sábado, 15 de fevereiro de 2014

A ditadura recontada - Raquel Cozer

folha de são paulo
A ditadura recontada
Após o elogiado 'K.', Bernardo Kucinski publica contos sobre repressão, raro exemplar da atual produção ficcional sobre traumas do período
RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHA
"Você vai voltar pra mim" é uma daquelas falas propensas a enternecer o interlocutor --a não ser, é claro, que venha de alguém como um agente da repressão após infindáveis sessões de tortura.
A narrativa em que ela aparece nomeia o novo livro do jornalista e cientista político Bernardo Kucinski, 76, "Você Vai Voltar pra Mim e Outros Contos". Foi inspirada em depoimento que o autor ouviu, no fim de 2013, ao assistir a uma sessão da Comissão da Verdade paulista.
São 28 histórias que têm a ditadura como pano de fundo e marcam a chegada do paulistano à Cosac Naify, após elogiada e tardia estreia na ficção com o romance "K.", (Expressão Popular, 2011) --que ganha, simultaneamente, edição pela nova casa.
Lançado sem alarde por uma editora independente, "K." teve duas edições esgotadas (somando 5.000 cópias), foi traduzido para o alemão, o espanhol e o inglês (com edições previstas em hebraico e italiano) e concorreu a dois dos maiores prêmios literários do país, o Portugal Telecom e o SP de Literatura.
Um diferencial do romance foi sua temática: um pai em busca da filha desaparecida nos anos de repressão, recriação de um trauma familiar de Kucinski, cuja última notícia da irmã foi sua prisão pelos militares, em 22 de abril de 1974, em São Paulo.
No ano em que se completa meio século do golpe de 1964, com as livrarias recebendo diversas obras de não ficção a respeito da ditadura, "K." e "Você Vai Voltar pra Mim e Outros Contos" são raros exemplos da produção ficcional feita hoje no país sobre traumas daquele período.
Apesar de grandes romances sobre o tema, lançados inclusive durante a ditadura --como "Quarup", de Antonio Callado, e "Pessach: A Travessia", de Carlos Heitor Cony, ambos de 1967--, a literatura brasileira atual é bem mais comedida nesse sentido que a feita nos vizinhos Argentina, Uruguai e Chile.
"Acredito que o Brasil tenha uma incapacidade de enfrentar a ditadura num contexto maior, o que tem a ver com uma tradição brasileira de elaborar pouco os traumas sociais", diz o professor da Unicamp Marcio Seligmann, que por quatro anos coordenou um grupo de pesquisa sobre cultura e violência.
O professor de história da USP Marcos Napolitano lembra que, após aquele primeiro olhar dos anos 1960, a ficção nacional passou por uma fase de "balanço da derrota", em obras como "Zero" (1975), de Ignácio de Loyola Brandão, e "Em Camera Lenta" (1977), de Renato Tapajós.
"Daí para a frente floresceram as memórias, mas na ficção o tema foi sendo deixado de lado, com poucas exceções. Na América Latina veem-se mais exemplos do trauma derivado, de quem viveu a época, mas não passou diretamente pelos fatos", diz.
Para Kucinski, a abordagem literária permite mostrar, com mais clareza do que na não ficção, o clima da época.
Permite também enfrentar tabus, como o do machismo predominante no período --num dos contos, "Recordações do Casarão", dois amigos lembram um caso em que uma militante foi obrigada pelo namorado a abortar para não prejudicar a causa.
"O que me comove é que, quando você pega histórias individuais, é sempre muito chocante", diz Kucinski.
VOCÊ VAI VOLTAR PRA MIM E OUTROS CONTOS' e K.'
AUTOR Bernardo Kucinski
EDITORA Cosac Naify
QUANTO R$ 29,90 (192 págs.) cada um

