terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Rosely Sayão

Profusão de estímulos
Se está difícil para nós, adultos, focar a atenção, imagine para as crianças que já nascem neste mundo
Aumenta o número de adultos que não consegue focar sua atenção em uma única coisa por muito tempo. São tantos os estímulos e tanta a pressão para que o entorno seja completamente desvendado que aprendemos a ver e/ou fazer várias coisas ao mesmo tempo. Nós nos tornamos, à semelhança dos computadores, pessoas multitarefa, não é verdade?
Vamos tomar como exemplo uma pessoa dirigindo. Ela precisa estar atenta aos veículos que vêm atrás, ao lado e à frente, à velocidade média dos carros por onde trafega, às orientações do GPS ou de programas que sinalizam o trânsito em tempo real, às informações de alguma emissora de rádio que comenta o trânsito, ao planejamento mental feito e refeito várias vezes do trajeto que deve fazer para chegar ao seu destino, aos semáforos, faixas de pedestres etc.
Quando me vejo em tal situação, eu me lembro que dirigir, após um dia de intenso trabalho no retorno para casa, já foi uma atividade prazerosa e desestressante.
O uso da internet ajudou a transformar nossa maneira de olhar para o mundo. Não mais observamos os detalhes, por causa de nossa ganância em relação a novas e diferentes informações. Quantas vezes sentei em frente ao computador para buscar textos sobre um tema e, de repente, me dei conta de que estava em temas que em nada se relacionavam com meu tema primeiro.
Aliás, a leitura também sofreu transformações pelo nosso costume de ler na internet. Sofremos de uma tentação permanente de pular palavras e frases inteiras, apenas para irmos direto ao ponto. O problema é que alguns textos exigem a leitura atenta de palavra por palavra, de frase por frase, para que faça sentido. Aliás, não é a combinação e a sucessão das palavras que dá sentido e beleza a um texto?
Se está difícil para nós, adultos, focar nossa atenção, imagine, caro leitor, para as crianças. Elas já nasceram neste mundo de profusão de estímulos de todos os tipos; elas são exigidas, desde o início da vida, a dar conta de várias coisas ao mesmo tempo; elas são estimuladas com diferentes objetos, sons, imagens etc.
Aí, um belo dia elas vão para a escola. Professores e pais, a partir de então, querem que as crianças prestem atenção em uma única coisa por muito tempo. E quando elas não conseguem, reclamamos, levamos ao médico, arriscamos hipóteses de que sejam portadoras de síndromes que exigem tratamento etc.
A maioria dessas crianças sabe focar sua atenção, sim. Elas já sabem usar programas complexos em seus aparelhos eletrônicos, brincam com jogos desafiantes que exigem atenção constante aos detalhes e, se deixarmos, passam horas em uma única atividade de que gostam.
Mas, nos estudos, queremos que elas prestem atenção no que é preciso, e não no que gostam. E isso, caro leitor, exige a árdua aprendizagem da autodisciplina. Que leva tempo, é bom lembrar.
As crianças precisam de nós, pais e professores, para começar a aprender isso. Aliás, boa parte desse trabalho é nosso, e não delas.
Não basta mandarmos que elas prestem atenção: isso de nada as ajuda. O que pode ajudar, por exemplo, é analisarmos o contexto em que estão quando precisam focar a atenção e organizá-lo para que seja favorável a tal exigência. E é preciso lembrar que não se pode esperar toda a atenção delas por muito tempo: o ensino desse quesito no mundo de hoje é um processo lento e gradual.

    Estudo mostra quais regiões do corpo são 'ativadas' por sentimentos como raiva e felicidade

    folha de são paulo
    Emoções mapeadas
    Estudo mostra quais regiões do corpo são 'ativadas' por sentimentos como raiva e felicidade e conclui que sensações têm caráter universal
    MONIQUE OLIVEIRADE SÃO PAULO
    Aperto no peito, frio na barriga, cabeça quente. Quem nunca usou essas expressões para traduzir uma emoção?
    A sabedoria popular já sabe que emoções causam alterações físicas. Os cientistas também: a rigor, emoção é o estímulo que afeta o sistema límbico [região do cérebro que a processa] e é capaz de mudar o sistema periférico.
    Faltava saber exatamente onde essas mudanças físicas ocorrem, o que pode ajudar a melhor definir as emoções e entender os transtornos afetados por elas.
    No intuito de responder a essa questão, cientistas da Universidade de Aalto em parceria com a Universidade de Turku, ambas na Finlândia, pediram a 700 voluntários que indicassem quais áreas do corpo sofriam alterações quando sentiam uma determinada emoção.
    Para incitar cada estado emocional, foram usadas palavras, músicas e filmes. As alterações sentidas podiam ser de qualquer ordem --dor e calor, por exemplo.
    Com os dados, um software montou um único circuito para cada emoção --raiva, medo, desgosto, felicidade, tristeza e surpresa (chamadas de básicas) e ansiedade, amor, depressão, desprezo e orgulho (tidas como correlatas).
    "Tanto o computador como outras pessoas reconheceram as emoções descritas, o que denota o seu aspecto universal", disse à Folha Riita Hari, professora da Universidade Aalto e uma das autoras do estudo, publicado na revista da Academia de Ciências dos EUA, "PNAS".



