domingo, 22 de dezembro de 2013

Monica Bergamo

folha de são paulo

Fernanda Lima diz que já sofreu preconceito "por ser loira"

DE SÃO PAULO
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Eram 11h30 da manhã da última terça-feira. No apartamento de Fernanda Lima, 36, e Rodrigo Hilbert, 33, no Rio de Janeiro, predominava o cheiro do almoço dos gêmeos João e Francisco, 5.
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É que a cozinha é integrada à sala. São 110 m², sem suíte. A grande vantagem é a localização: avenida Delfim Moreira, de frente para o mar, no Leblon, bairro com fama de ter o metro quadrado mais caro do Brasil (R$ 21.900).

Musa da Copa

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Daniel Marenco/Folhapress
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A apresentadora Fernanda Lima na casa onde mora com os filhos gêmeos e o marido, Rodrigo Hilbert, no Leblon, zona sul do Rio
Com uma camiseta em que se lia a inscrição "animais são amigos", Hilbert, que apresenta um programa gastronômico no GNT, preparava a "boia". Por opção, o casal decidiu não contar com os serviços de babá. Há uma diarista "faz-tudo", e só.
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O espírito da decoração da sala, onde recebem amigos como Gloria Maria e Leo Jaime, segue a linha do luxo despojado. Há um jogo das célebres poltronas moles do designer brasileiro Sergio Rodrigues. Um quadro de Dudi Maia Rosa, outro de Felipe Cama. Não há tapetes. Na bancada abaixo do janelão, um órgão, um skate e meia dúzia de esteiras de ioga. Na mesa ao lado do sofá, estatuetas de Buda e de Ganesha (divindade hindu) e vela aromática.
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Então a porta da rua se abre e entra Fernanda Lima com os dois meninos. Veste tênis, jeans justo e camisa. Já havia ido ao supermercado. Depois das compras, levou as crianças para cortar cabelo -os três na mesma bicicleta.
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Ela sorri e pede ao repórter Morris Kachani um tempo para se maquiar. E avisa: "Não suporto ser fofinha. Tenho um humor superácido". Será? Minutos depois, é chegada a hora de comer. "Me-ri-to-cra-cia", diz ela a João e Francisco, enquanto os acomoda na bancada da cozinha. "Meritocracia", repetem. "Para comer chiclete...", pergunta a mãe. "Vai ter que almoçar!", completam os filhos.
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É o último dia de aula dos meninos. Na quarta-feira, partiriam todos para uma temporada de férias no Havaí. Tempo para meditar sobre as grandes transformações ocorridas em 2013, ano em que Fernanda "bombou" como nunca. Mas que também registrou a morte de Gisela Matta, 36, que coproduzia "Amor & Sexo", apresentado por Fernanda, e foi atropelada por um ônibus quando saía de bicicleta do apartamento do casal, depois do almoço de Páscoa.
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A atração está em sua sétima temporada na Globo. Registrou média de audiência de 16 pontos neste ano, com 46% de participação nos domicílios. Há duas semanas, contudo, a ex-modelo se projetou internacionalmente. Foi chamada de "deusa", "musa" e "anjo" por conta da apresentação no sorteio das chaves da Copa, na Costa do Sauipe, na Bahia. Usava sapatos Louboutin e tubinho Hervé Leger com decote generoso. Brilhava ao lado do marido.
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Fernanda se diz surpresa com a repercussão. "O Rodrigo foi tão bem quanto eu, não entendo", afirma, referindo-se ao fato de só ela ter recebido elogios. "Um dia depois do sorteio, passei três horas chorando na cama. Uma tristeza por estar longe dos meninos. Enquanto o mundo me exaltava, eu tinha que estar bem para gravar o programa ['Amor & Sexo'] na TV."
