domingo, 2 de março de 2014

Descaracterizou, todo mundo no bloco hoje só quer pegar mulher

folha de são paulo
ALEGORIAS
Crônicas da folia - GREGORIO DUVIVIER
Hipster de bloco
O Carnaval tá tão descaracterizado que acho que vai dar volta. E recaracterizar
Esse bloco já foi bom. Isso era antes do pessoal começar a chegar. A playboyzada estragou esse bloco. Os coxinhas arruinaram o carnaval.
Não, eu não sou hipster. Eu era hispter, antes de todo o mundo virar hipster. Hoje em dia ser hipster é coisa de coxinha.
Igual esse bloco aqui. Eu gostava antes de virar modinha. Só vinha o pessoal do bairro, mesmo. Aí saiu no jornal. Hoje em dia descaracterizou. Não, eu nunca fui do bairro.
Mas é diferente. Eu, pelo menos, sou do Rio. Nascido e criado. Esse pessoal vem de Goiás. Isso é que descaracteriza: quando vem gente de outro Estado. Aí é que vira micareta.
Antigamente era família, tinha muita criança. O objetivo era se divertir. Não, eu sempre vim com o objetivo de pegar mulher. Mas eu era uma exceção. Essa é que era a graça.
Hoje em dia descaracterizou: todo o mundo vem com o objetivo de pegar mulher. Isso é que não pode. Assim eu sou só mais um cara com o objetivo de pegar mulher. E a mulher que é bom já não vem mais.
Mulher não gosta de lugar em que tá todo mundo a fim de pegar ela. Vai entender. Mulher gosta de acreditar que as pessoas têm outro objetivo na vida. Outro dia vi uma mulher linda de costas. Cheguei junto e era um goiano.
Por isso é que eu prefiro festa junina. A festa junina é o novo Carnaval. Se bem que tá começando a ficar mainstream demais. Acho que este ano vai descaracterizar. Vou ter que voltar a frequentar o Carnaval.
Ano que vem o Carnaval vai estar tão descaracterizado que eu to achando que vai dar a volta. E vai recaracterizar.

    Sem representação política, é impossível resolver protestos - Sara Burke

    ENTREVISTA - SARA BURKE
    Sem representação política, é impossível resolver protestos
    Demandas por justiça econômica e democracia real caminham juntas, diz autora de estudo sobre manifestações em 87 países
    MARCELO LEITEDE SÃO PAULOGovernos dos mais variados países estão fracassando no atendimento das necessidades de suas populações e no combate às desigualdades. "A captura generalizada de processos governamentais por elites é tão dominante que elas não se veem compelidas a distribuir a riqueza", diagnostica Sara Burke, analista política da Fundação Friedrich Ebert, ligada ao Partido Social-Democrata alemão (SPD), em Nova York.
    Burke é coautora, com Isabel Ortiz, Mohamed Berrada e Hernán Cortés, do relatório "Protestos Mundiais 2006-2013" (http://policydialogue.org/files/publications/World_Protests_2006-2013-Final.pdf), da FES e da Universidade Columbia, que mapeou 843 eventos de contestação em 87 países. A maior parte (488, ou 58%) se batia por justiça econômica e contra medidas de austeridade.
    Seu auge se deu a partir de 2010, após a crise financeira de 2008-2009. Contudo, a solução para essas demandas, diz ela, não depende tanto da retomada do crescimento quanto de avanços na representação política, de uma "democracia real" que dê voz e ouvidos, de fato, à maioria.
    Leia os principais trechos da entrevista, feita por e-mail.
    Folha - O relatório indica protestos por justiça global como o grupo de demandas que mais crescia em 2013. Seria equivocado presumir que eles arrefeceram desde então?
    Sara Burke - Estamos todos muito atentos a Ucrânia, Venezuela, Tailândia, Egito e alhures, onde nacionalismos de vários tipos claramente desempenham papel enorme. Isso poderia nos levar a perguntar se os protestos organizados globalmente estão arrefecendo, mas nada posso dizer de definitivo sobre isso.
    Lembre que um episódio de protesto é em geral muito mais que um comício ou uma marcha isolados. Com mais frequência, é um processo corrente e quase invisível de organização, construção de redes, produção de visões estratégicas e decisões que então se expressam em um dramático evento de protesto.
