segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um bom professor deve ser, na verdade, um ótimo guia

folha de são paulo
ENTREVISTA DA 2ª - SALMAN KHAN
Um bom professor deve ser, na verdade, um ótimo guia
Para matemático que criou videoaulas usadas no mundo todo, docente deve fazer aluno aprender por si só
SABINE RIGHETTIDE SÃO PAULOO matemático norte-americano Salman Khan não baseia suas aulas em nenhum teórico da educação como Jean Piaget. Mesmo assim, consegue uma proeza: prender a atenção dos alunos --e são milhões de alunos.
Criador do Khan Academy, plataforma de estudos na internet que direciona os estudos dos usuários a partir de exercícios básicos, ele defende que o conhecimento não deve estar em caixinhas.
Ou seja: quem gosta de matemática pode, sim, ter aptidão para letras ou história.
E pode aprender as áreas do conhecimento juntas.
"O processo de aprendizagem é um só", diz o especialista que acaba de lançar no Brasil a tradução do livro "Um Mundo, uma Escola" (Editora Intrínseca, R$ 29,90).
Também acaba de chegar ao Brasil a própria Khan Academy. A Fundação Lemann lançou neste mês a versão em português do material (http://pt.khanacademy.org).
Isso inclui 100 mil exercícios de matemática e mil videoaulas de várias áreas do conhecimento --o que corresponde a 20% do total de vídeos em inglês.
Abaixo, a entrevista exclusiva para a Folha, concedida por meio do Skype.
Folha - Como surgiu a ideia de colocar aulas na internet?
Salman Khan - Uma sobrinha minha de 12 anos começou a ter problemas em matemática na escola e eu ofereci ajuda. Isso foi em 2004. Eu morava em Boston, e ela morava em Nova Orleans. Então, começamos a falar por telefone e pela internet. O processo ajudou, e o aprendizado dela em sala foi se acelerando. Depois eu comecei a trabalhar em ferramentas para ajudá-la. A Khan Academy surgiu de uma tentativa de simplesmente ajudar meus sobrinhos na escola. Comecei com ela, depois passei a ajudar os irmãos dela.
Em 2005 registrei o domínio do Khan Academy na internet, passei a postar os vídeos com as aulas, meus amigos começaram a assisti-los e divulgá-los. A coisa ganhou escala e o mundo inteiro começou a assistir os vídeos e fazer os exercícios [hoje a plataforma educativa traz 100 mil exercícios de matemática e quase cinco mil videoaulas sobre várias disciplinas].
E o que aconteceu com sua sobrinha que tinha problemas com matemática?
Ela se deu bem em matemática, melhorou muito e rapidamente. Ela acabou se dedicando à escrita.
Acho que ela é uma boa escritora porque ela é boa em matemática. Penso que as duas atividades estão relacionadas, ambas são similares e utilizam muito o cérebro. Hoje ela estuda escrita no Sarah Lawrence College (EUA).
Baseado nessa ideia de multidisciplinaridade que você, que é matemático, também dá aulas de disciplinas como história na Khan Academy?
[risos] Eu acho que sou uma pessoa multidisciplinar. E acho que a maioria das pessoas também pode ser. É como eu disse: eu não acredito que matemática ou escrita sejam diferentes. Ambos usam partes importantes do cérebro. É isso que quero passar aos meus filhos.
Eles não se veem como pessoas de humanas, de exatas ou de biológicas. Eles se veem como estudantes, como pessoas que podem aprender e se envolver com o que quiserem. Não acredito que o conhecimento seja segmentado em caixas.
Essa maneira conectada e multidisciplinar é uma nova forma de ver a educação?
Na verdade, não. Esse era o modelo da educação há cerca de 200 anos. Mas era um modelo muito caro porque as pessoas tinham mestres individuais, não daria para fazer uma educação de maneira massiva como é feita hoje.
