domingo, 6 de abril de 2014

Elio Gaspari

ELIO GASPARI -jornal o globo
Planos de saúde recebem, mas não pagam
A Câmara aprovou a anistia dos delinquentes, à custa da Viúva e de quem busca os serviços das operadoras
Articula-se no Congresso uma CPI para a Petrobras. Pode ser boa ideia, mas seria bom se alguém pudesse criar a CPI do Congresso. Na terça-feira passada, a Câmara aprovou a medida provisória 627, que trata da tributação de empresas brasileiras no exterior. Como é praxe, seu texto foi enxertado por 523 contrabandos. Entre eles, um artigo concedeu anistia parcial aos planos de saúde que não cumprem os contratos, apesar de embolsarem as mensalidades das vítimas. O truque é simples. Há multas que vão de R$ 5 mil a R$ 1 milhão. Como nas infrações de trânsito, cada multa é uma multa.
Até o dia 31 de dezembro deste ano eleitoral, em que o Senado poderá ratificar a maluquice e a doutora Dilma poderá sancioná-la, as empresas terão a seguinte pista livre: a empresa que tomou de duas a 50 multas da mesma natureza pagará apenas duas; de 50 a 100, mais duas; acima de mil, 20. Assim, quem foi multado cem vezes, pagará quatro penalidades. Em números: uma multa por negativa de procedimento custa R$ 80 mil. Quem delinquir cem vezes, paga R$ 8 milhões, mas, com a mudança, pagará R$ 320 mil.
Os defensores do truque deveriam contar porque não aplicam a mesma tabelinha aos clientes que deixarem de pagar as mensalidades estabelecidas nos contratos. Caloteou 50 pagamentos, paga dois.
A maracutaia estimula a delinquência, penaliza quem não delinque e favorece poderosos delinquentes, quase todos grandes financiadores de campanhas. (Entre 2006 e 2012, elas cresceram 37,2%, para pelo menos R$ 8,6 milhões.)
Se tudo isso fosse pouco, a doutora Dilma indicou para uma diretoria da Agência Nacional de Saúde o doutor José Carlos Abrahão. Ele é um sincero adversário das normas legais que obrigam as operadoras a ressarcir o SUS quando seus clientes são atendidos pela rede pública. Pelo cheiro da brilhantina, se algum dia vierem a cobrá-la por essa indicação, poderá dizer que se baseou em "informações incompletas" ou num parecer "técnica e juridicamente falho", como no caso da refinaria de Pasadena.
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EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e soube que a Vale arrisca tomar um tombo de US$ 507 milhões na Guiné. Em 2010, ela comprou a um empresário israelense parte da concessão da grande jazida de minério de ferro de Simandou. Mudou o presidente, e seu sucessor resolveu reexaminar a maneira como a concessão foi vendida e ameaça cancelá-la.
Mesmo sendo idiota, Eremildo não consegue entender o que há na cabeça de sábios brasileiros que se metem em negócios com sobas africanos. O cretino sabe que a Guiné Equatorial nada tem a ver com a outra Guiné, mas convenceu-se de que Lula foi lá em 2011, para representar a doutora Dilma num encontro da União Africana, em busca de encrencas. Nosso Guia viajou num avião da Odebrecht e incluiu um diretor da empresa na sua comitiva.
A Guiné Equatorial é um pequeno país de 700 mil habitantes que flutua sobre petróleo. Tem a maior renda per capita da África, mas os nativos vivem na miséria (70% da população com menos de dois dólares por dia). Já o clã dos Obiang, que governa a terra desde 1979, vai bem, obrigado. Um deles tem um apartamento de US$ 15 milhões em São Paulo e outro negociou a compra de um triplex de US$ 10 milhões na avenida Vieira Souto. Quando Lula foi ver Obiang, o embaixador Celso Amorim disse que "negócios são negócios". Resta saber quais eram os negócios.
A empresa holandesa SBM, locadora de plataformas de petróleo, acaba de informar que pagou US$ 18,8 milhões em propinas na Guiné Equatorial. Se esse dinheiro fosse para o povo, renderia 26 dólares para cada um. Para o Fundo Obiang, renderia mais um apartamento.
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ISONOMIA
Ameaçando criar a CPI do Fim dos Mundo 2.0, o PT não conseguirá limpar uma só nódoa nos negócios da Petrobras. Apesar disso, demonstrou que o tucanato está disposto a qualquer coisa para não mexer com o cartel da Alstom.
Estão nessa desde 1995, quando o patrono da empresa organizou uma revoada de notáveis para assistir à posse de Bill Clinton. O pior é que a turma dizia que foi convidada pelo governo americano, quando se sabe que a posse de presidentes em Washington é um evento doméstico.
LOROTA
Sabendo-se que é falsa a informação do ex-diretor Nestor Cerveró, segundo a qual os conselheiros da Petrobras receberam o contrato de compra da refinaria de Pasadena com 15 dias de antecedência, fica uma pergunta: qual é a linha que separa a verdade das lorotas dos petrocomissários?
MADAME NATASHA
Madame Natasha zela pela malha do idioma e concedeu mais uma de suas bolsas de estudo aos sábios que redigiram o Plano Diretor Estratégico da Prefeitura de São Paulo pelo parágrafo único do seu artigo 178, que diz o seguinte:
"A Zona Rural do Município de São Paulo é multissetorial e multifuncional, comportando a diversidade de atividades integrantes das cadeias produtivas da agricultura e do turismo, incluindo infraestrutura e serviços a elas associados, e exercendo as funções de produção, inclusão social, prestação de serviços e conservação ambiental características da ruralidade contemporânea".
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PAGAR IMPOSTO É COISA DE OTÁRIO
Pela ordem social do andar de cima, há no país os cavalgados e os cavalcantis. Os cavalgados compram suas coisas e pagam todos os impostos no caixa. Trabalham o mês todo e, quando recebem o contracheque, ele vem com a mordida do Imposto de Renda.
Os cavalcantis não pagam o que a Receita cobra e, uma vez autuados, esperam que o governo lhes ofereça um plano de refinanciamento do débito. Os descontos são tamanhos que não pagar torna-se bom negócio. O truque atende pelo nome de Refis e, num acordo do governo com a oposição (em ano eleitoral), a Câmara dos Deputados, numa medida provisória relatada pelo deputado Eduardo Cunha, acaba de patrocinar mais uma festinha. É o Refis 8.0. Resta saber se a doutora Dilma vai sancioná-la.
O Refis socorre sonegadores desde 1999. Por meio de engenhosos mecanismos, tornou-se um benefício contínuo. Houve empresa com a dívida parcelada por 1.066 anos. Outra, que devia R$ 128 milhões, passou a pagar R$ 12 por mês. Bancos e multinacionais já refinanciaram R$ 680 bilhões. A Vale parcelou uma cobrança de R$ 45 bilhões com 50% de desconto. A Companhia Siderúrgica Nacional safou-se de uma dívida de R$ 5 bilhões. A Braskem podou um espeto de R$ 1,9 bilhão.
Em 2009, a secretária da Receita, Lina Vieira, disse que, com esse gatilho, "o bom contribuinte se sente um otário". Ela foi demitida pouco depois pelo ministro Guido Mantega.
Sempre que o governo maquia o Refis vem o argumento de que com ele arrecada-se cerca de 15% do que está emperrado. É verdade, mas deixa-se de receber o que se cobrou aos cavalcantis, o que nunca acontece com os cavalgados.

