quarta-feira, 7 de maio de 2014

Motivos pelos quais os alemães adoram a Rússia - Clemens Wergin*

Motivos pelos quais os alemães adoram a Rússia

Clemens Wergin*
The International New York Times, em Berlim
  • 5.set.2013 - Eric Feferberg/Afp
    A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente russo, Vladimir Putin, em foto de 2013
    A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente russo, Vladimir Putin, em foto de 2013
Assim como a maioria dos especialistas em política externa, eu fiquei chocado com a anexação da Crimeia pela Rússia e com a continuidade da "invasão suave" que está sendo levada a cabo pelos russos no leste da Ucrânia. Será que uma apropriação de terras tão descarada como essa realmente está acontecendo hoje em dia, em plena Europa do século 21?

Mas as ações da Rússia não foram a única surpresa. Se você acompanhou os debates realizados na Alemanha sobre a crise na Ucrânia, você testemunhou outro fenômeno estranho: um desfile de políticos aposentados e figuras públicas que foram à TV para defender a Rússia.

De acordo com essas figuras respeitáveis --que incluem os ex-chanceleres Gerhard Schröder e Helmut Schmidt--, a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar do Ocidente) e a União Europeia (UE) foram as reais agressoras nesse caso, pois se atreveram a expandir seus domínios para um território que pertencia à esfera legítima de interesse de Moscou. E parece que parte do público alemão concorda com isso.

Você acreditava que os alemães eram os defensores das leis internacionais e da ordem mundial baseada nas regras? Pense novamente.

Há uma hipocrisia flagrante aqui. Isso por que as mesmas pessoas que se fiaram nas leis internacionais para criticar a invasão norte-americana do Iraque estão atualmente agindo como realistas recém-nascidos e criando desculpas para a necessidade da Rússia de violar a soberania de outras nações.

Na verdade, apesar de suas falsas acusações contra o Iraque, o governo Bush tinha pelo menos 16 resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para respaldar seu caso. Vladimir Putin, presidente da Rússia, não tem nenhuma. O único denominador comum entre ambas as posições parece ser um antiamericanismo subjacente.

Parte desse sentimento pró-Moscou pode ser atribuído à propaganda patrocinada pela Rússia: uma recente reportagem investigativa publicada pelo jornal alemão Welt am Sonntag revelou como uma rede suspeita de partidários da Rússia foi capaz de moldar o discurso público na Alemanha. Até fóruns de diálogo com a Rússia, co-patrocinados pelo governo alemão, estão cheios de amigos de Putin --mesmo do lado alemão.

Mas também há uma tendência preocupante entre os cidadãos comuns que remonta a antigas e infelizes tradições alemãs. Nós vemos a Alemanha como um país da Europa Ocidental, mas essa visão é, em grande parte, um produto de alianças firmadas durante a Guerra Fria. Antes disso, o país ocupava uma posição precária, ficando bem no meio entre o leste e o oeste.

Vinte e cinco anos depois do fim da Guerra Fria, a sociedade alemã pode muito bem estar se distanciando do Ocidente novamente. Em uma pesquisa realizada no mês passado pela Infratest/dimap, 49% dos alemães disseram que queriam que seu país assumisse uma posição intermediária entre o Ocidente e a Rússia na crise da Ucrânia, e apenas 45% gostariam que o país se posicionasse firmemente do lado ocidental.

Esse antiocidentalismo da Alemanha é proveniente de ambos os lados do espectro político. Há a parcela de esquerda que é instintivamente antiamericana e fica do lado de qualquer ator internacional que venha a desafiar o status quo e a principal potência ocidental.

Mas também existe a direita populista da Europa, que concorda com a propaganda da Rússia, segundo a qual a Europa se tornou demasiadamente gay, demasiadamente tolerante, demasiadamente permissiva em relação a seus princípios morais e demasiadamente não cristã, e que acolhe um líder autoritário que desafie o multilateralismo difuso da Europa.

Na Alemanha, essa corrente é mais bem representada pelo novo Partido Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland), que é contra o euro. Eles ocupam uma parcela conservadora do pensamento alemão que remonta ao século 19, abriga um ressentimento contra a civilização ocidental e romantiza uma Rússia que aparentemente não foi corrompida pelos valores ocidentais e pelo capitalismo do livre mercado.

Ambas as versões desse antiocidentalismo existem há várias décadas. Mas, até agora, elas ficavam confinadas às bordas do cenário político. Atualmente, elas são aceitas por grupos das elites e por parcelas do centro do espectro político. Isso, combinado ao enorme investimento realizado por empresas alemãs na Rússia, está restringindo o quão agressivamente o governo de Angela Merkel --a chanceler alemã que é fortemente pró-ocidental-- é capaz de agir contra a Rússia.

