domingo, 30 de março de 2014

De Massu@edu para EnzoPeri@gov - Elio Gaspari

jornal o globo
ELIO GASPARI
De Massu@edu para EnzoPeri@gov
General, o sr. nunca colocou a mão na massa, eu coloquei, ajude o Exército dissociando-o da tortura passada
Senhor Comandante do Exército Brasileiro,
Enquanto vivi, até 2002, fui visto pelos comunistas como um assassino. O general Jacques Massu encarnava a tortura e o extermínio de terroristas que lutavam pela independência da Argélia. Escrevo-lhe com essa autoridade. Eu mandei torturar (testei a máquina de choques elétricos no meu próprio corpo) e ganhei a Batalha de Argel. Um palhaço italiano fez um filme com esse título. Fui um soldado. Lutei na Segunda Guerra e no Vietnã. Em 1956 assumi plenos poderes para acabar com a revolta argelina e um ano depois a insurreição estava dominada. Matamos duzentos e prendemos 1.800. Os comunistas dizem que sumimos com quatro mil.
Falo com a autoridade de um vencedor derrotado. Ganhei a batalha, mas perdi a guerra. O general De Gaulle deu a independência à Argélia e, quando resolvi confrontá-lo numa entrevista, meteu-me o chanfalho, tomando-me o comando. Fez muito bem. Como soldado, voltei ao quartel, e em 1968, quando ele precisou de apoio, veio para meu quartel. De Gaulle achava que eu era um idiota. Talvez fosse, mas era gaullista. Aí no Brasil vocês também ganharam a batalha e perderam a guerra. A senhora que preside o país, eleita pelo povo, foi militante de uma organização terrorista na juventude.
Escrevo-lhe numa terceira capacidade. Vi a ruína da máquina que montei. Começamos torturando terroristas, tentamos um golpe de Estado e acabamos criando uma milícia terrorista e corrupta. O chefe civil desse grupo asilou-se aí no Brasil e viveu em Campinas. Centenas de homens da minha tropa explodiram bombas, mataram um general e armaram vinte atentados para liquidar De Gaulle. Num, quase conseguiram. Acertaram 14 tiros no Citroën do presidente. O coronel que comandou a operação pediu clemência, mas De Gaulle passou-o nas armas.
General Enzo, aí no Brasil aconteceu a mesma coisa. Da máquina da tortura saiu um braço terrorista. O general Paul Aussaresses foi adido militar no Brasil. Ele trabalhou comigo na Argélia e hoje vive jantando com uns generais brasileiros que mandavam no Centro de Informações do Exército. Eu os evito, porque sei que, ao contrário do que sucedeu na França, o terrorismo militar brasileiro não operou na clandestinidade. Continuou dentro da hierarquia. O senhor sabe quem botou bombas por aí, até que dois trapalhões explodiram-se no Riocentro. Os senhores cometeram um erro militar quando não seccionaram esse braço criminoso, mas o feito, feito está.
O erro militar persiste quando os senhores se recusam a admitir o que houve. O Exército francês não carrega mais a cruz do que Jacques Massu fez na Argélia. De general para general: o major que comandava um centro de torturas onde matavam brasileiros que ameaçavam o Estado estava cumprindo ordens e depois seguiu sua carreira, como eu. É diverso o caso de outro major que, ouvindo chefes, metia-se com bombas. Um coronel que trabalhou no SNI diz que houve um plano para derrubar o helicóptero do presidente. Conheço minha gente, sei a distância entre querer e fazer, mas o fato é que pensaram nisso ou, pelo menos, disseram que pensaram.
O primeiro erro militar cometido pelos generais brasileiros (e por mim) foi transformar tenentinhos em torturadores e assassinos. O segundo foi acobertar crimes que nada tinham a ver com a defesa do Estado. Pelo contrário, queriam explodi-lo. O terceiro, seu, é achar que o silêncio abafará o passado. Peça o livro de alterações do oficial Freddie Perdigão Pereira e veja como um tenente dos blindados transformou-se num matador e meteu-se em atos terroristas. Veja lá, general, ele estava com os blindados, não tinha curso de motomecanização, mas montava cavalos e jogava vôlei. Hélas! Eu já o vi por aqui. Parece-se com Roger Degueldre, um dos meus tenentes, que foi executado no Fort d'Ivry. Não foi fácil fazer a transição. Três oficiais recusaram-se a comandar o pelotão de fuzilamento de Degueldre.
Quem transformou esse tenente no terrorista "Danielle"? Nós, os generais da época.
O fatos ocorridos nas vossas prisões estão cobertos pela Lei da Anistia. Se o Congresso e o Supremo Tribunal Federal quiserem mudá-la, assim são as coisas, mas enquanto isso não acontecer, vale a lei. Os comunistas se esquecem que em 1946 o governo italiano anistiou os delitos cometidos depois de 1943 pelos fascistas e pelos combatentes da Resistência. Lembremos que essa lei foi assinada pelo ministro da Justiça, Palmiro Togliatti, secretário-geral do Partido Comunista.
Soldados sabem como é a vida. Os políticos e os endinheirados nos chamam para fazer o serviço e olham para o lado. Quando a situação muda, deixam a sujeira correr para os quartéis. Outro dia um general magrinho, seco como uma uva passa, contou-me que, há pouco tempo, nos cinemas brasileiros aplaudiu-se em cena aberta um filme que mostrava um traficante de drogas sendo torturado pela polícia militar do Rio de Janeiro. Ele diz que a tortura tem apoio popular. Parece que nos anos 70 ele chefiou o Centro de Informações do Exército.
Como essa mentalidade nunca desaparecerá, despeço-me deixando um registro: Jacques Massu pode ser um idiota, afinal, foi De Gaulle quem o disse, mas não é teimoso. Em 2000, aos 92 anos, dei uma entrevista dizendo o seguinte: "A tortura não é indispensável em tempo de guerra, podíamos ter passado sem ela. Quando repenso a Argélia, desolo-me. Aquilo fazia parte de um ambiente".
Por que o senhor não diz coisa parecida? Afinal, ao contrário do Massu, o senhor nunca meteu a mão na massa.
Respeitosamente,
Jacques Massu
General do Exército francês
PETROCOMISSÁRIO
A Polícia Federal ouviu um telefonema recebido por uma parente do petrocomissário Paulo Roberto da Costa pedindo a um parente próximo que recolhesse computadores que estavam em sua casa.
Deu errado. As máquinas foram apreendidas e, para piorar a situação, o doutor, que está na cadeia, sabe que criou problemas para pessoas que nada tinham a ver com sua memória eletrônica.
Esse episódio poderá refrescar sua memória biológica nos depoimentos ao Ministério Público.
SILÊNCIO
O deputado Vicentinho, líder do PT na Câmara, mostra o lado decadente do comissariado quando ameaça responder à oposição com investigações sobre esqueletos do PSDB, como o cartel da Alstom em São Paulo.
A ideia é ótima, mas veio tarde, como se o companheiro quisesse cobrar pelo próprio silêncio.
Nada de novo. Quando começaram os pedidos de investigação da Petrobras, saiu de sua cúpula a seguinte pergunta: "Porque só na Petrobras?"
AVISO AMIGO
Se o governo quer evitar surpresas, deve dar uma olhada nos negócios que copatrocina juntando grandes empreiteiras, bancos oficiais e cleptocratas africanos. Nunca é demais lembrar que Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, é a mulher mais rica d'Africa, com uma poupança estimada em US$ 4,1 bilhões.
MISTÉRIO
É sabido que os americanos vivem em estado de alerta contra doenças transmitidas por bichos. Lá as vacinas antirrábicas de cachorros valem por três anos. No Brasil, valem só por um ano.
Ou os cachorros brasileiros são viciados em vacinas ou o vício é outro.

