sábado, 1 de março de 2014

Deficit de atenção é resultado de falha em circuito cerebral

folha de são paulo
Deficit de atenção é resultado de falha em circuito cerebral
Sintomas do transtorno estão ligados a sistema de recompensa, segundo artigo
Para professor da UFRJ, autor do estudo, principais implicações se dão no tratamento psicoterápico
FERNANDO TADEU MORAESDE SÃO PAULOImpulsividade, inquietude e desatenção, sintomas associados ao TDAH (Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade), podem ser o resultado de um mau funcionamento do circuito de recompensa do cérebro, segundo um estudo publicado na revista "PLoS One".
Já foi demonstrado que, em indivíduos sem o transtorno, a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à satisfação, está relacionada não ao efetivo recebimento de uma recompensa, mas à sinalização de recompensa.
"Durante a vida, somos estimulados por recompensas, mas, principalmente, por pistas de que essa recompensa virá", diz Paulo Mattos, um dos autores do artigo, professor de psiquiatria da UFRJ e coordenador de neurociências do Idor (Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino).
Utilizando a técnica de neuroimagem funcional, que permite "ver" a ativação de áreas do cérebro durante a realização de uma tarefa, o estudo, feito em colaboração com colegas japoneses, comparou 14 adultos jovens com diagnóstico de TDAH que não recebiam medicação com um grupo controle de 15 pessoas.
Os participantes foram apresentados, no experimento, a uma série de estímulos visuais e lhes foi ensinado que determinado estímulo estaria associado a uma recompensa --pequenas quantidades de dinheiro, no caso.
Nas pessoas com TDAH, não houve ativação do núcleo estriado, região cerebral ligada ao circuito de recompensa e de grande concentração de dopamina, durante os estímulos. Ao final do experimento, no entanto, quando o portador do transtorno era informado de que havia recebido o dinheiro, a região era ativada. "O resultado foi uma surpresa. Esse padrão anômalo já havia sido verificado em camundongos, mas nunca demonstrado da forma como o fizemos", diz Mattos.
"A explicação é que o circuito de recompensa do cérebro, predominantemente dopaminérgico, funciona de modo deficitário em pessoas com TDAH."
O esquema todo pode ser resumido da seguinte forma: a falha na liberação da dopamina em resposta à sinalização da recompensa, presente em quem tem TDAH, resulta em um padrão de ativação anormal do núcleo estriado, parte da circuitaria de recompensa do cérebro, quando a recompensa não é contínua ou imediata. Em decorrência disso, esses indivíduos manifestam certos comportamentos, como a falta de atenção e a hiperatividade, os quais são interpretados, na clínica, como sintomas do TDAH.
Luis Rohde, professor do departamento de psiquiatria da UFRGS, diz que o mérito do estudo é mostrar um possível componente biológico na circuitaria cerebral que poderia explicar a aversão de pacientes com TDAH à demora ou à espera.
Segundo Mattos, o artigo tem suas maiores implicações no tratamento psicoterápico destinado aos portadores do TDAH. "Nosso trabalho mostra, por exemplo, que a terapia cognitivo-comportamental, a mais indicada nos casos de TDAH, precisa passar por um ajuste fino em alguns pontos, já que ela é baseada na ideia de recompensa",diz.
Rohde vai na mesma direção. "O estudo mostra por que é importante haver pequenos reforçadores constantes nesses pacientes, porque eles precisam ter um reforçador real. A simples antecipação da recompensa não ativa a maquinaria cerebral que é ativada naqueles que não possuem TDAH."