CRÍTICA HISTÓRIA
Livro de Carlos Chagas narra traições na cúpula do regime
Em algumas passagens, o livro parece um acerto de contas de Chagas com aquela época
(RICARDO MENDONÇA)DE SÃO PAULO
Na literatura sobre a ditadura militar, convencionou-se chamar o Ato Institucional nº 5, de 1968, de "o golpe dentro do golpe". Nessa concepção, o golpe original é o de 1964, quando os militares expulsaram João Goulart. E o golpe "de dentro" é o endurecimento do regime, com o fechamento do Congresso. Ambos os golpes são principalmente contra a sociedade.
Dessa forma, o título "A Ditadura Militar e os Golpes Dentro do Golpe: 1964-1969", livro que o experiente jornalista Carlos Chagas está lançando, pode induzir ao erro.
Só após algumas dezenas de páginas percebe-se que os golpes aos quais ele se refere não são aqueles perpetrados contra a sociedade, mas os de militares contra militares: as sabotagens internas, as manobras desleais, as traições.
Chagas era um jovem repórter de "O Globo" no início dos anos 60, numa época em que o Brasil era bem diferente. Ele lembra como era fácil entrevistar Tancredo Neves em 1962, quando o então primeiro-ministro vivia no Flamengo: "Bastava cumprimentar o porteiro, subir ao 6º andar, apresentar-me para a empregada doméstica e aguardar na varanda que o primeiro-ministro aparecesse".
Alguns anos depois, Chagas aceitou um convite de Costa e Silva e tornou-se secretário de Imprensa da Presidência --cargo equivalente ao que sua filha Helena Chagas ocupava até janeiro no ministério de Dilma Rousseff.
Em algumas passagens, o livro parece um acerto de contas de Chagas com aquela época, como se tentasse justificar seu ingresso no governo no instante de maior endurecimento. Ele afirma que só aceitou o convite porque estava convencido de que Costa e Silva patrocinaria o início de um processo de descompressão. Hoje é fácil perceber que não foi assim. Mas na época lideranças da oposição também faziam essa avaliação.
Para o jornalista, o maior de todos os golpes internos foi a solução que os militares encontraram em 1969 para não entregar o poder ao vice Pedro Aleixo, um civil, após o afastamento de Costa e Silva por motivos de saúde. No lugar de Aleixo, quem assumiu foi uma Junta Militar.
Fiel ao ex-chefe, Chagas garante que, no instante em que foi afastado, Costa e Silva estava prestes a revogar o AI-5.
Outra impressão equivocada sugerida pelo título é sobre o período abordado no livro. De suas quase 500 páginas, mais de 400 tratam do biênio 1964-65. Os quatro anos seguintes ficam espremidos nas páginas finais.
Feitas essas ressalvas, "A Ditadura..." é uma obra fácil e interessante de ser lida. Ele guia sua narrativa a partir do noticiário da imprensa diária, reproduzindo e contando bastidores das reportagens feitas no calor dos eventos.
Em várias passagens, ele coloca o ex-patrão Roberto Marinho e um de seus irmãos, Rogério Marinho, em situação desconfortável, ora descrevendo uma capa de "O Globo" após o golpe, ora resgatando reportagens de sua autoria censuradas por Rogério.
A DITADURA MILITAR E OS GOLPES DENTRO DO GOLPE: 1964-1969
AUTOR Carlos Chagas
EDITORA Record
QUANTO R$ 60 (490 págs.)
AVALIAÇÃO regular
A estante de 1964
Livrarias recebem obras que reveem o período da ditadura em ano que marca o cinquentenário do golpe
O cinquentenário do golpe de 64, no próximo dia 31 de março, estimulou editoras a colocarem no mercado novos estudos e obras revistas sobre o regime militar no Brasil (1964-1985). Livros como "A Ditadura que Mudou o Brasil" (Zahar), organizado por Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridenti e Rodrigo Patto Sá Motta, e "1964:História do Regime Militar Brasileiro" (Contexto), de Marcos Napolitano, reveem aquele período turbulento, seus antecedentes e seu legado para o país.
    Pesquisa aborda a atuação de editoras de oposição à ditadura
    'Livros Contra a Ditadura' vê florescimento de obras contestadoras
    RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHA
    Com tantos recados políticos transmitidos via festivais de música na TV, tantas entrelinhas nos textos de jornais e revistas, e tantas peças e filmes contestadores, a produção de livros não foi das áreas intelectuais mais visadas no período da ditadura.
    Se desde os anos 1960 filmes, discos e peças eram escrutinados, só em 1970 o Ministério da Justiça passou oficialmente a examinar livros, como relata Sandra Reimão em "Repressão e Resistência: Censura a Livros na Ditadura Militar" (Edusp, 2011).
    No entanto, embora o alcance limitado de público reduzisse o interesse do Estado nessa área, as editoras que se opuseram ao regime deixaram seu legado no país.
    Foi esse cenário que o historiador e editor Flamarion Maués investigou em seu mestrado na USP, apresentado em 2006, trabalho que originou o recém-lançado "Livros Contra a Ditadura: Editoras de Oposição no Brasil, 1974-1984" (Publisher).
    Maués identificou 40 editoras de oposição no período, consideradas aí tanto as mais explícitas, com obras críticas à situação do país, como outras que ajudaram a colocar nas listas de mais vendidos, até o começo dos anos 1980, autores como Marx e Lênin.
    Apenas oito das editoras levantadas por Maués poderiam ser consideradas médias ou grandes (Alfa-Omega, Brasiliense, Civilização Brasileira, Codecri, Global, Paz e Terra, Vozes e Zahar).
    Das outras 32, pequenas ou micro, mais engajadas, saíram as três que estão no centro da pesquisa de Maués: a Ciências Humanas, ligada ao Partido Comunista, a Brasil Debates, ao Partido Comunista do Brasil, e a Kairós, ao grupo trotskista Libelu.
    Estas publicavam e vendiam pouco, já que somavam às tradicionais dificuldades de distribuição das independentes o fato de atuarem de maneira semiclandestina.
    O período subsequente à pesquisa, marcado por uma inflação alta e uma redução no interesse por obras políticas, levou à extinção muitas casas do período. Outras, como a Global e a L&PM, souberam explorar nichos para crescer, como os clássicos, no caso da primeira, e os livros de bolso, no da segunda.
    Mas alguns sucessos, como "A Ilha" (Alfa-Omega, 1975), de Fernando Morais, e "O que É Isso, Companheiro?" (Codecri, 1979), de Fernando Gabeira, ambos hoje editados pela Companhia das Letras, deram o pontapé numa tendência ainda perceptível e vendável no mercado.
    "Especialmente a partir da metade da década de 1970, passados os anos mais duros do regime, começam a florescer os chamados livros-reportagem, marcando o renascimento de um trabalho de levantar o tapete e mostrar o que estava escondido, e grandes relatos pessoais de impacto político", diz o autor.

