domingo, 26 de janeiro de 2014

Marcelo Gleiser

folha de são paulo

Quando a ciência supera a ficção

Semana passada, algo de extraordinário ocorreu. Após passar 31 meses hibernado, enquanto cruzava o espaço a uma distância de 800 milhões de quilômetros do Sol, a sonda Rosetta, da Agência Espacial Europeia, enviou uma mensagem para a central de controle vinculada à missão: "Olá, mundo!"
Rosetta acordou e agora se aproxima do Sol e de seu alvo, o cometa 67P/Churyamov-Gerasimenko. Se tudo correr bem, no dia 11 de Novembro, Rosetta enviará a sonda Philae, que pesa apenas 100 kg, para pousar na superfície do cometa. Será o primeiro pouso de um objeto criado por humanos num cometa.
O pouso em si será incrivelmente difícil, já que a gravidade do cometa, que tem apenas quatro quilômetros de diâmetro, é praticamente nula. Philae terá que usar uma combinação de arpões e garras capazes de se fixar no gelo para se agarrar ao cometa. Será mais como laçar um touro do que pousar na Lua.
Antes disso, Rosetta acompanhará o cometa enquanto ele vai se aproximando do Sol. E aqui a coisa fica interessante, como os leitores que viram o filme Armageddon devem se lembrar: à medida que o cometa vai se aproximando do Sol, sua superfície vai esquentando e seu material começa a sublimar. Com isso, vemos daqui a calda do cometa, que, como os cabelos de uma pessoa, sempre aponta na direção do vento. Neste caso, no da radiação proveniente do Sol.
Cometas são bolas de gelo e poeira, restos do material que formou o Sol e os planetas, 4,6 bilhões de anos atrás. Encontram-se na periferia do Sistema Solar, com tamanhos variando de alguns metros a aproximadamente 10 km de diâmetro. Por estarem longe e isolados, guardam a memória da origem do Sistema Solar: estudá-los significa também estudar a nossa origem.
A sonda Philae, armada de uma série de instrumentos científicos, mandará imagens da superfície do cometa e de sua vizinhança. Estudará, também, a composição química da superfície do cometa, buscando, em particular, por material orgânico. Usando uma broca, chegará 23 cm abaixo da superfície para coletar amostras do solo.
Isso tudo será feito remotamente, quando a sonda estiver a centenas de milhões de quilômetros da Terra. Imagine pilotar um robô a essa distância...
Existem dois mistérios profundamente interligados com cometas: a origem da água na Terra e a própria origem da vida. Segundo algumas teorias, uma fração significativa da água na Terra veio de cometas e proto-planetas que caíram aqui durante os primeiros 500 milhões de existência do Sistema Solar. Ninguém sabe de onde veio a água aqui, e esses estudos serão úteis para elucidar a questão.
Também sabemos que cometas têm matéria orgânica, isso é, relacionada com a vida, incluindo vários aminoácidos. Será interessante verificar se o cometa 67P/Churyamov-Gerasimenko tem aminoácidos e se suas propriedade são como as dos aminoácidos terrestres. Se cometas caíram aqui no passado remoto, é possível que tenham inseminado a Terra com os materiais que geraram a vida. Vivemos numa época em que uma sonda criada por nós pode pousar nesse objeto tão distante e inóspito. É nessas horas que a ciência supera a ficção. 

