sábado, 8 de fevereiro de 2014

José Simão

folha de são paulo
Itália! Troco Pizzolato pelo Pato!
Troco o Pizzolato pelo Pato! Porque o Pato tá mais pra pato desarranjado: uma cagada após a outra! Rarará!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Sensação térmica: DERRETI! E essa: "Agência bancária fecha as portas por causa do calor em Praia Grande". Não dá mais nem pra filar ar condicionado de banco!
E uma amiga quer saber quanto custa pra dormir no palco do show do Elton John em Fortaleza, a 19 graus". Ele exigiu 19 graus pra não derreter o make! Aliás, o Elton John tá a cara do Milton Neves! Rarará!
E o Pizzolato?! Como disse o Twitteiro: se ele tivesse fugido pro Líbano, seria Esfiholato!
E o mais engraçado no Pizzolato é que ele usou o passaporte do irmão morto, votou com nome do irmão morto e quem tem cara de morto é ele! Parece um defunto amanhecido! Rarará!
E avisa pra Itália que eu não quero o Pizzolato! Eu quero dois tênis da Prada. E o povo no Twitter: "E eu quero um perfume Light Blue do Dolce & Gabbana". E uma outra: "Eu quero o papa! Deixem o Pizzolato AÍ". Manda o papa. Manda o papa, mas não pra Papuda! Rarará!
E uma outra no Facebook teve uma grande ideia: "Proponho trocar o Pizzolato pelo Pato. Devolve o Pato pra Barbara Berlusconi". Rarará! Isso! Troco o Pizzolato pelo Pato! Porque o Pato que vai jogar no São Paulo tá mais pra pato desarranjado: uma cagada após a outra! Rarará!
E outros ainda mais politizados querem trocar o Pizzolato pelo Battisti. O Battisti não pode. Porque ele é de uma organização de ultraesquerda chamada Proletários Armados pelo Comunismo. PAC! O PAC tem que ficar! O PAC É NOSSO!
E o chargista Zop revela que se o Pizzolato vier pra Papuda, ele vai fazer uma "piccola vaca" também! Rarará. E nós já devolvemos pra Itália aquele mafioso, o Buscetta! Que é a coisa que italiano mais gosta! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! Olha o cartaz num restaurante a quilo em São Paulo: "Devido a trabalheira pra fazer a panqueca, hoje não temos ovo frito". Mas eu quero. Eu quero ovo frito. Não consigo viver sem ovo frito! E essa placa num armazém em Campo Maior, Piauí: "Temos ovos e outras frutas!" Rarará!
E mais um predestinado. É que em Belém do Pará tem um proctologista chamado Alberto Gomes SALAME! Ah, doutor, salame não! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Painel das Letras - Raquel Cozer

folha de são paulo
PAINEL DAS LETRAS
Outra americana
Editores atendidos no país pela distribuidora digital Xeriph receberam nesta semana uma proposta de contrato para venda de seus e-books pela americana Barnes & Noble, uma das maiores livrarias do mundo.
Mas chamou mais a atenção um detalhe do e-mail da empresa brasileira ao anunciar a parceria: a informação de que a B&N, além de vender os e-books nos países onde já atua, anuncia "para breve o início das vendas também no Brasil". Meses atrás, a B&N tentou uma parceria com a Saraiva para entrar no país, mas a conversa não avançou -e agora, com a área digital da loja americana em crise, não seria o melhor momento. A Xeriph, que tem o grupo Abril como sócio majoritário e atende 280 editoras, confirmou a informação do e-mail. A B&N não respondeu aos questionamentos da coluna.

PROJEÇÕES LUSÓFONAS
Lançada em 2010, a "Revista Pessoa", voltada à leitura e à promoção da literatura em língua portuguesa, planeja expansão. Neste mês, o escritor Carlos Henrique Schroeder estreia como editor-executivo, com a meta de dar uma "cara mais web e mais ágil à revista", enquanto a fundadora Mirna Queiroz se dedica mais à área comercial. "Vou criar novos espaços na revista e dar um olhar mais contemporâneo e mais espaço para os jovens autores de língua portuguesa", diz o escritor, que convidou colunistas como Victor Heringer, Luiz Nadal e Juliana Gomes.