O que une os defensores da esquerda e da direita da Alemanha é um desrespeito impressionante pelo destino das pessoas que habitam as terras localizadas entre a Alemanha e a Rússia, além de uma noção truncada da história alemã.

Alguns defensores explicam sua simpatia pela Rússia como uma questão de dívida com o país devido às atrocidades cometidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Mas é importante lembrar que a guerra começou com a Alemanha invadindo a Polônia a partir do Ocidente --e, alguns dias mais tarde, com a União Soviética invadindo a Polônia a partir do Oriente, depois que ambos os lados tinham concordado em segredo em dividir a Europa Oriental entre si.

E, dessa maneira, quando figuras públicas alemãs repetem a propaganda russa e repudiam a Ucrânia ao afirmarem que o território "não é um país real de qualquer maneira" ou tratam os países localizados entre o Ocidente e a Rússia como nações de segunda classe cuja soberania vale menos do que a de outras nações, elas estão evocando memórias dos velhos e difíceis tempos do Leste Europeu, quando nazistas e soviéticos transformaram a região nas "Terras Sangrentas" de suas respectivas ditaduras.

Durante décadas a Alemanha tem tentado aceitar seu passado fascista e aprender lições importantes com ele. Mas agora, lá vem um líder autoritário de outro país que, para tentar estabilizar seu regime, comete uma agressão externa baseada no nacionalismo étnico.

Para quem já teve que lidar com o passado nazista da Alemanha, devia ser fácil diferenciar o certo do errado neste caso, em vez de tentar ficar encontrando desculpas para as ações da Rússia. Mas esse foi um teste no qual muitos de meus compatriotas fracassaram.

Para ser justo, em uma pesquisa recente 60% dos alemães disseram que seu país deveria ficar do lado do Ocidente na crise Ucrânia. Então, a atual agressão da Rússia contra a Ucrânia está tendo algum efeito sobre a opinião pública. Mas isso ainda significa que quase a metade dos alemães não sente uma profunda ligação com o Ocidente e seus valores – que é precisamente o que Putin quer.

*Clemens Wergin é editor internacional do grupo jornalístico alemão Die Welt e autor do blog Flatworld

