domingo, 23 de fevereiro de 2014

Elio Gaspari

folha de são paulo
O Planalto caiu na arapuca do PMDB
Dilma achou que podia tudo e viu que os inimigos do seu governo estão naquilo que chamam de 'base de apoio'
A ideia era simples: um ministro cuidaria da base de apoio, e outro lidaria com os movimentos sociais. Primeiro ferveu Gilberto Carvalho, quando os protestos de rua saíram do nada, de fora do cadastro de convênios do palácio. Depois confundiu-se o que seria um desprestígio palaciano da ministra Ideli Salvatti com uma barafunda na qual as lideranças parlamentares não se entendem entre si, nem com o Planalto.
O resultado está aí. Numa reforma ministerial de quinta categoria, sem ideia nem projeto, a doutora Dilma vê-se obrigada a cortejar o PMDB indo a jantares inúteis (se não arriscados) na casa do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP). Enquanto isso, representantes de grandes empresas (Gerdau, Ambev, Andrade Gutierrez, OAS e até a Souza Cruz) foram a outro jantar, pluripartidário, na casa do presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN).
Ano eleitoral é assim mesmo. Empresário que gosta de jantar no Planalto vai à casa de deputado para botar medo num governo assustado. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, queixa-se dos empresários que ficam "fazendo beicinho" e propõe que se discuta "a relação". Essa é a armadilha em que caiu a doutora. A infantaria do PMDB e a intendência do empresariado entram nessas discussões seguindo o conselho de Ivana, a primeira mulher do folclórico milionário americano Donald Trump. Ela ensinou: "Não fique com raiva, fique com tudo".
O PAPA E A DOUTORA
Eleito papa, Francisco pediu aos argentinos que dessem dinheiro aos pobres em vez de ir a Roma saudá-lo. Há pouco, decidiu tirar um passaporte comum argentino.
Doutora Dilma foi para Roma festejar o barrete de d. Orani Tempesta. Na comitiva, um lote de passaportes especiais.
DEUSES
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, quer federalizar a investigação dos crimes cometidos contra jornalistas. Ganha uma viagem de ida a Cuba quem souber explicar por que os jornalistas devem receber essa proteção (se proteção for) e não os padres, pipoqueiros, pintores de parede.
Madame Natasha procura uma explicação para o fato de, em português, os jornalistas se atribuírem a capacidade de produzir "matérias". Pela sua conta, esse poder só é atribuído a Deus. Em outros idiomas eles produzem histórias, artigos ou reportagens, mas matéria, ainda não. Talvez Cardozo queira dar tratamento divino aos jornalistas. Até 1964 eles eram isentos do pagamento de Imposto de Renda e tinham desconto de 50% nas passagens aéreas. Resultado: Zica, o "Rei do Contrabando", era jornalista.
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e não está entendo mais nada:
Quem toca fogo em carros no Brasil é terrorista. Em Kiev é manifestante. No máximo, quando estocam armas, são "manifestantes radicais". Quando o venezuelano Leopoldo Lopez entrega-se à Justiça de punho fechado, é "líder da oposição". Para os comissários bolivarianos, ele é um terrorista ligado aos "manifestantes" que incendiaram a entrada do Ministério Público de Caracas.
SANTA RUTH
Quando surgiram os primeiros indícios do mensalão mineiro, Ruth Cardoso defendeu, numa conversa de grão-tucanos, que o partido se afastasse do ex-governador Eduardo Azeredo, que então presidia o PSDB.
À época isso poderia ter sido feito com elegância.
A DAMA DOURADA
Está chegando às livrarias "A Dama Dourada", com a linda história do retrato da milionária Adele Bloch-Bauer, pintado em 1907 por Gustav Klimt.
É um daqueles livros que acaba e recomeça. No caso, pelo menos quatro vezes. Primeiro vem o quadro em si, com uma milionária posando (e namorando?) um pintor excêntrico. Ela morre aos 34 anos, em 1925, e depois a fortuna de seu marido é confiscada pelos nazistas. A história podia acabar aí, mas o governo austríaco tentou ficar com o quadro, tungando herdeiros.
Nessa hora apareceram uma sobrinha que vivia nos Estados Unidos, um repórter e um jovem advogado. Humilharam os poderosos de Viena e hoje o quadro está na Quinta Avenida, em Nova York, na Neue Gallery, a poucos quarteirões do Metropolitan Museum. Valeu 135 milhões de dólares.
A história da "Dama Dourada" é uma viagem a um tempo de surpresas. O marido de Adele era um barão do açúcar e morreu pobre. A sobrinha cuidava de uma loja de roupas e morreu milionária. Uma tia foi para o Canadá. Num jantar, sua filha conheceu um jovem que fugira da Alemanha aos 15 anos e lavara pratos num hotel. Era um príncipe da casa de Auersperg, cuja linhagem remonta ao século 11. Apaixonaram-se e viveram felizes para sempre. Ela tornou-se uma grande cancerologista.
SETE DESTINOS MUDADOS NUM NOVO PAÍS
De técnico de futebol, vidente e sociólogo, todo mundo tem um pouco. Aqui vai um teste para quem se julga capaz de estimar o futuro de oito jovens cariocas.
Duas moram na Rocinha. O pai de uma das meninas é garagista, e a renda da família fica em R$ 1.300. O pai da outra é porteiro. Uma terceira mora com a mãe num quarto alugado de outra comunidade. Não têm ajuda do pai e vivem com R$ 630 por mês. A quarta mora em Caxias, seu pai é vendedor e leva para casa R$ 2.500.
O quinto garoto vive com a mãe, que é cozinheira ocasional. Outro jovem mora num porão de loja, com pai desempregado e mãe diarista, levando para casa R$ 1.100 mensais.
Do grupo, só uma jovem vive em apartamento próprio, em bairro de classe média.
A sabedoria convencional projetaria futuros de dificuldades e catástrofes para quase todos. Afinal, o Brasil seria um país de injustiças, com um sistema educacional elitista. Prova disso viu-se entre 1996 e 1998, quando a PUC paulista organizou uma campanha financeira junto a 120 mil ex-alunos (24 mil dos quais ex-bolsistas) e arrecadou pouco mais que a postagem de 40 mil cartas.
As coisas mudam. Desde 2010, um dos maiores empresários do país, formado em universidade pública, patrocina o curso e a manutenção básica de estudantes estudantes pobres, aprovados no vestibular de engenharia uma das melhores (e mais caras) universidades do país. Deu no seguinte:
sete tiveram bom desempenho. Seis estão a caminho da formatura como engenheiros, e um vai se diplomar em sistemas de informação. Três preparam-se para buscar intercâmbios no Canadá, Portugal ou na China. Dois estudam alemão.
A universidade e o empresário monitoram as notas e as contas dos jovens. Ele gratifica-se trocando mensagens e aconselhando a garotada. As doações custam R$ 360 mil por ano, ou US$ 150 mil. Parece muito dinheiro, mas, fazendo-se a conta, vê-se que o valor real está na alma de quem dá. As anuidades dos cursos de engenharia nas grandes universidades americanas estão cerca de US$ 50 mil. Cada bolsista brasileiro custa US$ 19 mil anuais. Se um em cada dez endinheirados nacionais que estudaram de graça seguisse o exemplo do empresário, o Brasil seria outro, mais depressa.