Exposição 'A Tara por Livros ou a Tara de Papel' é a mostra que a galeria paulistana Bergamin prepara para março, sob curadoria de Ricardo Sardenberg, com livros de artistas como Lygia Clark, Nuno Ramos e Leonilson; deste, o destaque é 'Certas Sutilezas Humanas'
Vem... A notícia da vinda de George R.R. Martin em 2015 ao Brasil, dada dias atrás pelo diretor editorial da Leya, Pascoal Soto, em encontro com blogueiros, deixou fãs de "Crônicas de Gelo e Fogo" em polvorosa nas redes. A história até cresceu, com a informação de que GRRM participaria da Bienal do Rio.
...ou não vem? Mas, vale lembrar, não há data certa nem conversas recentes sobre o assunto. Segundo Soto, a promessa foi feita pelos agentes do autor três anos atrás. "Vamos negociar datas a partir de agora", diz. Pelo site de GRRM, por ora seus compromissos para 2015 se restringem a dois eventos de literatura fantástica e à Feira do Livro de Guadalajara.
Mulher em campo "Meninas Também Jogam Futebol" é o romance infantil que Cláudia Maria de Vasconcelos, autora do premiado "A Fome do Lobo", lança em março pela Iluminuras, abordando o esporte por um viés feminino. As ilustrações são de Eder Cardoso.
Vida de jogador Neymar será tema de duas biografias previstas para este ano. A Planeta ainda não definiu a data da sua, feita pelo holandês Peter Banke e lançada naquele país em 2013.
Vida de jogador 2 A da L&PM, recém-lançada na Itália por Luca Caioli, sai em março. Para a edição brasileira, o biógrafo ampliou capítulo sobre as investigações envolvendo a transferência do jogador do Santos para o Barcelona, que culminaram em janeiro com a queda do presidente do time catalão.
Família A Record, editora de "O Sal da Terra", deixou passar, e a Estação Liberdade agarrou a chance. Publicará o mais recente romance do Prêmio Pulitzer Richard Ford, "Canadá", sobre a interferência de uma tragédia na rotina de uma família.
Família 2 Angel Bojadsen, o editor, se sentiu honrado ao ser sabatinado por Ford, que antes de aceitar a nova relação pediu à Estação que se apresentasse e explicasse suas intenções como editora. Ainda não há data definida para o lançamento.
Clássico moderno Os leitores de língua inglesa enfim terão acesso à obra de Raduan Nassar. O selo Penguin Modern Classics comprou os direitos de "Um Copo de Cólera" e "Lavoura Arcaica" (Companhia das Letras). O autor ainda será editado pela mexicana Sexto Piso, que além desses títulos adquiriu "Menina a Caminho".