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Quanto à polêmica sobre racismo desencadeada pela informação de que a Fifa teria trocado Camila Pitanga e Lázaro Ramos por ela e Hilbert como apresentadores, Fernanda diz: "Eu tinha sido chamada há seis meses. O que sei é que a Globo apresentou um casting para a Fifa, que nos escolheu. Já havíamos feito a escolha do emblema do Brasil na África do Sul, em 2010".
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"Quem me conhece sabe como sou. Prefiro deixar passar, o tempo fala por si. Tenho um monte de amigos e afilhados negros", afirma.
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"Mas é óbvio que há preconceito de cor no Brasil", segue. "Aliás, eu também já fui vítima de preconceito. Por ser modelo, por ser loira." Segundo ela, o teste do sofá (em que diretores poderosos seduzem meninas jovens que aspiram a um trabalho) não é mito -acontece mesmo. "Sempre vi tudo isso. E sempre preferi o caminho mais longo."
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A conversa se move para "Amor & Sexo", que fala sobre os dois temas em horário nobre na TV. "É difícil escrever esse programa, porque nele as pessoas não podem se ofender, é uma atração para a família."
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*Para ela,* a sexualidade do brasileiro, na prática, é "mixa". "A liberdade do corpo, a dança, o funk, afloram nossa sensualidade. Mas isso é aparência. Na cama, em si, é diferente. O sentir profundo está muito precário."
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"A descoberta do prazer da mulher é muito recente. Ela está à vontade e até avaliando os homens, mas pode descobrir muito mais coisas." Quanto ao homem, "ele diz que pega, que puxa o cabelo, que come todas -tudo no blá-blá-blá, a gente sabe da performance do vizinho".
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E como seria o amor e o sexo na vida de Fernanda? "Graças a Deus consegui conciliar as duas coisas", ela diz. "Mas claro que já fiz muitas loucuras." De que tipo? "Dentro de um parâmetro normal. Vamos dizer, mais quantitativo e menos qualitativo. Do tipo experimentar sexo na primeira noite", responde. "Não sou tão moderna quanto pareço. Sou bastante conservadora em alguns sentidos." Diz que jamais assistiu a filmes pornográficos. "Nunca me serviram de combustível."
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*Na adolescência,* ela se achava feia. Hoje se considera bonita "pelo conjunto da obra". Paqueras acontecem "com certa frequência". "Mais do convencional, aquela cantada 'de obra'. Quando é com educação e inteligência, a gente fica envaidecida."
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Ela afirma que nunca usou drogas e não bebe. "Não gosto de sair do controle."
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Com idas e vindas, Fernanda e Rodrigo começaram a namorar em 2002. "Temos uma história bonita." Em um período de crise, ela se envolveu com Ricardo Waddington, que hoje dirige seu programa. "Transformamos esse amor em uma relação de amizade e parceria", diz. Waddington se derrete: "Ela será certamente uma das principais comunicadoras da Globo nos próximos anos".
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*Profissionalmente,* o ano de 2014 começa para Fernanda no dia 13 de janeiro, quando apresentará o Bola de Ouro da Fifa, evento que elegerá o melhor jogador de 2013, na Suíça. Planeja também abrir uma filial, no shopping Iguatemi, do restaurante Maní, do qual é sócia em SP.
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Os planos da Globo ainda são incertos. Uma nova temporada de "Amor & Sexo", um outro programa vespertino e a participação na programação da Copa estão no horizonte. Nada mal para a ex-modelo gaúcha que, há sete anos, foi achincalhada como protagonista de "Bang Bang", novela das sete que patinou na emissora carioca, também dirigida por Waddington.
mônica bergamo
Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Alexandre Vidal Porto

