domingo, 11 de maio de 2014

Marcelo Gleiser

folha de são paulo 
Pai Cosmo, mãe Terra
Vivemos dentro de um útero azul, um oásis de vida no Cosmo, mas celebramos pouco nossa mãe coletiva
Como hoje é Dia das Mães, nada mais apropriado do que celebrar a nossa mãe coletiva, o planeta Terra, pois somos todos filhos dela, consequência da sua história e da sua relação com o Cosmo.
Tudo começou em torno de 13,8 bilhões de anos atrás, quando o pai de todos, o Universo, surgiu. (Talvez fosse mais adequado usar o feminino para o Universo também, mas como a palavra é masculina...)
Não vamos contar a história dele em detalhe. Deixo isso para o Dia dos Pais. Basta saber que uns 200 milhões de anos após seu surgimento, foi a vez das primeiras estrelas aparecerem. Estrelas são agregados do elemento químico mais abundante e simples do Cosmo, o hidrogênio, e fazem algo de extraordinário: transformam o hidrogênio em todos os outros elementos químicos que existem.
Perdão, Paulo Coelho, mas as estrelas são os verdadeiros alquimistas. Trazemos em nossos corpos essa herança cósmica, a química do Universo, forjada em estrelas que pereceram bilhões de anos atrás. Somos a memória desse passado, que, ao assumir a forma humana, permitiu que as estrelas pudessem se lembrar.
Depois das primeiras estrelas, foi a vez das galáxias. Numa coreografia de dimensões astronômicas, a gravidade foi esculpindo o Universo como ele é hoje, com a matéria fluindo daqui e dali, se aglomerando, girando. São algumas centenas de bilhões de galáxias, cada uma com milhões ou mesmo centenas de bilhões de estrelas. Delas, estamos na Via Láctea, uma magnífica estrutura espiral, que lembra um furacão visto de cima, um vórtex de estrelas e gases girando pelo espaço. Em meio a essas estrelas, em torno de 4,6 bilhões de anos atrás, surgiu o Sol e seus planetas. Dentre eles, a Terra, nossa mãe.
A Terra é um planeta especial. Basta olhar para nossos planetas vizinhos e nos damos conta disso. Especial porque é um planeta coberto de água, com uma atmosfera rica em oxigênio, que protege a superfície dos bombardeios constantes que vêm do espaço, como a radiação solar e os raios cósmicos.
Vivemos dentro de um útero azul, um oásis de vida em um Cosmo destituído de vida, frio e hostil. A Terra proporciona um clima quente e estável para que a vida possa existir e explodir em sua diversidade. Quem já passeou pela mata atlântica ou pela Amazônia vislumbrou uma ecologia explosiva, uma criatividade aparentemente infinita, plantas e bichos de todos os tipos buscando comida e tentando se reproduzir, passar sua herança genética para a prole, perpetuando sua permanência e memória. A vida usa o presente para criar o futuro.
Celebramos muito pouco essa nossa mãe coletiva. Somos filhos rebeldes e ingratos, esquecidos de nossas origens. Aquele tipo de criança que não queremos, desrespeitosa com nossos pais, que, quando sai de casa, nunca mais olha para trás.
A diferença, crucial, é que não podemos sair de casa, escapar do abraço de nossa mãe. Se tentamos, o fazemos de forma precária, e aprendemos o quanto precisamos dela. Podemos até tentar encontrar outras mães pelo espaço, na busca por outras Terras. Mas como é verdade com todas as mães, por mais acolhedora que seja, nenhuma será como a nossa.