sexta-feira, 28 de março de 2014

L'invitation au Voyage - Charles Baudelaire

via Facebook de Cora Ronai 
L'invitation au Voyage:

Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
À l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde;
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.
— Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D'hyacinthe et d'or;
Le monde s'endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

— Charles Baudelaire
 (13 photos)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Elio Gaspari sobre o DNA do golpismo, à direita e à esquerda.


jornal o globo
ELIO GASPARI
1964...2014
Jango foi deposto pela carta golpista que estava nas mãos de vários jogadores, mas a direita fez a canastra
A deposição do presidente João Goulart continua a ser um tema divisivo na política brasileira porque, meio século depois, alguns itens da agenda de 1964 continuam presentes, ao vivo e a cores. Registre-se que o elemento primordial, detonador e desfecho da revolta, foi o fato de que os dois lados jogavam com a carta da intervenção militar. Jango tinha um "dispositivo" nos quartéis e seus adversários tinham conspirações desconexas, até que um general voluntarioso implodiu a ordem constitucional. Não existe mais essa carta, mas há outras que, na essência, derivam de pensamentos autoritários. Vale a pena visitá-los, pois permitem que se descubra, em 2014, o código genético do golpismo de 1964.
O primeiro é a falta de respeito à vontade popular. Há 50 anos, uma das provas de que Jango era um esquerdista estava na sua defesa do voto para o analfabeto. Um iletrado não podia ter o mesmo peso político que um doutor. Veio a ditadura e cassou os votos de todos para a escolha do presidente. Em 1969, depois que o presidente Costa e Silva ficou incapacitado, os generais sabiam que o voto de um analfabeto não valia o de um doutor, mas descobriram que o de um coronel não valia o de um general e o de um general que comandava uma mesa não valia o de outro, que comandava uma tropa. Resultado: elegeram o general Emílio Médici sem que se saiba como essa escolha foi feita. A desqualificação do voto alheio está aí até hoje.
Há 50 anos havia uma repulsa ao Congresso e aos políticos. Um lado achava que o povo não sabia votar e elegia ladrões. O outro achava a mesma coisa e havia nele quem quisesse que a rua arrancasse uma Constituinte para fazer as reformas para o bem do país, permitindo inclusive que Jango fosse candidato à Presidência. Hoje as duas visões sobrevivem e no ano passado a doutora Dilma flertou com uma Constituinte exclusiva com adereços plebiscitários.
Passaram-se 50 anos e aquilo que se chamava de infiltração comunista no governo denomina-se hoje aparelhamento do Estado pelo PT. Havia infiltração comunista na Petrobras em 1964, houve um período de petropirataria durante o tucanato e hoje há um comissariado petista na empresa.
1964 continua divisivo porque em 2014 há pessoas que veem nas instituições democráticas a origem e sede dos males. Isso vale tanto para o sujeito que não confia na vontade popular que escolhe presidentes petistas como para comissários que veem nessa mesma vontade uma massa incapaz de eleger um Congresso que vote as leis necessárias para que o partido desenvolva o que chama de projeto estratégico. O golpista é antes de tudo um cético em busca de surtos de força.
Em 1964 havia dois candidatos à Presidência: Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek. Muita gente preferia um golpe a Lacerda e, do outro lado, sonhava-se com o golpe que evitaria a volta de JK. Um terceiro grupo queria virar a mesa contra os dois. Deu no que deu e vinte anos depois todos achavam que tanto Lacerda como JK teriam sido melhores que a ditadura. Como a "Revolução Redentora" teria sido coisa dos militares, todos os civis viraram democratas. Felizmente, em 2014 a carta dos quartéis saiu do baralho. O DNA golpista contudo não desaparece, mesmo enfraquecido, transmuta-se.

