não pode navegar pela tela, como antes fazia. Sua velocidade de comunicação diminuiu muitíssimo, até chegar a uma palavra por minuto. Alternativas de todo tipo vêm sendo exploradas --desde o scanning cerebral até o rastreamento dos olhos, passando por um sistema sofisticado que monitora seu rosto, aproveitando a complexidade de movimentos a seu alcance. Mas, por ora, ele continua usando esse sistema.
    A perspectiva de encará-lo numa conversa tão cheia de silêncios prolongados era perturbadora. Eu o cumprimentei e me sentei ao seu lado. Ele me observou com especial atenção quando eu lhe disse que María, uma menina que ele conheceu na Galícia e que tinha recebido o diagnóstico de uma doença semelhante à dele, estava muito bem. Reforçado pela imobilidade do resto de seu corpo, o efeito que produz o olhar de Hawking quando seus olhos claros se fixam sobre os nossos é assombroso: você tem a certeza de estar com ele e de que ele está com você. É um breve instante de comunicação intensa.
    MENU No primeiro almoço que tivemos em Santiago de Compostela, veio à tona, devido ao menu, seu gosto pela boa carne. A imobilidade de seu rosto converte o momento da refeição numa situação difícil, e ali se manifesta sua proverbial determinação. Hawking jamais parece fazer uma opção culinária pensando em simplificar a operação de comer. Não se priva de nada. Na Galícia, não deixou de provar nenhum marisco e comeu polvo e crustáceos até se cansar.
    Ao falar de comida, foi inevitável que a conversa se voltasse à qualidade da carne argentina. Assim eu soube que não é apenas da carne que ele se recorda ao pensar em meu país mas também do tango. Falei disso com ele ao entrar em sua sala de trabalho. Perguntei se havia algum outro aspecto da Argentina que tivesse chamado sua atenção e ele me respondeu da maneira mais inesperada: "O papa. Sou membro da Pontifícia Academia de Ciências e espero vê-lo na próxima reunião".
    Surpreendeu-me o fato de que um agnóstico como ele tivesse optado por essa referência, quando poderia ter recorrido a tantas outras --entre elas, a de uma nova figura, que marcou a física teórica das duas últimas décadas, revolucionando aquele que talvez seja o terreno mais árido do século passado: a busca de um formalismo que compatibilize as duas grandes teorias do século 20, a física quântica e a teoria da relatividade geral.
    Aos 45 anos, Juan Martín Maldacena é atualmente membro do prestigiosíssimo Instituto de Estudos Avançados de Princeton, onde Albert Einstein trabalhou --além de ser conselheiro no braço sul-americano do ICTP (Centro Internacional de Física Teórica), com sede na Unesp, em São Paulo.
    Hawking o conhece bem porque, em 2003, eles fizeram juntos um trabalho em que convivem a noção de entropia gravitacional introduzida por ele e a chamada conjectura de Maldacena. De modo que poderia ter aludido a ele, em lugar do papa.
    Achei interessante perguntar a alguém que viveu a condição de estrela emergente da física teórica sobre outro jovem na mesma situação. A resposta de Hawking foi tão sucinta quanto contundente: "Ele é brilhante. Muito original". Não me atrevi a contar-lhe que em 1999, na conferência anual da teoria das cordas em Potsdam (Alemanha), Maldacena e eu quase o derrubamos quando retornávamos apressados ao banquete da conferência e topamos com ele num corredor do hotel: ao abrir uma porta, foi quase por milagre que conseguimos desviar de sua cadeira de rodas.
    MEIA HORA Mais de meia hora tinha transcorrido para que obtivesse essas duas breves respostas.
    O sistema de comunicação de Hawking é frágil. No canto superior direito da tela de seu computador há dois quadrados pequenos. O quadrado superior contém as letras do alfabeto. No inferior, há os números e algumas teclas de função.
    Quando Hawking começa a escrever uma palavra, abre-se uma janela retangular, colada às outras, com dez palavras sugeridas, numeradas de zero a nove. O sensor preso a seus óculos detecta o único gesto que ele usa no sistema: um movimento do maxilar para a bochecha, que ativa um clique. Como não há sinais distintos para indicar vertical ou horizontal na tela, um cursor executa uma dança perpétua sobre os quadrados: para cima, para baixo, para cima...
    Quando ele clica, o cursor se fixa sobre o quadro selecionado e então, devagar, começa a percorrer as linhas distintas. Uma vez escolhida uma linha, percorre cada letra ou símbolo nela. Se há um erro, é preciso esperar que o cursor reinicie a dança para, então, dirigi-lo pacientemente até o ícone que representa a função "apagar".