    quinta-feira, 3 de abril de 2014

    USP oferece 669 vagas para transferência

    USP oferece 669  
    vagas para transferência
    Inscrições vão de 3 a 14/4



    A Universidade de São Paulo (USP) oferece 669 vagas para transferência de estudantes de ensino superior. Há 106 vagas em cursos da área biológica, 414 de exatas e 149 de humanidades. O ingresso dos aprovados pode ocorrer ainda em 2014 ou no começo de 2015.

    As inscrições estarão abertas pelo site entre quinta-feira (3/4) e 14/4. O prazo para pedido de isenção de inscrição acabou em 25/3. No ato da inscrição, o candidato deve indicar o curso e também o município para realizar a prova. Estão entre as opções Bauru, Campinas, Lorena, Piracicaba, Pirassununga, Ribeirão Preto, Santos, São Carlos e São Paulo.

    O processo seletivo, realizado pela Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), é composto por duas etapas. A prova de pré-seleção, composta de 80 questões de múltipla escolha, será aplicada em %u2158. O resultado dos convocados para a segunda etapa será divulgado em 16/5 e os estudantes devem entregar a documentação em 22 e 23/5 na unidade escolhida. A segunda fase ocorre nas unidades que oferecem os cursos e há editais específicos para cada unidade.

    Acompanhe detalhes sobre o processo seletivo pela página.

    Conteúdos da pré-seleção 
    A prova de pré-seleção dos candidatos a cursos da área de biologia terá 24 questões de língua portuguesa, 12 de língua inglesa, 22 de bioquímica e 22 de genética. Os interessados em cursos de exatas responderão a 24 questões de língua portuguesa, 12 de língua inglesa, 22 de matemática e 22 de física. Os concorrentes a cursos da área de humanidades terão a prova constituída por 34 questões de língua portuguesa; 12 de língua inglesa e 34 de cultura contemporânea.
    daqui http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/selecao/2014/04/02/Selecao_Interna,420885/usp-oferece-669-vagas-para-transferencia.shtml