    Ligados em blocos - Roberto de Oliveira

    folha de são paulo
    CARNAVAL 2014
    Ligados em blocos
    Das clássicas marchinhas ao batidão eletrônico, a diversidade de sons, gêneros e cores se espalha pelas ruas de São Paulo
    ROBERTO DE OLIVEIRADE SÃO PAULO
    Quem não gosta de festa, melhor nem sair de casa, porque, até a Quarta-Feira de Cinzas, a cidade é deles: os foliões estarão em toda as regiões de São Paulo, animados por um leque de atrações capaz de satisfazer diferentes perfis, gostos e idades. Do profano Minhocão ao sagrado largo da Nossa Senhora do Ó, a ordem é cantar, dançar e se divertir! Como diria o colunista da Folha José Simão: "Quem fica parado é poste".
    -
    1 - SÁB
    11H
    Bloco Bebê Sesc Vila Mariana
    Rua Pelotas, 141
    Os músicos tocam instrumentos com timbres especialmente escolhidos para agradar aos ouvidos sensíveis dos bebê. Rola ainda amanhã, segunda e terça
    12H
    Bloco Carnavalesco Virgens do Minhocão
    Av. São João - Santa Cecília
    Esse aqui manda "um beijo para os travestidos": homens vão fantasiados de mulheres, e mulheres, de homens
    Unidos do IAB
    R. General Jardim com Rua Bento Freitas
    Formado por arquitetos e estudantes
    Bloco do Beco
    R. Salgueiro do Campo, entre as ruas Margarida de Fátima e Pinhal Velho
    Muitas marchinhas e crianças
    13H
    João Capota na Alves
    Viaduto do Metrô Sumaré
    Bailão com "samba batidão". Preste atenção no slogan: "Quem não for fantasiado vai ficar deslocado". Fica a dica
    Urubó
    Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó - Freguesia do Ó
    Autointitulados de "Os Carniceiros do Freguesia do Ó", coisa fina, a turma apresenta marchinhas tradicionais
    14H
    Cordão Cecília
    R. Vitorino Carmilo, 449 - Santa Cecília
    Tem cortejo de batuque e clássicas marchinhas, mas o luxo vem da música brega e do "axé fino''
    Psicoparque Memo
    R. Augusta com Caio Prado - Consolação
    Doidinhos pela abertura do parque Augusta. São "atraídos pela luz" e viventes de um "universo paralelo"
    Samba da Balança
    Praça do Fórum de Pinheiros - Pinheiros
    Pessoal ligado ao direito que promete ficar torto de alegria pelas ruas
    15H
    Cordão Carnavalesco Boca de Serebesqué
    Casa do Norte. R. Prof. Cosme Deodato Tadeu, 150, Guaianases
    Sambas carnavalescos, liberdade às fantasias, cachaça e casa do norte, tudo com muita família e criançada
    16H
    Bloco Jegue Elétrico
    R. Cardeal Arcoverde com João Moura - Pinheiros
    A estrutura de som é conduzida por uma bike. Letras autênticas e bem humoradas, realimentando, a tradição de troças e cordões
    2 - DOM
    12H
    Bloco Ornam um por Todos e Todos pelo Social
    R. Humaitá, 637 - Bela Vista
    Apesar do nome do grupo, nada de calça cumprida e camisa de manga, por favor
    14H
    Guerreiros de Jorge
    R. Amaral Gurgel - Vila Buarque
    Para devotos e simpatizantes do santo guerreiro. Salve Jorge!
    Bloco Batida Livre
    Praça Dom José Gaspar - Centro
    A ideia é abrir para outros ritmos menos tradicionai: samba rock, reggae, hip hop e maracatu. Moderninhos em ação
    Cordão do Triunfo
    R. do Triunfo - Luz
    Formado pela Cia. de Teatro Pessoal do Faroeste, tem como madrinha a atriz Mel Lisboa
    15H
    Bloco Bastardo