    Os protestos na Ucrânia e na Venezuela não parecem nascer de queixas e demandas por justiça econômica ou contra austeridade, mas antes da segunda razão mais comum em seu levantamento, o fracasso da representação política. No Brasil, os protestos começaram com a tarifa dos ônibus e se tornaram mais e mais políticos, contra a corrupção. Há aí uma tendência?
    É importante entender a relação entre o fracasso de governos em providenciar o que as pessoas precisam da economia --empregos com salários que permitam sobreviver, serviços públicos essenciais, impostos justos e alimentos, combustíveis e moradias a preços módicos-- e a necessidade de serem de fato ouvidas sobre como e para quem as decisões econômicas são tomadas.
    Sem representação política que possa ser responsabilizada --ou seja, participação democrática e limites ao poder das elites--, é impossível resolver o grande acervo de demandas econômicas que leva as pessoas a protestar.
    Isso vale para a Ucrânia?
    Uma das razões pelas quais [Viktor] Yanukovich não assinou acordos com a Europa em novembro é que ele não se dispunha a implementar o que seriam medidas dolorosas e outras reformas exigidas pelo FMI em troca de empréstimos. Ele não queria impor a austeridade --não porque fosse um cara legal, mas porque isso enfureceria a população. Ele se voltou então para a oferta de ajuda da Rússia e isso também enfureceu as pessoas. Por quê?
    Veja, não é uma alternativa do tipo "problema econômico ou crise política": é todo o sistema político e econômico que não responde às necessidades das pessoas. No estudo encontramos isso em todos os tipos de regimes políticos, dos autoritários, como o da Ucrânia, às democracias representativas, velhas e novas.
    Pelo menos na Ucrânia, o que começou como protesto degenerou em conflito próximo de uma guerra civil, como na Síria. O Egito viu sua primavera retroceder ao inverno do antigo regime. É como se faltasse impulso, ou organização, aos movimentos de base para derrubar de vez o regime. Há exemplos para contradizer essa conclusão pessimista?
    Um dos grandes desafios para os movimentos de protesto é como obter sucesso nos seus objetivos mais ambiciosos, como criar uma estratégia para chegar a uma transformação duradoura e sustentável. Isso fica mais complicado --na Ucrânia e na Venezuela, como na Síria"" com o fato de as potências externas usarem o confronto local para praticarem suas guerras por procuração.
    Qual foi o real significado das declarações de Victoria Nuland [subsecretária de Estado dos EUA] que foram vazadas? Dizer "foda-se a União Europeia"? Será que o significado não foi que sua conversa com o embaixador americano na Ucrânia revelava o quanto o governo dos EUA tentava direcionar os protestos para seus objetivos, para aquilo que alguns alegam ser um golpe contra um presidente eleito, e não para uma solução democrática?
    Pode-se argumentar que as medidas de austeridade foram, de algum modo, assimiladas desde 2011 e perderam apelo para protestos. Não houve os desastres esperados em Portugal, na Grécia ou na Espanha. A Europa está mal, mas não mais em crise aguda, os EUA retomaram o rumo do crescimento e a China parece estar tomando a trilha do crescimento mais lento sem distúrbios sociais. Estamos a caminho de uma normalização dos protestos pelo globo?
    Os protestos antiausteridade na Europa foram maciços, mas muitos deles liderados por atores políticos tradicionais --como grandes confederações sindicais na Espanha, na Grécia e na Itália, que têm tantos vínculos com partidos desacreditados que elas mesmas se tornam inconfiáveis. Além disso, não houve virtualmente nenhum ganho com esses protestos; portanto eu diria que elas ""e não necessariamente a própria austeridade"" perderam apelo.
    E, embora seja consenso entre os "oráculos" da finança que a Europa e em especial os EUA retomam o crescimento, quem se beneficia dessa recuperação? Nos EUA, dados recentes mostram que o 1% superior de renda capturou 95% dos ganhos dos primeiros anos de recuperação da crise econômica recente!
    É consenso entre esses oráculos da finança que estamos numa nova era de volatilidade econômica global e precisamos nos acostumar. O 1% se preparou para ela sufocando a regulação e criando precedentes para socializar os resultados das crises enquanto privatizam os ganhos.
