domingo, 16 de fevereiro de 2014

O que Joaquim Nabuco aprendeu como correspondente internacional

O jornalista acidental
O que Joaquim Nabuco aprendeu como correspondente internacional
folha de são pauloANGELA ALONSORESUMO Nova coletânea mostra como a atividade de Joaquim Nabuco como repórter internacional, com base em Londres, moldou sua escrita. Os artigos publicados em meios como o "Jornal do Comércio", onde começou essa carreira, após derrota nas urnas, permitem acompanhar o trajeto ideológico do autor de "O Abolicionismo".
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NO MOMENTO em que você lê este artigo, ele já envelheceu. No hiato entre eu o ter escrito e sua publicação, você foi bombardeado por milhares de informações que pululam na internet. Mas não é de agora que o jornalismo impresso perde para novas tecnologias. Joaquim Nabuco (1849-1910), conhecido como figura-chave do movimento pela abolição da escravidão no Brasil, quando se viu jornalista, em 1882, penou da mesma agrura.
Correspondente em Londres, responsável também por Viena e Berlim, Nabuco reclamava de que o telégrafo, inaugurado no Brasil na década de 1870, sabotava o repórter com notícias frescas, enquanto seus artigos mofavam cerca de três semanas no navio até atingirem o leitor.
De modo que notícia velha não é coisa nova. Nos seus 300 artigos como correspondente estrangeiro, coligidos por Leslie Bethell, José Murilo de Carvalho e Cícero Sandroni na recém-lançada edição "Joaquim Nabuco Correspondente Internacional 1882-1891" [ed. Global/Academia Brasileira de Letras; vol. 1, R$ 79, 672 págs.; vol. 2, R$ 65, 512 págs.], Nabuco se houve com a perenidade da informação optando por ser mais analítico que noticioso. Dava mais a visada geral que o fato a fato.
O jornalismo não estava nos seus planos. Filho de político, estreou no Parlamento em 1879 e se destacou chamando para si a causa da abolição. Correu a Europa em busca de apoio e fundou a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. Essa estrela política ascendente, contudo, desafiou a liderança de seu Partido Liberal, ao se decidir por abolicionista. E assim, em 1882, não se reelegeu deputado geral pela Província de Pernambuco. Tornou-se, então, correspondente em Londres do "Jornal do Comércio", enquanto esperava as próximas eleições.
A atuação como jornalista nas baixas políticas se configuraria como padrão. O ofício provisório virou ocupação duradoura.
EDITOR Nos tempos em que são comuns os ataques à norma culta em textos que vão direto do computador do autor para o do leitor, a figura do editor perdeu a aura que teve no passado. Editores pautadores, corretores, eruditos. Joaquim Nabuco teve um desses: Francisco Picot, que viveu no Rio, mas, nos anos 1880, editava da capital francesa o maior e melhor dos periódicos brasileiros do século 19, o "Jornal do Comércio". E lia com lupa em Paris o que Nabuco escrevia à pena em Londres.
Quem ligou um homem ao outro foi o barão de Penedo, que era quase um pai substituto de Nabuco e chefe da diplomacia brasileira em Londres. A morte do correspondente do jornal, um experiente analista econômico, abriu o emprego, com o qual Nabuco garantiria sua sobrevivência física e política nos próximos dois anos, independente do Estado escravista que vinha combatendo.
Assim, Picot não escolheu Nabuco, Nabuco não escolheu Picot. O editor esclareceu logo que, em sua escala de valores, o sobrenome Nabuco, seu livro de poemas em francês ("L'Amour et Dieu") e seu brilho político valiam pouco. Diferentemente da maioria das pessoas que Nabuco conheceu, Picot não se rendeu ao seu charme. Ao contrário. Implicava, contrariado por ter o moço inexperiente no lugar de seu velho amigo Clark.
Picot exigia muito, sempre. Além de pautar os artigos, depois os comentava, catando deslizes, ausências, excessos. A relação com Nabuco foi tensa por conta desse olho de águia, atento à menor das faltas. Reclamava da substância e de tudo que a envolvia, até do fecho dos envelopes em que iam os artigos, como nesta carta de 2 de abril de 1882 (que se encontra no acervo da Fundação Joaquim Nabuco): "Teria sido bom dizer na carta de Londres, sem comentário, que o Financier' publicou o artigo sobre garantias de juros [...]. Também teria sido bom dar o resultado do empréstimo do Baring para Buenos Aires.[...] Por último, vou recomendar-lhe que molhe bem molhada a goma que fecha a capa das suas cartas".