domingo, 4 de maio de 2014

Elio Gaspari

jornal o globo
ELIO GASPARI
Uma época, um livro e uma festa
Enquanto o mundo-dinheiro vai ao baile do Metropolitan, o mundo-cabeça discute o livro de Thomas Piketty
Amanhã o Metropolitan Museum de Nova York abre a escadaria para o baile anual do seu instituto de moda. A entrada custa US$ 25 mil, e o freguês terá passado pela seleção de Anna Wintour, a bruxa do filme "O Diabo Veste Prada", diretora da revista "Vogue", czarina da moda e princesa do mundo das celebridades. O "Met Gala" é o tapete vermelho mais bonito, rico e exclusivo do mundo. Quem não tiver a graça de pisá-lo poderá ir para um bar discutir o livro "Capital", do professor francês Thomas Piketty. Por caminhos diferentes, estará no mesmo mundo.
Piketty escreve com a elegância com que a atriz Gwyneth Paltrow se veste. Montado num banco de dados rico como a vitrine da joalheria Cartier, o professor é claro: o mundo entrou num período de concentração da renda. As pessoas e os países ricos ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, fica a suspeita de que crescerão a taxas menores.
Nos Estados Unidos, essa época de ostentação da riqueza é comparada à "Gilded Age", que foi do fim do século 19 ao início do 20. A expressão designava uma abastança exuberante, porém superficial. Piketty não a usa, fala mais na "Belle Époque" francesa. A diferença está no fato de que uma teve o escritor Marcel Proust, e a outra, bilionários vulgares, cuja ideia de refinamento levava-os a copiar castelos e casar as filhas com nobres europeus quase sempre falidos, jamais monógamos, talvez heterossexuais. (Só na cesta dos duques, compraram 22.)
Durante a festa do século 19 também pontificava um jornalista. Ele organizava o baile anual de Caroline Astor e dizia que a elite de Nova York tinha 400 pessoas, o número de convidados que cabiam no salão da milionária. Na lista de La Wintour, entram 700 convidados. Ela é uma jornalista cuja determinação, instinto estético e visão comercial deveriam ser matéria de estudo para quem entra nesse ramo da profissão. (O teste de que uma pessoa é desprovida do sentimento da inveja está em admirá-la.) Wintour perfilhou o instituto de moda do Metropolitan, para quem vai o dinheiro dos ingressos. A partir de amanhã a nova ala de roupas do museu levará seu nome. Será inaugurada por Michelle Obama.
O baile de Piketty tem a harmonia de uma valsa. No início do século 20 os 1% que estavam no andar de cima ficavam com 20% da renda dos Estados Unidos e da Inglaterra. Até 1980 essa riqueza encolheu à metade, mas, a partir daí, voltou a crescer e retornou ao ponto inicial. A queda deveu-se a políticas sociais? Não, foram as duas guerras. Os bilionários de hoje seriam diferentes, afinal, Bill Gates fez a Microsoft. Tudo bem, mas a francesa Liliane Bethencourt (L'Oreal) tem US$ 25 bilhões e nunca trabalhou na vida. Herdou. Entre 1990 e 2010 as fortunas de ambos cresceram 13% ao ano, apesar de Bill Gates já ter parado de trabalhar.
O "Capital" é um monumento de pesquisa e elegância. Piketty trabalhou com acervos estatísticos jamais estudados, e reconhece que isso só foi possível porque apareceu o computador. Obsessivo, mergulhou até nas listas de bilionários das revistas de negócios, mesmo ressalvando que têm pouco valor científico. (Os brasileiros que compraram ações de Eike Batista sabem que é isso mesmo.) Se os números dos bilionários da "Forbes" merecem pouca fé, as carteiras de investimentos das universidades americanas merecem toda. Os patrimônios mobiliários daquelas que têm fundos com mais de um bilhão de dólares cresceram 8,8% ao ano entre 1980 e 2010. Já as pobrezinhas, com menos de 100 milhões, ficaram com 6,1% ao ano. Harvard, com US$ 30 bilhões, teve rendimentos de 10,1% anuais. (As reservas da Universidade de São Paulo encolheram.)
Quando Caroline Astor dava seu baile, o andar de cima sustentava que assim era a vida e o de baixo lotava as ruas para ver a passagem dos magnatas. A partir de amanhã o mundo poderá ver na rede imagens do baile de Anna Wintour. Retratará uma época. O "Capital no Século 21" também está na rede, em inglês, por enquanto. Sai por US$ 21,99.
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A BANCA DE YOUSSEF
Falta um personagem na trama dos negócios do doleiro Alterto Youssef com o laboratório Labogen. Ele mandou US$ 113 milhões para o exterior em cerca de 3.500 operações comerciais. Para isso seria indispensável que houvesse um banco na roda. Hoje é praticamente impossível lavar esse dinheiro com a ajuda das grandes casas brasileiras. Há bancos na tuba, e seus nomes estão esquecidos. Com o rigor das auditorias europeias e americanas, essas operações passam por rotas africanas.
BANCO QUER PAGAR
Em fevereiro o Deutsche Bank aceitou pagar R$ 47 milhões à Prefeitura de São Paulo para encerrar a encrenca em que se meteu por ter abrigado contas do ex-prefeito Paulo Maluf. Há outro banco europeu oferecendo-se para fazer acordo, num montante ainda maior.
LÁ VEM TUNGA
Devagar e sempre, prossegue a marcha de uma nova tunga nos trabalhadores. O comissariado sindical voltou a se mexer para cobrar uma taxa pelos seus serviços nas negociações salariais.
Hoje, sendo ou não sindicalizado, o cidadão trabalha um dia por ano para o aparelho. Já a taxa só é cobrada a quem pertence ao sindicato. O comissariado quer misturar as duas cobranças, tornando compulsório o pagamento adicional. Estima-se que isso leve para os companheiros um ervanário equivalente ao que se arrecada com o imposto sindical, coisa de R$ 2 bilhões em 2012. Na veia, as centrais sindicais ficam com 10% do confisco.
Para quem não lembra, nos anos 70 apareceu um líder metalúrgico moderno que combatia o imposto sindical. Chamava-se Lula.
UMA INJEÇÃO
Há pouco o juiz Teodomiro Romeiro dos Santos, o único brasileiro condenado à morte, em 1971, pelo assassinato de um militar, teve a certeza de que em 1982, três anos depois da Anistia, planejou-se sua morte. À época ele vivia na França, depois de ter fugido da cadeia e conseguido asilo na Nunciatura Apostólica, em Brasília.
Em 1995, uma elegante figura da noite carioca, ligada ao mundo das informações, contou a seguinte história:
"No final de 1982 eu soube que haviam encomendado a morte do Teodomiro. Ele estava internado num hospital em Paris. A mulher dele trabalhava numa perfumaria. O serviço seria feito com uma injeção letal por um bolsista que vivia na cidade. Assustados por uma ameaça de que seriam descobertos, desativaram o plano."
Teodomiro Romeiro dos Santos informa:
1) No segundo semestre de 1982, com dores na coluna, internou-se num hospital, em Paris.
2) Sua mulher trabalhava numa perfumaria.
3) Pouca gente sabia que se hospitalizara, pois não queria intranquilizar sua mãe, que vivia no Brasil.
4) Quando se sentiu recuperado, quis ir embora do hospital, mas tentaram retê-lo. Como insistiu, teve que assinar um compromisso responsabilizando-se pela alta. (Em setembro de 1982, um engenheiro da Telerj que operava na área de grampos caminhava pela avenida Atlântica e foi atacado por uma pessoa que lhe aplicou uma picada na perna. Horas depois morreu no Hospital Miguel Couto.)