    domingo, 30 de março de 2014

    De Massu@edu para EnzoPeri@gov - Elio Gaspari

    jornal o globo
    ELIO GASPARI
    De Massu@edu para EnzoPeri@gov
    General, o sr. nunca colocou a mão na massa, eu coloquei, ajude o Exército dissociando-o da tortura passada
    Senhor Comandante do Exército Brasileiro,
    Enquanto vivi, até 2002, fui visto pelos comunistas como um assassino. O general Jacques Massu encarnava a tortura e o extermínio de terroristas que lutavam pela independência da Argélia. Escrevo-lhe com essa autoridade. Eu mandei torturar (testei a máquina de choques elétricos no meu próprio corpo) e ganhei a Batalha de Argel. Um palhaço italiano fez um filme com esse título. Fui um soldado. Lutei na Segunda Guerra e no Vietnã. Em 1956 assumi plenos poderes para acabar com a revolta argelina e um ano depois a insurreição estava dominada. Matamos duzentos e prendemos 1.800. Os comunistas dizem que sumimos com quatro mil.
    Falo com a autoridade de um vencedor derrotado. Ganhei a batalha, mas perdi a guerra. O general De Gaulle deu a independência à Argélia e, quando resolvi confrontá-lo numa entrevista, meteu-me o chanfalho, tomando-me o comando. Fez muito bem. Como soldado, voltei ao quartel, e em 1968, quando ele precisou de apoio, veio para meu quartel. De Gaulle achava que eu era um idiota. Talvez fosse, mas era gaullista. Aí no Brasil vocês também ganharam a batalha e perderam a guerra. A senhora que preside o país, eleita pelo povo, foi militante de uma organização terrorista na juventude.
    Escrevo-lhe numa terceira capacidade. Vi a ruína da máquina que montei. Começamos torturando terroristas, tentamos um golpe de Estado e acabamos criando uma milícia terrorista e corrupta. O chefe civil desse grupo asilou-se aí no Brasil e viveu em Campinas. Centenas de homens da minha tropa explodiram bombas, mataram um general e armaram vinte atentados para liquidar De Gaulle. Num, quase conseguiram. Acertaram 14 tiros no Citroën do presidente. O coronel que comandou a operação pediu clemência, mas De Gaulle passou-o nas armas.
    General Enzo, aí no Brasil aconteceu a mesma coisa. Da máquina da tortura saiu um braço terrorista. O general Paul Aussaresses foi adido militar no Brasil. Ele trabalhou comigo na Argélia e hoje vive jantando com uns generais brasileiros que mandavam no Centro de Informações do Exército. Eu os evito, porque sei que, ao contrário do que sucedeu na França, o terrorismo militar brasileiro não operou na clandestinidade. Continuou dentro da hierarquia. O senhor sabe quem botou bombas por aí, até que dois trapalhões explodiram-se no Riocentro. Os senhores cometeram um erro militar quando não seccionaram esse braço criminoso, mas o feito, feito está.
    O erro militar persiste quando os senhores se recusam a admitir o que houve. O Exército francês não carrega mais a cruz do que Jacques Massu fez na Argélia. De general para general: o major que comandava um centro de torturas onde matavam brasileiros que ameaçavam o Estado estava cumprindo ordens e depois seguiu sua carreira, como eu. É diverso o caso de outro major que, ouvindo chefes, metia-se com bombas. Um coronel que trabalhou no SNI diz que houve um plano para derrubar o helicóptero do presidente. Conheço minha gente, sei a distância entre querer e fazer, mas o fato é que pensaram nisso ou, pelo menos, disseram que pensaram.
