quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Giuliana Miranda

folha de são paulo
Uso da terra no país está mais eficiente, porém excludente
GIULIANA MIRANDADE SÃO PAULO
Um dos mais abrangentes estudos já feitos sobre o uso da terra no Brasil indicou uma separação, sobretudo na Amazônia, entre a alta do desmatamento e o crescimento da produção agropecuária.
"Analisamos as duas últimas décadas. Em 1995, a expansão na agricultura coincidiu com uma alta significativa no desmatamento. Em 2004 e 2005, com o pico da pecuária bovina, ocorreu a mesma coisa. A partir daí, no entanto, observamos que tem havido uma separação maior entre esses eventos", diz David Lapola, professor da Unesp em Rio Claro e autor principal do estudo.
Embora essa mudança já seja bastante positiva, a relação dos produtores com o meio ambiente ainda está longe de ser a ideal, aponta o estudo, que analisou mais de uma centena de trabalhos e foi capa da revista "Nature Climate Change".
"Não foi só boa vontade do setor produtivo. Houve uma intensificação da fiscalização, que foi acompanhada de outras ações na Amazônia", explica Lapola.
Nos outros biomas, que não recebem a mesma atenção dispensada à fiscalização da Amazônia, o próprio setor produtivo foi, em boa medida, responsável pela mudança. "Mercados do exterior, especialmente a Europa, também estão mais exigentes quanto à origem do produto", afirma o cientista.
Mais produtiva, a agropecuária no Brasil também está cada vez mais excludente.
Questão antiga no país, a concentração de terras para a monocultura de exportação está cada vez mais intensa, empurrando mais e mais pessoas para áreas urbanas já saturadas, intensificando problemas sociais.
As grandes propriedades, com mais de mil hectares, são apenas 1% das fazendas brasileiras, mas representam cerca de 50% das terras agrícolas do país.
Além de apontar problemas, o trabalho sugere soluções, como a intensificação das práticas de manejo, a criação de políticas públicas e também o pagamento por serviços florestais.

Paula Cesarino Costa

folha de são paulo
Ódio e paz social
RIO DE JANEIRO - Um adolescente de 15 anos foi espancado, deixado nu e atado a poste por um cadeado de bicicleta no Flamengo. Quem o socorreu recebeu ameaças e e-mails dizendo que não deveria ter chamado os bombeiros, mas, sim, cuspido e até ateado fogo nele. No mesmo bairro, 14 jovens foram acusados de tentar agredir rapazes que supostamente poderiam cometer algum crime. Dois disseram que faziam patrulhas para "limpar" a região.
Um jovem, acusado de ser ladrão, disse que foi chutado e preso com barbante por comerciantes de Copacabana. Outros, em Botafogo, foram xingados após perseguição policial.
A policial Alda Castilho, 22, morreu com um dos tiros dados contra a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do Parque Proletário, zona norte. Operações policiais deflagradas depois já mataram oito. A imagem do sangue na escadaria foi comemorada no Facebook com frases como "bandido bom é bandido morto".
São relatos que criam uma perigosa sensação de insegurança, apesar de os principais índices de criminalidade do Rio estarem hoje muito melhores do que há dez anos. Alguns deles deram, recentemente, soluços perigosos, voltando a subir.
A socióloga Julita Lemgruber alerta para este momento em que a política das UPPs provoca indagações sobre seu futuro e sua sustentabilidade. Yvonne Bezerra de Mello, que ajudou o garoto no poste, vê o caso como "consequência de algo maior, do descrédito nas instituições e do ódio de uma sociedade intolerante".
Manifestações de raiva, violência e preconceito em reação a situações de insegurança não são surpresa. Não se pode ceder a tentações autoritárias e desumanas. É preciso dar resposta aos crimes e aos pseudojusticeiros.
Em ano eleitoral, vislumbra-se cenário de pouca racionalidade e muita debilidade sobre tema fundamental para o futuro do Estado. Não há desenvolvimento sem paz social.