Elio Gaspari

Jornal O Globo
Aécio, ou Tancredo Neves 2.0
Até agora o neto rodou o programa que em 1984 deu a Presidência ao avô: joga parado, e está dando certo
A indicação da pesquisa Datafolha de que hoje Aécio Neves é o candidato com mais probabilidades de chegar a um eventual segundo turno numa disputa com Dilma Rousseff recomenda que seus adversários estudem a campanha que levou seu avô à Presidência em 1985.
Até agora Aécio jogou parado. Tudo o que ele precisa é chegar ao segundo turno, sem inimigos de morte e com o máximo possível de acordos. Aécio precisa de votos que há quatro, oito ou doze anos foram para o PT. Em circunstâncias diferentes, Tancredo precisava chegar a uma eleição direta com o apoio de eleitores da bancada do governo.
Indo para uma eleição direta, Aécio ainda não anunciou um programa substantivo. O avô fez melhor, elegeu-se indiretamente sem anunciar programa algum. Essa mágica foi inteiramente eficaz para o avô, mas é duvidoso que o seja nas condições de hoje. Afinal, só 42% dos entrevistados dizem conhecê-lo, e são exatamente os outros 58% que precisam de motivos concretos para votar nele.
Aécio vem sendo beneficiado pela erosão de Dilma, provocada, entre outros fatores, pelo Lula-volta-Lula-não-volta. Tancredo foi beneficiado pela ambiguidade do presidente João Figueiredo, que alimentou a ideia da própria reeleição e não foi a lugar algum.
Tancredo encarnava o fim de um regime de vinte anos. Aécio quer encarnar o fim de um domínio democrático que pretende durar dezesseis. Com uma diferença: tanto na ditadura, que durou 21 anos, como na República Velha, com seus 36, havia uma real rotação dentro do grupo governante. Com o PT no Planalto jamais houve essa rotatividade.
Rodando o programa Tancredo 2.0, Aécio respondeu a um ataque de Marina Silva ("o PSDB sabe que já tem cheiro de derrota") com um calmante ("não vou cair na armadilha do PT que é dividir a oposição"). Até agora, deu certo, pois tudo o que pode dar errado com os adversários, errado dá. Contudo, Lula continua no banco de reservas, com 58% dos entrevistados achando que ele deve ser o candidato do PT.
GRANDE NEGÓCIO
Outro dia o bilionário Warren Buffett disse que está estudando um novo grande negócio, associado ao empresário brasileiro Jorge Paulo Lemann. Ele é o terceiro homem mais rico do mundo. O outro é o mais rico do Brasil.
Faz tempo, depois de ter comprado as Lojas Americanas, Lemann disse a um sócio: "Agora vamos comprar a Brahma". O outro achou que ele queria tomar uma cerveja. Meses depois Lemann começou a negociar a compra da cervejaria.
Se Lemann disser que vai comprar um refrigerante, isso não significará que está com sede. Ele e Buffett poderão comprar a Pepsi, ou a Coca-Cola. Buffett é o maior acionista individual da Coca-Cola e votou contra os bônus milionários dados à diretoria da empresa.
RECORDAR É VIVER
Durante a campanha eleitoral de 2006, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, ligou para pelo menos um empresário paulista que tinha negócios com a companhia pedindo-lhe que recebesse um ministro. O encontro ocorreu, e o ministro pediu uma doação formal para a campanha do PT. Nada feito. Oito anos depois, vê-se no que deu o desembaraço do comissariado.
CAMINHÕES
O governo diz que a venda de caminhões caiu 14% neste ano. Um grande fabricante assegura que esse número é otimista. A queda estaria próxima dos 20%.
MAU SINAL
A doutora Dilma voltou a defender a necessidade de uma reforma política para consertar o país.
"Reforma política" é um bordão ao qual o governo recorre quando não tem o que dizer.
MET GALA
A festa anual do Metropolitan Museum foi uma beleza, mas Anna Wintour, a alma da noite, errou a mão ao sugerir que os homens fossem vestindo casaca e condecorações.
Metade dos convidados não atendeu ao pedido, no que fizeram muito bem.
Pelo menos dois foram de casaca, sem meias, o que é engraçado, mas deixa uma ponta de ridículo.
A maioria dos senhores de casaca mostraram-se desengonçados, uns pela roupa mal cortada, quase todos pelo colete branco desajustado; outros, pelo próprio chassis.
Alguns calçavam sapatos de cadarço mal engraxados. (O rigor inglês pede sapatilhas de verniz.)
O desastre deu-se com as condecorações. Apanágio na Inglaterra de La Wintour, as patacas não fazem parte da cultura americana.
Resultado: o mais enfeitado foi o fotografo Mario Testino. (O melhor conselho sobre condecorações é atribuído ao primeiro-ministro português Oliveira Salazar e também ao pensador francês Raymond Aron: "Nunca as peça, nunca as recuse e nunca as use".)
A noite foi ganha pela atriz Lupita Nyong'o, que vestiu uma instalação de pedras e penas verdes da Prada, sugestão de fantasia para o Império Serrano no próximo Carnaval.
AVISO AMIGO
As greves dos lixeiros e a dos motoristas de ônibus do Rio mandaram um recado ao empresariado: sindicatos de trabalhadores dirigidos por amigos não garantem paz.
Pelo contrário, jogam categorias nos braços de movimentos radicais e avulsos.
MAIS UM TELENEGÓCIO ESQUISITO
Está no forno, com o beneplácito do Planalto, uma curiosa transação. Articula-se na Europa a venda da TIM, a segunda maior operadora de telefonia do país, para a Oi. Uma pertence à Telecom Italia, que é controlada pela Telefónica espanhola. A outra é da Portugal Telecom. Uma empresa comprando outra e reduzindo o número de concorrentes já é coisa esquisita, mas há um segundo lance. Feita a compra, a TIM será fatiada. A Oi ficaria com um pedaço, outro iria para a Vivo, que pertence à Telefónica espanhola, que já é a maior operadora de Pindorama. O que sobrar iria para a Claro, mexicana.
São muitos os países em que a simples discussão desse enredo traz tenebrosas complicações legais. Nessa transação há mais duas curiosidades. O Brasil tem hoje quatro operadoras e sobrarão três. Não há no mundo tamanha concentração de mercado.
A segunda curiosidade será a expansão da Oi. Ela é filha da falecida Telemar, produzida pela privataria tucana e chamada de Telegang pelo então presidente do BNDES. Na privataria petista, anunciou-se que a sua associação com a Portugal Telecom criaria a SuperTele brasileira. Fantasia. Criou-se e expandiu-se a SuperTele portuguesa, para alegria de Lula, ao tempo em que ele anabolizava as "campeãs nacionais". Boa parte do dinheiro saíra do BNDES e tomara o rumo devido.
Os donos dessa ideia já convenceram o comissariado de que convém ao governo e ao mercado o sumiço de uma operadora e a contração da concorrência. Falta explicar aos consumidores.