Há, claro, ganhos no novo modelo educacional com professores por áreas do conhecimento ensinando um grupo de alunos. Mas estamos, sim, retomando ideias antigas de educação.
O que temos de novo agora são as tecnologias que nos permitem retomar esses padrões de educação que foram dispensados ao longo do tempo. E temos escala. No Khan Academy nós não estamos falando de um milhão de pessoas, mas sim de dez milhões de usuários que estão no sistema de ensino e que integram o Khan Academy na sua rotina de aprendizado. Isso é inovador.
Grandes universidades americanas como MIT e Harvard passaram a disponibilizar cursos na internet recentemente. Elas foram influenciadas pela proposta da Khan Academy?
A ideia de oferecer educação de graça e em qualquer em qualquer lugar está relacionada de alguma maneira. A diferença é a maneira como estamos fazendo. Os cursos on-line massivos de plataformas como o edX e Coursera [que trazem cursos abertos de universidades como MIT, Harvard e Caltech] são focados em digitalizar cursos que já existem presencialmente. Ou seja, de colocar on-line algo que já existia.
Além disso esses cursos têm data para começar e terminar. Nós somos mais focados em como prover às pessoas conhecimento. Vamos mostrar para você onde você precisa ir e você irá, no seu tempo e nas suas condições.
Mas assim como o edX, a Khan Academy está mostrando um caminho para o qual a educação está seguindo, sem fronteiras na internet.
Sim, estamos definitivamente em um novo mundo. Nos últimos dez ou cinco anos qualquer pessoa pode aprender algo que decidiu estudar se tiver acesso à internet. O truque é: como relacionamos o aprendizado na internet e o que se aprende presencialmente com o contato com os professores?
Ainda não temos resposta.
O que é uma escola boa?
É uma escola que tem professores incríveis e que oferece a eles uma estrutura suficiente para que trabalhem com os alunos possibilidades de explorar o conhecimento.
É preciso dar a eles flexibilidade de tempo para que eles não sejam obrigados a ensinar determinado assunto em determinado tempo.
Os alunos precisam aprender com os professores como direcionar seu próprio estudo. E aí entra a tecnologia. O professor não deve usar tecnologia somente porque alguém mandou que o fizesse.
Os professores sabem usar tecnologia em sala de aula?
Todos temos de aprender. Primeiramente é preciso que a tecnologia esteja presente na sala de aula. É o primeiro passo. Isso deve começar a acontecer cada vez mais.
Você disse que boa escola é a que tem "professores incríveis". O que é isso?
Muita gente associa um professor incrível com alguém que dá aulas sensacionais. Eu acho o contrário.
Um professor incrível é o que conhece profundamente o assunto que pretende passar, mas que entende que precisa passar ao estudante ferramentas para que ele descubra o conhecimento por si só. O bom professor na verdade é um ótimo guia.
Você dá aulas presenciais?
Não. Apenas para amigos e para a família [risos]. Eu já dei aulas no passado, muito antes da Khan Academy, mas nunca pensei em seguir minha carreira nesse sentido.
Então você nunca estudou para ser um professor?
Não.
Como surgiu a ideia de traduzir o material da Khan Academy para o português?
Nós fomos procurando pela Fundação Lemann há alguns anos e achamos a ideia ótima. Eu visitei o Brasil com a minha família, conheci um pouco do contexto local e falamos da tradução.
Somos um dos piores países do mundo em matemática, segundo o exame internacional Pisa. A Khan Academy pode ajudar os brasileiros?
Não posso fazer promessas, mas posso dizer que existe essa mesma expectativa aqui nos Estados Unidos.
Vocês sobrevivem apenas com doações?
Sim. Temos suporte da Fundação Bill & Melinda Gates, do Google e de grandes empresas e de pessoas físicas. Qualquer moeda ajuda.