    José Simão

    folha de são paulo
    Socuerro! Não Vai Ter Carnaval!
    Dica de economia de água: A Alstom só pode MOLHAR as mãos dos secretários do Alckmin a cada 15 dias!
    Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! "Casamento de Latino terá bloqueador de celular". Sem fotos! Graças a Deus! Pelo bem do Brasil!
    Como disse uma amiga: já basta o que sofremos com as imagens do casamento do Naldo! Rarará!
    Casório com bloqueador de celular! Vai ser no presídio? O casório vai ser na Papuda? Devia ter bloqueador de som pras músicas do noivo!
    E o Sujão? A falta d'água! Dicas de economia de água do amigo Ciro Botelho: 1) O Corinthians só pode levar uma LAVADA por mês. 2) A Alstom só pode MOLHAR as mãos dos secretários do Alckmin a cada 15 dias!
    E eu acho que o Lula deixou uma herança maldita pra Dilma: a Copa! Pelo jeito, quem vai precisar de Mais Médicos é a Dilma!
    E médicos cubanos fugindo pra Miami pelo Brasil? Miami via Brasil. O Brasil virou escala! Vou sugerir um pacote pra CVC: "Cuba-Brasil-Miami! Balseros, não fujam pelo mar, fujam pelo Brasil!"
    Só que em Miami eles não vão ser médicos, vão limpar banheiro. Vão limpar banheiro de apartamento de brasileiro!
    E torno a repetir aquela placa na padaria: "Temos Pudim de Leite Condenado". Sobremesa na Papuda! Já imaginou o Genoino e a Palmirinha dando receita de pudim de leite condenado? "Pegue uma lata de crime de leite e o creme não compensa". Rarará!
    E eu só acredito na regeneração do Adriano se ele passar o Carnaval em Curitiba! Verdadeiro Rehab! Diz que o trio mais animado de Curitiba é o caminhão da Liquigás tocando "Pour Elise". Rarará!
    Em compensação, olha o e-mail que eu recebi de um amigo baiano: "O Carnaval tá quase acabando e você ainda não veio!". O Carnaval na Bahia já começou. Em 1500! Quando os portugueses gritaram "Ivete à Vista!". Rarará!
    É mole? É mole, mas sobe!
    E a clássica pergunta de todo ano: "Onde você vai passar o Carnaval?". Em Minas! Em escola de samba mineira as passistas são de fora, o mestre-sala dança no Municipal e o mestre de bateria dá aula no conservatório! Uma explosão de desânimo! Rarará!
    Aliás, NÃO VAI TER CARNAVAL! Rarará!
    Nóis sofre, mas nóis goza.
    Hoje, só amanhã!
    Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