Nabuco nunca antes trabalhara e cedo se cansou. Mas, cheio de dívidas, sem alternativas, permaneceu sob ordens de Picot. O editor o disciplinou, incutiu-lhe a ética do trabalho. Cobrava concentração em assuntos áridos para quem antes aspirava a poeta, exigia precisão de um habituado ao diletantismo e sobriedade de um pendente ao derramamento. Pedia acurácia no trato de temas que Nabuco antes não dominava --a economia-- e objetividade naqueles sobre os quais antes divagava --a geopolítica. Quem lê o drama "L'Option", sobre a guerra da Alsácia-Lorena, que Joaquim Nabuco rascunhou nos anos 1870, e vai depois aos artigos sobre a expansão do imperialismo inglês, reunidos nesse volume, enxerga uma metamorfose.
Francisco Picot foi para Joaquim Nabuco o que um bom editor é para um iniciante: uma escola. Obrigou-o a dois aprendizados.
O substantivo diz respeito à profundidade analítica e teve consequências para tudo aquilo que Nabuco escreveria depois, em particular para seu livro londrino, "O Abolicionismo", que saiu às carreiras, em 1884, para ajudar a campanha abolicionista no Brasil e impedir que Nabuco desaparecesse dela, estando do outro lado do Atlântico, enquanto seus companheiros a radicalizavam. O livro é de uma argúcia que seu autor não evidenciara antes.
Outro ganho dos tempos sob Picot foi o apuro do estilo. Basta fazer o "antes e depois". Os discursos parlamentares e os artigos para o jornal "O Globo" (que não estão na coletânea), nos anos 1870, são de sentenças compridas, muitos apostos, afrancesados. Já "O Abolicionismo" [Ed. UnB, R$ 32, 252 págs.] é livro de contundências, de frases que são como tiros.
TEMAS Os artigos reunidos na coletânea não são todos de mesmo tipo. O primeiro volume traz os para o "Jornal do Comércio" e os produzidos quase simultaneamente para o "La Rázon", de Montevidéu. São artigos de jornalista.
A correspondência de Londres para o "Jornal do Comércio" aborda a geopolítica inglesa, sua política doméstica e a candente questão irlandesa. A economia é pauta obrigatória, sobretudo no que tocava os negócios brasileiros. Já os artigos de Viena e Berlim visavam "resumir os acontecimentos" da política local e eram escritos a partir de Londres.
Em conjunto, as três correspondências traçam cenários geopolíticos e perfis e estratégias dos grandes líderes políticos do período, William Gladstone, na Inglaterra, e Otto von Bismarck, na Alemanha. O foco se abre para abarcar Rússia, Prússia, França, políticas dinástica e eclesiástica, reformas modernizadoras, como o voto secreto e a ampliação do sufrágio --Joaquim Nabuco, aliás, não se mostra entusiasta do voto feminino--, e a disputa por territórios na África e mesmo da Europa --caso da Bósnia e da Sérvia.
Os artigos reconstroem as relações de força, o campo de poder internacional cujos desdobramentos alcançariam o século 20. Registram atentados e assassinatos políticos orquestrados pelos "niilistas" (anarquistas); avanços do socialismo, com suas "paredes" (greves); conflitos entre as grandes potências e o Congresso Antissemítico Internacional, de 1882, que, narra Nabuco, tomava os judeus por "animais daninhos".
O fecho dos artigos abriga as variedades: a passagem de um cometa, um banquete com Wagner e Lizst, um naufrágio, um livro, um baile, um obituário --o de Darwin, Garibaldi, Marx. Aí o autor externava mais personalidade, mas, se opinasse muito, Picot cortava suas asas --e o trecho do artigo.
Só ao final de seu período de correspondente, quando o editor amansou, os textos adquiriram tom pessoal. Nabuco inseria referências oblíquas à questão escravista que ardia no Brasil, por exemplo, ao comentar a escravidão no Egito e o livro do norte-americano Henry George, "Progress and Property" (1879), que defendia a socialização da propriedade da terra. Nabuco criticou seu socialismo, que resultaria em Estado "colossal" e ineficiente, colonizado por "classes parasíticas", mas aproveitou para propalar seu próprio ideal liberal, a taxação moderada e progressiva, com vistas a generalizar a pequena propriedade.
No "La Razón", Nabuco escreveu pouco, entre 1883 e 1884, mas opinava mais, em artigos quase normativos sobre liberalismo, democracia, socialismo, nos quais sobressai sua admiração incontida pelo reformismo político inglês.
Aqui e ali, algo de política americana, como o tratado de paz entre Chile e Peru, em 1883, mas o grosso dos textos cozinhava o antes enviado para o "Jornal do Comércio" --a situação desgostou Picot e foi um motivo para interromper sua correspondência em Londres. Outro foram as eleições parlamentares brasileiras de 1884. Nabuco voltou para se jogar de cabeça na campanha abolicionista.