    quarta-feira, 7 de maio de 2014

    Motivos pelos quais os alemães adoram a Rússia - Clemens Wergin*

    Motivos pelos quais os alemães adoram a Rússia

    Clemens Wergin*
    The International New York Times, em Berlim
    • 5.set.2013 - Eric Feferberg/Afp
      A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente russo, Vladimir Putin, em foto de 2013
      A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente russo, Vladimir Putin, em foto de 2013
    Assim como a maioria dos especialistas em política externa, eu fiquei chocado com a anexação da Crimeia pela Rússia e com a continuidade da "invasão suave" que está sendo levada a cabo pelos russos no leste da Ucrânia. Será que uma apropriação de terras tão descarada como essa realmente está acontecendo hoje em dia, em plena Europa do século 21?

    Mas as ações da Rússia não foram a única surpresa. Se você acompanhou os debates realizados na Alemanha sobre a crise na Ucrânia, você testemunhou outro fenômeno estranho: um desfile de políticos aposentados e figuras públicas que foram à TV para defender a Rússia.

    De acordo com essas figuras respeitáveis --que incluem os ex-chanceleres Gerhard Schröder e Helmut Schmidt--, a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar do Ocidente) e a União Europeia (UE) foram as reais agressoras nesse caso, pois se atreveram a expandir seus domínios para um território que pertencia à esfera legítima de interesse de Moscou. E parece que parte do público alemão concorda com isso.

    Você acreditava que os alemães eram os defensores das leis internacionais e da ordem mundial baseada nas regras? Pense novamente.

    Há uma hipocrisia flagrante aqui. Isso por que as mesmas pessoas que se fiaram nas leis internacionais para criticar a invasão norte-americana do Iraque estão atualmente agindo como realistas recém-nascidos e criando desculpas para a necessidade da Rússia de violar a soberania de outras nações.

    Na verdade, apesar de suas falsas acusações contra o Iraque, o governo Bush tinha pelo menos 16 resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para respaldar seu caso. Vladimir Putin, presidente da Rússia, não tem nenhuma. O único denominador comum entre ambas as posições parece ser um antiamericanismo subjacente.

    Parte desse sentimento pró-Moscou pode ser atribuído à propaganda patrocinada pela Rússia: uma recente reportagem investigativa publicada pelo jornal alemão Welt am Sonntag revelou como uma rede suspeita de partidários da Rússia foi capaz de moldar o discurso público na Alemanha. Até fóruns de diálogo com a Rússia, co-patrocinados pelo governo alemão, estão cheios de amigos de Putin --mesmo do lado alemão.

    Mas também há uma tendência preocupante entre os cidadãos comuns que remonta a antigas e infelizes tradições alemãs. Nós vemos a Alemanha como um país da Europa Ocidental, mas essa visão é, em grande parte, um produto de alianças firmadas durante a Guerra Fria. Antes disso, o país ocupava uma posição precária, ficando bem no meio entre o leste e o oeste.

    Vinte e cinco anos depois do fim da Guerra Fria, a sociedade alemã pode muito bem estar se distanciando do Ocidente novamente. Em uma pesquisa realizada no mês passado pela Infratest/dimap, 49% dos alemães disseram que queriam que seu país assumisse uma posição intermediária entre o Ocidente e a Rússia na crise da Ucrânia, e apenas 45% gostariam que o país se posicionasse firmemente do lado ocidental.

    Esse antiocidentalismo da Alemanha é proveniente de ambos os lados do espectro político. Há a parcela de esquerda que é instintivamente antiamericana e fica do lado de qualquer ator internacional que venha a desafiar o status quo e a principal potência ocidental.

    Mas também existe a direita populista da Europa, que concorda com a propaganda da Rússia, segundo a qual a Europa se tornou demasiadamente gay, demasiadamente tolerante, demasiadamente permissiva em relação a seus princípios morais e demasiadamente não cristã, e que acolhe um líder autoritário que desafie o multilateralismo difuso da Europa.