    O primeiro erro militar cometido pelos generais brasileiros (e por mim) foi transformar tenentinhos em torturadores e assassinos. O segundo foi acobertar crimes que nada tinham a ver com a defesa do Estado. Pelo contrário, queriam explodi-lo. O terceiro, seu, é achar que o silêncio abafará o passado. Peça o livro de alterações do oficial Freddie Perdigão Pereira e veja como um tenente dos blindados transformou-se num matador e meteu-se em atos terroristas. Veja lá, general, ele estava com os blindados, não tinha curso de motomecanização, mas montava cavalos e jogava vôlei. Hélas! Eu já o vi por aqui. Parece-se com Roger Degueldre, um dos meus tenentes, que foi executado no Fort d'Ivry. Não foi fácil fazer a transição. Três oficiais recusaram-se a comandar o pelotão de fuzilamento de Degueldre.
    Quem transformou esse tenente no terrorista "Danielle"? Nós, os generais da época.
    O fatos ocorridos nas vossas prisões estão cobertos pela Lei da Anistia. Se o Congresso e o Supremo Tribunal Federal quiserem mudá-la, assim são as coisas, mas enquanto isso não acontecer, vale a lei. Os comunistas se esquecem que em 1946 o governo italiano anistiou os delitos cometidos depois de 1943 pelos fascistas e pelos combatentes da Resistência. Lembremos que essa lei foi assinada pelo ministro da Justiça, Palmiro Togliatti, secretário-geral do Partido Comunista.
    Soldados sabem como é a vida. Os políticos e os endinheirados nos chamam para fazer o serviço e olham para o lado. Quando a situação muda, deixam a sujeira correr para os quartéis. Outro dia um general magrinho, seco como uma uva passa, contou-me que, há pouco tempo, nos cinemas brasileiros aplaudiu-se em cena aberta um filme que mostrava um traficante de drogas sendo torturado pela polícia militar do Rio de Janeiro. Ele diz que a tortura tem apoio popular. Parece que nos anos 70 ele chefiou o Centro de Informações do Exército.
    Como essa mentalidade nunca desaparecerá, despeço-me deixando um registro: Jacques Massu pode ser um idiota, afinal, foi De Gaulle quem o disse, mas não é teimoso. Em 2000, aos 92 anos, dei uma entrevista dizendo o seguinte: "A tortura não é indispensável em tempo de guerra, podíamos ter passado sem ela. Quando repenso a Argélia, desolo-me. Aquilo fazia parte de um ambiente".
    Por que o senhor não diz coisa parecida? Afinal, ao contrário do Massu, o senhor nunca meteu a mão na massa.
    Respeitosamente,
    Jacques Massu
    General do Exército francês
    PETROCOMISSÁRIO
    A Polícia Federal ouviu um telefonema recebido por uma parente do petrocomissário Paulo Roberto da Costa pedindo a um parente próximo que recolhesse computadores que estavam em sua casa.
    Deu errado. As máquinas foram apreendidas e, para piorar a situação, o doutor, que está na cadeia, sabe que criou problemas para pessoas que nada tinham a ver com sua memória eletrônica.
    Esse episódio poderá refrescar sua memória biológica nos depoimentos ao Ministério Público.
    SILÊNCIO
    O deputado Vicentinho, líder do PT na Câmara, mostra o lado decadente do comissariado quando ameaça responder à oposição com investigações sobre esqueletos do PSDB, como o cartel da Alstom em São Paulo.
    A ideia é ótima, mas veio tarde, como se o companheiro quisesse cobrar pelo próprio silêncio.
    Nada de novo. Quando começaram os pedidos de investigação da Petrobras, saiu de sua cúpula a seguinte pergunta: "Porque só na Petrobras?"
    AVISO AMIGO
    Se o governo quer evitar surpresas, deve dar uma olhada nos negócios que copatrocina juntando grandes empreiteiras, bancos oficiais e cleptocratas africanos. Nunca é demais lembrar que Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, é a mulher mais rica d'Africa, com uma poupança estimada em US$ 4,1 bilhões.
    MISTÉRIO
    É sabido que os americanos vivem em estado de alerta contra doenças transmitidas por bichos. Lá as vacinas antirrábicas de cachorros valem por três anos. No Brasil, valem só por um ano.
    Ou os cachorros brasileiros são viciados em vacinas ou o vício é outro.