PALANQUE O segundo volume da coletânea traz textos desse tempo, quando enviou do Rio alguns artigos para o "La Razón", e escreveu para "O País". Quintino Bocaiuva, abolicionista e editor do jornal carioca, convidou Nabuco para uma coluna que seria seu palanque abolicionista, com críticas furibundas à política escravista do governo do Partido Conservador.
Entre 1886 e 1888, escreveu cerca de uma centena de artigos. A coletânea, para manter sua unidade como "correspondência internacional", incluiu só os escritos da Europa, para onde foi, como enviado especial, a fim de cobrir tratamento de saúde de dom Pedro 2º.
Como o imperador se restabeleceu, os artigos se concentraram na linha dos anteriores para o "Jornal do Comércio", com foco na política inglesa. Mas, nos textos de 1888, a política brasileira sobressai, como quando narra suas visitas a Glad- stone e ao papa, em busca de apoio para a abolição da escravidão.
Foi justo a política que tirou Nabuco de "O País", quando o republicanismo tornou-se preponderante na linha editorial. Ao contrário de Picot, Bocaiuva não logrou enquadrar Nabuco, que recorreu ao dono do jornal e assim manteve coluna autônoma, "Campo Neutro". Mas o arranjo durou pouco.
Pós-13 de Maio, os abolicionistas se dividiram. Boa parte, como Bocaiuva, foi para a campanha republicana. Nabuco ficou entre os poucos esperançosos de que o Terceiro Reinado, o de Isabel, faria reformas complementares à abolição. Essa divergência encerrou sua participação em "O País" em 1889.
Nesse ano, a monarquia, assoreada por várias frentes de descontentamento, caiu, e Nabuco, recém-reeleito deputado, ficou sem emprego. Voltou à imprensa, em 1891, no "Jornal do Brasil", criado por monarquistas como polo de crítica ao novo regime.
Esses artigos, escritos de Londres e Buenos Aires, como aqueles para o "Jornal do Comércio", produzidos no retorno ao Brasil (por isso excluídos da seleção), são salpicados de antirrepublicanismo e acusam o militarismo não apenas nacional como noutras partes da América Latina --expressão que usa aí por primeira vez.
Na coletânea, o leitor vai encontrar então três Nabucos: o jornalista, o abolicionista e o monarquista.
LIVROS "O Abolicionismo" deve ao jornal, embora não tenha sido escrito nele, mas outros quatro livros de Nabuco surgiram na imprensa e conformam dois pares.
"Balmaceda" [Cosac Naify, R$ 59, 272 págs.], sobre a guerra civil no Chile, e "A Intervenção Estrangeira durante a Revolta de 1893" [Senado Federal, R$ 10, 150 págs.], a respeito da Revolta da Armada, saíram seriados no "Jornal do Comércio", entre 1895 e 1896, anos de florianismo feroz e de reação monarquista à República, com a Armada.
Tempo de militância, para Nabuco, como um dos fundadores do Partido Monarquista. E tempo de governo militar. Por isso, a análise da política interna chilena, em "Balmaceda", serve para criticar o republicanismo do Brasil de esguelha. "A Intervenção Estrangeira", publicado já no governo Prudente de Morais, é explícito em acusar o apoio dos EUA a Floriano como decisivo na vitória dos republicanos sobre os monarquistas.
O outro par de livros é da virada do século. "Escritos e Discursos Literários" (1901) traz artigos publicados aqui e ali, que destilam a adesão cultural ao antigo regime. Nabuco já não propagandeava a monarquia, a República estava consolidada, mas sua fidelidade ao modo de vida aristocrático persistia e está patente na reconstrução precoce da própria trajetória (tinha 40 anos), escrita em outro jornal monarquista,"O Comércio de São Paulo".
A série era explicitamente política, com o cabeçalho "Minha Formação Monárquica". Ao coligi-la em livro, em 1900, Nabuco encurtou o nome para "Minha Formação" [Editora 34, R$ 49, 288 págs.] --ele aceitara cargo diplomático do governo republicano. Mas o livro guardou certa nostalgia do Império, até ao falar da escravidão que tanto combatera. Prosa evocativa e de um lirismo evidente no trecho que Caetano Veloso musicou como "Noites do Norte".
TRAÇA Li por primeira vez o que vai nesta coletânea em cópias nas quais às vezes o filé mignon do artigo tinha sido refeição de uma traça. A edição em livro recupera a íntegra e ajunta o que era preciso caçar em diferentes arquivos. Assim, presta inestimável serviço ao pesquisador. Contudo, o leitor de jornais velhos espera que o livro traga refrigério gráfico. Este não traz. Como o volume de artigos é grande, optou-se pelas letras miúdas --com que o martírio para os olhos não se altera.