    R. Cardeal Arcoverde com Rua Lisboa - Pinheiros
    A banda tem um repertório centrado nas marchinhas, mas há espaço para o cancioneiro
    Espício Geral
    Praça Monteiro Lobato - Vila Buarque
    O grupo reúne amigos e ex-alunos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e, é claro, gente do bairro
    Bloco 77 - Os Originais do Punk
    R. Simão Álvares com Cardeal Arcoverde
    É a música punk sob a influência do confete e da serpentina
    Cordão Carnavalesco Pratododia
    Rua Barra Funda, 33 - Barra Funda
    Obra dos donos e de frequentadores do boteco Pratododia, o grupo não tem banda musical, mas, sim, com carrinhos de som equipados.
    17H
    Bloco do Fuá
    Rua Conselheiro Ramalho - Consolação
    Formado por amigos, entre músicos, compositores, atores, artistas plásticos e professores, além de moradores da região. Papai, mamãe e filhinhos são bem-vindos
    3 - SEG
    10H
    Bloco Esfarrapado
    Rua Conselheiro Carrão, 466 - Bexiga
    Fundado em 1947, é o mais antigo bloco a desfilar pelas ruas da cidade. Num dos bairros mais tradicionais de São Paulo, paulistanos de todas as origens e idades entram na festa
    15H
    Vai Você em Dobro
    Rua Natingui, 530
    Composto de 25 instrumentistas, o bloco reúne amigos e entusiastas
    Bloco Zóio de Lula
    Praça da Toco - Vila Matilde
    O bloco é uma reunião entre moradores antigos da Vila Matilde. Espaço garantido para galera jovem, para os vovôs e vovós e também para molecada
    16H
    Bloco Chorões da Tia Gê
    R. Doutor Heládio
    Prometem fazer o que chamam de "batalha de confetes", o que já se trans-formou numa tradição na região
    Lambuza
    Teatro Municipal - Centro
    Vão sair fantasiados com trajes que remetem à Idade Média... O samba, porém, será mais moderninho
    18H
    Afoxé Oba Inã
    R. Padre Machado, 602 - Saúde
    Cortejo que exalta a cultura afro das religiões de matriz africana
    20H
    Samba do Gringo Doido
    R. Belmiro Braga, 216 - Vila Madalena
    Uma mistura de "hermanos", "muchachos", passinhos descoordenados e ziriguidum. Uma moçada jovem e bonita dão o ar da graça
    22H
    Antiacadêmicos do Baixo Pinheiros
    R. Belmiro Braga - Pinheiros
    A sacada aqui é dar nova roupagem ao Carnaval, transformando canções ícones do rock paulistano e da música brega em marchas carnavalescas.
    4 - TER
    12H
    Os Cabebinhas Tântricas do Tatuapé
    R. Torrinha - Tatuapé
    Por causa do horário, reúne gente de toda idade. Segue a tradição das clássicas marchinhas de Carnaval, mas também inova ao misturar outros sons e ritmos
    15H
    Acadêmicos da Cerca Frango
    R. Cotoxó - Perdizes
    Acadêmicos da Escola de Comunicações e Artes da USP soltando as penas juntamente com a turma do bairro, família e muita criança
    16H
    Baile de Rua do Ó
    R. Horácio Lane, 21 - Pinheiros
    No repertório, marchas e sambas clássicos do Carnaval
    Bloco Saci da Bexiga de Diversão e Contestação
    R. São Domingos - Bela Vista
    Difícil vai ser pular numa perna só. A criançada adora
    Agora Vai
    Largo Padre Péricles - Barra Funda
    Bloco faz uma intervenção urbana, desfilando no Minhocão, com marchinhas. A animação, no largo Padre Péricles, é concorridíssima
    20H
    Unidos do Jardim Penha
    R. Dervile Lacorte - Penha
    É para quem valoriza o samba