sábado, 3 de maio de 2014

Populismo avança no Reino Unido, apesar dos escândalos - Walter Oppenheimer

Populismo avança no Reino Unido, apesar dos escândalos

Walter Oppenheimer
Em Londres
Se, como disse Blaise Pascal (físico e teólogo francês), "o coração tem razões que a razão não entende", também é verdade, cada vez mais, que os eleitores têm razões que a razão não entende. Pelo menos é o que parece entre os eleitores britânicos, cujo apoio ao populista Ukip (Partido da Independência do Reino Unido na sigla em inglês) sobe ao mesmo tempo que crescem os escândalos em torno dessa formação.
Duas pesquisas lhe dão a vitória nas próximas eleições europeias, apesar de um dos candidatos ter pedido a um comediante negro que vá viver em um país de negros; apesar de seu líder, Nigel Farage, ter tido dificuldade para justificar o destino dos milhares de euros que recebe todo ano do Parlamento Europeu para gastos parlamentares; e apesar de o próprio Farage empregar como secretária uma cidadã alemã, sua mulher, ao mesmo tempo que denuncia que os continentais estão deixando os britânicos sem emprego.
Talvez a ascensão do Ukip não seja apesar desses escândalos, e sim graças a eles. No fim das contas, supõe-se que seja um partido de protesto e que qualquer ataque dessa formação seja percebido como uma reação do "establishment" contra uma formação alternativa. Que seus representantes se comportem como o resto da classe política é o de menos. Por isso, para a população é igual que Farage empregue sua mulher ou que esta seja estrangeira e ao mesmo tempo alguns exijam do líder liberal-democrata, Nick Clegg, responsabilidades pelos abusos sexuais cometidos por um antigo barão do partido, Cyril Smith, quando ele tinha 12 anos.
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Veja os governos que caíram ou perderam as eleições por causa da crise na Europa10 fotos

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O ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi renunciou em novembro de 2011. Ele não resistiu no cargo em meio à crise econômica que assola a Itália, e foi substituído por Mario Monti Leia mais Jean-Christophe Verhaegen/AFP
Nesse ambiente revolto e confuso, Farage e o Ukip se movem como peixes na água e as pesquisas lhe dão 31% dos votos nas eleições europeias, 3 pontos à frente dos trabalhistas e muito acima dos conservadores (19%) e dos liberais (9%). É a segunda vez que o Ukip fica em primeiro nas pesquisas e, caso se confirme na hora da votação, seria a primeira vez que ganha eleições nacionais.
O que não está claro é se isso seria o terremoto político previsto pelo líder do Ukip. Afinal, já faz tempo que essa formação obtém muito bons resultados nas eleições europeias, mas sem que isso se traduza em um peso eleitoral geral. Em 2009 o Ukip foi o segundo, com 16,5% dos votos e 13 eurodeputados. E cinco anos antes ficou em terceiro, com 16,1%. Talvez o mais perigoso seja que desta vez o que anima o voto no Ukip não são apenas suas tradicionais posições contra a UE, mas sua fobia declarada contra os imigrantes, tanto os procedentes de outros países como os da UE, apesar de haver mais britânicos vivendo no continente do que continentais no Reino Unido.
Um dos últimos escândalos são uns cartazes publicitários nos quais se vê um operário britânico sentado na rua pedindo esmola por culpa da UE. Depois se soube que na realidade se trata de um ator irlandês contratado pelo partido. O Ukip também apoiou um de seus candidatos nas municipais, William Henwood, apesar de este ter instado o ator britânico Lenny Henry a emigrar "para um país negro" por ter-se queixado de que na BBC aparecem poucos representantes de minorias.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O direito à felicidade - Umberto Eco