domingo, 23 de março de 2014

Elio Gaspari

jornal o globo
De GetulioVargas@edu para Dilma@gov
Como eu, a senhora pratica a diplomacia do silêncio, ela não traz popularidade, mas é a melhor para nós
Excelência
Escrevo-lhe para felicitá-la. A senhora restabeleceu uma diplomacia discreta, diria mesmo de recusa a exibicionismos inúteis. Há dificuldades na Venezuela e agora surgiu a crise da Crimeia, mas estamos fora dos holofotes.
Peça ao Sarney a poesia "A Carga da Cavalaria Ligeira" de Lord Tennyson. Ele conta o ataque de cavaleiros ingleses contra uma tropa turca artilhada durante a batalha de Balaclava, na guerra da Crimeia do seculo 19. Li-a ontem para minha amada Aimée. Foi um desastre produzido por generais ineptos, mas o poema mostra como as potências fabricam mitos heroicos.
Minhas dificuldades foram maiores que as suas. Consegui ficar neutro durante a Guerra Civil Espanhola. Até onde pude, mantive-me longe do conflito europeu. Sem fanfarra, em maio de 1941, avisei ao embaixador japonês que se um país americano fosse atacado, nós seriamos solidários. Em dezembro eles bombardearam Pearl Harbor. Os americanos exigiam o controle de uma base aérea no Saliente Nordestino, pois sem a rota de Natal a Dacar ficariam aprisionados pelo Atlântico. Cedi. Lidei com embaixadores impertinentes e tive pavões no Ministério das Relações Exteriores. O Oswaldo Aranha achava que era o gerador do mundo, centro do universo.
Depois que saí da vida para entrar na história, há 60 anos, vieram o Juscelino com a tal de "Operação Pan-Americana", o Jânio com a "Politica Externa Independente", o Castello Branco com a "interdependente" e o Sr. Luiz Inácio da Silva, que se tornou um papagaio de pirata de crises internacionais. Usei essa expressão que hoje é comum aí, mas não sei se o fiz corretamente. As diplomacias de slogans são apenas propaganda política. Os generais mandaram tropas para ocupar a República Dominicana, num episódio que hoje se procura apagar. Chegamos ao ponto de o general Médici cobrar do presidente Nixon a deposição de Fidel Castro. Outro dia o Nixon me perguntou porque ele fez aquilo.
Diplomacia sem fanfarra tem um custo. Criticam-nos de todos os lados, acusando-nos de omissão. Há quem lhe ataque por estar próxima dos bolivarianos e também por ficar distante. Algum gabola da Comunidade Europeia resolveu botar fogo na Ucrânia sem prever a reação da Rússia. Em 1956 os americanos insuflaram a rebeldia húngara e em 1962 a dos cubanos de Miami. Fracassaram e abandonaram os aliados. O Pedro 2º lembrou-me de que manteve nossa neutralidade durante a guerra civil mexicana, quando os rebeldes fuzilaram-lhe o primo-irmão Maximiliano. Os franceses, que haviam insuflado sua aventura, abandonaram-no.
Quando nos metemos a buscar um papel maior que nossa importância internacional, invariavelmente acabamos dificultando a defesa dos nossos verdadeiros interesses. Parabéns, senhora.
Com todo respeito,
Getúlio Vargas
CENA BRASILEIRA
O presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, visitava o presídio de Porto Alegre quando um major da brigada pediu a palavra e contou que "somos 12% da população do Estado e 40% da população carcerária": "Deve ter alguma coisa errada".
Mal terminou a frase, ouviram-se mumunhas para que o major calasse a boca. Barbosa pediu que o deixassem falar. Em seguida, respondeu: "Eu percebi".
O que incomodou os áulicos? As estatísticas ou o fato de um negro levantar esse assunto para outro negro?
PACIFICADOR
O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, zangou-se quando um pesquisador apontou a "pacificação" das estatísticas de homicídios do Estado.
Depois da morte de Cláudia Silva Ferreira, arrastada pela viatura que devia levá-la ao hospital, o repórter Marcelo Gomes informou o seguinte:
O subtenente Adir Serrano Machado, que estava na cena viu-se listado em 57 "autos de resistência" em que morreram 63 pessoas. Seu colega Rodney Archanjo, está em outros cinco, com seis mortos.
De duas uma, ou as estatísticas da polícia do Rio assemelham-se às reuniões dos conselhos do comissariado, ou policiais como Machado e Archanjo são versões modernas do Sargento York, o soldado americano da Primeira Guerra, magistralmente representado por Gary Cooper. Sozinho, York matou 28 alemães e capturou 132.
Como disse o viúvo de Cláudia, ao governador Sérgio Cabral: "Se não tivesse aquele cara que filmou, este seria só mais um caso. Tomou tiro, entrou no hospital e morreu".
CHEGOU A CONTA DA BOLSA CONSELHO
A prática é velha: reforça-se o orçamento dos hierarcas nomeando-os para conselhos de empresas. Ela vale tanto na administração federal como nas dos Estados. Tome-se o exemplo de Dilma Rousseff. Em 2006, como chefe da Casa Civil, tinha um salário mensal de R$ 8.362. Em 2007, ganhava R$ 8.700 mensais como conselheira da Petrobras e de sua distribuidora. À Casa Civil ela ia todo dia, aos conselhos, uma vez a cada dois meses (e às vezes chegava atrasada).
O conselho de Itaipu, joia da coroa do comissariado, paga R$ 19 mil. Em 2012 havia treze ministros nas Bolsas Conselho e os doutores Guido Mantega e Miriam Belchior fechavam os meses com um total de R$ 41,5 mil. A comissária Belchior estava no conselho da BR Distribuidora, para quê, não se sabe.
Quando o PT estava na oposição, reclamava disso. No governo, acostumou-se. Agora chegou a conta. Como integrante (e presidente) do Conselho da Petrobras, Dilma é responsável pela aprovação da ruinosa compra de uma refinaria em Pasadena, nos Estados Unidos. A repórter Andreza Matais obteve do Planalto uma nota, escrita pela doutora, informando que a decisão foi tomada com base num relatório "técnica e juridicamente falho". A ver. A ruína estava em duas cláusulas do contrato e elas viriam a custar US$ 820 milhões à empresa. A explicação segundo a qual esses dispositivos só chegaram ao conhecimento dos conselheiros depois da aprovação do negócio é plausível. Mesmo que a doutora só tenha percebido a ruína depois, era a poderosa chefe da Casa Civil. Quem pode tirar quaisquer dúvidas sobre o caso é o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que está preso na Policia Federal.
Numa estrutura séria, seria demitido o presidente da empresa, ou iriam embora os conselheiros que se julgaram desinformados. Os conselhos de estatais não são sérios, são bicos. O caso da refinaria acertou a testa da doutora Rousseff, a gerentona que pode ser acusada de viver num mundo de verdades próprias, mas nunca se meteu em transações tenebrosas. A vida é arte, errar faz parte. Enquanto houver hierarcas em boquinhas, o erro será a arte.

