sábado, 15 de fevereiro de 2014

Boto fé no Adriano - Xico Sá

folha de são paulo
XICO SÁ
Boto fé no Adriano
Ele quer retomar o seu império, o Brasil se ressente de atacante para a Copa, e Felipão é bom de apostas
Amigo torcedor, amigo secador, foi comovente ver o Adriano, não o imperador, mas o cidadão comum, na Vila Capanema, em Curitiba. Não pegou na bola, após dois anos sem vê-la, mas ela, seguramente, o reconheceu com votos bíblicos de quem recebe um filho pródigo.
Como sempre botei fé, mesmo após tantas recaídas, digo de novo: eu acredito. Agora com um cenário histórico perfeito. O Brasil se ressente de um atacante para a Copa, o Adriano quer retomar o seu império, o Felipão é bom de apostas --vide Ronaldo em 2002, após longa via-crúcis, com os joelhos estropiados tal um pagador de promessas.
Eu acredito com a fé do mais ingênuo dos fiéis de um templo pentecostal. Antes que o amigo levante o dedo com o seu "peraí" autoritário de boteco, vos digo: óbvio que o Fenômeno não estava à beira do abismo, como andou o menino da Vila Cruzeiro, R9 penava nas salas de cirurgia e nas clínicas.
Óbvio que o Fenômeno foi mais bola, um dos nossos melhores, como lembrou ontem o colega Leonardo Mendes Junior, da "Gazeta do Povo", ao traçar o mesmo paralelo. Bote óbvio nisso ad infinitum.
Enfim, é mais uma questão particularíssima de crença no homem, não nas ruínas do que sobrou do império. Crença não obrigatoriamente religiosa. Na vida deste fraco cronista o pecado sempre formigou na carne. As polaquinhas de Curitiba, as do livro do vampiro Dalton Trevisan, que o digam.
Em matéria de religião, sempre estive mais para o mantra de Santo Agostinho: "Senhor, livrai-me das tentações, mas não hoje". Não vale para você agora, meu caro Adriano (rs). Segura a onda. Para quem escreve é outra história, embora a ressaca, meu velho, depois dos 50, equivale a uma dengue existencialista.
Eu acredito, a torcida do Furacão igualmente, foi bonita a festa, pá, agradeça. Você, sem a sombra nababesca do império, como estivesse reconstruindo, tábua a tábua, prego a prego, um barraco na Vila Cruzeiro, dará a volta, um drible em si mesmo. O inimigo somos nós mesmos. O inferno nunca é o outro. Eu acredito. Habemus atacante.
TINGA
Com a bola, Mario Filho, o nome do Maraca, o irmão igualmente genial do tio Nelson: "Há quem ache que o futebol do passado é que era bom. De quando em quando a gente esbarra com um saudosista. Todos brancos, nenhum preto. Foi uma coisa que me intrigou a princípio. Por que o saudosista era sempre branco? ".
A vergonhosa atitude da torcida peruana com o gaúcho da vila Restinga me faz reler "O Negro no Futebol Brasileiro" (1947), que já começa, no gogó, com estas palavras. Um "Casa-Grande & Senzala" do futebol. O prefácio é de Gilberto Freyre. O que ocorreu no Peru era lei nestas plagas tupiniquins. Recomendo. #FechadoComOTinga.