O direito à felicidade - Umberto Eco

Às vezes eu me pergunto se muitos dos problemas que nos afligem hoje –nossa crise coletiva de valores, nossa suscetibilidade à propaganda, nosso desejo insaciável de aparecer na televisão, nossa perda de perspectiva histórica– podem ser rastreados até alguns termos infelizes da Declaração da Independência dos Estados Unidos. Refletindo a fé massônica na magnificência e progressividade do destino, aquele documento estabeleceu que "todos os homens são criados iguais, são dotados pelo Criador de certos Direitos inalienáveis, entre os quais estão a Vida, a Liberdade e a Busca da Felicidade".
Diz-se com frequência que, na história das leis fundadoras das nações, esse documento foi o primeiro a declarar explicitamente que as pessoas têm o direito à felicidade, em vez de simplesmente um dever de obedecer. E, à primeira vista, ela de fato parece uma afirmação revolucionária, mas com o passar do tempo também provocou interpretações equivocadas.
Muito foi escrito a respeito da felicidade, desde a época de Epícuro e até mesmo antes. Mas me parece que nenhum de nós pode dizer de forma definitiva o que realmente é felicidade. Se falamos em um estado permanente –a ideia de uma pessoa que é feliz por toda sua vida, nunca experimentando um momento de dúvida, sofrimento ou crise– essa vida só poderia ser de um idiota, ou de uma pessoa que vive completamente isolada do restante do mundo.
O fato é que a felicidade –aquele sentimento de plenitude absoluta, de elação, de estar nos céus– é transitória. É episódica e breve. É a alegria que sentimos com o nascimento de um filho, ao descobrir que nossos sentimentos amorosos são correspondidos, ao segurar um bilhete de loteria premiado, ou ao atingir uma antiga meta: um Oscar, a taça da Copa do Mundo ou alguma outra realização culminante. Pode até mesmo ser desencadeada por algo tão simples quanto um passeio por um belo trecho do campo. Mas todos esses são momentos passageiros, após os quais eventualmente virão momentos de temor e agitação, de pesar e angústia.
Nós tendemos a pensar na felicidade em termos individuais, não coletivos. De fato, muitos de nós não parecem muito preocupados com a felicidade dos outros, tão envolvidos estamos na busca que tudo consome da nossa própria. Considere, por exemplo, a felicidade que vem de estar apaixonado: ela frequentemente coincide com a infelicidade de uma pessoa que foi rejeitada, mas nós nos preocupamos muito pouco com a decepção daquela pessoa, porque nos sentimos totalmente realizados pela nossa própria conquista.
A ideia da felicidade individual impregna o reino da propaganda e do consumismo, onde tudo parece fornecer uma rota para uma vida feliz: o hidratante que restaurará nossa juventude, o detergente que removerá qualquer mancha, o sofá que pode ser milagrosamente seu pela metade do preço, a bebida que nos aquecerá após uma tempestade, a carne enlatada em torno da qual nossas famílias se reunirão alegremente –até mesmo o absorvente higiênico que poupará as mulheres de qualquer incômodo e embaraço.
Nós raramente pensamos na felicidade quando votamos ou quando enviamos nossos filhos à escola, mas está presente em nossas mentes quando compramos coisas inúteis. E ao comprá-las, nós acreditamos que estamos desfrutando nosso direito de busca da felicidade.
Mas nós não somos, no final, bestas impiedosas. Em algum momento, nós de fato nos preocupamos com a felicidade dos outros. Frequentemente é quando a imprensa nos mostra a infelicidade em seus extremos: crianças morrendo de fome e sendo devoradas por moscas, populações devastadas por doenças incuráveis ou por ondas de maremoto. Nesses momentos, não apenas pensamos na infelicidade dos outros, mas podemos até mesmo nos sentir compelidos a ajudar. (E se, no processo, obtivermos uma dedução nos impostos, que seja.)
Talvez a Declaração da Independência deveria ter dito que todos os homens têm o direito e o dever de reduzir a quantidade de infelicidade no mundo –a deles próprios e dos outros. Talvez assim mais americanos entenderiam, por exemplo, que não é de interesse próprio de ninguém se opor à Lei do Atendimento de Saúde a Preço Acessível. Como está, é claro, muitos continuam contrários, devido a algum senso equivocado de que isso se interporá entre eles e outro direito aparentemente inalienável: a busca da felicidade fiscal.
 Tradutor: George El Khouri Andolfato

