domingo, 9 de março de 2014

Suzana Singer [folha ombudsman]

folha de são paulo
OMBUDSMAN
Ler, ver e crer
Pesquisa mostra o predomínio da televisão, o potencial da internet e a alta confiança em jornais
A julgar pelo que se discute na imprensa -explosão da internet, derrocada dos impressos, perda de audiência da televisão aberta-, os brasileiros já entraram de vez no jornalismo 2.0. Não é bem assim.
Uma pesquisa bastante abrangente sobre hábitos de mídia (18 mil entrevistas em 848 municípios), feita pelo governo federal, mostra que o domínio da televisão ainda beira o absoluto. O seu amigo radical, professor universitário que lê em francês e não tem televisão, é a exceção da exceção -97% dos brasileiros assistem à TV, 65% fazem isso todo santo dia, numa média diária de três horas e meia.
Na supremacia da TV aberta, a Globo, como era de esperar, lidera com uma vantagem folgada. À pergunta espontânea "A qual telejornal você assiste?" 45% disseram ser o "Jornal Nacional", 16% citaram o "Jornal da Record" e 8%, o "Cidade Alerta", também da Record.
É uma elite que se delicia com as perversidades de "Game of Thrones" e com os jardins de "Downton Abbey": a TV paga está em um terço dos lares (31%), especialmente nos mais ricos e nos localizados nas grandes cidades. É menos do que a porcentagem dos que, no extremo oposto, dependem de uma antena parabólica para ver seus programas favoritos na TV aberta (37%).
O rádio, sempre esquecido nos debates sobre os rumos da mídia tradicional, continua firme e forte. Segundo a pesquisa, 60% dos brasileiros ouvem rádio, 21% todos os dias, em média, por três horas.
A maioria dos brasileiros nunca acessa a internet (53%), mas o potencial de crescimento da rede é evidente quando se olha para os mais jovens. Entre os que estão na faixa de 16 a 25 anos 48% navegam pela web todos os dias. Além da idade, o determinante para estar on-line é escolaridade, renda e viver em cidade grande. Dos entrevistados que estudaram até a quarta série apenas 8% acessam a rede uma vez por semana; no alto da pirâmide, entre os que terminaram a universidade, esse número salta para 87%.
Aquele seu outro amigo radical, o advogado trabalhista que acha ridículo contar a vida no Facebook, é também ponto fora da curva. Dos internautas 67% estão na rede social de Mark Zuckerberg e 31% dizem que se informam por ela.
Os jornais impressos são lidos por um quarto da população adulta, especialmente pela parcela de alta escolaridade. Mas o leitor assíduo, que, como você, segue a Folha de domingo a domingo, é tão raro quanto os seus amigos esquisitos que viram as costas para a Globo e para as redes sociais: apenas 6% leem jornal todo dia.
A força do impresso não está na abrangência, mas na confiabilidade. Enquanto 53% dos entrevistados confiam (sempre ou muitas vezes) nas notícias dos jornais, só 28% dizem a mesma coisa em relação aos sites e 22% sobre blogs.
Pode ser que o jornal esteja se tornando alimento para animais em risco de extinção, mas o fundamental é não perder o voto de confiança do leitor. A luta pela sobrevivência consiste em garantir um espaço relevante na internet, onde está a audiência do futuro, mantendo o prestígio da marca do impresso.