folha de são paulo

Presente de Natal

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Cresci com a imagem de que, na Índia, as pessoas eram pacíficas e tolerantes. Um país de gurus, com povo espiritualizado, que não matava vacas nem cometia crimes. Provavelmente, compus esse estereótipo por causa de Gandhi, dos iogues e do retiro indiano dos Beatles.
Foi só no final da adolescência que me dei conta de que a Índia era um país mais complexo que isso. A Índia –a exemplo de várias outras democracias, como a nossa própria– é cenário de graves violações de direitos humanos. A situação da mulher é difícil, e o antigo sistema de castas cria dificuldades adicionais. Embora tenha havido algum progresso, na semana passada a Índia retrocedeu feiamente.
A Suprema Corte Indiana criminalizou os atos homossexuais no país. Simples assim. Não se sabe quanto tempo essa decisão judicial levará para ser revertida. Sem dúvida, será. Mas, em um país como a Índia, é esdrúxulo e preocupante que se tome uma decisão como essa, que torna ilegal um direito individual tão básico como a expressão física do amor e do sentimento.
Há alguns meses, a Rússia tinha feito coisa análoga, ao proibir a expressão da homossexualidade. Autoridades, artistas e atletas de vários países comprometidos com a proteção dos direitos humanos manifestaram-se contra a medida.
Apesar dos protestos, a repressão continua. Para quem quiser vê-la, há, na internet, uma extensa coleção de imagens de homossexuais russos sendo brutalizados.
Nesta semana, o Brasil se aproximou dessa turma. Nosso Congresso inviabilizou o exame do PLC 122, projeto que criminalizava a homofobia. A base governista, que enche a boca para falar de democracia, ficou do lado do fundamentalismo religioso. Deixou os gays à míngua.
O nível de qualidade de uma democracia está vinculado à proteção dos direitos das minorias. Democracia só é boa quando respeita quem é diferente.
Ao longo da história, os homossexuais estiveram entre os grupos mais vulneráveis aos crimes de ódio. Foi assim na Inquisição espanhola e na Alemanha nazista, que, juntas, mandaram para as fogueiras e campos de concentração centenas de milhares de homossexuais.
Se quisermos ter uma democracia de verdade, os direitos dos LGBT devem ser garantidos e ampliados. A intolerância contra as minorias sexuais com base em argumentos religiosos é totalitária. O homossexual e o religioso têm igual direito a respeito e proteção. A defesa de princípios religiosos pode constituir doutrina de fé, mas não ataque ou discurso de ódio. Nos países em que a proteção aos homossexuais mais progrediu, o ativismo contou com apoio claro de seus presidentes.
Nelson Mandela, Cristina Kirchner e Barack Obama, entre outros, embora sujeitos a pressões políticas fundamentalistas e ao escrutínio das urnas, tiveram a grandeza e a coragem de emprestar apoio pessoal a uma minoria que, injusta e ilegalmente, sofre violência física e psicológica todos os dias. Como brasileiro, eu gostaria que minha presidenta fizesse o mesmo.
Seria um bom presente de Natal.
ALEXANDRE VIDAL PORTO é escritor e diplomata. Este artigo reflete apenas as opiniões do autor.

Uganda punirá gays com prisão perpétua

folha de são paulo
Uganda punirá gays com prisão perpétua
Minissaias também são banidas no país
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIASO Parlamento de Uganda aprovou ontem uma lei que pune alguns atos homossexuais com prisão perpétua. A lei prevê punições a atos de "homossexualidade com agravantes" nos quais se enquadram estupros, relações homossexuais com menores e incapacitados ou quando o acusado é soropositivo.
O projeto proposto ao Parlamento em 2009 previa inicialmente a pena de morte para alguns atos homossexuais. A revisão do texto suprimiu a pena de morte e agora seguirá para a sanção do presidente Yoweri Museveni.
A homossexualidade já era proibida em Uganda, mas a nova lei também bane a "promoção" de direitos dos gays e pune quem "financia", "patrocina" ou "estimula" a homossexualidade.
O deputado David Bahati, autor do projeto, afirmou que o "voto contra o demônio é uma vitória para Uganda". "Estou feliz de que o Parlamento tenha votado contra o mal", disse.
O projeto estava parado devido às críticas recebidas na comunidade internacional o que levou à resistência do Executivo, que não queria criar desavenças com doadores ocidentais. O presidente dos EUA, Barack Obama, chamou o projeto de "odioso".
No entanto, o Parlamento também estava sob pressão das igrejas evangélicas para aprovar a lei.
"Estou oficialmente na ilegalidade", declarou após a votação o militante homossexual Frank Mugisha.
A homossexualidade é ilegal em 37 dos 54 países do continente africano.
MINISSAIA
Os parlamentares também aprovaram um projeto de lei controverso que proíbe o uso de minissaias no país. A legislação antipornografia, proíbe ainda conteúdos notoriamente sexuais em músicas e vídeos.
A nova legislação quer banir materiais que mostram seios, coxas e nádegas ou que mostrem qualquer comportamento erótico que possa causar excitação sexual.
Se a nova lei for sancionada pelo presidente deverá prejudicar principalmente os tabloides do país.