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Um patriarca nas agruras do seu inverno - Sergio Rizzo

Um patriarca nas agruras do seu inverno

Sérgio Rizzo | Para o Valor, de São Paulo

Divulgação / DivulgaçãoHá algo de shakespeariano (e também de melodramático) na tragédia anunciada desse personagem confinado ao seu quarto e aos gabinetes do Catete
Um velhinho solitário, fisicamente fragilizado e dependente da família para saber o que ocorre à sua volta, saudoso dos tempos em que sua capacidade de liderança não era contestada - ou era, apenas para ser sufocada - e em que sabia encontrar saídas quando o acuavam. Desta vez, não parece ter ânimo nem mesmo para buscar uma estratégia de sobrevivência política, muito menos para executá-la. Age como quem entregou os pontos e aguarda, de maneira passiva, o desfecho da crise mais aguda de sua carreira política.
Em linhas gerais, é esse o perfil do melancólico Vargas que Tony Ramos recria em "Getúlio". Há algo de shakespeariano (e também de melodramático) na tragédia anunciada desse personagem palaciano que vemos confinado ao seu quarto e aos gabinetes do Catete, sem confiar plenamente no que lhe dizem os auxiliares, alguns dos quais considera traidores, mas sem força para afastá-los e reacomodar o círculo do poder. Parafraseando o romance de Gabriel García Márquez publicado em 1975, aqui não se trata mais do outono, mas do inverno do patriarca. Frio e doloroso.
De todas as contribuições artísticas ao resultado final de "Getúlio", nenhuma se aproxima da importância da atuação de Ramos. Seja lá qual for a impressão que o espectador levará para casa, terá necessariamente a ver com o registro que o ator imprime ao personagem - calcado em um cuidadoso estudo do próprio Vargas, mas descolado do que seria mera "imitação", em busca de soluções próprias (sobretudo no conhecido desenlace simultâneo de carreira e vida, em que não havia testemunha), para dar relevo humano a alguém que se confunde com mito. Pode-se gostar ou não do que Ramos faz, mas é preciso reconhecer a envergadura do trabalho.
O registro que Tony Ramos imprime ao personagem, longe de simples imitação, dá relevo humano a alguém que se confunde com mito
E o que Ramos faz, evidentemente, não traduz apenas suas opções como ator. Atribua-se ao diretor e argumentista João Jardim, à produtora Carla Camurati e aos roteiristas George Moura e Teresa Frota as linhas mestras dessa leitura da agonia de Vargas. Ao deixar clara a fragilidade física e emocional do protagonista, ela estabelece, por contraponto, o que seria a grandeza política do ato final - que o filme, ao usar nos letreiros de encerramento uma frase de Tancredo Neves (interpretado por Michel Bercovitch), sugere ter adiado a iminente intervenção militar de 1954 para o horizonte de eventos de 1964. Um ato heroico, portanto, do ex-ditador.
Não por acaso, o Vargas de Ramos diz em uma reunião palaciana, negando a sugestão de um auxiliar para que fizesse prisões arbitrárias, que já havia rasgado duas constituições, e que não poderia fazer isso mais uma vez. O filme investe na representação de um patriarca que, nas agruras do inverno, teria reconhecido o que fez na primavera e no verão de sua carreira política, durante a passagem autoritária pela Presidência. E que teria na agenda de seu mandato legítimo um compromisso, no país redemocratizado do pós-II Guerra Mundial, com a estabilidade política e com a sucessão presidencial por meio do voto popular.
No front contrário, o dos incendiários que pareciam apostar já em 1954 na ruptura institucional de dez anos depois, destaca-se a figura do jovem Carlos Lacerda - interpretado por Alexandre Borges com uma verve até discreta, perto do tom flamejante e agressivo do personagem verídico. Outras figuras-chave ganham interpretações condizentes com seu comportamento ambíguo e sinuoso na trama palaciana, como o general Zenóbio da Costa (Adriano Garib), ministro da Guerra nos últimos meses de governo, e o coronel Benjamin Vargas (Fernando Luis), irmão de Getúlio.
Diretor de ficção ("Amor?") com sólida experiência no documentário ("Janela da Alma", "Pro Dia Nascer Feliz", "Lixo Extraordinário"), Jardim investe no didatismo para tornar mais claros os eventos históricos a um espectador que não tenha pleno conhecimento deles, como letreiros que apresentam personagens. E celebra, no fim, a força das imagens documentais sobre qualquer recriação ficcional, ao inundar a tela com a impressionante multidão que carregou o corpo de Vargas - o calor das ruas, alimento do presidente, libertando-o, finalmente, da solidão invernal do Catete.