    Elio Gaspari

    jornal o globo
    'Sorriso' mostrou a Paes a alma do Rio
    O prefeito achou que encarava a greve dos garis com radicalismo de gogó e produziu uma grande lixeira
    As cidades têm alma, e o prefeito Eduardo Paes parece não entender a da sua. O Rio tem a capacidade de se encantar com personagens do andar de baixo. No Império havia um filho de escravos, veterano da Guerra do Paraguai, que se intitulava D. Obá 2º d'África. D. Pedro 2º obsequiava-o nas audiências públicas. Houve Madame Satã, um marginal gentil, brigão, homossexual, que passou boa parte da vida preso e é um patrono da velha Lapa. E também o Profeta Gentileza, que pregava pelas ruas e deixava murais nos viadutos da avenida Brasil. O último desses adoráveis personagens é o gari "Renato Sorriso", aquele que varria a passarela do samba dançando e alegrou o mundo no encerramento da Olimpíada de Londres.
    "Sorriso" aderiu à greve dos garis do Rio. Na outra ponta, o prefeito Eduardo Paes teve seu momento Ronald Reagan. Diante da greve, demitiu 300. Quando a cidade ficou parecida com Nápoles durante sua terrível paralisação de 2011, aceitou readmiti-los, pagando os dias parados. O presidente Reagan havia sido ator mas não fazia teatro, demitiu 11 mil controladores de voo, quebrou a greve e nenhum deles retornou ao emprego. Depois do recuo, Paes chamou grevistas de "delinquentes". Nisso, a cidade continuava imunda pois, ao contrário de Reagan, que armou um plano B, a prefeitura entrou só com a agressividade do gogó. Disse que a greve era coisa de 300 garis. Tudo bem. Se fosse assim, cada um deles deveria ganhar R$ 100 mil por mês pois, quando pararam, a cidade virou um lixo. Desfeita a patranha, reconheceu-se que o movimento envolveu pelo menos 30% dos 4.000 servidores. Em vez de tentar um caminho que o levou ao fracasso, poderia ter acompanhado a alma do Rio, evitando a linha do posso-logo-faço. Filmado arremessando pedaços de fruta na rua, explicou que jogou-os na direção de uma lixeira longínqua "ou para que um de seus assessores fizesse o descarte em local adequado". Fica criada assim a categoria de assessor de descarte, ou gari de prefeito. Seria mais fácil cantar: "Viver é arte. Errar faz parte".
    Brigar com gari pode não ser uma boa ideia, mas, quando um prefeito está de um lado e um sujeito como "Sorriso" está do outro, ele deve pensar duas vezes.
    TERROR
    O ministro Ricardo Lewandowski recebeu uma carta de um advogado que defende a banca no julgamento pelo STF do processo dos poupadores tungados nos planos econômicos. Dizia o seguinte:
    "A prevalência do entendimento até agora adotado por numerosas decisões judiciais provocará uma convulsão econômica que lançará o país numa coorte de horrores que, sem exagero, irão do desemprego em massa à fome da população mergulhada nos sortilégios de uma crise econômica que afetará toda a nação."
    A banca da banca deve estar lendo demais sobre a Ucrânia.
    BURLE MARX
    Um carioca de alma exilado em Brasília estava esperando sua hora no aeroporto do centro da cidade e não acreditou no que viu. Sumiu o jardim de Burle Marx que ficava na pracinha em frente.
    Virou estacionamento e sobraram só as árvores, para dar sombra aos carros.
    SUCESSÃO
    Durante um almoço do andar de cima, no Rio, falava-se nas virtudes de Eduardo Campos como candidato à Presidência, até que um grande empresário que estava à mesa perguntou ao garçom:
    -Você sabe quem é Eduardo Campos?
    -Não senhor, respondeu o rapaz, com sotaque nordestino.
    O assunto morreu.
    MADAME NATASHA
    Madame Natasha vai a Brasília pedir aos educatecas do Inep que estudem as mudanças anunciadas para o sistema de testes do SAT americano. Nos Estados Unidos, os estudantes podem fazer esses exames em sete ocasiões ao longo de um ano. No Brasil, Lula e Dilma prometeram duas provas anuais do Enem, mas era lorota.
    A instituição que cuida do SAT anunciou que retirará dos exames os fatores de "ansiedade improdutiva". Para começar, banindo expressões que são colocadas nas provas com o propósito de humilhar e confundir os estudantes. Algumas palavras, como "síntese" ou "empírico", não são corriqueiras, mas devem ser conhecidas. Outras, como "deletério", podem ser substituídas. (Por "destruidor", por exemplo.)
    Natasha foi a uma prova do Enem de 2012 e achou coisas assim: "canalizar as pulsões", "cultura lipofóbica", "sentimentos de pertencimento" e "biorremediação".
    Natasha teme que o Inep diga que é isso mesmo, porque a doutora Dilma disse o seguinte há dias:
    "Tem uma infraestrutura muito importante para o Brasil, que é também a infraestrutura relacionada ao fato de que nosso país precisa ter um padrão de banda larga compatível com a nossa, e uma infraestrutura de banda larga, tanto backbone como backroll, compatível com a necessidade, que nós teremos para entrarmos na economia do conhecimento, de termos uma infraestrutura, porque no que se refere a outra condição, que é a educação, eu acho importantíssima a decisão do Congresso Nacional do Brasil em relação aos royalties." (84 palavras em busca de um sentido.)
    TRÊS VIÚVAS DO HAITI NO GAVETEIRO DA JUSTIÇA
    Em 2010, durante o terremoto do Haiti, morreram 18 militares brasileiros que integravam a força internacional que policiava o país. Lula recebeu os caixões com pompa e circunstância e o governo deu às famílias as pensões a que tinham direito, bem como um auxílio especial de R$ 500 mil a cada uma.
    Encerrada a marquetagem, começou uma encrenca. Todos os mortos tinham seguro de vida vendido pelo Bradesco, consorciado com a Fundação Habitacional do Exército. Até hoje não se sabe o que pode levar um exército a se juntar a uma seguradora privada. As viúvas diziam que os militares morreram em serviço (o que é óbvio) e, portanto, tinham direito ao dobro do valor da apólice. A seguradora dizia que eles morreram num cataclismo ao qual o contrato não dava cobertura. Foram para a Justiça e o Bradesco fez acordo com 15 famílias. Sobraram três, que reivindicam também indenização por danos morais ocorridos durante a disputa. Como seus maridos foram promovidos post-mortem, são viúvas de dois generais e um coronel. Com elas não houve oferta formal de acordo, além de um telefonema.
    Desde 2012, um recurso dessas três senhoras está no gaveteiro do Tribunal Regional Federal 1. Se o Exército não tivesse se associado a uma seguradora que vende apólices de grupo dentro de suas instalações, a questão estaria resumida a um negócio privado.

