terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

José Simão

folha de são paulo
GPS do Corinthians: evite Ponte!
E o Ceni poderia ter se aposentado sem levar um gol do Valdivia. O cara joga de dez em dez anos e faz gol
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Sensação térmica: brigadeiro derretido! Sensação térmica: Quero Morrer. Quero Ficar Pelado!
E uma amiga botou a placa na porta da casa: "Aceita-se Piscina-se!". E eu tenho a foto dum relógio de rua anunciando a temperatura no Rio: FUDEX! Rarará!
E o Mercadante parece Marido de Aluguel: foi ministro da Ciência, ministro da Educação, agora Casa Civil, conserta torneira vazando, troca lâmpada e limpa caixa d'água! Rarará!
E essa Piada Pronta: "Brasil presidirá Comissão pela Construção da Paz da ONU". Pela Roseana Sarney. Em Pedrinhas. Direto de Pedrinhas! Eu sei quem vai presidir a Comissão de Paz da ONU: a PM de São Paulo! Rarará!
Aliás, a PM tá precisando fazer análise. "Uma hora é pra impedir acesso de manifestantes, outra é pra deixar as depredações rolarem", diz PM de São Paulo. Vão ter que fazer terapia: uma hora é pra bater, outra hora é pra não bater e outra hora é pra sumir!
E a maior alegria do mundo é zoar com o Corinthians! Errar é o Mano e perder tudo é corintiano! Perdeu pra Ponte Preta! Caiu da Ponte. Diz que o melhor lugar pra comer um gambá é embaixo da ponte. E o GPS de corintiano: Evite a Ponte!
E aquela invasão no CT do Corinthians não foi rolezinho, foi arrastão mesmo!
E o site Futirinhas: "Corintiano preso em Oruro se envolve em terceira confusão e pede música no Fantástico'".
E o meu São Paulo? O Ceni poderia ter se aposentado sem essa: levar um gol do Valdivia! Do Valdivia? O cara joga de dez em dez anos e faz um gol no Ceni. E aí o Ceni quis passar uma rasteira no Valdivia. E errou. Errou na rasteira. Rarará.
E outro do Alan Kardec: gol espírita! Gol do além! Rarará! E já tão dizendo que o São Paulo perdeu porque o Niko e o Félix estão em lua de mel. Essa foi péssima! Pior que levar gol do Valdivia! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
Os Predestinados! Um amigo meu queria castrar o gato e achou essa aqui: "Especialista em castração de cães e gatos: dra. PAO KAY". Do Pet Shop Amigo! Muy Amigo! Rarará! E essa: "Laboratório Itapoá de Análises Clínicas: dr. Reinaldo BEXIGA!" Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