Brasileiro quer mudança, mas com petistas

Brasileiro quer mudança, mas com petistas
folha de são paulo
Para 67%, próximo presidente precisa adotar ações diferentes; Lula e Dilma são indicados como os mais preparados
Cai de 56% para 49% os que acreditam que situação econômica pessoal irá melhorar nos próximos meses
FERNANDO RODRIGUESDE BRASÍLIAOs brasileiros seguem desejando mudança, uma tendência captada nas pesquisas recentes do Datafolha. Agora, 67% dizem desejar que o próximo presidente adote ações diferentes da atual administração.
Desta vez, o Datafolha foi além no levantamento dos dias 19 e 20 e indagou aos entrevistados qual dos pré-candidatos a presidente estaria mais preparado para adotar as tais mudanças no jeito de governar o país.
Encabeça a lista o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apontado por 28% como o melhor agente para promover mudanças no Brasil. Em segundo lugar está a atual ocupante do Palácio do Planalto, Dilma Rousseff, com 19%. Ou seja, os dois petistas somam 47% das preferências.
Em seguida aparecem como aptos a operar mudanças no país Joaquim Barbosa (14%), Marina Silva (11%), Aécio Neves (10%) e Eduardo Campos (5%). Essa pergunta foi estimulada pelo Datafolha, mostrando os nomes dos políticos. Os entrevistados só podiam escolher uma das opções apresentadas.
O resultado dessa sondagem corrobora a tese segundo a qual os candidatos de oposição até o momento foram incapazes de incorporar o papel de representantes das mudanças desejadas pelo eleitorado.
Embora esse sentimento a favor de mudanças seja sempre alto, não se trata de algo homogêneo. A taxa é de 60% em cidades pequenas (até 50 mil habitantes) e sobe para 75% nas metrópoles (mais de 500 mil habitantes). No Sudeste, 71% desejam ações diferentes do próximo governo. No Nordeste, o percentual desce para 64%. No Centro-Oeste e no Norte, é de 58%.
Entre os jovens de 16 a 24 anos, a taxa de mudancistas vai a 70%. Na faixa dos que têm 60 anos ou mais, o percentual cai para 59%.
Eduardo Campos é o mais jovem pré-candidato a presidente, com 48 anos. Segundo o Datafolha, entre os que declaram voto no candidato do PSB, 91% pedem mudanças no próximo governo.
ECONOMIA
De novembro para cá, o Datafolha apurou que os brasileiros ficaram menos otimistas com a situação econômica pessoal. O percentual dos que acham que haverá melhora nos próximos meses caiu de 56% para 49%.
Esses 49% ficam próximos dos 47% de outubro passado, indicando que a sensação de bem-estar, natural no final do ano, dissipou-se. Esse é um fenômeno comum.
Os assalariados tendem a ficar mais otimistas quando o final do ano se aproxima, há o pagamento do 13º salário e muitos saem em férias. Quando chega janeiro, há a volta ao trabalho, o pagamento de impostos (IPTU, IPVA e outros) e o mau humor retorna sobre as perspectivas econômicas.
Essa sazonalidade também aparece quando o Datafolha pergunta a respeito do aumento do poder de compra dos salários. Para 32%, isso vai ocorrer nos próximos meses. Esse é um patamar próximo aos 30% de outubro. Em novembro, a taxa estava mais alta, em 38%.
Quem está mais otimista sobre o aumento do poder de compra dos salários são os moradores das regiões Norte e Centro-Oeste (41%). Entre os mais pessimistas sobre os salários estão os que têm ensino superior (42%) e os moradores do Sudeste (37%).
As preocupações com a inflação e o desemprego se mantiveram em patamares altos nesta pesquisa Datafolha, porém estáveis. As taxas estão inalteradas ou variando no limite da margem de erro da pesquisa, que é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
No caso da alta dos preços, 59% dos brasileiros acham que isso vai acontecer nos próximos meses. Essa taxa é igual à apurada em novembro passado. Ocorre que esse é o nível mais alto já registrado durante a administração de Dilma Rousseff.