    #VaiTerCopa - Demétrio Magnoli

    folha de são paulo
    #VaiTerCopa
    A Copa no Brasil é uma desgraça --ou melhor, é uma síntese de diversas desgraças. Mas é legítima
    "Protesto é quando digo que não gosto disso ou daquilo. Resistência é quando faço com que as coisas das quais não gosto não mais aconteçam." O mês era maio; o ano, 1968; o lugar, Berlim Ocidental; a autora, Ulrike Meinhof, uma jornalista de extrema-esquerda que, dois anos depois, organizaria o ato terrorista inaugural do grupo Baader-Meinhof. O "protesto" contra a Copa no Brasil impulsionou as manifestações de massa de junho do ano passado. A "resistência" à realização da Copa, expressa no dístico "#NãoVaiTerCopa", ameaça degradar ainda mais nossa democracia, dissolvendo a política no caldo da arruaça e da violência.
    A Copa é uma desgraça --ou melhor, é uma síntese de diversas desgraças: desperdício de recursos escassos, desvio de dinheiro público para negócios privados, desprezo a prioridades sociais, desrespeito aos direitos de moradores submetidos a remoções compulsórias. Mas a Copa é legítima: dois governos eleitos, o de Lula e o de Dilma, decidiram sobre a candidatura brasileira, a legislação do evento e a mobilização de recursos para a sua realização. "#NãoVaiTerCopa" é a bandeira de grupúsculos políticos que não reconhecem as regras do jogo da democracia.
    A Copa da Fifa, dos "patrocinadores oficiais" e das "marcas associadas" é um "negócio do Brasil" fincado no terreno do sequestro legal de dinheiro público. A Copa da Fifa, de Lula e de Dilma é uma tentativa política de restaurar o passado, em novas roupagens: o "Brasil-Grande" dos generais Médici e Geisel, emblema da coesão social em torno do poder. O "protesto" contra a Copa evidencia o fracasso do governo na operação de ludibriar o país inteiro, embriagando-o num verde-amarelismo reminiscente da ditadura militar. Mas a "resistência" contra a Copa só revela que, no 12º ano do lulopetismo, a praça do debate público converteu-se no pátio de folguedos de vândalos e extremistas.
    Quando escreveu sobre "protesto" e "resistência", Meinhof concluíra que a Alemanha Ocidental era um "Estado fascista" disfarçado sob o véu da democracia representativa. Fanáticos sempre podem dizer isso, descartando com um gesto banal todo o aparato eleitoral, institucional e jurídico das democracias. "Estado policial" é a versão brasileira do diagnóstico de Meinhof. Ao abrigo dessa invocação, configura-se uma perigosa aliança tática entre lideranças radicalizadas de "movimentos sociais", pseudo-anarquistas, extremistas de direita e black blocs. Nas suas redes sociais, misturam-se delírios revolucionários, iracundas acusações contra a "mídia" e líricos elogios ao regime militar. Depois do "#NãoVaiTerCopa", emergirá o "#NãoVaiTerEleições", prometem esses depredadores da política, enquanto acumulam arsenais de rojões de vara.
    O "protesto" contra a Copa tocou fundo na consciência das pessoas. Contudo, foi represado pela lona impermeável da coalizão governista e, ainda, pela adesão voluntária de governadores e prefeitos dos partidos de oposição à farra da Copa. Na Copa das Confederações, os cordões policiais de isolamento de um "perímetro de segurança" em torno dos estádios atestaram que, no Brasil rendido à Fifa, o direito à manifestação pacífica tem uma vergonhosa cláusula de exceção. Os incautos interpretam o "#NãoVaiTerCopa" como prosseguimento dos protestos de junho. Mas, de fato, o estandarte autoritário funciona como antídoto contra manifestações pacíficas e pretexto ideal para a repressão ao protesto legítimo.
    "Agora, depois que se demonstrou que existem instrumentos outros além de simples manifestações; agora, quando se quebraram as algemas da decência comum, a discussão sobre violência e contraviolência pode e deve começar novamente", escreveu Meinhof. O "#NãoVaiTerCopa" é uma atualização tupiniquim daquela conclamação à "contraviolência". A resposta certa a ela é dizer: #VaiTerCopa --infelizmente.

      O que melhora o país é uma Justiça mais eficiente e rápida.

      folha de são paulo
      FERNANDO RODRIGUES
      Terrorismo
      BRASÍLIA - Numa aula em Londres em 1986 soube que a agência Reuters usava o termo "terrorismo" com parcimônia. Trata-se de uma expressão que contém juízo de valor, sobretudo o adjetivo "terrorista".
      A norma básica da Reuters era usar "terrorismo" quando uma fonte qualificada assim descrevesse um episódio. Até porque, um ato que causa terror pode não ser protagonizado por um terrorista.
      Há no momento uma discussão no Congresso a respeito de o Brasil ter uma lei específica para tipificar atos considerados terroristas. Países como os Estados Unidos têm uma norma legal assim. Tenho dúvidas sobre se esse é o melhor caminho para evitar o terrorismo em solo brasileiro.
      O que não falta por aqui são leis. Um levantamento de 2011 do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) indicava haver no Brasil 155.954 normas federais criadas apenas no período a partir de 1988, quando foi promulgada a atual Constituição. Dava uma incrível média de 19 novas regras por dia.
      A proposta em discussão no Congresso tem a seguinte definição do crime de terrorismo: "Provocar ou infundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa ou tentativa de ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade de pessoa". Como se observa, é muito amplo o escopo desse crime.
      Ocorre que a legislação atual já permite à Justiça aplicar penas a quem comete atos dessa natureza. Quem coloca uma bomba em uma lanchonete está praticando um crime. Quem destrói uma ponte também está infringindo a lei.
      O problema por aqui é fazer a lei ser aplicada. Por exemplo, dezenas de pessoas responsáveis por crimes em manifestações de rua em junho passado foram indiciadas, mas até agora não há notícias de condenações em série. Esse é o ponto. Copiar a paranoia dos EUA não ajudará. O que melhora o país é uma Justiça mais eficiente e rápida.