    O modo como Hawking faz questão de escrever corretamente, sem pular uma letra ou um sinal de pontuação, é comovente. Impossível não pensar na preguiça que habitualmente se manifesta em abreviadas mensagens de texto no celular ou nas redes sociais.
    Com frequência, devido à degeneração muscular ou ao cansaço, suas pálpebras quase se fecham, em um movimento que ele provavelmente não pode controlar e que em muitas ocasiões causa erros de comunicação. Embora ele tenha alguma liberdade de movimento facial, como arquear as sobrancelhas, seu gestual é limitado. Esses movimentos sutis, quase imperceptíveis para quem não está acostumado, servem, contudo, para que Hawking se comunique com as pessoas mais próximas, para poder concordar ou discordar rapidamente, ou para comunicar-se quando não está em sua cadeira de rodas --por exemplo, quando está na cama. Ali ele também recorre ao método que usava antes de dispor de um computador, o qual é exaustivo só de imaginar: forma palavras reconhecendo letra por letra, em uma cartolina.
    Há um momento em que a impressão de rigidez em seu rosto se apaga repentina e explosivamente. É quando ele desenha uma risada. Seus cuidadores, sobretudo os veteranos, conhecem seu senso de humor e captam sua gargalhada com facilidade. Nesses momentos, manifesta-se em toda a plenitude o ser humano que vive nas profundezas de seu corpo imóvel. Por outro lado, sua prostração lhe confere certo ar atemporal. É fácil esquecer que estamos diante de um homem de 72 anos.
    Ao lado de Albert Einstein, Galileu Galilei está no altar pessoal de Stephen Hawking. Naquela que provavelmente seja a única concessão que faz ao pensamento mágico, Hawking intui alguma forma de causalidade no fato de ter nascido exatamente 300 anos após o 8 de janeiro de 1642, último dia na vida de Galileu.
    Quando, em 2012, o homem que deveria morrer antes dos 25 anos chegou aos 70, a comemoração foi um jantar no imponente refeitório do Trinity College, o mais respeitado da Universidade de Cambridge --entre seus antigos membros, além de 32 Prêmios Nobel, figuram nomes como lorde Byron, Vladimir Nabokov, Bertrand Russell e Ludwig Wittgen- stein. Éramos uns 250 convidados, entre os quais só um envergava o smoking como se fosse uma roupa de todo dia: o ator Daniel Craig, o James Bond. O principal ausente foi o próprio Hawking, que não pôde comparecer por problemas de saúde. Estava ali sua mãe, Isobel, com quem ele manteve uma relação muito estreita até a morte dela, aos 98, em abril passado.
    APOSTA Stephen Hawking criou o hábito de fazer apostas com seus colegas a respeito de previsões científicas. Com uma particularidade: se não me engano, ele não ganhou nenhuma. A última é muito recente: foi quando ele apostou que o bóson de Higgs jamais seria encontrado. Em 4 de julho de 2012, o laboratório Cern confirmou a descoberta ocorrida no Grande Colisor de Hádrons (LHC). Hawking rapidamente declarou-se perdedor e pediu o Nobel para Peter Higgs (o britânico de fato veio a partilhar o prêmio com o belga François Englert, em 2013).
    Sempre tive a impressão de que ele sistematicamente apostava contra o que julgava mais provável, como se desafiasse a natureza a seguir por um rumo inesperado, levado por sua rebeldia obstinada e seu espírito brincalhão (não seria seu trabalho mais recente uma "boutade", um produto desse espírito?). No caso do bóson de Higgs, por exemplo, parece-me claro que ele, como muitos físicos teóricos, desejava que não fosse encontrado para que o jogo pudesse ser aberto a novas teorias. Comento essa hipótese e, embora ele não me responda, uma gargalhada muda que se desenha em seu rosto parece me dar razão.
    CULTURA POP A presença de Hawking na cultura popular é incomum para um cientista, e poderia ser ainda maior se ele fosse alguns anos mais jovem. A julgar pelos bonequinhos que exibe no seu escritório, ele se orgulha muito das participações que fez em episódios de "Os Simpsons", "Jornada nas Estrelas" e, mais recentemente, "The Big Bang Theory".
    Seu espírito lúdico é, de fato, extraordinário. Suas palestras sempre têm momentos cheios de graça, dos quais ele desfruta, prolongando seu próprio silêncio para ouvir as risadas do público. Quando, anos atrás, foi recebido pelo prefeito de Santiago de Compostela na praça principal da cidade, depois de percorrer o trecho final do Caminho de Santiago, aceitou sem pensar duas vezes minha sugestão de saudar o prefeito pelo nome, com o único objetivo de ver sua expressão de surpresa.