Denise Fraga

folha de são paulo

Multa divina

Tenho saudades de quando meu nécessaire se resumia a um sabonete, uma escova de dente, uma pasta, um xampu, um Neutrox e um Avanço. Meu nécessaire engordou tremendamente durante esta minha vida de meia-idade. Engordou tanto que acaba de gerar um filhotinho.
O filhotinho já nasceu crescido pois, a cada ano que passa, meu número de cremes e afins cresce em progressão geométrica. Já passei revista na tropa. Coloquei-os enfileirados em cima da pia e encarei um a um com seriedade: "Fala a verdade: eu preciso de você?" Pois a verdade nua e crua é que sim. Sim!
Ilustração Zé Vicente
Inacreditavelmente, eu preciso de tudo o que levo no meu nécessaire. Fui colecionando os conselhos de minha dermatologista, do meu médico, das minhas amigas e hoje me encontro a léguas de distância da pequena bolsinha de bolinha de minha juventude.
Já tentei algumas vezes fazer o teste de passar uma semana sem usar nada além do básico, mas aos primeiros sinais da possível mulher das cavernas que talvez eu me torne nesse curto espaço de tempo, retrocedo e ainda castigo nas doses.
Aumentei meu nécessaire, aumentei meu necessário e, como os mililitros, o peso de minha mala também fugiu de meu controle. Acabo de passar um carão em minha última viagem: precisei pagar excesso de bagagem.
Acho meio vergonhoso você entrar num avião com mais peso do que o permitido, mas também acho uma vergonha cobrarem por isso. Excesso é excesso. Se é excesso, não pode embarcar porque não levanta voo. Ponto!
A meu ver, você teria que ficar ali, esperando na fila do check-in por passageiros minimalistas, torcendo por uma maioria masculina no avião, negociando até que seus quilos a mais se encaixassem nos quilos a menos das bagagens alheias.
E se todos tiverem excesso? Me dá uma agonia pensar num avião decolando cambaleante pelas nuvens com o excesso de peso que acaba de engordar o caixa da empresa. Mas sei que isso é mesmo só um castigo monetário, uma espécie de multa divina, intermediada pela ganância de uma companhia aérea, por inventarmos precisar de tanta coisa pra viver. 

João Donato relembra produção do disco "Quem É Quem"

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João Donato relembra produção do disco "Quem É Quem"

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Depois de 12 anos nos Estados Unidos, desembarquei em dezembro de 1972 no Rio de Janeiro, com 40º C à sombra. Que maravilha! Deixara para trás uma Nova York com -5º C e um casamento em que não havia mais entendimento.
Ficaram também minha filha Jodel e um disco inacabado ("Donato - Arranged and Conducted by Deodato"), porque era véspera de Natal e o estúdio fecharia para férias coletivas, retornando em janeiro. Para mim não dava mais, aquela neve e o coração gelado.
No Brasil, logo me enturmei com antigos amigos, Tom Jobim, João Gilberto, e conheci os baianos Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa.
Marcos Valle, que andou pelos EUA divulgando a canção "Samba de Verão", me levou para conhecer o Milton Miranda, à época diretor musical da gravadora Odeon.
Reprodução
Carta de 1973 em que João Donato descreve o disco "Quem É Quem" a João Gilberto
Carta de 1973 em que João Donato descreve o disco "Quem É Quem" a João Gilberto
Era um tempo em que se ouvia MPB na rádio e as gravadoras não economizavam. Por sugestão do cantor Agostinho dos Santos, ficou combinado que eu gravaria o meu primeiro disco com letras, chamado "Quem É Quem".