RAIO-X - SALMAN KHAN
Idade
37 anos
Origem
EUA
Carreira
Fundador da Khan Academy, plataforma gratuita de estudos na internet. É matemático e foi analista de fundos. Considerado um dos cem homens mais influentes do mundo pela revista "Time" em 20
Site em português já tem mais de 100 mil exercícios


A Khan Academy em português já pode ser acessada no endereçohttp://pt.khanacademy.org.
O portal já tem a tradução de todos os mais de 100 mil exercícios de matemática do site em inglês e cerca de mil videoaulas de várias disciplinas -o que representa cerca de 20% do conteúdo original.
Ao entrar no sistema, o usuário deve responder alguns exercícios de matemática para determinar o seu nível de conhecimento.
A partir daí, o site sugere exercícios e caminhos possíveis de aprendizagem para o novo estudante. Cada avanço é recompensado com pontos e medalhas, como em um videogame.
O material pode ser usado por crianças e até por universitários, ou quem esteja prestando concurso, por exemplo. O site também é útil a professores.
Outro diferencial é a tutoria. Qualquer pessoa cadastrada na ferramenta -um pai ou professor, por exemplo- pode ajudar um aluno individualmente. (SR)

    Yvonne para comentarista de TV - Ricardo Melo

    folha de são paulo
    RICARDO MELO
    Yvonne para comentarista de TV
    O preceito da liberdade de expressão virou refúgio para quem prega a justiça pelas próprias mãos
    Há um mito na praça. O de que a liberdade de expressão existe e ponto. Quem já trabalhou numa redação mainstream sabe que nunca é exatamente assim. Coisas do sistema, e não pretendo me alongar sobre isso neste momento. É o jogo jogado. A título de exercício apenas: você já viu algum jornalista ter espaço em rede nacional para criticar o dono do veículo que o contratou?
    Claro que nem tudo é preto ou branco; a moda são tons de cinza. O uso do conceito de livre manifestação varia com a época. Já beneficiou alhos e bugalhos. No combate à ditadura, serviu de bandeira para os adversários da violência desmedida contra opositores. Os generais, por sua vez, também o invocaram ao obrigar guerrilheiros "arrependidos" a fazer mea-culpa em público --sessões prévias de tortura à parte. Nestes dias de calor escaldante, o preceito virou refúgio para quem prega a lei da selva, o faroeste urbano, a justiça pelas próprias mãos.
    Deixo claro desde o início. Como sempre defenderei o direito de qualquer um lutar contra regimes odiosos, também admito, mesmo com o nariz devidamente protegido, o direito de representantes das trevas declararem apoio ao ódio como regime. A escolha de um ou outro sistema de convivência social depende de cada cidadão. Prefiro o primeiro tipo.
    A questão não é vetar o direito de expressão, mas avaliar o que foi expresso --e isto também é, ou deveria ser, uma prerrogativa básica. Valendo-me dela, digo com tranquilidade: repulsa é pouco para descrever o sentimento despertado pelo comentário que justifica, por "compreensível", a barbárie praticada contra um menor no Rio. Sim, valores mudam com o tempo. No Velho Oeste os acusados de roubar cavalos acabavam sumariamente na forca. Durante a escravidão, indivíduos eram açoitados até a morte; já a Ku Klux Klan americana incinerava negros como se fossem moscas. Mas era bom assim?
    Muitos não se conformam em perceber que a civilização avançou, não tanto, é verdade, mas alguma coisa pelo menos. Rejeitam submeter o impulso animal ao racional e, pior: ainda chamam isto de pureza de princípios. É natural, como hipótese, que o parente de uma vítima tenha, no primeiro momento, desejos de vingança. Eis o instinto animal. Mas o que nos separa tanto de tubarões quanto de hienas é o lado da razão. Isto tem seu contraponto, presídios lotados por exemplo. Então que tal eliminar de antemão qualquer suspeito ou acusado? Precedentes há de sobra: a história oferece inúmeras modalidades de "soluções finais".
    Felizmente na outra ponta existe gente como Yvonne Bezerra de Mello. Foi ela quem acudiu o jovem acorrentado por uma chusma de transviados. O que Yvonne levou em troca mostrou-se quase tão chocante quanto o fato. Seu depoimento sobre as ameaças que passou a ouvir: "Por rede social, email, telefone, tudo. Fui xingada de tudo o que é nome, me acusaram de educar bandido. É um choque saber que vivemos em uma sociedade nazista, fascista".
    Yvonne conhece o riscado. Ganhou fama internacional ao denunciar a infamante chacina da Candelária, também no Rio. Relembrando: numa noite de julho de 1993, ocupantes de carros com placas encobertas pararam em frente à Igreja da Candelária e fuzilaram crianças e jovens que dormiam na área. Oito morreram: seis menores e dois maiores. Policiais cometeram o crime, soube-se depois.
    Certamente o fantasma daqueles dias voltou a rondar a cabeça de Yvonne. Tudo porque ela não achou "compreensível" que um jovem tivesse sido espancado, linchado e preso a um poste com uma trava de bicicleta.
    Pergunta incômoda: por que apesar de tanta liberdade de expressão Yvonne não tem espaço como comentarista de TV? Fica a ideia.