Kenneth Maxwell

folha de são paulo
KENNETH MAXWELL
Corrupção à europeia
Nesta semana, a Comissão Europeia lançou seu primeiro relatório anticorrupção (o documento está disponível em em http://bit.ly/corrupcaoUE).
A comissária de assuntos internos, a política sueca Cecilia Malmström, em entrevista coletiva para o lançamento do relatório em Bruxelas, declarou que "a corrupção solapa a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas e no Estado de Direito, prejudica a economia europeia e priva os Estados de arrecadação tributária muito necessária".
Estima-se que a corrupção custe à economia da zona do euro cerca de € 120 bilhões (aproximadamente R$ 390 bilhões) ao ano. De acordo com o relatório, 76% da população europeia acredita que a corrupção seja generalizada; 90% a vê como problema na Grécia, Itália, Lituânia, Espanha, República Tcheca, Croácia, Romênia e Portugal; um quarto da população diz que a corrupção afeta sua vida pessoal; e metade da população diz acreditar que a corrupção aumentou nos últimos três anos.
Dinamarca, Finlândia, Luxemburgo e Suécia têm pouca experiência com propinas. Na Dinamarca, por exemplo, apenas 20% da população considera que a corrupção seja generalizada, enquanto em Portugal o índice é de 90%. Na Dinamarca, apenas 6% acredita que "compadrio e nepotismo sejam problema para os negócios de sua empresa", ante 57% em Portugal. Ainda na Dinamarca, 4% dos entrevistados acreditam que "a corrupção seja problema para os negócios de sua empresa", ante 68% em Portugal.
Um terço das companhias que participam de concorrências públicas para contratos com o governo foram impedidas de fazê-lo por causa da corrupção. O relatório também constatou que os países membros da União Europeia fracassaram sucessivamente em resolver os conflitos de interesses entre políticos e empresas.
Das 7.842 empresas entrevistadas, 69% dizem que pagar propinas e explorar conexões políticas é o caminho mais fácil para obter certos serviços públicos. Malmström observou que a corrupção "custa milhões aos contribuintes, e, em muitos casos, ajuda grupos do crime organizado a fazer seu trabalho sujo".
Acredita-se que a corrupção custe R$ 70 bilhões anuais à economia brasileira. Os escândalos em São Paulo e em Brasília, envolvendo a gigante alemã Siemens e a companhia francesa de transporte e energia Alstom, deixam claro que é na interseção entre políticos, obras públicas e grandes companhias industriais e de construção que a tentação (ou, mais precisamente, a obrigação) de subornar acontece. Será que a nova lei brasileira de combate à corrupção vai impedir isso? Só o futuro dirá.

    O Maracanã não existe mais - Roberto Muylaert

    folha de são paulo
    ROBERTO MUYLAERT
    O Maracanã não existe mais
    Sem obedecer à proibição de mexer nas estruturas, o Maracanã foi derrubado e encolheu para 78 mil pessoas. Acabou a majestade