No caso do desemprego, houve uma variação do percentual dentro do limite máximo da margem de erro. Hoje, 39% dos brasileiros acham que haverá mais desemprego nos próximos meses. Em novembro, a taxa era de 43%.

    Os terroristas - Janio de Freitas

    folha de são paulo
    Os terroristas
    O Puma usado no atentado ao Riocentro foi roubado em SP e se tornou o carro do capitão Wilson Machado
    A denúncia criminal dos generais e outros autores do ato terrorista do Riocentro, ocorrido em 1981, é suficiente para calar qualquer contestação de autoria e objetivos. Mas os quatro mosqueteiros que retomaram esse caso, como procuradores da República, ainda querem um ou outro complemento. Querem tudo. Podem então incluir em suas buscas adicionais um aspecto bastante ilustrativo de como agiam os terroristas acobertados pela farda, pelo enfeites nos ombros e pelos superiores.
    O carro esporte Puma em que explodiu, antes da hora, a bomba levada pelo capitão Wilson Machado (hoje coronel reformado) e o sargento Guilherme Rosário, ferindo o oficial e matando o outro, tinha placa do Rio, OT-0297. Mas não era do Rio. É sempre citado como propriedade de Wilson Machado. E não era dele. Ou não era dele legalmente.
    O registro verdadeiro do Puma era da cidade de São Paulo. Com outros números e letras. Era propriedade da dona de uma butique (como se chamavam, na época, as pequenas lojas da elegância). Foi roubado em São Paulo, recebeu no Rio placas enganadoras e se tornou o carro do capitão Wilson Machado.
    A pesquisa nos Detrans do Rio e de São Paulo permitiria agora, por meio dos números de identificação colhidos pela perícia depois da explosão, chegar à confirmação do roubo e à dona do Puma, com sua história. Wilson Machado não era só capitão e terrorista.
    Pelo menos outros quatro carros foram usados no plano de explodir o Riocentro a ser posto às escuras por outra bomba, com os 20 mil presentes no show de celebração ao Dia do Trabalho. Todos eram carros roubados. Roubar e apropriar-se de carros alheios foi comum entre militares e agentes do DOI-Codi, do SNI e de outros núcleos da repressão.
    JANGO
    A investigação aberta pelo Ministério Público da Argentina tem mais possibilidades de chegar a uma conclusão sobre a morte de João Goulart do que a investigação brasileira. Exceto quanto ao envenenamento, ou não, como causa pesquisada com a recente exumação.
    Além de Jango ter sido vigiado sempre pelos "serviços" de lá, a decência e a coragem dos argentinos para desvendar seus segredos é infinitamente maior que a dos militares e agentes brasileiros. Graças a essa qualidade argentina, descobre-se, por exemplo, como efeito colateral de um velho pedido de vigilância sobre brasileiros em Buenos Aires, que um quartel do Exército no interior do Paraná teve papel relevante na perseguição a exilados brasileiros, inclusive a Jango.
    Está com os argentinos a oportunidade de descobrir, afinal, o que é verdadeiro nos fartos relatos de Mario Neira Barreiro, ex-agente que se diz participante de uma operação de envenenamento de Jango. Quando dois jornais publicaram aqui, em dezembro, que Neira "vive no Rio Grande do Sul, em liberdade condicional", ele já vivia em Buenos Aires. Até já dera entrevista, explicando por que, posto na condicional, tratou de fugir, mas não para o Uruguai, seu país: "Na Argentina o nosso pessoal pode me dar melhores condições".
    ÓBVIA
    Não entendi a tira do Laerte de quarta-feira --e não digo que a culpa seja dele. Mas, antes que se difundam interpretações entre pessoas que não conheceram Millôr, amigos seus lembramos que ele, contrariamente ao que diz um personagem da tira, não era gay, não.