    Na Alemanha, essa corrente é mais bem representada pelo novo Partido Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland), que é contra o euro. Eles ocupam uma parcela conservadora do pensamento alemão que remonta ao século 19, abriga um ressentimento contra a civilização ocidental e romantiza uma Rússia que aparentemente não foi corrompida pelos valores ocidentais e pelo capitalismo do livre mercado.

    Ambas as versões desse antiocidentalismo existem há várias décadas. Mas, até agora, elas ficavam confinadas às bordas do cenário político. Atualmente, elas são aceitas por grupos das elites e por parcelas do centro do espectro político. Isso, combinado ao enorme investimento realizado por empresas alemãs na Rússia, está restringindo o quão agressivamente o governo de Angela Merkel --a chanceler alemã que é fortemente pró-ocidental-- é capaz de agir contra a Rússia.

    O que une os defensores da esquerda e da direita da Alemanha é um desrespeito impressionante pelo destino das pessoas que habitam as terras localizadas entre a Alemanha e a Rússia, além de uma noção truncada da história alemã.

    Alguns defensores explicam sua simpatia pela Rússia como uma questão de dívida com o país devido às atrocidades cometidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Mas é importante lembrar que a guerra começou com a Alemanha invadindo a Polônia a partir do Ocidente --e, alguns dias mais tarde, com a União Soviética invadindo a Polônia a partir do Oriente, depois que ambos os lados tinham concordado em segredo em dividir a Europa Oriental entre si.

    E, dessa maneira, quando figuras públicas alemãs repetem a propaganda russa e repudiam a Ucrânia ao afirmarem que o território "não é um país real de qualquer maneira" ou tratam os países localizados entre o Ocidente e a Rússia como nações de segunda classe cuja soberania vale menos do que a de outras nações, elas estão evocando memórias dos velhos e difíceis tempos do Leste Europeu, quando nazistas e soviéticos transformaram a região nas "Terras Sangrentas" de suas respectivas ditaduras.

    Durante décadas a Alemanha tem tentado aceitar seu passado fascista e aprender lições importantes com ele. Mas agora, lá vem um líder autoritário de outro país que, para tentar estabilizar seu regime, comete uma agressão externa baseada no nacionalismo étnico.

    Para quem já teve que lidar com o passado nazista da Alemanha, devia ser fácil diferenciar o certo do errado neste caso, em vez de tentar ficar encontrando desculpas para as ações da Rússia. Mas esse foi um teste no qual muitos de meus compatriotas fracassaram.

    Para ser justo, em uma pesquisa recente 60% dos alemães disseram que seu país deveria ficar do lado do Ocidente na crise Ucrânia. Então, a atual agressão da Rússia contra a Ucrânia está tendo algum efeito sobre a opinião pública. Mas isso ainda significa que quase a metade dos alemães não sente uma profunda ligação com o Ocidente e seus valores – que é precisamente o que Putin quer.

    *Clemens Wergin é editor internacional do grupo jornalístico alemão Die Welt e autor do blog Flatworld

