sábado, 18 de janeiro de 2014

André Singer

folha de são paulo
A hora da política
O prefeito Fernando Haddad indicou o caminho certo. Diante do crescimento do conflito causado pelos "rolezinhos", estimulou as partes a conversar. Como ficou claro em junho passado, atitudes extremadas só levarão ao desgaste da autoridade pública, com aumento da tensão social já visível nas grandes metrópoles.
O problema é que não há solução fácil no horizonte. Não basta disposição para o diálogo quando interesses materiais e simbólicos começam a se opor de maneira radical. Os jovens que estão deixando os centros de compra em pânico podem não saber, mas explicitam um confronto crescente entre ricos e pobres no Brasil.
Soa contraintuitivo que tal enfrentamento se intensifique justo quando os de baixo estão melhorando de vida e a desigualdade cai. Ocorre que, tendo saído da condição em que mal era possível enxergar a perspectiva do dia seguinte, as camadas pobres adquiriram uma energia extra.
Movimentos de ascensão sempre impulsionam novas expectativas. Os metalúrgicos, que lideraram as grandes greves de 1978 a 1988, tinham sido beneficiados pelo forte crescimento dos anos do "milagre econômico". Acresce que, desta feita, a melhora nas condições de consumo deu aos jovens brasileiros acesso a aparelhos informatizados. Assim, passaram a fazer parte da variada onda mundial de manifestações facilitadas pela existência de redes instantâneas.
Do outro lado, segmentos de classe média têm reagido com verdadeiro ódio às tímidas mudanças do último decênio. Uma atitude segregacionista, que estava encoberta pela relativa passividade dos dominados, veio à tona quando os estratos antes excluídos começaram a ocupar aeroportos, frequentar clínicas dentárias e a encher as ruas de carros.
Visto em retrospecto, é óbvio que chegariam aos shoppings. Note-se que, por razões quase territoriais, o primeiro embate se dá entre zonas sociais contíguas. Não por acaso, os locais até aqui escolhidos para os "rolezinhos" estão longe do centro. Essa vizinhança produz reações às vezes violentas por parte dos frequentadores, uma vez que envolve também um desejo de diferenciação. Mas não se subestime a intensidade do contragolpe caso a confusão se espalhe para as chamadas áreas nobres.
Dada a situação de disputa que está posta, a única solução positiva, isto é, em que todos ganhem, passa pelo aumento da riqueza geral, com maior distribuição de renda e forte investimento público onde é mais justo. Porém, como no plano da economia a pressão vai no sentido de diminuir o ritmo e apertar o gasto governamental, caberá à política resolver a quadratura do círculo.
Se não o fizer, haverá uma longa e dolorosa guerra distributiva no país.

Ruy Castro

folha de são paulo
Inventores de mundos
RIO DE JANEIRO - Ao contrário de importantes centenários recentes que quase ninguém comemorou, o de Dorival Caymmi, em abril, fará justiça ao autor de "Dora" e "Marina". Vêm aí especiais de TV, livros, shows, mesas. Uma dessas poderia valorizar não apenas suas canções praieiras, mais famosas, mas também seus sambas-canções --urbanos, noturnos e de intensa beleza--, como "Não Tem Solução", "Sábado em Copacabana" e outros, dele sozinho ou com parceiros.
Conviria explorar a revelação feita por sua neta, minha amiga Stella Caymmi, no excelente "Dorival Caymmi - O Mar e o Tempo" (Editora 34, 2001): a de que o poeta do mar nunca aprendeu a nadar. Mas como? --dirá você. Pois, para mim, este é um dos motivos pelos quais Caymmi era um grande criador. Não precisava jogar-se ao mar de verdade para cantá-lo.
Há quem pense que Guimarães Rosa vivia a cavalo pelo sertão para aprender os segredos que descrevia em seus livros. Mas não era assim. Rosa fez uma única e longa viagem pelo sertão mineiro, em 1952, acompanhado por "O Cruzeiro". O resto, tirou da cabeça, em sua sala no Palácio Itamaraty, onde trabalhava, ou no apartamento em Copacabana, onde morava. Assim eram o sertão de Rosa e o mar de Caymmi: só deles, sem par na vida real.
O inglês Edgar Rice Burroughs foi mais ousado: escreveu 23 romances sobre Tarzan sem nunca ter posto os pés na África. Assim como o alemão Karl May nunca foi ao Oeste americano para escrever as aventuras do índio Winnetou --nem aquele Oeste jamais existiu. A Nova York mítica de 1900, a "Bagdá no metrô", também era toda da imaginação de O. Henry. E a Dublin de "Ulisses" não era exatamente a que James Joyce deixara para trás. Enfim, para isso serve o artista --para inventar mundos.
O praieiro Caymmi não sabia nadar. E o urbano Caymmi, coerentemente, não sabia dirigir.