sexta-feira, 21 de março de 2014

125 anos de Cora Coralina

Avant-première

Por João Bernardo Caldeira | Para o Valor Econômico
125 anos de Cora
A partir de obras de Adélia Prado e Cora Coralina (1889-1985), duas amigas fazem um balanço de suas vidas. Esse é o enredo de "Cora e Adélia - Receita de Poesia em um Dedo de Prosa", que estreia quarta-feira no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro. Com direção de Rafaela Amado, o espetáculo homenageia Cora, que publicou seu primeiro livro, "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais", em 1965, quando tinha 76 anos.
Com Estados e municípios
Será em breve lançada nova linha do Fundo Setorial do Audiovisual destinada a injetar recursos em programas estaduais e municipais de fomento ao audiovisual. A intenção é estimular governos a desenvolver políticas para o setor e realizar investimentos casados com foco em produção de longas e obras para a TV. O valor total do aporte será de R$ 20 milhões. Aos que já possuem programas em curso, serão destinados R$ 30 milhões. Há cerca de um ano, a RioFilme propôs parceria com o Fundo. "Desejamos ter a RioFilme como parceira, assim como saudamos o surgimento da SP Cine, em São Paulo, e interesses manifestados por Pernambuco, Bahia, Tocantins, Ceará, Paraná, Alagoas e Rio Grande do Sul", diz Manoel Rangel, presidente da Ancine.
Brasil global
Criada em 1991, a conferência "Public Broadcasters International", que reúne emissoras públicas de todo o mundo, será sediada no Brasil, em novembro. É a primeira vez que o evento será realizado na América Latina. A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) organizará a iniciativa, com a missão de incentivar a presença de emissoras do continente latino. Com os drásticos cortes de orçamento observados na Europa, cresce o interesse por parcerias e troca de informação. Na reunião do comitê organizador, nesta semana, no Rio, com representantes de canais como BBC (Inglaterra), PBS (EUA) e NHK (Japão), foi debatida a proposta da EBC de implementação de uma rede de compartilhamento de conteúdo.
Brasil-França
Diretor da France Télévisions, Hervé Michel forneceu um retrato do mercado de TV francês, no RioContentMarket, semana passada. "Com a chegada da TV digital, o número de redes passou de sete para 25", disse. A legislação determina que apenas produtoras independentes podem produzir filmes, documentários, animação e dramaturgia. Os canais limitam-se às áreas de esportes, notícias e variedades. Embora a ficção domine o mercado (61% das produções), Michel sugeriu parcerias na produção de documentário: "O mercado francês ainda está se desenvolvendo em termos de coprodução, mas precisaremos de novos parceiros".
Brasil-Argentina
Também presente no evento, a deputada argentina Liliana Mazure destacou a importância do fundo de coprodução realizado com o Brasil. "Criou uma relação mais dinâmica entre produtores argentinos e brasileiros", afirmou. Ex-presidente do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais, Liliana diz que ainda há muito a se desenvolver na América Latina: "Os países ainda precisam construir políticas de inclusão do audiovisual e da cultura, assim como pensam moradia, alimentação, educação e saúde".
Leia mais em:
http://www.valor.com.br/cultura/3488176/avant-premiere#ixzz2wcx21w8L

quarta-feira, 19 de março de 2014

Elio Gaspari

jornal o globo
O comissariado destruidor
Quando a doutora Dilma assumiu a Presidência, uma ação da Petrobras valia R$ 29. Hoje ela vale R$ 12,60. Somando-se a perda de valor de mercado da Petrobras à da Eletrobras, chega-se a cerca de US$ 100 bilhões. Isso significa que a gestão da doutora comeu um ervanário equivalente à fortuna do homem mais rico do mundo (Bill Gates, com US$ 76 bilhões), mais a do homem mais rico do Brasil (Jorge Paulo Lemann, com US$ 19,7 bilhões). Noutra conta, a perda do valor de mercado das duas empresas de energia equivale à fortuna dos dez maiores bilionários brasileiros.
Se o governo da doutora Dilma deve ser avaliado pela sua capacidade executiva, o comissariado petista contrapõe ao conceito de "destruição criadora" do capitalismo a novidade da destruição destruidora. No caso do preço dos combustíveis, de quebra, aleijou o mercado de produção de álcool.
Há empresas como a Polaroid, por exemplo, que vão à ruína porque vivem de uma tecnologia caduca. Outras cometem erros de concepção, como as aventuras amazônicas da Fordlândia e do Jari. É o jogo jogado. A perda de valor da Petrobras e da Eletrobras está fora dessas categorias. Acusar a doutora Graça Foster pelos maus números da Petrobras seria uma injustiça. A desgraça derivou de uma decisão de política econômica, mas responsabilizar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pelo que acontece nessa área seria caso de atribuição indevida.
O que agrava o episódio é que tanto a Petrobras como a Eletrobras atolaram por causa de uma decisão politicamente oportunista e economicamente leviana. Tratava-se de vender energia a preços baixos para acomodar o índice do custo de vida, segurando a popularidade do governo. O truque é velho. Mesmo quando deu resultados políticos imediatos, sempre acabou em desastres para a economia.
Vem aí a campanha eleitoral e o governo irá à luta buscando a reeleição de Dilma Rousseff com duas plataformas: a da qualidade de sua gerência e os avanços sociais que dela derivaram. Numa área em que os governos petistas produziram o êxito do Prouni, o ministro da Educação Fernando Haddad criou o novo Enem em 2009. Prometia a realização de dois exames por ano. Nada, mas continuou prometendo. Em 2012 a doutora Dilma anunciou: "No ano que vem [serão] duas edições". Nada. Apesar de ela ter dito isso, o ministro Aloizio Mercadante e seu sucessor, José Henrique Paim, descartaram a segunda prova, que daria à garotada uma segunda chance de disputar a vaga na universidade. (Nos Estados Unidos, o equivalente ao Enem oferece sete datas a cada ano.) O novo presidente do Inep, organismo encarregado de aplicar o exame, dá a seguinte explicação: "É impossível se fazer dois Enens' por ano com esse Enem. O crescimento [de inscritos] foi de tal ordem que a logística se impôs".
É um caso simples de gerência. Quem disse que ia fazer dois exames foi o governo. As dificuldades logísticas não explicam coisa nenhuma, porque elas já estavam aí em 2009 e, desde então, o Brasil não incorporou ao seu território a península da Crimeia.
O que há no governo é mais do que má gerencia. É uma fé infinita na empulhação, ofendendo a inteligência alheia.