    Em 16 de julho de 1950, o Brasil perdeu para o Uruguai a final da Copa do Mundo no Rio (2 a 1). Ainda não havia televisão e o Cineac Trianon passava filmes dos jogos com alguns dias de atraso. Só quem estava no estádio tinha credibilidade para contar detalhes da partida. O resto era transmissão pelo rádio.
    O centro do Rio era só alegria, com as vitrines exibindo o pôster oficial da Taça do Mundo, um meião de jogador com 28 bandeiras de países participantes. Vieram 12, o resto desistiu. Premonitório, o pé do jogador não chutava, já pisava na bola.
    O jogo Brasil x Suécia (7 a 1) foi de euforia total, o público vibrando com a goleada imposta ao civilizado país nórdico. A próxima vítima seria a Espanha, que levou de 6 a 1. Parecia que o complexo de vira-lata, a que se referia Nelson Rodrigues, tinha acabado.
    No jogo final, só era possível sentar na arquibancada de concreto forçando a traseira como cunha entre dois torcedores já espremidos. Dez por cento da população do Rio no estádio, um prodígio de dimensões e de público, 200 mil pessoas, ou 14 mil toneladas de gente. Na mesma proporção, São Paulo precisaria hoje de um estádio para 1 milhão.
    As fundações recalcaram naquele único dia o que estava previsto para afundar em meses de ocupação. O resto se sabe: o único registro do segundo gol do Uruguai, de cinegrafista ignorado, é exibido à exaustão na TV brasileira.
    O excelente Museu do Futebol de São Paulo comete uma injustiça contra a Copa de 50, mostrada numa sala escura, como um funeral, onde o filme do gol de Ghiggia roda sem parar. Nada sobre a emoção das goleadas anteriores, como no jogo contra a Espanha, onde a multidão afinada cantou sem ensaio a marcha "Touradas de Madri" enquanto acenava com lenços brancos, como a se despedir do país derrotado.
    O cartaz oficial de 2014 parte da mesma ideia do anterior, mas é andrógino. Exibe duas pernas meio femininas de meiões rendados disputando com delicadeza uma bola no mesmo padrão.
    Em 1954, na Suíça, a revanche não aconteceu --a mágica Hungria ganhou do Brasil, em Berna. A redenção só chegou em 1958, na Suécia, quando surgiu um menino fenômeno chamado Pelé.
    Em 2014, a final será de novo no Maracanã. Agora, o estádio tombado pelo Iphan só tem o nome em comum com o original: encolheu para 78 mil pessoas, jogando fora a recente reforma de 2007 feita para os Jogos Pan-Americanos.
    A ideia da Fifa era ter um estádio onde fosse menor a distância do torcedor até o campo de jogo. Sem obedecer à proibição de mexer nas estruturas, o Maracanã foi derrubado, deixando um espaço oco por dentro, mantidas apenas as características colunas externas de concreto e as rampas de acesso.
    Ali foi construído um anel concêntrico, de diâmetro menor que o original, onde ficam as novas arquibancadas. Acabou a majestade: a cobertura agora é de fibra de vidro, com luzes azuis, vermelhas, amarelas, como num circo.
    As reformas de 2007 e 2014 somaram R$ 1,4 bilhão. Com metade desse dinheiro, o Rio construiria um novo estádio: "Pague um e leve dois". Preferiu o "pague dois e leve um". E o Maracanã de tantas emoções, nesta segunda Copa do Mundo no Brasil, não existe mais.