      A Comissão Nacional da Verdade quer que as Forças Armadas investiguem os próprios crimes praticados durante a ditadura (1964-85).

      folha de são paulo
      Comissão quer investigação por militares
      Ideia do grupo que apura crimes da ditadura é obrigar Forças a apresentar nova versão sobre episódios do período
      Colegiado tem pouco apoio dos militares, que vêm destacando oficiais para acompanhar os depoimentos
      LUCAS FERRAZDE SÃO PAULOA Comissão Nacional da Verdade quer que as Forças Armadas investiguem os próprios crimes praticados durante a ditadura (1964-85).
      A proposta, que será discutida hoje em reunião do colegiado em São Paulo, tem o objetivo de forçar os militares a apresentar nova versão sobre alguns episódios do período.
      Diante dos empecilhos criados por Exército, Marinha e Aeronáutica nas investigações dos crimes de lesa humanidade, a decisão visa sobretudo constrangê-los.
      Mas não só. A Folha apurou que a comissão quer dividir responsabilidades nas investigações, já que não terá todas as respostas sobre os crimes até o fim do ano, quando conclui seu trabalho.
      A investigação militar, contudo, não anulará outras em curso, até porque espera-se pouca disposição das Forças Armadas em colaborar.
      A comissão pretende ainda envolver militares na investigação do destino de arquivos das três Forças. Documentos revelam a existência de acervo desconhecido com ao menos 1,2 milhão de páginas, mas as Forças dizem não ter conhecimento dos papéis.
      O argumento é que, como a comissão é ligada à Presidência da República, as Forças Armadas, por questão hierárquica, deveriam acatar o pedido de investigação.
      Pedro Dallari, coordenador da comissão, não quis falar da proposta que, segundo ele, não tem procedência.
      Desde que iniciou trabalhos, em 2012, a Comissão da Verdade tem encontrado pouco apoio dos militares, críticos da atuação do grupo por só olhar a ação do Estado.
      Em encontro dos comissários com Dilma em maio de 2013, a presidente garantiu que militares não atrapalhariam as investigações. Ela teria chegado a brincar, dizendo que iria "tocar o rock do terror neles [militares]". Mas a animosidade não arrefeceu.
      Militares da ativa vêm sendo destacados para acompanhar, às vezes fardados, depoimentos públicos e privados de militares da reserva convocados pela comissão.
      No Rio, em 2013, o Comando Militar do Leste destacou o tenente-coronel André Luís para uma sessão que ouviu um militar da reserva acusado de crimes nos anos 1970.
      O mesmo ocorreu no depoimento reservado que o general Álvaro Pinheiro prestou em novembro, no Rio. Pinheiro apareceu com 16 militares, da ativa e da reserva. E dois militares da reserva acompanharam o depoimento do coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o antigo DOI-Codi paulista de 1970 a 74.
      Folha questionou o Ministério da Defesa sobre os acompanhamentos e sua motivação, mas a pasta afirmou que não se pronunciaria. O Exército não respondeu.