    Enquanto esperava que Hawking respondesse às minhas perguntas, eu contemplava com a respiração contida o esforço titânico que ele fazia.
    Quando falam com ele, as pessoas habitualmente ficam a seu lado, olhando para a tela do computador. Assim, em muitas ocasiões a leitura da primeira metade de uma frase já prenuncia seu final. Isso não impede que Hawking continue a lutar contra a adversidade para terminar a frase, sem erros de ortografia.
    Lembrei-me do que sua filha, Lucy, tinha me dito: "As pessoas às vezes se esquecem de que meu pai tem uma deficiência grave. Estão tão acostumadas a vê-lo funcionar com a cadeira de rodas e o sintetizador de voz, a dar palestras de forma fluente e com linguagem polida, que esquecem a magnitude da luta e o esforço tremendo que estão por trás disso". Eu não poderia concordar mais.
    O denominador comum da vida de Hawking tem sido o tempo. O tempo escasso que lhe deram aos 21 anos; o tempo inicial e o final, aos quais ele dedicou sua carreira científica com tanta paixão; o tempo que não transcorre, que só pode ser vivido no ponto sem retorno dos buracos negros; o da breve história, que revolucionou o conceito da divulgação científica. Os primeiros versos de "Auguries of Innocence", de William Blake, parecem escritos para ele:"Num grão de areia ver o mundo / e numa flor agreste o céu, / reter na mão o infinito / e numa hora a eternidade".
    Se podemos chamar de milagrosa a conexão que Hawking, a partir de seu corpo imóvel, tem com o universo formal e abstrato da física, não é menos milagrosa sua preocupação com assuntos sociais que poderíamos supor que lhe fossem alheios ou distantes.
    Sua relação com a deficiência física mudou com o passar dos anos. Durante muito tempo, Hawking não queria ser identificado com ela. Uma vez tomada a decisão de concluir seu doutorado, foi como se tivesse dado as costas à sua doença e optado por viver ignorando-a. Desafiando-a.
    Quando começou a usar a cadeira de rodas, o cientista deslocava-se pelas ruas de pedra de Cambridge em velocidades temerárias. Em várias ocasiões acabou esparramado no gramado perfeitamente cortado das faculdades, obrigando os transeuntes ocasionais a transgredir as normas que proíbem que os não membros das faculdades pisem na relva, a fim de ajudá-lo a subir na cadeira outra vez.
    "Eu nunca quis ter pena de mim mesmo. A deficiência era normalmente vista como algo vergonhoso a ser escondido." Ele negava tão fortemente a sua doença que nem queria ouvir falar das organizações que, nos anos 1980, trabalhavam em prol da integração das pessoas com alguma forma de deficiência.
    Como todos que veem Stephen Hawking pela primeira vez, quando o conheci no Chile, em 1997, fiquei impressionado com a dignidade e a força de vontade com que ele levava sua vida adiante. Essa era uma viagem muito especial, pois o último dia da conferência ocorreria na Antártida.
    "Quero fazer as coisas da melhor maneira possível. Obviamente, devido à minha deficiência, preciso de ajuda, mas sempre procurei superar as limitações de minha condição e levar a vida mais plena possível. Percorri o mundo até a Antártida e experimentei a ausência de gravidade. Algum dia, quem sabe, eu possa viajar ao espaço. Sou mais feliz hoje que antes de a doença ter se manifestado."
    Conforme passaram os anos e aumentou sua dependência de sua equipe de cuidadores e enfermeiras, ao mesmo tempo em que se tornou consciente de sua posição privilegiada, Stephen Hawking converteu-se numa voz de referência na luta pela integração das pessoas com deficiências. Foi assim que, em 2012, aceitou com orgulho o convite para participar da cerimônia de abertura dos Jogos Paraolímpicos de Londres.
    "O grande sucesso dos Jogos Paraolímpicos mostrou que os atletas com deficiências são como quaisquer outros atletas e devem ajudar a fazer com que as pessoas com algum tipo de deficiência sejam aceitas pela sociedade. Creio que a ciência deve fazer tudo o que for possível para prevenir ou curar as deficiências. Ninguém quer ser deficiente, se puder evitar. Espero que meu exemplo dê ânimo e esperança a outros que estejam em situações semelhantes, para que nunca desistam."