      Janio de Freitas

      folha de são paulo
      A lição do lixo
      Em vez de polícia dissolvendo piquetes, apareceu polícia na proteção à limpeza pelos garis dispostos a trabalhar
      As numerosas mas imprecisas centenas de garis que persistiram em greve no Rio tentaram obter, das chamadas autoridades, uma reação daquelas que emporcalham a democracia. Criaram grupos de agressão aos que aceitaram o acordo entre o seu sindicato e a estatal de limpeza urbana, apelaram para passeatas e perturbação do trânsito, e prometeram mais e maiores agitações.
      O efeito foi exemplar. Em vez de polícia dissolvendo com armas os piquetes agressores, apareceu polícia na mais pacífica proteção à limpeza da cidade pelos garis dispostos a trabalhar. Até o momento em que escrevo, nem um só dos costumeiros incidentes. Espera-se para hoje a retirada final das toneladas de lixo e sujeira acumuladas, e não é improvável que, até lá, haja algum incidente. Apesar disso, não se diminuirá o valor exemplar do tratamento inteligente dado, afinal, a uma greve perturbadora, por si mesma, e agravada por provocações de grevistas violentos. Uma resposta do poder, suponho, sem precedente em casos semelhantes: resposta democrática.
      Não se comprovou que os políticos dados como incitadores dos supragrevistas o fossem de fato, embora não haja dúvida quanto à incitação política. E aí se completa o efeito exemplar da condução compreensiva do problema: a continuação da greve não causou a pretendida corrosão eleitoral do governador Sérgio Cabral e do prefeito Eduardo Paes. Se é que não lhes deu algum ganho, com a derrota política dos que investiram no prejuízo sentido pela cidade.
      Pode ser que outros prefeitos e governadores venham a notar o que e como se passou no Rio.
      IMPUNIDADE
      Alguns tipos de violação de direitos humanos recebem, nos meios de comunicação, o tratamento combativo à altura, como se passa com os atos contra gays e lésbicas. O racismo ainda não merece o empenho proporcional à sua gravidade. O futebol o demonstra muito bem.
      Os casos se sucedem, as páginas esportivas os noticiam, a cada um seguem-se críticas em partes de colunas, e logo se passa à espera do próximo episódio. Muito cômodo para as consciências, mas também resulta em uma forma de conivência com a continuidade da agressão desumana.
      O que houve com o brasileiro Tinga no Peru exigia que a imprensa esportiva se lembrasse de que também ela tem compromissos com a democracia. De sua parte, o mínimo seria movimentar-se para mostrar que, contra o racismo, o futebol brasileiro não poderia voltar ao Peru durante um longo período. Mas a atitude foi transferida para a arapuca chamada Conmebol, quando agredidos foram o futebol brasileiro e os direitos humanos universais.
      Agora, no Rio Grande do Sul, o juiz Márcio Chagas da Silva foi vítima de agressões raciais da torcida do Esportivo. Saíram as notícias de praxe em alguns jornais, saem os comentários de praxe em partes das colunas de praxe. No RS, o Ministério Público tomou suas providências para colaborar com a permanência das praxes: propõe que o Esportivo perca os três pontinhos de sua vitória no jogo do incidente.
      Se a imprensa esportiva se dedicasse a mostrar a necessidade de medidas eficazes, como seria a proibição de jogo na gaúcha Bento Gonçalves por um ano, ou em cidades paulistas onde alguém sofra o que o santista Arouca sofreu, o futebol deixaria de ser oportunidade, senão incentivo, para o racismo.
      A história de mais de cem anos do jornalismo esportivo inclui escassos momentos de contribuição ao desenvolvimento humano e ético do esporte brasileiro.