    Globo liberou beijo gay um mês antes do final da novela - Keila Jimenez

    TELEVISÃO - OUTRO CANAL folha de são paulo
    Globo liberou beijo gay um mês antes do final da novela
    Não foi uma decisão de última hora. O autor Walcyr Carrasco havia recebido há um mês o "OK" da Globo para escrever e gravar o tão esperado beijo gay entre os personagens Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano) em "Amor à Vida". Mas a cena só iria ao ar se a informação não vazasse.
    Folha apurou que, ao sentir a aceitação do casal homossexual junto ao público em geral, a direção da Globo autorizou o autor a incluir a cena no último capítulo do folhetim. Mas o combinado foi que deveria ser mantido o sigilo em torno do beijo até o final, para evitar reações prévias de religiosos e do público mais conservador.
    Foi aí que o autor e os atores envolvidos trataram de diminuir a importância da cena em entrevistas, a fim de diluir as expectativas e de deixar a oposição na dúvida. Nas reuniões na emissora ficou claro que se o movimento contrário ao beijo gay fosse grande, a Globo poderia não exibir a cena.
    Procurada, a emissora diz que o beijo de Niko e Félix sempre foi uma possibilidade, e que a premissa é que fosse pertinente à história. A Globo afirma que a cena foi bem recebida pelo público.
    No Globo.com, site do canal, o vídeo do beijo e o de seus bastidores de gravação estão entre os mais assistidos pelos internautas.
    REVANCHE
    A dupla Rita Elmôr e Alice Assef atormenta Eriberto Leão em nova temporada de 'As Canalhas' (GNT), da Migdal Filmes, que estreia em abril
    Ídolo Mesmo afastada da TV, Lucélia Santos continua idolatrada na China. A atriz foi uma das convidadas de honra nas comemorações organizadas pelo governo local para a chegada do Ano Novo chinês, dias atrás.
    Ídolo 2 No final de 2013, a TV estatal chinesa fez uma pesquisa perguntando aos telespectadores que atriz eles gostariam de homenagear. Lucélia apareceu entre as mais votadas, ao lado das atrizes da série "Sex and The City".
    Rumo Tudo caminha para que "Amor & Sexo", de Fernanda Lima, ganhe sua terceira temporada na Globo no segundo semestre.
    Rumo 2 Além da volta da atração, a ordem na emissora é aproveitar melhor a apresentadora na programação.
    Guerra Ficou para o dia 11 de março a estreia de Rafinha Bastos no comando do "Agora É Tarde", na Band. Ele começa a gravar o programa nesta semana.
    Guerra 2 Se assim for, Danilo Gentili estreará na frente. O "The Noite" deve entrar no ar no SBT no dia 10 de março.
    Pacote Além de Gentili, o SBT anunciará no dia 18 outras novidades da programação, que estreiam no próximo mês.
    Pacote 2 Entre elas está o programa de Otávio Mesquita e a versão nacional de "Your Face Sounds Familiar" (seu rosto parece familiar), reality show da Endemol que será comandado por Patrícia Abravanel. Na atração, celebridades realizam performances de artistas consagrados.