      Lula convidou recentemente Datena para almoçar - Mônica Bergamo

      folha de são paulo
      MÔNICA BERGAMO
      GARFO E FACA
      Com a agenda aberta para empresários e políticos, o ex-presidente Lula convidou recentemente uma estrela da televisão para almoçar em seu escritório: o apresentador Datena, da TV Bandeirantes.
      O PRIMEIRO
      Datena confirma o encontro. E diz que nada se falou sobre política, candidatura presidencial ou campanha de reeleição de Dilma Rousseff. "O Lula foi a primeira pessoa que ligou para o hospital quando eu operei o pâncreas [em 2006]. Acordei da cirurgia e minha mulher me deu o celular: 'É o presidente'. Fui visitá-lo para retribuir. Ele está muito bem de saúde, fiquei feliz. O Lula é um sujeito iluminado."
      MALHAÇÃO
      Datena diz que vai até começar a caminhar e a fazer ginástica por causa de Lula. "Ele me disse que não ligava para isso, mas que agora, faça chuva ou faça sol, se dedica à atividade física todas as manhãs." O apresentador diz que tentará fazer o mesmo.
      CONTA ABERTA
      O ator José de Abreu, da TV Globo, doou R$ 1.000 para a campanha de arrecadação de José Dirceu. O dinheiro ajudará o petista a pagar a multa por causa da condenação no mensalão.
      HISTÓRIA DE FILME
      O filme "Isso É Calypso", baseado na vida do casal de músicos Joelma e Chimbinha, recebeu autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 8 milhões em patrocínio, via Lei Rouanet.
      HISTÓRIA DE FILME 2
      De acordo com o diretor do longa, Caco Souza, o projeto, iniciado em 2012 em parceria com a produtora Black Maria, agora será tocado pela ViraLata Filmes. As gravações serão feitas em Belém (PA) e no Recife (PE).
      DE VOLTA PRA CASA
      A Confederação Brasileira de Handebol quer repatriar jogadoras que atuam no exterior, visando à preparação da equipe para a Olimpíada de 2016. A entidade estuda contratar as atletas para jogarem pelo Brasil Handebol Clube, equipe que será criada só para disputar jogos preparatórios dentro e fora do país.
      DANÇANDO
      Estreia em 9 de setembro no Tuca o terceiro espetáculo do projeto Chega de Saudade, dos diretores Sergio Ignacio e Rubens Oliveira. Depois de "Carretel" e "Grão", o grupo formado por homens e mulheres, de diferentes profissões, que decidiram voltar a dançar começa a ensaiar 12 novas coreografias.
      NO DIVÃ
      Na estreia da série de episódios especiais sobre futebol do programa "Viva Voz", do GNT, Ronaldo revela à apresentadora Sarah Oliveira que fez análise, "em uma época complicada", com um psicanalista argentino. A terapia durou um ano e meio. "E funcionou. Aprendi muito sobre minha personalidade, meus atos e a tirar muita culpa e peso das minhas costas", conta o Fenômeno. A entrevista vai ar em 19 de março.
      DIRETO DE NOVA YORK
      Nos EUA há 12 anos, o apresentador Pedro Andrade chegou a Nova York "sem grana e sem acesso a nada". Mais tarde, o trabalho como repórter em um canal de TV americano o fez conhecer o lado considerado mais glamouroso da cidade.
      O resultado dos dois momentos está em "O Melhor Guia de Nova York", lançado pela editora Rocco. Integrante da bancada do "Manhattan Connection" (GloboNews), o carioca vê na possibilidade do debate uma das qualidades do programa.
      E comenta o recente bate-boca entre o colega Diogo Mainardi e a convidada Luiza Trajano, do Magazine Luiza, sobre dados de inadimplência no país. "Ela não é uma coitadinha e se expressou muito bem." Com a elegância do terno Gucci que usou no lançamento do livro em SP, completa: "Admiro os dois por exporem suas opiniões".
      NA VOZ DE TULIPA
      A cantora Tulipa Ruiz e sua banda se apresentaram anteontem no Cine Joia, no centro de São Paulo. O público do show incluía convidados como a diretora artística Joana Mazzucchelli, o rapper Sombra, a cantora Manalu e o apresentador e radialista Edgard Piccoli.
      A ALMA DO NEGÓCIO
      Jose Roberto D'Elboux foi um dos anfitriões da abertura da mostra fotográfica "NY Under", que reúne trabalhos de artistas do meio publicitário, na galeria apArt, nos Jardins. O artista Marcus Kawamura e a atendente da Cápsula Filmes, Jana Kam, conferiram a exposição.
      CURTO-CIRCUITO
      O Teatro Oficina tem ingressos a preços populares (R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia) a partir de hoje em seus dois espetáculos em cartaz. 16 anos.
      O bloco Movimento de Rua, que sai hoje no Cidade Jardim, destina parte da renda dos abadás à Liga Solidária.
      O iatista Eduardo Souza Ramos será homenageado com uma regata pelo Iate Clube de Santos.
      A banda Capela toca hoje na praça Victor Civita, às 16h. Grátis. Livre.
      A exposição de Kalina Juzwiak no espaço cultural do Hilton Morumbi fica em cartaz até maio.