    Degradação legal e Água pelo ralo

    folha e são paulo
    EDITORIAIS
    Degradação legal
    Um dos assuntos inconclusos legados pela ex-ministra Gleisi Hoffmann na Casa Civil chegou a ser apregoado como panaceia para o desmatamento no Brasil: o Cadastro Ambiental Rural (CAR).
    Previsto desde maio de 2012 pelo novo Código Florestal, esse banco de dados nacional ainda não vingou por falta de regulamentação. Com a omissão do Planalto, o que era para ser instrumento moderno de controle arrisca dar origem a uma barafunda burocrática.
    A meta é formar um registro cartográfico digital de 5,2 milhões de terrenos. Cada proprietário teria o prazo máximo de dois anos, após regulamentado o cadastro federal, para nele inscrever o imóvel, com localização de áreas de reserva legal e preservação permanente.
    Para incentivar essa autodeclaração, a lei faz do cadastramento precondição para obter crédito rural e regularizar a situação ambiental da propriedade (mas deixa de fora a situação fundiária).
    De posse dos mapas e perímetros, autoridades poderiam monitorar com aparelhos de GPS e imagens de satélite se os compromissos de preservação e recuperação assumidos são de fato cumpridos. Pela primeira vez o país conheceria em detalhe o passivo ambiental acumulado.
    O CAR tem o apoio até da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), ao menos formalmente. Mas não é difícil imaginar que alguns proprietários, sobretudo aqueles que nunca averbaram reservas legais, tenham interesse em protelar o cadastro. Fato é que ele atrasou, e mais do que deveria.
    O esqueleto do Sicar (Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural), que custou R$ 29 milhões, está pronto. Falta normatizar seu funcionamento e o futuro Programa de Regularização Ambiental, regulamentos em análise na Casa Civil desde meados de 2013.
    O Sicar determina que os imóveis sejam cadastrados nos Estados onde ficam, mas em obediência a padrões que permitam sua inclusão num banco de dados federal. Na ausência desse detalhamento, os governos implantam seus sistemas com formatos e critérios que poderão revelar-se difíceis de tornar compatíveis, a posteriori.
    É do governo federal a obrigação de impedir a transformação do CAR numa Babel que inviabilize uma ferramenta de fiscalização do desmatamento --que de resto já deu sinais de recrudescimento na temporada 2012-2013, com 28% de aumento na Amazônia.
      Água pelo ralo
      Falta de chuvas deixa Grande São Paulo sob risco de racionamento; Sabesp precisa fazer sua parte e combater desperdício no sistema
      Mais uma vez a Grande São Paulo está sob ameaça de racionamento de água. Dados os índices recordes de calor e de falta de chuvas, a notícia, embora incômoda, não chega a constituir surpresa.
      O volume de água no sistema Cantareira, responsável por abastecer cerca de 9 milhões de pessoas na região metropolitana de São Paulo, correspondia ontem a 20,9% de sua capacidade.
      O nível está entre os mais baixos registrados nos últimos tempos. Para fins de comparação, nessa mesma época do ano passado, o reservatório operava com 52,6% de seu total. Em 2012, eram 76,1%.
      São notórias as razões para isso. Os paulistanos conheceram, em janeiro, a maior média de temperaturas máximas (31,9°C) desde que a série começou a ser feita, em 1943. O sistema Cantareira, é claro, também se ressente da estiagem. O índice pluviométrico do mesmo janeiro, 87,8 mm, equivale a um terço da média histórica do mês.
      Diante desse cenário, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) decidiu lançar uma campanha para estimular a economia de água.
      Quem diminuir o consumo médio mensal em pelo menos 20% na comparação com os últimos 12 meses terá 30% de desconto na conta. O plano se aplica a moradores da Grande São Paulo abastecidos pelo Cantareira.
      A iniciativa, voltada para os usuários, é uma reação imediata aos caprichos da natureza. Mudanças de hábitos da população podem, sem dúvida, preservar preciosos recursos hídricos e, talvez, evitar o racionamento.
      A Sabesp, no entanto, precisa fazer a sua parte. Mas, ao menos no que diz respeito a combater o desperdício, a companhia ainda deixa a desejar. Um quarto da água captada na Grande São Paulo se perde no percurso entre a represa e os domicílios da região.
      Estima-se que a maior parte desse prejuízo seja devida a vazamentos na rede; o restante seria fruto de desvios ilegais --para os quais a fiscalização, de todo modo, tem se mostrado ineficiente.
      Verdade que a Sabesp tem melhorado. Em 2006, o desperdício era de 33%, e os atuais 24,7% estão abaixo da média nacional (40,7%). No Brasil, contudo, sete Estados mostram-se mais esmerados que São Paulo --Paraná é o que se sai melhor, com 21,1%, ainda longe de Alemanha (11%) ou EUA (16%).
      O órgão paulista, portanto, precisa avançar ainda mais --no mínimo, porque dinheiro do contribuinte escorre pelo mesmo ralo da água extraviada.
      Além disso, qualquer economia de recursos hídricos poderá fazer a diferença nos próximos anos. Se se confirmarem as previsões dos pesquisadores do aquecimento global, fenômenos climáticos extremos, como secas e ondas de calor, serão cada vez mais frequentes.