    João Pereira Coutinho

    folha de são paulo
    Profissionais e amadores
    Como o corpo não é bicho confiável, haverá sempre qualquer dissonância na orquestra para os perturbar
    Uma amiga minha, mãe solteira, fez-me um pedido dramático: se ela não sobreviver a um linfoma, estarei disposto a cuidar do filho de oito anos? Caí do céu: pela doença e pela responsabilidade do pedido.
    Mas primeiro concentrei-me na doença: que dizem os médicos? Que tratamentos existem? Que perspectivas de cura?
    Ela respondeu-me que ainda não sabia. Mas os sintomas --gânglios linfáticos inchados, fadiga extrema, febre persistente etc.-- apontavam para o pior. Ela própria, furando noites e noites de insônias, lera a respeito na internet e até conversara com vários doentes nos fóruns respectivos. Gente com os mesmos sintomas, a mesma doença, os mesmos terrores futuros.
    Voltei a cair do céu. E, antes de aconselhar ajuda psiquiátrica, perguntei com medo: e que tal esquecer a internet e consultar um médico verdadeiro? Um daqueles personagens que fazem exames e avaliam resultados com base na "ciência" e na "experiência"?
    E foi assim que o linfoma se transformou num caso tratável de mononucleose infecciosa. E foi assim que a promessa de quimioterapia, ou radioterapia, ou ambas, se transformou em simples repouso. E foi assim que eu conheci os "cibercondríacos", uma nova forma de hipocondria que a internet promoveu e disseminou.
    Quando li pela primeira vez a respeito, confesso que não comprei o diagnóstico: os "cibercondríacos" são hipocondríacos que usam a internet para pesquisarem todas as doenças que existem no cardápio?
    Estranho. Sei do que falo. Sou um hipocondríaco profissional há 37 anos. E qualquer hipocondríaco profissional sabe que só existe uma coisa pior do que as doenças; é a informação sobre elas.
    Porque um hipocondríaco profissional é um camaleão natural: se ele ler literatura médica com regularidade, ele pode ter câncer à segunda-feira, esclerose à terça, insuficiência renal à quarta e princípios de Alzheimer à quinta. Ou talvez à sexta, já não sei bem.
    É a ignorância que protege o hipocondríaco profissional, não o conhecimento. Qualquer hipocondríaco profissional, quando compra um novo remédio, sabe que a primeira coisa a jogar fora é a bula do medicamento. Cometer a imprudência de a ler é começar a sentir todos os efeitos adversos --da simples coceira às crises psicóticas-- o que por vezes agrava a doença real que se procura tratar.
    Os "cibercondríacos" não passam de amadores que só dão mau nome ao fascinante mundo da hipocondria. Mas o pior é que o futuro será deles.
    A revista "The Economist" dedicou uma matéria extensa aos futuros "gadgets" que prometem revolucionar a medicina. Falo de brinquedos para usar no pulso, no peito, até nos olhos e que servem para medir a pressão sanguínea, o batimento cardíaco, os níveis de glicose nas lágrimas. De preferência, várias vezes ao dia, como quem toma um cafezinho ou fuma cigarro na pausa do trabalho.
    Depois, os dados são enviados para o celular e o celular encaminha os ditos cujos para o médico especialista.
    Os Estados Unidos estão na vanguarda do investimento e a "Economist", aplaudindo os avanços, pergunta se eles não irão soterrar os profissionais de saúde com quantidades avassaladoras de informação. Não apenas de doentes comprovados, mas de hipocondríacos amadores.
    A revista não precisa sequer perguntar. Com o declínio das religiões tradicionais no Ocidente e o fim de qualquer possibilidade de transcendência, tudo que resta aos homens modernos é a tirania da imanência: os seus corpos, as suas patéticas carcaças --e o medo permanente de que a Deusa Saúde, a única que resistiu no Panteão, os possa atraiçoar a qualquer momento.
    Por isso imagino esses hipocondríacos amadores, com brinquedos no pulso, no peito ou nos olhos, em vigilância permanente, medindo o comportamento do corpo com paranoica obsessão.
    Qualquer sinal de alarme será uma nova preocupação, um novo temor, um novo terror. E como o corpo não é bicho confiável, haverá sempre qualquer dissonância na orquestra para os perturbar, entristecer, angustiar.
    Nós, os hipocondríacos profissionais, renunciamos a esses brinquedos como um ex-alcoólatra recusa a mais inocente das cervejas.
    Mas o futuro é dos amadores: gente tão preocupada em ser saudável que passará pela vida na perpétua condição de doentes.