      José Simão

      folha de são paulo
      Ueba! Rumo à Copa sem rumo!
      Oscar de Melhores Defeitos Especiais: os estádios da Copa. Melhor Defeito Especial: Itaquerão. Rarará!
      Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Sambódromo! Desfile das Campeãs: Unidos da Tijuca tirou o primeiro lugar porque homenageou o Senna. Se tivesse homenageado o Rubinho, teria ficado em segundo! Ou teria quebrado na largada! Rarará.
      E se tivesse homenageado o Massa, os carros alegóricos iam quebrar. Engavetamento de alegóricos! Rarará!
      E a grande novidade do Carnaval: "Adriano larga o Carnaval e treina no Atlético-PR".
      Milagre! Tá curado. Tá curado, não! Nasceu de novo! Isso não é uma recuperação, é uma ressurreição! Curitiba é um rehab!
      E agora rumo à Copa. Rumo à Copa Sem Rumo! Oscar de Melhores Defeitos Especiais: os estádios da Copa. Melhor Defeito Especial: Itaquerão. Rarará!
      E todo ano, no Rio, sai aquele bloco Me Beija que Eu Sou Cineasta. E agora em São Paulo, depois das manifestações, saiu pela primeira vez o bloco Me Bate que Eu Sou Jornalista. Rarará!
      E a Ucrânia? Traumatismo Ucraniano! A Ucrânia é um país tão louco que, nas eleições de 2004, os dois candidatos tinham o mesmo nome: Viktor.
      E ambos se consideraram Viktoriosos! Rarará.
      E a Rússia é um país tão louco que proibiu a Parada Gay. Por cem anos! E o Putin tem cara de vilão de filme de 007. Vilão de Guerra Fria! E tá proibido fazer trocadilho com Putin. Só com o filho do Putin!
      E o site Futirinhas fez a apuração das escolas de futebol. "Quesito Apanhando da Torcida, Sport Club Corinthians, nota deeez". "Quesito Virada de Mesa, Fluminense Football Club, nota deeez".
      "Quesito Ajuda da Arbitragem, Clube de Regatas Flamengo, nota deeez". "Quesito Falta D'água, Clube de Regatas Vasco da Gama, nota deeez". Rarará!
      E esse repórter policial em Natal: "Mulher presa tentando entrar na penitenciária com drogas alojadas nas cavidades naturais".
      Essa é inédita: chamar as partes pudendas de cavidades naturais. Rarará!
      Banheiro de Carnaval! Olha esse: "Banheiro VIP de Carnaval! Xixi: R$ 0,50. Cocô feminino: R$ 2. Cocô masculino: R$ 5. Proibido: vômito, sexo, bronha, banho na pia e pum em eceço". Carnaval VIP! Rarará.
      Nóis sofre, mas nóis goza!
      Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