Recordo-me que foi um corre-corre para "letrar" as minhas canções: acionamos Dorival Caymmi, Paulo César Pinheiro, Lysias Enio (meu irmão), Geraldinho Carneiro, João Carlos Pádua; o próprio Marcos Valle, o produtor do disco, escreveu uma letra. Como eu nunca tinha feito música com letra, decidi não trabalhar em conjunto com os letristas, como faziam Tom e Vinicius. Só distribuí as melodias.
Na confusão, acabei dando a mesma música para vários compositores. Apareceram algumas letras diferentes para "Até quem Sabe", inclusive uma do Caymmi, que achou a do Lysias melhor. A canção tornou-se um dos meus maiores sucessos. Já "Terremoto", música que compus em Los Angeles durante um abalo sísmico, ganhou letra do Paulo César.
Para complicar, a rapaziada da gravadora inventou que eu cantaria o disco inteiro. "The Frog", que ainda não tinha virado "A Rã", com letra de Caetano, era na base do "corogodó, gazainguê, guiringuidim". Eu estava gripado e ficaram gravadas as pausas de respiração com a minha voz anasalada. O pessoal do estúdio adorou.
Aquelas gaguejadas em "Até quem Sabe" também foram naturais. Um ator de novelas veio me perguntar como eu consegui interpretar de forma tão personalizada. "Rapaz, aquilo foi uma garrafa de uísque que eu tomei", expliquei.
"Ahiê", com letra do Paulo César, foi uma brincadeira que surgiu na casa do Lysias. A gente gravava e passava para outra fita. No final de uma dessas gravações, eu mandava uns recados para os amigos. "Silvio, aquela poeira, a poeira da cachoeira, não vai esquecer." "Dá um abraço no Celso, diz para ele comprar cerveja que tá muito ruim aquele bar, aquele bar é uma vergonha." "E se esquecer o que o pai D'Angola te falou, já sabe: ele tá te esperando." Na hora da gravação, eu improvisei e o pessoal delirou. Até hoje eu tenho que dar explicações para as frases soltas.
Caprichamos nos arranjos. Convidamos os melhores: Laércio de Freitas, Dori Caymmi, Ian Guest e o maestro Gaya. Era uma fartura de músicos no estúdio, craques como Hélio Delmiro, Lula Nascimento, Naná Vasconcelos, Bebeto, Novelli, Mauricio Einhorn. Até Nana Caymmi deu uma canja. Fiquei tão entusiasmado com o resultado que escrevi (mas não mandei) uma carta para o João Gilberto relatando as minhas impressões.
Quando o primeiro lote chegou da fábrica, fui até a gravadora. "Como vai ser a festa, o coquetel, a entrevista para a imprensa?", perguntei. "O seu disco não vai entrar neste esquema", respondeu o departamento de divulgação.
Saí de lá atônito e encontrei o meu amigo J. Canseira, compositor de samba, para tomar umas geladas. Desabafei com ele, disse que meu disco não teria lançamento. Ele me deu um conselho que segui à risca. "Sobe no outeiro da igreja da Glória e lança o seu disco. Não esquece de chamar a imprensa."
Arremessei uma caixa de discos do alto do morro, o pessoal das redondezas recolhendo. A jornalista Paula Saldanha fez uma reportagem para a TV. Mas o disco não atingiu grandes vendagens.
No começo dos anos 2000, ele foi remasterizado e comercializado em CD. A revista "Rolling Stone" o classificou como um dos cem melhores discos brasileiros de todos os tempos, lista que também incluiu um instrumental que fiz nos EUA, "A Bad Donato".
Faz 40 anos que gravei "Quem É Quem" e nunca o lancei com um show. Dias 27 e 28 de fevereiro, no Sesc Pinheiros, vou finalmente viver essa alegria.
JOÃO DONATO, 79, é músico. Nos dias 27 e 28 de fevereiro, apresenta as canções do disco "Quem É Quem" (1973) no Sesc Pinheiros. 