        Em busca da (original) utopia - Paulo Nassar

        folha de são paulo
        PAULO NASSAR
        Em busca da (original) utopia
        Alguns ucranianos querem a integração com a "civilização", outros querem manter uma singularidade por meio do isolamento no oceano global
        A praça da Independência, no centro de Kiev, capital da Ucrânia, concentra hoje o resumo da nova narrativa global. Trata-se de um debate que pode levar a humanidade a dois caminhos opostos: um enorme conflito ou, esperamos, a um consenso sobre um novo modelo de convivência entre os diferentes.
        Com uma face voltada para a Europa e outra voltada para a "Mãe Rússia", tal qual o deus romano Janos, o povo ucraniano é o personagem aglutinador das agruras do encontro entre Ocidente e Oriente neste início de terceiro milênio.
        Poderíamos dizer também entre o encontro dos incluídos e dos excluídos. Do encontro entre a periferia e o centro. Assim como no Brasil, no Egito e na Turquia, esses levantes parecem nacionais à primeira vista. Parecem a tradução viva da luta de classes de Marx. Porém, observados por uma luneta invertida, ultrapassam as suas fronteiras originais bem como qualquer noção de classe social.
        Na camada de gelo e lama que cobre a praça da Independência, uma narrativa belicosa com mais de 3.000 anos de idade --a sangrenta história entre Ocidente e Oriente-- procura os atores que lhe darão corpo e sentido. Marx seria útil ao lembrar, como faz no livro "O 18 de Brumário de Luís Bonaparte", que a história nunca se repete, a não ser como farsa. Não estamos vivendo, como querem muitos analistas, uma nova queda do Império Romano e o consequente início de uma reciclada Idade Média. O que ocorre, supomos, é exatamente o contrário.
        O mundo assiste ao renascimento do Império Romano do Ocidente. As novas legiões são as buscas oraculares do Google. Os marcos são os posts globais do Facebook. As caravanas comerciais são as ofertas da Amazon.
        A China e suas autoridades, com seus 5.000 anos de história e rígida disciplina confuciana, aparentemente já entenderam esse fenômeno. Não à toa, emularam o Google na forma do site de buscas Baidu. Emularam a Amazon na forma do site AliExpress. Emularam o Facebook na forma do site Weibo. Uma tentativa de sincretismo digital, como uma resposta oriental à vertiginosa ascensão ocidental no mundo da informação.
        A narrativa que se desenrola na Ucrânia remete a Robinson Crusoé. Google, Facebook e Amazon são a consolidação do liberalismo ocidental no estado da arte da tecnologia. Versões "high-tec" do náufrago inglês e de sua missão de civilizar o mundo bárbaro.
        Alguns ucranianos querem a integração com a "civilização", enquanto outros querem manter uma singularidade por meio da pretensão da existência de uma ilha isolada no oceano informativo global.
        O brilhante livro de Daniel Dafoe, escrito no século 18, foi um dos primeiros sinais desse mal-estar da civilização que viria a eclodir no século 20 e suas duas Grandes Guerras Mundiais e seus atos terroristas.
        A mesma narrativa do escritor inglês continua a ser o "leitmotif" de Ocidente e Oriente na busca de integração e desintegração.
        Há uma nova história que passa a ser contada em Kiev. Esse enredo é baseado também numa ilha, imaginada no século 16, por outro escritor inglês. Trata-se de Thomas More e sua obra "Utopia". Nesse lugar imaginado, a tolerância é a linha mestra da educação e o pacifismo uma condição de existência.
        Sem dúvida, depois de 500 anos, parece que chegou o momento de a narrativa de More substituir a de Dafoe na política contemporânea.

        Ruy Castro

        folha de são paulo

        Esperando o Supremo
        RIO DE JANEIRO - De 1940 a 1970, todos os atores, produtores e até os chefes dos estúdios de Hollywood comeram na mão de um advogado chamado Greg Bautzer. Era Bautzer quem os defendia, aconselhava, advertia e tirava de encrencas. Desde a venda de um estúdio quebrado até a compra do silêncio de alguém, tudo passava por ele.
        Bautzer defendeu a atriz Marion Davies, amante secular do magnata da imprensa William Randolph Hearst, o "Cidadão Kane" real, contra os herdeiros deste, que não se conformavam com que Hearst tivesse deixado seu império para Marion. Pois Bautzer ganhou. Defendeu Nancy Sinatra no divórcio pedido por seu marido Frank, e não apenas tirou as calças de Sinatra em benefício de Nancy como ficou amigo dele. E, acima de tudo, Bautzer foi advogado de Howard Hughes, então o homem mais rico do mundo.
        Nos anos 60, sua principal tarefa para o recluso e paranóico Hughes foi tentar sustar biografias sobre ele, produzidas por editoras como a Time-Life, a Random House, a McGraw Hill e outras do mesmo porte. Bautzer começava por escrever-lhes cartas amigáveis, oferecendo a "colaboração" de Hughes se este tivesse acesso aos originais. Quando sua indecente proposta era ignorada, ele ameaçava com processos. Mas só ouvia risos do outro lado.
        As ditas biografias foram publicadas e nos permitiram aprender sobre um dos homens mais importantes do século 20, pioneiro do petróleo, do cinema e da aviação. Nem o astuto Bautzer, nem o bilionário Hughes conseguiram dobrar a liberdade de expressão nos EUA. Lá, o sistema funciona e se defende por si.
        No Brasil, o sistema é frágil, as editoras têm medo e um cantor de rádio nos reduz à menoridade. E, com a "polêmica das biografias" adormecida, fala-se na vitória dos neocensores. A cultura não vê a hora de o STF nos tornar adultos e responsáveis.