        Mônica Bergamo

        folha de são paulo
        Plínio comenta
        Metralhadora giratória na internet, Plínio de Arruda Sampaio aconselha o pré-candidato do PSOL a presidente, Randolfe Rodrigues, a fazer como ele na eleição de 2010: partir para ofensas morais para chamar a atenção
        "É a favor da legalização da maconha?", "É vascaíno?", "Pretende se candidatar a algum cargo?". As perguntas pulam na página do Twitter. Plínio de Arruda Sampaio, 84, pousa as mãos sobre seu iMac da Apple (e só não responde às perguntas pornográficas): é, sim, a favor de descriminalizar a erva. Torce pelo São Paulo. E não, não vai disputar as eleições.
        "Já cumpri o que eu tinha que cumprir", explica ao repórter Joelmir Tavares. "E seria muito ruim ir para Brasília e deixar a Marietta sozinha aqui em São Paulo", diz o ex-deputado federal, citando a companheira há 60 anos, com quem teve seis filhos.
        Candidato do PSOL derrotado nas eleições para presidente de 2010 -recebeu 886 mil votos, 0,87% do total-, Plínio é o único dos quatro postulantes mais votados conformado em ficar fora da urna eletrônica em outubro. Dilma Rousseff (PT) concorre à reeleição, José Serra (PSDB) indica disposição para disputar algum cargo e Marina Silva (PSB) pode ser vice de Eduardo Campos (PSB).
        Enquanto mantém diálogo com os 81 mil seguidores do perfil @pliniodearruda -onde ganhou popularidade por se oferecer, quase todo dia, para responder a "perguntas sobre política e religião"-, corre por fora como cabo eleitoral do pré-candidato de seu partido a presidente, Randolfe Rodrigues, 41.
        Ao senador do Amapá ("novinho, mas craque pra burro"), Plínio aconselha: é preciso partir para o ataque, até com "ofensas morais". "Se não for agressivo no debate em um partido pequeno, os eleitores esquecem você."
        Mas o arsenal retórico de Plínio, se fosse requisitado agora, estaria pronto para ser disparado. Contra Dilma ("cortou benefícios previdenciários, entregou a Petrobras"), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos ("representam interesses que os impedem de falar as coisas importantes, e aí têm que fazer promessinha") e Marina ("uma fofoqueira habilidosa, ultra-ambiciosa; se o Eduardo bobear, ela sai candidata").
        Afirma que a adversária que mais atacou em 2010 foi Marina. E poupou Serra, de quem diz ser amigo. "Objetivamente, ele é um governante melhor do que a Dilma e os demais. Ele é meio reacionário e violento, mas competente. Pessoalmente, é uma simpatia, um cara simples."
        Diz que o PSOL não tem chance de vencer agora. Acredita na reeleição de Dilma.
        Defensor da gratuidade no transporte, Plínio tenta convencer o partido a buscar o apoio do MPL (Movimento Passe Livre), que teria "tudo a ver" com a legenda. As manifestações de rua foram positivas, para ele, por criar "um fato novo no processo eleitoral".
        Mas discorda da tática do "black bloc" ("sem propósito") e defende o deputado estadual do Rio Marcelo Freixo (PSOL), sobre quem recaiu a suspeita de ligação com os acusados da morte do cinegrafista Santiago Andrade. "Não sei qual a intenção dos que fizeram essas ilações. Estão totalmente enganados."
        Fundador do PT, alega que deixou o partido em 2005 porque, no poder, ele fazia as vontades da "burguesia". Diz que o julgamento do mensalão foi "íntegro". Mas ficou "triste" ao ver ex-companheiros presos, como José Dirceu ("ele roubou mesmo") e José Genoino ("vivia com dificuldade, pegou para o partido").
        O prefeito Fernando Haddad (PT-SP) "é um incompetente". Alexandre Padilha, pré-candidato petista ao governo do Estado, "é um desconhecido, um poste". Lula "é uma figura admirável, sujeito malandrão, ótimo de coração", mas "um desastre" como presidente. Eduardo Suplicy (PT-SP) "é o melhor senador em atividade, um comunista 'sui generis'". O ministro Joaquim Barbosa, do STF, é "extraordinário".
        E mais: o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), tido como homofóbico, "é um fanático". Geraldo Alckmin (PSDB-SP) "é um governador meio reaça, mas um homem correto", de quem o escândalo do cartel do metrô "não vai passar nem perto" e por quem põe "a mão no fogo".
        Assim como nega contradição em ser de esquerda e elogiar políticos da direita, diz administrar bem a devoção ao marxismo e à Igreja Católica. "O Marx é um instrumento para analisar a realidade. Mas, quando extrapola, aí já não me interessa. Sou cristão, acredito em Deus." Lamenta que os filhos não tenham apego à religião.
        No Twitter, mesmo com dificuldade para dominar a tecnologia, une duas paixões. "Faço um trabalho de formação política e de apostolado."
        Foge de brigas. Diz só responder a questões sérias e sobre os assuntos de que entende. Não dá bola para piadas. "Estou respondendo a perguntas sobre roupas pretas e cortes de cabelo" e "sobre política e requeijão" são exemplos de brincadeiras de usuários que imitam Plínio.
        No Facebook, não faz tanto sucesso com a própria página. Tem 9.000 seguidores. A sátira Plínio Comenta, na mesma rede, tem 66 mil. Nela são postados pitacos sobre temas do momento. São frases curtas escritas em fotos do ex-deputado, na forma de "memes" (mensagens que se espalham em larga escala). O autor é um professor de 25 anos filiado ao PSOL.
        O partido vai usar muito a internet neste ano, segundo o veterano. "O [Barack] Obama ganhou por isso. A Dilma está ligada. Até voltou ao Twitter", diz o entusiasta das redes sociais. Quando quer desanuviar do frenético ambiente digital, ele pega papel e lápis. E começa a desenhar. "É uma forma de abstração, sem pretensão artística", diz Plínio, em sua versão analógica.