Também seria bom um sumário detalhado, que orientasse o leitor entre jornais e datas, e uma advertência sobre a autoria de alguns artigos --os do "Jornal do Comércio" não eram assinados, vinham apenas como "correspondência".
O que se lê é variado em assuntos, épocas e finalidades. Notas de rodapé mais abundantes ajudariam o leitor menos informado sobre Nabuco e seu tempo.
A edição o compensa, porém, com quatro textos introdutórios. O primeiro é o erudito, do historiador Leslie Bethell, professor emérito das universidades de Londres e Oxford, sobre a geopolítica e a política inglesa do século 19.
O também historiador José Murilo de Carvalho, professor emérito da UFRJ, assina o segundo, apresentando a conjuntura política doméstica em que Nabuco se movia. Bethell e Carvalho são especialistas consagrados no período e antes coligiram a correspondência de Joaquim Nabuco com os abolicionistas ingleses. A apresentação do jornalista Cícero Sandroni dá o panorama da imprensa brasileira no período, e a de Adriana Mirel Clavijo, especialista em relações internacionais, informa sobre o jornal uruguaio "La Razón".
Para quem nunca leu Nabuco, a coletânea é oportunidade de adentrar o universo de um de nossos melhores analistas e flagrá-lo em formação e burilamento. Quem o conhece vai dar com novo ângulo da figura e aquilatar o que significava ser jornalista no estrangeiro no século 19.
Boa companhia na leitura deste livro são textos oitocentistas correlatos. O "Times" de Londres enviou William Howard Russel para cobrir os conflitos na Crimeia, em 1854, fazendo dele um pioneiro da correspondência de guerra. José Martí acompanhou a Primeira Internacional socialista para o "La Nación", em 1888. E Eça de Queiroz, de quem Nabuco foi amigo na velhice, escreveu para um jornal suas "Cartas da Inglaterra", mais ácidas que as de Nabuco, mas igualmente saborosas.
A idade dos textos não deve espantar o leitor. Eles nos são mais próximos do que se imagina.
Um tema de Nabuco foram os ataques terroristas perpetrados na Europa por radicais irlandeses e socialistas russos. Em 1884, por exemplo, houve a "conspiração da dinamite". Malas cheias de explosivos foram postas em quatro grandes estações de metrô em Londres, programadas para explodir no mesmo horário. Três falharam, mas uma arrebentou Victoria Station, no coração da cidade. Como se vê, problemas do tempo de Nabuco que persistem no nosso.

    Memórias que viram histórias

    folha de são paulo
    ARQUIVO ABERTO
    MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
    Nos trilhos de Millôr
    Itabira, 2007
    MARCOS CALDEIRA MENDONÇA
    Nós, do interior, precisamos criar caso para fazer o tempo passar. Foi numa dessas que desafiei-me: seria capaz de conseguir um cartum exclusivo de Millôr Fernandes para a capa do segundo aniversário de "O TREM Itabirano", jornal mensal que edito na cidade mineira, terra de Drummond?
    Sim, queria um desenho do superabundante Millôr, o homenageado da Flip deste ano, ótimo escritor, frasista perfurocortante, jornalista invenal, um dos criadores do mítico "O Pasquim", fustigador da burrice, cartunista de primeira, tradutor de respeito, humorista fino e culto, enfim, um brasileiro que o Nobel de Literatura não teve a honra de ganhar. Pensei: se convidar Millôr para fazer o cartum e ele não aceitar, só duas pessoas saberão da minha derrota, ele e eu. Se topar, o mundo é meu.
    Se é para gastar atrevimento, que seja com graúdos. Mandei um e-mail a ele, fazendo o convite e perguntando preço. Uns dois dias depois, me respondeu: "Topo, desde que você me mande dizer formato, cor e, mais ou menos, o que devo fazer. Meu preço é, adiantado, R$ 55,20. Abracadabraço".
    Brincadeira por brincadeira, pus R$ 55,25 num envelope, e escrevi: "Pagamento ao Millôr. Bom negociar com você. Não queremos o troco". Mandei pelos Correios, com exemplares do jornal.
    Dei uma semana e enviei outro e-mail, perguntando pelo cartum. Resposta: "Que fazer?, como perguntava Lênine. Estou em falta com vocês, brilhantes itabiranos, que me tratam com tanta condescendência --é essa a palavra? Afinal, qual seria o meu compromisso? Um desenho qualquer? Uma obra-prima? Kisses".
    Quero sua visão sobre um trem mineiro, expliquei, refletindo preocupadamente sobre a audácia de pautar um gênio. Senti-me um pouco Rosário Fusco, da revista modernista mineira "Verde", que, ao pedir colaboração a Mário de Andrade, sugeriu ao paulista mandar uma "bosta qualquer".