    Personagem secundário da história é tema de Lucchesi - EVANDO NASCIMENTO

    folha de são paulo
    CRÍTICA ROMANCE
    ESPECIAL PARA A FOLHA"O Bibliotecário do Imperador" resgata a biografia de um personagem secundário da história do Brasil, Inácio Raposo, que morreu atropelado por trem no Rio de Janeiro, no ano seguinte ao da Proclamação da República, em 12 de maio de 1890.
    Não sobraram muitos vestígios da vida daquele que continuou sendo o fiel guardião da biblioteca de dom Pedro 2º quando este já se encontrava exilado.
    Por esse motivo, o livro de Marco Lucchesi se transforma num romance policial que busca lançar luz sobre a figura do protagonista, investigando as razões da morte.
    A narrativa é conduzida por um duplo do autor, tirando proveito do fato de o próprio Lucchesi ser um grande frequentador da Biblioteca Nacional, onde já organizou exposições a partir do acervo.
    Está-se diante de um espaço ficcional inspirado em Jorge Luis Borges. Tal como no conto "A Biblioteca de Babel" do escritor argentino, o próprio universo parece se converter numa vasta biblioteca, onde o leitor-investigador Lucchesi ama se perder.
    E, para uma figura marginal como Inácio Raposo, nada mais adequado do que um relato a partir das margens. Diz o narrador: "Pensava num romance de realidades reflexas, fora do centro e da moldura".
    Como já se percebe pela orelha escrita por Alberto Mussa, é impossível resumir a novela sem que se perca a força da trama e sem que se revele o mistério do atropelamento.
    Misturando de modo refinado elementos da arte de Poe, Machado, Pirandello e, sobretudo, Borges, o autor se alinha a um grupo de escritores que fazem crer que tudo existe para acabar em livro.
    Após um século de ficções borgianas, não seria o momento de encontrar o fio narrativo que possa levar para fora das estantes labirínticas da biblioteca-universo?
    O BILIOTECÁRIO DO IMPERADOR
    AUTOR Marco Lucchesi
    EDITORA Biblioteca Azul
    QUANTO R$ 29,90 (112 págs.)
    AVALIAÇÃO ótimo