    Reconstruindo Salinger - Raquel Cozer

    folha de são paulo
    Reconstruindo Salinger
    Sai no Brasil biografia que revela detalhes íntimos da vida do autor americano que, durante seis décadas, fugiu da exposição pública
    RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHA
    Nos 57 anos em que viveu num chalé em uma cidade de 1.800 habitantes no norte dos EUA, J.D. Salinger (1919-2010) conseguiu feitos dignos de um candidato a ermitão-mor da literatura contemporânea.
    O autor de "O Apanhador no Campo de Centeio" (1951) barrou na Justiça a primeira biografia a seu respeito, impediu a divulgação de cartas enviadas a amigos, bloqueou edições piratas de sua obra.
    Bastaram três anos de sua morte para que aparecessem duas biografias, um filme, três exposições de cartas e três contos que ele não queria ver publicados tão cedo.
    Se em vida Salinger enfrentou baques na luta contra o uso de sua imagem (inclusive pelas memórias da filha e de uma ex-namorada), um forte revés póstumo veio com a biografia "Salinger", de David Shields e Shane Salerno, que sai agora pela Intrínseca.
    Lançado em setembro nos EUA, junto com documentário homônimo dirigido por Salerno (no Brasil, estreia em fevereiro), o livro foi atacado por boa parte da crítica pela devassa na vida do autor.
    É um prato cheio para quem esperava notícias sobre os anos em que ele se isolou.
    Entre relevâncias e irrelevâncias da pesquisa de nove anos de Salerno (roteirista de "Armageddon"), estão dezenas de fotos e cartas inéditas.
    Há detalhes sobre a primeira união do autor, em 1945, com a alemã Sylvia --que Salinger, após traumas na Segunda Guerra, apresentou à família como francesa. A biografia levanta a suspeita de que a relação tenha acabado quando ele descobriu que ela era informante da Gestapo.
    Na área de irrelevâncias, há a informação de que o escritor tinha um testículo só. Para Salerno, isso explicaria tanto a atração de Salinger por garotas inexperientes quanto sua rejeição à mídia.
    Outra informação inédita é a descrição de cinco obras que, em tese, Salinger queria ver publicadas entre cinco e dez anos após sua morte --ou seja, a partir do ano que vem.
    Entre elas, uma história de amor na guerra, inspirada em Sylvia, e um manual da filosofia indiana vedanta, à qual o ficcionista se dedicava com afinco. Os três contos que caíram na rede em novembro não integravam esse pacote.
    Para Salerno, se a guerra criou o escritor Salinger, a religião o matou. "No início, a vedanta foi boa para sua obra, como se vê em Franny & Zooey' [1961], mas sobrepujou seu talento. O último conto que publicou, Hapworth 16, 1924' [1965], é intransponível", diz o biógrafo à Folha.
    Mas a doutrina que ajudou Salinger a rejeitar a superexposição acabou por alimentá-la após sua morte.
    Uma das três exposições de cartas feitas desde 2010 pela Morgan Library, em Nova York, trazia missivas dele ao líder Swami Nikhilananda, doadas pelo centro que o escritor frequentava. "A correspondência mostra a evolução de Salinger e sua rígida rotina de escrita", diz o curador da Morgan, Declan Kiely.
    É curioso que continue fora de circulação a biografia feita por Ian Hamilton nos anos 1980 e que Salinger conseguiu barrar por deter os direitos de trechos de correspondência ali reunidos.
    Meses atrás, um original dessa biografia foi arrematado na casa de leilões Swann por US$ 3.200 --menos que o valor mínimo esperado, US$ 4.000. Talvez porque já se saiba o bastante sobre Salinger.
    Escritor é o único nome da histórica Editora do Autor
    DA COLUNISTA DA FOLHA
    J.D. Salinger, notório ermitão, talvez gostasse de saber que há anos reina sozinho em sua editora brasileira.
    Publicados no país desde os anos 1960, 3 dos 4 livros do americano compõem hoje todo o catálogo da Editora do Autor, que resiste num escritório em Ipanema, no Rio.
    "Trabalhei com muitos livros, mas estou idoso e já não tenho tanta disposição. Às vezes me oferecem títulos, publiquei uma coisa ou outra, mas desde os anos 1990 me centrei em Salinger", diz o editor Walter Acosta, 96.
    Acosta fundou a Editora do Autor em 1960, com Rubem Braga e Fernando Sabino. Logo amigos célebres dos cronistas, como Clarice Lispector e Manuel Bandeira, passaram a publicar pela casa.
    Em 1965, os diplomatas Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster apresentaram à Editora do Autor sua tradução para "O Apanhador no Campo de Centeio", que saíra 14 anos antes nos EUA.
    A casa bancou a publicação e, em 1967, lançou ainda "Franny & Zooey" e "Nove Estórias", sempre seguindo as rígidas normas de Salinger --nada de fotos dele, nada de textos de apresentação etc.
    Nessa época, Sabino e Braga já tinham abandonado o barco para criar a Sabiá, levando junto os grandes autores nacionais. Salinger ficou.
    "O Apanhador..." está na 19ª edição, com 350 mil cópias vendidas. Os outros dois vendem bem menos. O quarto livro, "Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymour: Uma Introdução", é publicado pela L&PM --e saiu nos anos 1980 pela Brasiliense como "Pra Cima com a Viga, Moçada!".