      Helio Schwartsman

      folha de são paulo
      Dilema do presunto
      SÃO PAULO - É absurda a proposta do deputado estadual Feliciano Filho (PEN-SP) que proíbe faculdades de medicina de São Paulo de usar animais vivos para treinar cirurgiões.
      Não me entendam mal. Acho que faz sentido colocar pressão sobre as escolas para que elas se modernizem e adquiram os manequins e programas de computador que permitem simular situações de emergência e cirurgias. Isso não apenas reduz a necessidade de usar animais vivos como tende a aprimorar o ensino.
      Vou um pouco mais longe e confesso que até eu sou sensível aos charmes da neotenia e, de vez em quando, acho um bichinho fofinho. Isso, contudo, não é motivo para renunciar à racionalidade, que é justamente o que falta ao projeto de lei.
      O problema central é que a proposta causa prejuízos e não traz nenhum benefício. Nossas escolas ainda não estão prontas para migrar de vez para o ensino virtual. Em termos materiais, um bom centro de simulação é investimento de vários milhões de reais. Um boneco de última geração, que responde a ações do médico, pode custar R$ 500 mil.
      Mesmo que houvesse recursos de sobra, as diferenças entre o virtual e o real são marcantes, especialmente do ponto de vista emocional. Ninguém está pronto para uma cirurgia de verdade sem antes sentir na mão como o bisturi rompe uma derme e o que acontece quando uma artéria é seccionada. Para dar conta disso é preciso treinar previamente com bichos ou gente. Por paroquialismo, fico com a primeira opção.
      O aspecto mais importante, porém, é que nem os porcos hoje usados nas escolas médicas ganhariam com o veto. Quando vão parar nas mãos dos estudantes, são anestesiados e sacrificados de forma indolor. Se não fossem para a mesa de cirurgia seu destino seria os matadouros, onde algo bem pior os aguarda. Não faz sentido proibir que os suínos abasteçam cursos de medicina quando aceitamos que virem presunto.

        Tinga, Tinga [editorial folhasp]

        folha de são paulo
        Tinga, Tinga
        Muitos meninos brasileiros já sonharam em ter um pai que brilhasse como jogador de futebol profissional. Aos nove anos de idade, o filho do jogador Paulo César Tinga, do Cruzeiro, sofreu um baque injustificado, repentino e colateral ao sonho que viu se realizar.
        Assistindo pela televisão ao jogo do Cruzeiro com o Real Garcilaso, pela Copa Libertadores, o menino foi confrontado com os insultos racistas que partiam da arquibancada peruana, dirigidos a Tinga quando ele tocava na bola.
        Torcedores do Real Garcilaso --nome que homenageia um escritor mestiço do século 16, cronista dos abusos espanhóis contra os incas-- faziam sons e gestos de macaco.
        Não é a primeira vez que um jogador recebe esse tratamento inaceitável. Para ficar entre os brasileiros, Roberto Carlos, na Rússia, Daniel Alves, na Espanha, Vágner Love, no Equador, foram alvo de ofensas semelhantes.
        Quando o corredor negro Jesse Owens, na Olimpíada de 1936, em Berlim, derrubou o mito da superioridade racial nazista, vencendo seus concorrentes brancos, até os adeptos de Adolf Hitler reagiram com mais contenção do que esse tipo de torcedor futebolístico.
        Tinga reagiu com serenidade à violência. "Acredito que esse ato seja coisa de uma minoria, que não é um comportamento geral do povo deles", declarou, acrescentando que trocaria os títulos que conquistou "por um mundo com igualdade entre todas as raças".
        O episódio que viveu poderia ser um marco para que se dê um passo decisivo nessa direção.
        Além da necessária punição aos times cujas torcidas se entregam a tais atitudes, cogita-se de homenagear, amanhã, o jogador insultado. Alguns partidários do Atlético Mineiro, arquirrival da equipe de Tinga, mobilizam-se para gritar seu nome no estádio.
        Num país que, apesar de renitentes casos de racismo, orgulha-se de ter padrões mais razoáveis de convivência entre pessoas de todas as origens, valeria que o nome de Tinga ecoasse hoje e amanhã nas vozes de todas as torcidas, em todos os estádios --e não apenas no jogo entre Atlético e Cruzeiro.
        Sede da Copa do Mundo, o Brasil tem papel importante a desempenhar na luta contra o racismo nos campos de futebol --e em todos os campos. Somos todos --brasileiros, peruanos, espanhóis ou russos-- os atingidos quando alguém é insultado por sua origem ou sua cor. Tinga somos todos nós.