    Assim, emoções ligadas à excitação, como raiva e felicidade, foram associadas com ativações e calor dos membros superiores.
    Já as emoções que indicam estado depressivo ou de tristeza foram relacionadas a menor atividade nos membros inferiores, como adormecimento das pernas e pés.
    Sensações no sistema digestório e ao redor da garganta foram relacionadas a desgosto. Felicidade foi a única emoção associada com calor e ativações no corpo inteiro.
    O estudo pode ajudar a identificar emoções nem sempre distinguíveis, como tristeza e desgosto.
    "As emoções têm vias autônomas só interpretadas depois", explica Aílton Amélio, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. "Saber quais são elas promove o entendimento de processos emocionais e é um recurso terapêutico."
    Doenças caracterizadas por desordens emocionais como depressão e transtorno bipolar também podem se beneficiar dos achados. "É uma ferramenta diagnóstica", afirma Riita Hari. "Os mapas podem estar alterados nesses pacientes."
    Estudos de neuroimagem já mostraram que esses indivíduos, quando estimulados por emoções negativas, exibem maior atividade cerebral. Essa dinâmica é inversa à obtida em pessoas saudáveis.
    "Mas é preciso ter cuidado para não limitar tudo em uma caixa", afirma a psiquiatra Alexandrina Meleiro.
    José Bombana, psiquiatra e professor da Universidade Federal de São Paulo, lembra ainda que diferenças culturais precisam ser consideradas.
    As emoções também provocam alterações hormonais, como o aumento do cortisol, hormônio associado ao estresse. "Quando prolongadas, são responsáveis por outras doenças, como transtornos mentais e diabetes", explica Alexandrina.
    Emoções podem ainda mudar a expressão de genes. Estudo da Universidade da Califórnia, publicado na "PNAS" em fevereiro, mostrou que pessoas felizes apresentam menos genes da inflamação que depressivos, o que os protege contra doenças.

      Mirian Goldenberg

      folha de são paulo
      MIRIAN GOLDENBERG
      Há sexo casual para as mulheres?
      As mulheres estão mais livres sexualmente, mas sofrem quando suas expectativas românticas são frustradas
      Uma pesquisa publicada na Folha revelou que 51% dos homens e 56% das mulheres brasileiras estão infelizes com a vida sexual. A pesquisa mostrou ainda que 24% dos homens e 40% das mulheres são contra o sexo casual.
      Outra pesquisa, realizada nos EUA, mostrou que as mulheres são menos propensas a ter orgasmos no sexo casual: 74% afirmaram ter orgasmos em um relacionamento sério, mas apenas 42% disseram chegar ao orgasmo no sexo casual. Já 80% dos homens afirmaram ter orgasmo no sexo casual.
      Uma das explicações para esta disparidade seria o fato de os homens se preocuparem muito menos em satisfazer os desejos femininos quando o sexo é casual.
      Outra razão seria a dificuldade feminina de falar sobre seus desejos sexuais. Elas se sentiriam inseguras para revelar suas vontades em uma relação sem compromisso.
      Acredito que a principal razão é a diferença de expectativas entre os gêneros. Muitas mulheres, mesmo as mais modernas, continuam esperando o telefonema deles no dia seguinte, mostrando que o sexo, para elas, não é tão casual assim.
      Uma professora de 32 anos contou: "Conheci um rapaz em uma festa e tivemos uma noite deliciosa. Ele não ligou no dia seguinte nem na semana seguinte nem no mês seguinte. Até hoje sofro, sem saber por que ele sumiu. Como pode ter sido tão importante para mim e não ter tido significado para ele? Não consigo entender a lógica masculina".
      É um verdadeiro paradoxo: as mulheres estão mais livres sexualmente, tendo mais parceiros, buscando o próprio prazer. No entanto, elas continuam sofrendo e se sentindo rejeitadas quando suas expectativas românticas são frustradas. O fato de serem mais livres não significa que elas perderam o desejo de serem especiais.
      Uma jornalista de 45 anos disse: "Já transei com muitos homens, mas não consigo entender quando um cara some sem explicação. Me sinto rejeitada, sem saber onde errei. Por mais livre que eu seja, fico com a expectativa de que ele perceba que não foi só uma transa como outra qualquer, que foi algo diferente".
      Será que o sexo casual só funciona para os homens?