    domingo, 4 de maio de 2014

    Elio Gaspari

    jornal o globo
    ELIO GASPARI
    Uma época, um livro e uma festa
    Enquanto o mundo-dinheiro vai ao baile do Metropolitan, o mundo-cabeça discute o livro de Thomas Piketty
    Amanhã o Metropolitan Museum de Nova York abre a escadaria para o baile anual do seu instituto de moda. A entrada custa US$ 25 mil, e o freguês terá passado pela seleção de Anna Wintour, a bruxa do filme "O Diabo Veste Prada", diretora da revista "Vogue", czarina da moda e princesa do mundo das celebridades. O "Met Gala" é o tapete vermelho mais bonito, rico e exclusivo do mundo. Quem não tiver a graça de pisá-lo poderá ir para um bar discutir o livro "Capital", do professor francês Thomas Piketty. Por caminhos diferentes, estará no mesmo mundo.
    Piketty escreve com a elegância com que a atriz Gwyneth Paltrow se veste. Montado num banco de dados rico como a vitrine da joalheria Cartier, o professor é claro: o mundo entrou num período de concentração da renda. As pessoas e os países ricos ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, fica a suspeita de que crescerão a taxas menores.
    Nos Estados Unidos, essa época de ostentação da riqueza é comparada à "Gilded Age", que foi do fim do século 19 ao início do 20. A expressão designava uma abastança exuberante, porém superficial. Piketty não a usa, fala mais na "Belle Époque" francesa. A diferença está no fato de que uma teve o escritor Marcel Proust, e a outra, bilionários vulgares, cuja ideia de refinamento levava-os a copiar castelos e casar as filhas com nobres europeus quase sempre falidos, jamais monógamos, talvez heterossexuais. (Só na cesta dos duques, compraram 22.)
    Durante a festa do século 19 também pontificava um jornalista. Ele organizava o baile anual de Caroline Astor e dizia que a elite de Nova York tinha 400 pessoas, o número de convidados que cabiam no salão da milionária. Na lista de La Wintour, entram 700 convidados. Ela é uma jornalista cuja determinação, instinto estético e visão comercial deveriam ser matéria de estudo para quem entra nesse ramo da profissão. (O teste de que uma pessoa é desprovida do sentimento da inveja está em admirá-la.) Wintour perfilhou o instituto de moda do Metropolitan, para quem vai o dinheiro dos ingressos. A partir de amanhã a nova ala de roupas do museu levará seu nome. Será inaugurada por Michelle Obama.
    O baile de Piketty tem a harmonia de uma valsa. No início do século 20 os 1% que estavam no andar de cima ficavam com 20% da renda dos Estados Unidos e da Inglaterra. Até 1980 essa riqueza encolheu à metade, mas, a partir daí, voltou a crescer e retornou ao ponto inicial. A queda deveu-se a políticas sociais? Não, foram as duas guerras. Os bilionários de hoje seriam diferentes, afinal, Bill Gates fez a Microsoft. Tudo bem, mas a francesa Liliane Bethencourt (L'Oreal) tem US$ 25 bilhões e nunca trabalhou na vida. Herdou. Entre 1990 e 2010 as fortunas de ambos cresceram 13% ao ano, apesar de Bill Gates já ter parado de trabalhar.
    O "Capital" é um monumento de pesquisa e elegância. Piketty trabalhou com acervos estatísticos jamais estudados, e reconhece que isso só foi possível porque apareceu o computador. Obsessivo, mergulhou até nas listas de bilionários das revistas de negócios, mesmo ressalvando que têm pouco valor científico. (Os brasileiros que compraram ações de Eike Batista sabem que é isso mesmo.) Se os números dos bilionários da "Forbes" merecem pouca fé, as carteiras de investimentos das universidades americanas merecem toda. Os patrimônios mobiliários daquelas que têm fundos com mais de um bilhão de dólares cresceram 8,8% ao ano entre 1980 e 2010. Já as pobrezinhas, com menos de 100 milhões, ficaram com 6,1% ao ano. Harvard, com US$ 30 bilhões, teve rendimentos de 10,1% anuais. (As reservas da Universidade de São Paulo encolheram.)
    Quando Caroline Astor dava seu baile, o andar de cima sustentava que assim era a vida e o de baixo lotava as ruas para ver a passagem dos magnatas. A partir de amanhã o mundo poderá ver na rede imagens do baile de Anna Wintour. Retratará uma época. O "Capital no Século 21" também está na rede, em inglês, por enquanto. Sai por US$ 21,99.
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    A BANCA DE YOUSSEF
    Falta um personagem na trama dos negócios do doleiro Alterto Youssef com o laboratório Labogen. Ele mandou US$ 113 milhões para o exterior em cerca de 3.500 operações comerciais. Para isso seria indispensável que houvesse um banco na roda. Hoje é praticamente impossível lavar esse dinheiro com a ajuda das grandes casas brasileiras. Há bancos na tuba, e seus nomes estão esquecidos. Com o rigor das auditorias europeias e americanas, essas operações passam por rotas africanas.
    BANCO QUER PAGAR
    Em fevereiro o Deutsche Bank aceitou pagar R$ 47 milhões à Prefeitura de São Paulo para encerrar a encrenca em que se meteu por ter abrigado contas do ex-prefeito Paulo Maluf. Há outro banco europeu oferecendo-se para fazer acordo, num montante ainda maior.
    LÁ VEM TUNGA
    Devagar e sempre, prossegue a marcha de uma nova tunga nos trabalhadores. O comissariado sindical voltou a se mexer para cobrar uma taxa pelos seus serviços nas negociações salariais.
    Hoje, sendo ou não sindicalizado, o cidadão trabalha um dia por ano para o aparelho. Já a taxa só é cobrada a quem pertence ao sindicato. O comissariado quer misturar as duas cobranças, tornando compulsório o pagamento adicional. Estima-se que isso leve para os companheiros um ervanário equivalente ao que se arrecada com o imposto sindical, coisa de R$ 2 bilhões em 2012. Na veia, as centrais sindicais ficam com 10% do confisco.
    Para quem não lembra, nos anos 70 apareceu um líder metalúrgico moderno que combatia o imposto sindical. Chamava-se Lula.
    UMA INJEÇÃO
    Há pouco o juiz Teodomiro Romeiro dos Santos, o único brasileiro condenado à morte, em 1971, pelo assassinato de um militar, teve a certeza de que em 1982, três anos depois da Anistia, planejou-se sua morte. À época ele vivia na França, depois de ter fugido da cadeia e conseguido asilo na Nunciatura Apostólica, em Brasília.
    Em 1995, uma elegante figura da noite carioca, ligada ao mundo das informações, contou a seguinte história:
    "No final de 1982 eu soube que haviam encomendado a morte do Teodomiro. Ele estava internado num hospital em Paris. A mulher dele trabalhava numa perfumaria. O serviço seria feito com uma injeção letal por um bolsista que vivia na cidade. Assustados por uma ameaça de que seriam descobertos, desativaram o plano."
    Teodomiro Romeiro dos Santos informa:
    1) No segundo semestre de 1982, com dores na coluna, internou-se num hospital, em Paris.
    2) Sua mulher trabalhava numa perfumaria.
    3) Pouca gente sabia que se hospitalizara, pois não queria intranquilizar sua mãe, que vivia no Brasil.
    4) Quando se sentiu recuperado, quis ir embora do hospital, mas tentaram retê-lo. Como insistiu, teve que assinar um compromisso responsabilizando-se pela alta. (Em setembro de 1982, um engenheiro da Telerj que operava na área de grampos caminhava pela avenida Atlântica e foi atacado por uma pessoa que lhe aplicou uma picada na perna. Horas depois morreu no Hospital Miguel Couto.)