    José Simão

    folha de são paulo
    Ueba! Rolezinho do Flamengo!
    'PMDB se rebela e exige mais ministérios'. Se rebela como? Batendo caneca na grade? Em Pedrinhas?
    Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E o site Humor Esportivo revela o rolezinho do Botafogo: "Rolezinho de botafoguenses fracassa com apenas quatro presentes". O sonho de todo dono de shopping: rolezinho de quatro! E o rolezinho do Flamengo: um flamenguista dentro do camburão, escrito embaixo: #PartiuRolezinho! Rarará!
    E olha o melhor diálogo do Facebook: "E que venha Elton JHON". "Voce tá grávida?". "Não, amiga, é um cantor que vem dar show em Fortaleza". Rarará!
    E aquele ex-BBB preenchendo ficha de inscrição: "Local de nascimento". "Hospital Sagrada Família". Rarará! O anta botou o nome da maternidade!
    E neste mês o Elvis Presley faria 79 anos, se estivesse morto! E diz que a média de vida no Maranhão é de 70 anos. Por isso que o Sarney foi pro Amapá! Rarará!
    E essa manchete desde 1500: "PMDB se rebela e exige mais ministérios". Se rebela como? Batendo caneca na grade? Se rebela onde? Em Pedrinhas? Rarará!
    E PMDB quer dizer Pegamos Ministérios De Baciada! Eles querem o Ministério da Saúde, da Doença, das Férias, da Entregação Nacional e o ponto do pipoqueiro da praça dos Três Poderes!
    Como disse um amigo: "O PMDB é o partido mais quenga desde os tempos de Salomé!".
    O PMDB nasceu com a carta de Pero Vaz de Caminha pedindo emprego pro Rei de Portugal! O fundador do PMDB foi o Pero Vaz de Caminha! Se eu fosse a Dilma Roucheffe, dava três pastas: Colgate, Close Up e Sensitive!
    E o primeiro eliminado do "BBB", vulgo Friboi 14: um cartomante. Que não previu que ia sair. Ou então usaram as cartas pra jogar baralho! Rarará!
    É mole? É mole, mas sobe!
    O Brasil é Lúdico! Cartaz de promoção numa loja de lingerie: "Abaixamos as calcinhas". E essa faixa na Bahia: "Semana da Família! Paróquia de Pintadas". E adoro esse outdoor: "Por melhor qualidade de vida! Ampliação do cemitério de Roseiras". Rarará!
    E hoje, sabadão: #partiu rolezinho! Já tô pronto pro shopping: polo com gola levantada. Antes na porta do shopping só tinha pipoqueiro, agora é um paredão de homem de terno preto! Parece vitrine da Colombo! Rarará!