      Autor faz bom retrato cômico da humanidade - Alcir Pécora

      folha de são paulo
      CRÍTICA ROMANCE
      Autor faz bom retrato cômico da humanidade
      'A Cidade, o Inquisidor e os Ordinários', de Carlos de Brito e Mello, usa farsa como opção inteligente ao romanesco
      O andamento narrativo opera por redundância e acumulação até que os papéis entrem em colapso
      ALCIR PÉCORAESPECIAL PARA A FOLHAEm "A Cidade, o Inquisidor e os Ordinários", novo livro do escritor mineiro Carlos de Brito e Mello, boa parte da graça está em acertar a leitura com o gênero encenado por ele: a farsa.
      No seu modelo medieval mais conhecido, a farsa é uma composição teatral breve, cômica, usada para preencher os intervalos das representações sacras nas festas religiosas. Daí o nome "farsa", do latim "farcire", isto é, "encher", "rechear".
      Como aqui não se trata de teatro e tampouco de preencher o intervalo de uma função religiosa, a forma apresenta-se como alternativa inteligente à construção romanesca e, ademais, como recurso para um andamento narrativo prioritariamente conduzido pelo caráter bufão e caricato de personagens e situações bem circunscritas.
      No caso, o enredo se dá em torno das ações de um autoproclamado Inquisidor de uma cidade grande,mas não moderna, nem interessante, cujas pistas mais óbvias referem Belo Horizonte, mas potencialmente servem a qualquer outra localidade.
      SEM DEUS
      Perdida a fé em Deus e na grandeza humana, o Inquisidor cuida de fazer dependurar, à vista de todos, o corpanzil sem asseio da gente "abnorme", vale dizer, aquela que já perdeu o sentido das regras do convívio social, enfronhando-se em casa, num processo lento e implacável de apatia e desdém por si e pelo mundo.
      Num mundo católico, tratar-se-ia do pecado da acídia, mas na urbe do Inquisidor já não há traços da Providência.
      Talvez se pudesse falar em depressão ou bipolaridade epidêmicas, não fosse a farsa favorecer a ridicularização da matéria, que penaliza a vista com as feiuras e os desmazelos do corpo, ainda que certamente extensivos ao espírito.
      Por meio dessa cena básica, acentua-se não propriamente a servidão voluntária dos habitantes ao Inquisidor, pois a vontade já está perdida, mas sim a mansidão disposta ao castigo, o alívio pela autoridade que se impõe na anomia, o vestígio de força dos estereótipos.
      O andamento narrativo, muito afrouxado pelos verbos no presente (e não no pretérito perfeito), opera por redundância e acumulação até o ponto em que os papéis entram em colapso e insinuam mudanças tímidas.
      Menos mudanças que alternância de papéis: quem pune agora apanha; quem é amado agora dispensa o amor; quem sussurra disfarçado agora fala abertamente; algum dependurado mudo quer berrar etc.
      SEM SAÍDA
      A amplificação ridícula e o nonsense de uma forma de vida coletiva definitivamente esgarçada, que oscila entre a nostalgia alucinada da ordem (sem qualquer fundamento real) e o abandono à extinção (desde que não dê nenhum trabalho), enquadra a farsa e não permite vislumbrar saída.
      Aqui, entretanto, o melhor para o romance seria resistir à tentação alegórica a que se entregam contracapa e orelha ("retrato da subserviência de muitos diante do poder", "desmoronamento da sociedade em nome da vigilância", "a moral e os bons costumes estão satirizados").
      Não é a lição moral genérica e denuncista que torna original o romance, mas, antes, a literalidade do retrato cômico que fere o ridículo.
      A CIDADE, O INQUISIDOR E OS ORDINÁRIOS
      AUTOR Carlos de Brito e Mello
      EDITORA Companhia das Letras
      QUANTO R$ 49,50 (472 págs.)
      AVALIAÇÃO ótimo

        Xico Sá

        folha de são paulo
        O cego com ingresso
        Gostemos, pelo menos neste fim de ano, mais das nossas mulheres do que dos futebolismos
        Amigo torcedor, amigo secador, o homem não passa de um cego que paga ingresso. Assim é a vida, confesso. Repare nos fanáticos pelo Fluminense, não conseguem entender que seria melhor se fosse de outro jeito. Até Nelson Rodrigues confessa: estamos errados por estar certos.
        Ele sabe que, pelo conjunto da obra, o Flu se equivoca. O tio Nelson sabe que a derrota pode trazer coisas bonitas. Difícil e errado é fazer como o infeliz vizinho carioca que grita na Miguel Lemos, Copacabana: "Time grande não cai, caraca!"
        Azar dos torcedores do Flu que só conhecem a derrota entapetada. Nunca souberam que viver é beijar o rés-do-chão e viver de verdade.
        Não sabem, assim como os atleticanos, que a vida passa do ponto, para lá de Marrakech, essas enganações. Donde digo, com muita vontade: gostemos, pelo menos neste fim de ano, mais das mulheres que dos futebolismos. No que repito uma assuntada crônica sobre o assunto.
        O que aconteceria se o homem, aqui vale o homem normal, a média dos homens --aquele cara simples, tarado por mulher, cerveja e futebol-- gostasse tanto da sua amada como gosta do seu time do peito?
        Seria uma revolução. Mudaria tudo. Tudo mesmo. Repare:
        Para começar, o macho jamais deixaria a sua fêmea. Nunca, never. Homem que é homem muda de sexo, mas não muda de time. Mesmo quando ela se sentisse a pior das criaturas, por baixo mesmo, mesmo quando ela blasfemasse aos céus e se queixasse ao espelho que estava gorda e a autoestima despencara.
        Se o homem gostasse da mulher pelo menos 50% como ama o seu time, nem bola nas costas, uma traição, como uma derrota incompreensível, seria motivo para o fim do relacionamento. No futebol, assim como no amor, tudo seria perdoável.
        Se o macho gostasse da cria da sua costela como quem aprecia um Flu, um Fla, um São Paulo, um Peixe, um Palmeiras, um Bahia, um Santa Cruz, um Galo, um Grêmio, arranjaria tempo para ir com ela ao cinema ou jantar fora duas vezes por semana --no mínimo empataria com o tempo dedicado ao clube.
        Apreciasse sua mulher como é chegado ao futebol, o sujeito trocaria pelo menos uma mesa-redonda na TV por uma conversa com a dama. Em vez da crise no Vasco, tentaria entender a derrota que virou seu casamento.
        Se o Cruzeiro anda tão bem, brilha na dianteira do firmamento, por que não melhorar também, amigo, a posição na tabela no jogo em casa? Deixar tudo mais celeste, o amor azulzinho em um céu de brigadeiro?
        Não sejamos exagerados. Bastaria dedicar 30% do que se devota ao time do peito. Teríamos uma mudança radical na vida dos casais.
        Feliz ano a todos, vou tentar aqui uma prosódia. Tipo como vos amo. Aqui me despeço e só volto em 2014, ano da Copa do Mundo e de minhas besteirinhas aldeotas.