Livro detalha a descoberta da estrutura do DNA - MAYANA ZATZ

folha de são paulo

Livro detalha a descoberta da estrutura do DNA

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RESUMO A estrutura do DNA é hoje figura tão banal que não se pensa quanto descobri-la, em 1953, custou aos pesquisadores. James Watson, um deles, conta em "A Dupla Hélice" (1968), que só agora chega ao Brasil, bastidores do feito que mudou a genética, e reconhece a contribuição, então menosprezada, da cientista Rosalind Franklin.
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Foi um momento histórico: em 2003, no simpósio organizado pela Human Genome Organization em Cancún, no México, Francis Collins anunciava o fim do sequenciamento do Projeto Genoma Humano, iniciado em 1990. Na mesma ocasião, celebravam-se os 50 anos da descoberta da dupla hélice do DNA por James Watson e Francis Crick. Havia no duplo festejo mais do que coincidência: sem o conhecimento da estrutura do DNA, o Projeto Genoma Humano, que hoje revoluciona a medicina, teria sido impossível.
Aqueles que, como eu, conheceram, desde a primeira aula de biologia, o DNA já representado sob a forma de dupla hélice talvez não imaginem o esforço dos pesquisadores para concluir que somente essa estrutura poderia explicar como as informações contidas no DNA eram transmitidas, tão perfeitamente, de geração para geração. Não à toa, quando o grupo chegou ao modelo, após várias tentativas frustradas, Francis Crick (1916-2004) irrompeu no Eagle Pub, bar próximo ao laboratório de Cambridge onde os cientistas trabalhavam, dizendo: "Descobrimos o segredo da vida".
Omikron/Science Photo Library
Francis Crick (à esq.) e James Watson, dupla que descobriu a estrutura do DNA
Francis Crick (à esq.) e James Watson, dupla que descobriu a estrutura do DNA
Não houve exagero na frase com que o biólogo, biofísico e neurocientista britânico interrompeu o almoço dos professores que estavam no bar naquele 28 de fevereiro de 1953, fato registrado por James Watson em "A Dupla Hélice" [trad. Rachel Botelho, Zahar, R$ 39,90, 216 págs.]. No livro de 1968, que em fevereiro ganha sua primeira edição no Brasil, o biólogo molecular detalha as peripécias, as fofocas e o envolvimento do grupo que esteve à procura do segredo que revolucionou a genética.
"A Dupla Hélice" é narrado do ponto de vista de alguém que hoje é visto como uma figura muito controvertida. Nascido em 1928, o norte-americano James Watson mudou-se para a Inglaterra aos 22 anos e, pouco depois, integrava a equipe de Crick em Cambridge -trabalhou com o britânico entre 1951 e 1953 e, com ele e com o fisiologista neozelandês Maurice Wilkins (1916-2004), levaria o Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina em 1962, pelo conjunto das descobertas relacionadas aos ácidos nucleicos e à transmissão de material genético.
Foi só aos 40 anos, porém, que Watson resolveu escrever "A Dupla Hélice". No seu relato, Crick é descrito como muito falante e ruidoso, o que devia fugir aos padrões britânicos. Além disso, conta as brigas entre Maurice Wilkins e a biofísica Rosalind Franklin (1920-58). Wilkins teimava em considerá-la como sua assistente -algo que Franklin, uma cientista que pensava de modo independente, não aceitava. E com razão: é hoje um consenso que, não tivesse morrido precocemente de câncer, em 1958, ela dividiria o Nobel com o trio.
XAMPU
A importância fundamental do trabalho de Rosalind Franklin é hoje inconteste: as imagens de cristalografia desenvolvidas por ela -as quais, diz-se, foram utilizadas por Wilkins sem autorização da pesquisadora- foram de fato essenciais para chegar a essa figura geométrica tão assimilada a ponto de ilustrar até anúncios de xampu, como lembra muito bem o biólogo Fernando Reinach na apresentação à edição brasileira de "A Dupla Hélice".
(A banalização da forma não significa, porém, a do entendimento: recordo-me de uma senhora, que escolhia esse produto no supermercado, ter me dito que "só comprava xampu com DNA". Fazia questão de ver a dupla hélice estampada no invólucro. Na ocasião, perguntei, curiosa, por quê. Ela explicou que aquela hélice é que se enrolava nos fios, deixando os cabelos brilhantes e sedosos.)
Acervo pessoal-2008
A cientista Mayana Zatz na porta do Eagle Pub, bar próximo ao laboratório de Cambridge (Inglaterra) em que James Watson e Francis Crick trabalhavam
A cientista Mayana Zatz na porta do Eagle Pub, bar próximo ao laboratório de Cambridge (Inglaterra) em que James Watson e Francis Crick trabalhavam
Mais incrível do que o ficcional poder de embelezar as madeixas, porém, é saber que o DNA presente em uma única célula -resultante da união do óvulo e do espermatozoide, no caso de organismos de reprodução sexuada- carrega todas as informações para o desenvolvimento de um organismo, seja ele uma bactéria, uma planta, um animal ou um ser humano.