    Painel das Letras - Raquel Cozer

    folha de são paulo
    PAINEL DAS LETRAS
    Tempos de fé
    Ao renunciar ao papado, quase um ano atrás, Bento 16 ajudou a causar uma reviravolta no mercado de livros católicos no Brasil. A renúncia, o conclave e a visita do novo papa, durante a Jornada da Juventude, colaboraram para que o segmento crescesse mais que o dobro de outros nas vendas da Distribuidora Loyola, que atende cerca de 2.000 das 3.000 livrarias do país. Na comparação com 2012, o crescimento dos livros católicos pela distribuidora foi de 22%, ante um aumento total de 9% nas vendas. É claro, além de livros sobre ou do papa Francisco, tiveram imenso impacto nesse cenário os títulos mais recentes dos padres Marcelo, Reginaldo Manzotti e Fábio de Melo.
    -
    // CRISE EDITORIAL AÉREA
    A vida está difícil para editores interessados em vender livros em aeroportos. Com a Laselva em crise, devendo a dezenas de fornecedores, um plano B era a Espaço Vip, com lojas em terminais como o de Guarulhos e Brasília.
    Mas o grupo --com 29 pontos de venda, sendo boa parte em aeroportos-- anda atrasando pagamentos também.
    Ao menos duas editoras, sem receber há meses, entraram com protestos judiciais contra a rede. Editores dizem que, por isso, a rede não consegue autorização para receber financiamento do governo para lojistas e prestadores de serviço durante a Copa.
    Sebastião Xavier, sócio da Espaço Vip, diz que 2013 "foi um ano difícil para todo mundo que trabalha em aeroportos" e que os problemas são pontuais. "Se somar tudo, não devemos mais de R$ 150 mil. Já estamos resolvendo."
    De ninguém As traduções que o poeta Fernando Py fez para os sete volumes de "Em Busca do Tempo Perdido" --mais de 2.000 páginas--, publicadas pela Ediouro em 1992 e relançadas dez anos depois, estão à venda na Amazon sem crédito ao tradutor nem à editora. As edições digitais piratas apenas eliminam os textos introdutórios de Py.
    De ninguém 2 A Amazon diz que toma medidas cabíveis quando é avisada sobre irregularidades pelos proprietários dos direitos. Não informa quem anda ganhando dinheiro com a venda do trabalho alheio, dado também omitido para o comprador. Nos comentários de usuários do site, há críticas à qualidade das edições.
    De ninguém 3 A Ediouro diz que suas edições da obra de Proust ainda estão em catálogo, embora não apareçam à venda nas maiores lojas virtuais. A tradução de Mario Sergio Conti para a Companhia das Letras deve ficar para 2015. Para os interessados, há a da Globo, vertida por Mário Quintana.
    Expansão Após começar a vender seus e-books pelas lojas Google, Amazon, Apple, Iba e Saraiva, o site de autopublicação Clube dos Autores passará a oferecê-los pelos varejistas nacionais Extra, Ponto Frio e Casas Bahia.
    O outro lado No ousado "Na Sombra do Meu Irmão", o romancista Uwe Timm conta a história da Segunda Guerra a partir dos diários do irmão mais velho, que morreu lutando pela SS nazista e foi considerado um herói pela família. O livro, nada condescendente, vendeu 250 mil exemplares na Alemanha e teve os direitos por aqui adquiridos pela Dublinense.
    Aquisição Carlos Henrique Schroeder, vencedor do prêmio da Fundação Biblioteca Nacional pelos contos de "As Certezas e as Palavras" (Editora da Casa), é a primeira aquisição do editor Carlos Andreazza em sua nova fase na Record, acumulando a ficção nacional ao trabalho que já fazia na não ficção. Estão previstos a novela "As Fantasias Eletivas", agora em agosto, e o romance "História da Chuva", em 2015.
    HQ "O Quinto Beatle", quadrinho de Vivek J. Tiwary sobre Brian Epstein, empresário que descobriu os Beatles, será a primeira novela gráfica da Aleph, casa especializada em ficção científica; sai no fim de abril