    Drauzio Varella

    folha de são paulo
    O cigarro eletrônico
    O cigarro eletrônico pode ser uma forma menos maligna de lidar com a dependência de nicotina
    Inalar a fumaça liberada na combustão do cigarro é o mais mortal dos comportamentos de risco, no Brasil.
    Não é de hoje que os fabricantes procuram uma forma de administrar nicotina, sem causar os malefícios da queima do fumo nem tirar o prazer que o dependente sente ao fumar. E, acima de tudo, sem abrir mão do lucro obtido com a droga que provoca a mais escravizadora das dependências químicas conhecidas pela medicina.
    Com essa finalidade, foram lançados no comércio os cigarros eletrônicos, uma coleção heterogênea de dispositivos movidos a bateria que vaporizam nicotina, para ser fumada num tubo que imita o cigarro.
    Em menos de dez anos, as vendas na Europa atingiram 650 milhões de dólares, e 1,7 bilhão nos Estados Unidos. O sucesso tem sido tão grande que alguns especialistas ousam predizer que o cigarro convencional estaria com os dias contados.
    Na literatura médica, entretanto, as opiniões são divergentes.
    1) Os detratores
    A demonstração de que fumantes passivos correm mais risco de morrer por ataque cardíaco, derrame cerebral, câncer e doenças respiratórias deu origem à legislação que proibiu o fumo em lugares fechados, providência que beneficiou fumantes e abstêmios.
    Especialistas temem que esse esforço da sociedade seja perdido, quando os cigarros eletrônicos forem anunciados em larga escala pelos meios de comunicação.
    Comerciais exibidos recentemente nas TVs americanas justificam a preocupação: "Finalmente, os fumantes têm uma alternativa real" ou "Somos todos adultos aqui. É tempo de tomarmos nossa liberdade de volta". Mensagens como essas não seduzirão as crianças, como aconteceu com as campanhas de cigarros anos atrás?
    Os Centers for Diseases Control, nos Estados Unidos, revelaram que embora o consumo de cigarros comuns entre adolescentes americanos tenha caído, entre 2011 e 2012, o de eletrônicos duplicou.
    Não existe padronização na quantidade de nicotina vaporizada pelas diferentes marcas de eletrônicos; nem controle de qualidade. Os testes mostram que alguns conseguem liberar o dobro ou o triplo de nicotina, em cada tragada.
    Ainda não há comprovação científica de que o cigarro eletrônico substitua os convencionais. O uso concomitante pode levar ao consumo de doses exageradas de nicotina, eventualmente próximas de limites perigosos.
    2) Os defensores
    Consideram que o cigarro eletrônico se enquadra nas chamadas estratégias de redução de riscos, semelhantes às de distribuição de seringas para usuários de drogas injetáveis, adotadas como medida de prevenção à Aids.
    Há quem acredite que ao lado de outras formas de administrar nicotina sem utilizar combustão (chicletes, pastilhas e adesivos), os dispositivos eletrônicos têm potencial para se tornar um dos maiores avanços na história da saúde pública.
    Para eles, o vapor de nicotina inalado através do cigarro eletrônico mimetiza as experiências prévias do fumante, sem deixar de estigmatizar o cigarro comum.
    Lembram que no mundo ocorrem 6 milhões de óbitos por ano, por causa do fumo, e que as previsões para o século 21 não poderiam ser mais sombrias: um bilhão de mortes, predominantemente entre os mais pobres e menos instruídos.
    Defendem que a estratégia de reduzir, mesmo sem eliminar, o risco de morte associado ao cigarro, é um imperativo moral.
    Difícil não reconhecer que os dois lados apresentam argumentos consistentes. Minha opinião é de que os cigarros eletrônicos devem obedecer leis que os obriguem a passar por controle de qualidade, que proíbam fumá-los em bares, restaurantes, escritórios e outros espaços públicos fechados, e que vedem a publicidade pelos meios de comunicação de massa.
    Seria fundamental, ainda, proibir que os fabricantes adicionassem mentol, essências de morango, baunilha ou chocolate para torná-los mais palatáveis às crianças, prática criminosa que a Anvisa não consegue impedir que a indústria do fumo continue utilizando no cigarro comum.
    Na falta de melhor alternativa, o cigarro eletrônico pode ser uma forma menos maligna de lidar com a dependência de nicotina. Mas, é preciso criar com urgência uma legislação para lidar com ele.