    Dias depois, chegam-me dois desenhos por Sedex. Bolei a capa, deixei a Redação e, ao retornar, ouvi da nossa secretária: "Ó, um tal Millôr Fernandes ligou para você". Não telefonei de volta, agradeci-o por e-mail e insisti em pagá-lo. "Mesmo sendo você um jornalista sem fins lucrativos' e mesmo não tendo dinheiro que pague, mande-nos a conta, por favor." Não mandou e nem resposta deu.
    Não sei se exagero, mas acho que o caso dá um parágrafo numa boa biografia de Millôr: um gigante que, aos 83 anos, colaborou cortesmente com um novato jornal de interior, que ele nem conhecia.
    Desde então, passei a mandar "O TREM" para o Millôr, e --faço questão de ressaltar--nunca mais o incomodei. Até pensei em contratá-lo para criar a logomarca do jornal, mas me contive. Espontaneamente, porém, ele passou a me dar dicas por escrito.
    Sugeriu melhorar a diagramação. "Ô pessoal d'O TREM Bão, menos matéria, gente! Senão fica ilegível. É como o cara bacana que tem muita ideia e quer dizer todas ao mesmo tempo. Vamos AREJAR o pedaço", aconselhou.
    Também reclamou do tamanho das frases no alto das páginas. "Caro Caldeira (valha a aliteração), o jornal vai de vento em popa (sobretudo, espero, a popa), arejou bastante. Claro, pode arejar mais. Não desculpo as frases estarem com tipos tão pequenos e claros. De modo geral, estão muito bem escolhidas. Mas por que não, uma vez ou outra, dar, entre parênteses, uma ripada no pensador' mais pomposo? AbrAÇO."
    Em outra mensagem, citou um tal Ciro, que até hoje não descobri quem é. "É esse o caminho, Caldeira --apresentar ao mundo o Brasil, o cosmopolitismo da província. Sapato neles! Como diria o Ciro, O TREM é do caralho."
    Outra sugestão foi brincarmos com a escultura de Drummond na capital fluminense. "Por que vocês não pegam a estátua do Drummond, aqui no posto 6 de Copacabana, e fazem dela o embaixador de Itabira no Rio de Janeiro? A estátua, que poderia ficar relegada', já está virando uma integração na paisagem. Itabira hoje é uma estátua alegre ali no posto 6."
    Desconheço se outro jornal mineiro teve a graça de ter uma capa de aniversário feita com exclusividade por Millôr, inspiração permanente para "O TREM". Millagradecimentos e sapato neles!

    Raul Juste Lores

    folha de são paulo
    DIÁRIO DE WASHINGTON
    O MAPA DA CULTURA
    Namoradinha nunca mais
    Geena Davis contra a invisibilidade feminina
    RAUL JUSTE LORESprotagonista do clássico feminista "Thelma & Louise" e do extinto seriado "Commander in Chief", no qual interpretou a primeira mulher a ser presidente dos Estados Unidos, a atriz Geena Davis, 58, nunca se submeteu aos papéis subalternos que Hollywood dispensa ao sexo feminino.
    Ela se tornou uma importante lobista no circuito Los Angeles-Washington para aumentar e melhorar a presença das mulheres na TV e no cinema. Davis criou um instituto que estuda políticas de gênero na mídia e pressiona produtores a reverter a invisibilidade feminina nas telas.
    Entre os números divulgados pelo Geena Davis Institute on Gender in Media, descobrimos que, nos últimos 20 anos, de todos os personagens com alguma fala em filmes, 71% eram masculinos e 29% femininos.
    Em uma palestra no mês passado, Davis indicou um aspecto perturbador dessa narrativa. Em uma economia com desemprego relativamente alto e onde os maiores salários (e muitos dos novos empregos) estão em áreas ligadas à tecnologia e às engenharias, as mulheres não veem muitos "role models" (exemplos a seguir) nesses setores promissores.
    Nos filmes lançados nos últimos cinco anos, há 14,25 personagens masculinos que trabalham em engenharia ou computação para cada papel feminino nessas áreas.
    Em um evento na Casa Branca, executivos do Vale do Silício disseram ao presidente Obama que um filme como "A Rede Social" tinha impacto enorme para estimular jovens a buscarem a carreira de programadores. Mas quase todas as personagens femininas eram namoradinhas dos protagonistas.
    O EXEMPLO DE MICHELLE
    Michelle Obama, 50, também acredita no poder do exemplo --o dela próprio. Nos últimos 15 dias, a primeira-dama americana já participou de cinco eventos na região metropolitana da capital para convencer estudantes de baixa renda a tentarem vagas na universidade.