          Filmes para ler - Raquel Cozer

          folha de são paulo
          Filmes para ler
          Cinema leva editoras a resgatar clássicos e dar tratamento vip a obras que ninguém queria
          RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHAForam necessários 160 anos e, ok, uma adaptação para o cinema para que "12 Anos de Escravidão", o relato de Solomon Northup sobre seu período como escravo na Louisiana, nos EUA, chegasse às livrarias nacionais.
          A obra de 1853 fez sucesso em seu tempo, mas caiu no esquecimento e se manteve inédita por aqui. Com o filme de Steve McQueen, vencedor do Globo de Ouro e indicado a nove prêmios Oscar, atraiu duas editoras brasileiras.
          A Seoman acaba de distribuir sua edição, com tiragem de 10 mil cópias. A da Companhia das Letras sai com 15 mil exemplares no final do mês, dias depois de o filme estrear aqui (veja ao lado).
          Esse é só um exemplo de como o mercado cinematográfico influencia o editorial, fazendo-o resgatar clássicos, inflacionando obras que ninguém queria e levando títulos há anos fora de catálogo a receber tratamento vip.
          Caso parecido com o de "12 Anos..." ocorreu com "Um Conto do Destino", cuja adaptação estreia junto com o filme de McQueen, em 21/2.
          O romance de Mark Helprin, publicado em 1983, foi um dos mais votados por críticos em enquete sobre as melhores ficções dos EUA em 25 anos, feita em 2006 pelo "New York Review of Books".
          Nada que chamasse a atenção como a adaptação dirigida por Akiva Goldsman, com Will Smith, Jennifer Connelly e Colin Farrell no elenco. Só daí atraiu a Novo Conceito, que editou 50 mil cópias.
          "Com sorte, acontece o que aconteceu com O Lobo de Wall Street', exigindo só uma capa nova para uma obra que já era nossa", diz Soraia Reis, diretora editorial da Planeta.
          Lançado em 2008, o livro de Jordan Belfort estava havia anos indisponível. Com o filme de Martin Scorsese, a editora não só imprimiu 10 mil cópias com capa do filme como publicou a sequência "A Caçada ao Lobo de Wall Street", com 6.000 cópias. Já teve de reimprimir ambos.
          Mas apostar em filmes não é simples. Na dúvida, Hollywood compra direitos de livros que nunca irá adaptar. "A indústria produz uns 10% do que adquire como opção para filme. Compram para segurar o projeto", diz o editor Marcos Pereira, da Sextante.
          Vivian Wyler, diretora editorial da Rocco --que em abril verá estrear a adaptação de seu hit "Divergente", de Veronica Roth--, diz que o risco existe mesmo quando a produção está avançada. "Às vezes, o diretor pula fora, e o filme, em vez de estrear em 150 salas, vai para a locadora."
          Em outro extremo, o efeito do filme é visível antes do lançamento. Um dos maiores sucessos da Intrínseca, "A Menina que Roubava Livros", de Markus Zuzak, teve 37 mil cópias vendidas nos 30 dias que antecederam a estreia, em 31/1. No mesmo período de 2013, foram 5.000 cópias.
          Mas um dos casos mais inesperados do gênero foi protagonizado pela Sextante. "O Código da Vinci", de Dan Brown, vendia 50 mil cópias por mês quando estreou o filme, em 2006. No mês pós-estreia, as vendas ficaram em 10 mil. As revelações da trama no cinema tiraram o apetite do leitor pelo livro.
          12 ANOS DE ESCRAVIDÃO O relato de 1853 de Solomon Northup, negro livre que foi capturado e feito escravo nos EUA, atraiu editoras após inspirar o filme de Steve McQueen, que disputa nove Oscars. Saiu pela Seoman (trad. Drago, 232 págs., R$ 24,90) e chega dia 24 pela Companhia das Letras (trad. Caroline Chang., 264 págs., R$ 22,90)
          PHILOMENA O livro de 2009 do jornalista Martin Sixsmith, sobre a busca de uma mulher pelo filho sequestrado 50 anos atrás, deu origem ao filme de Stephen Frears que estreia neste fim de semana no Brasil e concorre a quatro estatuetas. Saiu dois meses atrás pela Verus (trad. Fal Azevedo, 476 págs., R$ 48)
          O LOBO DE WALL STREET A autobiografia de Jordan Belfort, preso por crime financeiro, foi lançado em 2008 pela Planeta e estava esgotada até sair o filme de Scorsese, finalista em cinco categorias. Ganhou nova edição (trad. Pedro Barros, 504 págs., R$ 49,90) e a sequência "A Caçada ao Lobo de Wall Street" (trad. Julio de Andrade Filho, 464 págs., R$ 54,90)
          A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS Um dos maiores sucessos da Intrínseca, publicado em 2007, o livro de Markus Zusak (trad. Vera Ribeiro, 480 págs., R$ 39,90) sempre vendeu bem, mas ganhou impulso com o filme de Brian Percival, indicado ao Oscar de trilha sonora. Só em janeiro, vendeu 37 mil exemplares --ante 5.000 exemplares no mesmo mês de 2013
          UM CONTO DO DESTINO O romance sobrenatural de Mark Helprin, de 1983, teve os direitos adquiridos pela Novo Conceito depois do anúncio do longa homônimo com Will Smith, Colin Farrell e Russell Crowe. Sai no próximo dia 21 (trad. Ivar Panazzolo Junior, 720 págs., R$ 36,90), quando estreia o filme
          O HOMEM MAIS PROCURADO O thriller de 2008 de John Le Carré, sobre um muçulmano que atrai a atenção de agências de espionagem após o 11 de Setembro, saiu em 2010 pela Record (trad. Marcelo Schild, 350 págs., R$ 55) e tem sua adaptação prevista para junho, com Philip Seymour Hoffman no elenco
          A CULPA É DAS ESTRELAS No topo da lista de mais vendidos do país há meses, com 810 mil exemplares vendidos, o romance juvenil de John Green (trad. Renata Pettengill, 288 págs., R$ 29,90), protagonizado por adolescentes com câncer e lançado pela Intrínseca, terá sua adaptação no país em agosto
          DIVERGENTE O primeiro livro da série best-seller de distopia de Veronica Roth, publicado pela Rocco em 2012 (trad. Lucas Peterson, 504 págs., R$ 39,50), teve os direitos comprados pela Summit Entertainment em 2011 e estreia em 21 de março, com Shailene Woodley e Kate Winslet