    Janio de Freitas

    folha de são paulo
    Nada além do mesmo
    Até a Copa, a maior atração nacional continuará sendo o STF, não por seus ministros, mas pelas causas em pauta
    Embora o ano eleitoral e a movimentação das desincompatibilizações nos próximos 60 dias, até a Copa a maior atração nacional continuará sendo o elenco de ministros do Supremo. O interesse posto no tribunal das causas constitucionais parece comprovar o avanço do Estado de Direito, com uma progressiva penetração do espírito da democracia nos brasileiros. Parece.
    As causas a entrarem em pauta, e não os ministros e seu desempenho poucas vezes atraente, são o motivo do interesse posto no tribunal. O financiamento de campanhas eleitorais, para a possível proibição das doações de empresas, é uma das causas. Proposta pela OAB, tem forte oposição dos políticos e partidos. A finalidade da proposta é reduzir a influência de interesses econômicos no processo eleitoral e primeiro passo da corrupção política em governos e, em especial, no Congresso.
    Ainda ser necessário o julgamento de tal proposta só denota um nível de imoralidade eleitoral, política e partidária característico de imenso atraso da democracia. Não pode ser visto como fruto de um avanço feito. É quase nada, considerado o que permanece.
    Com 390 mil processos à sua espera pelo país afora, outro julgamento decidirá se os bancos devem repor as perdas que seus clientes tiveram, sem que os próprios bancos as sofressem, por força de cinco sucessivos planos econômicos. São extorsões, menos ou mais explícitas, que começaram há 27 anos, com o Plano Cruzado. Um país onde poupadores, além de extorquidos, ainda esperam três décadas sem saber se terão sua poupança restituída, ou não, só julgará tal causa porque esgotadas as possibilidades de manter o calote, não por impulso proveniente de Estado de Direito mais consolidado.
    Estão em caso semelhante as dívidas oficiais em favor de cidadãos, reconhecidas pela Justiça com o nome de precatórios. Esse julgamento aponta, não para um regime em progresso democrático, mas para um Estado voraz, impiedoso e sem critérios para tomar dos cidadãos, e desonestamente relapso quando se trata de devolver-lhes o tomado indevidamente ou indenizá-los.
    Mas há um pedaço do chamado mensalão mineiro a ser julgado também. Passados quase 16 anos de sua ocorrência. Já com réus dispensados por idade, depois de passar 15 anos à disposição da Justiça. E o próprio processo com possibilidade de prescrever todo ele em setembro. Ou seja, em vez da Justiça no Estado de Direito, avança a prescrição sem julgamento.
    Entre outros processos atraentes, está a permanência ou retirada de autorização obrigatória para biografias, dada pelo biografado ou por parentes. A atual obrigatoriedade revela, de uma só vez, os níveis rasteiros da liberdade de expressão na democracia brasileira e do sistema legal mantido pelo Congresso e pela Justiça.
    Por coerência com os casos expostos ali atrás, mesmo que não seja para escrever sobre o general que recebeu dinheiro para participar de um golpe, mas sobre um cantor de músicas lacrimejantes, a obrigatoriedade de autorização deveria ser mantida. Nesse caso, porém, o pudor parece que vai predominar contra a indigência de cultura e democracia. Sem significar nada além disso.

    segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

    Evgeny Morozov

    folha de são paulo

    Como sanar o deficit de democracia exposto por Snowden

    As sociedades democráticas têm duas escolhas, na era pós-Snowden. A mais fácil é deixar tudo como está e fingir que o insaciável apetite por dados da NSA (Agência Nacional de Segurança) norte-americana é apenas uma aberração que pode ser retificada por meio de mudanças menores no aparato técnico e judicial existente. Assim, poderíamos tornar mais severos os protocolos frouxos quanto ao uso de dados, usar mais cifragem em redes de comunicações e aprovar novas leis que fiscalizem a NSA.
    Mas também poderíamos adotar a opção, mais desafiadora, de aceitar que as revelações de Snowden expuseram mais que ações administrativas ambiciosas e sistemáticas da parte de burocratas descontroladas. Se aceitarmos essa interpretação, as revelações apontam para uma ameaça emergente e ainda não reconhecida ao espírito da democracia, que só irá se agravar à medida que os meios de coleta, registro e análise de volume cada vez maior de dados se tornam mais ubíquos.
    O motivo para que seja tão difícil para nós reconhecer essa ameaça é bastante simples: uma conclusão como essa contradiria a rósea narrativa da economia da informação, que presume que o crescimento possa continuar para sempre. Google, Facebook e mil empresas que os imitam no Vale do Silício operam sob a premissa de que não existe limite para o volume de dados que pode ser produzido, recolhido, trocado e compartilhado. Mais informação é sempre melhor: esse é seu slogan.
    O paralelo para com as porções da economia que ainda não estão abrigadas sob o espaçoso guarda-chuva da "informação" pode ser esclarecedor. Por muito tempo, a suposição de que poderia haver crescimento infinito –com o Produto Interno Bruto (PIB) servindo como único instrumento de avaliação da eficácia das políticas governamentais– reinou suprema por aqui, igualmente. As primeiras vozes críticas, surgidas nos anos 70, foram logo afogadas pelos slogans em defesa do livre mercado proferidos por Margaret Thatcher e Ronald Reagan, mas o questionamento crítico ao crescimento como único foco da atividade econômica foi retomado na década passada, propelido pelas preocupações quanto ao aquecimento global.
    Essa agenda crítica vem sendo defendida por adeptos do movimento de "decrescimento" –popular na Europa mas sem muita força nos Estados Unidos. O objetivo do movimento é não só esquadrinhar a sabedoria ecológica de manter o atual espírito favorável ao crescimento mas também atacar a primazia intelectual do uso de indicadores como o PIB a fim de avaliar e formular políticas públicas. Como aponta o sociólogo canadense Yves-Marie Abraham, um dos proponentes da agenda de decrescimento, "não estamos falando de uma queda do PIB, mas do fim do PIB e de todos os demais indicadores quantitativos usados como indicadores de bem-estar".
    Não pretendo discutir aqui os méritos da agenda de decrescimento com relação à economia. Mas é difícil negar que ela apresenta muitos desafios intelectuais interessantes às ideias econômicas dominantes. Uma defesa robusta da agenda de crescimento, hoje, requer encarar preocupações como a mudança do clima. E quanto ao inconveniente fato de que não existe relação linear simples entre crescimento e felicidade? E se mais crescimento não serve para tornar mais pessoas mais felizes, por que exatamente deveríamos dar a isso um papel central em nossa política econômica?
    Como paradigma alternativo para o arranjo das atividades produtivas, o "decrescimento" resultou pelo menos em algumas formas provocadoras de pensamento sobre a política e a economia. Não existe um paradigma alternativo como esse com relação à informação. Os esforços existentes para pensar em maneiras de relacionamento com a tecnologia e a informação levam jeito de soluções privatizadas e transcendentais que podem funcionar no plano individual mas não coletivo; somos encorajados a estudar a "desintoxicação digital" a fim de revigorar nosso senso de realidade, a instalar apps que nos tornam permitem exercitar a "atenção plena" e a passar algum tempo em acampamentos que proíbem o uso de engenhocas eletrônicas.
    Nenhuma dessas soluções oferece uma alternativa intelectual coerente ao atual paradigma de "mais informação é sempre melhor". O motivo para isso é simples: os teóricos do "decrescimento" têm o conveniente, mas real, fantasma do aquecimento global como exemplo do desastre final, e o evocam para reorientar nossos processos mentais. Existe melhor maneira de estimular as pessoas a agir do que lembrá-las de que estão lentamente destruindo a civilização?
    A visão de um tal desastre, no entanto, não existe até o momento no debate sobre a informação. Tudo que vemos são preocupações sobre a saúde pessoal, a redução nos intervalos de atenção, a distração. Trata-se de preocupações sobre indivíduos, e não sobre coletividades. Não admira que se prestem a soluções privadas tais como apps que ajudam a dominar técnicas de atenção plena.
    Mas não é preciso um gênio para perceber qual seria o equivalente apropriado ao aquecimento global, nesse caso: a gradual evaporação do espírito democrático em nosso sistema político.
    Essa evaporação está em curso, à medida que uma crença ingênua em serviços de "big data" reduz os espaços que antes estavam abertos à deliberação pública –quem precisa desses complicados debates sobre fins alternativos quando temos dados que permitem selecionar os melhores meios possíveis?– e ao mesmo tempo produz cidadãos que, presos aos ciclos intermináveis de realimentação dos modernos sistemas burocráticos, entregam o controle do processo político aos tecnocratas, que gostam muito de direcionar e de mexer com o nível micro mas raramente se interessam por mudanças sistêmicas em nível macro.
    Em lugar de contestar o Vale do Silício quanto a dados específicos, por que não simplesmente reconhecer que os benefícios que seus serviços oferecem são reais mas que, como um utilitário esportivo ou um sistema de ar condicionado em funcionamento permanente, podem não compensar os custos? Sim, a personalização de buscas pode oferecer resultados fabulosos, informando-nos sobre a pizzaria mais próxima em dois segundos, em vez de cinco. Mas os três segundos de tempo economizado requerem que dados fiquem armazenados nos servidores do Google em algum lugar e, depois de Snowden, ninguém está certo quanto ao que realmente acontece com esses dados e quanto às inúmeras maneiras pelas quais eles podem ser alvo de abusos.
    Por isso, vamos deixar de lado as discussões semânticas: para a maioria das pessoas, o Vale do Silício oferece produtos excelentes e convenientes. Mas se esses produtos vierem a sufocar o sistema democrático, talvez devamos reduzir nossas expectativas e aceitar dois segundos a mais em nossas buscas –mesma forma que devemos aceitar carros menores e mais lentos -, porque isso é um preço razoável a pagar por um futuro decente.
    As soluções de mercado para o problema da privacidade propostas por alguns dos críticos do atual sistema –Jaron Lanier, por exemplo, argumenta que as pessoas deveriam ser proprietárias de seus dados pessoais e que deveriam poder negociá-los como preferissem, com apoio de um forte regime de proteção aos dados– dificilmente serão mais efetivas para combater essa lenta erosão da democracia do que as soluções de mercado propostas como resposta ao aquecimento global. Você se lembra do Esquema de Transação de Emissões, um dia celebrado pela União Europeia como grande solução? Foi um notável fracasso.
    O problema que enfrentamos não é o de falta de controle sobre dados individuais; é o fato de que, armados com tantos dados, os sistemas políticos modernos parecem acreditar que é possível dispensar os cidadãos –enquanto os cidadãos, desfrutando da cornucópia do "conteúdo", não hesitam em abandonar o reino político. Criar um mercado de dados pessoais sob essas condições só aceleraria o declínio já rápido do sistema democrático.
    Quer seja pela aplicação das ideias de decrescimento ou pela adoção de algum outro paradigma intelectual capaz de desafiar a fórmula de que "mais informação é sempre melhor", precisamos seriamente de novos modelos que nos permitam pensar sobre maneiras de escapar ao deficit democrático revelado por Snowden. Hackers e advogados não nos salvarão: o debate quanto a Snowden precisa de pensadores que tenham tanta fluência em códigos de software e lei constitucional quanto em economia e política.
    Tradução de PAULO MIGLIACci