Ele está compactado dentro do núcleo da célula de maneira tão extraordinária que, se pudéssemos desenrolá-lo, veríamos que pode alcançar cerca de 2 metros de comprimento. Se "esticássemos"o DNA de todas as células de uma única pessoa, a fita teria um comprimento de 140 vezes a distância da Terra ao Sol.
Só muito recentemente, em 2012, foi possível enxergá-lo com microscopia eletrônica, com um aumento de pelo menos 300 mil vezes. Imagine-se a dificuldade dos cientistas em entender como ele se organizava, numa época que desconhecia essa tecnologia.
Além de permitir entender como herdamos de nossos pais os genes responsáveis por nossas características, a descoberta da dupla hélice nos deu a possibilidade de estudar as doenças genéticas e, além disso, compreender como alterações ou erros na cópia do DNA -os quais denominamos mutações- podem explicar a evolução das espécies, selecionando os mais adaptados e com maior capacidade reprodutiva.
HEREDITÁRIO
O desafio seguinte era determinar o número de genes de um humano e quais são as sequências de DNA que codificam proteínas e que são responsáveis por nossas características hereditárias. Essas foram as questões que motivaram o lançamento do Projeto Genoma Humano.
A missão, gigantesca, envolveu vários laboratórios no mundo todo, inicialmente sob a direção de James Watson -ele, porém, se desentendeu com outros cientistas, e o comando da pesquisa passou a ser dividido entre dois americanos, o geneticista Francis Collins e o bioquímico Craig Venter, que concluíram o trabalho em 13 anos, dois a menos do que o previsto, o que levou à coincidência com o cinquentenário da dupla hélice.
No começo da pesquisa, apostava-se que deveríamos ter entre 100 mil e 150 mil genes. Em 2003, quando o sequenciamento foi terminado (na verdade, praticamente terminado: 99% dele se concluiu, pois novos genes continuam sendo identificados até hoje), que decepção: com pouco mais de 20 mil genes, perdemos até do tomate, que tem 31 mil.
Como explicar, então, a nossa imensa complexidade? A busca por essa resposta levaria à era da epigenética, a ciência que estuda as variações e os fatores responsáveis por regular a expressão dos nossos genes -ligando-os e desligando-os, mas sem alterá-los.
De acordo com os resultados de outro projeto gigantesco, o Encode, publicados em 2012, teríamos no nosso DNA cerca de 4 milhões de sequências capazes de modificar a expressão dos genes. Embora ainda a confirmar, os dados ao menos resgatam a nossa dignidade diante do fruto do tomateiro.
O primeiro genoma humano a ser sequenciado, numa operação que custou cerca de US$ 3 bilhões em 2003, foi o de Craig Venter. O seguinte foi o de James Watson, cinco anos depois, a um custo de US$ 1 milhão -descobriu-se que Jim -hoje com 85 anos- tem várias mutações que podem aumentar seu risco de desenvolver certas doenças de início tardio. Mas, na realidade, ninguém sabe ao certo qual é a probabilidade de que isso ainda venha a ocorrer.
Por poucos milhares de dólares hoje podemos sequenciar o genoma de um indivíduo. A queda no valor vem aumentando o interesse das pessoas pelo sequenciamento, mas sabemos que, cada vez mais, encontraremos alterações inesperadas ou de difícil interpretação em pessoas mais jovens.
Essa incerteza foi um dos motivos que nos levaram a iniciar, na Universidade de São Paulo, o projeto 80mais, no qual estamos sequenciando os genomas de pessoas saudáveis com mais de 80 anos (interessados em participar como voluntários podem se candidatar pelo e-mail 80mais@gmail.com). Elas poderão nos ajudar a interpretar se mutações/alterações ainda não descritas encontradas no DNA de pessoas mais jovens aumentam realmente o seu risco de desenvolver doenças no futuro.
O caminho aberto por Crick e Watson há mais de 60 anos possibilitou todos esses avanços. É pena, porém, que o comportamento recente do autor de "A Dupla Hélice" tenha se mostrado desastroso, indo de comentários racistas em 2007 (que geraram enormes críticas e o cancelamento de palestras em retaliação) até uma inacreditável proposta de eugenia-segundo Watson, a burrice seria genética, e os embriões deveriam ser selecionados de forma a favorecer a inteligência. Se ele fosse ouvido e uma ideia dessas fosse levada a cabo, poderíamos nos perguntar se alguém como Albert Einstein teria sido selecionado.
Melhor lembrar de quando, ainda que tardiamente, Watson foi capaz de reconhecer, no fim de "A Dupla Hélice", a importância das pesquisas de Rosalind Franklin (ou Rosy, como a chama) para a descoberta da estrutura do DNA.
Segundo o autor, somente com anos de atraso em relação às pesquisas, ele e seus colegas puderam se dar conta das "batalhas que uma mulher inteligente enfrenta para ser aceita por um mundo científico que com frequência enxerga as mulheres como meras distrações do pensamento sério".
MAYANA ZATZ, 66, é professora titular de genética e diretora do Centro do Genoma Humano e Células-tronco da USP. É autora do livro "GenÉtica: Escolhas que Nossos Avós Não Faziam" (Globo Livros). 