      Helio Schwartsman

      Tolerar a intolerância
      FOLHA DE SÃO PAULO - Hoje vou discordar de meu amigo e mestre Janio de Freitas. Até admito que a liberdade de expressão não seja absoluta. Penso que gritar "fogo!" num teatro lotado quando não há incêndio deve constituir ilícito, mas, tirando essas situações em que uma declaração objetivamente falsa representa perigo real e imediato, tudo o mais deve ser tolerado. Isso inclui os discursos falsos que não trazem ameaça premente e os verdadeiros, ainda que concretamente danosos.
      Se não for assim, a liberdade de expressão não faz sentido. Ninguém precisa de garantias para falar mal do câncer ou pedir a paz mundial. Como afirmou o linguista e ativista de esquerda Noam Chomsky, "se você é a favor da liberdade de expressão, isso significa que você é a favor da liberdade de exprimir precisamente as opiniões que você despreza".
      Daí decorre, creio, que a democracia, ao contrário do que se apregoa, deve, sim, admitir pregações nazistas, racistas e antidemocráticas. No instante em que o sujeito tenta colocar essas ideias em prática, aí é hora de chamar a polícia. Existe, afinal, uma fronteira mais ou menos natural entre o discurso e a prática. É melhor aproveitá-la do que atribuir a alguém o poder de arbitrar entre o que é ou não uma declaração aceitável.
      E por que dar tanto espaço para gente que no fundo quer acabar com a tolerância? A liberdade de expressão, ao assegurar que todos os temas possam ser debatidos sob todos os ângulos, catalisa a necessária reciclagem dos consensos sociais. Num passado não muito remoto, queimar infiéis, prender adúlteros e manter escravos eram ideias respeitáveis que tinham o amparo da opinião pública.
      Se você acredita que, no longo prazo, a razão tende a prevalecer e acha isso bom, não há como não defender uma versão forte da liberdade de expressão. O preço a pagar, que é ouvir tolices como as proferidas pela apresentadora de TV Rachel Sheherazade, é quase uma pechincha.

        Luto - Eliane Cantanhêde

        folha de são paulo
        ELIANE CANTANHÊDE
        Luto
        BRASÍLIA - A semana passada pegou fogo e esta abre com a morte cerebral do colega Santiago Andrade, cinegrafista de TV, num episódio cheio de significados e alertas.
        Jogar um rojão em pessoas, sejam jornalistas, transeuntes ou policiais, contrapõe o legítimo e saudável direito de manifestação à ilegal e doentia ação de vândalos.
        Os que saem de casa com um artefato desses e os que o jogam sobre uma multidão não podem se dizer inocentes. Se não premeditaram, sabiam perfeitamente que poderiam matar. É como quem toma um porre, pega um carro e causa uma tragédia.
        O outro significado, ou alerta, é que o rojão que explodiu na cabeça de Santiago (as imagens são chocantes) caiu justamente num cinegrafista que estava ali trabalhando. Escancara, assim, o caráter antidemocrático dos "black blocs", que atingiram simbólica e objetivamente o dever da mídia de informar e o direito de todos à informação.
        Por último, a morte cerebral de Santiago não é um episódio aleatório, isolado. Ao contrário, ocorre num momento de grande agitação, incômodo, dúvidas e apreensões em diferentes esferas de poder e, principalmente, na sociedade.
        Ele foi mortalmente atingido a meses da Copa, ainda sob o horror do complexo de Pedrinhas e dias depois de dois crimes bárbaros. Um "justiceiro" matou um rapaz de 20 anos com um tiro no rosto, a queima roupa e à luz do dia. E uma turba amarrou um menor infrator a um poste, nu, exposto à execração pública.
        A sociedade está, de fato, exausta com incontáveis erros e, particularmente, com a violência sem controle. Mas, se cidadãos e cidadãs se tornam mais cruéis e mais desafiadores do que os piores bandidos, onde nós vamos parar?
        Que se criem e se formem menos bandidos e justiceiros --hoje embolados num único ente-- e mais Yvonnes Bezerra de Mello, que embalou o menino do poste e mantém a crença na humanidade. Não é sonhar tão alto.