    sexta-feira, 28 de março de 2014

    L'invitation au Voyage - Charles Baudelaire

    via Facebook de Cora Ronai 
    L'invitation au Voyage:

    Mon enfant, ma soeur,
    Songe à la douceur
    D'aller là-bas vivre ensemble!
    Aimer à loisir,
    Aimer et mourir
    Au pays qui te ressemble!
    Les soleils mouillés
    De ces ciels brouillés
    Pour mon esprit ont les charmes
    Si mystérieux
    De tes traîtres yeux,
    Brillant à travers leurs larmes.

    Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
    Luxe, calme et volupté.

    Des meubles luisants,
    Polis par les ans,
    Décoreraient notre chambre;
    Les plus rares fleurs
    Mêlant leurs odeurs
    Aux vagues senteurs de l'ambre,
    Les riches plafonds,
    Les miroirs profonds,
    La splendeur orientale,
    Tout y parlerait
    À l'âme en secret
    Sa douce langue natale.

    Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
    Luxe, calme et volupté.

    Vois sur ces canaux
    Dormir ces vaisseaux
    Dont l'humeur est vagabonde;
    C'est pour assouvir
    Ton moindre désir
    Qu'ils viennent du bout du monde.
    — Les soleils couchants
    Revêtent les champs,
    Les canaux, la ville entière,
    D'hyacinthe et d'or;
    Le monde s'endort
    Dans une chaude lumière.

    Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
    Luxe, calme et volupté.

    — Charles Baudelaire
     (13 photos)

    quarta-feira, 26 de março de 2014

    Elio Gaspari sobre o DNA do golpismo, à direita e à esquerda.