    "Vocês têm de continuar seus estudos", disse a um grupo de estudantes do equivalente americano ao ensino médio. "Há bolsas, programas de crédito escolar e de premiação a melhores alunos", discursou. Aos 16 anos, Michelle gastava três horas de ônibus diariamente para ir e voltar de uma escola secundária para estudantes de altíssimo desempenho, bem longe da proletária zona sul de Chicago em que cresceu.
    Ela acabou estudando sociologia em Princeton e se formou em direito por Harvard. Em ambas, participou de associações de mentores para outros universitários de baixa renda. Michelle já liderou uma campanha por alimentação saudável e mais exercícios para combater a obesidade infantil.
    IOGA NA CATEDRAL
    A Catedral de Washington também busca novo alcance popular. Criada em 1893 pelo governo como templo ecumênico, ela já abrigou sermões de Martin Luther King e funerais de ex-presidentes. Com o corte de verbas federais e uma cara reforma, após o tremor que sacudiu a capital americana em 2011, a catedral quer aumentar o número de doações, que respondem por 65% de seu orçamento.
    O templo passou a cobrar US$ 10 (R$ 24) de entrada de turistas e a organizar aulas de meditação, ioga e tai chi chuan --para isso os bancos são retirados. Segundo o administrador, as novas atividades têm a ver com espiritualidade.
    PROPAGANDAS
    A mídia americana tem pintado um quadro sombrio da Olimpíada de Inverno de Sochi, acusando o presidente russo Vladimir Putin de usá-la para propaganda interna.
    A rede conservadora Fox News deixou a homofobia de lado para criticar a perseguição contra gays na Rússia. Outras emissoras sugerem que atletas e turistas americanos evitem usar uniformes ou bandeiras do país para fugir de agressões.
    Até o "New York Times" tascou um ponto de exclamação e recorreu a Stálin no subtítulo de uma reportagem sobre os jogos. "Bem-vindos a Sochi, um megaprojeto de estilo soviético que faria Josef Stálin orgulhoso!", escreveu.
    A TV NBC, que pagou US$ 775 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão) pelos direitos de transmissão dos jogos, ficou sozinha na promoção do "espírito olímpico". Os demais parecem ter ressuscitado a Guerra Fria.

      Clovis Rossi

      folha de são paulo
      Venezuela, democracia sitiada
      Parte da oposição quer encurralar o governo, que reage como sabe, encurralando a oposição
      Tempos atrás, a Human Rights Watch, importante ONG dedicada à defesa dos direitos humanos, emitiu extenso relatório sobre a Venezuela, para denunciar que, embora o país se mantivesse dentro de parâmetros democráticos, o regime chavista (Hugo Chávez ainda era vivo) estava comendo a democracia pelas bordas.
      Nos últimos dias, o chavismo, agora comandado por Nicolás Maduro, deu mais algumas colheradas rumo ao centro do prato, ao ordenar a perseguição aos líderes opositores Leopoldo López e Maria Corina Machado, supostamente responsáveis por incitar a violência ao convocarem protestos que foram, na prática, comandados pelos estudantes.
      Em qualquer país com teor adequado de democracia, convocar manifestações contra o governo faz parte dos deveres da oposição. Só na Venezuela, sitiada por tremenda crise econômica, é que se pode confundir protestos legítimos com ação golpista. Dá a nítida sensação de que o governo, incapaz de dar respostas às demandas dos estudantes (menos inflação, mais segurança, por exemplo), usa o surrado truque de gritar "é golpe".
      Mas, atenção, por mais legítima que seja a convocação de protestos, parte da oposição não é exatamente santa. López e Maria Corina lideram a corrente mais radical, que prega "La Salida", ou seja, ocupar a rua para pôr o governo contra a parede e forçar sua saída, ao passo que Henrique Capriles, o candidato presidencial duas vezes derrotado, prefere insistir na via eleitoral, que só oferece uma saída, se tudo der certo, a partir do ano que vem.
      A divisão da oposição só torna o quadro mais complicado, no momento em que a Venezuela tem o risco-país mais alto do mundo. Tem que pagar juros 14,6 pontos percentuais acima da taxa dos Estados Unidos, o país que se financia ao menor custo no mundo. Para comparação: a média nos países latino-americanos, que não são exatamente paraísos de estabilidade, é de apenas 4,6 pontos percentuais acima do paradigma norte-americano.
      Significa que os investidores apostam em que a Venezuela não conseguirá cumprir seus compromissos, o que é compreensível quando se sabe que, nos 12 meses até o dia 12 passado, o Banco Central havia perdido 27% de suas reservas, agora estacionadas em alarmantes US$ 20,525 bilhões.
      Pulemos para a inflação: só em janeiro, os preços subiram 3,3%, levando o total em 12 meses para 56,3%, o mais alto índice da América Latina e um dos mais altos do mundo.