      PCC é uma criação dos 20 anos de governo do PSDB [Alexandre Padilha]

      folha de são paulo
      ENTREVISTA - ALEXANDRE PADILHA
      PCC é uma criação dos 20 anos de governo do PSDB
      Pré-candidato ao governo de SP, ex-ministro ataca política de segurança de Alckmin e defende gastos com publicidade
      VALDO CRUZJOHANNA NUBLATDE BRASÍLIA
      Em sua primeira entrevista após deixar o Ministério da Saúde para disputar o governo paulista, Alexandre Padilha (PT), 42, atacou a política de segurança do governo Geraldo Alckmin (PSDB): "O PCC é uma criação dos 20 anos do governo do PSDB".
      Repetindo o que deve ser o mote de sua campanha --explicitar as duas décadas de poder tucano no Estado mais rico do país--, ele afirmou que "acabou a bateria" dos tucanos e que "falta coragem ao governo de São Paulo" para enfrentar a violência.
      O ex-ministro, cujo nome foi lançado pelo ex-presidente Lula para a disputa do governo paulista, defendeu sua política de combate à Aids --criticada pelos movimentos sociais-- e disse que vai manter a posição da presidente Dilma, de não mexer na lei para liberar o aborto no país.
      Sobre a cubana que deixou o programa Mais Médicos e pediu asilo, disse que os direitos individuais devem ser respeitados, mas afirmou que o acordo firmado com Cuba, por intermédio de um órgão da ONU, segue regras similares às de outros 60 países.
      Folha - Onde está a origem de tanta violência em São Paulo, que atinge até o filho do governador Geraldo Alckmin?
      Alexandre Padilha - Quando soube o que aconteceu com o filho do governador, eu quis prestar absoluta solidariedade a ele e sua família.
      Agora, os grandes símbolos da violência em São Paulo são outros, não é o que aconteceu com o filho do governador. Mais de 500 carros são roubados por dia no Estado, 200 mil por ano. Temos uma situação muito clara de a administração penitenciária em São Paulo ser praticamente dominada por facções.
      O desafio que o Estado tem, para as pessoas se sentirem mais seguras, é termos uma política de segurança pública que garanta uma polícia mais presente nas ruas nas áreas mais críticas, que opere cada vez com mais inteligência.
      A população vive insegura. O sentimento das pessoas é de insegurança. E, nestes 20 anos, o que nós vimos foi a criação do PCC, em vez de o PSDB conseguir criar uma política de segurança, uma polícia mais presente, mais próxima da população, com ações cada vez mais inteligentes.
      O PCC é uma criação dos 20 anos do governo do PSDB, não existia antes e hoje tem.
      Para o sr. o PCC, organização criminosa que opera a partir dos presídios paulistas, é criação dos tucanos?
      Foi uma criação no governo deles. Vinte anos atrás, quando assumiram o governo, não tinha PCC, agora tem. Falta coragem ao governo de São Paulo para enfrentar o que precisa ser enfrentado. Eu diria que, hoje, a bateria do PSDB de São Paulo acabou.
      São Paulo enfrenta um problema na segurança, mas o Distrito Federal, governado pelo PT, tem situação semelhante. Não é uma questão nacional e não há omissão do governo federal em atuar com os Estados?
      São Paulo tem um potencial que não pode ser comparado com nenhum outro Estado. Pelo seu potencial, tem de se comparar com as melhores práticas internacionais, inclusive na área de segurança. Além disso, o governo federal sempre deu demonstrações de oferecer cooperação com o Estado de São Paulo.
      Será possível andar um dia em São Paulo com os vidros do carro abaixados?
      Temos de perseguir isso. Quero falar de outra área, a educação. O Estado de São Paulo perdeu nestes 20 anos a oportunidade de se transformar numa Xangai, que é vista como a Província que tem os melhores resultados internacionais na educação. Por quê? Porque criou um plano com políticas duradouras, permitindo avanços na área de educação que São Paulo não teve neste período.
      Antes de o PSDB assumir o governo, São Paulo estava em segundo lugar no ensino médio no país. Hoje está em oitavo lugar.
      Em 2013, o Ministério da Saúde aumentou gastos com publicidade, inclusive do Mais Médicos. Era necessária tanta divulgação de um programa já conhecido? Esta publicidade não beneficia sua imagem?
      É um programa que precisava de explicação e orientação para a população. Em nenhum momento fala do meu nome, não apresenta o ministro.
      E a ONG do seu pai, que teve um convênio com o Ministério da Saúde? O sr. acabou suspendendo o convênio. Não foi uma forma de reconhecer que foi um descuido?
      Qual foi minha decisão? Apesar de ter todo o processo legal, regular, orientação dos técnicos para fazer o convênio com a ONG, que é uma ONG histórica, para não gerar exploração política tomei a decisão de cancelar o convênio, antes de qualquer repasse de recursos.
      O sr. deve fechar a meta de 13 mil médicos [para o Mais Médicos] com cerca de 75% deles sendo cubanos. Por que vocês não foram mais transparentes e reconheceram que o convênio com Cuba seria a alternativa, sabendo que os médicos brasileiros não iriam se inscrever?
      Primeiro porque não tenho bola de cristal. Tenho capacidade de planejamento, de visão de futuro, era um problema que a gente apontava havia muito tempo. Muita gente dizia que os prefeitos não iam aderir ao programa, mas superou a expectativa.
      Segundo, acreditamos que a forma como foi divulgado, convocado, chamado, era importante para não desestimular a participação dos médicos brasileiros.
      O governo do PT foi tachado de conservador pelo Dirceu Greco, quando saiu da diretoria da Aids. O sr. foi criticado por não fazer campanhas que deveriam ser dirigidas para um público muito vulnerável ao HIV. Por que o sr. não teve essa postura reivindicada por esses grupos?
      Primeiro lugar respeito as opiniões que as pessoas possam ter. Agora, como ministro da Saúde, tomei um conjunto de decisões sobre quais são as mensagens que o ministério tem de reproduzir.
      Eu, por exemplo, não deixei o ministério ter uma campanha que fazia inferências sobre a felicidade ou não de uma profissional do sexo. Não cabe ao ministério fazer uma campanha para as profissionais do sexo felizes ou para as infelizes.