Sobre meu pai - Saulo Szinkaruk Barbosa

revista piauí 
Edição 90 > _história pessoal > Março de 2014

Sobre meu pai
Para mim foi impossível durante vinte anos nomear sua doença
por SAULO SZINKARUK BARBOSA

 
Era um ritual que Roberto repetia com frequência. Vestia meias grossas, calças de lã, camiseta, camisa, pulôver de gola em V e sobretudo. Deitava-se sobre a colcha de chenile que cobria a cama feita. Cruzava as mãos sobre o peito e assim permanecia. Totalmente imóvel, não fossem os olhos a perscrutar ansiosos o teto do quarto, como quem tenta identificar com a visão o barulho que os ouvidos estão esperando. Quando sua mulher perguntava o que estava fazendo, a resposta vinha firme, com convicção: “Estou pronto para a guerra.”
E não adiantava ela lhe dizer que não havia guerra nenhuma, ou que era verão e tanta roupa só podia fazer mal. Porque Roberto Oliveira Barbosa, meu pai, era esquizofrênico.
Hoje, dizer isso assim, com todas as letras, é até fácil. Mas durante os primeiros vinte anos da minha vida foi impossível. Em parte porque, embora desde cedo tivessem me dito que meu pai era doente e que eu precisava entender, ninguém nunca me contou o que ele tinha, nem se algum dia se curaria. Não que minha família fosse relapsa comigo ou com meu irmão mais novo, ignorando as consequências que a esquizofrenia do nosso pai poderia nos causar. Apenas foi o jeito que minha mãe e meus avós paternos encontraram para lidar com a situação. Um padrão de comportamento que desde cedo aprendi a replicar, e que de certo modo explica por que demorei tanto para encarar os fatos: a gente ia levando, tentando deixar tudo o mais normal possível, contornando as crises da doença com paciência, silenciando e baixando os olhos quando os delírios incluíam acusações descabidas ou frases que doíam, e nunca, nunca discutíamos o problema depois que o pior passava. Era no silêncio cúmplice e na rotina que se restabelecia – um almoço sem incidentes, uma tarde de chimarrão e conversa fiada – que encontrávamos o equilíbrio para aguentar firme e seguir adiante.
É verdade que as crises mais intensas, ao que me lembre, eram esparsas. A medicação mantinha meu pai consideravelmente lúcido e coerente boa parte do tempo, ainda que ele não fosse capaz de trabalhar ou se envolver em alguma tarefa que exigisse comprometimento. Quem não soubesse da esquizofrenia podia facilmente pensar que se tratava de um sujeito na plenitude das suas faculdades mentais. Um pouco calado, talvez, mas nada além disso. Era preciso um contato mais demorado para perceber as distorções do cérebro doente, que em geral surgiam em raciocínios e conclusões estabelecidas a partir de lógicas muito particulares.
Lembro uma ocasião em que estávamos almoçando na casa dos meus avós e meu pai, do nada, sugeriu seriamente que todos rompêssemos com um parente distante. Não fizemos nenhuma pergunta – conhecíamos exatamente aquele tipo de situação. Ele explicou mesmo assim. Disse que certa vez estava andando na rua com algumas pessoas e que, quando uma delas mencionou o tal parente, ele tropeçou. Era evidente, portanto, que o sujeito não era boa pessoa e que devíamos evitá-lo. Situações assim eram bastante frequentes, tanto que todos sabíamos que o melhor era ignorar, logo ele esqueceria e tudo seguiria seu curso.
Sem a medicação, porém, ou quando por algum motivo ela era trocada ou tinha a dosagem ajustada, a coisa mudava de figura. Aí, sim, precisávamos tratar com uma pessoa sem nenhuma capacidade de discernimento. Felizmente meu pai não era violento ou autodestrutivo. Suas atitudes nas crises mais fortes eram apenas excêntricas e embaraçosas: cobria os móveis da casa com lençóis porque achava que eles estavam com frio; andava pelas ruas a pé como se estivesse de carro, respeitando as mãos do trânsito; conversava efusivamente sozinho, com o cenho franzido e as mãos agitadas; elucubrava projetos sem sentido. Certa feita cismou que deveria trocar seu nome para Vitoffbar, sigla que criou juntando as primeiras letras de todos os sobrenomes da árvore genealógica da família.
Mesmo assim, e por mais que as crises me envergonhassem, nunca procurei esconder meu pai. Meus amigos da rua e colegas de colégio frequentavam minha casa. Quando éramos mais novos, eles faziam perguntas: “O que teu pai faz?”, “Ele está de férias?”, “Por que teu pai está em casa a essa hora?” Eu respondia que ele cuidava dos negócios da família; meu irmão preferia dizer que ele era advogado. Depois que entramos na adolescência, as perguntas cessaram. Aos poucos meus amigos compreenderam a situação, ou foram alertados por seus pais. De mim, nunca nenhum deles ouviu nada. Eu ainda levaria muitos anos para ser capaz de falar sobre o assunto com alguém.