    "Democracia real", como categoria isolada, é a demanda mais prevalente nos protestos (26% dos casos). Isso implica reconhecer que procedimentos democráticos formais, como eleições livres e Judiciário independente, não bastam para acarretar justiça social?
    Por razões inteiramente coerentes com os achados sobre as principais queixas das pessoas, os maiores alvos dos protestos são "o governo" (usualmente os governos nacionais) e "o sistema" (o sistema político-econômico no qual o governo opera). Mas veja o que vem depois: corporações, FMI, elites, União Europeia, finanças, Banco Central Europeu, corporações armadas e livre-comércio!
    Essa lista (ver tabela nesta página) revela um nexo perturbador entre governos que fracassam em representar populações e elites privadas corporativas e financeiras que contornam processos políticos para exercer influência, assim como instituições financeiras internacionais promotoras de políticas que espicaçam as populações e as forças militares e policiais que as reprimem quando se agitam --todos vistos, sob a óptica de manifestantes, como cúmplices da manutenção de um sistema econômico que produz e reproduz desigualdade e privação.
    Muitos protestos que nascem da insatisfação com a falta de progresso na redução de desigualdades originam movimentos com pouco foco, cujas demandas abrangem coisas demais, numa época de limitações fiscais, e que tendem a conseguir pouco ou nada e depois arrefecem. Seria uma boa explicação para o fato de 63% de todos os protestos terminarem em fracassos?
    O Brasil fez progressos históricos contra a desigualdade, mas não foi o suficiente para satisfazer a necessidade de serviços públicos e custo de vida adequados nem suas aspirações por mobilidade real. Como afirmamos no estudo, as políticas necessárias para enfrentar as insatisfações são tão numerosas e inter-relacionadas que ultrapassam a capacidade dos arranjos políticos existentes.
    A questão não é vivermos sob limitações fiscais, mas numa era em que a captura generalizada de processos governamentais por elites é tão dominante que elas não se veem compelidas a distribuir a riqueza. Falta disposição para taxar aqueles que mais facilmente podem pagar e usar essa receita para financiar necessidades sociais.

      Helio Schwartsman

      folha de são paulo
      Berço e destino
      SÃO PAULO - Num livro que está dando o que falar, o economista Gregory Clark sustenta que a mobilidade social é bem menor do que suspeitávamos e que isso vale tanto para a politicamente correta Suécia como para a Índia das castas. As implicações dessa tese, como o leitor pode suspeitar, são profundas, trazendo elementos para repensar quase tudo, desde políticas tributárias até a noção de meritocracia, passando pelas ações afirmativas.
      Em "The Son Also Rises", Clark introduz um novo método de aferir mudanças sociais. Em vez de avaliar o que ocorre de uma geração para a outra, como fazem as técnicas convencionais, preferiu olhar o longo prazo. Valendo-se de sobrenomes e de bases de dados que permitem averiguar o perfil socioeconômico de seus portadores, pôde verificar o que ocorre ao longo dos séculos. A vantagem dessa lente é que ela é menos sensível a variações ditadas pelo acaso, como o filho do empresário que preferiu ser artista ou o jovem pobre especialmente talentoso.
      A boa notícia é que a tendência geral é de convergência. As elites tendem a tornar-se menos poderosas e as classes populares tendem a melhorar. A má é que essa regressão à média ocorre em horizontes dilatados, que variam de 300 a 450 anos. Medidas fortes como educação gratuita e compulsória, impostos progressivos, cotas e mesmo eventos históricos como as revoluções científica e industrial não parecem ter alterado dramaticamente esse quadro.
      Boa parte do livro é dedicada à exposição técnica e metódica dos dados coletados em oito países bastante diversos, o que torna a leitura até meio aborrecida. Mas Clark reserva capítulos para detalhar suas hipóteses, que se apoiam bastante na biologia, e discutir o que elas significam. Vamos ver se seus cálculos sobrevivem às críticas metodológicas que fatalmente virão. Ainda levaremos algum tempo para digerir isso tudo. É um livro polêmico e parece sólido.

        Carlos Heitor Cony

        folha de são paulo
        Momento da verdade
        RIO DE JANEIRO - Mais um Carnaval, estamos aí, quer dizer, eu não estou com nada e em nada, muito menos nesse "aí" genérico e abstrato. Na verdade, se todos estão aí, eu prefiro estar ali --e vice-versa. O Carnaval não me repugna, como a tantos outros, mas não me deslumbra.