      União de FHC com Patrícia, oficializada na semana passada, superou ressalvas dos filhos do ex-presidente, dizem amigos

      folha de são paulo
      De papel passado
      União de FHC com Patrícia, oficializada na semana passada, superou ressalvas dos filhos do ex-presidente, dizem amigos
      DANIELA LIMADE SÃO PAULOHá cerca de três anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deixou de chegar sozinho à casa de amigos como o historiador Boris Fausto e o filósofo Arthur Giannotti, nas noites de domingo, quando se reúnem para jogar pôquer. Ao convescote somou-se Patrícia Kundrát, de 36 anos, com quem FHC namora desde 2011.
      Na semana passada, o ex-presidente decidiu oficializar o relacionamento. Chamou um escrivão em seu apartamento, no bairro de Higienópolis, na capital paulista, e, em cerimônia discreta, na presença apenas dos advogados, celebrou um contrato de união estável com Patrícia.
      Embora já esperassem --desde o ano passado FHC passou a falar com pessoas mais próximas sobre o assunto--, amigos e políticos com quem ele se relaciona há anos só souberam do enlace pela imprensa. Apesar da surpresa, dizem que a união se deu de forma natural, tal como começou a relação dos dois.
      FHC tem 82 anos. Conheceu Patrícia no instituto que preside e que leva o seu nome. Ela trabalhava na entidade e, não raro, despachava com o ex-presidente. Os dois se aproximaram.
      De início, FHC despistava quando perguntado sobre a relação. No fim de 2011, deixou de fazer segredo. Viajou com Patrícia para Ibiúna, no interior de São Paulo. Os dois foram namorar em uma casa de campo.
      No começo, dizem amigos do ex-presidente, os filhos de FHC viram o relacionamento com algumas ressalvas.
      Viúvo desde 2008, quando Ruth Cardoso morreu, o sociólogo escolheu uma mulher muito mais jovem, com jeito informal e despojado.
      Mas o namoro passou a ser admirado. Quando FHC comunicou que faria o contrato de união estável, todos os filhos foram favoráveis.
      O motivo da mudança? "A Patrícia cuida do Fernando. Cuida mesmo. E ele gosta. Ela cuida das consultas médicas, das roupas, das compras. Lembra aquela história dele exibindo um sapato furado? Então, hoje jamais se repetiria!", exemplifica um ex-ministro do tucano.
      Com ela, dizem, FHC rejuvenesceu. Patrícia o chama carinhosamente de "cara" na frente dos amigos. Também não deixa de fazer chamegos em FHC, mesmo em ambientes públicos.
      Ano passado, no Dia dos Namorados, o casal saiu para jantar à luz de velas. Patrícia deu beijinhos em FHC durante toda a noite. No fim do jantar, posaram para "selfies" tiradas com o celular dela. Foram aplaudidos antes de deixar o restaurante.
      Política é assunto que não faz parte da rotina do casal. Ela também não opina sobre assuntos do PSDB e eleições.
      Patrícia sempre defende que FHC ache tempo para ele e para os dois. Gosta de preservar a intimidade do ex-presidente e é discreta em suas aparições públicas ao lado dele. Os dois moram em apartamentos separados --ela vive no mesmo bairro que ele. Fazem questão de sair para jantar toda semana. Também gostam de cinema. Ano passado, foram à Europa.
      FHC e Patrícia selaram a união estável com separação de bens. Amigos dizem que, em relação a dinheiro, ela sempre foi "extremamente despojada".
      Ainda hoje, ela participa de algumas atividades do Instituto FHC, mas não como funcionária. Faz estudos para um comitê de políticas antidrogas. Não raro, relata projetos considerados inovadores nessa área nas periferias das grandes cidades.
      A predileção pelo tema é uma das afinidades com o ex-presidente, que se dedica a ele e, há alguns anos, passou a defender a descriminalização das drogas.
      Pelas posições arrojadas, FHC é celebrado, no PSDB, como "a mente mais jovem do partido". Ontem, um dia após a divulgação do enlace, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) fez referência ao ex-presidente num discurso sobre a longevidade. "Perguntem ao FHC: a vida começa aos 83", disse.