      Olhemos agora o desabastecimento: os dados do Banco Central informam que, em janeiro, o índice que mede a escassez de alimentos básicos bateu em 26,2%, oito pontos acima do registrado em janeiro de 2013.
      É evidente que a economia venezuelana está derretendo. Seria estranho que os estudantes e a oposição ficassem quietinhos em seus cantos, sem convocar protestos ou acenar com "La Salida".
      O problema é que o aceno é vazio, pelo menos na visão de Capriles, para quem, "para dobrar o poder, você tem que ser maior que eles, e isto [a oposição] não crescerá se defendermos saídas que não levam a nada".

        Marcelo Gleiser

        folha de são paulo
        É possível viver sem mistério?
        O que nos torna humanos é a atração pelo desconhecido, a qual comove e inspira nossa criatividade
        Na semana passada, foi publicado um artigo na revista americana "The New Yorker", de autoria de Adam Gopnik, escritor e intelectual muito conceituado nos EUA (http://tinyurl.com/llywzql).
        O artigo trata da questão do ateísmo e sua aparente ascensão, ao menos na América e Europa, resenhando um par de livros sobre o assunto. Gopnik argumenta que a questão ou a dificuldade dela é a seguinte: "Quem semeou o solo é a pergunta fácil para o historiador; o que fez o solo receber as sementes é uma pergunta mais complexa". Ou seja, listar os nomes dos ateus famosos e seus feitos é bem mais fácil do que compreender porque suas ideias são aceitas por tantas pessoas.
        Gopnik identifica três períodos em que o ateísmo teve uma clara ascensão: no século 18, logo antes da Revolução Francesa; no século 20, logo antes da Revolução Russa; e agora. É óbvio que a expectativa é que a nossa época também tenha a sua revolução. Difícil imaginar que, no nosso caso, ela seja também de natureza política, como nas duas antecedentes. Mas então o quê?
        Conforme escreveu Peter Watson em seu "A Era dos Ateus: Como buscamos viver desde a morte de Deus", existem dois grupos --e não os tradicionais crentes e não crentes--: os supernaturalistas, que acreditam que uma explicação estritamente materialista da existência é inadequada para nossas experiências de natureza espiritual; e os autocriadores, que dão à mente humana o poder de explicar todos os aspectos da existência.
        Gopnik aponta para uma convergência entre os supernaturalistas e os autocriadores, mesmo que clandestina. Descontando os que têm fé tradicional, acreditando piamente na Bíblia ou no Corão ou nos textos xintoístas (que são contados em bilhões no mundo), os supernaturalistas modernos acreditam em algo maior do que a matéria, mesmo que não seja caracterizado por uma divindade óbvia, uma celebração do mistério, da complexidade e de coisas que fogem à nossa compreensão ou mesmo a uma descrição puramente racional. Os supernaturalistas respondem à emoção indescritível da experiência humana.
        Por outro lado, Gopnik argumenta que os autocriadores também experimentam algo como a fé.
        Segundo Gopnik, todos têm algum tipo de vida espiritual, seja na adoção de rituais secretos, na ida à igreja no Natal ou na busca por algum tipo de transcendência por meio de atividades diversas, da meditação à corridas em trilhas, surfando ondas, escalando montanhas ou lendo poesia.
        Me parece que o ponto de convergência não está nos detalhes da prática de cada um, mas na inevitabilidade do mistério que todos confrontamos. O próprio Richard Dawkins, o grande sacerdote do novo ateísmo, escreveu um livro com o título "A Mágica da Realidade"; sua autobiografia é "Um Apetite pelo Maravilhamento". Outro ateu conhecido, Sam Harris, está escrevendo um livro sobre espiritualidade.
        Como exploro em meu próximo livro, "A Ilha do Conhecimento" (Ed. Record, que será lançado em agosto de 2014), o que nos torna humanos é precisamente nossa atração pelo desconhecido, atração que tanto comove quanto inspira nossa criatividade, seja ela científica ou artística. Dela, ninguém escapa.

          Antonio Prata

          folha de são paulo
          Estiagem
          Dia desses, vou abrir o jornal e ver alguém defendendo o linchamento como uma forma de democracia direta
          Ontem, por uma dessas coincidências que não guardam nenhum sentido oculto, mas adicionam à vida uma pitada de mistério, peguei para ler "Ai de ti, Copacabana" e, horas depois, a caminho de uma reunião, passei em frente à nossa escola. Pois tenho a infelicidade de te informar que aquele casarão e o pátio em que você me deu o livro do Rubem Braga -o maior presente que já ganhei- agora jazem sob os 19 andares de um equívoco neoclássico chamado Beverly Hills Plaza, com quatro vagas e oito colunas jônicas por andar -prova de que, mesmo 15 séculos após a invasão dos Vândalos, segue em marcha o declínio do Império Romano.