        Já fiz esforço para gostar, apelei para complicadas razões --não deu. Do ponto de vista pessoal, guardo minhas lembranças, boas algumas, outras detestáveis, mas nenhuma que tenha entrado fundo e marcado um momento, definido uma emoção. Sim, houve um fato capital, que determinou tudo: foi num antigo baile aqui no Rio, num clube que atendia pelo nome de "High Life".
        Eu havia saído do seminário há pouco e no primeiro Carnaval decidi não brincar. Embora usasse roupas leigas, eu ainda sentia o peso da batina sobre a minha carne, o cheiro do incenso em meus cabelos.
        Passei o primeiro Carnaval numa praia, com minha mãe e irmãos, e da folia mesmo, só vi alguns blocos de sujo. Mas no terceiro ou quarto Carnaval, naquilo que lá no seminário a gente chamava de "mundo", topei o convite de uma namorada, fui parar no tal baile.
        Por sinal, um baile famoso na época. Diziam que ali, de ano para ano, valia tudo e valia cada vez mais. No fundo, sabia não valer nada. Cometia séria concessão ao Carnaval indo a um baile, mas não entregava o ouro ao bandido: recusei qualquer tipo de fantasia. Meti-me numas calças brancas, camisa de seda branca.
        No meio da folia, agarrado na namorada, deparei-me com enorme espelho, que ia do teto ao chão. E lá no espelho, vi um camarada com uma cara sórdida, olhos injetados de álcool e suor, repelente, medonho. Incomodado, quis tirar satisfação. Ele fez o mesmo. Descobri que ele era eu, eu era ele.
        Culpa do espelho, do Carnaval e da má argila da qual são feitos homens, demônios e foliões.

        Benjamin Moser

        folha de são paulo
        Digitais e implacáveis
        Nos arquivos de Susan Sontag
        Hoje, as cartas em papel são para ocasiões especiais, e o fato de enviar uma carta já revela coisas sobre o remetente. (Com frequência, sua idade avançada)
        BENJAMIN MOSER
        RESUMO
        Biógrafo de Clarice Lispector relata visita aos arquivos da escritora Susan Sontag (1933-2004), conservados na Universidade da Califórnia. A partir da experiência, reflete não só sobre os "restos literários" de sua próxima biografada mas também sobre as peculiaridades do trabalho de pesquisador na era digital.
        -
        Ao longo da vida, Susan Sontag encheu seus diários com listas de palavras ("tegumento", "fedora de aba caída", "mingau", "mofa") que encontrava em suas leituras e viagens. Essas listas e os diários que as contêm podem ser consultadas, em grande medida, do mesmo modo como pesquisadores sempre consultaram arquivos literários: indo à biblioteca onde estejam -no caso, o Departamento de Coleções Especiais da Biblioteca de Pesquisas Charles E. Young, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA)-, preenchendo alguns formulários e aguardando enquanto o encarregado busca o desiderato nas estantes.
        Uma expressão brasileira faz logo sentido para qualquer um que já tenha pesquisado uma coleção tão vasta quanto a de Sontag:
        "arquivos implacáveis".
        Quando cheguei a Los Angeles, no início de janeiro, para trabalhar na biografia de Sontag que estou escrevendo, imaginei que três meses seriam mais que suficientes. Ao longo dos dois últimos anos, li a obra dela e viajei, principalmente pela Europa e pela América Latina, a fim de encontrar as pessoas que possam me ajudar a reconstruir seu eu implacável.
        É difícil -impossível- pensar em um escritor norte-americano importante do século 20 com uma vida tão internacional quanto a de Susan Sontag. Mesmo os expatriados famosos de gerações anteriores tendiam a se fixar em destinos bastante comuns, como Londres, Paris ou Roma. Londres, Paris e Roma eram importantes para
        Sontag, mas São Paulo, Estocolmo e Sarajevo também.