    jornal o globo
    ELIO GASPARI
    1964...2014
    Jango foi deposto pela carta golpista que estava nas mãos de vários jogadores, mas a direita fez a canastra
    A deposição do presidente João Goulart continua a ser um tema divisivo na política brasileira porque, meio século depois, alguns itens da agenda de 1964 continuam presentes, ao vivo e a cores. Registre-se que o elemento primordial, detonador e desfecho da revolta, foi o fato de que os dois lados jogavam com a carta da intervenção militar. Jango tinha um "dispositivo" nos quartéis e seus adversários tinham conspirações desconexas, até que um general voluntarioso implodiu a ordem constitucional. Não existe mais essa carta, mas há outras que, na essência, derivam de pensamentos autoritários. Vale a pena visitá-los, pois permitem que se descubra, em 2014, o código genético do golpismo de 1964.
    O primeiro é a falta de respeito à vontade popular. Há 50 anos, uma das provas de que Jango era um esquerdista estava na sua defesa do voto para o analfabeto. Um iletrado não podia ter o mesmo peso político que um doutor. Veio a ditadura e cassou os votos de todos para a escolha do presidente. Em 1969, depois que o presidente Costa e Silva ficou incapacitado, os generais sabiam que o voto de um analfabeto não valia o de um doutor, mas descobriram que o de um coronel não valia o de um general e o de um general que comandava uma mesa não valia o de outro, que comandava uma tropa. Resultado: elegeram o general Emílio Médici sem que se saiba como essa escolha foi feita. A desqualificação do voto alheio está aí até hoje.
    Há 50 anos havia uma repulsa ao Congresso e aos políticos. Um lado achava que o povo não sabia votar e elegia ladrões. O outro achava a mesma coisa e havia nele quem quisesse que a rua arrancasse uma Constituinte para fazer as reformas para o bem do país, permitindo inclusive que Jango fosse candidato à Presidência. Hoje as duas visões sobrevivem e no ano passado a doutora Dilma flertou com uma Constituinte exclusiva com adereços plebiscitários.
    Passaram-se 50 anos e aquilo que se chamava de infiltração comunista no governo denomina-se hoje aparelhamento do Estado pelo PT. Havia infiltração comunista na Petrobras em 1964, houve um período de petropirataria durante o tucanato e hoje há um comissariado petista na empresa.
    1964 continua divisivo porque em 2014 há pessoas que veem nas instituições democráticas a origem e sede dos males. Isso vale tanto para o sujeito que não confia na vontade popular que escolhe presidentes petistas como para comissários que veem nessa mesma vontade uma massa incapaz de eleger um Congresso que vote as leis necessárias para que o partido desenvolva o que chama de projeto estratégico. O golpista é antes de tudo um cético em busca de surtos de força.
    Em 1964 havia dois candidatos à Presidência: Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek. Muita gente preferia um golpe a Lacerda e, do outro lado, sonhava-se com o golpe que evitaria a volta de JK. Um terceiro grupo queria virar a mesa contra os dois. Deu no que deu e vinte anos depois todos achavam que tanto Lacerda como JK teriam sido melhores que a ditadura. Como a "Revolução Redentora" teria sido coisa dos militares, todos os civis viraram democratas. Felizmente, em 2014 a carta dos quartéis saiu do baralho. O DNA golpista contudo não desaparece, mesmo enfraquecido, transmuta-se.