          CRÍTICA LIVROS
          Memórias de personagem vulgar geram longa invulgar
          INÁCIO ARAUJOCRÍTICO DA FOLHAEm primeiro lugar, "O Lobo de Wall Street", o filme, podia servir de exemplo a qualquer professor de roteiros, roteirista ou candidato a.
          A tarefa consistia em resumir e transformar em base de imagens as quase mil páginas dos dois livros de memórias de Jordan Belfort, "O Lobo de Wall Street" e "A Caçada ao Lobo de Wall Street".
          O desafio consistia em captar o essencial dos livros sem adulterar os fatos. Tratava-se de não "adaptar" (trair), no mau sentido da palavra. E, ao mesmo tempo, de construir a base para uma narrativa à maneira de Martin Scorsese.
          O que Terence Winter fez foi, claro, suprimir certas ações e personagens, tornar certos momentos mais didáticos, de maneira a facilitar a compreensão rápida do espectador das sujeiras financeiras em que estava envolvido o fundador da Stratton Oakmont, Jordan Belfort.
          Mas tudo que está lá é, basicamente, o que Belfort conta (foi dada mais atenção a "O Lobo" do que à "Caçada"), e os momentos essenciais da narrativa foram preservados.
          Ao mesmo tempo, estamos num típico filme de Scorsese: um mixaria (Jordan), com a ajuda de outro (Danny) rapidamente abala Wall Street com sua audácia (não raro desonesta) nos negócios e no modo de vida, até começar a ser atormentado pelo FBI.
          Não que Jordan Belfort seja um qualquer. Longe disso. Trata-se de um homem que voltou a inteligência a ganhar dinheiro loucamente, a transar com todas as mulheres que pudesse (de preferência sua própria mulher, a quem chama de Duquesa, e prostitutas em geral), e a ingerir todos os comprimidos de quaaludes, sua droga favorita, que tivesse à sua disposição.
          Sua volúpia, o estilo de vida, "as loucuras", como ele chama, tudo que o credenciava a ser um jovem cadáver, nas previsões de Wall Street, está no livro. Inclusive uma retrospectiva percepção da futilidade desse tipo de vida. Inclusive o estilo de vulgaridade exemplar.
          Vejamos como se refere a Nadine, a Duquesa, a mãe de seus filhos: "Foram suas pernas que lhe conseguiram o emprego; isso e a bunda, que era mais redonda que a de uma porto-riquenha e firme o suficiente para balançar um quarteirão".
          O tom está dado. O que Scorsese fez foi partir desse personagem vulgar para chegar a um filme invulgar. O que faz de Jordan um personagem típico de Scorsese é o fato de sair do nada, tornar-se trilionário em poucos anos, e correr o risco permanente de voltar ao nada (ou, pior, de acabar na cadeia).
          O que torna o filme tão particular e tão superior ao livro é que o Jordan do livro é o sujeito, o narrador, enquanto o do filme é personagem: não é mais ele que se vê. Ele é visto (apesar da narração, por vezes, em primeira pessoa).
          Com isso, Scorsese serve-se de suas memórias para fazer uma análise sintética, porém aguda, do funcionamento desse capitalismo pós-industrial, no qual o que se compra e vende são, basicamente, quimeras, ficções. O que conta, como explica Mark Hanna, o mestre de Jordan Belfort, é a taxa de corretagem. Essa que vai para o bolso do corretor. É a parte real.
          É essa tensão entre real e fictício que faz a base do filme. Pois reais são os filhos, aos quais Jordan tem apego, a Duquesa, e, sobretudo, os agentes do FBI. São estes, aliás, que entram como contraponto na história: a "gente comum", que vive honesta e modestamente. O filme é bem mais incisivo a esse respeito do que o livro, diga-se.
          Existe uma diferença sensível entre "O Lobo de Wall Street" e outros filmes sobre esses zé-ninguéns subitamente elevados à riqueza e todo o tempo ameaçados pela autodestruição.
          Jordan demonstra como esse mundo de desonestidade mais ou menos intrínseca consegue se recompor mesmo depois de ser apanhado com a mão na massa. Ele é o exemplo, e suas memórias best-seller não existem à toa: mesmo fora do mercado ele ainda é uma máquina de fazer dinheiro. Para isso vive.
          O LOBO DE WALL STREET
          Avaliação: regular
          A CAÇADA AO LOBO DE WALL STREET
          Avaliação: regular