        Mauricio Stycer

        folha de são paulo
        Realidade paralela
        O Twitter ajuda programas ruins ou chatos a se tornarem muito melhores do que são na realidade
        Um dos meus programas preferidos no Carnaval é assistir à cobertura que a RedeTV! faz dos desfiles e bailes de Carnaval, em São Paulo e no Rio.
        A emissora costuma escalar para a frente de batalha subcelebridades sem traquejo para a função de reportagem, mas enorme cara de pau para fazer perguntas inconvenientes e dizer bobagens.
        Oscilando entre o deboche, o escracho, a piada e a infâmia, a cobertura da RedeTV! produz momentos de muito constrangimento, mas também de bastante diversão, em contraste com a monótona apresentação dos desfiles da escolas de samba que a Globo exibe no mesmo horário.
        Este ano, infelizmente, não consegui assistir ao evento que costuma ser o "grand finale" do Carnaval da emissora paulista: a transmissão de um baile gay no Rio. Tive o cuidado, porém, de gravar o programa, e o vi algumas horas depois. Para minha surpresa, não achei graça nenhuma.
        Só neste momento me dei conta de algo óbvio: já não consigo ver alguns programas de televisão sem trocar ideias e opiniões com outras pessoas no Twitter.
        No caso de atrações "trash", como a cobertura de Carnaval da RedeTV!, a experiência de ver sozinho explicitou como certos programas se tornam muito melhores do que são, na realidade, quando tenho a oportunidade de acompanhá-los na companhia de outros espectadores.
        Não estou sozinho nessa, como mostram os números divulgados pelo Twitter sobre o impacto que a transmissão da cerimônia de entrega do Oscar teve na rede social. Segundo a empresa, foram feitos 19,1 milhões de comentários durante o programa, que durou três horas e meia.
        Essas tuitadas foram postadas por cerca de 5 milhões de usuários e vistas, nos cálculos do Twitter, por 37 milhões de pessoas. Segundo dados do instituto Nielsen, 43 milhões de pessoas assistiram ao Oscar pela TV, nos Estados Unidos, a maior audiência de um programa não esportivo desde 2004, quando parte do país se fixou diante da TV para ver o último episódio de "Friends".
        O número de usuários ativos do Twitter no Brasil não é conhecido, mas está longe de ter a importância que, aparentemente, demonstra nos EUA. A lista dos programas de TV mais comentados na rede social frequentemente não tem relação alguma com os números de audiência apresentados pelo Ibope.
        Em outras palavras, por aqui, a popularidade de um determinado programa no Twitter está longe de ser sinônimo de um campeão de audiência, mas é um indicador dos humores de uma parcela, conectada, do público.
        A chamada experiência da "segunda tela" é mais animada durante eventos ao vivo, como shows ou partidas de futebol, mas também é bastante divertida durante a exibição de programas gravados que contam com grande audiência, como novelas, por exemplo.
        É curioso, neste sentido, observar que "Em Família", a atual novela das 21h, da Globo, o programa mais assistido da televisão brasileira, raramente aparece entre os dez tópicos mais comentados no Twitter.
        Os usuários da rede social parecem ter pouco a dizer, bem ou mal, sobre a trama de Manoel Carlos. Em números absolutos, como disse, eles representam pouco, mas podem ser um termômetro. Como gosta de falar Silvio de Abreu, "novela só tem sentido se pegar que nem catapora".