    domingo, 23 de março de 2014

    Elio Gaspari

    jornal o globo
    De GetulioVargas@edu para Dilma@gov
    Como eu, a senhora pratica a diplomacia do silêncio, ela não traz popularidade, mas é a melhor para nós
    Excelência
    Escrevo-lhe para felicitá-la. A senhora restabeleceu uma diplomacia discreta, diria mesmo de recusa a exibicionismos inúteis. Há dificuldades na Venezuela e agora surgiu a crise da Crimeia, mas estamos fora dos holofotes.
    Peça ao Sarney a poesia "A Carga da Cavalaria Ligeira" de Lord Tennyson. Ele conta o ataque de cavaleiros ingleses contra uma tropa turca artilhada durante a batalha de Balaclava, na guerra da Crimeia do seculo 19. Li-a ontem para minha amada Aimée. Foi um desastre produzido por generais ineptos, mas o poema mostra como as potências fabricam mitos heroicos.
    Minhas dificuldades foram maiores que as suas. Consegui ficar neutro durante a Guerra Civil Espanhola. Até onde pude, mantive-me longe do conflito europeu. Sem fanfarra, em maio de 1941, avisei ao embaixador japonês que se um país americano fosse atacado, nós seriamos solidários. Em dezembro eles bombardearam Pearl Harbor. Os americanos exigiam o controle de uma base aérea no Saliente Nordestino, pois sem a rota de Natal a Dacar ficariam aprisionados pelo Atlântico. Cedi. Lidei com embaixadores impertinentes e tive pavões no Ministério das Relações Exteriores. O Oswaldo Aranha achava que era o gerador do mundo, centro do universo.
    Depois que saí da vida para entrar na história, há 60 anos, vieram o Juscelino com a tal de "Operação Pan-Americana", o Jânio com a "Politica Externa Independente", o Castello Branco com a "interdependente" e o Sr. Luiz Inácio da Silva, que se tornou um papagaio de pirata de crises internacionais. Usei essa expressão que hoje é comum aí, mas não sei se o fiz corretamente. As diplomacias de slogans são apenas propaganda política. Os generais mandaram tropas para ocupar a República Dominicana, num episódio que hoje se procura apagar. Chegamos ao ponto de o general Médici cobrar do presidente Nixon a deposição de Fidel Castro. Outro dia o Nixon me perguntou porque ele fez aquilo.
    Diplomacia sem fanfarra tem um custo. Criticam-nos de todos os lados, acusando-nos de omissão. Há quem lhe ataque por estar próxima dos bolivarianos e também por ficar distante. Algum gabola da Comunidade Europeia resolveu botar fogo na Ucrânia sem prever a reação da Rússia. Em 1956 os americanos insuflaram a rebeldia húngara e em 1962 a dos cubanos de Miami. Fracassaram e abandonaram os aliados. O Pedro 2º lembrou-me de que manteve nossa neutralidade durante a guerra civil mexicana, quando os rebeldes fuzilaram-lhe o primo-irmão Maximiliano. Os franceses, que haviam insuflado sua aventura, abandonaram-no.
    Quando nos metemos a buscar um papel maior que nossa importância internacional, invariavelmente acabamos dificultando a defesa dos nossos verdadeiros interesses. Parabéns, senhora.
    Com todo respeito,
    Getúlio Vargas
    CENA BRASILEIRA
    O presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, visitava o presídio de Porto Alegre quando um major da brigada pediu a palavra e contou que "somos 12% da população do Estado e 40% da população carcerária": "Deve ter alguma coisa errada".
    Mal terminou a frase, ouviram-se mumunhas para que o major calasse a boca. Barbosa pediu que o deixassem falar. Em seguida, respondeu: "Eu percebi".
    O que incomodou os áulicos? As estatísticas ou o fato de um negro levantar esse assunto para outro negro?
    PACIFICADOR
    O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, zangou-se quando um pesquisador apontou a "pacificação" das estatísticas de homicídios do Estado.
    Depois da morte de Cláudia Silva Ferreira, arrastada pela viatura que devia levá-la ao hospital, o repórter Marcelo Gomes informou o seguinte:
    O subtenente Adir Serrano Machado, que estava na cena viu-se listado em 57 "autos de resistência" em que morreram 63 pessoas. Seu colega Rodney Archanjo, está em outros cinco, com seis mortos.
    De duas uma, ou as estatísticas da polícia do Rio assemelham-se às reuniões dos conselhos do comissariado, ou policiais como Machado e Archanjo são versões modernas do Sargento York, o soldado americano da Primeira Guerra, magistralmente representado por Gary Cooper. Sozinho, York matou 28 alemães e capturou 132.
    Como disse o viúvo de Cláudia, ao governador Sérgio Cabral: "Se não tivesse aquele cara que filmou, este seria só mais um caso. Tomou tiro, entrou no hospital e morreu".
    CHEGOU A CONTA DA BOLSA CONSELHO
    A prática é velha: reforça-se o orçamento dos hierarcas nomeando-os para conselhos de empresas. Ela vale tanto na administração federal como nas dos Estados. Tome-se o exemplo de Dilma Rousseff. Em 2006, como chefe da Casa Civil, tinha um salário mensal de R$ 8.362. Em 2007, ganhava R$ 8.700 mensais como conselheira da Petrobras e de sua distribuidora. À Casa Civil ela ia todo dia, aos conselhos, uma vez a cada dois meses (e às vezes chegava atrasada).
    O conselho de Itaipu, joia da coroa do comissariado, paga R$ 19 mil. Em 2012 havia treze ministros nas Bolsas Conselho e os doutores Guido Mantega e Miriam Belchior fechavam os meses com um total de R$ 41,5 mil. A comissária Belchior estava no conselho da BR Distribuidora, para quê, não se sabe.
    Quando o PT estava na oposição, reclamava disso. No governo, acostumou-se. Agora chegou a conta. Como integrante (e presidente) do Conselho da Petrobras, Dilma é responsável pela aprovação da ruinosa compra de uma refinaria em Pasadena, nos Estados Unidos. A repórter Andreza Matais obteve do Planalto uma nota, escrita pela doutora, informando que a decisão foi tomada com base num relatório "técnica e juridicamente falho". A ver. A ruína estava em duas cláusulas do contrato e elas viriam a custar US$ 820 milhões à empresa. A explicação segundo a qual esses dispositivos só chegaram ao conhecimento dos conselheiros depois da aprovação do negócio é plausível. Mesmo que a doutora só tenha percebido a ruína depois, era a poderosa chefe da Casa Civil. Quem pode tirar quaisquer dúvidas sobre o caso é o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que está preso na Policia Federal.
    Numa estrutura séria, seria demitido o presidente da empresa, ou iriam embora os conselheiros que se julgaram desinformados. Os conselhos de estatais não são sérios, são bicos. O caso da refinaria acertou a testa da doutora Rousseff, a gerentona que pode ser acusada de viver num mundo de verdades próprias, mas nunca se meteu em transações tenebrosas. A vida é arte, errar faz parte. Enquanto houver hierarcas em boquinhas, o erro será a arte.