        'O Pequeno Príncipe' ganha tradução de Ferreira Gullar

        folha de são paulo
        'O Pequeno Príncipe' ganha tradução de Ferreira Gullar
        Texto em português é atualizado; versão de 1954 continua a ser vendida
        Clássico francês passa por trocas como 'você' no lugar de 'tu' e 'adultos' em vez de 'pessoas grandes'
        ÚRSULA PASSOSDE SÃO PAULO
        "Você é eternamente responsável por aquilo que cativou." Essa é a versão de Ferreira Gullar para o "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas", de Dom Marcos Barbosa.
        Publicado pela primeira vez em 1943 e lançado no Brasil em 1954, "O Pequeno Príncipe" seguiu desde então com a tradução de Barbosa. Agora, a história ganha nova versão em português.
        A tarefa coube ao poeta e colunista da Folha Ferreira Gullar. "Foi um convite da editora [Agir], nunca tinha pensado em traduzir este livro porque já tem uma tradução, que eu li quando era jovem", diz ele.
        Segundo Gullar, a ideia é atualizar a história, "para que o leitor de hoje se sinta mais identificado com o modo de narrar do livro e das falas".
        "Saint-Exupéry, quando fez o livro, foi num tom de quem está conversando, contando uma história para alguém, criança ou adulto, porque o livro tem essa ambiguidade", afirma. A nova versão refere-se aos "adultos" e não mais às "pessoas grandes".
        Gullar recupera a edição de 1943, preparada nos EUA. A tradução de Barbosa, a partir da edição francesa de 1945, lançada após o fim da ocupação nazista, continua nas prateleiras, com a tradicional capa do Pequeno Príncipe em fundo branco. A de Gullar mantém o mesmo desenho, mas tem fundo azul.
        A tradução do poeta está disponível também no volume "A Bela História do Pequeno Príncipe", com depoimentos de amigos do autor e um dossiê sobre a obra, montado pelos editores da Gallimard (casa francesa do livro) a partir de pesquisa na Biblioteca Nacional da França e em outras instituições.
        No Brasil, o livro já vendeu mais de 2 milhões de cópias, segundo levantamento até novembro passado, e segue na lista de mais vendidos entre as obras infantojuvenis.
        A obra de Saint-Exupéry, que morreu em 1944, entra em domínio público no Brasil a partir do ano que vem.
        A BELA HISTÓRIA DO PEQUENO PRÍNCIPE
        AUTOR Antoine de Saint-Exupéry; Alban Cerisier e Delphine Lacroix
        TRADUÇÃO Ferreira Gullar; Maria Helena Rouanet (dossiê)
        EDITORA Agir
        QUANTO R$ 59,90 (224 págs.)

        O PEQUENO PRÍNCIPE
        AUTOR Antoine de Saint-Exupéry
        TRADUÇÃO Ferreira Gullar
        EDITORA Agir
        QUANTO R$ 34,90 (96 págs.)