Ética do cuidado - Vampré e Fulgencio

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LYGIA VAMPRÉ HUMBERG E LEOPOLDO FULGENCIO
Ética do cuidado
Programas voltados ao cuidado com a primeira infância seriam mais eficazes no combate ao crack do que as campanhas em vigor
Sucessivas ações de combate à epidemia de crack têm acumulado derrotas no decorrer dos anos.
Especialistas e leigos reconhecem a profundidade do problema e a insalubridade a que se submetem os dependentes químicos.
Até o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, em 2011, apresentou-se como protagonista do documentário "Quebrando o Tabu", reconhecendo a urgência de uma ação mitigadora.
Muito investimento financeiro e afetivo e, o que é pior, muitas vidas são ceifadas. A prevenção, em geral, aparece na forma de campanhas dedicadas a mostrar os malefícios da droga (como se os usuários não soubessem, a cada uso, de seu poder corrosivo), ou na forma de práticas repressivas, sob o lema da "tolerância zero!". A experiência mostra, porém, que a repressão, ainda que não possa deixar de existir, não tem logrado vitórias.
O problema fundamental, que deveria ser o foco de qualquer ação preventiva, mas não é, concentra-se no motivo pela qual alguns seres humanos procuram e ficam dependentes das drogas. A resposta padrão dá conta de que a droga fornece prazer imediato. Basta um olhar um pouco mais demorado para que se note que, principalmente nos casos de dependência patológica, não é o prazer que dá as cartas.
É certo que o uso de substâncias alteradoras dos estados de consciência faz parte dos hábitos humanos. Mas é o uso patológico e destrutivo, a escravidão à droga, que está em questão. Onde poderíamos encontrar a gênese dessa patologia?
Psicanalistas como Donald Winnicott e Joyce McDougall propuseram a hipótese de que as drogas são uma tentativa do indivíduo de encontrar-se a "simesmo" ("self"), ainda que, paradoxalmente, elas desintegrem o corpo e a vida.
Para nós, as drogas são uma tentativa fadada ao fracasso, uma vez que não fornece duradouramente a integração procurada. Trata-se de uma solução, além de efêmera, externa para um problema interno!
A origem das adições deve ser buscada na primeira infância, não propriamente localizada em algum trauma, mas em situações que possam ter produzido quebras significativas no sentimento de ser e de continuar sendo. São elas que estão na origem das adições, como também na de outros distúrbios mais graves, como a psicose e a atitude antissocial (ainda que fatores constitucionais possam contribuir, como uma série complementar, para a instalação dessas patologias).
Se houvesse programas voltados para os cuidados com as mães e o ambiente de sustentação da primeira infância, ou seja, o fornecimento de ambientes humanos confiáveis, estáveis e previsíveis, atendendo às necessidades básicas de comida e contato afetivo, isso nos levaria à constituição de pessoas eticamente mais estruturadas. Uma ética do cuidado produzindo seres humanos que cuidam de "simesmos" ("selves") e dos outros.
Não é vaga a afirmação de Winnicott segundo a qual é no brincar (infantil ou adulto) que o ser humano encontra a "simesmo". Esse brincar, mais do que uma ação que faz rir, corresponde a uma atividade criativa, individual ou coletiva, na qual o ser humano encontra tanto a "simesmo" quanto, no brincar compartilhado, os outros; tal como ocorreria na vida cultural saudável, que nada mais seria do que o brincar do adulto.
A constituição de ambientes de sustentação da infância, nessa perspectiva de compreensão do desenvolvimento emocional dos seres humano, seria uma atitude preventiva que, como se diz, poderia cortar o mal pela raiz. Programas sociais com esse objetivo seriam mais eficazes e menos custosos do que os bilhões que têm sido gastos com as propagandas de conscientização e com as atividades de repressão.