    José Simão

    folha de são paulo
    Carnaval! Só Como na Rua!
    O Genoino e o Zé Dirceu vão juntar as vaquinhas e fazer uma Cow Parade! Cow Parade na Papuda!
    Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Piadas Prontas: "Pato só vai estrear daqui a um mês em ALAGOAS". "Americana presa por não ter entregado filme que pegou há nove meses na locadora". Nome do filme? "A SOGRA". Presa por não devolver a sogra! Passar nove meses com a sogra ou é sequestro ou é muito amor! Rarará.
    E o técnico da Argentina: "O pior inimigo da Argentina na Copa é....". O BRASIL? Não, ele disse que o pior inimigo da Argentina na Copa é a própria Argentina! Isso que é ego! Final da Copa: Argentina x Argentina.
    Grande final da Copa 2014 no Maracanã: Argentina x Argentina! E o juiz vai ser o Maradona. E todo mundo vai gritar: "Não meta o nariz onde não é chamado". Rarará!
    E argentino dorme em beliche. Ele dorme embaixo e o ego em cima!
    E o chargista Rico diz que o Genoino e o Zé Dirceu vão juntar as vaquinhas e fazer uma Cow Parade! Cow Parade na Papuda! A "cow" do Genoino é a de camisa rosa. Rarará!
    E atenção! Faltam cinco dias inúteis para o Carnaval. A Grande Festa da Esculhambação Nacional! E eu vou passar o Carnaval em Curitiba. De blusa de lã! E chovendo! Rarará!
    Ou então em escola de samba mineira: as passistas são de fora, o mestre-sala dança no Municipal e o mestre de bateria dá aula no conservatório. Uma explosão de desânimo! Rarará.
    E recebi o e-mail de um amigo baiano: "O Carnaval tá quase acabando e você não veio!". E paulista é tão "workaholic" que tem carteiro na segunda-feira de Carnaval. Ao som de britadeira! Trio elétrico de paulista é britadeira! Rarará!
    E os blocos de Carnaval! Fui convidado pra ser padrinho do bloco da Tijuca: Já Comi Pior, Pagando!. Isso não é um bloco, é uma verdade insofismável!
    E do Maranhão: Chupa, mas Não Morde. Deve ser da família Sarney. Ops, me enganei! A família Sarney chupa e morde! Rarará!
    E direto de Floripa: Baiacu de Alguém. Ainda bem que é de alguém! E em Búzios, uns coroas fizeram o bloco Os Tremendo. Rarará!
    E direto de Olinda: Só Como na Rua. Mas pelas fotos das folionas, é melhor comer em casa mesmo! Rarará! E do Rio: "É Mole, mas é Meu!". O cúmulo da autoestima! Rarará!
    Nóis sofre, mas nóis goza!
    Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