        Painel das Letras - Raquel Cozer

        folha de são paulo
        Terminais concorridos
        A crise da Laselva, maior livraria de aeroportos do país, abriu um filão e tanto para a concorrência.
        Depois da Saraiva, que desde o ano passado vem ganhando licitações e abrindo lojas terminais aéreos, é a vez de a Fnac inaugurar a sua primeira do gênero por aqui. O braço brasileiro da varejista francesa terá espaço no Terminal 3 de Guarulhos, cujas operações devem ser iniciadas em maio. Como a Fnac também trabalha com eletrônicos, a loja -a 12ª do grupo no país- ficará na área de embarque, na zona livre de impostos.
        Só talvez não consiga faturar muito no período da Copa, já que poucas companhias aéreas têm previsão de ocupar o novo terminal antes do evento.
        SEM EXPLICAÇÃO
        A Iluminuras tirou da Amazon seus 12 e-books -incluindo "Catatau" e "Agora É que São Elas", de Leminski- após saber que títulos vendidos pela loja eram pirateados no site Knol.pw, conforme notícia veiculada nesta coluna.
        O Knol.pw até saiu do ar (ou mudou de nome, como fazem sites de pirataria ao ser identificados), mas Samuel Leon, editor da Iluminuras, não deve recuar. "A Amazon nos devia explicações, mas não teve esse cuidado." Os e-books seguem à venda em outras lojas.
        José Mário Pereira, da Topbooks, não chegou a tirar e-books da Amazon, mas também questiona a loja. "Quando precisei de ajuda, a conversa ficou vaga", diz o editor, sobre a pirataria de "Assassinato de Reputações", de Romeu Tuma Jr.
        EFEITO FLIP
        Se a produção do israelense Etgar Keret, 46, passou incólume pelo Brasil, apesar de repercutir em mais de 30 países, a confirmação de sua vinda à Flip muda esse cenário. Antes mesmo do livro de contos que a Rocco programa para junho, com o título provisório "De Repente, uma Batida na Porta", sai pela SM Edições o infantil "Filhote de Gato-Peludo", com ilustrações de Aviel Basil. Está previsto para maio, no Salão da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
        Da banca à livraria Reportagens das revistas "Claudia", "Nova", "Superinteressante" e "Nova Escola", do grupo Abril, serão reunidas em livros a serem vendidos pelas editoras Agir e Nova Fronteira, do grupo Ediouro. Os conteúdos serão atualizados para as edições, que começam a sair neste ano.
        Sem Sherlock Após lançar a coleção completa de Sherlock Holmes, em nove volumes de contos e crônicas, a Zahar lança em agosto "Terra das Brumas" (1926), um dos seis livros que Arthur Conan Doyle dedicou ao personagem professor Challenger. A ficção é marcada pelo espiritismo que influenciou o autor após a morte de familiares na Primeira Guerra.
        Horror Pit Agarmen é o autor de "A Noite Devorou o Mundo", aposta da Rocco para este semestre. Trata-se do pseudônimo do francês Martin Page, autor do hit "Como me Tornei Estúpido", que assina com um anagrama de seu nome a trama de zumbis.
        Prolífica O mais recente título da best-seller Sylvia Day, "Spellbound", lançado no fim do ano passado nos Estados Unidos, sai com 20 mil exemplares pela LeYa, em março, como "Enfeitiçados pelo Desejo". Trata de dois feiticeiros que lutam pela sobrevivência. É claro, o viés erótico da produção da autora também estará lá.
        Prolífica 2 A superprodutiva autora ficou conhecida no Brasil pelos títulos publicados pela Companhia das Letras, casa pela qual já vendeu 700 mil exemplares e que anunciou, recentemente, a aquisição dos direitos dos dois livros da série "Blacklist", prevista para 2015.
        Adaptação Num mercado cheio de versões de romances em histórias em quadrinhos, a Novo Século faz o caminho inverso. Programa para este ano seis romances adaptados de HQs da Marvel. Entre eles, estão "X-Men: Dark Mirror", de Marjorie M. Liu, e "Iron Man: Virus", de Alex Irvine.

        NÃO FICÇÃO
        CIÊNCIA
        A Dupla Hélice: Como Descobri a Estrutura do DNA
        James D. Watson
        EDITORA Zahar
        TRADUÇÃO Rachel Botelho
        QUANTO R$ 39,90 (216 págs.)
        Em 1953, quando Watson tinha 24 anos, ele e Francis Crick decifraram a estrutura do DNA. A descoberta deu aos dois o prêmio Nobel. Ele narra os bastidores dessa corrida contra a natureza e outros pesquisadores, como o Nobel de Química e da Paz Linus Pauling (1901-1994).
        LITERATURA
        Livro 3 - Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição
        Plinio Martins Filho e Marisa Midori Deaecto (editores)
        EDITORA Ateliê Editorial
        QUANTO R$ 48 (384 págs.)
        A publicação do núcleo da USP reúne artigos voltados aos estudos sobre o livro e a leitura no Brasil e no mundo. Entre os autores estão Marisa Lajolo, Nuria Amat e Walnice Nogueira Galvão. O volume conta ainda com intervenções artísticas de Marcelo Cipis e Ciro Yoshiyasse.