    Xico Sá - Se liga, messiê

    folha de são paulo
    XICO SÁ
    Se liga, messiê
    Quem avisa amigo é: sob chancela de vossa entidade suíça, o curral da fan fest pode motivar os protestos
    Amigo torcedor, amigo secador, sinto em incomodá-lo, em plena folia do sábado de Carnaval, com essa lenga-lenga tipo David Copperfield de ressaca. É que escrevi aquela singela cartinha endereçada ao messiê Jérôme, cutucando, essencialmente, a insistência com as fan fests, também conhecidas lá na minha terra como festa dos torcedores.
    O secretário-geral da Fifa respondeu. Esta Folha, por apreço e consideração ao direito de resposta, publicou a íntegra, na seção de artigos. Tudo em perfeito clima de embate democrático e cordialidade.
    Concordo plenamente com a frase emblemática do messiê: "Gostaria de lembrá-lo que ninguém forçou o Brasil a sediar a Copa do Mundo de 2014. O Brasil se candidatou e, ao se informar sobre os requisitos, as autoridades prontamente concordaram e assinaram compromissos".
    Falo disso, de outro jeito, não de outro jeitinho, e até de forma mais venenosa, nas minhas mal traçadas. O governo brasileiro, em um momento de deslumbramento e no papel de país da moda --assim se passaram sete anos-- assinou o contrato sem ler ou desconsiderando as letrinhas menores que os detalhes tão pequenos de nós dois da canção de Roberto Carlos --nosso cantor mais popular, caro Jérôme.
    Embora sob desconfiança do que poderia ocorrer, messiê, tirei o corvo Edgar da sala --minha agourenta ave de estimação-- e torci para que a sede fosse aqui. Como a maioria absoluta dos brasileiros, é óbvio.
    O que se passou de lá para cá, Jérôme, não está no gibi. Nem no gibi do tio Patinhas. Nem no gibi do Zé Carioca. Talvez no gibi dos irmãos Metralhas. É espantoso para um velho repórter, caso deste hoje cronista, que cobriu as tenebrosas transações das empreiteiras brasileiras com o poder público por muito décadas. É espantoso para o leigo, é espantoso para o mais devoto dos Pachecos que acreditou que nada seria tocado com dinheiro público.
    Como não questionar, messiê? Como adotar o padrão fofo, em vez do padrão Fifa, e agasalhar cordeiramente, incluindo o podre trocadilho. Não rola. E repare que não sou da turma do #nãovaitercopa. A bagaceira toda já foi feita. Agora sou do bloco "Vai ter Copa e Protesto". Mais do que legítimo, não acha?
    Daí que volto ao caso da fan fest. Mire-se no Carnaval, messiê Jérôme, aqui se faz uma festa do nada, a cada esquina. Não carece a Fifa na jogada. Quem avisa amigo é: sob chancela de vossa entidade, nada simpática no momento aos brasileiros, o curral da fan fest pode, em vez de unir os sem-ingresso, motivar aquela bafafá de protesto.
    Messiê, repito, até a ONU, diante das mudanças de cenários geopolíticos, renegocia contratos. De festa na rua, messiê, a gente entende mais do que vossa entidade suíça. Repare hoje na tevê "O Galo da Madrugada", lá do Recife. Se liga, messiê, como dizem aqui os manos.