Leia mais em:
http://www.valor.com.br/cultura/3526248/um-patriarca-nas-agruras-do-seu-inverno#ixzz30UJQeGWh

Meire Gomes sobre o aumento da Bolsa - Família

De Meire Gomes [@meire_g ]

Gente, o piso do Bolsa-Família é 70 reais. 

Realmente vocês acham que um aumento de 7 reais é muito, que uma família que recebe isso tá de boa?

O problema não é o bolsa-família. O problema é o Governo confiscar 4 meses de nosso trabalho por ano em forma de impostos e taxas!

Quanto mais dinheiro do que a gente paga for repassado para o povo (q usa na padaria, no mercadinho, na farmácia) menos pior

A classe mais alta paga muito imposto então deveria estar feliz porque parte do que sai no nosso suor vai certamente para mesa do pobre

É a única coisa que tá certa, o bolsa-família. o que falta é dar educação, saúde, segurança e transporte para todos.

Diferente de quem é militante de sofá e diz que o beneficiário do bolsa-família é um preguiçoso que não quer trabalhar, eu atendo essas pessoas.

Antes de chamar quem tem menos oportunidade que você de preguiçoso, passe alguns dias entre eles, veja sua rotina e sai do twitter um pouco.

Para mim a preguiçosa e a pessoa que tem oportunidades, está matriculada em uma boa escola mas em vez de estudar vive em rede social.

Seria mais correto um país que já não dá segurança, nem dá educação, saúde ou transporte deixar o povo morrer de fome? Acho que não, né.

Então em vez de atacar a única coisa que a droga desse país faz, vamos nos centrar em que ele não faz e tentar tirar esse governo do poder