        Álvaro Pereira Júnior

        folha de são apulo
        Somos todos irmãos
        Em um debate sobre jornalismo e crítica musical, ninguém sabe o que é ou para que serve isso
        Debate sobre jornalismo. Na plateia, centenas de olhos sem rugas se perguntam: do que esses caras estão falando?
        O tema é reportagem e crítica de cultura, mais especificamente música. Na mesa, alguns amigos. São jornalistas, digamos, "do papel" (embora muito ativos, e com destaque, no mundo on-line).
        Eles ressaltam que na expressão "jornalismo cultural" existe a palavra jornalismo, e que essa palavra carrega algumas premissas, como distanciamento, espírito critico, a necessidade de ler muito para aprender a escrever, a obrigação de escutar bastante música para conseguir avaliar etc.
        Pode parecer óbvio, mas para a tropa presente foi uma revelação, cada jornalista tiozinho um novo Fernão de Magalhães provando às massas que a Terra é redonda.
        Definidas as posições, uma barreira de gelo ergueu-se entre público e debatedores, ou pelo menos parte destes. Imagine perguntar as horas para uma pessoa que nem sabe que existe relógio. Tente falar de aritmética com alguém que ainda não aprendeu os algarismos. É pior do que discordar, ser superior ou inferior, saber menos ou mais. É não ter uma base comum para discussão.
        Fim do debate, a sessão foi aberta para perguntas. Um sujeito tomou a palavra, falou sem parar, não deu vez a mais ninguém. Acabaram o tempo e a possibilidade de diálogo.
        Nos últimos segundos, já todo mundo se levantando, um jovem gaiato da plateia ainda fulminou os participantes: "Não foi o que eu esperava, mas pelo menos valeu pelo saudosismo".
        Fui convidado, não pude ir, tomo por base depoimentos de quem estava lá. Peço desculpas por eventuais imprecisões, mas garanto que o espírito foi esse. Jornalistas "das antigas" falando para um pessoal que acha que não é nada disso, que estamos todos juntos nessa: jornalistas, músicos, "críticos", blogueiros, executivos da área cultural, campeões do Facebook, reis do Instagram. Que o negócio é se unir, uma mão lava a outra, caminhar juntos para "construir a cena".
        Afinal, para que jornalista perder tempo ao falar de coisas de que não gosta, ser crítico em relação ao que está em evidência? Que mal há em exercer o jornalismo e, ao mesmo tempo, fazer curadorias no Sesc, falar bem dos amigos no blog e no "Face", tocar o site de um evento corporativo (ou o próprio evento corporativo), escrever catálogos, dirigir uma compilação para uma gravadora, bajular um político que o premiou com um edital, assinar material de divulgação (os chamados "press-releases") para governos, editoras, o que pintar?
        E já que tudo isso está liberado, por que não, entre uma tuitada e outra sobre o estado das coisas, sobre o Brasil e o mundo, encaixar uma propagandinha, um "tuíte" favorável a alguma grande empresa, ainda que seja uma daquelas com lugar cativo nos "top ten" de reclamações do Procon?
        Não tem problema. Basta acrescentar no final do jabá a notação #ad. Claro que todo mundo sabe que "ad" é abreviação de "advertisement", e que "advertisement" é palavra inglesa que significa "anúncio". E que todos os leitores vão entender que existe uma separação precisa, um muro de Berlim entre o conteúdo que realmente expressa o pensamento do autor e os elogios que ele esta sendo pago para escrever.
        (Informo que os três parágrafos acima foram irônicos)
        Em redes sociais, não são poucas as figuras que vejo se descreverem como "jornalista e publicitário". E não só picaretas, gente talentosa também. Isso dá uma boa ideia da desdita reinante, no debate sobre jornalismo que iniciou esta coluna, entre a audiência, afeita a essa liberalidade digital, e alguns dos convidados, ainda seguidores de um certo balizamento "analógico".
        Em meio a tanta confusão entre jornalismo e propaganda, uma boa notícia vem do "New York Times". O site do jornal finalmente aderiu ao polêmico conteúdo patrocinado ("branded content"), ou seja, anúncios concebidos para parecer reportagens normais.
        Claro, melhor que não tivesse entrado nessa. Mas conseguiu, pelo menos nos textos que vi, fazer com tanta transparência, deixando tão claro que aquele conteúdo foi produzido pelo anunciante, que talvez tenha matado a premissa. Ponto para o jornalismo, só não sei se os anunciantes gostaram.
        P.S. Voltando ao assunto música, recebi uma dica de vídeo esta semana que, se me perguntarem "o que é música", respondo com o link: youtu.be/WubFQrd-meo. E isso não é um #ad. É só opinião, de graça.