    sábado, 3 de maio de 2014

    Populismo avança no Reino Unido, apesar dos escândalos - Walter Oppenheimer

    Populismo avança no Reino Unido, apesar dos escândalos

    Walter Oppenheimer
    Em Londres
    Se, como disse Blaise Pascal (físico e teólogo francês), "o coração tem razões que a razão não entende", também é verdade, cada vez mais, que os eleitores têm razões que a razão não entende. Pelo menos é o que parece entre os eleitores britânicos, cujo apoio ao populista Ukip (Partido da Independência do Reino Unido na sigla em inglês) sobe ao mesmo tempo que crescem os escândalos em torno dessa formação.
    Duas pesquisas lhe dão a vitória nas próximas eleições europeias, apesar de um dos candidatos ter pedido a um comediante negro que vá viver em um país de negros; apesar de seu líder, Nigel Farage, ter tido dificuldade para justificar o destino dos milhares de euros que recebe todo ano do Parlamento Europeu para gastos parlamentares; e apesar de o próprio Farage empregar como secretária uma cidadã alemã, sua mulher, ao mesmo tempo que denuncia que os continentais estão deixando os britânicos sem emprego.
    Talvez a ascensão do Ukip não seja apesar desses escândalos, e sim graças a eles. No fim das contas, supõe-se que seja um partido de protesto e que qualquer ataque dessa formação seja percebido como uma reação do "establishment" contra uma formação alternativa. Que seus representantes se comportem como o resto da classe política é o de menos. Por isso, para a população é igual que Farage empregue sua mulher ou que esta seja estrangeira e ao mesmo tempo alguns exijam do líder liberal-democrata, Nick Clegg, responsabilidades pelos abusos sexuais cometidos por um antigo barão do partido, Cyril Smith, quando ele tinha 12 anos.
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    Veja os governos que caíram ou perderam as eleições por causa da crise na Europa10 fotos

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    O ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi renunciou em novembro de 2011. Ele não resistiu no cargo em meio à crise econômica que assola a Itália, e foi substituído por Mario Monti Leia mais Jean-Christophe Verhaegen/AFP
    Nesse ambiente revolto e confuso, Farage e o Ukip se movem como peixes na água e as pesquisas lhe dão 31% dos votos nas eleições europeias, 3 pontos à frente dos trabalhistas e muito acima dos conservadores (19%) e dos liberais (9%). É a segunda vez que o Ukip fica em primeiro nas pesquisas e, caso se confirme na hora da votação, seria a primeira vez que ganha eleições nacionais.
    O que não está claro é se isso seria o terremoto político previsto pelo líder do Ukip. Afinal, já faz tempo que essa formação obtém muito bons resultados nas eleições europeias, mas sem que isso se traduza em um peso eleitoral geral. Em 2009 o Ukip foi o segundo, com 16,5% dos votos e 13 eurodeputados. E cinco anos antes ficou em terceiro, com 16,1%. Talvez o mais perigoso seja que desta vez o que anima o voto no Ukip não são apenas suas tradicionais posições contra a UE, mas sua fobia declarada contra os imigrantes, tanto os procedentes de outros países como os da UE, apesar de haver mais britânicos vivendo no continente do que continentais no Reino Unido.
    Um dos últimos escândalos são uns cartazes publicitários nos quais se vê um operário britânico sentado na rua pedindo esmola por culpa da UE. Depois se soube que na realidade se trata de um ator irlandês contratado pelo partido. O Ukip também apoiou um de seus candidatos nas municipais, William Henwood, apesar de este ter instado o ator britânico Lenny Henry a emigrar "para um país negro" por ter-se queixado de que na BBC aparecem poucos representantes de minorias.
    Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