        Na maioria desses lugares, alguns dias ou uma semana bastavam. O tempo de que eu dispunha em Los Angeles parecia um verdadeiro luxo. Mas os arquivos são
        tão vastos que já perdi a esperança de algum dia poder examinar tudo: centenas de caixas com pedaços de papel, fotos, diários, faturas de hotel, programas de ópera, cartas de amor, rascunhos de manuscritos (em muitos casos, inéditos) -materiais que emocionam quem os tem em mãos e que revelam coisas que às vezes só um documento original pode expressar.
        É possível ver na caligrafia de Sontag, de uma forma como nunca o permitiria uma carta datilografada, o modo febril com que ela, pouco após completar 40 anos, lidando com o diagnóstico que lhe apontou a finitude da própria vida, esboçou as meditações sobre o câncer que se tornariam "Doença como Metáfora", e com que cuidado, entre as mesmas páginas, guardou as receitas que seu médico em Paris escreveu para um tratamento de quimioterapia então impensável nos Estados Unidos. Ela não tinha como saber, enquanto escrevia o livro, que os medicamentos nessas listas, rabiscadas entre seus escritos, a salvariam.
        Mesmo quando lemos sobre temas menos carregados, há algo de melancólico nessa proximidade com uma pessoa que existiu e não existe mais. Essas coleções eram conhecidas, em tempos passados, como "restos literários": após uma vida escrevendo, o que resta é isso.
        Ou era.
        Um escritor da geração de Sontag -ela nasceu em 1933- trabalhou a maior parte de sua vida sobre papel. As cartas de Sontag são cartas reais; seus livros foram escritos usando caneta e máquina de escrever. Mas, quando ela morreu, em 2004, esses papéis já estavam rapidamente se convertendo em "restos". Hoje, enviar uma carta, diferentemente do que há 20 anos, quase equivale a fazer uma declaração de princípios: como os telegramas, as cartas em papel geralmente se reservam a ocasiões especiais e o mero fato de enviar uma carta já revela coisas sobre o remetente que em outra época não teria revelado. (Com frequência, sua idade avançada.)
        GUARDIÕES
        A explosão de material digital nos últimos 25 anos cria um desafio especial para os guardiões dos restos literários.
        Recentemente penetrei nos recônditos da biblioteca de pesquisas da UCLA para conversar com Gloria Gonzalez, uma moça de 24 anos, natural do Mississippi. Gonzalez se viu na dianteira do movimento para preservar estes materiais desde que, ainda estudante, começou a lidar com os arquivos de Sontag. Enquanto eu conversava com ela, minhas anotações começaram a se parecer com as da própria Susan Sontag, linhas cheias de palavras pouco familiares, que definiam um mundo novo para mim; "bit rot", "software forense", "write blocker".
        "Na verdade, não é tão novo assim", Gonzalez me disse. "As pessoas usam e-mail há 20 anos. Mas é novo em arquivos. Não é comum universidades procurarem esse tipo de material."
        O material, propriamente dito, consiste em dois pequenos discos rígidos, cada um rotulado com um post-it, que Gonzalez me mostrou em um cubículo localizado atrás da sala dedicada às coleções especiais. "São objetos físicos", disse Gonzalez -e, nesse sentido, não são diferentes dos livros e manuscritos que bibliotecários sempre colecionaram e conservaram.
        Esses objetos, porém, são muito mais vulneráveis do que um livro tradicional. São ameaçados pelo "bit rot", aquilo que acontece quando os zeros e uns em que os dados digitais são gravados se confundem misteriosamente; por certos equipamentos de armazenagem instáveis (drives USB, por exemplo); e pela ameaça mais grave da obsolescência tecnológica.
        Enquanto ela me mostrava, na Wikipedia, fotos dos computadores que Sontag usou -um PowerBook 5300, o mesmo computador que minha mãe me deu quando entrei na faculdade, um PowerMac G4 e um iBook- tive sensação igual à de quando compramos um computador ou celular novo: aquele ligeiro encabulamento que nos alcança quando nos damos conta de que o objeto que alguns meses antes parecia ultramoderno ficou pateticamente ultrapassado.
        Mas as máquinas em si não estão na biblioteca: pesquisadores futuros vão poder consultar os materiais em um laptop na sala de leitura, usando um software que os mostrará do modo como Sontag os teria visto. Isso é feito para proteger os arquivos físicos. "Cada vez que você abre um e-mail ou um arquivo do Word, o material é modificado", disse Gonzalez. "Há atualizações automáticas, ou -por exemplo, em um arquivo do Word- a data muda para a data em que o arquivo foi consultado, e você não pode ver quando foi a última vez em que ela trabalhou nele." (Em "Ensaios sobre a Fotografia", Sontag escreveu que tão somente olhar para alguma coisa já significa modificá-la.)