    Hermético Pop [Hermeto Pascoal] - Chico Felitti

    folha de são paulo
    REVISTA SERAFINA
    Hermético Pop
    Refugiado em Curitiba há uma década, Hermeto Pascoal diz que, aos 77, chegou a hora de ser pop: liberou toda sua obra de direitos autorais e vai gravar um CD sob pseudônimo para se "acabar de vender"
    CHICO FELITTIDE CURITIBA"Boa tarde, Hermêto", digo ao homem de 77 anos, camisa havaiana laranja e chapéu panamá, sentado na última cantina italiana que resta no Batel, um dos bairros mais chiques de Curitiba. "É Herméto ou te meto uma na cara", diz o músico que Miles Davis chamou de "o maior do mundo". Hermeto Pascoal então aperta minha mão direita com suas duas e me puxa para um abraço.
    O músico poli-instrumentista, capaz de tocar flauta transversal, sanfona, bateria, violão, barriga de um porco vivo ou abelhas, é aberto como a primeira vogal do seu prenome. Evita chamar as pessoas de "João" ou "Maria" e prefere vocativos como: "campeão dos campeões", "rei" e "pessoa elegante".
    São as expressões que usa para falar com a namorada, a cantora Aline Morena, 33, e com os pais dela, que compõem a mesa do almoço de domingo. Faz dez anos que o músico trocou o Rio de Janeiro pela capital do Paraná. Por amor.
    No período, diminuiu o ritmo de shows mas não deixou de compor, no mínimo, uma música por dia. "É mais forte que eu. Vem e não tem quem segure."
    Depois de ter recebido convites para tocar com John Lennon, Tom Jobim, Elis Regina e Roberto Carlos e ter sido tema de mestrado, doutorado e pós-doutorado, sem nunca ter se sentado numa faculdade, ele agora decidiu ser pop.
    Hermeto nasceu sem sobrenome (o Pascoal era o primeiro nome do pai) numa família lavradora no interior de Alagoas. Para proteger sua pele albina do sol, a família o poupou da colheita. "Eu ficava em casa ou embaixo de árvore. Fazia um pífano de jerimum para tocar para os pássaros. Ia pra lagoa e passava a tarde tocando água."
    Aos oito, aprendeu a tocar acordeom, único instrumento ao alcance da mão. Se mudou adolescente para o Recife, onde o também músico albino Sivuca o ajudou a entrar para uma rádio. No fim da década de 1950 foi para o Rio. Em 1961, para São Paulo, onde formou o Quarteto Novo e fez parte do início da TV no país. "Como fascinava aquela figura branca, um fantasma que tocava divinamente", lembra o pianista Carlos Baldério, 86. Foi o auge da fama, diz ele. Foi para os EUA três vezes entre 1969 e 1976.
    Na primeira viagem, conheceu Miles Davis, num show do próprio. "Me chega aquele crioulo bem vestido e fala pertinho de mim com aquela voz rouca. Pensei: Esse bicho tá meio engraçado'." Aí foram avisar ao brasileiro quem era o homem que lhe chamava de "albino louco".
    Os dois ficaram amigos entre sopapos. "Lutei com ele num ringue que ele tinha em casa, com luva de boxe e tudo o mais. Durante a luta, ele ficou olhando pros meus olhos, que vão pra lá e pra cá, meio vesgos, e eu consegui dar uma na cara dele, viu, pessoa elegante?"
    "Live-Evil", álbum de Miles Davis de 1970, tem duas músicas de Pascoal, que só está nos créditos como músico e não foi registrado como autor. "Acho que foi um erro, coisa de burocracia. Não foi por mal."
    PARTITURA HIGIÊNICA
    Após trabalhar com Roberto Carlos, ter o "New York Times" o chamando de "mítico" e formar um fã-clube de 4.000 no Japão, ele ainda não enriqueceu.
    "Não sou rico porque não quero. A maior riqueza que você pode ter na vida é sua vontade de fazer as coisas, e fazer. Ganhe dinheiro, mas não seja ganhado. Coma, mas não seja comido. Foda, mas não seja fodido."
    Ele diz que 2014 será o ano da retomada. Fez recentemente um show no teatro Guaíra, nove anos após sua última apresentação curitibana. "É muito mais fácil tocar na França do que em Curitiba. Ou em qualquer lugar do Brasil." Ele vai tentar.
    "Nossa senhora, vamos tocar muito neste ano." Nos próximos dias, vão para Recife, onde fazem quatro shows. Seu cachê é R$ 30 mil. Ou um décimo do que pede o sertanejo universitário Gusttavo Lima.
    Hermeto já teve apartamento no Rio e carro. Na última década, vendeu tudo o que tinha e repartiu entre os filhos: Jorge, Fabio, Flávia, Fátima, Fabiula e Flávio. Hoje mora na casa que os pais da namorada deram a ela. "Meu negócio é ser feliz, não fazer negócios."
    Usa sua música, inclusive, como escambo. Há nas paredes da cantina, onde ele come frango com arroz, três partituras que ele deu de presente e não guardou cópia.
    Só que, de vez em quando, vem uma vontade de ser pop. Nem que seja só de piada. "Se o seu jornal quiser patrocinar, eu faço um disco de músicas bregas como as que tocam por aí. Mas sem o meu nome. Vai ser o que mais vai vender no ano. Quero provar que eu sei fazer isso se quiser, só que eu não quero."
    Há dez anos, quis tentar uma incursão mais popular, que acabou abortada. "Fiz um disco de forró. Nunca saiu."
    Também começou a catalogar sua obra, mas desistiu no meio. Rescindiu então, por falta de pagamento, os contratos com todas as editoras que registravam seus direitos. "A gente teria de entrar na Justiça contra cada uma delas, mas desistimos porque estávamos parando de tocar", conta Aline.