    sexta-feira, 2 de maio de 2014

    O direito à felicidade - Umberto Eco

    O direito à felicidade - Umberto Eco

    Às vezes eu me pergunto se muitos dos problemas que nos afligem hoje –nossa crise coletiva de valores, nossa suscetibilidade à propaganda, nosso desejo insaciável de aparecer na televisão, nossa perda de perspectiva histórica– podem ser rastreados até alguns termos infelizes da Declaração da Independência dos Estados Unidos. Refletindo a fé massônica na magnificência e progressividade do destino, aquele documento estabeleceu que "todos os homens são criados iguais, são dotados pelo Criador de certos Direitos inalienáveis, entre os quais estão a Vida, a Liberdade e a Busca da Felicidade".
    Diz-se com frequência que, na história das leis fundadoras das nações, esse documento foi o primeiro a declarar explicitamente que as pessoas têm o direito à felicidade, em vez de simplesmente um dever de obedecer. E, à primeira vista, ela de fato parece uma afirmação revolucionária, mas com o passar do tempo também provocou interpretações equivocadas.
    Muito foi escrito a respeito da felicidade, desde a época de Epícuro e até mesmo antes. Mas me parece que nenhum de nós pode dizer de forma definitiva o que realmente é felicidade. Se falamos em um estado permanente –a ideia de uma pessoa que é feliz por toda sua vida, nunca experimentando um momento de dúvida, sofrimento ou crise– essa vida só poderia ser de um idiota, ou de uma pessoa que vive completamente isolada do restante do mundo.
    O fato é que a felicidade –aquele sentimento de plenitude absoluta, de elação, de estar nos céus– é transitória. É episódica e breve. É a alegria que sentimos com o nascimento de um filho, ao descobrir que nossos sentimentos amorosos são correspondidos, ao segurar um bilhete de loteria premiado, ou ao atingir uma antiga meta: um Oscar, a taça da Copa do Mundo ou alguma outra realização culminante. Pode até mesmo ser desencadeada por algo tão simples quanto um passeio por um belo trecho do campo. Mas todos esses são momentos passageiros, após os quais eventualmente virão momentos de temor e agitação, de pesar e angústia.
    Nós tendemos a pensar na felicidade em termos individuais, não coletivos. De fato, muitos de nós não parecem muito preocupados com a felicidade dos outros, tão envolvidos estamos na busca que tudo consome da nossa própria. Considere, por exemplo, a felicidade que vem de estar apaixonado: ela frequentemente coincide com a infelicidade de uma pessoa que foi rejeitada, mas nós nos preocupamos muito pouco com a decepção daquela pessoa, porque nos sentimos totalmente realizados pela nossa própria conquista.
    A ideia da felicidade individual impregna o reino da propaganda e do consumismo, onde tudo parece fornecer uma rota para uma vida feliz: o hidratante que restaurará nossa juventude, o detergente que removerá qualquer mancha, o sofá que pode ser milagrosamente seu pela metade do preço, a bebida que nos aquecerá após uma tempestade, a carne enlatada em torno da qual nossas famílias se reunirão alegremente –até mesmo o absorvente higiênico que poupará as mulheres de qualquer incômodo e embaraço.
    Nós raramente pensamos na felicidade quando votamos ou quando enviamos nossos filhos à escola, mas está presente em nossas mentes quando compramos coisas inúteis. E ao comprá-las, nós acreditamos que estamos desfrutando nosso direito de busca da felicidade.
    Mas nós não somos, no final, bestas impiedosas. Em algum momento, nós de fato nos preocupamos com a felicidade dos outros. Frequentemente é quando a imprensa nos mostra a infelicidade em seus extremos: crianças morrendo de fome e sendo devoradas por moscas, populações devastadas por doenças incuráveis ou por ondas de maremoto. Nesses momentos, não apenas pensamos na infelicidade dos outros, mas podemos até mesmo nos sentir compelidos a ajudar. (E se, no processo, obtivermos uma dedução nos impostos, que seja.)
    Talvez a Declaração da Independência deveria ter dito que todos os homens têm o direito e o dever de reduzir a quantidade de infelicidade no mundo –a deles próprios e dos outros. Talvez assim mais americanos entenderiam, por exemplo, que não é de interesse próprio de ninguém se opor à Lei do Atendimento de Saúde a Preço Acessível. Como está, é claro, muitos continuam contrários, devido a algum senso equivocado de que isso se interporá entre eles e outro direito aparentemente inalienável: a busca da felicidade fiscal.
     Tradutor: George El Khouri Andolfato