    América, Uganda - Luis Francisco Carvalho Filho

    folha de são paulo
    LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHO
    América, Uganda
    Ser gay não é ameaça a ninguém. A criminalização da homossexualidade não serve para nada
    A intolerância contra gays está viva. Em pleno século 21. Se hostilidades ainda fazem parte do panorama de muitos lugares --Brasil inclusive--, a geração de leis para emparedar a liberdade sexual, na contramão da história, é surpreendente.
    Boa parte do planeta (estima-se que mais de 80 países), com apoio das populações locais, ainda perde tempo com normas contrárias à homossexualidade. No Islã, há pena de morte.
    Apesar da ameaça de boicote internacional, Uganda acaba de estabelecer prisão perpétua para "homossexualidade agravada" e reincidência. Tensão que aumenta com a publicação pelo tabloide "The Red Pepper", na terça-feira, de uma lista contendo o nome dos 200 gays "mais influentes" do país.
    Em 2013, a Rússia decidiu proibir propaganda de relações afetivas "não tradicionais": risco de multa e deportação para beijos, mãos dadas e carícias.
    Repressão só se justifica pela utilidade que a medida pode proporcionar. Pune-se o roubo, a fraude ou o assassinato porque é importante para a paz punir ladrões, estelionatários e homicidas. Pune-se algo que oferece perigo individual ou coletivo. Pune-se algo que causa dano. Por isso, pune-se a segregação e o racismo.
    Ser gay não é ameaça a ninguém. A criminalização da homossexualidade não serve para nada, só para a satisfação moral ou doentia de gente carola, de fundamentalistas religiosos, de missionários do mal, de ditadores.
    Do ponto de vista jurídico, não há justificativa para negar sequer uma fração de direito ao homossexual. Restringir qualquer coisa é como fixar diferença de tratamento para brancos e negros, homens e mulheres.
    Redutos conservadores, Arizona, Kansas e Idaho, fazem lembrar que os Estados Unidos da América não são apenas Nova York e San Francisco. Tentam instituir leis que, sob o pretexto de assegurar o exercício de um direito, autorizaria discriminação concreta: médicos, restaurantes e hotéis, até funcionários públicos, baseados em mandamentos da própria crença religiosa, poderiam simplesmente negar atendimento a quem é ou a quem eles julgam ser homossexual. Com a devida vênia, que o diabo os carregue.
    Pressionada, a governadora republicana Jan Brewer vetou a lei aprovada no Arizona este mês. Mas sem deixar de ser ambígua: "That's America. That's freedom" ("Isto é América. Isto é liberdade"). Para ela, o dono de um estabelecimento teria o direito de escolher a quem servir. Cláusula de consciência que fomentou a Ku Klux Klan.
    Leis caricatas como a do Arizona seriam fulminadas pelo Judiciário dos EUA se entrassem em vigor. Questão de tempo. Mas o movimento homofóbico cria um caldo de cultura pouco edificante e que estimula confronto, humilhação, desconfiança.
    Assim se distingue política de terror da política de Estado.
    O inexorável triunfo da causa gay tem outra razão utilitária. É cada vez maior o número de homens e mulheres que se declaram homossexuais. Em todos os continentes. Perder este público? Seus votos? Desprezar mercados consumidores e força de trabalho? Conspirar contra a prosperidade? O que ganha o dono da pizzaria que recusa clientes? As religiões também, por instinto de sobrevivência, não precisam conquistar mais fieis?
    Discriminar não faz sentido.