          Cientistas criticam esqueleto-robô a ser exibido na Copa - Rafael Garcia

          folha de são paulo
          Cientistas criticam esqueleto-robô a ser exibido na Copa
          Interface não teria informação cerebral suficiente para fazer deficiente controlar estrutura que o permita andar
          Ex-funcionário de laboratório do projeto diz que demonstração é 'prematura' e tem como objetivo a 'propaganda'
          RAFAEL GARCIADE SÃO PAULOPesquisadores que estudam a transmissão de informação do cérebro para os músculos estão questionando a promessa do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que anunciou que fará um jovem com lesão de medula espinhal dar o pontapé inicial da Copa do Mundo.
          Em uma ilustração promocional do programa "Andar de Novo", liderado por Nicolelis, uma mulher vestindo uma armadura robótica aparece levantando-se de uma cadeira de rodas, caminhando até a bola e chutando-a.
          Um cientista que chegou a trabalhar com Nicolelis no IINN (Instituto Internacional de Neurociências de Natal), porém, diz que essa cena, caso se concretize, é mais bem descrita como um robô controlando os movimentos de uma pessoa do que o inverso.
          "Essa demonstração é prematura e, na melhor das hipóteses, será só uma propaganda daquilo que ele espera que aconteça um dia", diz Edward Tehovnik, americano que deixou o IINN após uma cisão interna em 2011.
          Hoje professor na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), ele diz que Nicolelis ainda não publicou estudos suficientes para mostrar que sua técnica está pronta para reabilitar pessoas com problemas neuromotores. "Eu não digo que isso jamais acontecerá, mas a esta altura é prematuro", diz.
          BITS POR SEGUNDO
          Segundo artigos publicados recentemente por Tehovnik, nenhum grupo de pesquisa consegue ainda extrair uma quantidade de informação no cérebro com velocidade suficiente para controlar movimentos complexos.
          Segundo o pesquisador, com uma taxa menor de "bits" de informação por segundo, uma interface que conecte um cérebro a uma máquina já é capaz de tarefas simples, como ligar/desligar um aparelho, mas não conseguiria controlar uma perna eletromecânica com precisão.
          "Não dá para obter nada que se pareça com um ser humano andando na rua", diz Tehovnik. Segundo o cientista, o campo de pesquisa das interfaces cérebro-máquina foi "corrompido" pela oferta de dinheiro para os grupos de pesquisa, que hoje estariam mais preocupados em levantar verbas do que em solucionar problemas científicos que ainda se apresentam como barreiras à sua evolução.
          Para ele, demonstrações públicas de uma tecnologia tão incipiente alimentam falsas expectativas em pessoas paralíticas. "Acho que isso deveria estar restrito ao laboratório nesse ponto", diz. Tehovnik explica pormenores técnicos de sua argumentação em um artigo de opinião na revista "Mente&Cérebro".
          Outros cientistas que trabalham na linha de pesquisa de Tehovnik são menos contundentes na crítica a Nicolelis, mas também veem um excesso de entusiasmo.
          Michael Graziano, da Universidade de Princeton, diz ver excesso de ênfase na engenharia dos projetos, em detrimento das questões de ciência básica. "Dizer que dentro de dez anos resolveremos esses problemas soa muito implausível para mim."
            OUTRO LADO
            Nicolelis diz que sofre tentativa de ataque pessoal
            DE SÃO PAULOO cientista Miguel Nicolelis respondeu às declarações de Edward Tehovnik dizendo que se trata de "mais uma tentativa de ataque pessoal, agora por parte de um pesquisador que foi desligado do IINNELS (Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra) por falta de produtividade científica e que jamais realizou nenhum trabalho digno de nota na área de interfaces cérebro-máquina".
            O pesquisador brasileiro afirmou à Folha que Tehovnik cometeu "vários equívocos" nas suas críticas, "mesmo porque ele desconhece completamente qual será a estratégia de controle cerebral usada para movimentar o nosso exoesqueleto".
            "Além disso, ele se engana ao afirmar que o voluntário escolhido para a demonstração será uma criança quadriplégica'. Esclareço que todos os aspectos e procedimentos envolvidos no nosso projeto foram aprovados pelo comitê de ética local da AACD e do Conep", afirma.
            "Dessa forma, as insinuações maliciosas levantadas na carta assinada pelo Dr. Tehovnik são totalmente infundadas e levianas. Nós, de nossa parte, continuamos a fazer aquilo que sabemos fazer bem: trabalhar pelo avanço da ciência brasileira."
            A AACD foi procurada para comentar o assunto, mas disse que o trabalho é de autoria do cientista Miguel Nicolelis e só ele poderia falar a respeito.