    sexta-feira, 21 de março de 2014

    125 anos de Cora Coralina

    Avant-première

    Por João Bernardo Caldeira | Para o Valor Econômico
    125 anos de Cora
    A partir de obras de Adélia Prado e Cora Coralina (1889-1985), duas amigas fazem um balanço de suas vidas. Esse é o enredo de "Cora e Adélia - Receita de Poesia em um Dedo de Prosa", que estreia quarta-feira no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro. Com direção de Rafaela Amado, o espetáculo homenageia Cora, que publicou seu primeiro livro, "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais", em 1965, quando tinha 76 anos.
    Com Estados e municípios
    Será em breve lançada nova linha do Fundo Setorial do Audiovisual destinada a injetar recursos em programas estaduais e municipais de fomento ao audiovisual. A intenção é estimular governos a desenvolver políticas para o setor e realizar investimentos casados com foco em produção de longas e obras para a TV. O valor total do aporte será de R$ 20 milhões. Aos que já possuem programas em curso, serão destinados R$ 30 milhões. Há cerca de um ano, a RioFilme propôs parceria com o Fundo. "Desejamos ter a RioFilme como parceira, assim como saudamos o surgimento da SP Cine, em São Paulo, e interesses manifestados por Pernambuco, Bahia, Tocantins, Ceará, Paraná, Alagoas e Rio Grande do Sul", diz Manoel Rangel, presidente da Ancine.
    Brasil global
    Criada em 1991, a conferência "Public Broadcasters International", que reúne emissoras públicas de todo o mundo, será sediada no Brasil, em novembro. É a primeira vez que o evento será realizado na América Latina. A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) organizará a iniciativa, com a missão de incentivar a presença de emissoras do continente latino. Com os drásticos cortes de orçamento observados na Europa, cresce o interesse por parcerias e troca de informação. Na reunião do comitê organizador, nesta semana, no Rio, com representantes de canais como BBC (Inglaterra), PBS (EUA) e NHK (Japão), foi debatida a proposta da EBC de implementação de uma rede de compartilhamento de conteúdo.
    Brasil-França
    Diretor da France Télévisions, Hervé Michel forneceu um retrato do mercado de TV francês, no RioContentMarket, semana passada. "Com a chegada da TV digital, o número de redes passou de sete para 25", disse. A legislação determina que apenas produtoras independentes podem produzir filmes, documentários, animação e dramaturgia. Os canais limitam-se às áreas de esportes, notícias e variedades. Embora a ficção domine o mercado (61% das produções), Michel sugeriu parcerias na produção de documentário: "O mercado francês ainda está se desenvolvendo em termos de coprodução, mas precisaremos de novos parceiros".
    Brasil-Argentina
    Também presente no evento, a deputada argentina Liliana Mazure destacou a importância do fundo de coprodução realizado com o Brasil. "Criou uma relação mais dinâmica entre produtores argentinos e brasileiros", afirmou. Ex-presidente do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais, Liliana diz que ainda há muito a se desenvolver na América Latina: "Os países ainda precisam construir políticas de inclusão do audiovisual e da cultura, assim como pensam moradia, alimentação, educação e saúde".
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