    quinta-feira, 1 de maio de 2014

    Um patriarca nas agruras do seu inverno - Sergio Rizzo

    Um patriarca nas agruras do seu inverno

    Sérgio Rizzo | Para o Valor, de São Paulo

    Divulgação / DivulgaçãoHá algo de shakespeariano (e também de melodramático) na tragédia anunciada desse personagem confinado ao seu quarto e aos gabinetes do Catete
    Um velhinho solitário, fisicamente fragilizado e dependente da família para saber o que ocorre à sua volta, saudoso dos tempos em que sua capacidade de liderança não era contestada - ou era, apenas para ser sufocada - e em que sabia encontrar saídas quando o acuavam. Desta vez, não parece ter ânimo nem mesmo para buscar uma estratégia de sobrevivência política, muito menos para executá-la. Age como quem entregou os pontos e aguarda, de maneira passiva, o desfecho da crise mais aguda de sua carreira política.
    Em linhas gerais, é esse o perfil do melancólico Vargas que Tony Ramos recria em "Getúlio". Há algo de shakespeariano (e também de melodramático) na tragédia anunciada desse personagem palaciano que vemos confinado ao seu quarto e aos gabinetes do Catete, sem confiar plenamente no que lhe dizem os auxiliares, alguns dos quais considera traidores, mas sem força para afastá-los e reacomodar o círculo do poder. Parafraseando o romance de Gabriel García Márquez publicado em 1975, aqui não se trata mais do outono, mas do inverno do patriarca. Frio e doloroso.
    De todas as contribuições artísticas ao resultado final de "Getúlio", nenhuma se aproxima da importância da atuação de Ramos. Seja lá qual for a impressão que o espectador levará para casa, terá necessariamente a ver com o registro que o ator imprime ao personagem - calcado em um cuidadoso estudo do próprio Vargas, mas descolado do que seria mera "imitação", em busca de soluções próprias (sobretudo no conhecido desenlace simultâneo de carreira e vida, em que não havia testemunha), para dar relevo humano a alguém que se confunde com mito. Pode-se gostar ou não do que Ramos faz, mas é preciso reconhecer a envergadura do trabalho.
    O registro que Tony Ramos imprime ao personagem, longe de simples imitação, dá relevo humano a alguém que se confunde com mito
    E o que Ramos faz, evidentemente, não traduz apenas suas opções como ator. Atribua-se ao diretor e argumentista João Jardim, à produtora Carla Camurati e aos roteiristas George Moura e Teresa Frota as linhas mestras dessa leitura da agonia de Vargas. Ao deixar clara a fragilidade física e emocional do protagonista, ela estabelece, por contraponto, o que seria a grandeza política do ato final - que o filme, ao usar nos letreiros de encerramento uma frase de Tancredo Neves (interpretado por Michel Bercovitch), sugere ter adiado a iminente intervenção militar de 1954 para o horizonte de eventos de 1964. Um ato heroico, portanto, do ex-ditador.
    Não por acaso, o Vargas de Ramos diz em uma reunião palaciana, negando a sugestão de um auxiliar para que fizesse prisões arbitrárias, que já havia rasgado duas constituições, e que não poderia fazer isso mais uma vez. O filme investe na representação de um patriarca que, nas agruras do inverno, teria reconhecido o que fez na primavera e no verão de sua carreira política, durante a passagem autoritária pela Presidência. E que teria na agenda de seu mandato legítimo um compromisso, no país redemocratizado do pós-II Guerra Mundial, com a estabilidade política e com a sucessão presidencial por meio do voto popular.
    No front contrário, o dos incendiários que pareciam apostar já em 1954 na ruptura institucional de dez anos depois, destaca-se a figura do jovem Carlos Lacerda - interpretado por Alexandre Borges com uma verve até discreta, perto do tom flamejante e agressivo do personagem verídico. Outras figuras-chave ganham interpretações condizentes com seu comportamento ambíguo e sinuoso na trama palaciana, como o general Zenóbio da Costa (Adriano Garib), ministro da Guerra nos últimos meses de governo, e o coronel Benjamin Vargas (Fernando Luis), irmão de Getúlio.
    Diretor de ficção ("Amor?") com sólida experiência no documentário ("Janela da Alma", "Pro Dia Nascer Feliz", "Lixo Extraordinário"), Jardim investe no didatismo para tornar mais claros os eventos históricos a um espectador que não tenha pleno conhecimento deles, como letreiros que apresentam personagens. E celebra, no fim, a força das imagens documentais sobre qualquer recriação ficcional, ao inundar a tela com a impressionante multidão que carregou o corpo de Vargas - o calor das ruas, alimento do presidente, libertando-o, finalmente, da solidão invernal do Catete.


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