    'Morte aos gays!' - Leto Magnoli

    folha de são paulo
    DEMÉTRIO MAGNOLI
    'Morte aos gays!'
    A noção de uma 'cultura africana' fornece às elites dirigentes o álibi de culpar o 'estrangeiro' pelos males
    "Homossexuais são, no fundo, mercenários. Eles são heterossexuais mas, porque lhes pagam, dizem que são homossexuais." As sentenças do presidente Yoweri Museveni acompanharam a assinatura de uma das mais drásticas leis homofóbicas do mundo, conhecida no país como "lei da Morte aos gays!". Uganda radicalizou, mas está com a maioria: 38 dos 54 países da África criminalizam a homossexualidade. Segundo a narrativa dos dirigentes homofóbicos africanos, a homossexualidade é uma perversão cultural inoculada de fora para dentro na África. Segundo a narrativa de uma corrente de intelectuais "anti-imperialistas", a homofobia é uma perversão política inoculada de fora para dentro na África. As duas narrativas estão erradas --e por um mesmo motivo.
    Museveni e seus colegas nos 38 países argumentam que os gays desembarcaram na África junto com os colonizadores europeus --isto é, que a homossexualidade é estranha à "cultura africana". Num paradoxo esclarecedor, agentes evangelizadores americanos que operam na África dizem o mesmo. Com a palavra, Stephen Phelan, da ONG católica Human Life International: "Achamos que é importante estarmos na África porque a investida contra os valores africanos naturais pró-vida e pró-família está vindo dos EUA. Então, nos sentimos na obrigação de ajudá-los a entender a ameaça e a reagir a ela com base em seus próprios valores e culturas."
    A postulação de uma "cultura africana" nasceu fora da África, no ventre do pan-africanismo, uma doutrina elaborada por intelectuais americanos e caribenhos no anoitecer do século 19. O pan-africanismo "africanizou-se" no pós-guerra, quando foi adotado por jovens intelectuais africanos que estudavam na Europa e nos EUA. Aqueles intelectuais viriam a liderar os movimentos de independência, convertendo-se em "pais fundadores" das atuais nações africanas. O sonho da unidade política da África esvaiu-se, mas a doutrina pan-africana sobreviveu como discurso legitimador dos novos regimes africanos. Sua pedra-de-toque é a noção de "cultura africana". Ela proporciona às elites dirigentes o álibi de culpar o "estrangeiro" (o colonizador, no passado; os EUA ou a Europa, no presente) pelos males que afligem seus países.
    "Cultura africana", assim no singular, é uma noção enraizada no pensamento racial. Os intelectuais "anti-imperialistas" também a adotam, eximindo os dirigentes africanos da responsabilidade pelas leis homofóbicas. Eles argumentam que o homossexualismo era tolerado em certos povos africanos antes da colonização. É uma verdade de escasso significado: os gays não sofreram discriminação em diversas sociedades tradicionais, nos mais diferentes lugares do mundo, ao longo da história. Eles registram, ainda, que as primeiras "leis anti-sodomia" foram introduzidas na África pelos impérios europeus. Contudo, não se atrevem a explicar por que tais leis são restauradas na África muito depois de sua anulação nas antigas metrópoles europeias.
    O homossexualismo não é, evidentemente, "anti-africano" --assim como não é "anti-Ocidental". A homofobia não é "anti-africana" --nem, tampouco, "africana". Como os EUA seriam governados se Stephen Phelan ocupasse o lugar de Barack Obama? O que faria nosso Marcos Feliciano se dispusesse de um poder absoluto? A difusão das leis anti-gays na África só pode ser entendida se nos desvencilhamos da tese da "cultura africana", uma ideia patrocinada no Brasil pelos arautos das políticas de raça.
    O grito de "Morte aos gays!" é um fruto do poder despótico de elites políticas não cerceadas pelas instituições da democracia, em sociedades traumatizadas por céleres processos de modernização. As campanhas homofóbicas na África são ferramentas de perseguição política e de cristalização de controle social. Essa abominação nada tem de especificamente "africano".

    Helio Schwartsman

    folha de são paulo
    HÉLIO SCHWARTSMAN
    Médicos no pelourinho?
    SÃO PAULO - Os cubanos que participam do Mais Médicos estão num regime de trabalho análogo à escravidão? Meu amigo Ives Gandra da Silva Martins escreveu um interessante artigo tentando mostrar que sim. Destrinchou o contrato que rege a atuação desses profissionais no Brasil e foi apontando as muitas ilegalidades em que incorre.
    Do ponto de vista jurídico, Ives tem razão. Se o Ministério Público do Trabalho quiser, não terá dificuldades para questionar o Mais Médicos. Penso, porém, que juízos valorativos acerca do programa devem ser feitos com base em considerações éticas e não jurídicas. Afinal, se há algo perto de um consenso acerca da legislação trabalhista brasileira é o de que ela é ruim, amarrando demais as relações entre patrões e empregados.
    E, no plano da ética, a discussão é mais complicada. Sei que o Ives é fã de matrizes deontológicas, nas quais o certo e o errado encontram definições naturais ou positivas, mas eu tendo a abraçar modelos mais consequencialistas, nos quais as ações são julgadas primordialmente pelos resultados que produzem.
    Sob essa perspectiva, mais importante do que perguntar se o cubano está sendo tratado com justiça (um conceito irredutivelmente metafísico) é determinar se aqui ele está melhor ou pior do que em Cuba. Se ganha mais aqui e veio de livre e espontânea vontade (tão livre quanto possível numa ditadura como a cubana), não caberiam objeções trabalhistas à empreitada. O fato de haver médicos de outras nacionalidades ganhando mais do que ele não anula o aprimoramento de sua situação. No mais, se nosso cubano estiver pensando em desertar, tem mais chances de fazê-lo estando no Brasil do que na ilha.
    É claro que o programa permanece vulnerável a outras críticas. Ele é caro, por exemplo. Acho que conseguiríamos efeito sanitário semelhante contratando enfermeiros. O problema é que o marketing político exige que tenham o título de médicos.