            Melhor do dia

            Documentário mostra a turnê dos Doces Bárbaros em 1976
            Filme que o Curta! exibe hoje também fala da prisão de Gil
            FOLHA DE SÃO PAULO
            O documentário "Os Doces Bárbaros", que acompanha a turnê feita por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia em 1976 é atração, hoje, às 22h, no canal Curta!.
            Dirigida por Jom Tob Azulay, a produção, que se propunha a fazer um registro do trabalho artístico, acabou ganhando contornos dramáticos ao também abordar a prisão de Gil em Florianópolis, por porte de maconha.
            Hoje, podem até soar engraçados alguns trechos do depoimento de Gil na delegacia, como o que ele dizia que a droga o ajudava a alcançar a "introspecção mística".
            Mas, à época, foi aflitivo para o grupo, já que Gil teve de ser internado em clínica psiquiátrica, e a turnê ficou parada por quase um mês.
            Trechos relacionados ao caso haviam sido censurados na primeira edição de "Os Doces Bárbaros". A versão que vai ao ar hoje é a lançada em 2004, em que Azulay reincorporou os trechos cortados e remasterizou canções.
            Há depoimentos dos artistas, cenas nos camarins, de entrevista coletiva, de ensaios e trechos dos shows, que são o ponto alto.
            O quarteto desfila um repertório com canções como "Pássaro Proibido", "Atiraste uma Pedra", "Fé Cega, Faca Amolada" e "Quando"
            NA TV
            Os Doces Bárbaros
            Documentário
            QUANDO hoje, às 22h, no Curta!
            CLASSIFICAÇÃO livre