          Fiquei parado ali na calçada, olhando pra cima, pensando que nada poderia estar mais distante das pitangueiras e sabiás do Rubem Braga do que aquelas varandas raquíticas com seus pinheirinhos em formação militar -pobres árvores de clima temperado, vítimas do destempero paulistano em sua luta para anular os trópicos. Lembrei dos recreios ensolarados do colegial, quando nos sentávamos no chão para jogar truco. Se num daqueles recreios eu tivesse tentado te beijar, talvez minha adolescência houvesse sido ensolarada também, mas eu era tímido, e a libido só encontrava vazão no grito desastrado: "Truco, marreco!".
          Usei solar como sinônimo de feliz e me arrependo: ultimamente, o governo do Astro Rei tem sido bem despótico. As reservas de água da cidade estão abaixo dos 20%, e este verão abafado parece a ambientação perfeita para uma desgraça num conto vagabundo, desses em que chove quando o protagonista sofre de amor.
          De amor eu não sofro, mas trago o peito apertado. Nosso país está estranho, minha amiga. Coisas horrendas andam acontecendo e, em vez de as pessoas pensarem em como impedir que coisas horrendas aconteçam de novo, querem é infligir coisas horrendas a quem as infligiu. No fundo, o que exigem não é justiça nem mesmo vingança, mas o direito ao seu quinhãozinho de barbárie, como crianças que reclamam: "Por que ele pode brincar na gangorra e eu não?"; "Por que ele pode brincar de Gomorra e eu não?". Mais dia, menos dia, vou abrir o jornal e ver alguém defendendo o linchamento como uma forma de democracia direta.
          Acho que você ia se sentir bem deslocada por aqui. Na atual estiagem, só o cinismo cresce, como os cactos. Faz sentido: a esperança não tem lugar nessa época que preza tanto a eficiência. A esperança é deficitária. Não é verdade que seja a última a morrer: morre todo dia, toda hora, em toda parte (para renascer, depois, noutro lugar), feito o amor de Paulo Mendes Campos. Já o cinismo é investimento seguro. Como pode se frustrar quem não deseja? O cínico está em paz -como os mortos.
          Acho que por isso tudo, ontem, recorri ao Rubem Braga. Tenho-o sempre à mão, para emergências (quando minhas reservas de esperança descem abaixo dos 20%): vive ora na sala, ora na cabeceira da cama, ora na mesa da varanda, que é onde ele se sente mais à vontade, desfolhando-se ao vento. Pensando bem, talvez não seja o vento que desfolhe o livro, mas as páginas é que tentam, ingenuamente, abanar o mundo. Ai de nós, Rubem Braga. Ai de nós, Beatriz. Vocês fazem mais falta que a água neste escabroso verão.

            Helio Schwartsman

            folha de são paulo
            Especulação precoce
            SÃO PAULO - O interessante nessa polêmica em torno do garoto que foi amarrado a um poste no Rio é que, como em toda disputa ideológica, as pessoas já sacam suas respostas antes mesmo de formularmos uma pergunta.
            Para a esquerda, condições socioeconômicas como pobreza, desemprego, desigualdade e educação são os principais fatores a explicar a criminalidade. Já para a direita, delinquência se resolve é com polícia.
            Precisamos nos conformar que o cérebro abusa mesmo dos automatismos heurísticos. O problema surge quando se considera que muitas questões relativas à criminalidade têm respostas empíricas estabelecidas, mas nossas convicções políticas fazem com que não as enxerguemos.
            Para desgosto da esquerda, é fraco o elo entre economia e violência, como mostra Steven Pinker em "Melhores Anjos". Dados de EUA, Canadá e Europa Ocidental revelam que melhoras econômicas quase não têm efeito sobre as taxas de homicídios. Há, isto sim, uma correlação bem modesta entre os índices desemprego e os crimes contra o patrimônio.
            A desigualdade se sai um pouco melhor. Ela até que prediz os índices de violência quando se comparam países, mas fracassa em apontar tendências dentro da mesma nação. É pouco provável, portanto, que haja aqui uma relação causal. Mais razoável imaginar que falhas institucionais que produzem excesso de desigualdade gerem também violência.
            A solução da direita também traz problemas. É claro que, em algum nível, melhorar o policiamento reduz crimes. Mas isso só funciona até certo ponto. Se você o excede, desperdiça dinheiro público e estraga inutilmente a vida de um monte de gente.
            Os EUA, por exemplo, adotaram a tolerância zero nos anos 90 e reduziram o crime. Mas os índices de homicídio do Canadá, que já eram bem menores que os dos EUA, seguiram as mesmas curvas sem que o país tenha sucumbido à histeria.