          Fim da matéria - Carlos Heitor Cony

          folha de são paulo
          CARLOS HEITOR CONY
          Fim da matéria
          RIO DE JANEIRO - Um momento de indecisão ao subir a escada. Irá esbarrar com o quadro. É sua melhor obra em quase 20 anos de pesquisa e trabalho. A única que realmente valeu alguma coisa, que fugiu aos padrões convencionais, às repetições. E agora está abandonada e imersa no bar onde só se pensa em trepadas, negócios, piadas. Talvez tivessem substituído o quadro, muitos pintores gostariam de ter obra pendurada ali. Embora de costas, ele sente que o quadro é o seu.
          O garçom traz nova dose. Ele tem repugnância em continuar bebendo, o estômago recebeu mal a dose anterior e a cabeça está vazia, começa a falar, com mais fúria do que som, as palavras saem de uma caixa oca, não fazem sentido, mas significam tudo.
          Ele recua e desce. Agora, está em frente ao quadro. Por um instante se surpreende de ter feito um trabalho aproveitável. Havia muito não pensava nele, mas, apesar da bebedeira e da escuridão, percebe que ali há movimento, o ritmo é excelente. Pode dizer para si mesmo: "Eu me perdi por nada!"
          Levanta o pé, o mais alto que pode. Quer atingir o meio do quadro, mas não consegue. O pontapé pega na moldura, apenas um pequeno canto fica rasgado. O quadro entorta na parede.
          E antes que alguém o contenha, agride e urra. As mãos que deram ritmo àquelas linhas, cores àqueles espaços, são as mesmas que entram pela tela e a mutilam. E rasga, puxa e fura. O pó branco, remanescente das tintas que então usara, arde em suas narinas. Finalmente o quadro cai: é pisado com raiva.
          Desce o restante da escada e percebe que todos estão de pé, olhando-o. Abre a porta. A pele se encrespa ao receber o mormaço da rua. O ar refrigerado fica para trás. Fica para trás o Movimento em Três Tempos. Para ele, não haveria três tempos, não haveria tempo algum nem movimento. Não haveria matéria daquela memória.

          A barbárie de sempre - Vladimir Safatle

          folha de são paulo
          VLADIMIR SAFATLE
          A barbárie de sempre
          A esta altura, todos conhecem a história do rapaz negro amarrado nu em um poste e espancado por populares no Rio de Janeiro por pretensamente ser um assaltante e ter supostamente roubado uma bicicleta. Todos devem conhecer também o teor dos comentários de certos apresentadores do noticiário televisivo que resolveram surfar na onda da mais nova modalidade de "indignação popular contra a insegurança e a ausência de mão forte do poder público".
          Mas, ainda mais surpreendente do que os dois acontecimentos, é o teor da reação monitorada na internet, em sua ampla maioria favorável ao velho "justiça feita com as próprias mãos" ou ao "chegou o momento da revolta do homem comum".
          Quem já estudou a ascensão do regime nazista sabe como esse era o tema central de sua retórica política: "os homens comuns e cidadãos de bem estão cansados da insegurança. Está na hora de atitudes enérgicas".
          E então apareciam dois tipos de personagens: os que saiam vociferando sua raiva canina e os que diziam que não concordavam exatamente com tais métodos, mas que deveríamos dar uma reposta sem angelismos ao problema. São aqueles que dizem, atualmente, que a sociedade brasileira sofre com tanta violência e merece parar de ser importunada com essa conversa de direitos humanos de bandido. Ou seja, o velho truque do policial mau e do policial bom.
          As pessoas que amarraram o jovem negro no Rio de Janeiro não apareceram do nada. Seus pais já apoiavam, com lágrimas de felicidade nos olhos, os assassinatos perpetrados pelo esquadrão da morte. Seus avós louvaram as virtudes do golpe militar de 1964, que colocaria de vez a ordem no lugar da baderna. Seus bisavós gostavam de ver a polícia da República Velha atirando contra grevistas com aquele horrível sotaque italiano. Seus tataravós costumavam ver cenas de negros amarrados a postes com um certo prazer incontido. Afinal, já se dizia à época, alguém tinha que pôr ordem em um país tão violento.
          Sim, tais pessoas sempre estiveram no mesmo lugar. Só mudaram as gerações. Não há como compreendê-las nem nunca haverá acordo possível com elas. Que acordo haveria com alguém que nem sequer é capaz de estranhar seus próprios gestos no momento em que espanca, arranca a roupa e amarra alguém em um poste? Ou com alguém que não teme em justificar ação tão nobre e edificante?
          Contra pessoas desse tipo, não se procura um acordo nem se deve esperar que elas mudem. Luta-se contra elas, sem trégua, até que tenham medo de mostrar sua barbárie na rua e a escondam dentro de suas próprias casas.