          'Dois Mil e Catarse' - João Wainer

          folha de são paulo
          JOÃO WAINER
          'Dois Mil e Catarse'
          O discurso em que Gabriel García Márquez afirmou que o realismo mágico não é nada ante a realidade da América Latina nunca fez tanto sentido. Enquanto Manoel Carlos sua para construir uma história de ficção para a novela, a realidade dá um banho e transforma o biênio 2013/2014 em um dos mais surreais da história recente do Brasil.
          Daria um filme. O povo vai em peso para as ruas durante a Copa das Confederações, balança as estruturas e quase provoca mudanças significativas na sociedade. Bate na trave, recolhe-se, assiste aos que continuam protestando e espera a faísca que os fará voltar à rua.
          Esse seria o prólogo do filme ambientado em 2014, ano de Copa do Mundo e de eleição presidencial, combinação tão perfeita e explosiva que nem o mais criativo dos roteiristas de Hollywood poderia ter escrito.
          O clima é tenso. Em cenas no estilo de "Um Dia de Fúria", usuários do metrô se revoltam por um problema técnico e destroem o que encontram pela frente, mostrando uma impaciência com os serviços públicos nunca antes vista na história do país. Ônibus são queimados quase diariamente numa contagem regressiva pirotécnica para o jogo de estreia da Copa, Brasil contra Croácia.
          Notícias que parecem saídas da ficção surgem quase todos os dias. O Batman aparece no Leblon, um cineasta é morto a facadas pelo filho, uma ex-vedete é enterrada de maiô e fantasiada aos 93 anos e em uma cadeia do Maranhão presos aparecem felizes segurando a cabeça de seus desafetos.
          Para piorar, a trama é ambientada no período mais quente dos últimos 40 anos sob a ameaça de apagão e racionamento de água. Os ânimos se acirram e o espectador gruda na cadeira.
          A sequência de ação no hotel da Augusta, em que o policial entorta a porradas o pino de titânio da prótese dentária de um rapaz, é digna de Tarantino, e a morte do cinegrafista Santiago Andrade, filmada por vários ângulos, faria do filme candidato ao Oscar de efeitos especiais. O prêmio de melhor ator/atriz seria o mais concorrido. Não faltam bons candidatos com atuações brilhantes.
          Nos palácios, os governantes não sabem como agir e os políticos estudam formas de tirar proveito das manifestações nas eleições para governo estadual, Senado e Presidência. O clima é de "House of Cards". Os cargos mais importantes do país estão em aberto. Se tudo pode acontecer em qualquer eleição, imagine nesta.
          O roteiro se constrói a cada dia. Qualquer movimento pode ser decisivo para o futuro do país. Todos os elementos para um "grand finale" estão presentes, os olhos do mundo estão fixados na tela para ver como um país decide seu futuro com uma bola no pé e uma pedra na mão. O filme é bom, mas o final pode ser trágico.

            Ruy Castro

            folha de são paulo
            De volta aos cachinhos
            RIO DE JANEIRO - Minha velha amiga Margarida Sarda detestava Shirley Temple. Sua mãe a penteava como Shirley Temple --fazia-lhe todo dia os 56 cachinhos dourados de Shirley Temple. Metia-a em casaquinhos, saiotes e marinheiras de Shirley Temple. Calçava-lhe as meias curtinhas ou três quartos de Shirley Temple. E a inundava de bonecas, brinquedos e adereços de Shirley Temple. Só não lhe aplicou as covinhas de Shirley Temple. Em represália, Margarida passou a infância dedicando-se a não ser Shirley Temple. Conseguiu.
            Por causa de Shirley Temple, todas as mães do mundo exigiam o impossível de suas filhas. A própria Shirley também só foi Shirley Temple enquanto não teve escolha. Dos quatro aos 12 anos, ela foi um produto de sua mãe, Gertrude --e de si própria, porque ninguém a ensinou a representar. Aos seis, já sabia fazer tudo que a venerada Ethel Barrymore levara 60 para aprender.
            Seus filmes, a uma média de quatro por ano, entre 1934 e 1939, rendiam milhões e podiam ser intoleráveis, mas ela não era. Na verdade, era quase impossível não admirá-la. E o quase vai por causa de Graham Greene, então crítico, para quem Shirley só podia agradar a gagás pedófilos. Não é verdade. Confira em "Dada em Penhor" (1934), "A Mascote do Regimento" (1935), "A Queridinha do Vovô" (dirigido por John Ford) e "Heidi" (1937) e "Sonho de Moça" (1938).
            Aos 12 anos, em 1940, foi abandonada pelo público. Gertrude tirou-a do cinema e a botou para estudar. Shirley suspirou aliviada e nunca fez muita força para voltar ao estrelato. Tocou sua vida e, no futuro, sem ser da "carrière", tornou-se embaixadora dos EUA em Gana e na então Tchecoslováquia, em épocas conturbadas desses países. Shirley Temple finalmente chegara à idade adulta.
            Mas bastou-lhe morrer, na segunda-feira, aos 85 anos, para ser devolvida aos cachinhos.