    O compromisso social e político de Hawking pode ser apreciado tanto em suas declarações públicas quanto em seus silêncios escolhidos. Sempre foi defensor aguerrido da saúde pública e da necessidade de investir em pesquisa científica. Define-se ideologicamente como socialista, o que não o impediu de manifestar sua rejeição firme à guerra do Iraque sustentada pelo trabalhista Tony Blair --que ele não parece ter em muita estima.
    "O futuro da humanidade e da vida na Terra é muito incerto. Corremos o risco de nos destruirmos graças à cobiça e à estupidez."
    Sua sensibilidade ideológica se evidencia também quando ele aborda temas díspares e aparentemente exóticos. "A descoberta de vida extraterrestre inteligente seria o achado científico mais importante da história. Mas seria arriscado tentarmos nos comunicar com civilizações extraterrestres. Se elas decidissem nos visitar, o resultado poderia ser semelhante ao de quando os europeus chegaram à América, algo que não terminou muito bem para os nativos."
    CONTROVÉRSIA Em maio de 2013, Hawking se viu envolvido numa controvérsia. Ele havia aceitado participar de uma conferência sobre o fator humano na formação do futuro, organizada em Jerusalém em homenagem ao presidente de Israel, Shimon Peres.
    No entanto, um mês e meio antes do evento ele enviou uma carta breve e discreta aos organizadores, anunciando que, após ter consultado cientistas palestinos que havia conhecido em 2006, durante uma viagem a Ramallah, tinha desistido de participar.
    De algum maneira, a carta chegou ao Comitê Britânico para as Universidades da Palestina (Bricup), de onde vazou para a imprensa; o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) apressou-se a declarar que o cientista tinha aderido à sua causa.
    A missiva sucinta e respeitosa de Hawking terminava dizendo: "Se eu participasse, expressaria minha opinião de que a política do governo atual de Israel provavelmente vai conduzir ao desastre".
    Tratando-se de um tema delicado para a opinião pública internacional, as críticas se intensificaram de imediato. Para piorar as coisas, num primeiro momento a Universidade de Cambridge declarou que Hawking não viajaria a Israel por problemas de saúde; horas depois, foi obrigada a se desdizer, deixando no ar a sensação de que tinha tentado ocultar a realidade.
    Ninguém se deu ao trabalho de ler a declaração de Hawking e enxergá-la no contexto do pacifismo militante de alguém que já visitou Israel em outras ocasiões, recebeu a distinção científica máxima desse país, o Prêmio Wolf, e mantém vínculos estreitos com seus pesquisadores. Alguém que de maneira alguma aderiria a boicotes como os promovidos pelo BDS, que são uma negação total do diálogo.
    O cientista dedicou 45 minutos de esforço comovente para me explicar sua posição; definitivamente, ele procurava contribuir com um grão de areia para o restabelecimento do diálogo entre as partes.
    "Eu ia a Israel com a condição de poder dar uma conferência na Cisjordânia, porque sinto que as universidades palestinas necessitam de contatos com o exterior, mas todos os acadêmicos palestinos me disseram que eu deveria respaldar o boicote. Senti não ter ido", disse. "Se tivesse ido, teria dito que Israel precisa dialogar com os palestinos e com o Hamas, como a Grã-Bretanha fez com o IRA. Não se faz a paz falando com os amigos, mas com os inimigos. Estou satisfeito pelo fato de as conversações de paz estarem sendo retomadas. Se isso tivesse acontecido antes, teria ido a Israel."
    CAVALEIRO Chama a atenção o fato de um inglês da envergadura acadêmica de Stephen Hawking ainda não ter sido nomeado cavaleiro. Todos os cientistas britânicos de seu nível já o foram, incluindo Roger Penrose, com quem ele compartiu muitas honrarias. Há outra exceção notável: Peter Higgs. É inimaginável que isso não lhes tenha sido oferecido.
    Não creio que em qualquer dos dois casos se trate de uma posição antimonárquica, já que ambos foram laureados Companheiros de Honra pela rainha Elizabeth 2ª e aceitaram a distinção.
    A oferta do título de cavaleiro costuma ser levada aos candidatos por um intermediário, que deve apresentar as razões que a motivam. Hawking e Higgs são homens de princípios, que não hesitariam em recusar uma distinção se a julgassem em desacordo com seus méritos pessoais ou se a oferta lhes chegasse por um emissário que achassem inapropriado. Se a rainha da Inglaterra lê a Folha, eu a incentivo a tentar outra vez.