        Para preservar os arquivos, Gonzalez recorre a técnicas desenvolvidas pelo setor policial, uma área conhecida como análise forense computacional. A principal proteção dos metadados de um computador é um "write blocker", que permite que o material seja visto sem deixar qualquer rastro do visitante. É uma intervenção técnica simples. A principal ameaça vem das pessoas que simplesmente descartam computadores velhos, desconhecendo seu valor.
        MAL-ESTAR
        Sontag escreveu 17.198 mensagens de e-mail, que em breve estarão disponíveis para consulta num laptop especial. Eu tive a oportunidade especial de vê-los na biblioteca, e a experiência me provocou um mal-estar que eu nunca antes tinha sentido em anos de pesquisas históricas.
        Qualquer biógrafo conhece o constrangimento, que ocasionalmente beira a náusea, provocado pela pesquisa extensa sobre a vida de outra pessoa. Nunca conheci Sontag ou Clarice Lispector, tema de meu livro anterior. Mas, após anos de pesquisas, entrevistas, leituras e viagens, provavelmente sei mais sobre as duas que qualquer pessoa que não tenha feito parte de seu círculo mais íntimo. Sei de sua vida sexual, de suas finanças, conheço seu prontuário médico e seus fracassos profissionais, as dificuldades que tinham com pais e filhos, os segredos dolorosos que elas tão desesperadamente queriam manter ocultos.
        Mesmo sem tais dificuldades, que fazem parte de toda e qualquer vida, também a forma impõe escolhas. Assim como a história não é o passado propriamente dito, mas um relato do passado, a biografia não é uma vida, mas a história de uma vida. Do mesmo modo como um romancista fica conhecendo seus personagens, também um biógrafo fica conhecendo os dele, e, diante do caos de uma vida inteira, sabe que qualquer coisa que possa contar sobre o sujeito é apenas uma seleção pequena que cabe em uma narrativa escolhida de acordo com seus próprios gostos e interesses.
        O biógrafo também tem a consciência, sempre, de que sua posição, a qual necessariamente envolve julgamentos acerca do caráter de sua personagem e das escolhas que fez, é profundamente injusta, pela simples razão de que ela própria não pode ser consultada.
        Essas preocupações me são familiares e sempre as tenho em mente. Ainda assim, ler papéis e manuscritos é uma coisa. Vasculhar os e-mails de uma pessoa é outra coisa inteiramente diferente, e a sensação de estranheza e voyeurismo que me dominou quando eu estava sentado com Gonzalez disputou espaço com a curiosidade irrefreável que sinto com relação à vida de Sontag.
        Ler os e-mails de uma pessoa é vê-la pensando e falando em tempo real. Se a maioria dos e-mails não é interessante ("o carro a buscará às 7h30 se for ok beijos"), outros revelam qualidades inesperadas cuja descoberta é um deleite. (Quem poderia imaginar, por exemplo, que Sontag enviava e-mails com o título "E aí, o que rola?"). Vemos Sontag, que tinha tantos amigos, felicíssima por poder estar em contato com eles tão facilmente ("estou pegando a febre do e-mail!"); vemos a escritora insaciavelmente solitária buscando entrar em contato com pessoas que mal conhecia e convidando-as a fazer uma visita. Nas reações delas, percebemos sua perplexidade, como hesitavam em incomodar o ícone de reputação assustadora.
        Com os softwares hoje disponíveis, o biógrafo que se esforça para se colocar na posição de seu sujeito enfrenta novos dilemas. Uma das ferramentas mais interessantes usadas por Gonzalez é um programa chamado Muse, que pode fazer buscas em um banco de dados de e-mails e mapear os sentimentos do autor da correspondência com precisão espantosa. Podemos ver categorias como "médico", "irada" e "parabéns". Podemos ver, em um gráfico, a porcentagem de tempo em maio de 2001, por exemplo, em que Susan Sontag esteve feliz, triste ou incomodada.