    Singularidade é tema de filme de baixo orçamento - Ronaldo Lemos

    folha de são paulo
    INTERNETS
    RONALDO LEMOS
    @lemos_ronaldo
    Singularidade é tema de filme de baixo orçamento
    O festival de Sundance do ano passado exibiu um filme que é um pequeno achado: "Computer Chess" (algo como "xadrez de computador"). Ele faz parte da onda recente de filmes que tratam do tema da singularidade -o momento em que os computadores ficam mais inteligentes que nós, humanos -e inclui produções como "Her", do diretor Spike Jonze e "Transcendence", com Johnny Depp.
    A diferença é que, com baixíssimo orçamento, "Computer Chess" subverte todos os clichês sobre o tema. A história se passa não no futuro, mas sim no começo dos anos 1980, em um campeonato de xadrez em que computadores "vintage" jogam entre si. A máquina vencedora desafia então um enxadrista humano, que naquela época não tinha qualquer dificuldades para vencê-la.
    Só que coisas estranhas começam a acontecer, ilustrando a ideia principal do filme: que assim como nós humanos não temos hoje qualquer chance contra o computador no xadrez, no futuro não teremos também em cada vez mais territórios.
    O filme é dirigido pelo inquieto Andrew Bujalwski, que usou uma câmera Sony AVC-3260 fabricada em 1968 para reforçar o clima vintage.
    Dá para assistir pela Amazon e ver a trama mostrando mesmo programadores experientes do MIT como ingênuos em relação ao potencial das máquinas que tinham nas mãos. O que nos leva a perguntar hoje, quando carregamos computadores antes impensáveis no bolso, se não seremos também surpreendidos por nossa própria ingenuidade com relação à tecnologia. Faz todo o sentido o cinema estar preocupado com essa questão.
    READER
    JÁ ERA Apogeu dos blogs de moda
    JÁ É Semana de moda de Nova York banindo blogs de moda
    JÁ VEM Outros eventos limitando a participação dos blogs de moda