    Da última vez que contaram, eram 614 gravações, todas agora livres de direitos autorais. Uma autorização assinada pelo artista em giz de cera, adereçada aos "músicos do Brasil e do mundo", libera a regravação de qualquer música sua.
    E ele tem um processo criativo? Dá duas garfadas no frango, leva um crostini à boca para lhe fazer companhia, e fala sério. "Eu não pego um caderno e vou pensar no que fazer. Pelo contrário, pego o caderno e espero chegar."
    O caderno, no caso, é liberdade poética. Escreve em telas de pintar. Escreve em guardanapos. Escreve agora em papel higiênico. "Pode parecer sensacionalismo, mas não é. Peguei um rolo de papel higiênico, escrevi e achei bonito. Vou escrever uma música só nesse rolo, até acabar. Quero um papel higiênico dos mais baratos, que não é muito macio, porque aí não borra."
    Além de escrever a própria obra, virou também júri para músicos de todo o mundo, que lhe mandam correspondência.
    "Eu respeito. Mas os caras mandam para mim música que não tem nada a ver com as coisas de que eu gosto. Eu gosto de qualquer coisa, mas o selecionado com bom gosto." Não que colocar em palavras o que é bom seja fácil como compor. "Eu comparo muito a música com a comida. Você não sabe bem porque é boa, tirante a qualidade, mas é boa. É gosto", e toma um gole de vinho. A música ambiente é "Take a Chance On Me", do ABBA.
    "Não se faz música boa hoje no Brasil. É tudo a mesma coisa, e eu sou capaz de fazer isso, se quiserem."
    O ouvido absoluto ""habilidade que algumas pessoas têm de dar nomes a todas as notas que escutam"" consegue diferenciar um lá bemol maior feito quando a mão passa no cabelo, mas não perguntas feitas ao telefone. "Como é, pode falar de novo?", pede Pascoal 14 vezes durante uma ligação de 26 minutos.
    "Eu tô com muita saúde, graças a Deus. A cabeça tá boa, a vista tá boa. Tomo cuidado. Sou diabético e tomo meu vinhozinho antes de tocar, mas cerveja e outras bebidas não." Às vezes bate uma vontade de ir ao médico, mas não por hipocondria.
    "Tenho 77 anos e minha cabeça está mais doida que nunca. Mais doida, mais rápida do que quando eu era mais novo. Como é que pode?! Eu não posso parar uma coisa que eu sinto. Acho que vou no médico. Vou nada, tudo tá ótimo na vida."
    YOKO DOS PAMPAS
    O coração principalmente. "Sou apaixonado pela Aline." A recíproca é verdadeira há 11 anos. Um mês antes de se conhecerem, ela, então professora de música e aluna de dança com 22 anos, tinha encenado em Londrina o espetáculo "Hermeto em Voz para Dançar", em que bailava músicas dele, então com 66.
    "Na época, eu não admitia que usassem minha música para dançar", diz ele, que não viu a encenação. Semanas depois, era ela na plateia dele, em um workshop. A aula-show começou com um desafio: "Quero ver quem tem coragem de ser o primeiro a subir no palco pra fazer um som comigo". Foi ela, levando uma sacola com chaleira, microfone e um cano de construção, que apontou para o rosto do músico e usou para declamar uma poesia cantada, que tinha feito em sua homenagem.
    Por causa da fotofobia causada pelo albinismo, ele achou que o cano poderia ser uma arma. "Tomei um susto com aquilo quase no meu olho." Passada a adrenalina, tocaram "Montreux" juntos. A música é um dos maiores sucessos da carreira de Pascoal, composta para a cidade suíça que sedia um festival de jazz para ao qual ele é convidado vez sim outra também.
    O veterano elogiou o empenho da jovem e disse que, quando ela quisesse, poderia ir gravar com seu irmão, o compositor Zé Neto, no Rio. No dia seguinte, ela estava de malas feitas no aeroporto.
    Hermeto estava viúvo havia dois anos da mulher com quem tinha ficado 46 anos. Apaixonaram-se "no segundo dia", e da união do alagoense de Olho d'Água das Flores com a gaúcha de Erechim já nasceram dois CDs e um DVD.
    Músicos e fãs comparam Aline com Yoko Ono, por ela ter tirado o compositor de onde ele tocava projetos. "Ela afastou o maestro do Nordeste", diz um grupo de discussão na internet. Um percussionista que tocou com Hermeto no Rio e pede para não ser nomeado, lamenta a ida do músico para Curitiba. "É transformar um homem cheio de vida num ermitão, enfiado numa casa isolada e sem estar rodeado de gente, que é como ele sempre esteve."
    O músico ri das frases. "O mesmo grupo de quando eu saí do Rio é o de hoje. Eu continuo me relacionando com todo mundo, nada mudou." A mulher define: "Nossa ligação aqui na terra é espiritual. Se é por sexo, não dura muito. A gente não sabe como vai ser daqui para a frente. E se eu quiser ter uma família?"
    A figura que parece um Papai Noel de férias nos trópicos ri. "Dá uma olhada para mim, quem vai resistir?", diz enquanto passa as mãos pela barriga, ao som de "I Feel For You", de Chaka Khan.
    Hermeto ainda tem um sonho. Quer alugar um helicóptero. E não é para fazer som com as hélices. "Quero pegar as mais de 3.000 músicas inéditas que tenho e jogar lá de cima, como se fossem folhas. Não é brincadeira não."