A esquizofrenia é uma doença que a medicina tenta entender. Atualmente, acredita-se que sua causa esteja numa combinação de fatores genéticos e comportamentais, como o ambiente familiar e experiências traumáticas. Na minha família paterna, o histórico de transtornos mentais é considerável, se bem que mal documentado e raramente diagnosticado. Já ouvi histórias sobre meu bisavô, avô do meu pai, ser “meio esquisito”, mas daí a saber do que exatamente ele sofria vai uma longa distância. São lembranças puídas pelo tempo, de uma época em que o máximo de precisão a que o médico chegava era afirmar que o paciente “sofria dos nervos”. Ouvi também relatos de primos cujas vidas foram de alguma forma desviadas do curso normal por algum tipo de impedimento mental.
A história do meu pai segue o que a literatura médica define como padrão da esquizofrenia. A vida corre sem incidentes até o início da fase adulta, quando se iniciam as crises. Após uma infância e adolescência normais, meu pai saiu de Santo Ângelo, município com pouco mais de 70 mil habitantes onde havia crescido, para fazer faculdade em Santa Maria, uma cidade universitária agitada, quase quatro vezes maior que sua terra natal. Era começo dos anos 70 e ele tinha 18 anos. Foi quando ocorreram as primeiras manifestações.
Há quem credite a explosão do gene adormecido ao rompimento com um ambiente familiar superprotetor. Outros atribuem ao abuso de drogas – comportamento que a medicina considera um gatilho possível – dos primeiros semestres na universidade. Minha avó, que até hoje rejeita o diagnóstico oficial, especula que tudo começou quando ele bateu a cabeça durante uma viagem de ônibus, num solavanco mais vigoroso do veículo. O que se sabe ao certo é o que aconteceu a partir daí: vieram crises e mais crises. Meu pai faltava a boa parte das aulas. Sumia por dias a fio sem dar notícias, e quando voltava aparecia com os olhos esbugalhados, tremendo e dizendo coisas sem sentido. Era uma visão assustadora para minha família. Um terror amplificado pela ignorância de não fazer ideia do que estava acontecendo com ele, tão normal e estudioso até pouco tempo. Às crises se intercalavam tentativas de retomada da vida. Foram três faculdades iniciadas na Universidade Federal de Santa Maria, nenhuma jamais concluída; um período no curso de formação de tenentes do Exército; um punhado de empregos com amigos da família. Alguns anos mais tarde, de volta a Santo Ângelo, ele ainda tentou estudar direito, mas não concluiu o curso. Foi seu derradeiro esforço. Pelos anos seguintes, meus pais, meu irmão e eu vivemos da renda de imóveis da família, administrados com surpreendente tino por meu pai.
Ele só não desistiu da música. Tocava violão. Cresci ouvindo-o dedilhar Beatles, Roberto Carlos e Renato e Seus Blue Caps. Cantava muito bem e sabia ser o centro das atenções. As festas de família em que empunhava o instrumento e soltava a voz sempre me pareceram ser seus momentos mais felizes, quando de alguma forma ele conseguia fazer com que as coisas dessem certo.
Ainda assim, está ligada à música uma das lembranças mais vívidas que tenho da sua esquizofrenia. Eu era adolescente e estava aprendendo a tocar violão. Já conseguia executar algumas canções, porém era incapaz de afinar o instrumento. Pedi a meu pai que o fizesse. Ele sentou ao meu lado, na cama, e começou a arpejar as cordas com o polegar direito, enquanto girava as tarraxas com a outra mão. Estranhei os gestos dele, tocando todas as cordas abertas, isto é, sem usar a mão esquerda. Em geral, tocam-se as cordas aos pares na quinta casa do braço, descendo do bordão até a prima, e afinando uma pela outra (quinta pela sexta, quarta pela quinta etc.). Mas aquele era um momento tão raro – nós dois compartilhando alguma coisa – que não prestei muita atenção ao método. Fiquei apenas ouvindo o que meu pai me dizia enquanto ajustava o instrumento.
Ele tinha acabado de tomar banho e cheirava a sabonete, um odor ácido e frutado. Falava de teoria e técnica musical. A formação dos acordes, o arpejo, o dedilhado. Um pai ensinando algo ao filho, um momento tão banal, tão comum, e justamente por isso tão especial para mim. Quando ele me entregou o instrumento, armei um dó maior com a mão esquerda e toquei confiante. O violão ecoou um som tão caótico que até meu ouvido inexperiente percebeu que havia algo muito errado. Testei um lá maior. De novo, dissonância. Fiquei atordoado. Eu já tinha visto meu pai afinar um violão dúzias de vezes. E no entanto ele havia passado dez minutos regulando aquelas cordas que agora pareciam refletir a mente dele: um todo desajustado de onde é impossível extrair alguma coerência. Nem mesmo quando toquei os acordes e produzi sons indecifráveis ele percebeu o que estava acontecendo.
Em segundos, vi perplexo ruir nosso momento pai e filho. Eu sabia que não ia conseguir falar nada para ele. Temia o terreno em que pisaríamos se eu dissesse o óbvio: “Pai, não tá afinado.” Eu não seria capaz de esfacelar a normalidade daquele momento, ainda que ela fosse só aparente e, afinal, ilusória. Meu pai se levantou e saiu. Fiquei sozinho na cama, com um violão desafinado e um cheiro de sabonete que nunca mais esqueci.