    Marion Strecker

    folha de são paulo
    Contra o Facebook
    Quanto mais amigos eu 'faço', mais me distancio das pessoas que são realmente importantes
    Hoje comecei um teste. Decidi experimentar ficar sem o Facebook no meu celular. Se der certo, vou estender o experimento ao iPad e, quem sabe, também ao computador.
    Impetuosa, botei o dedo sobre o ícone do aplicativo e esperei ele começar a tremelicar, como é a regra no iPhone. Ele tremelicou. Respirei fundo e apertei o pequeno xis, que simboliza o apagar. Veio o alerta: se apagar o aplicativo, todos os dados serão apagados também.
    Que ameaça! Sei bem que não basta apagar o aplicativo para todos os dados pessoais sumirem do Facebook. Isto requer outro tipo de iniciativa. Então por que mentem? O Facebook vai dizer que é coisa da Apple. A Apple pode responder que trabalha com "padrões de mercado". E a gente que reclame nas redes sociais!
    Suponho que esse tipo de ameaça seja apenas um dos maus hábitos da indústria de aplicativos (ou "'éps", da abreviatura em inglês "apps", como os mais pedantes se referem a "software" hoje em dia). Nessa indústria, o número de "usuários" valoriza um negócio, ainda que os "usuários" sejam "inativos", o que a empresa só vai informar se não tiver como ocultar. Isto me lembra Rubens Ricupero, aquele ministro da Fazenda que, sem saber que o sinal já estava aberto para antenas parabólicas, disse à TV Globo: "O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde-se!"
    O fato é que sumi com o aplicativo do Facebook. Senti uma sensação boa. Aproveitei o entusiasmo e apaguei também os aplicativos do LinkedIn, do Lulu (que instalei para testar e achei simplesmente péssimo) e até do Viber (algo entre o Skype e o WhatsApp). Combinei comigo mesma que vou observar o que acontecerá com as minhas mãos da próxima vez que ficar à toa com o telefone na mão. Será que vou tremer? Será que entrarei na App Store e baixarei tudo de novo? Ou vou me esquecer aos poucos dessa mania de ficar fazendo a ronda na internet, checando as atualizações das redes e esperando reações a cada coisa que publico, nem sei bem por quê?
    Sério mesmo: o Facebook é a maior perda de tempo que conheci na vida. Quanto mais amigos eu "faço", mais me distancio das pessoas que são realmente importantes para mim. A fatalidade é que sempre perco informações de quem me importa no meio da balbúrdia da multidão a que estou conectada.
    Quando fiz essa observação outro dia, o engenheiro Luís Villani comentou que eu havia descoberto o "segredo de Tostines". Evocava a memória de uma velha propaganda de televisão, que explorou o seguinte mote: o biscoito vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? O Facebook é relevante porque estamos conectados a pessoas relevantes ou o Facebook é medíocre porque nossos "amigos" são medíocres? Ou uma rede social teria a capacidade de deixar as pessoas medíocres?
    Será que nós, brasileiros, parecemos tão "sociáveis" porque achamos rude não aceitar "pedidos de amizade"? Será que supervalorizamos nossa imagem "popular", por isso colecionamos conexões como se fossem figurinhas de um álbum da Copa? Vamos fazer o quê? Começar de novo? E por que não?