Carlos Heitor Cony

folha de são paulo
Mania de perseguição
RIO DE JANEIRO - De uns tempos para cá ocorre comigo um fato curioso: encontrar amigos ou conhecidos nas mais disparatadas ocasiões e nos mais inusitados lugares. Como que um Frestão me acompanha os passos, transformando carregadores de aeroportos em ministros de Estado, motoristas em poetas, camelôs em colunistas sociais.
Isso vem de repente. E dou de cara, por exemplo, com o Ferreira Gullar, descabelado e magro como o próprio, vendendo boletos de metrô em Buenos Aires. Aliás, em recente estada na capital argentina, tive um infindável e divertido desfile de amigos ou conhecidos que me acompanhavam pelas calles e me aliviavam a solidão.
Vi Ruy Castro passar de moto pela avenida de Maio; vi José Wilker fazendo empanadas numa empanaderia de Lavalle. Paulo Coelho era um cidadão calmo na fila de ônibus de Corrientes e Marcos Vinicios Vilaça tocava bandoneon numa orquestra de "moços cantores" da calle Maipu.
Dei de cara com Angeli de cicerone com Ziraldo. Era uma gentil mistura de Genoino, Maluf e Joaquim Barbosa. O Silvio Santos vendia fiambres na esquina de Tucumã com San Martin.
Vi o mestre Evanildo Bechara metido numa farda de suboficial da impávida guarda bonaerense, com apito, revólver, botas, esporas.
-- Mestre, o que faz aqui com este uniforme?
O mestre ordenou: "Circule, señor, circule!"
Quis abraçá-lo, ele meteu o apito na boca. Apareceram soldados. Pedi desculpas num dialeto em que entraram os poucos e mal sabidos idiomas que conheço e, antes que o negócio engrossasse, entrei num teatro.
Ao olhar para o palco, estanco lívido: no tablado fazendo um barulho infernal com os tacões dos sapatos, quebrando castanholas com os braços em arco, de costeletas fatais, olhar duro de quem enfrenta um touro --o nosso recente cardeal Tempesta dançava um fandango!

    Helio Schwartsman

    folha de são paulo
    Tribos morais
    SÃO PAULO - O filósofo e psicólogo Joshua Greene publicou um livro que é ao mesmo tempo importante, ambicioso e gostoso de ler. Trata-se de "Moral Tribes" (tribos morais).
    Para Greene, que é diretor do laboratório de cognição moral de Harvard, a evolução nos equipou relativamente bem para lidar com o problema do antagonismo entre nossos interesses individuais e a necessidade de cooperação. Viemos de fábrica com um sistema automático, isto é, uma série de sentimentos como empatia, vergonha, gratidão, vingança, indignação, que conseguem operar o pequeno milagre de fazer com que sejamos suficientemente egoístas para sobreviver e coletivistas o bastante para prosperar como grupo.
    O problema é que esse sistema automático funcionava bem quando vivíamos em tribos pequenas, homogêneas e conhecíamos cada pessoa com quem interagíamos. No mundo moderno, em que habitamos megalópoles em que convivemos com gente dos mais diversos backgrounds culturais, esse equipamento moral intuitivo vira fonte de desavenças.
    Qual moral devemos aplicar para decidir, por exemplo, sobre o casamento gay? A que diz que isso é um pecado ou a que proclama que adultos capazes fazem o que querem desde que não prejudiquem terceiros? É o que Greene chama de tragédia da moralidade do senso comum. O choque entre diferentes morais incompatíveis está por trás não só das grandes polêmicas da atualidade como de conflitos reais e do terrorismo.
    Para o autor, a melhor chance de nos entendermos é encontrar uma metamoralidade que nos permita ao menos avaliar esses assuntos sob um prisma comum. Segundo ele, só quem pode pretender essa universalidade é o utilitarismo. A maximização da felicidade e a redução do sofrimento é o que de mais perto há de um valor por todos compartilhado. É aqui que o livro de Greene vai ficando mais polêmico, e os problemas filosóficos levantados, mais complexos.