          Ferreira Gullar

          folha de são paulo
          Quisera ser um gato
          Alegra-me a confiança de um bicho que não fala a minha língua, que não sabe quem sou eu
          Fora os fantasmas que me acompanham e me fazem refletir sobre o sentido da vida, vivo eu, neste apartamento, com uma gatinha siamesa. Que é linda, não preciso dizer, mas, além disso, é especial: quase nunca mia e, quando soa a campainha da porta, se arranca. Nem eu sei onde ela se esconde.
          Ela é, portanto, muito diferente do gatinho que, antes dela, me fazia companhia e que se foi. Morreu de velho, já que nunca havia adoecido durante seus 16 anos de vida. Quando adoeceu, foi para morrer. Não preciso dizer que fiquei traumatizado e não quis mais saber de outro gato. Amigas e amigos me ofereceram um substituto para o meu gatinho, e eu respondia que amigo não se substitui.
          Os anos se passaram, a dor foi se apagando, até que um belo dia, minha amiga Adriana Calcanhotto chegou aqui em casa com um presente para mim: era uma gatinha siamesa. Faltou-me coragem para dizer não, mesmo porque a bichinha me encantou à primeira vista. Manteve-se arredia por algum tempo, mas logo me aceitou e nos tornamos amigos.
          Hoje me sinto praticamente lisonjeado pelo fato de que, por medo ou desconfiança, enquanto ela foge de todo mundo, me busca pela casa, sobe em minhas pernas e ali se deita, isso sem falar que, todas as noites, dorme em minha cama.
          Confia em mim, sabe que gosto dela e que pode contar comigo para o que der e vier. Essa confiança de um bicho que não fala a minha língua, que não sabe quem sou eu, mas só o que sou dentro desta casa, me alegra.
          E às vezes, olhando-a dormir na poltrona da sala, lembro que para ela a morte não existe, como existe para nós, gente. Ela é mortal, mas não sabe, logo é imortal. A morte, no caso dela, é apenas um acidente como outro qualquer, dormir, comer, brincar, correr; só existirá quando acontecer, sem que ela saiba o que está acontecendo.
          Neste ponto é que a invejo. Já pensou como a vida seria leve se não tivéssemos consciência de que ela acaba? Seria como viver para sempre, tal como ocorre com a gatinha.
          E enquanto penso essas tolices, ela --que se chama Gatinha-- se levanta, vem até mim e começa a se roçar nas minhas pernas, insistentemente. Só então me dou conta de que está pedindo que eu vá até a cozinha e ponha ração no seu prato. Ela não sabe que é mortal, mas sabe muito bem que necessita comer e que quem lhe providencia a comida sou eu.
          A verdade é que vivemos os dois neste apartamento cheio de livros, quadros e móbiles (feitos por mim, não por Calder, ou seja, falsos móbiles) e nos entendemos bem. A Gatinha é diferente do Gatinho, é de outra geração, a geração do pet shop. Por isso mesmo, ela não come carne nem peixe, só come ração.
          Consequentemente, ao contrário do Gatito, que subia na mesa para xeretar meu almoço, ela não está nem aí para comida de gente, só quer saber de ração. E tem mais: só pode ser aquela ração; se mudar, ela não come, cheira e vai embora.
          Aliás, isso criou um problema sério, quando a ração que Adriana trouxera terminou. Como não entendia de rações, ao ver que a dela acabara, fui a um pet shop aqui perto para comprar e, como não tinha a dela, decidi comprar qualquer outra, mas fui advertido pela dona da loja de que teria que ser da mesma ração.
          Fui a outra loja, bem mais longe, e lá também não tinha a tal ração. Pedi a meu neto que a comprasse num pet shop do Humaitá, bairro onde ele mora, e nada, lá também não havia. Desesperado, liguei para Adriana que, imediatamente, me fez chegar aqui em casa dois pacotes com a raríssima ração que a gatinha comia. Respirei, aliviado.
          Depois aprendi que para evitar que ela morra de fome, no caso de faltar sua ração exclusiva, há que ter em casa uma ração parecida e ir misturando à sua até que se acostume. Coisas de gatos modernos, muito diferentes daqueles que, outrora, vagabundeavam aqui pelos telhados e pela rua.
          Mas, se mudou a ração, não mudou a razão que me fez adotá-la como minha companheira de todas as horas, que me acorda, pontualmente, às seis horas da manhã, vindo cheirar meu rosto sob o lençol. E agora a vejo, ali, a poucos metros de mim, deitada na poltrona, livre da morte, nesta tarde de março, num determinado ponto da Via Láctea, onde moramos.