          José Simão

          folha de são paulo
          Ueba! Mamãe Noel Sapeca!
          E olha esse anúncio: 'Peru Desesperado! Procuro fantasia de cachorro beagle para usar no Natal'
          Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Atenção! Vai viajar nesse fim de ano? O Fluminense lançou uma companhia aérea: FLYMINENSE!. O avião mais seguro do mundo! Não cai nunca! E os aeroportos? A greve está suspensa. Mas os atrasos estão mantidos! Rarará!
          E olha esse anúncio: "Peru Desesperado! Procuro fantasia de cachorro beagle para usar no Natal. URGENTE!". Aí o peru se fantasia de beagle e a Luisa Mell resgata ele do forno!
          E acabo de receber o melhor kit de Natal: um CD do Luan Santana mais um litro de álcool, mais uma caixa de fósforos. BUM! Kit bomba! Kit Al Qaeda!
          E adorei a charge do Marco Aurélio com os três Reis Magos: "Belchior, quem veio no lugar do Baltazar?". "O Barbosa!" O Barbosa, não! Tadinho do menino Jesus! Rarará! E como todo ano, o meu cartão de Natal pro Bolsonaro: "Meus votos são para que você nunca mais tenha votos".
          E as retrospectivas? Ver tudo aquilo de novo? "Retrospectiva 2013! Só engordei!". Não é sempre assim? O que aconteceu em 2013? ENGORDEI! Rarará! "Retrospectiva 2013! ESQUECI!". É melhor esquecer mesmo! E a retrospectiva do chargista Luscar: "2013! Melhor deixar quieto". Isso! "Retrospectiva 2013! Melhor Deixar Quieto!".
          Detesto retrospectiva! Retrospectiva é olhar a vida pelo retrovisor do carro! 2013 foi o ano do P: Protesto, Paulista, Propina, Papuda e Putaria! E foi o ano em que as bibas mandaram recados pro Feliciano: "Feliciano, quem foi o boy que partiu teu coração?". "Feliciano, não me cure, eu não tenho roupa pra ser hétero". Rarará!
          Foi o ano do Gigante. O Gigante acordou e quebrou tudo! Os Black Brócolis! Foi o ano do spray de pimenta. E do antídoto: o vinagre. Foi o ano do Libertê, Egalitê, Vinagrê e Beyoncê! Rarará!
          Foi o ano em que a avenida Paulista virou fetiche! Bastava juntar dez pessoas que já gritavam: "Vamos pra Paulista! Vamos pra Paulista".
          E olha a fantasia de Mamãe Noel que eu achei num site erótico: "Mamãe Noel Pimenta Quente: um gorro, uma calcinha fio dental ou você prefere aquele velho barbudo?". Rarará! E o cartaz na padaria do bairro: "Nesse ano, deixe o seu peru em nossas mãos". Deixo ou não deixo? Rarará!
          Nóis sofre, mas nóis goza!
          Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!