      Xico Sá

      folha de são paulo
      "E o Timão, doutor?"
      Sempre me pego em um papo com Sócrates sobre o futebol brasileiro; ele se foi, mas a prosa continua
      Amigo torcedor, amigo secador, sempre me pego em um papo com o doutor Sócrates sobre o teatro do absurdo que é o futebol brasileiro. Ele se foi, mas a prosa continua, naturalmente. Meio mesa de bar, meio "Cartão Verde". Que diálogos de Platão que nada, bom mesmo são os diálogos socráticos e dionisíacos, se liga, mano.
      O garçom Rogério, da Mercearia São Pedro, nos traz uma gelada e a primeira pauta: "E o Timão, doutor?" No que o eterno camisa 8 tira onda, reforçando o sotaque caipira: "Bora falar de muié' que é mais negócio".
      Aí eu vi vantagem. Também prefiro, doutor. Muito melhor que a crise do Corinthians. Crise, que crise? A diretoria prefere chamar de fase de reformulação. Ih, tucanaram o vexame, diria o confrade José Simão.
      Para melhorar o ambiente, a torcida treta em um bíblico Caim x Abel dos manos uniformizados com os manos em trajes civis.
      Bora falar de mulher. Repare que brotinho, doutor. Sim, a de vestido colorido. Claro que conheço. Não biblicamente falando. É a Tainá, uma carioca que resgata, em todos os sentidos, a condição de "ser brotinho" como na crônica homônima do botafoguense Paulo Mendes Campos. Uma carioca corintiana, doutor, que provoca "olas" de testosterona no "túmulo do samba".
      "E esse troca-troca, doutor, do Pato pelo Jadson?", intervém o garçom França, são-paulino do Piauí. O doutor sacaneia: "Disso eu não entendo, sou anarfabeto', Francinha. O escriba Marçal Aquino aponta com os beiços, sem gastar nem sequer um vocábulo, outra musa da taverna da vila.
      O doutor só repete a pilhéria cujo alvo é este cronista da nação Cariri. Um cara pergunta a um cearense: gosta de mulher? Ele responde: gosto. Nova pergunta: E de farinha? O cearense se empolga: Vixeee!
      A mulher da calça vermelha, um clássico erótico do bar, passa no meio do nosso corredor polonês. Suspendemos a respiração. Marquinhos, santista, larga o caixa e provoca: "Viu o novo Di Stéfano, doutor?". Refere-se, obviamente, ao menino da vila Stéfano Yuri, que debutou contra o Linense com o gol que a estrela Leandro Damião não fez. O doutor repete o mantra da noite: "Bora falar de muié!"
      Agora falando sério, mas sem ser chato, o ambiente é de boteco, não de "Manhattan Connection". O cara da Democracia Corinthiana vibra com os cidadãos instigados do Bom Senso FC. Com ou sem greve agora, o debate ficou interessantíssimo. Há pouco era tudo na base do "sim senhor", da cabeça baixa, do "time está unido". A conversa agora é outra.
      E, para variar, me despeço cantando aquela do Sérgio Bittencourt, doutor, também regravada pelo nosso amigo Otto: "Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre, o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor".

      Helio Schwartsman

      folha de são paulo
      Depois da tempestade
      SÃO PAULO - Lula é uma espécie de gênio da economia, que conseguiu fazer o país crescer enquanto o resto do mundo amargava a pior crise de todos os tempos, ou apenas teve sorte? Os novos desdobramentos da conjuntura econômica internacional trazem elementos para que comecemos a tentar responder a essa pergunta de forma desapaixonada.
      Esse tipo de pergunta demanda tempo para ser respondida porque presente e passado são assimétricos. Nos domínios do agora, o número de incertezas que nos cerca é praticamente infinito. Já quando olhamos para trás, embora incógnitas possam subsistir, livramo-nos de uma quantidade assombrosa de possibilidades que não se realizaram e tudo fica muito mais transparente.
      Tomemos um exemplo concreto. Depois da tempestade, qualquer meteorologista explica que as chuvas ocorreram porque a frente fria se moveu da maneira tal e tal, enquanto a massa de ar quente percorreu o trajeto tal. A porca torce o rabo quando o objetivo é prever como as frentes vão se comportar daqui em diante.
      A diferença é que, no presente, as massas de ar estão sujeitas a um número ilimitado de interações possíveis, o que torna proibitivo o número de equações necessárias para determinar seu movimento. Quando olhamos para o passado, as interações que não ocorreram perdem o sentido, o que torna o terreno límpido e a sucessão de eventos, óbvia.
      Os últimos acontecimentos econômicos deixam cada vez mais patente que o movimento de transferência de riqueza dos países ricos para os emergentes, devido ao boom das commodities principalmente a partir de 2006, foi decisivo para o bom desempenho do Brasil. Seria talvez injusto afirmar que o governo Lula apenas surfou nessa onda. Ao menos no primeiro mandato, a maré favorável foi acompanhada de medidas sensatas. Agora que esse ciclo parece ter se esgotado, as deficiências na gestão da economia vão se escancarando.