      Livro mostra como se inventa um artista - Iara Biderman

      folha de são paulo
      Livro mostra como se inventa um artista
      Em enciclopédia criada para tese de mestrado, Bruno Moreschi revela e realiza o truque da arte contemporânea
      Feita para discutir o que legitima o trabalho criativo, obra também faz parte dos padrões correntes de produção
      IARA BIDERMANDE SÃO PAULO
      Acorrentado como um animal, o iraquiano Abdul-Rafi Fayad, 48, percorreu uma sala da Bienal de Veneza de 2011 tentando morder os visitantes que se aproximavam ""e chegou a ferir alguns.
      O brasileiro William Amaral, 50, ator e palhaço, tem 20 anos de palco. Em seu último trabalho, "O Processo de Giordano Bruno", de 2012, fez o papel de inquisidor.
      Fayad e Amaral se encontraram para uma sessão de fotos na Oficina Oswald de Andrade, em São Paulo, no ano passado. Mas quem está nas fotos acorrentado é Amaral. Fayad é uma obra de ficção.
      Com outras 49 criaturas fictícias e suas criações, Fayad faz parte do livro "Art Book "" 50 Contemporary Artists", organizado pelo artista e pesquisador Bruno Moreschi, 32. O volume de luxo trilíngue (português, inglês e espanhol) apresenta biografias e declarações desses artistas e fotos de suas obras (311, entre pinturas, fotos e performances).
      Estão lá, além do performer polêmico de origem islâmica, o latino-americano que brinca com símbolos da cultura popular, o japonês minimalista, o alemão conceitual e outros clichês da arte atual.
      O livro é o produto da tese de mestrado de Moreschi, "A construção de uma enciclopédia de artistas", defendida em janeiro no Instituto de Artes da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
      A pesquisa começou com o levamento dos padrões mais recorrentes em dez enciclopédias de arte para discutir o que legitima uma obra ou um artista hoje.
      "É um sistema: discurso da crítica e do artista, lugares onde expõe, em que publicações aparece", diz Moreschi.
      No livro, os textos e as obras (feitas e fotografadas pelo autor) reproduzem esse sistema de uma forma que supera a simples paródia.
      "Vários artistas são muitos convincentes. Você encontra no livro um bocado de gente conhecida", diz o crítico e curador de arte Agnaldo Farias.
      Para Farias, a liberdade na produção artística hoje é tão grande que torna plausíveis as invenções da obra.
      "O livro é uma espécie de desmontagem dos processos criativos da arte contemporânea. Mas, ao mesmo tempo em que Moreschi cria dúvidas, ele reafirma esses processos, porque também faz parte deles", afirma o curador Paulo Miyada.
      "Não foi minha intenção fazer uma obra puramente crítica. É também uma forma de problematizar minha própria produção", diz Moreschi.
      Com auxílio de uma bolsa da Fapesp e de dois editais, ele imprimiu 50 exemplares do livro. A maioria será doada para bibliotecas e cinco serão usados em exposições, como a que fará em março, na Funarte de São Paulo.
      "A minha primeira mostra individual será uma coletiva", diz, já que obras das criaturas da enciclopédia estarão expostas ao lado de outros trabalhos de Moreschi.