        Enquanto eu me assombrava com essa tecnologia, me perguntei como me sentiria se alguém vasculhasse meus e-mails e revelasse que eu tinha proferido uma média de 321 observações mal-humoradas por ano e que meu índice semanal de tesão tinha variado entre 34,492% e 56,297%. Deveríamos realmente resumir e reduzir emoções e vidas humanas dessa maneira, simplesmente porque está a nosso alcance fazê-lo? Teria Susan Sontag desejado que sua vida fosse analisada desse jeito? Alguém o quereria?
        Sontag escreveu que as fotos dizem respeito ao que não mostram tanto quanto ao que mostram e que o que vemos depende de como o fotógrafo enquadra a cena. Seus diários revelam um apreço por estatísticas e fatos surpreendentes, mas o cerne moral de seus escritos (sobre a fotografia, a guerra, a política) está na insistência em afirmar que aquilo que vemos nem sempre é o que está ali.
        Hoje vivemos nossas vidas cada vez mais no computador. A quantidade de informação contida em nossos smartphones é muito maior do que Sontag poderia ter imaginado em sua vida, embora tenha morrido há menos de uma década. Quem acredita no valor da pesquisa histórica entende que cada vez mais "hard drives" como os preservados na biblioteca da UCLA serão onde essa pesquisa será feita. Mas revelarão mais sobre nossas vidas? Ou, ao mostrar demais, acabarão por revelar menos?
        Benjamin Moser, 37, é autor de "Clarice," (ed. Cosac Naify, 2009)

        Reinaldo José Lopes

        folha de são paulo
        Os ossos falam
        Livro do bioantropólogo Walter Neves explica como cientistas estimam a idade, o sexo e a dieta de pessoas que morreram há milhares de anos
        REINALDO JOSÉ LOPESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA
        Depois de passar três décadas estudando os principais esqueletos pré-históricos do Brasil, entre eles o da célebre "Luzia", o ser humano mais antigo das Américas (com mais de 11 mil anos), o bioantropólogo Walter Neves, da USP, decidiu que estava na hora de explicar como os cientistas conseguem dar voz à gente que morreu há milhares de anos.
        "A maioria dos livros de divulgação de antropologia mostra os resultados da pesquisa, mas eu queria mostrar como se chega a esses resultados", disse Neves à Folha.
        "Era o que as pessoas sempre me perguntavam: Mas peraí, como vocês sabem que fulano era homem, teve uma infecção, levou uma pancada?'. Existia uma demanda a esse respeito mesmo."
        O resultado é o livro "Um Esqueleto Incomoda Muita Gente...", publicado recentemente pela Editora Unicamp.
        O bioantropólogo criou uma espécie de beabá ilustrado de sua área. A partir dele, é possível ter uma ideia de como pesquisadores estimam a idade, o sexo, a dieta, as doenças e até as guerras que os seres humanos do passado enfrentavam.
        DOR NAS COSTAS
        Aliás, se o passado é um outro país, como diz o ditado, tudo indica que era um lugar onde pouca gente gostaria de fazer turismo.
        O livro mostra, entre outras coisas, como podia ser dolorida a vida antes do surgimento da medicina moderna: bocas tão desdentadas que os alvéolos (local de encaixe dos dentes) eram reabsorvidos, cirurgias no crânio feitas sem anestesia ou ossos das pernas permanentemente encurvados por doenças como a sífilis --não por acaso, um dos capítulos leva o título "Não tinha antibiótico".
        Esses e outros exemplos --o capítulo sobre violência pré-histórica se chama "O pau comia!", o que trata de alimentação é "A comilança"-- refletem o bom humor algo ferino com que Neves costuma tratar seu tema de estudo.
        "Eu acho o seguinte: posso não ser um bom cientista, mas sou um cientista popular. E eu me orgulho profundamente disso. Daí a vontade de quebrar esse gelo entre a academia e o público geral com o humor do livro", diz.
        Entre as ferramentas usadas pelos bioantropólogos, a obra só deixa de escanteio a atual explosão de dados de DNA --o que era de se esperar, já que Neves é um velho crítico dessas técnicas.