Meu irmão e eu gostávamos de ir aos jogos do Passo Fundo, time de futebol da cidade onde nossa família, incluindo meus avós paternos, foi morar no começo dos anos 90. Um dia, para nossa grande surpresa, o pai quis ir junto. Lembro como meu irmão, que na época devia ter uns 9, 10 anos, ficou empolgado. Em geral quem nos acompanhava em qualquer atividade, dos deveres da escola até comprar doces na esquina, era nossa mãe ou avô, que sempre foi muito próximo e fez o possível para suprir o papel da figura masculina na nossa criação. Aos jogos, íamos somente meu irmão e eu. Mas naquele dia ele foi com a gente. Chegamos ao estádio e nos sentamos no concreto morno da arquibancada, alinhados com o meio de campo. O dia estava quente e não nos importamos com o sol que nos fazia apertar as pálpebras. Era um momento estranho. Feliz mas estranho, pois não tínhamos muita intimidade com nosso pai. Como ele varava as madrugadas e dormia boa parte do dia, nossas rotinas quase não se encontravam.
Acho que mal haviam se passado quinze minutos de jogo quando ele disse que queria ir embora. Ficamos sem reação. Ele tentava se desculpar, dizendo que infelizmente não tinha como seguir ali com a gente. Começou a descer a arquibancada, sem olhar para trás, a cada passo ficando menor aos nossos olhos. Ele já ia longe quando meu irmão conseguiu expressar a raiva que estava sentindo. Xingava e amaldiçoava com a voz embargada, segurando as lágrimas como quem sabe que negar o choro a alguém às vezes é a única vingança possível. Não senti nada. Talvez por estar acostumado a jamais criar expectativas positivas referentes a algo que envolvesse meu pai, como uma criança que sabe que seu balão sempre vai estourar antes de encher. Ou, por ser três anos mais velho, eu tivesse maturidade suficiente para entender que havia uma doença maldita dentro da cabeça dele, um parasita voraz que envenenava e consumia seu cérebro, impedindo que ele fizesse o que mais queria: ser um pai de verdade.
É exatamente aí que está o sofrimento mais devastador dessa doença: não existe nenhum parasita. Nunca houve uma separação entre o cérebro sadio e o bicho que o contaminava. A esquizofrenia e a mente do meu pai eram uma coisa só, indissociáveis. E por isso eu nunca soube, nem nunca vou saber – de tudo que ele me disse e fez, de tudo que deixou de me dizer e fazer –, quando ele era ele mesmo e quando estava sob influência da doença. No dia em que disse que sentia muito orgulho de mim, sentia mesmo isso ou estava apenas tendo um delírio, imaginando um filho que não era o dele? Como posso considerar verdadeira e sincera uma lembrança se desde pequeno fui ensinado a julgar seus atos como frutos de uma mente doente?

No outono de 2003, minha mãe saiu de casa. Eu soube por telefone – àquela altura, já estava na faculdade em Porto Alegre havia quase dois anos. Nessa mesma ligação, pela primeira vez alguém me disse alguma coisa concreta sobre a doença. “Teu pai tem esquizofrenia. Me sinto muito infeliz e sozinha”, ela falou. A sinceridade brutal foi a forma que encontrou para tourear o medo de que meu irmão e eu ficássemos contra ela. Isso não aconteceu. Meu pai não era culpado da doença, tampouco minha mãe. Na verdade, o que senti depois daquele telefonema foi uma enorme gratidão por ela ter suportado tanto tempo. Por ter esperado até que ficássemos adultos para ir atrás da sua felicidade. Minha mãe casou aos 19 anos, grávida de mim. Jovem e ingênua, achava que o comportamento excêntrico do meu pai era resultado das muitas horas de estudo. Nunca lhe passou pela cabeça perguntar por que aquele homem dez anos mais velho não conseguia concluir nenhuma faculdade. Como meus avós jamais se imiscuíram na vida sentimental do filho, minha mãe casou sem saber que meu pai era esquizofrênico.
Pouco mais de um mês depois da partida da minha mãe, meu pai teve um mal-estar estomacal violento. A suspeita primeiro recaiu sobre uma lata de pêssegos em calda aberta havia muitos dias. Medicado, ele melhorou, mas ao longo das semanas seguintes as indisposições foram ficando mais frequentes, até que o médico pediu exames mais detalhados. Só então o diagnóstico surgiu: um tumor no intestino, grande o suficiente para praticamente bloquear
o processo de digestão.
Meu pai foi operado para remover o tumor e passou por um período de quimioterapia. Mudou-se para a casa dos meus avós, emagreceu, parou de fumar. Não perdeu o cabelo, mas padeceu os enjoos do tratamento. Só fui visitá-lo depois de algumas semanas. De algum modo, eu tinha construído uma redoma em Porto Alegre, um espaço onde a fugacidade do convívio com meu pai me desobrigava de fingir que a doença não existia. Foi difícil destruir esse pequeno ecossistema de ilusão e encarar que agora eram dois os males a devastar a vida daquele homem.
Daquela época data um texto em que ele relata uma série de revezes na família. Com sua caligrafia impecável, ele narra a partida da minha mãe, a descoberta e o tratamento do câncer, entre incidentes menores como uma batida de carro em que minha avó quebrou o braço, uma mordida que meu avô levou da cachorrinha da família etc. No fim, conclui: “Não sei por que tanta perseguição.”
Guardo esse texto comigo. Sempre que o leio, me lembro de uma cena de Os Leões de Okavango, documentário do canal National Geographic sobre uma família de leões que perde o patriarca em uma disputa territorial com um grupo da mesma espécie e é forçada a procurar outro lugar para viver. Sem parceiro e com três filhotes pequenos, a leoa Ma di Tau foge sem rumo. Poucas horas depois, já viu um dos rebentos ser devorado por um crocodilo, está exausta, sem abrigo nem comida para dar aos dois sobreviventes, e ainda precisa permanecer vigilante o tempo todo. Nesse momento, ouvimos a voz grave do ator Jeremy Irons, narrador do filme, anunciar mais ou menos o seguinte: “E mais um dia amanhece no delta do rio Okavango, totalmente alheio ao sofrimento de Ma di Tau.” Não importa se é Ma di Tau, meu pai, eu. A natureza não dá mole: não tem piedade ou comiseração, não avalia quanto sofrimento cada um pode suportar. Depois de um dia que se foi chega outro, e depois mais outro e ainda outro, independentemente da nossa vontade de que o tempo retorne, ou congele, ou deixe de acontecer.