domingo, 20 de abril de 2014

Elio Gaspari

jornal o globo
ELIO GASPARI
Anatomia de uma maracutaia
Os planos de saúde queriam o céu: descumpririam o que contrataram e a multa de R$ 4.000 sairia por R$ 40
A doutora Dilma Rousseff ganhou um presente. A Câmara e o Senado puseram a bola na marca do pênalti, para que ela vete o dispositivo da medida provisória 627, que alivia as multas devidas pelos planos de saúde que negam aos clientes o atendimento contratado. Enfiaram num texto que tratava de outros assuntos uma nova sistemática para a cobranças dessas penalidades. É o Pró-Delinquente. Se uma operadora nega ao freguês um procedimento médico, ele se queixa à Agência Nacional de Saúde e tem seu direito reconhecido, a empresa deve pagar uma multa de R$ 2.000. Se essa mesma empresa nega dez procedimentos, pagará R$ 20 mil. Com a mudança, se o plano de saúde negar de 2 a 50 procedimentos, pagará duas multas (R$ 4.000, em vez de até R$ 100 mil). Daí em diante, haverá uma escala. Quanto pior o serviço da operadora, menor será a multa. A empresa que estivesse espetada com mais de mil multas, pagaria apenas o equivalente a 20. Incentivando a infração, se um plano nega dois procedimentos, paga R$ 4.000. Se nega mil procedimentos, paga R$ 40 por infração.
O Pró-Delinquente foi um dos 523 contrabandos enfiados na MP 627. Como emenda parlamentar não é o vírus da gripe, que vem no ar, alguém a pôs no texto. O relator da medida provisória foi o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Ele chegou a defender o dispositivo durante a votação pela Câmara. Dias depois, recuou, explicando-se: a mágica foi discutida com os ministérios da Saúde e da Fazenda, bem como com a Casa Civil da Presidência. Como esses prédios não falam, faltou dizer com quem discutiu o assunto. Além de Cunha, o relator da MP, não há registro de outro parlamentar patrocinando a iniciativa.
A mágica foi aprovada na Câmara com o beneplácito das lideranças do governo e da oposição. Remetida ao Senado, aconteceu a mesma coisa. Tantos são os interesses embutidos na MP que os senadores preferiram apressar a tramitação, esperando que a doutora Dilma vete o Pró-Delinquente.
Criou-se um novo absurdo. Os senadores abdicaram da prerrogativa republicana do consentimento. Se o Senado aprova um projeto esperando que o Executivo vete a maluquice, fica a pergunta: para que serve o Senado, cujos doutores têm assistência médica gratuita?
Quando a doutora Dilma vetar o Pró-Delinquente (se vetar) ficará no heroico papel de defensora da Viúva, dos pobres e dos oprimidos, mesmo sabendo-se que seu governo e sua base aliada permitiram que o contrabando fosse colocado na medida provisória e aprovado no Congresso.
A PIOR TACADA
A Comissão de Valores Mobiliários encaminhou à Polícia Federal o inquérito que trata de tráfico de informações com operações das empresas de Eike Batista nas Bolsas de Valores.
Quando a OGX parecia ser uma fábrica de milionários, Eike, o homem mais rico do Brasil, foi a um jantar em Miami, na casa do milionário Jeffrey Soffer, marido da modelo Elle MacPherson. Lá, conversando com Alex Rodriguez, que estava com sua mulher, Cameron Diaz, disse-lhe que nos próximos dias sua empresa anunciaria fantásticas descobertas de petróleo. Alex, o melhor jogador de beisebol dos dias de hoje, sacou o telefone, foi para um canto e conversou com seu corretor.
Trouxe de volta o recado do operador: "Ele disse para eu
esquecer essa história e não voltar a mencioná-la, porque se o fizesse, iríamos os dois para a cadeia".
Grande corretor. Alex Rodriguez esteve a um passo da pior tacada de sua vida. Cada dólar que tivesse posto na OGX valeria hoje um centavo.
PT
Pela primeira vez desde 2005, quando surgiu o escândalo do mensalão, o PT enfrenta uma divisão perigosa.
De um lado, a turma do "partir para cima", defendendo qualquer companheiro, em qualquer situação, liderada pelo deputado Cândido Vaccarezza. De outro, o grupo que prefere jogar alguma carga ao mar. Nele, fica o presidente do partido, Rui Falcão.
Falta pouco para que se possa dizer que a nação petista tem dois blocos: um com alguma ideologia e algum fisiologismo; outro, só com fisiologismo.
ARITMÉTICA
As últimas pesquisas são insuficientes para que se preveja o resultado da próxima eleição, mas uma mesma conclusão atravessa todos os números: o PT está sem puxador de votos.
Um mau desempenho da doutora Dilma afetará todo o partido.
*COBRAS DA PF *
O andar de cima da Polícia Federal, como o Itamaraty, é um ninho de cobras que alimentam inconfidências sobre promoções e remoções.
O último assunto desse ofidiário são as transferências ocorridas nos quadros da Polícia Federal do Paraná, onde rolam as investigações sobre as atividades do doleiro Alberto Youssef e suas conexões no triângulo dos três pês: PT, PP e Petrobras.
TROPA NA COPA
O Planalto está com transtorno bipolar quando lida com a Copa. Como diria a doutora Dilma, "no que se refere" aos seus discursos, ela anuncia que não vai tolerar desordens e que as Forças Armadas serão mobilizadas para garantir a ordem. Conversa de comissário de polícia.
No que se refere à marquetagem, contrata agências de publicidade para adocicar o evento.
Presidente zangado, o Brasil já teve um, o general João Figueiredo (1979-1985). Deu no que deu.

*GARCÍA MÁRQUEZ *
Para a memória de Gabriel García Márquez:
Havia um jantar em Havana e Fidel Castro, um retardatário imperial e compulsivo, chegou atrasado. Faltava Gabriel García Márquez. Quando ele chegou, o Comandante alfinetou-o:
-As pessoas mais importantes sempre são as últimas a chegar.
-Por isso, e também porque vim de longe. Respondeu o escritor.

UMA LIÇÃO QUE VEM DA CHINA
O doutor Eduardo Cunha, relator da MP 627, fez uma breve "villegiatura" pela China. Teve a oportunidade de conhecer a inovação que o presidente Xi Jinping introduziu na política do Império do Meio. Convivendo numa cleptocracia na qual há espertalhões amigos e inimigos, ele parece ter mudado o padrão de combate aos larápios. Há dois anos ele afastou o czar da segurança chinesa (Zhou Yongkang, mas não adianta tentar memorizar esse nome). Desde então, dedica-se a desmantelar seu aparelho. Na semana passada, prendeu pelo menos dois mandarins, mas a novidade está em outra ponta. Em vez de sair prendendo, o companheiro avança sobre o patrimônio dos comissários. Com todas as ressalvas que devem acompanhar detalhes da política interna chinesa, já teriam sido confiscados US$ 14,5 bilhões de 300 amigos e protegidos do comissário. Antes de ir para o aparelho de segurança, ele fez fama na burocracia do petróleo. Condenar ladrão a viver como pobre talvez seja mais prático do que mantê-lo na cadeia.