        "Continuo absolutamente cético quanto aos resultados da biologia molecular. A cada seis meses alguém apresenta uma evidência diferente. Ficamos quase 20 anos acreditando que não houve hibridização entre seres humanos modernos e neandertais e, out of the blue' [do nada], as mesmas pessoas que defendiam isso tiram da cartola um resultado que muda o cenário. As pessoas podiam ser humildes e ressaltar as limitações dessa abordagem."
        Ainda nessa veia polêmica, o livro critica o que Neves vê como "biofobia" da antropologia do país, excessivamente focada, para ele, nos aspectos culturais da condição humana.
        "Nossos antropólogos são formados sem ideia do processo evolutivo humano e de quando a mente moderna, por eles estudada, surgiu no planeta", escreve.
        UM ESQUELETO INCOMODA MUITA GENTE...
        AUTOR Walter Neves
        EDITORA Unicamp
        PREÇO R$ 30 (160 págs.)

        Marcelo Gleiser

        folha de são paulo
        A festa da imaginação
        Acabei virando cientista porque queria ter uma vida em que a imaginação não é aprisionada pelo bom senso
        Quando era garoto, costumava passar as férias de verão na casa dos meus avós, em Teresópolis, uma cidade na serra dos Órgãos, perto do Rio. Eram 80 km de viagem, os últimos 25 km atravessando montanhas, uma sequência espetacular de picos de granito.
        O Fusca do meu pai subia com muito esforço. Mas pouco me importava, e torcia mesmo para que o carro avançasse bem devagar. Assim, tinha mais tempo de olhar pela janela, acompanhando a incrível transformação do cenário, do caos urbano de Copacabana às montanhas sublimes, recortadas por centenas de milhões de anos de erosão, revestidas aqui e ali pela inigualável mata atlântica.
        Costumávamos parar na serra para comer e olhar as preguiças nas árvores vivendo em câmera lenta. Volta e meia, um bando de tucanos passava fazendo a maior algazarra.
        Para meus olhos de criança, a transformação da cidade em montanhas, dos prédios no majestoso Dedo de Deus, dos vasos de planta na explosão de orquídeas e bromélias, era algo de mágico.
        Talvez percebesse isso intuitivamente, mas sabia que para vivermos na cidade tínhamos de abrir mão da natureza; ou, o pouco que tínhamos dela era aprisionado: passarinhos na gaiola, árvores estranguladas pelo cimento das calçadas. Meu porteiro dizia que passarinho cego cantava melhor. Pode ser, mas é um canto sofrido, entoado pela melancolia.
        O Carnaval era sempre lá, na casa das montanhas. Minha família escapava do calor e do buchicho, e íamos nos bailes da tarde, as matinês, vestidos de pirata e de cowboy, pulando e marchando aos som da banda ao vivo. Era uma grande festa da imaginação, cada um sendo o que queria ser mas não podia.
        Crescer é perder a capacidade de imaginar que o imaginado é o real; é erguer cada vez mais a muralha entre a realidade e a imaginação, ficar sensato, esquecer de manter a mente aberta para contemplar o impossível.
        Nessas horas de nostalgia entendo por que acabei virando cientista. Queria ter uma vida em que a imaginação não é aprisionada pelo bom senso. É bem verdade que nenhuma criança pede para se fantasiar de Einstein ou de Santos Dumont. (Se bem que já saí com a Unidos da Tijuca vestido como o dito cujo.) Mas poderiam. Pois se um reinventou o que é o espaço e o tempo, o outro inventou como podemos voar.
        São exemplos de pessoas que cresceram se recusando a crescer, ao menos sem erguer uma muralha intransponível entre realidade e imaginação. Pelo contrário, mostraram que é possível transformar a realidade em algo aparentemente mágico usando justamente a imaginação.
        É esse o aspecto mais cativante da ciência, recriar o mundo. Imagino a cara do meu avô se me visse falando num iPhone, ele no Rio e eu em Teresópolis; ou se usasse o seu GPS para evitar o trânsito na avenida Brasil; ou se olhasse para o céu noturno e vislumbrasse satélites cruzando a escuridão; ou se visse imagens de mundos distantes, trazidas por telescópios espaciais.
        Que mundo mágico esse em que vivemos, hein, vô? E que pena que pouco ligamos para essa mágica toda ou paramos para refletir que ela vem justamente dessas pessoas que têm um compromisso aberto com a imaginação.