        Ruy Castro

        folha de são paulo
        Mas que calor, ooô, ooô
        RIO DE JANEIRO - Carlos Galhardo foi ao Café Nice pedir uma marchinha ao compositor Antonio Nássara para o Carnaval. Nássara olhou para Galhardo e disse: "Você tem cara de árabe". E sapecou ali mesmo o que, com retoques do parceiro Haroldo Lobo, se tornaria "Alá-la-ô" --ou assim eles pensavam. Mas aquilo era só o rascunho. Nássara foi à casa de Pixinguinha, no Catumbi, para que este fizesse o arranjo. O maestro o recebeu de cueca, mandou vir papel e lápis, abriu o piano, reescreveu tudo e "Alá-la-ô" ficou perfeita, irresistível, pronta para ser gravada.
        O que Galhardo fez na Victor, e pronto: desde 1941 nunca mais houve um Carnaval sem "Alá-la-ô". Só no Brasil isso seria possível: um compositor de origem árabe (Nássara) invocar Alá com tal intimidade ("Alá-la-ô, ooô, ooô/Mas que calor, ooô, ooô") e pôr o nome do profeta amorosamente na boca dos profanos.
        Galhardo era daquela turma de cantores --Francisco Alves, Mario Reis, Silvio Caldas, Carmen Miranda, Orlando Silva-- que surgiu nos anos 30 e construiu a música popular. A ele devemos a marchinha de Natal "Boas Festas", de Assis Valente, a toada "Maringá", de Joubert de Carvalho, o samba "Sei Que É Covardia", de Ataulpho Alves e Claudionor Cruz, e uma quantidade de valsas que o Brasil deveria insistir em preservar --porque poucos ritmos se revelaram tão brasileiros.
        Mas, de toda aquela geração, Galhardo é hoje o menos lembrado. Seus cem anos de nascimento, feitos em 2013, teriam sido ainda mais ignorados se não fosse a luta de sua filha, Carla Guagliardi, para tentar produzir shows, vídeos e discos a seu respeito. A luta continua.
        Galhardo merecia uma caixa de CDs com, no mínimo, cem faixas, e, mesmo assim, muitos sucessos ficariam de fora. Mas vá dizer isso à Sony, a múlti que se senta em cima de boa parte do nosso patrimônio musical.

        Mônica Bergamo

        folha de são paulo
        Um blog para Marcola
        Então quer dizer que, assim como condenados do mensalão, o Marcola, líder do PCC em SP, e o traficante Fernandinho Beira-Mar também deveriam ser autorizados a dar entrevistas? E a manter um blog na internet enquanto estão presos?
        A pergunta é feita por pessoas que concordam com Joaquim Barbosa, presidente do STF: os condenados "por corrupção" deveriam ficar "no ostracismo". A imprensa (em especial a Folha) erra ao abrir a eles "suas páginas nobres".
        Barbosa diz que até mesmo ministros do STF têm restrições: não podem falar de processos. Não podem frequentar todos os lugares que desejam. Que dirá um preso? E ainda com conexões políticas, capazes de minar, com ataques, a credibilidade da Justiça?
        São argumentos relevantes. Sob diversos pontos de vista, no entanto, é possível, e até desejável, que condenados possam se expressar.
        A Lei de Execução Penal, em seu artigo 3º, é clara: ao condenado são assegurados "todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei".
        Eles podem pensar. Eles podem se expressar.
        A lei veda a comunicação telefônica e por rádio porque não é possível controlar seu conteúdo. O preso, com um celular, pode ordenar crimes.
        Mas não veda, e até garante, a comunicação escrita com o mundo exterior.
        Em habeas corpus, o ministro Celso de Mello admitiu que a correspondência do preso pode ser interceptada, "sempre excepcionalmente", por razões de segurança, de disciplina penitenciária ou de preservação da ordem jurídica.
        A lei não veda que a correspondência seja publicada em um blog, desde que não cometa nem faça apologia ao crime.
        Entrevistas de presos são autorizadas pelos juízes de execução --que observam as condições de segurança antes de permitir o contato de um jornalista com o condenado.
        O italiano Cesare Battisti deu entrevistas no presídio da Papuda --autorizado pelo STF.
        Não se trata de jabuticaba brasileira. O escritor Fernando Morais entrevistou, para seu livro "Os Últimos Soldados da Guerra Fria", presos cubanos condenados por espionagem nos EUA. Eles estavam em presídios de segurança máxima. E falaram mal das condições carcerárias.
        Na Venezuela, Raul Baduel, preso por corrupção e dissidente do chavismo, escreve cartas que são publicadas por familiares em seu blog.
        Tão ou mais importante que o direito dos presos, porém, é o direito do cidadão brasileiro de ter acesso às versões de condenados --sejam eles José Dirceu, Marcola ou Beira-Mar--, ainda que elas não tenham prevalecido nos tribunais.
        "O que vige é a transparência", diz o ministro Marco Aurélio Mello. "Você não emudece quem quer que seja em uma democracia."