Em algum momento no começo dos anos 90, meu pai decidiu suspender a medicação. Minha mãe, ciente de que a vida normal seria inviável, passou a moer o comprimido de Haldol e misturar no suco que servia a ele no almoço. Nós, crianças ainda, não percebíamos como era curioso ele ter um copo separado, em que ninguém podia tocar. Minha mãe conta que quando meu irmão ou eu reclamávamos que o suco estava muito azedo, ou aguado, meu pai gentilmente oferecia o dele. Eram pequenos momentos de desespero para ela. Para acabar com situações assim, um dia ela nos contou o que vinha acontecendo nos últimos meses. Enfatizou que sob hipótese alguma deveríamos beber um gole que fosse, mesmo que o pai insistisse. Mais alguns meses se passaram e ela nos chamou para dizer que revelaria a ele o truque do remédio no suco. Estava nervosa com a conversa, com a possível reação dele. Para alívio de todos, ele entendeu, agradeceu e voltou a se medicar normalmente.
Foi também nessa época que meu irmão e eu passamos por uma avaliação com uma psicóloga. Íamos ao consultório e fazíamos desenhos, jogávamos ou simplesmente conversávamos. Ela concluiu que estava tudo bem com a gente, não identificou nenhum traço ou propensão para a esquizofrenia.
Apesar de tudo, tive uma infância feliz. Meu irmão e eu crescemos muito próximos, com muitos amigos. Meus avós paternos foram presenças constantes – era para a casa deles que eu ia todos os finais de semana e durante as férias. Minha mãe sempre foi incrível. Até hoje adoro o Natal, certamente pelas boas lembranças. Não acho que a doença do meu pai tenha feito a minha vida difícil ou que o sofrimento tenha me trazido uma sabedoria especial.

Três anos depois da cirurgia para retirar o tumor, meu pai começou a reclamar de fortes dores nas pernas. Como as pontadas irradiavam da coluna em direção aos pés, o médico logo diagnosticou um problema no nervo ciático. Ao longo das semanas seguintes, ele passou a sentir dificuldade em se locomover e ficava boa parte do dia na cama. Fui visitá-lo nesse período. Estávamos no quarto que ele ocupava na casa dos meus avós; ele deitado, eu sentado em uma cadeira aos pés da cama. Era uma tarde de começo de inverno e o ar recendia a cobertores recém-retirados do armário. Estávamos praticamente em silêncio. Não tínhamos muito assunto, então eu apenas ficava ali, calado ou comentando trivialidades. Sabia que minha companhia bastava. De repente, ele começou a chorar. Um choro desgarrado, daqueles que o sujeito fica um tempo sem respirar e depois puxa o ar com força quase desesperada. Pensei que estivesse sentindo muita dor e ensaiei alguma pergunta. Foi quando ele falou: “Eu fracassei em tudo, meu filho. Em tudo. Sempre tinha alguém mais forte que eu.”
Difícil dizer se doeu mais perceber o quanto meu pai havia sofrido ao longo da vida ou entender que, mesmo com a doença, ele sempre soubera que sua história tinha sido uma sucessão de tentativas malogradas. Tentei consolá-lo. Disse que estava enganado, que ele tinha muitas conquistas de que se orgulhar, seus filhos eram os maiores exemplos disso – adultos independentes, íntegros como ele sempre fora. Ao ouvir isso, se acalmou. Acenou positivamente com a cabeça enquanto limpava as lágrimas nas costas das mãos. Então retomamos o silêncio.
Pouco depois dessa visita, os médicos descobriram que as dores provinham de uma metástase na região lombar da coluna, que esmagava a medula conforme ia crescendo. Os exames apontaram ainda outro tumor semelhante, perto da cervical. Meu pai chegou a se operar para retirar a metástase da lombar, uma cirurgia difícil, de recuperação dolorosa e pouco efeito prático, que apenas nos proporcionou a sensação de que havíamos tentado tudo.
A última vez que o vi vivo foi quando mostrei a ele as fotos da minha formatura. Precisei segurar cada uma das imagens sobre a cama, ele já não podia movimentar os braços. Meu pai, que havia chorado semanas antes ao ver o vídeo da cerimônia, da qual eu tinha sido o orador, dessa vez sorriu orgulhoso.
A morte do meu pai alterou a dinâmica com que eu havia encarado sua doença a vida toda. Não havia mais motivo para fingir normalidade em relação a nada. Meu pai agora estava morto, era uma lembrança, e lembranças podem até mexer em feridas antigas, mas não criam novas. Comecei a encaixar meu pai na minha história de vida, doente como ele de fato sempre havia sido e eu nunca tinha conseguido aceitar. Passei a falar da doença dele com os amigos, a namorada, minha mãe, meu irmão. Aos poucos substituí em meu passado o pai que ficava em casa cuidando dos negócios da família pelo pai medicado com Haldol.

Eu tinha quase 20 anos quando disse pela primeira vez a frase “Meu pai é esquizofrênico”. Até dois anos antes, ao ler a bula de um dos medicamentos dele, não tinha certeza se o diagnóstico era mesmo esse. Estava falando ao telefone com uma amiga, colega de faculdade, sobre o genérico tópico “problemas da vida”, e anunciei que tinha algo para contar. Um segredo que nunca havia revelado a ninguém. Na hora, minha voz travou. Antes de dizer, precisei me livrar dos vinte anos de bloqueio e vomitar tudo que engoli a vida inteira fingindo que a doença não existia. Quando as palavras finalmente saíram, fiquei esperando a reação dela. Espanto, horror ou, pior, pena? Mas ela reagiu com naturalidade. E eu entendi que meu maior drama era apenas um drama, o meu, e não o mais pavoroso de todos.