      ANÁLISE
      Novato corre risco de se tornar vítima da própria armadilha
      SILAS MARTÍDE SÃO PAULO
      Muito antes de inventar seus 50 artistas, Bruno Moreschi também se reinventou num projeto pessoal radical. Ex-jornalista que perfilou vários autores nas páginas das revistas "Bravo!" e "Piauí", Moreschi sempre investigou o que fazia deles um artista --e agora tenta pôr em prática tudo aquilo que aprendeu.
      Novato nesse mundo, decidiu trilhar uma das rotas mais arriscadas. Inventando uma porção de artistas nascidos dos clichês mais arraigados na arte contemporânea, Moreschi adentra o campo da crítica institucional, movimento que surgiu nos anos 1960 e se sagrou sabotando por dentro o mundinho da arte e que, por isso, tinha chances mínimas de êxito.
      Seu maior risco é resvalar no vazio, criticando um sistema fechado ao público. Ou seja, arrisca ter zero impacto sobre gente comum que não entende os códigos de um mercado exclusivo como o das artes visuais, de curadores e críticos que vivem entre uma capital da moda e outra e de artistas que disputam espaço em bienais e editais.
      Moreschi, agora, é um deles. E sabe disso. Seu projeto, ao mesmo tempo hilário e eloquente, é fruto de um processo exaustivo que joga luz sobre o choque de egos balofos --os da crítica aí incluída-- que dita os passos de um sistema cada vez mais voraz.
      Não é a primeira vez que um artista inventa outro artista ou recorre à provocação como trunfo maior do que as qualidades estéticas de uma obra. Moreschi dá a cara a tapa, mas corre o risco --louvável-- de ser vítima de sua própria armadilha conceitual.

      Mauricio Stycer

      folha de são paulo
      'Redes de TV desesperadas'
      É preciso ousadia, visão e paciência para identificar um projeto fora do comum entre centenas de ideias
      Em novembro de 2004, o chefão da rede NBC, Bob Wright, pediu para sua secretária fazer algo considerado irregular nos Estados Unidos --uma ligação telefônica para o funcionário de uma emissora concorrente. No caso, para Marc Cherry, criador da série "Desperate Housewives".
      Lançada um mês antes pela ABC, a série rapidamente virou fenômeno de audiência. Wright só queria saber uma coisa de Cherry: "Me diga sim ou não: você ofereceu este projeto à NBC?" A resposta foi rápida: "Sim, eu ofereci primeiro à NBC".
      Wright, então, quis saber de Cherry com quem ele havia conversado. O autor mencionou alguns nomes, mas ressalvou: "Eles me falaram que o projeto era ótimo e tudo mais, e depois me disseram que não tinham certeza se era uma comédia. Então, o enviaram à área de dramas. E depois eu ouvi que não tinham interesse."
      O relato deste diálogo está na abertura de "Desperate Networks", de Bill Carter, repórter do "New York Times". O livro, de 2006, traça um panorama do mercado de TV aberta nos EUA no início do século 21.
      Naquele momento, as grandes redes já tinham consciência de que uma revolução tecnológica estava em curso e lutavam para conter a fuga de espectadores e de receita com publicidade. A situação lembra muito o estado atual das grandes redes brasileiras.
      A batalha de Marc Cherry, ao longo de dois anos, para viabilizar a ideia da série é um dos fios condutores do livro. Roteirista experiente, ele ofereceu o projeto não apenas à NBC, mas também aos canais CBS, Fox, Showtime e HBO.
      Alguns "nãos" que ouviu foram diretos, sem justificativa. Outros envolveram mentiras e embromação. Como observa um produtor, os executivos sempre dizem desejar programas inéditos, mas de fato eles só querem o novo depois que o novo já está no ar e provou ser capaz de atrair audiência.
      A mesma ABC que aprovou "Desperate Housewives", lembra o livro, foi a que, anos antes, reuniu seus executivos para ouvir o famoso produtor Jerry Bruckheimer apresentar a ideia de uma série policial inédita e disse "não" a ele. Tratava-se de "CSI", depois lançada pela CBS.
      Rejeições por falta de visão sempre ocorreram. A diferença, como sublinha Carter, é que hoje identificar a chance de exibir um programa campeão de audiência se tornou uma questão de vida ou morte.
      "É preciso uma combinação de ousadia, visão e paciência extrema para ser capaz de identificar um programa fora do comum em meio a centenas de ideias que aparecem todo ano", escreve. "E é por isso que os executivos das redes de TV quase nunca encontram nenhum."
      "A verdade é que não importa o quanto eles gastem com o desenvolvimento de roteiros, quais astros assinem contratos multimilionários, quantas ideias eles deem para histórias ou personagens, programas de sucessos costumam chegar às mãos dos executivos de TV por acaso, por capricho ou por pura sorte", conclui.
      Presidente da NBC por muitos anos, hoje na CNN, Jeff Zucker é citado no livro dizendo: "Um dos grandes problemas neste negócio é que a cada ano as redes de TV têm menos audiência e ainda assim a indústria continua fazendo as coisas do mesmo jeito". Fica a dica.