      Álvaro Pereira Júnior

      folha de são paulo
      Papel = internet
      'New York Times' muda o site e visual fica praticamente idêntico ao do jornal impresso
      Surpresa no meio de uma viagem por um lugar distante e praticamente sem internet: o site do "New York Times", um dos melhores jornais do mundo, estava diferente. Cheguei a pensar que fosse defeito da transmissão, e a página não tivesse "montado" direto. Mas, com uma lenta pesquisa (o normal seria dizer "rápida pesquisa", porém não com a conexão que eu tinha), deu para constatar: era mesmo um novo projeto gráfico.
      Saíram os títulos em azul, dando lugar a letras pretas, em itálico, iguais às do jornal de papel. As páginas de reportagens ficaram mais limpas, com o texto centralizado. Os comentários de leitores foram içados da parte de baixo da tela --agora correm paralelos, na mesma altura do texto principal.
      São muitas novidades, algumas delas imperceptíveis para o leitor comum. De todas, a que me parece mais importante é que, visualmente, o site do "New York Times" ficou praticamente idêntico ao jornal impresso.
      Essa é uma mudança crucial de conceito. Nos primórdios da web, o leitor deve se lembrar, muitos veículos tradicionais nem usavam seus próprios nomes nos sites. O "Washington Post", por exemplo, na internet se chamava "digitalink.com" ("tintadigital.com"). A revista "New Scientist" era "planetscience.com".
      O raciocínio por traz disso era óbvio: a nave-mãe é o impresso, não vamos queimar nossa marca nessa aventura; a gente adota outro nome na internet e depois vê no que dá. Papel era papel, internet era internet.
      Vinte anos depois, o "NYT", tão imitado e influente, dá um passo corajoso: em identidade visual, papel e on-line praticamente não têm mais distinção. A "homepage" do site e a capa do jornal físico são gêmeas quase idênticas.
      E isso, no caso do "New York Times", tem um valor simbólico muito forte. Segundo uma reportagem recente do jornal inglês "The Guardian", na grande maioria dos sites noticiosos líderes de audiência, a homepage, página de abertura, não é tão importante. Só 10% dos leitores começam por ela e depois vão clicando nas notícias. A grande maioria já entra direto nos textos, vindos de links em redes sociais e de pesquisas no Google.
      No caso do "NYT", essa estatística é muito diferente. A marca é tão forte que nada menos que metade dos leitores inicia a leitura do site pela homepage. Para esse público, digitar nyt.com, quando se está em busca de notícias, é uma ação automática.
      Outro ponto a destacar: assim como em vários outros sites importantes com origem em veículos impressos, inclusive no Brasil, os recursos audiovisuais da internet são bastante explorados no novo projeto gráfico americano.
      Até há alguns anos, uma revista ou jornal impresso que obtivesse um vídeo sensacional, um grande furo de reportagem, pouco teria o que fazer. Poderia, no máximo, montar uma sequência de imagens no papel inerte: o que se chama, no jargão jornalístico, de "cineminha". E depois torcer para que uma emissora de TV pedisse o vídeo, e pusesse no ar com o devido crédito.
      Isso mudou, o que eventos recentes no Brasil deixam claro. Os vídeos da barbárie no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, foram divulgados pela versão on-line da Folha, na origem um jornal impresso. Foi também esse o caso do vídeo em que Chico Buarque dava ao pesquisador Paulo César Araújo uma entrevista que ele, Chico, vinha negando ter concedido (furo do site do jornal "O Globo").
      A inovação apareceu até em um caso folclórico, o do notório Rei do Camarote. No fim do ano passado, o sujeito virou febre na internet graças a um vídeo editado com muita inteligência (e veneno) pelo site de uma revista de papel, a "Veja São Paulo".
      Enquanto escrevo esta coluna, ouço uma entrevista do roqueiro Stephen Malkmus, da banda Pavement, na rádio BBC 6. Ele agradece pela emissora estar tocando bastante uma canção sua. Só que não diz "emissora", nem "rádio". Diz "canal".
      Não dá para culpar o velho Stephen pela imprecisão. O mundo está mesmo assim: rádios transmitem imagens, jornais e revistas fazem vídeos, a TV se aproxima da internet, o próprio conceito de canal ficou muito mais amplo.
      Na segunda década do século 21, uma palavra antiga alcança finalmente seu significado pleno: multimídia. A gente já usava, mas não sabia que ela queria dizer tanta coisa.