    Jogo de suspeitas - Editorial FolhaSP

    folha de são paulo
    Jogo de suspeitas
    Quando cada ministro do STF desconfia de intenções e motivos ocultos de seus colegas, é a instituição inteira que se desmoraliza
    Quem acompanhou o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal conhece a vocação de seu presidente, Joaquim Barbosa, para o destempero, a invectiva e o desrespeito. De novo inconformado com a opinião divergente --desta vez, na absolvição dos mensaleiros no caso da formação de quadrilha--, o ministro foi além.
    No discurso em que promulgou o resultado da sessão, considerou apropriado lançar um "alerta à nação brasileira". Prognosticou o início de uma temporada de absolvições, já que, em sua opinião, uma maioria circunstancial de membros da corte havia sido formatada expressamente para tal objetivo.
    A referência era inequívoca. Só faltou apontar o dedo para os novos ministros, Teori Zavascki e Luís Roberto Barroso, cujos "argumentos pífios" livraram José Dirceu e associados do crime de quadrilha.
    Barbosa não contestou, assim, apenas os argumentos de ambos --que, de resto, concordavam nesse ponto com a ministra Cármen Lúcia, em geral firme na convicção condenatória. Deixou sob suspeita a própria composição do tribunal.
    Pode-se perguntar que condições terá, a partir de agora, para conduzir julgamentos que, no seu raciocínio, pouco diferem das cenas de um teatro de marionetes.
    Num ambiente tenso, também as considerações de Barroso adentraram o terreno da desconfiança e da sistemática suspeição. Vendo exagero dos colegas na atribuição das sanções, o ministro deslizou, ainda que com mais graciosidade, pela mesma encosta perigosa.
    Penas tão altas, raciocinou, teriam sido fixadas de caso pensado, a fim de evitar que os réus se beneficiassem da prescrição do crime.
    Os fatos, entretanto, parecem ser outros. A escolha das punições pelos julgadores correspondeu, dentro dos limites da lei, ao que cada um entendeu ser necessário para que fosse feita justiça.
    Classificar como arbitrária, forçada e artificial a pena mais alta pode ser tão perigoso quanto pensar que sua diminuição atendia a encomendas do governo petista.
    Se cada ministro do STF passa a comentar as intenções supostas e os motivos ocultos das decisões dos colegas, é a instituição inteira que se desmoraliza --e isso interessa apenas aos condenados e aos réus que aguardam sua sentença.
    Felizmente, o processo do mensalão fala por si. Personagens de peso no cenário nacional foram julgadas sob permanente escrutínio público. Assegurou-se o contraditório; apresentaram-se e discutiram-se as inúmeras provas; chegou-se, enfim, a um veredicto independente e equilibrado.
    Para uns, a punição terá sido pequena; para outros, exagerada. É do jogo que seja assim. Nem comentários desmedidos nem advogados exaltados, contudo, conseguirão retirar desse julgamento seu caráter histórico e insuspeito.