    Antes de nos despedirmos, vamos à Potter Room para fazer as últimas fotos. Esse salão é o ponto nevrálgico do Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica, onde acontecem os debates, os seminários, as conferências e até os obrigatórios chás das cinco. A presença de Hawking na Potter Room já foi imortalizada em um busto --última obra do escultor inglês Ian Walters, morto em 2006.
    As lâmpadas estão apagadas, e as janelas laterais produzem um jogo de luz e sombras que conferem realidade à estátua e irrealidade ao Hawking verdadeiro, que parece muito à vontade posando e se divertindo com os comentários que, com frequência crescente, geram seu sorriso franco e o olhar atento. Depois as vozes se calam, os olhares se cruzam pela última vez, e a confusão dos corredores e seu labirinto volta a tomar conta de nossos passos.

      Antonio Prata

      folha de são paulo
      Vespertina tropical
      É um troço estupendo: mais bonito que o pôr do sol, mais improvável que a girafa, mais grandioso que o relâmpago
      Então Deus, tendo acabado de criar o firmamento e os continentes, o homem e a mulher, a zebra, os elétrons, o umbu e a neblina, quis dar um último toque em Sua obra: num arroubo de lirismo, lá pelas 17h54 do sexto dia, pintou a aurora boreal. É, de fato, um troço estupendo: mais bonito que o pôr do sol, mais improvável que a girafa, mais grandioso que o relâmpago. Era pra ser o corolário da criação, a maior atração da Terra, diante da qual casais em lua de mel deixariam cair os queixos, japoneses ergueriam as câmeras e mochileiros bateriam palmas, contentes por terem nascido neste planeta abençoado e multicolor, mas, infelizmente, como se sabe, a aurora boreal não pegou.
      Claro: é longe, é raro e é muito cedo, como esses espetáculos incríveis encenados domingo de manhã no Sesc Belenzinho. Imagina se a aurora boreal fosse nos trópicos, seis e meia da tarde? O sujeito tá num táxi na avenida Atlântica, olha pro lado, o céu todo verde e amarelo e laranja e roxo, saca o celular, faz um "selfie" [tava louco pra usar essa palavra], posta "#vespertinatropical!!!" e segue pra casa, satisfeito. Mas não, é pra lá da Groenlândia, 4h30 AM, ninguém sabe quando: aí, não adianta reclamar que o público é ignorante e prefere a caretice hollywoodiana de um arco-íris.
      Fosse só a aurora boreal, beleza, mas a natureza tá cheia de desarranjos semelhantes. Não surpreende: ela foi criada há milhões de anos, nunca passou por uma revisão e ainda é administrada pelo fundador. Se eu fosse Javé, chamava uma dessas consultorias especializadas em fazer a transição de empresas familiares para organizações, digamos, mais competitivas, e dava um choque de gestão. Nem precisa gastar muito, basta alocar melhor os recursos.
      Veja os cometas, por exemplo. Tudo espalhado por aí, nos visitam só a cada 70, cem anos, às vezes chegam de lado, outras vezes de dia, ninguém vê, baita desperdício de energia. Por que não otimizar essas órbitas? Fazer com que venham cinco, dez ao mesmo tempo na noite de Réveillon, proporcionando uma queima de fogos global à nossa sofrida humanidade?
      A gravidade é outro assunto que merece uma calibrada: tem que ser mesmo 9,8 m/s2? Por quê? Como Deus chegou a esse número? Gostaria que Ele abrisse as planilhas para entendermos se cada m/s2 é realmente necessário. Com metade dessa atração, nós continuaríamos colados ao chão e seria muito mais agradável se locomover por aí. O mínimo que o Senhor poderia fazer era dar uma amainada de dezembro a março: imagina que alívio encarar esse calorão com 25% menos esforço, durante a "Gravidade de Verão". Sem falar, óbvio, em 50% para grávidas, idosos e cadeirantes.
      Não tenho dúvida de que o Todo Poderoso resistirá a essas e outras reformas. Criar o Universo é o tipo da coisa que infla um pouco o ego do sujeito, mas seria bom se Ele se animasse a colocar o mundo nos eixos --literalmente: já repararam como a Terra gira toda torta, envergada como um frei Damião?
      Se meu pacote de sugestões não puder convencê-Lo pelo bom senso, quem sabe ao menos uma parte cutuque a Sua vaidade? Ora, El Shaddai, a aurora boreal é um negócio tão lindo, tão grandioso, tão divino, não é justo que siga sendo exibida, ano após ano, apenas para os ursos-polares, as focas e a Björk, é ou não é?