      Marcelo Leite

      folha de são paulo

      Diagrama de sonhos ajuda no diagnóstico de psicose

      Poucos ramos da medicina dependem tanto da experiência e da sensibilidade do médico quanto a psiquiatria –até agora. Se der certo a invenção de um grupo de neurocientistas e físicos brasileiros, em alguns diagnósticos difíceis de psicoses ela poderá usar menos arte e mais ciência: análises quantitativas de relatos de sonhos.
      Pesquisadores das universidades federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e de Pernambuco (UFPE), liderados pelo neurocientista Sidarta Ribeiro e pelo físico Mauro Copelli, estão propondo um método automatizado para definir se um paciente é esquizofrênico ou bipolar. A primeira autora é a psiquiatra Natália Mota, da UFRN.
      O trabalho foi publicado eletronicamente, quarta-feira, no periódico "Scientific Reports", do grupo Nature.
      A psiquiatria conta com vários questionários padronizados, porém dependentes da interpretação do médico. Eles resultam em pontuações úteis para fixar diagnósticos.
      Não existe, porém, um teste quantitativo para apoiar o diagnóstico de psicoses, ao estilo de um exame de sangue capaz de indicar se a pessoa é diabética ou não.
      Editoria de Arte/Folhapress
      Psicoses como a esquizofrenia e o transtorno bipolar se caracterizam, entre outros sintomas, por alterações no discurso (fala) dos pacientes. Um esquizofrênico pode se mostrar mais quieto, lacônico. Já um bipolar, na fase maníaca, costuma tornar-se verborrágico, falando sem parar.
      Em 2012, o grupo do Nordeste já havia publicado um primeiro artigo sobre a análise dos relatos de pacientes com o uso de grafos (diagramas em que palavras são representadas como nós, e a sucessão entre elas, por arcos).
      NA TRILHA DE FREUD
      Agora, os autores deram um passo adiante. Para isso, seguiram a pista dada por Sigmund Freud (1856-1939), no clássico psicanalítico "A Interpretação dos Sonhos" (1899), de que o universo onírico dá acesso privilegiado às profundezas da mente.
      Eles mostraram que os relatos de sonhos, quando submetidos ao método, são mais informativos para o diagnóstico diferencial do que os de eventos da vigília.
      Ao relatar fatos da vida consciente, a pessoa tende a seguir a ordem cronológica. Isso resulta em grafos mais simples. Já o paciente acordado, ao contar um sonho, tenta reproduzir sua estrutura, o que faz transparecer perturbações no discurso.
      "O relato do sonho é um produto totalmente pessoal, muito mais patognomônico [revelador da doença]", diz Sidarta Ribeiro.
      A análise dos padrões dos grafos, aplicada à fala de pacientes já diagnosticados como esquizofrênicos e como bipolares, revelou-se especialmente precisa para discriminar um grupo do outro.
      Essa capacidade de diferenciação não se perdeu quando os relatos foram recortados em pedaços de tamanhos diferentes. Ou seja, ela não era produto apenas da verborragia ou do laconismo do paciente.
      Tampouco desapareceu quando eles foram traduzidos para outras línguas (inglês, espanhol, francês e alemão). Dito de outro modo, o método parece ser válido independentemente da língua do médico ou do paciente.
      Na realidade, o método pode ser aplicado automaticamente, por um computador que seja capaz de transformar a fala do paciente em grafos e analisá-la. O grupo criou um software para isso, disponível na internet.
      "Vai ser tão útil para o psiquiatra quanto um raio-X para o ortopedista", afirma Ribeiro. "Não vai dizer se [o paciente] é esquizofrênico ou não, só fornecer a medida de um sintoma."
      É possível falar em medida porque dos grafos se obtêm expressões matemáticas do grau de complicação do percurso linguístico seguido pela narrativa. Os itinerários dos relatos de sonhos de bipolares tendem a ser muito mais "conectados", quer dizer, cheios de idas e vindas.
      O neurocientista acredita que o método será útil, também, para detectar a tendência de jovens para desenvolver psicoses e para avaliar a eficácia e a evolução de tratamentos para os distúrbios.
      POTENCIAL
      "[A linha de pesquisa da UFRN] É extremamente interessante", diz o psiquiatra Helio Elkis, coordenador do Programa de Esquizofrenia (Projesq) do Instituto de Psiquiatria da USP, que já a conhecia.
      Elkis ressalva tratar-se de uma prova de princípio, que precisa ser reproduzida por outros grupos, pois o número de pacientes (60) foi pequeno. "Mas dizer que vai substituir o diagnóstico? Acho que não."
      O artigo anterior sobre o tema, de 2012, já havia despertado o interesse do grupo de Lena Palaniyappan, neurocientista da Universidade de Nottingham (Reino Unido), que tem em vista uma colaboração com a UFRN.
      "[A abordagem] É muito atraente para neurocientistas e psiquiatras clínicos do mundo todo", afirmou Palaniyappan por e-mail. "Se [vier a ser] usada amplamente, tem potencial para permitir que testes clínicos avaliem tratamentos para problemas mentais e de linguagem nas psicoses."
      "Eles usaram métodos sofisticados de análise para tentar identificar características associadas a transtornos psiquiátricos, o que é uma estratégia engenhosa e com um bom potencial clínico", diz Marco Aurélio Romano-Silva, da UFMG.